(como eu digito melhor que escrevo e como eu acho posts enquanto tenho esse costume de perder cadernos, vou refazer o meu fichamento da crítica da razão pura aqui no blog. Quem quiser fingir que consegue aprender algo lendo isso, boa sorte, na verdade, algumas partes mais confusas, eu tentei clarificar só no caso de alguém de fato querer ler isso, mas a minha recomendação é ler a própria crítica ao invés desse post)
INTRODUÇÃO
1 - Da Distinção entre conhecimento puro e conhecimento empírico.
"Podemos afirmar que todos os nossos conhecimentos têm origem em nossa experiência. Se fosse ao contrário por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser exercitada senão pode objetos que tocam nossos sentidos e em parte produzem por si mesmos representações, em parte colocam em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, reuni-las ou separá-las e, dessa maneira, proceder à elaboração da matéria informe das impressões sensíveis até um conhecimento das coisas, o que se denomia experiência?"
Porém, embora o conhecimento se inicie na experiência, ele precisa, para se tornar de fato "conhecimento", que nossa própria mente lhe adiciona; é preciso portanto, em primeiro lugar, separar esses dois elementos, ou seja; por um lado o que é recebido dos sentidos e pelo outro o que é adicionado pela razão.
Esse conhecimento independente dos sentidos é chamado "a priori" (diferente dos empíricos, chamados "a posteriori").
Não se pode chamar de "a priori" conhecimentos surgidos indiretamente da experiência, ou seja, se eu olho pra Pucca sei que vou dar um sorrisinho bobo, antes de eu olhar pra ela eu tenho esse conhecimento, entretanto, tal conhecimento foi retirado do fato que todas as vezes que eu olhei pra ela no passado, dei um sorrisinho; logo, tal conhecimento vem da experiência e não é "a priori".
Logo, "a priori" não é um conhecimento que vem "antes da experiência", mas sim um que vem "independente da experiência".
2 - O senso comum não dispensa certos conhecimentos "a priori".
Do empirismo se pode conseguir alguma generalidade por indução, por exemplo, se eu digo que até hoje nunca vi um cisne preto, eu posso deduzir que nenhum cisne é preto, mas não há nada que impeça essa lei de mudar.
Por outro lado, certas coisas tem uma universalidade mais rigorosa; por exemplo, as proposições da matemática ou coisas do tipo "se A é maior que B e B é maior que C, então A é maior que C"; tais proposições não seriam tão certas se fossem meras deduções derivadas do empirismo; eu consigo imaginar visualizar a possibilidade de um cisne preto mesmo sem jamais ter visto um; eu não consigo visualizar que se é um prédio A é maior que um prédio B e um prédio B é maior que um précio C, então o prédio C sendo maior que o prédio A.
Essas proposições trazem consigo uma condição de "necessidade", ou seja, que elas existam dessa forma não é uma mera questão de ter sempre acontecido assim, mas elas *têm* que existir dessa forma ou não existiriam; a necessidade que se impõe é devida sua existência "a priori", na faculdade do conhecimento; ou seja, quando tal necessidade aparece, é porque existe algo na mente que demanda que seja assim.
3 - A necessidade da Filosofia é ter uma ciência que defina tudo de todos os conhecimentos "a priori".
"Certos conhecimentos saem do campo das experiências possíveis e parecem estender o círculo de nossos juízos acima dos limites da exiperiência mediante conceitos aos quais em parte alguma pode ser dado um objeto correspondente na experiência (...) Deus, liberdade e imortalidade são os temas da razão pura"
Quem cuida desses temas é a metafísica, entretanto ela o faz sem antes refletir sobre se é possível, em primeiro lugar, que a razão tenha capacidade para chegar a tais conhecimentos. Conhecimentos como a matemática também não dependem da experiência, tais conhecimentos só são detidos se encontram contradições em si próprios; não é difícil, entretanto, que a vontade de conseguir mais conhecimentos acabe por "ignorar" tais contradições e acabemos no campo das especulações vazias.
Uma vez que a razão consegue alguns conhecimentos reais "a priori", ela também busca outro tipo de conhecimento "a priori" que são de natureza diferente destes que consegue.
4 - Distinção entre juízo analítico e juízo sintético
A relação de sujeito com um predicado é viável de duas maneiras; ou o conceito do predicado pertence ao sujeito ou não, por exemplo, "todo solteiro é não-casado"; o conceito de "não-casado" está no conceito de "solteiro"; isso faz desse exemplo um juízo analítico; por outro lado, existe, por exemplo "o gato é branco"; nesse caso o conceito de "branco" não existe no conceito de "gato"; o que faz desse juízo como sendo "sintético".
Os juízos da experiência são todos sintéticos, pois nunca observo, no mundo, conceitos que estejam "sozinhos", ou seja, nunca vejo por aí um "gato" sem características, sempre vejo um gato que tem tal cor ou tal forma ou tal aparente desejo assassino.
5 - São sintéticos os juízos matemáticos
Até Kant, acreditava-se que os juízos matemáticos eram analíticos; ou seja; que quando faço "5 + 7 = 12", estou considerando que o conceito de "doze" está contido no conceito de "cinco mais sete" (da mesma forma que "não-casado" está contido no conceito de "solteiro"); o que Kant é argumenta é que o conceito de "cinco mais sete", por si só, contém apenas o conceito de "união do número cinco com o número sete", enquanto para se chegar a "doze" é preciso realizar uma operação mental além da análise do conceito "cinco mais sete".
Kant continua o argumento para demonstrar que não existe nada no conceito de "reta" que diga que ela é a distância mais curta entre dois pontos; o que faz com que os conceitos da geometria também sejam sintéticos.
Além desses conceitos, a física também faz uso de conceitos sintéticos a priori; ou seja; é uma lei "a priori" que ação e reação são sempre iguais, entretanto não existe nada no conceito de "ação" que diga que "a reação é sempre igual".
Se a metafísica; tal como a matemática e a física; se baseia em proposições a priori, tal como essas duas, deve se apoiar em juízos sintéticos.
6 - O problema geral da razão pura
O problema da razão pura então se apresenta: "Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?" ou seja, como é possível que conceitos puros dêem origem a outros conceitos puros que não estavam previamente contidos neste? (com a condição, claro, que não se recorra a experiência sensível)
Da resposta dessa pergunta, se segue: "Como ciência, é possível a Metafísica?", pois o objetivo da metafísica é o de ampliar nossos conhecimentos sobre esses conceitos "a priori" que nós temos (Deus, Imortalidade, Liberdade); simplesmente analisar tais conceitos é ineficaz, serve apenas como pré-metafisica, pois juízos análiticos não adicionam ao conceito nenhum conhecimento; logo, a paergunta é se é possível conseguir conhecimentos sobre tais objetos que não estejam contidos em seu próprio conceito, ou seja, conhecimentos sintéticos.
7 - Idéia e divisão de uma ciência especial sob o nome de uma crítica da razão pura
A crítica da razão pura precede tal empreitada, pois afinal, é da própria frazão que surgem os príncipos de conhecimentos "a priori".
"Um órganon da razão pura seria um conjunto daqueles príncipios mediantes os quais todos os conhecimentos puros 'a priori' podem ser adquiridos e totalmente estabelecidos (...) porém como isso é solicitar demais e como não se sabe quando seria possível uma ampliação de nosso conhecimento, podemos encarar uma ciência do mero julgamento da razão pura, de suas fontes e de seus limites".
O que Kant propõe, portanto, não é um sistema que explique como funciona a razão pura, mas uma crítica da razão pura para que um dia tal sistema seja feito, realizando tal crítica, também se criticará a filosofia transcedental e as conclusões que essa tem chegado.
Enfim, lá vamos nós e tal.
I - TEORIA TRANSCENDETAL DOS ELEMENTOS
PRIMEIRA PARTE
ESTÉTICA TRANSCEDENTAL
&1 (é, seu sei, esse não é o símbolo de "parágrafo", bawww, cry me a river)
"Intuição é a relação imediata de um conhecimento com os objetos e que serve de instrumento a todo pensamento".
A intuição só é possível quando o objeto é dado de modo que afete a mete de alguma forma. "Sensibilidade é a receptividade de conseguir representações de como somos afetados pelos objetos".
Ou seja, o objeto de alguma forma afeta a sensibilidade e a sensibilidade "leva" tal informação a intuição que, por sua vez, o liga ao conhecimento.
*Todo* pensamento precisa passar pela intuição e também pela sensibilidade.
"Sensação é o efeito que um objeto causa na capacidade de representação, quando o mesmo objeto o afeta"; A intuição é empírica quando refere-se ao objeto por meio da sensação.
"Fenômeno é o objeto indeterminado de uma intuição empírica. Matéria é o que no fenômeno corresponde à sensação. Forma é o que faz que o múltiplo do fenômeno, em determinadas relações, deve ser ordenado."
