sábado, agosto 22, 2009

Meus amores.



Por tudo que eu consumo de ficção, não sei se alguma vez eu me apaixonei por um personagem fictício, ainda assim, eu nunca me apaixonei por alguém real.
A menina de óculos incapaz de maldade, a menina que incondicionalmente gosta de mim, a menina que lê Schopenhauer, entre tantas outras meninas que já passaram pelo meu coração e pela minha cama, nenhuma delas existiu.
Escondido em algum lugar de meus amores sempre havia uma pessoa de verdade.
E como é difícil amar as pessoas.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Levando textos à sério.

Um tempo atrás no blog eu escrevi como que religiosos e seculares começavam a parecer tribos distantes, com dificuldade de comunicação.
A hermenêutica de uma época com tal pluralidade de opinião como existe hoje é algo complicado. Não é só uma questão de entender o contexto político e social do texto, mas é preciso também, algo difícil para um contemporâneo, entender o outro.
Digo que é difícil para o contemporâneo porque, para quem está no futuro olhando o passado, todos os lados são "o outro", mas hoje não. Hoje somos alguém, temos uma opinião, tendo uma opinião, temos nosso vocabulário e nossos clichês, nossos axiomas e nossos argumentos irrefutáveis, nossas verdades eternas. Já o outro... O outro também tem essas coisas, mas é uma bagunça.
A pior coisa de ler um texto de nicho é o sentimento de "what the fuck?" que acontece. Sabemos que há um abismo na comunicação quando o que é senso comum para o outro é uma completa falta de lógica para nós. Não só é incomum, como não faz sentido. A relação não existe. O esforço para fazê-la é imensa. Ainda assim, eles o fazem com naturalidade.

Me refiro aqui a um texto que um amigo postou no blog dele.
O que me incomoda com o texto é que eu não discordo dele, mas ele não faz o menor sentido. Ele foi escrito para o outro.
Sobre aquecimento global, eu tomo a posição cética. Existem cientistas falando que há o aquecimento e cientistas falando que não há. Existem forças políticas interessadas na propaganda de que o aquecimento é real e existem forças políticas interessas na propagande de que não é.
É um debate com ruído demais, eu suspendo o juízo.
Suspendendo o juízo, eu adoto a posição segura, tipo Pascal.

Se poluição estiver destruindo o planeta e eu não fizer nada, toda a vida na terra será extinta.
Se poluição não estiver destruindo o planeta e eu não fizer nada, tudo continua igual.
Se poluição estiver destruindo o planeta e eu fizer algo, eu faço minha pequenina contribuição para impedir a extinção de toda vida do planeta.
Se poluição não esitver destruindo o planeta e eu fizer algo, no mínimo estou contribuindo pra qualidade do ar.

A noção de que eu prejudico o mercado de carne ou automóveis com minha vida levemente ambientalista não é uma crítica ao ambientalismo e sim ao capitalismo. Se eu estou tirando o emprego do seu João que mata vaquinhas, eu estou dando emprego ao seu Carlos que planta alface. Se eu estou tirando emprego da GM que vende carros poluidores, eu estou dando emprego à Sony com seus videogames aprovados pelo greenpeace. Por aí vai.

Voltando ao tema do post.
Eu concordo, por exemplo, que esse debate assume um tom assustadoramente apocaliptico e que isso pode bem ser mera "scare tatics" para que as pessoas votem em candidatos ambientalistas. Algo do tipo "vote em mim ou o planeta explode!"
Aqui a questão merece ser estudada com maior cuidado. Evitar usar o carro por ambientalismo é diferente do que votar em um candidato que pode colocar restrições em uma indústria gerando desemprego.
Então eu concordo com o texto que nós temos que ficar atentos sobre quem faz essas previsões apocalipticas, quais são seus interesses políticos, o que eles tem a ganhar com essa versão dos fatos, etc.

Se eu concordo com o texto, porque ele não faz nenhum sentido pra mim?
Porque ele não foi escrito pra mim.
Na verdade, é meio desonesto eu vir aqui e escrever um post a respeito ao invés de comentar no blog dele, mas enquanto eu escrevia o comentário lá, eu pensei que o que eu estava criticando era que o texto colocava religião em lugares que não fazia sentido, mas o blog dele *é* sobre religião. O errado por criticar um texto religioso naquele blog seria eu, mesmo que o texto não faça sentido.

Vamos ao texto.
Antes de começar, uma observação engraçado. O texto começa graciosamente falando de Aristóteles. Isso é uma piada de nicho. Do mesmo modo que a esquerda cita Foucault e Marx pra tudo, a direita iluminada cita filosofia grega e medieval pra tudo. Se esse texto fosse de esquerda, a piada seria algo do tipo 'qual a sua posição em relação ao planeta' e logo respondi 'engajado!'"

Passada a piadinha da introdução, o texto apresenta várias informações interessantes.
Por exemplo, você sabia que o que o ambientalismo, o comunismo e o nazismo tem em comum é o gnosticismo, que é uma recusa em aceitar a realidade, pois a descrença em uma ordem divina faz com que se almeje a criação de uma ordem superior mundana? Pois é amigo, pedir pra você ir na padaria a pé pra que eu respire um pouquinho melhor não é porque eu quero respirar um pouquinho melhor, é porque, assim como um geneticista nazista, eu quero criar o ser humano perfeito.

