quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Uma resposta ao texto "Laranja Mecânica e o livre-arbítrio"

Bom, esse é um comentário ao texto moralista (portanto pobre, acho) de Flávio Paranhos na revista Ciência e Vida: Filosofia nº 31
=
Bom, o texto é sobre a questão do livre-arbítrio que o filme "Laranja Mecânica" coloca.
Ele inicia com uma breve descrição do filme e do livro, mas já me incomoda um bocado na hora de descrever a diferença entre os dois.
Ele diz sobre a decisão do editor americano de Laranja Mecânica e de Kubrick de terem retirado o último capítulo da obra de Burgess:
"Numa tacada genial, transformou um livro moralista (portanto pobre) num livro cínico (portanto rico)."

Como o autor do texto não explica (provavelmente pra evitar spoilers), eu explico (e, portanto, eis os spoilers):
O filme de Kubrick, como vocês galerinha moderna de óculos quadrado bem sabem, termina com Alex feliz da vida se livrando dos efeitos de sua lavagem cerebral, tão malvado quanto sempre foi, mostrando que o processo todo tinha sido fútil.
O livro vai um capítulo além e mostra que, embora o processo todo tenha sido fútil, Alex simplesmente se torna um adulto e deixa a vida de violência pra trás, se tornando um burguês comum e feliz da vida.

Agora, é interessante que um texto que invoque tanto Nietzsche não se furte em fazer uma divisão entre aquilo que é "pobre" (ou mau) e aquilo que é "rico" (ou bom).
Antes do juízo de valor apressado, seria interessante analisar as diferentes perspectivas pelas quais a obra se apresenta e eu tenho muitos problemas em acreditar que é o final de Burgess que é moralista ao invés do final de Kubrick, ainda mais dado o contexto histórico.
Defendo aqui que nenhuma das obras consegue escapar de um certo moralismo. Mas Burgess é um tipo de progressista enquanto Kubrick é perigosamente autoritário no seu suposto cinismo.

Na época em que o livro foi lançado, nos anos 60, havia um enorme medo da juventude que, perdendo seu compasso moral, se tornariam todos um bando de selvagens. Ambas as obras se ligam nisso e ambas as obras assinalam que ter cultura, uma família amorosa e um governo protetor em nada mudam o fato que Alex é um assassino e estuprador. A questão do livre-arbítrio já começa aí, antes de qualquer sala de cinema e remédios: A questão é se Alex é um produto do sistema? Sua violência não pode ser relacionada à ignorância, à uma relação mal resolvida com a família, ao abandono pelas instituições.
Isso significa que ele escolhe ser mal ou que existe algo na sua natureza que o impele a isso?
A obra de Burgess deixa essa questão em aberto; a de Kubrick aparentemente responde. Mas já chegamos lá.

Argumento aqui que a obra de Kubrick é mais conservadora que a Burgess pelo motivo de que a obra de Burgess inocenta o jovem assassino. Ele diz para o leitor britânico de 1962 "chill out! Essas crianças parecem descontroladas, mas é isso, elas são crianças. Elas são cruéis e perigosas e merecem levar um tapa na orelha, mas elas vão crescer. Não tenham medo dos jovens, eles não são o declínio da sociedade, são só diferentes".
A obra de Kubrick adota outra perspectiva, a obra de Kubrick diz: "Essas crianças vão estuprar sua esposa e cuidar delas (como fazem o padre e o político) é só ser apunhalado nas costas". O filme poderia ser uma propaganda para a pena de morte.

Enquanto a obra de Burgess apresenta que não só é desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, como também é estúpido porque, afinal, um dia todo mundo cresce e faz parte da sociedade; a obra de Kubrick dá a entender que, apesar de ser desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, pode bem ser a única escolha; basta a lavagem cerebral parar de fazer efeito, que mais uma vez temos um assassino estuprador em nossas mãos. Pior! Um assassino estuprador que usa as instituições políticas e a mídia para seu ganho próprio.
Repito: poderia ser uma propaganda para a pena de morte.
Se Alex não pode ser reabilitado e ele inevitavelmente será sempre um assassino; que outra escolha existe?
A obra de Burgess é muito mais liberal nesse sentido. É até ingênua na sua defesa da juventude: Alex não precisa ser reabilitado. Ele cresce. Ser um membro da sociedade é um corretivo muito mais eficiente que uma lavagem cerebral.
Essa é, aliás, a bandeira que os progressistas defendem em relação aos presidiários. Eles não precisam ser coagidos, precisam apenas ser introduzidos corretamente à sociedade.