Tentando simplificar esses conceitos, quando temos uma "intuição empírica" (ou seja, a relação de um conhecimento com um objeto mediante sensação), o "alvo" dessa intuição é o fenômeno; a matéria é o que causa essa ou aquela sensação específica e, enfim, a forma é o que faz com que vejamos um aglomerado de fenômenos e matérias diferentes como algo com um certo nexo ou alguma unidade. (oh boy, eu acho isso tão divertido).
Uma vez que aquilo que pode receber essa ou aquela forma não pode ser a sensação, infere-se que a matéria é aquilo dado "a posteriori" (ou seja [e eu vou falar quantos "ou seja" eu bem entender] uma vez que entende-se que aquilo que o que muda quando nos expomos a diferentes fenômenos não é sensação, sobra a matéria), a forma, por outro lado, precisa estar "a priori" na mente e ser considerada separada da sensação; é como se nossa mente fosse um tábua com um espaço quadrado nela; se vemos as coisas quadradas, é porque é o que o espaço permite passar; se o quadrado é amarelo ou branco, não importa, ou seja, o conteúdo não importa, mas a forma precisa se adequar ao que já existe a priori na mente (ISSO É SÓ UMA ANALOGIA SEUS PUTOS - pra ninguém ficar dizendo por aí que "Forma" pra Kant é forma geométrica - NÃO É)
"Puras no sentido transcedental são as representações nas quais não é achado nada que pertence à sensação", o que faz com que "intuição pura" seja "a forma pura da sensibilidade".
Se eu retiro de um corpo tudo aquilo que posso pensar a respeito dele; como força, substância, divisibilidade (perigo caso seja kriptonita e você seja o superman), etc. e também aquilo que faz parte da sensibilidade como dureza, cor, gosto, etc. ainda resta algo da intuição empírica: extensão e figura, essas pertencem a sensibilidade pura, pois fazem parte de todos os objetos, existam ou não, que podem ser pensados, tais príncipios se encontram na mente "a priori".
"Estética transcedental é uma ciência de todos os príncipios da sensibilidade 'a priori'".
Na Estética transcedental, primeiro se retira de um objeto tudo que o entendimento pensa por conceitos e, em seguida, tudo que adquirimos por meio da intuição empírica; sobrando apenas a sensibilidade a priori.
Disso resultará (sabe-se lá como, mas se o Kant diz, quem sou eu pra questionar?) duas formas puras de intuição sensível: o espaço e o tempo.
PRIMEIRA SEÇÃO
DO ESPAÇO
&2 Exposição metafísica deste conceito
"Representamos os objetos como estando fora d nós e postos no espaço através da propriedade de nosso espírito que é o sentido externo."
Nesse tal "lá fora" estão sua figura, grandeza e relações de reciprocidade; além de tal "sentido externo" existe também um "sentido interno", por meio do qual o espírito percebe a si próprio como uma coisa que tem intuição de outras coisas, mas não da própria alma; a intuição que o sentido interno tem é a de relações temporais; portanto, é por meio do sentido externo que se percebe o espaço e por meio do sentido interno que se percebe o tempo. (aliás, só pelo prazer de causar um mindfuck, tenta ter alguma intuição interna de espaço, ou seja, tenta calcular qual o tamanho desse "lugar" dentro da sua cabeça onde rolam seus pensamentos)
Dessa forma, o que seria o tempo e o espaço, seriam tais coisas entidades que existem independente da nossa própria existência ou, como tentará mostrar Kant, formas de intuição?
Para responder isso, Kant expõe o conceito de espaço.
1º - "O espaço nõa se trata de conceito emírico, derivado de experiências anteriores", ou seja, o conceito de espaço tem que existir na minha mente antes de eu inferir que exista alguma diferença entre "dentro" e "fora" da minha cabeça, ou seja, não dá pra ter uma experiência do espaço, pois isso significaria ter uma experiência do que há "fora" da minha cabeça, mas pra existir um "fora" é preciso, antes, existir o conceito de espaço.
2º - "Trata-se o espaço de uma representação necessária 'a priori', a qual serve de fundamento às intuições externas". É impossível pensar que o espaço não existe; pensamos em espaços vazios, mas não em não-espaços. A existência do espaço não depende da existência de coisas dento do espaço, o contrário, por outro lado, é verdade (é impossível que exista fenômenos externos que não ocupem algum espaço)
3º - "O espaço é uma instituição pura, nõa é um conceito discursivo ou universal das relações das coisas", não existe mais de um espaço; existem infinitas divisões do espaço, mas é impossível conceber essas partes como algo separado do "espaço" uno.
4º - "O espaço é representado como uma dada grandeza sem fim"
&3. Exposição transcedental do conceito de espaço.
"Exposição transcedental é a aplicação de um conceito como princípio que mostra a possibilidade de outros conhecimentos sintéticos 'a priori'".
A geometria é a ciência que estuda o espaço "a priori" e consegue formular juízos sintéticos; logo, o espaço deve ser uma intuição e não um conceito, pois "não é possível extrair de um conceito proposições que o ultrapassem".
CONSEQUÊNCIAS DOS CONCEITOS ANTERIORES
a) "O espaço não representa nenhuma propriedade das coisas, acatadas em si próprias ou nas relações entre si"
b) "O espaço é a forma dos fenômenos dos sentidos externos, ou seja, a única condição subjetiva da sensibilidade, diante da qual a intuição externa é possível a nós".
Entende-se que existe no sujeito uma disposição para "receber" objetos dos sentidos antes da intuição (ou seja, as intuições se adequam a certas formas pré-existentes na mente humana); o que Kant propõe é que o espaço é uma propriedade dessa disposição, aliás, que o espaço é "única condição subjetiva da sensibilidade", ou seja, que o espaço é aquela tal tábua quadrada pela qual os objetos tem que se adequar pra entrar na mente.
Por causa disso, o que recebemos na nossa mente não são as "coisas em si", mas as coisas como são depois de passar por esse "filtro" da intuição do espaço, a coisa que sobra depois de passar por todos os filtros que intermediam "a coisa em si" e a mente é o fenômeno. (toda vez que escrevo "fenômeno" coloco o acento em alguma vogal diferente, é incrível)
Dessa forma podemos dizer "Todos os fenômenos externos estão juntos no espaço", não poderia ser de outra forma, pois para uma coisa se tornar fenômeno, ela tem que satisfazer esse critério "estar no espaço", caso contrário, tal coisa simplesmente passa desapercebida.
Quando afirmamos isso, afirmamos que o espaço tem apenas uma existência transcedental, ou seja, "espaço" é uma coisa que só existe dentro da sua cabeça.
SEGUNDA SEÇÃO
DO TEMPO
&4 - Exposição Metafísica do Conceito de Tempo
1º - Simultaneidade e sucessão são percebidas e a represenjtação "a priori" do tempo lhes serve de fundamento. O tempo em si não é um conceito empírico derivado de nenhuma experiência, só assim conseguimos nos representar que uma coisa seja simultânea ou sucessiva.
2º - O tempo é uma representação necessária; é impossível eliminar o tempo dos fenômenos.
3º - Dessa necessidade "a priori" fundam-se também os príncipios apodíticos ou axiomas do tempo em geral; por exemplo, que diferentes tempos são sucessivos e não simultâneos; a experiência não pode dar esse tipo de certeza.
4º - O tempo é uma forma pura da intuição sensível, não um conceito discursivo ou geral. Tempos diferentes são partes de um mesmo tempo. Trata-se de uma intuição, uma representação que apenas pode ser dada por um objeto. A intuição "tempos diferentes não podem ser simultâneos" não parte de nenhum conceito, nem da experiência; sobra a intuição.
5º - O tempo é infinito, pois quantidades limitadas de tempo só são delimitações de um só tempo; não existem "tempos" diferentes, só delimitações de um mesmo tempo. A intuição primitiva do tempo é sem limites (infinita)
&5 - Exposição transcedental do conceito de tempo
Conceitos de mudança e movimento somente são possíveis por e na representação do tempo e se essa intuição não fosse "a priori", então nenhum conceito poderia fornecer a possibilidade de mudança, ou seja, que algo esteja ou esteja em um lugar; que o conceito "Pucca está no quarto" e "Pucca está na sala" não seja contraditório, é preciso que se haja, na Pucca, uma possibilidade de mudança e no conceito de "Pucca" em si, não existe tal possibilidade, ela só se valida tendo como proposição "a priori" o tempo.