Você sabia que a origem do ambientalismo é o paganismo e o anti-cristianismo? Não é que pagãos e ouvidores de Enia num geral nutrem de uma natural afinidade intelectual com um movimento político que diz que é preciso proteger as árvores que eles gostam de abraçar, é que um está ligado ao outro e ambos odeiam o cristianismo!!!11!1shift+1

Nesse momento eu estou me perguntando se o autor do texto quer sinceramente que eu o leve a sério. Já é meio esquisito quando o papa se refere ao nazismo como neopaganismo, mas vá lá, um monte de nazistas faziam parte daquela religião de sangue, tinha um monte de gente lá envolvida com misticismo, mas tinha um monte de cristão também. Pessoal podia aproveitar pra irritar seu principal inimigo - o secularismo - e dizer simplesmente que o nazismo era secular, que ele admitia qualquer tipo de doido com qualquer religião, mas por algum motivo, eles decidiram pegar no pé de quem come tofu, então tá, o nazismo é neopagão, que seja.

Aqui o texto entra na sua versão de "scare tatics". Antes o negócio era "se você for ambientalista e estiver errado, não perde nada", agora o negócio é "se você for ambientalista - certo ou errado - você é um anticristão".
O texto vai fazer seus argumentos de porque estão errados, são argumentos que dizem respeito aos cientistas e eu não vou fingir que entendo do assunto só pra puxar sardinha pro estilo de vida que eu escolhi.
Mas *antes* de te dar os argumentos, o texto quer assustar.
Isso é anti-cristão!
É da mesma linha de pensamento do comunismo e do nazismo!
Daqui a pouco eu vou falar de ciência, modelos matemáticos e essa coisa chata, mas antes de fazer você pensar em números eu quero que você pense que se você reciclar essa latinha na sua mão, satanás virá e carregará sua alma imortal para o sofrimento eterno!

E o que me interessa aqui é. Como que um sujeito pretende ser levado a sério fazendo essas relações esquisitas sem nem tentar dar nenhuma prova e simplesmente espera que nós aceitemos assim de graça?
Porque o público alvo dele está acostumado. Esse é um texto de nicho, ele parte do pressuposto de que você lê que o Obama quer assassinar sua avó, que o casamento gay destruirá a família, que os judeus controlam hollywood, mas que temos que apoiar Israel assim mesmo porque é nossa única defesa contra os muçulmanos que são ainda mais cruéis.
Longe de mim dizer que só a direita produz coisas doidas. Passe 5 minutos no CMI (centro da mídia independente) e você vai descobrir que assassinos cruéis estão apenas realizando justiça social, que o plural das palavras ser no masculino é uma opressão misonigista que precisa ser corrigda (a partir de agora o plural de prédio é prédies) e que Cuba e os EUA têm semelhante falta de liberdade política porque a eleição de ambos é indireta.
Mas a questão é coisas doidas não são doidas pra quem está acostumado a ler elas o dia inteiro. Quando o artigo dá uma informação que houve um resfriamento global que cancelou o aquecimento dos últimos 30 anos e diz "alguém leu ou ouviu isso na grande mídia?", ele quer criar um clima de conspiração contra a causa dele. Você sabe, as forças do mal são um exército de Orcs e um olho flamejante no topo de uma torre próximo ao vulcão e as forças do bem é um anãozinho de pé peludo com meia dúzia de gente doida.
Em um contexto normal, é uma coisa ruim que algo não tenha sido dito na grande mídia. Em um contexto normal, significa que a pesquisa em questão não chamou atenção da comunidade científica o bastante pra chamar atenção da mídia, aqui é uma medalha de honra! Parabéns, meu caro, você é baixinho e tem o pé peludo, agora vai lá salvar o mundo, seu grandiosissimo filho da mãe!

Alguma matemática incompreensível para - mas escrita para ser lida por - leigos depois (ao menos pra mim é indiferente, se você diz que a atividade humana correponde a 0,001% da produção de CO2 e depois fala "isso não é nada"; é a mesma coisa que me dizer "isso é catastrófico!"; eu sou leigo, eu sei lá se 0,001% é pouco ou muito) e logo vem de novo a história estranha que ambientalismo é "a nova religião para as populações urbanas que perderam a sua fé no Cristianismo."
Quer dizer que é a nova coisa que praticamos apenas por duas horas durante os domigos e que no resto da semana fingimos dar a mínima pra agradar os idosos da família?

Vale lembrar um detalhe. O blog do meu amigo é sobre religião. A fonte do texto é de um site que não é. É de um site de noticias principalmente políticas.

O problema do texto de nicho é tentar saber qual o propósito da existência dele. Eu acho que é só manter a manutenção de um clima qualquer de senso comum de uma determinada cultura.
Os argumentos que o texto traz é contra o ambientalismo, mas ele é tão de nicho com todas suas referências aleatórias a comunismo, gnosticismo e anti-cristianismo que quem não faz parte dessa cultura que já concorda com o autor antes dele escrever o texto só vai se afastar ainda mais da posição dele. Talvez o cientista que o cara cita é sério, mas como que eu vou levar ele acha que o ambientalismo surge por uma falta de fé no cristianismo? Pra quem é do nicho essa relação faz total sentido, pra eu que não sou, é só conversa de gente doida.
Se o cientista é um cara sério, que bem o texto fez para a causa que ele advoga me convencer que esse cientista sério é uma pessoa doida?
O Einstein era doido de forma bonitinha, ele mostrava a língua e tal. Ser doido dizendo que eu uso uma sacola ao invés de sacos plásticos porque não tenho fé não é bonitinho. Até onde eu sei é que nem dizer que você escuta música alta porque sua parede não é roxa. Veja bem, minha parede é roxa e eu sequer estou ouvindo música agora.
O vitimismo do texto também trai um propósito. Para os outros você não se faz de vítima, para os outros você está certo, seus argumentos são fortes e convincentes. Textos desse tipo servem como um coletivo tapinha nas costas dos participantes da cultura.