Um segundo ponto em que as diferentes perspectivas divergem é que Burgess está firme em uma tradição literária Kierkegaardiana cujo problema básico da vida de um homem é quando ele deixa de ser uma criança e se torna um adulto.
O grande medo da sociedade dos anos 60 é que essas crianças não se tornariam adultos capazes de prosseguir com a civilização, pois estavam destruindo todas suas bases morais.
As obras dessa tradição geralmente partem de alguma premissa desse tipo: elas apresentam um jovem adulto que não aprendeu a crescer por qualquer motivo e que precisa, no decorrer da história, buscar desesperadamente tais fundamentos (geralmente porque se apaixona por uma mulher, mas não é o caso aqui) para poder sair do seu ciclo hedonista auto-destrutivo. É certamente moralista e conservador, mas conservador em um sentido não-reacionário.
É conservador no sentido em que os valores hedonistas dos jovens não são uma revolução, mas apenas uma fase a ser superada, permitindo ao jovem se tornar um membro da sociedade. Desse modo, tais valores também não são uma ameaça, portanto, não precisam ser combatidos por nenhum meio coercivo.

A obra de Kubrick, por outro lado, permanece adolescente.
O cinismo que Flávio põe como riqueza é um mero não-crescer. Isso não é um defeito moral desde que se mostra como o não-crescer não é um defeito moral. Isso não fica claro no filme; pelo contrário, o filme mostra um jovem que não cresce e que, portanto, se torna um parasita cruel das instituições: um estuprador assassino que é recompensado por ter sido pego no fogo cruzado de dois partidos políticos.
O próprio triunfalismo no fim do filme é algo adolescente. O único trunfo que o filme apresenta é o infantil prazer da criança que passou a perna nos adultos.
O homem traumatizado por Alex tê-lo forçado a assistir o estupro da esposa continua traumatizado (e é um homem que demonstrou, duas vezes, que se preocupa em ajudar os outros em momentos de necessidade). A mulher que Alex assassinou continua morta (e o seu crime parece ser de que era uma mulher de meia-idade independente e sem vergonha de sua sexualidade) e a sociedade não só não consegue nem punir Alex e nem reabilitá-lo (seja por meio do padre ou por meio da lavagem cerebral), como ainda sustenta suas contas hospitalares enquanto ele ri da cara de todos.
Certamente Alex tem sua vitória e o espectador a partilha, mas é, como já dito, uma vitória infantil. Nós torcemos por Alex pelo impulso burro de torcer por quem quer que seja o personagem principal. Fosse a história de um homem bondoso que teve sua casa invadida por uma gangue que estupra sua mulher enquanto o força a assistir ou fosse a história de uma mulher solteira de meia-idade que não vê problemas em ter esculturas e quadros eróticos em sua casa que é assassinada enquanto um homem a chama de "safada" e, bem, o que aconteceu com Alex não seria uma vitória, mas uma grande injustiça.

Ainda mais se adicionarmos um tema anteriormente citado (eu disse que já chegava lá)de que a questão de responsabilidade e livre-arbítrio permeia toda a obra.
Até o momento da lavagem cerebral, a impressão que temos é que toda ação de Alex é uma escolha livre.
Flávio chama Alex de "marginal" e nada poderia ser mais errado. Alex é branco, de classe média, com acesso à cultura, querido pelos seus pais e bem protegido pelo seu advogado.
Ele se torna um marginal após sair da prisão, mas até lá, nenhuma de suas ações podem ser ditas que são fruto de pobreza ou falta de cultura.
Se entendermos a falta de liberdade está relacionada a falta de condições materiais (e a obra não parece abordar um tal fatalismo biológico); então Alex de nenhuma forma foi forçado a realizar seus atos.
Ele escolhe ser um assassino e um estuprador por diversão; entenda, por escolha, não por necessidade material. Ele escolhe antagonizar a própria gangue; ele escolhe até, sendo líder da gangue, caminhar para sua armadilha (embora não soubesse que era uma armadilha, não teria acontecido se ele não tivesse concordado com o plano).
A obra de Burgess adiciona aí mais uma escolha: ele escolhe crescer, se tornar um adulto, fazer parte da sociedade.
A obra de Kubrick o priva dessa escolha sem motivos claros. Alex é mal porque é mal ou simplesmente porque é mais vantajoso ser assim do ponto de vista do hedonismo raso que guia todas suas ações?
De qualquer forma, na obra de Kubrick, Alex não tem escolha. Ele é um cara malvado e vai ser até que, enfim, eu já disse vezes demais que o filme poderia ser propaganda da pena de morte.
Talvez não tenha sido intenção de Burgess mostrar que todo jovem delinqüente se redime, mas certamente mostra que é possível a redenção até para o pior deles. A obra de Kubrick é uma obra sem redenção, é precisamente a bandeira de todos que advogam a pena de morte.
Guiados pelo sentimento compartilhado com o ator principal, temos a impressão que Alex passa a perna no sistema. Lendo os fatos no jornal ao invés de assistindo em uma obra de ficção e isso faria com que as pessoas logo demandassem um sistema mais autoritário e punitivo. O oposto da obra "moralista" e "fraca" de Burgess, que nos ensina a não temer até o pior dos jovens. Se um assassino estuprador como Alex não é uma ameaça para a sociedade, certamente não vai ser os Beatles e os Rolling Stones que a destruíram.
Isso não existe na obra de Kubrick. O sentimento de Kubrick é, como já dito, o sentimento adolescente. E sendo sentimento adolescente, falta futuro.