Conceito a priori do tempo também explica os conhecimentos sintéticos a priori a respeito do movimento (cinemática)
&6 - Resultados destes conceitos
a) O tempo não se mantém por si e nem existe nas coisas; quando você afasta delas a subjetividade. Fosse esse o caso, ele não anteciparia as coisas como uma ordem fixa delas, nem poderia ser conhecido "a priori".
b) O tempo, sendo forma da nossa intuição, não é determinado por fenômenos externos; não se referindo a figura ou posição; dessa forma, nós representamos o tempo como uma linha reta por mera analogia; as partes diferentes da linha (que são simultâneas) acabam por representar a sucessão do tempo.
c) "O tempo é a distinção formal 'a priori' dos fenômenos em geral." O espaço só é condição para os fenômenos exteriores, por ser a forma pura das intuições externas. O tempo é a distinção imediata dos fenômenos de nossa alma (awwww) e a distinção mediata dos fenômenos externos; isso acontece porque toda representação é interna (tendo ou não objeto externo), então tudo passa pelo tempo de qualquer forma, mas fenômenos internos não passam pelo espaço antes, eles são intuídos diretamente pelo tempo. (pegando o pensamento como exemplo de fenômeno interno; é difícil dizer "aonde" está o pensamento, entretanto, ele faz parte do tempo, eu não consigo dizer que meu pensamento "está" aqui ou lá; mas ele com certeza está agora, antes ou depois).
Os fenômenos estão sujeitos necessariamente a relações temporais e tempo, mas, de novo, nenhum objeto tem em seu conceito o tempo; mesmo sendo subjetivo, o tempo tem valor objetivo e universalidade "a priori".
O tempo é uma idealidade transcedental, pois não existe nas coisas em si e também deixa de existir se abstrairmos as condições subjetivas da intuição sensível.
&7 - Explicação
Existe um argumento a favor da realidade empírica do tempo: existem mudanças reais; então o tempo é algo real, pois a mudança das reproduções só é possível no tempo.
De fato, o tempo é rea; é a forma real da intuição interna.
O tempo tem uma realidade subjetiva em relação à experiência interna, ou seja, de fato percebo as mudanças, não há nenhum tipo de ilusão nesse sentido.
Entretanto não se pode dar ao tempo uma realidade absoluta; ela é uma intuição interna, quando a sensibilidade do tempo deixa de existir, também deixa de existir seu conceito, pois ele não é algo que está nos objetos.
Tempo e espaço não deixam de ser reais por não existirem nas coisas em si; eles existem de fato nos fenômenos; estes que têm dois lados: o lado do objeto "em si" que é observado e o lado do sujeito que os observa; no caso, a realidade do tempo e do espaço está no sujeito.
A realidade formal do tempo e do espaço não altera a segurança no conhecimento experimental, ou seja, o fato do tempo e do espaço só fazer parte dos fenômenos e não das "coisa-em-si" dá aos conhecimentos derivados destes (matemática, geometria) uma tal certeza e universalidade que não existiriam se estes fossem derivados da experiência.
&8 - Observações Gerais Da Estética Transcedental
I - Nossas intuições são apenas reproduções dos fenômenos; não percebemos as coisas como são em si mesmas, nem as suas relações são como apresentadas a nós; se retirassemos o sujeito dos sentidos, desapareceria todas as relações dos objetos no tempo e no espaço.
Permanece desconhecidos como são os objetos em si, fora da nossa sensibilidade. Somente conhecemos sobre as coisas os modos que temos de notá-las; modo que não é necessariamente igual a todo ser, mas sim a todo homem (mulher e travestis; mas não necessariamente a gatos, nem cachorros, mas talvez girafas, hmmm.... girafas)
Vemos as coisas de acordo com nosso modelo de percepção; tempo e espaço fazem parte desse modelo, podemos conhecer ambos "a priori", ou seja, antes da percepção de fato; por isso são intuições puras.
O conhecimento mais perfeito dos fenômenos nunca nos dará o conhecimento das coisas em si.
A receptividade da nossa capacidade de conhecimento é chamada sensibilidade, e essa pode se aprofundar infinitamente no fenômeno, sem nunca chegar a coisa em si; Leibniz e Wolf erraram quando diziam que a distinção entre sensibilidade e entendimento era meramente lógica.
Tal diferença é transcedental, não tem a ver com a forma de clareza, mas sim com a origem e conteúdo dos conhecimentos; a sensibilidade não nos dá um conhecimento obscuro das coisas em si; ela não nos dá conhecimento nenhum das coisas em si; se eliminamos a forma subjetiva; não sobra nada do objeto que possamos reconhecer.
(ok, Kant repete aqui provas de que tempo e espaço são a priori, é uma repetição quase literal, minha preguiça me impede de fazer isso; pra resumir, se tempo e espaço fossem coisas em si próprias e não formas de subjetividade, os conceitos que partem das ciências que estuda o espaço [geometria] e o tempo [matemática] não seriam universalmente válidos, se são, não podem ser empíricos, porque a experiência não pode conferir tal universalidade, logo, são anteriores a experiência, não fazendo parte dos objetos em si)
II - "Para confirmar esta teoria da idealidade tanto do sentido externo como do interno e, consequentemente, de todos os objetos dos sentidos como meros fenômenos, pode-se observar que tudo aquilo que faz parte da intuição em nosso conhecimento (com exceção dos sentimentos de prazer e do desprazer, e vontade, que de maneira nenhuma são conhecimentos) e contém simples relações de lugares numa intuição (extensão), de mudança de lugares (movimento) e de leis que determinam essa mudança (forças motoras)." (eu copiei esse paragrafo porque achei muito interessante o parenteses dele sobre prazer, desprezer e vontade; a saber, que elas são coisas que fazem parte da intuição, mas que não são, "de maneira nenhuma", conhecimento)
III - Dizer que recebemos apenas os fenômenos dos objetos, formados pela intuição de espaço e tempo, não significa que tais objetos sejam ilusões; as propriedades dos fenômenos são coisas de fato; o fenômeno é uma relação do objeto com o sujeito, ilusão seria se essa relação fosse, de alguma forma, modificada.
Isso não acontece por causa da idealidade das intuições sensíveis; pelo contrário, admitindo o tempo e o espaço como realidades objetivas das coisas em si, dado que a existência dos fenômenos depende do tempo e do espaço, então sua realidade dependeria de entes infinitos que subsistem por si próprio.
IV - Na teologia natural, quando se pensa em um objeto que não é objeto da intuição, deve-se retirar de tal objeto as condições de tempo e espaço (olha Kant chamando Deus de "objeto", esse Kant é foda)
Se tempo e espaço fossem coisas em si, isso não poderia ser feito, pois como condição da existência das coisas, deveriam também ser condição da existência de Deus.
Não é necessário limitar o modelo de intuição no espaço e no tempo à sensibilidade do homem.
*Conclusão Da Estética Transcedental*
"Temos aqui uma das partes exigidas para a solução do problema geral da filosofia transcedental: como proposições sintéticas 'a priori' são possíveis? - isto é, intuições puras 'a priori', tempo e espaço, nos quais, se no juízo 'a priori' não no conceito, mas na intuição adequada e ser atado sinteticamente àquele. Por esta razão, esses juízos nunca chegam além de objetos dos sentidos e apenas podem valer para objetos de uma experiência possível"
*
Aproveitando que a primeira parte acabou, eu estou evitando comentários desse tipo, porque a proposta é fazer um fichamento e não uma análise, mas acho que aqui é inevitável; teve coisas que eu deixei de lado nesse paragrafo 8; falta uma pesquisa maior da minha parte, mas eu vou chutar que boa parte desse paragrafo 8 é uma resposta a críticas específicas que ele recebeu, enfim, ele fala de assuntos que não faz parte da estética transcedental e que só vão aparecer láááá na frente, a saber, quando ele fala sobre "percepção de si", "permanência do eu no tempo" (coisas que eu nem citei) e "teologia natural"; ele entra nesses assuntos com mais detalhe depois e tentar expôr esses assuntos agora necessita de certos pressupostos, inclusive históricos, que por motivos metodológicos, eu prefiro fingir que não tenho.
*
SEGUNDA PARTE
LÓGICA TRANSCEDENTAL
INTRODUÇÃO
IDÉIA DE UMA LÓGICA TRANSCEDENTAL
I
*Da lógica em geral*
Conhecimento tem duas origens principais na mente; a primeira é a de receber as reproduções e a segunda é a faculdade de conhecer os objetos por essas reproduções.
Na primeira, o objeto é dado, na segunda é pensado.
A intuição e os conceitos são formados de tal maneira que não existe conhecimento por conceito sem intuição e nem intuição sem conceito. Ambos podem ser puros ou empíricos.
A intuição pura contém apenas a forma pela qual o objeto é concebido e o conceito puro, a forma de pensamento de um objeto em geral. Apenas intuições e conceitos puros podem ser concebidos "a priori".
Sensibilidade é a capacidade que nosso espírito tem de receber representações quando é abalado de qualquer maneira, caso não seja, então é o entendimento que produz representações.