Não é como se fossem 3 pobres cientistas desconhecidos contra Barack Obama e Al Gore, como o texto dá a entender, os conservadores norte-americanos detém os programas de rádio de maior audiência e a rede de notícias de tv a cabo de maior audiência do país também. O partido político que passou os últimos 8 anos no poder é, ao menos em teoria, contra o ambientalismo. O partido Republicano tem mais poder nos EUA que o DEM e o PSDB juntos no Brasil. Ser oposição não faz de você um coitadinho desconhecido. Porque o texto compara 3 cientistas com Gore e Obama? Porque não compara esses 3 cientistas contra outros 3 cientistas? Porque não compara Obama com seu concorrente, John McCain, que não ficou tão longe assim da presidência e era fervorosamente a favor de coisas como perfurar petróleo no Alasca e que apoiava a indústria do carvão? Porque não comparar Gore com Bush, um candidato derrotado à presidência contra o concorrente que governou o país por 8 anos, e que passou boa parte de seu mandato enfurecendo ambientalistas?
Faz que sentido comparar a força de cientistas com a força de um presidente e um candidato derrotado à presidência que ganhou quase metade dos votos?
Porque faz parte da narrativa do nicho.

A narrativa clássica conservadora é que há uma batalha entre o leviatã (Estado) e o Livre Mercado.
Por via de regra, o primeiro sempre erra e o segundo sempre acerta.
Então o primeiro tem motivos obscuros e malvados e manipula a mídia e a opinião pública para gerar uma indústria desonesta, bla bla bla; o segundo está intimamente ligado à sobrevivência humana.
De novo, não é o tipo de coisa que eu necessariamente discordo, mas o modo como a narrativa é contada para converter os já convertidos me intriga.
Então, quando a China e a Índia "dizem não" à pactos de emissão de redução de gases, não há interesse político, gente pouco se lixando pra ciência, não há motivos eleitorais, não existem pactos com indústrias e corporações.
É a "realidade econômica", que, de acordo com o texto, é "sem partido".
De um lado nós temos Obama, Gore, Lord Stern, paganismo, anticristianismo, comunismo, nazismo, a falta de fé, o Greenpeace, o comércio do caborno.
Do outro nós temos a ciência, o bom senso e a realidade econômica.

Sim, eu sei, é um texto defendendo um lado. Mas não é preciso ser caricato para defender uma tese. O texto poderia usar os mesmos argumentos e ser levado a sério. Ele poderia falar sobre todos os interesses financeiros e políticos, poderia falar sobre a falta de consenso dos cientistas, poderia dar os dados matemáticos, poderia até esboçar uma sociologia sobre como a falta de religião faz com que as pessoas aderem mais facilmente a tais causas, mas é a narrativa que interessa:

O pensador está vendo televisão, o objeto da grande mídia, que quer lhe convencer a ser ambientalista. Logo ele usa do seu bom humor e Aristóteles para afastar de si essa ameaça.

Logo ele reflete sobre as origens nefastas do movimento. Como ele é o mau, como ele é uma perversão e uma afronta à nossos valores. Como ele é aliado daqueles que foram nossos inimigos em guerras sangrentas.

O movimento também é um inimigo espiritual. Por trás dele há o lucro de pessoas malvadas que censuram e silenciam os bons desbravadores da verdade e da ciência, uns pobres coitados que ousam falar verdade ao poder, mesmo sendo uma luta tristemente desigual.

As provas, demosntradas matematicamente, são irrefutáveis, mas os nosso heróis, pobres heróis, lutam contra monstros. Mas há a esperança, pois se as forças do mau usam da mentira, elas serão sobrepujadas pela realidade e pelo caminho natural das coisas.

Ler um texto de nicho é ler um relato mítico nesse sentido.
Os símbolos fazem sentido apenas se você já é familiar a eles e ser familiar a tais simbolos não é uma questão de conhecimento teórico, mas de convivência em tal meio social.
O objetivo do texto não é apresentar uma nova verdade, mas reencenar um antigo ritual. Todo domingo o católico vai reviver a última ceia e toda coluna de tal autor vai revivar a jornada daquele que fala a verdade ao poder e sofre por isso.
Se eu fosse um deles, eu poderia até dizer que essa é uma consequência de fé no cristianismo, que na falta de crença em santos mártires, essas pessoas precisam reencenar seu próprio pequeno conto de martirismo cada vez que um de seus cientistas tem o relatório ignorado por uma agência governamental, mas eu não vou fazer esse tipo de relação.