Esse é o último ponto que vou apontar nesse post:
O texto de Flávio anuncia orgulhosamente que o livre-arbítrio foi derrotado e cita Nietzsche ao dizer que ensinar o livre-arbítrio é um instinto de punir e julgar.
Isso significa que toda nossa moral determinada pela nossa crença no livre-arbítrio caiu. E o que fazemos agora?
Primeiro ele passa a resposta para um tal ignorante "homem comum" que acredita em Deus, aí ele entra no assunto do livre-arbítrio no plano da providência divína, passa pra Leibniz (acha em algum momento que não percebemos que ele está fugindo do tema) e depois de concluir que Leibniz falha na sua defesa do livre-arbítrio, passa pro "ateísmo biologista".
E daí ele inconclui uma determinação epistêmica e "somos portanto, responsáveis pelos nossos atos, sim senhor".
A lógica me escapa. Somos ignorantes, portanto responsáveis?
Vai ver eu tenho que ler mais Dennett pra entender esse raciocínio, mas me parece só uma maneira de fugir a pergunta.
Se não sabemos se temos livre arbítrio, então não sabemos se somos responsáveis. Dá pra contornar essa pergunta com o Searle, na minha opinião; dá pra postular uma realidade social em que o livre arbítrio exista. Mas o Dennett não admite isso, logo não dá pra concluir nossa responsabilidade. É mania dos "ateístas biologistas" de não levar a sério suas próprias teorias por terem medo demais de serem, de fato, anti-cristãos. Dennett tem um projeto político de fazer o ateísmo não parecer amedrontador pra sociedade (tal como o Burgess tem um projeto político de fazer a juventude dos anos 60 não parecer amedrontadora).
Se Dennett de fato defende nossa responsabilidade como Flávio dá a entender, então ele só faz isso porque seu modelo de sociedade é um exatamente igual o que existe hoje, com os mesmos valores, mas sem que ninguém acredite na mitologia cristã. Ele quer viver na cristandade sem que exista cristianismo. Se é possível ou não, é um tema mais complicado. Ilógico não é, resta saber se a realidade política suporta tal modelo.

Prosseguindo com esse último ponto. Assim como Flávio falha em dar qualquer tipo de alternativa razoável ao livre-arbítrio; o filme, ao destruir o futuro de Alex e, portanto, sua escolha de ingressar na sociedade, não dá nenhum futuro para tal sociedade.
Afinal, Alex é um simbolismo de todo jovem sessentista que farreia com os amigos, se ele é tão extremo, é, como eu já disse, pra mostrar que nem o extremo é uma ameaça. O livro mostra que a sociedade não deteriora só porque a molecada sai pra beber. Isso é incerto no filme. Tal questão não é nem levanta da no filme.
Então Alex passa a perna na sociedade. E aí?
A sociedade leva um tombo? E depois?
Uma revolução ocorre? Que revolução?
Alex é cínico, ele não tem ideais. O filme mostra várias vezes seu caráter autoritário.
O livro mostra justamente tal caráter autoritário sendo apenas megalomania adolescente, mas no filme é pra valer.
Se Alex é o modelo do jovem, então o que temos em mãos não é uma revolução iluminista, é só o seqüestro da sociedade por oportunistas megalomaníacos.
Mas claro, a gente não sabe. O filme não mostra. Não há futuro além do momento em que a infantilidade se torna vitoriosa.