A intuição só pode ser sensível, ou seja, contém apenas a maneira como nos afetam os objetos; já o entendimento é a faculdade de pensar o objeto recebido pela intuição sensível. Nenhuma é mais importante que a outra. Sem sensibilidade, não teríamos acesso aos objetos e sem entendimento, eles não seriam pensados. "São vazios pensamentos sem conteúdos; são cegas intuições sem conceitos".
Por consequencia, é preciso tornar sensíveos os conceitos (fornecer-lhes dados empíricos) e também compreensíveis as intuições (pô-las sob conceitos). Essas faculdades não podem mudar de função; os conceitos não podem intuir e os sentidos não podem pensar; é a união que gera conhecimento.
Na distinção desses dois conceitos, existe a distinção entre a Estética ("ciência das regras da sensibilidade em geral") e a Lógica ("ciência das leis do entendimento em geral").
A Lógica pode ter um duplo propósito: lógica de uso geral ou lógica do uso particular do entendimento. A primeira contém as regras do pensar, sem as quais não há entendimento; a segunda contém as regras para pensar um tipo específico de objeto.
A primeira é a Lógica elementar; a segunda é o órganon dessa ou daquela ciência; tal órganon só existe uma vez que o objeto em questão já é muito bem conhecido.
Uma Lógica geral e pura precisa lidar apenas com os príncipios "a priori" e é um cânone da da parte formal do uso da razão e do entendimento (sem conteúdos). Já a Lógica geral aplicada se dirige às regras do uso do entendimento quando este está sob as condições empíricas subjetivas, portanto possui príncipios empíricos, embora seja geral por não distinguir entre objetos; dessa forma, não é nem um cânone do entendimento em geral, nem um órganon de ciências particulares, mas apenas uma reflexão sobre o entendimento comum.
Na Lógica geral, portanto, a parte que forma a teoria pura da razão deve ser separada da parte que constitui a Lógica apliacada.
Na Lógica geral e pura, os lógicos precisam sempre estar atentos a duas regras:
1) Como Lógica geral, ela é anterior aos conteúdos do conhecimento do entendimento e da variedade de objetos, ocupando-se apenas da simples forma do pensamento (protip: toda vez que a palavra "forma" é usada, ela refere-se a uma espécie de casca vazia, num geral, pensar uma "forma" significa pensar em algo sem conteúdo; porra, ta caindo vinagre no meu livro! É isso, parei de comer)
2) Como Lógica pura, não possui nenhum príncipio, portanto, não possui nada que pertence a Psicologia. Tudo nela é "a priori".
Lógica aplicada é uma reprodução do entendimento e das regras do seu uso necessário sob as condições acidentais do sujeito, ou seja, trata de coisas como atenção, dúvida, origem do erro, convicção, etc.
II
*Da Lógica Transcedental*
Assim como existe intuição pura e empírica; também existe pensamento puro e empírico.
Dessa forma, existe uma Lógica que se refere às regras dos pensamentos puros, sem conteúdos empíricos. Também se refere a fonte do conhecimento dos objetos que não se encontra nos próprios objetos.
A palavra "transcedental" não é adequada a todo conhecimento "a priori", somente àquele diante do qual conhecemos que determinadas reproduções (intuições ou conceitos) só são aplicados ou possíveis "a priori" e de que modo o são (porque esta palavra indica a possibilidade do conhecimento ou do seu emprego "a priori"). Nem o espaço e nenhuma determinação geométrica "a priori" do espaço pode ser chamada de "transcedental"; apenas o conhecimnto da origem não-empírica dessas reproduções e de que modo elas falam sobre objetos da experiência é que se pode chamar "a priori".
Supondo que existem conceitos que se relacionam "a priori" com os objetos como atos de pensamento puro, que não tem origem nem empírica e nem estética (ou seja, nem da experiência, nem da intuição pura do tempo e do espaço), imagina-se uma ciência por meio da qual pensamos tais conceitos; essa é a Lógica transcendental (tcha-ram!).
Lógica transcedental estudará a origem, extensão e o valor objetivo desses conhecimentos,
III
*Divisão da Lógica geral em Analítica e Dialética*
Sendo a verdade uma relação entre conhecimento e objeto, não é possível apontar um critério universal de verdade, pois essa está sempre dependente do objeto em questão.
A Lógica, ao apresentar regras do entendimento, tem como critério de verdade, suas próprias regras; o que é contrário a lógica, não é verdadeiro, pois põe em contradição o entendimento consigo mesmo.
O critério puramente lógico da verdade será condição indispensável da verdade; a Lógica, entretanto, não vai além da forma do pensamento, faltando o conteúdo.
Lógica analítica é essa parte da Lógica que analisa a forma do entendimento, mostrando-os conforme príncipios do julgamento lógico do nosso conhecimento. Ela é necessária para controlar e avaliar as formas do conhecimento de acordo com suas regras, anteriormente ao conteúdo, entretanto, não é suficiente para decidir a respeito da verdade material do conhecimento; embora indispensável, não é possível estudar objetos usando apenas a Lógica.
Quando se usa a Lógica geral para para retirar do mundo afirmações objetivas, ela é chamada de Dialética.
A Dialética é a Lógica da aparência; "ou seja, uma arte que emprega sofismas, própria para oferecer a sua ignorância e o verniz da verdade aos seus artífícios concebidos de antemão" (chupa, Hegel!)
IV
*Divisão da Lógica Transcedental em Analítica e Dialética Transcedental*
Na Lógica transcedental, o entendimento é isolado, assim como a Estética transcedental isola a sensibilidade. Além disso, existe uma condição que é suposta: que se aplique aos objetos que nos tenham sido dados na intuição, pois sem intuição, o conhecimento carece de objetos; é vazio.
"A Analítica transcedental é a parte da Lógica transcedental que apresenta os elementos do conhecimento puro do entendimento e as bases sem as quais nenhum objeto em geral pode ser pensado."
Dessa forma, nenhum conhecimento pode se opôr a essa lógica sem perder seu conteúdo, ou seja, sua relação com algum objeto, portanto, sua verdade.
Ao estudar conhecimentos puros sem observar e experiência, existe a tentação de utilizar tais conceitos puros para fazer, por meio de raciocínios ilusórios, uma utilização material de conceitos meramente formais, chegando a conclusão sobre objetos que não nos são dados por nenhum tipo de intuição.
Dialética é a utilização dos conceitos puros para exprimir apreciações sintéticas a respeito de objetos em geral.
A segunda parte da Lógica transcedental é, portanto, uma crítica dessa aparência dialética; e tem o nome de Dialética transcedental a crítica do entendimento e da razão na sua "utilização hiperfísica".
É até bonito ver o Kant putinho nessa parte, olha isso:
"se leva o nome de Dialética trasncedental é como crítica do entendimento e da razão em sua utilização hiperfísica, que tem por objetivo desvendar a falsa aparência que oculta suas ilusórias intenções e além de restringir essa aspiração, que se envaidece de encontrar e aumentar o conhecimento somente através de leis transcedentais, e avaliar e dominar apenas o entendimento puro e preveni-lo contra as ilusões sofísticas, e não como arte de provocar dogmaticamente essa aparência (infelizmente, arte muito divulgada pela fantasmagoria filosófica)"
"Fantasmagoria filosófica"; um dia eu ainda vou ofender alguém usando isso.
LÓGICA TRANSCEDENTAL
PRIMEIRA DIVISÃO
ANALÍTICA TRANSCEDENTAL
"Trata-se, esta analítica, da análise do nosso conhecimento 'a priori' nos elementos do conhecimento puro do entendimento". Serão considerados: primeiro que os conceitos não sejam empíricos; segundo, que eles não façam parte da intuição e da sensibilidade, porém do pensamento e do entendimento; terceiro, que sejam conceitos simples, diferentes de derivados ou compostos; quarto, com quadro completo, abrangendo o campo inteiro do entendimento puro.
LIVRO PRIMEIRO
ANALÍTICA DOS CONCEITOS
Analítica dos conceitos é a análise da faculdade do entendimento; não é a análise de conceitos ou o método que consiste em analisar os conceitos apresentados para deixar claro o seu conteúdo. O objetivo da filosofia transcedental é a Analítica dos conceitos.
"Serão seguidos os conceitos puros até as suas aízes ou suas primeiras noções, na compreensão humana, onde existiam anteriormente, esperando a experiência para que se desenvolvessem e libertos, por esse entendimento, das condições empíricas pertencentes a eles, sejam apresentados em toda sua perfeição."
CAPÍTULO PRIMEIRO
ORIENTAÇÃO PARA A DESCOBERTA DOS CONCEITOS PUROS DO ENTENDIMENTO
Exercitando a faculdade de conhecer, conceitos diferenciados são expostos e podem ser exibidos em uma lista grande, conforme a sua observação.