Só quero apontar o fato que esse é um tipo de texto que causa mais ruído que esclarecimento. Há um debate aqui e ele deve ocorrer. Muitos dos argumentos do texto são bons e devem ser levados a sério, mas o objetivo do texto não é apresentar bons argumentos, mas sim dar um tapinha nas costas do seu público e dizer "não se preocupe com o que os outros falam, você está certo, leia o meu texto e confirme aquilo que você já sabe".
O problema é que isso causa um isolamento de tal comunidade, no fim, é uma fuga que não faz bem a ninguém.
Você pode até não gostar da minha opinião, mas não é uma boa idéia desaprender a falar minha língua.

quarta-feira, agosto 12, 2009

E quem protege o presente?

Oh, como é desprotegido nosso presente.
De um lado há os que acreditam que o presente fracassou em cumprir promessas do passado. E que por isso deveríamos rever essas promessas e voltar a um passado que nunca existiu onde tais promessas não foram feitas.
Eu concordo que promessas não foram cumpridas. O iluminismo não trouxe tantas respostas quanto prometeu. A democracia não é tão livre quanto prometeu. O New Deal não salva tantos pobres quanto prometeu. O capitalismo não gera tantos ricos quanto prometeu.
Mas o presente é bom porque ele é o fruto da desilusão. Mesmo quando falha, nenhuma promessa falha completamente.
O iluminismo nos trouxe diversas respostas e, como bônus, assassinou um Deus.
A democracia trouxe uma maior participação na sociedade, sua mera existência impediu muitas ditaduras. Muitos cadáveres bem compreendem a diferença entre democracia e sua ausência. A mudança que alguém, algum dia, precisou morrer para trazer, hoje, nós realizamos simplesmente enchendo suficientemente o saco de um legislador.

Mesmo quando falharam, as promessas trouxeram algo de bom. Quando o iluminismo fracassou, os objetivos de nossas metodologias se aperfeiçoaram. Não é mais uma questão de descobrir toda verdade, mas sim alguma verdade e com alguma verdade, nós sabemos cada vez mais.
Quando fracassa o projeto de saber tudo, inicia-se o projeto de saber ao infinito.

É semelhante quando uma democracia falha. A constante manutenção da democracia impede-nos de cair nas armadilhas da utopia.

Pois há também aqueles que não defendem o presente em prol de um futuro teorizado por uma economia política. Estas são criaturas curiosas. O que eles querem é um mistério, não é sequer uma incerteza; eles estão certos de que buscam esse ideal obscuro. Cada vez que um francês queima um carro, logo eles acham que a revolução que trará o futuro chegou! Pensam no presente não como algo a se viver, mas como uma ponte.
Acho muito boba a busca por um além-homem. Com o atual, nós estamos aprendendo a lidar. Sinto preguiça na noção que terei que aprender uma nova tábua de regras apenas para quebrá-la eventualmente. Prefiro ter minhas regras claras no obscuro bom senso de toda contemporâneidade.

Cada vez que a democracia falha de modo grande, geralmente resultado de uma revolução que busca o futuro que trará um homem mais perfeito, fica mais claro que o futuro pertence a nós, os falhos.
E cada vez que uma democracia falha de modo pequeno, geralmente quando o medo de uma população leva a um desejo de aumentar a segurança, fica claro que democracias são assim mesmo, coisas que falham, que devem ser constantemente reconfiguradas, aos poucos, para melhor atender nossas necessidades tão efêmeras.
A democracia vai e volta, acerta, erra, corrige, comete o mesmo erro novamente, descobre novos erros para corrigir. Mas permanece democracia.
Assim que eu revelo, de maneira mais fácil, um inimigo da democracia: a cada vez que o legislador diz algo que ele discorda, ele grita "fascismo!"
Às vezes, o legislador nem precisa dizer nada. Algumas pessoas tem o talento de se desagradarem com a programação da tv e gritarem "fascismo!"
Igrejas demais em seu bairro? "Fascismo!"
Igrejas de menos? "Fascismo!"
As pessoas realmente gostam de novela! "Fascismo!"
*aiai*
Imagino o que seria liberdade para essas eternas vítimas do fascismo. Provavelmente a escravidão dos outros.

Ao ver tal estado de coisas, me sinto solitário.
Alguns se desesperam porque não entendemos suficientemente bem o passado. Eles acham que é preciso refutar, semanalmente, 4000 anos de civilização, para então podermos falar sobre o presente.
Alguns se desesperam porque não buscamos vigorosamente o bastante o futuro. Eles acham que é preciso resolver, em um banho de sangue só, todos os problemas da humanidade, para então podermos dar ínicio à história.

Me sinto sem contemporâneos.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Eles são a morte.


Lola Cola, de Mel Ramos.


Um ponto grande de diferença entre ditas sociedades primitivas e sociedades modernas é o valor dado ao quanto a cultura é cíclica.
Uma sociedade primitiva olha para o passado como guia para o futuro. Os jovens passam pelos mesmos rituais que os adultos. E se tornar um adulto é se tornar algo razoavelmente parecido com o adulto que o antecedeu.
As respostas para as grandes perguntas estão em histórias contadas pelos antigos e assim vai.
A diferença entre tais sociedades e a nossa é que nós baseamos nossa vida no futuro. Nós não vemos o amanhã como mais um dia, mas como um novo dia.

De acordo com Husserl, a diferença entre os conhecimento técnicos de outras civilizações com o nascimento da filosofia na Grécia é que "só a filosofia grega conduz, através de um desenvolvimento próprio, à uma ciência em forma de teorias infinitas (...) A matemática - a idéia do infinito, das tarefas infinitas - é como uma torre babilônica, que, apesar de seu inacabamento, permanece uma tarefa cheia de sentido, aberta ao infinito; este infinito tem por correlato o homem novo, de metas infinitas".