O que pode se dizer (e é disso que os cínicos se vangloriam) é que "reflete a realidade".
Que é um frio e calculista e amoral reflexo da realidade. É a realidade tal como ela é.
Flávio não diz isso, mas me falha ver qualquer outra vantagem na perspectiva "cínica".
Afinal, o ponto forte do seu cinismo sempre foi o de não estar comprometido com estruturas de poder, mas me parece extremamente ingênuo, ainda mais em um texto que invoca tanto Nietzsche, acreditar que o discurso cínico não está comprometido com nenhuma estrutura de poder.
Pelo contrário, argumento no decorrer do texto que o discurso cínico do filme está comprometido com uma postura mais autoritária que o moralismo conservador do livro; o discurso é o de que confiar nos criminosos é uma tola ilusão. De que eles são monstros inevitavelmente maus que só deixam de matar e estuprar quando são forçados a isso.
Ainda, que quando damos a eles chance de redenção, eles riem na nossa cara.
Que sintamos o prazer do monstro não muda esses fatos, só diz que também temos nosso lado monstruoso e nos atenta ao fato que os outros também têm.
Isso nos ensina a ser "cínicos", isso significa, não confiantes nos membros de nossa comunidade, isso significa, que acreditamos não no dialogo e na cooperação, mas em um frio jogo de forças. Ainda, que nós mesmos não somos confiáveis e que nós mesmos traíremos ao termos a oportunidade.

O resto é uma profecia auto-realizada. Você se torna um cínico e vê toda a sociedade com cinismo. Quando alguém age de forma aparentemente altruísta, logo se põe a trabalhar para traduzir toda a linguagem do altruísmo em egoísmo ("Ele fez porque faz ele se sentir bem, logo é egoísmo") e assim calibrar o mundo com sua teoria. Logo, você vê todos como cínicos e, portanto, prova, a cada dia, sua teoria.

Essa é minha conclusão.
Esse é um post certamente moralista, portanto pobre de acordo com Flávio Pranhos; mas saber por qual prisma vejo as coisas é o que mais me auxilia na eterna luta contra as ideologias.
Considero pobre de quem acha que está livre de uma tal moralidade e que, portanto, vê o mundo sem filtros. Só não é mais pobre do que quem considera sua miséria uma fortuna.

8 comentários:

Mr X disse...

Muito interessante o post. Acho que o livro nesse sentido é mais rico, aliás, o próprio Burgess disse que sem aquele último capítulo o romance não fazia sentido nenhum. Até gosto do filme do Kubrick, mas é outra coisa, achata certos aspectos transformando tudo em um cinismo ou sátira fácil. Acho que a mesma coisa dá pra ser dita do "Lolita" do Kubrick em relação ao livro.

T disse...

Hmm, acabei de ler na revista lá em Penha e lembrei que você tinha escrito qualquer coisa sobre. Acho que Flávio usa marginal só pra designar a postura do Alex mesmo, não às condições econômicas marginalizantes. Eu sinceramente não acho que Kubrick o priva dessa escolha... Como você responderia a uma lavagem cerebral, saindo do efeito dela? De imediato eu ratificaria o que me lembrava ter sido antes, nem que só pra constar no começo.
Poxa, deixa ele crescer depois. A adolescência dele sofreu um corte, mas ele sabe que ainda tem a força pelo-bem-pelo-mal devastadora dela – E é imprescindível ser forte de alguma maneira. Ademais, deixa a sociedade pra depois como se não tivesse acontecido nada de chocante, lavagem e padre e diabo a quatro, que aí o ciclo fica mais perfeito pro término. Cinismo é sedutor.
Arte precisa inebriar, a gente não procura arte pra aprender diretamente. Prefiro cunho romântico ao iluminista. Nessa mesma edição da revista existe uma pequena espécie de exposição de prós e contras pr’essa coisa romântica de enaltecer paixões, por mais adolescente que isso seja. Mas concordo que a conclusão do Flávio foi meio vaga e perdeu grande parte do sentido inicial.
Penso que a adolescência do Alex só quer completar o tempo avassalador que é todo dela.

Anônimo disse...

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