Também existem conceitos, que são descobertos apenas eventualmente e que não estão em uma ordem dada nem em uma unidade sistemática. A ordenação desses conceitos pode ser feita por meio de analogias e do valor do seu conteúdo, partindo do simples ao composto.
A filosofia transcedental tem a vantagem e incumbência de pesquisar tais conceitos, pois eles descendem do entendimento puro e não são mesclados, como de uma unidade absoluta; portanto devem ser compostos entre si sob um conceito ou uma idéia. Porém essa composição oferece uma regra, conforme a qual, o lugar de cada conceito puro pode ser determinados "a priori".
PRIMEIRA SEÇÃO
DO USO LÓGICO DO ENTENDIMENTO EM GERAL
O entendimento já havia sido definido de modo negativo: uma faculdade de conhecer insensível, O entendimento não é uma faculdade intuitiva, pois não há intuição sem sensibilidade. Contudo, além da intuição, podemos conhecer por conceitos. Portanto, o conhecimento do entendimento, pelo menos o humano (e talvez das girafas), é um conhecimento por conceitos, ou seja, discursivo e não intuitivo.
Enquanto sensíveis, as intuições se apóiam nas afeições, os conceitos por outro lado, se apóiam nas funções. "Função é a unidade de ação para arranjar representações diferenciadas sob uma [representação] comum a elas todas" (má tradução é má). Os conceitos são fundados no pensamento espontâneo, da mesma manira que as intuições sensíveis na receptibilidade das impressões.
Da mesma forma que a intuição nunca se reporta diretamente ao objetivo, o conceito jamais se reportará imediatamente a um objeto, somente a uma representação desse. Portanto, o juízo é conhecimento indireto de um objeto e também representação da representação de um objeto. Existe em todo juízo um conceito que pode ser aplicado a muitas coisas e que sob essa multiplicidade inclui também uma representação dada, qu se reporta imediatamente ao objeto. Assim, por exemplo, no juízo "os corpos são divisíveis", o conceito de divisibilidade se reporta a outros conceitos, entre os quais estão o conceito de corpo que é atribuído a fenômenos recebidos pela nossa vista. Dessa forma, esses objetos são representados pelo conceito de divisibilidade.
Os juízos são funções de unidade entre as nossas representações, que ao invés de uma representação direta, substitui outra superior que inclui em seu âmago ela própria e muitas outras que são úteis para o conhecimento do objeto, reunindo, dessa maneira, em um só conhecimento, muitos conhecimentos possíveis. Podemos assim, resumir as operações do entendimento em juízos, uma vez que o entendimento em geral pode ser representado como a faculdade de analisar, porque, afinal, é uma faculdade de pensar.
O pensamento é o conhecimento por definições. Contudo, as definições se relacionam com predicados de juízos possíveis com uma representação qualquer de um objeto não certo ainda. Dessa maneira, por exemplo, a definição de um corpo pode denotar um metal que pode ser conhecido diante daquela definição. Apenas se torna um conceito após estar contido nele outras representações, diante das quais é possível reportar a objetos. Portanto é o predicado de um juízo possível, por exemplo, que metal é um corpo. As funções do entendimento podem ser encontradas se são expostas com certeza as função de unidade no juízo.
(Acaba aqui a primeira parte; notando que essa é uma divisão completamente arbitrária da minha parte, feita porque, sinceramente, não aguento mais e preciso parar um pouco pra esfriar a cabeça, jogar videogame, coisa e tal. A seguir, a Tábua!!!1!!!111!11!shift+um)
Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
Uma vez que anônimo não tem endereço de e-mail....
"1) todos os filosofos abandonariam a filosofia se pudessem....
2) um freak na filosofia entao seria alguem que não busque a verdade. porque eh isso que todos buscam... "
1) Estou bem interessado em saber daonde saiu essa conclusão.
Não vou ficar nem insistindo nisso, só acho *bem* problemático esse negócio de tentar adivinhar o que as outras pessoas fariam se pudessem.
E me levou a me perguntar também porque um filósofo não poderia abandonar a filosofia caso quisesse; não é como se fosse lá o trampo mais recompensador do universo.
-
2) Aí a gente entra em questões complicadas. A questão da verdade é uma que eu não me sinto capaz de formular uma opinião; ela é um paradoxo pós-moderno. É praticamente consenso que a verdade não pode ser alcançada, sequer vislumbrada a distância; isso não muda o fato que ela deixa de ser o norte que guia as pesquisas. Quanto mais a verdade deixa de existir como fato cognoscível; mas ela se impõe como categórico hipotético, algo do tipo "vamos fingir que isso é um fato e não uma interpretação por motivos pragmáticos"; é mais ou menos a idéia do Quine quando ele diz que, epistemológicamente, os objetos físicos não tem um estatuto tão mais válido que os deuses de Homero, mas enfim, o pragmatismo se impõe (e "impôr" aqui é um verbo forte; significa que por mais que teorizemos dessa ou daquela forma, algo nos impede de incorporar isso em nosso cotidiano ou mesmo em nossas teorias; uma teoria que busca desqualificar a verdade vai ter, como objetivo, revelar a verdade sobre a verdade; é um valor tirânico).
A questão do freak é estranha, de novo, eu não sei se alguém busca a verdade, de novo, ela se impõe. Conscientemente, eu tomei uma decisão há um tempo atrás de valorizar mais a beleza do que a verdade; por um lado é porque eu acho que "Beleza" é um universal "mais forte", ela tem algo de empírico sem ser racional ou objetivo, nós a "sentimos" de alguma forma. A verdade já me parece um conto de fada, mas de novo, ela existe como postulado, como "vamos fingir que existe senão não saímos do lugar".
O que eu quis dizer com o freak é exatamente que ele não é alguém que age de forma "anormal" ou diferente; aliás, ele não é nada anormal, ele é um produto das leis e das normas como todo mundo, mesmo que não as obedeça; ele vive nesse mesmo mundo que o resto, mesmo que isolado ou ignorado; a idéia do filósofo como freak não é que ele age de forma oposta ou mesmo diferente, que ele olha pra um lado quando todo mundo olha pro outro. É o mesmo mundo que ele vê, é a mesma verdade que ele busca, o que muda é como ele vê o mundo, como ele busca a verdade; porque as formas científicas ou cotidianas de ver o mundo não vão levar ao tipo de resposta que ele precisa, pois seu objeto de pesquisa geralmente tem peculariedades; eu não saberia dizer exatamente quais são, mas acho que uma coisa que torna um assunto "filosófico" como sendo "filosófico" e não científico é exatamente o fato de tal assunto ter alguma coisa que o impede de ser examinado de outra forma, ou até, que o impede de ser examinado e ponto; restando a tal assunto a especulação pura.
Pra finalizar porque eu to com sono e tenho que dormir pra prosseguir com minha vidinha infeliz; acho que o filósofo, pelo menos o atual, tem menos esperança que o resto de encontrar a verdade, é algo do tipo; se a ciência, com seus aparelhos, labs, ambientes controlados e cobaias, não encontra respostas últimas e definitivas; que esperança tem o pobre filósofo tendo a seu serviço apenas sua cabecinha fodida? Mas não tem como evitar que o objetivo seja a verdade; se a gente deixa de buscar a verdade, o que fazemos? Fazemos ficção? Contamos pegadinha? Dizemos "esse conceito é 'Y'" pensando que é X só pelo prazer de eludir a verdade? Escrevemos livros desnecessariamente complicados e obscuros só pra escaparmos dos critérios lógicos?
São possibilidades, só não vejo o que de produtivo pode sair disso (o que não deve impedir ninguém de tentar); mas o fato de termos um objetivo não significa que temos esperança ou pretensão de alcançá-lo, é até uma forma boa de evitar fanatismo; enquanto o "sábio" estóico é um ser admitidamente inalcançável, até onde você vai na direção dele é escolha sua e ninguém pode te culpar pra parar pra jogar videogame no meio do caminho, mas quando ser um cristão ideal não só é possível, como pressuposto para entrar no paraíso, então todo o resto tem que ficar em segundo lugar, saca?
-
Bah, eu vou parar por aqui, esse post está ficando circular.
Só queria dizer, quando eu frequentava o orkut era normal ter gente dizendo que tinha medo de postar nas comunidades que eu frequentava porque, enfim, eu respondia e eu respondia dessa forma; não quero que ninguém tenha medo de comentar, se eu não tiver um e-mail pra responder, vou responder aqui mesmo, mas a intenção não é menosprezar a opinião de ninguém, é só que eu fico preocupado mesmo que não estou sendo claro E que não estou passando a idéia completa (porque um problema gigante do orkut era esse, a pessoa tinha medo de receber um tl;dr [Too Long; Didn't Read] e simplesmente vomitava sua opinião em uma frase assumindo que todo mundo tem o mesmo acesso que você a linha de pensamento que te levou até lá, então eu tenho essa mania chata de querer explicar o porque de cada coisa, mesmo que eu não consiga fazer isso, mesmo que só complique mais, então quando eu paro pra escrever esses posts, fica esse debate chato na minha cabeça entre ser claro e objetivo e não deixar nenhuma ponta solta; não raro, falho nos dois, como desconfio que foi o caso aqui; oh well)
2) um freak na filosofia entao seria alguem que não busque a verdade. porque eh isso que todos buscam... "
1) Estou bem interessado em saber daonde saiu essa conclusão.