É verdade que os babilônios eram dotadas de igual ou maior capacidade que os gregos para a astronomia, a diferença é que para os gregos, não era tão importante a noção que o eclipse virá dia tal ou que tal constelação se movimenta nos céus de tal modo, mas a noção de criar um modo de investigação que permita que sempre algo de novo seja descoberto.
Desde Descartes, uma das principais perguntas da filosofia (se não a principal) é acerca de qual deve ser o método científico. Saber como o mundo funciona é importante, mas é mais importante saber como descobrir que o mundo funciona.
Uma descoberta isolada é interessante e útil, o desenvolvimento de um novo método, por outro lado, abre as portas em direção a todo tipo novo de possibilidades.
Uma revolução científica não se dá quando novas descobertas são feitas, mas sim quando o modo como se faz tal ciência deve mudar.
A mudança da alquimia para a química não aconteceu porque descobriu-se o oxigênio no lugar do flogisto, mas porque a descoberta do oxigênio tornava impossível que a ciência alquimista avançasse com os métodos antigos. Desde então vários novos elementos químicos foram descobertos e nem por isso novas revoluções aconteceram.

O que nós, como civilação européia, buscamos, é sempre como nos tornar mais definitivamente inacabados.
É verdade que buscamos a cura para doenças, a paz eterna e a paz de espírito. Mas esses são, espera-se, o efeito colateral positivo do desenvolvimento de um método que traga essas descobertas. Mas nós não temos um objetivo claro. Não há um ponto para onde caminhamos. A civilização européia, nesse sentido, é culturalmente nômade. Atingir um tal ponto só faz sentido se é possível superá-lo.

O projeto, afinal, é fadado a implodir. Se não há um ponto para onde caminhar, como saber se estamos avançando ou regredindo? Sem um fim, as palavras "avançar" ou "regredir" sequer fazem sentido? No fim, a busca acaba se tornando um pouco fútil. A civilização nômade para de andar pelo deserto na busca do próximo oasis e passa a simplesmente vagar no deserto por hábito. Nos tornamos inquietos porque não sabemos ser de outro modo. Como tubarões, tememos que parar signifique a morte. Logo, não só não estamos mais avançando a ponto nenhum, como estamos fugindo da morte. Não sabemos o que fazer, mas nosso instinto de sobrevivência ao menos sabe o que evitar.

Não devemos ser como eles que buscam respostas no passado. Não devmos ser como eles que dão elevador valor à tradição. Não devemos ser como eles que estão acomodados demais em tal método e tal resposta. Não sabemos como devemos ser, mas sabemos que eles são a morte.

O infinito não traz garantias, mas é muito pouco europeu ter garantias.

Cartilha politicamente correta.

Porque eu estou entendiado e sem sono:
http://search.twitter.com/search?max_id=3219657957&page=23&q=danilogentili

23 páginas unânimes de gente xingando os tais politicamente corretos depois, chego na reclamação do racista escroto de que uma piada com o próprio pai morto dele foi mal recebida no twitter (durante 40 longos minutos. A internet está ficando cada vez mais rápida em criar polêmica).
Após a página 23 começam as reações à piada. (dada a velocidade do twitter, quando você ler esse post, obviamente será bem mais que página 23)

Vou categorizar entre twits positivos (RTs e "ri muito com isso") e twits negativos que tenham ou não a ver com a piada. Vou ignorar os positivos que não tem a ver com a piada. Pra podermos monitorar como que a patrulha do politicamente correto está pegando no pé do racista em questão. E ainda vou colocar exemplos dos comentários censurantes e terríveis que ele recebeu.
Eu talvez erre a conta um pouco, pule um ou outro, mas deve dar pra sentir como o coitadinho do racista é perseguido por nós malvados politicamente corretos até quando ele faz piada com o próprio pai.

P. 23 - 7 positivos, 1 negativo ("podia ter ido dormir sem essa, bocó")
P. 24 - 11 positivos, 2 negativos ("Esta foi totalmente sem graça! Cuidado para não ficar igual ao Vesgo.")
P. 25 - 9 positivos, 3 negativos ("piadinha sem graça p tirar com um pai viu...¬¬", [dois desses foram falando: "que triste", eu nem sei se isso é negativo, pois não é ninguém bravo com a piada, é só que o Gentili é tão bom humorista que as piadas dele deprimem algumas pessoas])
P. 26 - 7 positivos, 2 negativos ("porra! sacanagem cara!")
P. 27 - 2 positivos, 2 negativos ("poxa que triste :/ vc me deu oi -q , sou a pessoa mais feliz do mundo *-*" [de novo, ele é tão bom humorista que deprime os maiores fãs dele])
P. 28 - 5 positivos, 4 negativos ("Aiii que Hoorror =x")
P. 29 - 8 positivos, 3 negativos ("meus sentimentos ):" ninguém bravo. Só gente triste)
P. 30 - 8 positivos (nenhum negativo, alguns não rindo, mas simpáticos, esses eu não coloquei em nenhuma categoria)
P. 31 - 10 positivos, 3 negativos ("ca-ram-baaa... essa foi de arregalar o olho... não sei se permaneço chocada ou se explano meus pêsames...")
P. 32 - 9 posiivos, 4 negativos ("não perdoa nem alma penada --'")
P. 33 - 10 positivos, 2 negativos ("Nada haver isso hj, outro dia seria engraçado!!!")
P. 34 - 5 positivos, 5 negativos ("Que maldade..." 3 deprimidos)
P. 35 - 10 positivos, 1 negativo ("como vc consegue ser tao deprimente?")
P. 36 - 2 positivos, 1 negativo ("ai q horror")

Resultado: 103 positivos, 33 negativos.