Não vou ficar nem insistindo nisso, só acho *bem* problemático esse negócio de tentar adivinhar o que as outras pessoas fariam se pudessem.
E me levou a me perguntar também porque um filósofo não poderia abandonar a filosofia caso quisesse; não é como se fosse lá o trampo mais recompensador do universo.
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2) Aí a gente entra em questões complicadas. A questão da verdade é uma que eu não me sinto capaz de formular uma opinião; ela é um paradoxo pós-moderno. É praticamente consenso que a verdade não pode ser alcançada, sequer vislumbrada a distância; isso não muda o fato que ela deixa de ser o norte que guia as pesquisas. Quanto mais a verdade deixa de existir como fato cognoscível; mas ela se impõe como categórico hipotético, algo do tipo "vamos fingir que isso é um fato e não uma interpretação por motivos pragmáticos"; é mais ou menos a idéia do Quine quando ele diz que, epistemológicamente, os objetos físicos não tem um estatuto tão mais válido que os deuses de Homero, mas enfim, o pragmatismo se impõe (e "impôr" aqui é um verbo forte; significa que por mais que teorizemos dessa ou daquela forma, algo nos impede de incorporar isso em nosso cotidiano ou mesmo em nossas teorias; uma teoria que busca desqualificar a verdade vai ter, como objetivo, revelar a verdade sobre a verdade; é um valor tirânico).
A questão do freak é estranha, de novo, eu não sei se alguém busca a verdade, de novo, ela se impõe. Conscientemente, eu tomei uma decisão há um tempo atrás de valorizar mais a beleza do que a verdade; por um lado é porque eu acho que "Beleza" é um universal "mais forte", ela tem algo de empírico sem ser racional ou objetivo, nós a "sentimos" de alguma forma. A verdade já me parece um conto de fada, mas de novo, ela existe como postulado, como "vamos fingir que existe senão não saímos do lugar".
O que eu quis dizer com o freak é exatamente que ele não é alguém que age de forma "anormal" ou diferente; aliás, ele não é nada anormal, ele é um produto das leis e das normas como todo mundo, mesmo que não as obedeça; ele vive nesse mesmo mundo que o resto, mesmo que isolado ou ignorado; a idéia do filósofo como freak não é que ele age de forma oposta ou mesmo diferente, que ele olha pra um lado quando todo mundo olha pro outro. É o mesmo mundo que ele vê, é a mesma verdade que ele busca, o que muda é como ele vê o mundo, como ele busca a verdade; porque as formas científicas ou cotidianas de ver o mundo não vão levar ao tipo de resposta que ele precisa, pois seu objeto de pesquisa geralmente tem peculariedades; eu não saberia dizer exatamente quais são, mas acho que uma coisa que torna um assunto "filosófico" como sendo "filosófico" e não científico é exatamente o fato de tal assunto ter alguma coisa que o impede de ser examinado de outra forma, ou até, que o impede de ser examinado e ponto; restando a tal assunto a especulação pura.
Pra finalizar porque eu to com sono e tenho que dormir pra prosseguir com minha vidinha infeliz; acho que o filósofo, pelo menos o atual, tem menos esperança que o resto de encontrar a verdade, é algo do tipo; se a ciência, com seus aparelhos, labs, ambientes controlados e cobaias, não encontra respostas últimas e definitivas; que esperança tem o pobre filósofo tendo a seu serviço apenas sua cabecinha fodida? Mas não tem como evitar que o objetivo seja a verdade; se a gente deixa de buscar a verdade, o que fazemos? Fazemos ficção? Contamos pegadinha? Dizemos "esse conceito é 'Y'" pensando que é X só pelo prazer de eludir a verdade? Escrevemos livros desnecessariamente complicados e obscuros só pra escaparmos dos critérios lógicos?
São possibilidades, só não vejo o que de produtivo pode sair disso (o que não deve impedir ninguém de tentar); mas o fato de termos um objetivo não significa que temos esperança ou pretensão de alcançá-lo, é até uma forma boa de evitar fanatismo; enquanto o "sábio" estóico é um ser admitidamente inalcançável, até onde você vai na direção dele é escolha sua e ninguém pode te culpar pra parar pra jogar videogame no meio do caminho, mas quando ser um cristão ideal não só é possível, como pressuposto para entrar no paraíso, então todo o resto tem que ficar em segundo lugar, saca?
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Bah, eu vou parar por aqui, esse post está ficando circular.
Só queria dizer, quando eu frequentava o orkut era normal ter gente dizendo que tinha medo de postar nas comunidades que eu frequentava porque, enfim, eu respondia e eu respondia dessa forma; não quero que ninguém tenha medo de comentar, se eu não tiver um e-mail pra responder, vou responder aqui mesmo, mas a intenção não é menosprezar a opinião de ninguém, é só que eu fico preocupado mesmo que não estou sendo claro E que não estou passando a idéia completa (porque um problema gigante do orkut era esse, a pessoa tinha medo de receber um tl;dr [Too Long; Didn't Read] e simplesmente vomitava sua opinião em uma frase assumindo que todo mundo tem o mesmo acesso que você a linha de pensamento que te levou até lá, então eu tenho essa mania chata de querer explicar o porque de cada coisa, mesmo que eu não consiga fazer isso, mesmo que só complique mais, então quando eu paro pra escrever esses posts, fica esse debate chato na minha cabeça entre ser claro e objetivo e não deixar nenhuma ponta solta; não raro, falho nos dois, como desconfio que foi o caso aqui; oh well)
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Teoria Social Crítica
Era 1931 quando Max Horkheimer assumiu a direção do Insituto Para a Pesquisa Social; o instituto se diferenciava dos demais departamentos de pesquisa pelos seus objetivos metodológicos; a saber, a criação de uma teoria que mediasse a filosofia e a ciência empírica fazendo com que ambas tivessem em mente suas origens na sociedade.
Horkheimer encontrava na visão histórico-filosófica hegeliana um ponto de partida para tal empreitada, afinal, era em tal visão que se encontrava uma noção de razão que não podia ser separada do cotidiano em que a sociedade vive; além disso, o instituto era profundamente influenciado pela economia política marxista.
Tanto a teleologia hegeliana quanto a marxista apontavam para a razão como emancipadora e viam as distorções na sociedade como frutos da irracionalidade; seguindo esse projeto, o Instituto Para a Pesquisa Social criticava os neopositivistas, pois a visão destes que ciência movia a si própria era ilusória, não daria pra disassociar a ciência da sociedade onde vivem os cientistas; no que os neopositivistas tentavam fazer isso, estavam simplesmente se alienando; criticavam também os metafísicos pós-hegelianos pelo mesmo motivo, pois estes faziam uma crítica da razão sem considerar que a razão não pode ser estudada como algo fora da sociedade em que tais seres racionais vivem.
-
O ponto de partida para as pesquisas de Horkheimer, enfim, acabaria sendo a seguinte pergunta: "Como ocorrem os mecanismos mentais em virtude dos quais é possível que as tensões entre as classes sociais, que se sentem impelidas para o conflito por causa da situação econômica, possam permanecer latentes?", ou seja, se a razão tem inscrita em si um potencial para emancipação (como dizia Hegel) e tal potencial é liberado por meio das tensões sociais (como dizia Marx), o que acontece no presente que impede isso de acontecer?
Para responder essa pergunta, vinha a metodologia do instituto de fazer mediação entre ciência empírica e filosofia.
Das ciências empíricas que mais influenciaram o instituto, a psicanálise freudiana, por meio de Pollock, se destaca.
Pollock argumentava que as forças sociais só podiam ser liberadas em um ambiente de capitalismo liberal, de livre mercado pleno, entretanto, tal ambiente não existia, uma vez que o período era o chamado "capitalismo de Estado"; ao invés de uma economi livre, existia uma economia planejada e a sociedade permitia a economia planejada pois o liberalismo teria destruído a unidade familiar e criado, dessa forma, um vácuo na formação dos indivíduos; sem a autoridade dos pais, o indivíduo não desenvolveria um superego e se tornaria facilmente manipulado e aceitaria mais facilmente figuras autoritárias, daí que surgem os cultos a personalidade do fascismo e do estalinismo.
Além da análise da sociedade por meio da psicanalise, o Instituto analisava também a cultura; a teoria da cultura aparece como uma forma de psicologia de massa, onde se estuda empiricamente a forma como os indivíduos se ajustam as novas demandas da sociedade. Foi com base nesses estudos que Adorno chegou aos conhecidissimos conceitos de "cultura de massa" e "indústria cultural"; a idéia sendo que a arte deixa de ser objeto de apreciação estética para ser objeto de entretenimento e, como tal, ao invés de emancipadora, a arte só serve para anestesiar o indivíduo e moldá-lo para a sociedade.
-
É importante lembrar que todas as análises do Instituto Para a Pesquisa Social tem como base o marxismo, ou seja, a noção de que os indivíduos agem não por livre vontade, mas por mecânismos de contradições sociais; dessa forma, a economia política é a ciência mestre que explica e absorve as outras ciências, da cultura e da sociedade em geral; além disso, a razão é uma simples faculdade de instrumentalização dos objetos e progresso da razão se torna, portanto, progresso na capacidade de dominação da natureza.
Eventualmente, esse pensamento levou ao pessimismo de seus integrantes, influenciado por Schopenhauer e vivendo cada vez mais sob a ameaça do nazismo na Alemanha; Horkheimer e Adorno começam a chegar a conclusão de que o potencial libertador da razão não é liberado, pois a própria maneira como a razão funciona, ou seja, como faculdade de instrumentalização, tem como destino não a liberdade, mas a dominação; que a dominação do homem pelo homem é só mais um passo em um processo que começa com a dominação da natureza pelo homem, enfim, não mais a dialética do trabalho social explica como que a humanidade caiu em fascismo, mas a dialética da própria razão, em sua origem.
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Existe mais a se falar sobre esse assunto, ele é um tanto mais complexo do que eu exponho, existe o chamado "círculo externo" que não leva Marx tão a sério e que não caiu em pessimismo.
Além disso, o próprio texto que me serviu de base para esse post aponta as falhas desses pensadores, a saber, fidelidade demais ao funcionalismo marxista (que acabava por "esgotar" a vida social, reduzindo tudo a economia), quanto mais o Instituto começou a se aprofundar em suas próprias teorias, mais perdiam de vista o propósito inicial que dava ampla importância ao papel das ciências empíricas; enfim, se tornaram dogmáticos demais, criaram para si próprios um mundinho particular e ficaram brincando nele.
Não sei se eu tenho muito mais a dizer sobre isso, o que vai provavelmente me causar problemas acadêmicos, mas enfim, não consigo ver esses pensadores; Horkheimer; Adorno; Marcuse; como algo mais do que pensadores simplistas que se esforçavam por aplicar certas teorias "da moda" (como marxismo e freudianismo) na sociedade; ou seja; ao invés de olhar para a sociedade e tentar explicá-la usando a filosofia e as ciências empíricas como ferramentas (o que acredito que era o objetivo inicial do Instituto), eles partiam de uma teoria e ao encontrar obstáculos na teoria, tentavam procurar o problema que estava no mundo chato que se rescusa a concordar com a teoria que faz "tanto sentido" em suas cabeças; fazendo isso, utilizavam de todo tipo de ad hoc ridículo e imaginável.
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Eu sei, pouquissimo filosófico e menos inteligente ainda esse tipo de afirmação, bom, azar; a idéia geral do Instituto é boa; ter sempre em mente que você não pode separar a teoria da sociedade que o teórico vive, não rejeitar as ciências empíricas, não rejeitar a filosofia; esses pressupostos todos aparecem de certa forma em todos esses posts que tenho escrito nos últimos dias; a diferença de gente como Quine pra gente como Adorno não chega a ser uma diferença metodológica gigante; ambos dão grande valor as ciências empiricas, ambos dão importância enorme para o ambiente cultural em que o cientista vive, ambos são fisicalistas; a diferença é que Quine, e todo bom filósofo, de fato pensou a respeito do mundo ao invés de ficar brincando de tentar encaixa-lo dentro da teoria que te faz quentinho por dentro.
Horkheimer encontrava na visão histórico-filosófica hegeliana um ponto de partida para tal empreitada, afinal, era em tal visão que se encontrava uma noção de razão que não podia ser separada do cotidiano em que a sociedade vive; além disso, o instituto era profundamente influenciado pela economia política marxista.
Tanto a teleologia hegeliana quanto a marxista apontavam para a razão como emancipadora e viam as distorções na sociedade como frutos da irracionalidade; seguindo esse projeto, o Instituto Para a Pesquisa Social criticava os neopositivistas, pois a visão destes que ciência movia a si própria era ilusória, não daria pra disassociar a ciência da sociedade onde vivem os cientistas; no que os neopositivistas tentavam fazer isso, estavam simplesmente se alienando; criticavam também os metafísicos pós-hegelianos pelo mesmo motivo, pois estes faziam uma crítica da razão sem considerar que a razão não pode ser estudada como algo fora da sociedade em que tais seres racionais vivem.
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O ponto de partida para as pesquisas de Horkheimer, enfim, acabaria sendo a seguinte pergunta: "Como ocorrem os mecanismos mentais em virtude dos quais é possível que as tensões entre as classes sociais, que se sentem impelidas para o conflito por causa da situação econômica, possam permanecer latentes?", ou seja, se a razão tem inscrita em si um potencial para emancipação (como dizia Hegel) e tal potencial é liberado por meio das tensões sociais (como dizia Marx), o que acontece no presente que impede isso de acontecer?
Para responder essa pergunta, vinha a metodologia do instituto de fazer mediação entre ciência empírica e filosofia.
Das ciências empíricas que mais influenciaram o instituto, a psicanálise freudiana, por meio de Pollock, se destaca.
Pollock argumentava que as forças sociais só podiam ser liberadas em um ambiente de capitalismo liberal, de livre mercado pleno, entretanto, tal ambiente não existia, uma vez que o período era o chamado "capitalismo de Estado"; ao invés de uma economi livre, existia uma economia planejada e a sociedade permitia a economia planejada pois o liberalismo teria destruído a unidade familiar e criado, dessa forma, um vácuo na formação dos indivíduos; sem a autoridade dos pais, o indivíduo não desenvolveria um superego e se tornaria facilmente manipulado e aceitaria mais facilmente figuras autoritárias, daí que surgem os cultos a personalidade do fascismo e do estalinismo.
Além da análise da sociedade por meio da psicanalise, o Instituto analisava também a cultura; a teoria da cultura aparece como uma forma de psicologia de massa, onde se estuda empiricamente a forma como os indivíduos se ajustam as novas demandas da sociedade. Foi com base nesses estudos que Adorno chegou aos conhecidissimos conceitos de "cultura de massa" e "indústria cultural"; a idéia sendo que a arte deixa de ser objeto de apreciação estética para ser objeto de entretenimento e, como tal, ao invés de emancipadora, a arte só serve para anestesiar o indivíduo e moldá-lo para a sociedade.
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É importante lembrar que todas as análises do Instituto Para a Pesquisa Social tem como base o marxismo, ou seja, a noção de que os indivíduos agem não por livre vontade, mas por mecânismos de contradições sociais; dessa forma, a economia política é a ciência mestre que explica e absorve as outras ciências, da cultura e da sociedade em geral; além disso, a razão é uma simples faculdade de instrumentalização dos objetos e progresso da razão se torna, portanto, progresso na capacidade de dominação da natureza.
Eventualmente, esse pensamento levou ao pessimismo de seus integrantes, influenciado por Schopenhauer e vivendo cada vez mais sob a ameaça do nazismo na Alemanha; Horkheimer e Adorno começam a chegar a conclusão de que o potencial libertador da razão não é liberado, pois a própria maneira como a razão funciona, ou seja, como faculdade de instrumentalização, tem como destino não a liberdade, mas a dominação; que a dominação do homem pelo homem é só mais um passo em um processo que começa com a dominação da natureza pelo homem, enfim, não mais a dialética do trabalho social explica como que a humanidade caiu em fascismo, mas a dialética da própria razão, em sua origem.
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Existe mais a se falar sobre esse assunto, ele é um tanto mais complexo do que eu exponho, existe o chamado "círculo externo" que não leva Marx tão a sério e que não caiu em pessimismo.
Além disso, o próprio texto que me serviu de base para esse post aponta as falhas desses pensadores, a saber, fidelidade demais ao funcionalismo marxista (que acabava por "esgotar" a vida social, reduzindo tudo a economia), quanto mais o Instituto começou a se aprofundar em suas próprias teorias, mais perdiam de vista o propósito inicial que dava ampla importância ao papel das ciências empíricas; enfim, se tornaram dogmáticos demais, criaram para si próprios um mundinho particular e ficaram brincando nele.