Desses negativos, eu não vou perder mais tempo contando tudo de novo, mas a impressão que eu tive lendo é que pelo menos metade era gente achando triste. Boa parte dessas pessoas fãs do Gentili tristes porque ele está sem o pai nos dias dos pais. Outras eram pessoas que, bem, acharam a piada sem graça e se ofenderam. Quando eu digo essas "outras", eu estou falando do que? Umas 15 pessoas? 20? E quando eu digo se ofenderam, eu digo mais um "argh, sem graça", teve no máximo umas 10 pessoas bravas.
Danilo gerou reação de umas 140-150 pessoas, com uma piada sobre morte de pai no dia dos pais, cerca de 30 delas ficaram chateadas, bem menor o número de gente que ativamente se revoltou e essa foi a reação do homem que nos pede para sermos mais bem humorados:

"Pessoal, desculpem EU ter feito piada com MEU PROPRIO pai. Eu sou um escroto mesmo. Me avisem ai sobre oq posso fazer piada, pois não sei"

Dos twits que eu citei aqui, ninguém chama ele de escroto, talvez tenha acontecido em um, mas eu meio que citei o que chamou mais a atenção, dado que a maioria é "que triste" e "que maldade", alguém chamando ele de escroto talvez me chamaria a atenção, mas pode ter passado desapercebido.

Então, como o Danilo, afinal, trata os fãs que cometeram o imenso crime de achar uma piada sem graça, sem graça? (já que eu acho que vi no máximo uns 2 twits de gente que parecia não ser fã dele)

"Me ajudem nessa campanha: Cuzoes, parem de me seguir! Espero diminuir meus seguidores com essa!"

Agora, alguém pode dizer: "Mas você não está sendo mal humorado fazendo um post sobre isso?"
Sim, eu estou, mas eu sou mal humorado, olha o resto do blog, eu raramente tento ser engraçado e geralmente eu falho. Eu sou mesmo uma pessoa triste que leva as coisas a sério.
E eu levo racismo a sério e o Danilo foi racista e, quando ele foi racista, um monte de gente apontou e disse: "você foi racista" e ele reagiu chamando vítimas do racismo de idiotas e chamando gente que nem eu (que aparentemente faço parte de uma patrulha anti-bom-humor porque acho sem graça piadas que são sem graça) de idiota.
E o que idiota faz agora?
Bom, ou ele está sendo paranóico ou ele está criando inimigos imaginários de propósito e, de novo, sendo o idiota que é, ele está fabricando polêmica a toa.

O cara tem um programa de tv. O que ele fala é lido por um monte de gente. Ele sente orgulho de fazer piadas "polêmicas" e toda vez que 10 pessoas são ofendidas por uma piada ofensiva, ele entra em modo "estou sendo censurado"?
E o pior é ter que aturar gente dizendo que a patrulha politicamente correta está atrás dele.

Então, olha, eu vou tomar a liberdade em falar em nome da patrulha politicamente correta, porque nós não somos um grupo organizado e se nosso líder é o idiota do Vianna, eu acho seguro afirmar que consigo armar um golpe e tomar o posto de estagiario de relações públicas:

Nós não nos importamos com suas piadas sobre o Rubinho.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre seu pai.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre minha mãe.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre o Lula
Nós não nos importamos com suas piadas sobre racismo

Enfim, dá pra continuar essa lista.
Eu vou fazer um resumo então para os idiotas entenderem:

Nós nos importamos com piadas racistas.
Nós nos importamos com piadas homofóbicas.
-
Porque são, na nossa sociedade, as duas minorias que mais obviamente sofrem preconceito.
-
Algumas outras piadas dependem do seu bom senso.
Uma piada sobre um gordo não é automaticamente ofensiva como é uma piada racista, mas pode machucar.
Você pode fazer uma piada sobre gordos para uma pessoa obesa, claro, mas você tem que saber que há o risco de ela não gostar. E caso ela não goste, ela não é um monstro mal humorado que quer te censurar, ela é simplesmente alguém que se ofende com algo ofensivo.
Ninguém é obrigado a gostar da sua piada idiota. E ninguém é obrigado a ficar em silêncio quando acha sua piada idiota, idiota.
Se você tem a maravilhosa liberdade de fazer sua piada idiota - e eu acho que você deva ter - então ao menos tenha o cavalheirisimo de não se sentir descriminado pela sociedade quando as pessoas não gostam.
Eu comentaria o quão irônico que é um branco de classe média se sentindo perseguido e injustiçado pela sociedade após fazer uma piada racista, mas o ridículo da situação fala por si só.
-
Continuando com minha cartilha politicamente correta, que eu particularmente gosto de considerar bons modos e um guia para causar desconforto desnecessário, mas alguém vai chamar de fascismo, porque você sabe, não existe nada mais fascista do que querer evitar a xenofobia:
Uma piada xenofóbica de um paulista sobre carioca é amigavel. Uma piada xenofóbica de um paulista sobre nordestino não é.

A regra simples aqui é: existem grupos de extermínio em São Paulo para cariocas? Um carioca namorando uma moça de familia de classe média paulista fica preocupado com seu sotaque, pois a familia pode respeitá-lo menos? Alguém vai pedir para um carioca usar o elevador de serviço após ouví-lo conversar com o porteiro por assumir que alguém com tal sotaque não pode ser um morador?
Não? Então piada sobre carioca pode.

Por fim, o humor norte-americano nos apresenta uma imensidão de piadas sobre judeus, negros, obesos e gays que nós aceitamos.
Elas também seguem regras simples.
Elas não são piadas sobre X, elas são piadas sobre preconceito X.
Vejamos o exemplo:

Isso:
"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

É racismo.

Isso:


É sobre racismo.

Ambos são humorísticos.
O primeiro a gente não gosta. O segundo a gente gosta.
O primeiro é o tipo de coisa que gente racista grita na rua quando vê um negro com sua esposa loira.
O segundo é o tipo de coisa que fala, de forma humorística, que o racismo está tão impregnado em nossa sociedade que quando um negro atinge a classe alta, ele passa a fingir que não é mais negro.

Veja, sequer o tema das duas piadas é assim tão diferente. Ambas envolvem uma correlação entre cor de pele e classe social.
Mas a primeira ofende, pois ela não comenta o racismo. Ela parte do racismo do leitor como pressuposto, não só isso, ela parte do pressuposto que o leitor faça relações racistas em sua mente para a piada funcionar.
A segunda também parte do pressuposto que o espectador faça relações racistas, mas a graça está, em desmontar tais associações. Em demonstrar como tais relações são absurdas. Está na sociedade rir de si própria, ao dizer "nós somos tão racistas que é esse tipo de cena absurda que nós geramos".

Esses dias li post de alguém dizendo que os politicamente corretos não sabem rir de si próprios. Isso é falso. Eu sou branco e eu dou risada da maior parte das piadas que implicam que brancos são racistas. Eu reflito com essas piadas nas atitudes que eu tomo e, sendo branco e de classe média, algumas dessas atitudes eu de fato tomo.
Essas piadas me mostram o absurdo de eu tomar tais atitudes. Elas fazem eu rir do meu próprio absurdo.

O que eu sei fazer, bem menos, é rir dos outros.
Eu já ouvi histórias demais de gays que foram espancados até a morte em uma região que eu considero "segura" (a região dos Jardins, em São Paulo) para achar piadas homofóbicas engraçadas.
Eu já ouvi histórias demais de gays que viveram anos com alguém e que quando o parceiro adoece é proibido de vê-lo no hospital pela família para achar piadas homofóbicas engraçadas.
E essas são histórias que eu *ouvi*
Tivesse eu vivido tais histórias, eu não acharia tais piadas só sem graça e desagradáveis, eu ficaria bravo e revoltado.
E aí eu teria que aguentar alguém dizendo que eu sou mal humorado. Não é você que é sem graça. Não é você usando um episódio triste da minha vida para fazer pessoas que me impedem de ver meu namorado no hospital dar risada. Não, eu que seria o mal humorado.
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"Rodrigo, você é a pessoa mais sem graça do mundo: é branco, de classe média, vegetariano, vota no PSDB/DEM, assite o Daily Show with John Stewart todo dia. É impossível te ofender, correto?"

Meio que sim.
As únicas "minorias" que eu faço parte é ser vegetariano e ateu.
Eu não sinto vergonha de falar pra ninguém que sou vegetariano. É absurda a noção de que numa entrevista de emprego, eu teria menos chances porque a pessoa me veria com uma camiseta "não coma as vaquinhas". Quando eu estou caminhando com um grupo de gente na rua comendo couve-flor,a polícia não me para porque eu "pareço suspeito". Afinal, se eu comprar um carro caro, ninguém vai pensar "aquele comedor de alface roubou alguém".
Então vamos adicionar à lista:
"Nós não nos importamos com suas piadas sobre vegetarianos."

Ateísmo é um pouquinho mais complicado, mas bem pouco. Tipo, em festa de familia, eu não me digo ateu com a mesma segurança que me digo vegetariano, mas o assunto "religião" geralmente não surge. E quando surge, eu digo o que sou e mesmo que alguém não goste, ninguém passa a me tratar mal.
Algumas pessoas sofreram sendo ateus em familias evangélicas. Eu meio que lido um pouco com isso no "Eterno". Alguém em algum lugar perdeu um emprego sendo ateu. Mas ódio ao ateísmo é mais a prática de uma minoria do que a prática contra uma minoria.
Mas até aí, eu nunca ouvi uma piada sobre ateu. Eu nem sei como seria. Isso é porque mesmo que não sejamos uma sociedade atéia, nós somos bem seculares.
Imagina alguém dizendo "haha, você não acredita em Deus".
É tipo... ok, não acredito mesmo. Teoricamente os três poderes também não acreditam. Assim como boa parte dos nossos mais ilustres cientistas e artistas. Aliás, eu sempre achei de mal gosto o Dawkins comparar ateus com homossexuais. Eu entendo o contexto que ele faz essa comparação, mas no fim, religião, obviamente, não é um assunto importante para um ateu.
Você se importa mesmo se tiver que mentir pra sua mãe dizendo que é católico? Um gay mentindo pra mãe significa que ele não pode ter uma experiência genuinamente familiar com a pessoa que ele ama. Um ateu mentindo pra mãe é só uma chateação.
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Enfim, há um último assunto pra tocar. (Eu não acho que eu vou ganhar nenhum leitor novo com isso, mas se acostume, meus posts não são engraçados, nem fazem referências literárias, mas eles são longos. Eu escrevo enquanto penso.)

Eu acho que fiz um bom trabalho (já que ninguém vai ler isso, ao menos eu tenho que me gratificar) mostrando que o Gentili só está sendo um garotinho mimado ao chorar "censura". Mas acho que isso esconde um problema maior.
Que é o de tentar fazer equivalência entre todas as idiotices dele. E estava eu formulando essa teoria quando ela foi comprovada, olha esse twit:

"po cara... Macaco, xuxa agora meu pai. As alternativas pra piadas estao acabando...vou virar roteirista do cqc"

Primeiro o óbvio: o problema não é piada sobre macaco. Adoramos rir dos macacos. Eles bebem o próprio mijo e atiram fezes nos outros. Macacos são ótimos. O problema são piadas racistas.
Depois: da mesma forma que "nós não nos importamos com piada sobre o Rubinho", também não nos importamos com piada sobre a Xuxa.
Talvez se alguém fizer uma pesquisa semelhante à minha com esse twit sobre a Xuxa, vai ver, de novo, uns 70% de pessoas dando risada. Uns 20% dizendo "que sem graça" e uns 10%, fãs da Xuxa, ficando bravos.

Que ele não veja que uma piada racista é bem pior do que uma piada com a Xuxa é um problema gigante.
Uma piada com a Xuxa ou com o Rubinho ofende fãs da Xuxa e do Rubinho. Que são pessoas que tem o direito de não gostar de uma piada. De novo, seria razoável pensar que um comediante entenda que alguém em algum lugar não vai gostar da sua piada, mas não o Gentili. Ele é uma estrela. Ele brilha demais em qualquer que seja o canal que o programa dele passa. Ele é lindo, etc. TODAS as pessoas devem gostar da piada dele, aparentemente.
Uma piada racista *ME OFENDE*, enquanto branco e cidadão brasileiro, porque eu gosto de pensar que vivo em uma república onde todos os cidadãos são iguais. E que, quando por algum motivo histórico (algo pequeno como escravidão que ocorreu há um tempão, como 200 anos atrás, sabe, umas 4 ou 5 gerações inteiras. Alguém aí deve ter uma tataravó que foi escrava. Sabe, é tipo, há infinitos anos atrás, não afeta em nada a situação hoje), constatamos que os cidadãos não são tratados iguais, nós criamos medidas, cuja eficiência e necessidade podem e devem ser debatidas, para chegarmos a tal igualdade.
Eu sou um cara que vota no DEM. Eu acredito que está no espírito do capitalismo assegurar que um negro competente tenha tantas chances no mercado de trabalho quanto eu, que sou branco.
E, sendo branco, uma piada racista me ofende. Eu só posso pensar que, para um negro, ela ofende muito e muito mais, por motivos que eu posso teorizar, mas não de fato compreender, nem sentir.

Porque pegar no pé do Gentili? Porque ele é o idiota que deu a cara a tapa.
Sabe quando todo mundo odeia uma professora? Sabe que o único a levar suspensão e nota baixa é o que diz "eu te odeio, professora!"?
Pois é. Danilo é o idiota.
Então, seguindo o que diz o Alex Castro, eu sou a favor da liberdade de expressão porque ela revela os idiotas.
Danilo é o idiota que está tentando "provar" que o tipo de gente que se ofende com racismo é o mesmo tipo de gente que se ofende com uma piada dos dias dos pais. Não é. Não é a mesma coisa. Não está no mesmo nível.
A luta aqui, vamos frisar, não é por liberdade de expressão.
Vamos tomar por pressuposto que ambos os lados acham que a legislação não deveria punir piadas mal feitas.
A luta é por tornar um comportamento socialmente aceito ou não.
Danilo não reclama da piada dos dias dos pais porque o MP vai processá-lo. Óbvio que não vai (ao menos eu espero que não, seria um abuso de autoridade). Ele reclama que alguém (aham, 33 pessoas, eu contei) acharam que essa foi uma piada mal feita.
Obviamente as pessoas têm o direito de a) não gostar de uma piada e b) dizer que não gostaram de uma piada.
Isso não faz delas patrulheiras do politicamente correto. Isso faz delas, bom, pessoas que não gostaram de uma piada e disseram que não gostaram.

A luta aqui é: Que comportamento você está se esforçando para tornar vergonhoso?

Você quer que uma pessoa sinta vergonha ao fazer uma piada racista ou você quer que uma pessoa sinta vergonha ao achar uma piada sem graça?

Porque se você quer que uma pessoa sinta vergonha ao fazer uma piada racista, o que a Xuxa ou o pai do Danilo tem a ver com você é um mistério. E de fato, os únicos a fazerem essa conexão são os do time de lá.
Se você quer que uma pessoa sinta vergonha ao achar uma piada sem graça, eu não sei bem o que dizer... desculpa por achar uma piada sem graça, sem graça? Desculpa por dizer "ah, que triste"? Sei lá, foi mal Danilo, não queria te ofender ao não dar risada. Haha, eu acho... se te faz feliz e tal...
Mas se você quer que eu sinta vergonha por apontar que racismo é racismo. Isso eu não vou sentir.