Não sei se eu tenho muito mais a dizer sobre isso, o que vai provavelmente me causar problemas acadêmicos, mas enfim, não consigo ver esses pensadores; Horkheimer; Adorno; Marcuse; como algo mais do que pensadores simplistas que se esforçavam por aplicar certas teorias "da moda" (como marxismo e freudianismo) na sociedade; ou seja; ao invés de olhar para a sociedade e tentar explicá-la usando a filosofia e as ciências empíricas como ferramentas (o que acredito que era o objetivo inicial do Instituto), eles partiam de uma teoria e ao encontrar obstáculos na teoria, tentavam procurar o problema que estava no mundo chato que se rescusa a concordar com a teoria que faz "tanto sentido" em suas cabeças; fazendo isso, utilizavam de todo tipo de ad hoc ridículo e imaginável.
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Eu sei, pouquissimo filosófico e menos inteligente ainda esse tipo de afirmação, bom, azar; a idéia geral do Instituto é boa; ter sempre em mente que você não pode separar a teoria da sociedade que o teórico vive, não rejeitar as ciências empíricas, não rejeitar a filosofia; esses pressupostos todos aparecem de certa forma em todos esses posts que tenho escrito nos últimos dias; a diferença de gente como Quine pra gente como Adorno não chega a ser uma diferença metodológica gigante; ambos dão grande valor as ciências empiricas, ambos dão importância enorme para o ambiente cultural em que o cientista vive, ambos são fisicalistas; a diferença é que Quine, e todo bom filósofo, de fato pensou a respeito do mundo ao invés de ficar brincando de tentar encaixa-lo dentro da teoria que te faz quentinho por dentro.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Analyze this!
Quão pouco da realidade nós conhecemos?
Recebemos alguns dados dos nossos sentidos, mas o que garante sua realidade?
A resposta de muitos filósofos contemporâneos seria "não importa".
Não tem como saber, mas não afeta nossa vida diretamente.
Sendo os dados do sentido fiéis a uma tal realidade independente deles ou não, a questão é que conseguimos formular teorias complexas sobre esses dados e, baseados nessas teorias, conseguimos construir coisas que funcionam e, num geral, conseguimos nos comunicar; podemos não nos entender de forma perfeitamente clara, mas se existem várias coisas em uma mesa e eu digo "me traz o copo", você entende não só de que objeto eu estou falando, mas também que interação eu quero que surja entre eu, você e o objeto em questão.
Tendo isso em mente, não importa realmente se o copo é ou deixa de ser assim na "realidade em si".
Empiristas num geral costumam partir desse príncipio; que se algo está além do mundo das coisas que podemos experimentar com qualquer ferramenta sensorial que tenhamos, então é perca de tempo falar sobre essas coisas, não só porque não podemos conhecê-las (o que por si só já torna uma perca de tempo tentar conhecê-las) como também porque conhecimento extraído disso não nos ajudaria a construir aviões, curar doenças e nem resolver o problema que os norte-americanos criaram no Oriente Médio.
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Foi partindo desses príncipios que Willard Van Norman Quine começou a se aprofundar no estudo da filosofia e, logo em suas primeiras descobertas, ele se tornaria um dos principais personagens da novela filosófica contemporânea chamada "filosofia analítica".
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Quine inicia seus pensamentos tendo como verdade que é impossível ter qualquer conhecimento que não tenha partido dos sentidos, mas eventualmente ele chega a questão de que não é possível traçar de volta todos seus conhecimentos aos estimulos sensoriais que eles receberam.
Ou seja, você sabe que aviões voam, que a Pucca é lindinha, que azul e vermelho são coisas diferentes, mas você não consegue descobrir o momento em que "aprendeu" essas coisas; a primeira vez que viu um avião no céu, que viu uma Pucca na TV, que viu as cores vermelho e azul. Isso não significa que seu conhecimento não foi empírico, só quer dizer que você age no cotidiano sem ser fiel a proposição "todo conhecimento é empírico" porque você não precisa sempre ver aviões no céu para saber que eles voam e você não precisa lembrar da primeira vez que viu um, você simplesmente sabe.
Em teorias científicas, as coisas ficam ainda mais complicadas, porque a idéia de progresso na ciência é que você leia o que outra pessoa escreveu e, a partir disso, experimente mais; mas por exemplo, você está testando cientificamente se existe algum ponto no corpo humano que não sente dor. Então você lê o trabalho de alguém que deu um peteleco na orelha esquerda de uma pessoa e ela sentiu dor; a partir disso você dá um peteleco na orelha direita de outra pessoa e vê que ela sente dor; então anota "petelecos nas duas orelhas causam dor"; mas, de fato, você só experimentou cientificamente a orelha direita, a orelha esquerda você simplesmente assume que o cientista anterior não estava mentindo.
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Isso fez com que Quine chegasse a seguinte conclusão: nós não, de fato, estudamos o que os sentidos nos dizem, além dos dados dos sentidos, temos uma porção de "informações colaterais", ou seja, informações que não são inatas (ou seja, que temos desde o nascimento), não vieram de uma realidade além do tal "mundo físico" dos nosso sentidos, mas que também não vieram da empiria; ou seja, são coisas que recebemos culturalmente de outros seres humanos ou por vias que não lembramos, mas que fazem parte de nossa "teoria de mundo" particular.
Essas informações colaterais são importantes, pois, por meio delas, podemos ter uma mesma quantidade de dados empíricos que levam a conclusões diferentes. Dois cientistas olham o mesmo estudo e chegam a conclusões diferentes; isso acontece, em primeiro lugar, porque, como diz Hume, não podemos observar a causalidade; ou seja, nós vemos um evento acontecendo primeiro e outro em seguida e logo deduzimos que o segundo foi causado pelo primeiro, entretanto, isso é uma mera dedução, não há garantias disso; em segundo lugar, porque cada cientista tem sua própria "teoria de mundo" formado pelas informações colaterais que receberam, culturalmente, durante suas vidas.
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É claro que a empiria tem um "grau" de verdade mais forte do que as informações colaterais; você não pode negar a visão de uma pessoa assassinando a outra só pelo fato de sua religião ter te ensinado desde criança que seres humanos são incapazes de ferir uns aos outros; ciência se tornou tão confiável a nós exatamente porque divergências culturais que um indivíduo tem com o outro não tem uma força maior do que os dados das experiências sensíveis, mas, afinal de contas - e esse é talvez o ponto que os filósofos contemporâneos mais prestam atenção - as pesquisas científicas não progridem ao se analisar as experiências dos outros; mas ao se analisar seus relatos científicos; no fundo, você não está lendo meu conhecimento, mas meramente minhas palavras e você não as está interpretando exatamente da maneira que quero que interprete e nem tirando exatamente as conclusões que quero que tire, mas está interpretando esse texto de acordo com sua própria formação cultural (parenteses bobinho: se você não sabe ler português, aqui não existe nenhum "conhecimento", apenas letras sem sentido...mesmo lendo português talvez isso seja verdade) e tirando suas conclusões sobre ele.
Isso levaria Quine, eventualmente, a admitir que "de acordo com posicionamento epistemológico, os objetos físicos e os deuses apenas diferem em grau e não em tipo. Ambos tipos de entidades entram nosso conceito apenas como proposições culturais", claro, Quine admite que seria um erro aos cientistas levarem os deuses tão a sério como se levam os objetos físicos; mas a questão é que a maioria do nosso conhecimento pode ser chamado de "cultural" ao invés de "empírico", pois o que analisamos quando fazemos ciência não é a experiência alheia, mas sim seu relato expresso em palavras que só fazem sentido em um certo contexto cultural.
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Prosseguindo o raciocinio, alguém poderia perguntar "se tanto ciência quanto os deuses são apenas proposições culturais, porque levamos um a sério e não o outro?" e a resposta é pragmática; a ciência constrói computadores, os deuses não. Os gatos também não constróem computadores, mas eles são lindinhos e podem ser acariciados.

Tudo isso faz parte de um projeto maior e mais ambicioso (e que vem sendo tentado desde o século XVII até onde eu sei) que é de fazer filosofia com um método científico.
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Não que o projeto seja o mesmo desde o século XVII, assim que Descartes o propôs pela primeira vez, a idéia de ciência era uma ciência racionalista, ou seja, a idéia era que se partisse de uma proposição "clara e distinta" e dela se tirasse uma conclusão e dessa conclusão outra e bla bla bla até descobrir tudo que há de se descobrir.
Quando o empirismo ganhou força, isso se tornou mais difícil, pois se a idéia é "partir da experiência sensível", fica difícil perguntar coisas do tipo "o que é o real?" porque nós temos experiências de coisas "reais" e não do "Real" com R maiusculo; depois de Kant então, sequer experiência do "real" nós temos, apenas mesmo dos seus fenômenos.
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Com Quine, a idéia ganhou força de novo.
Se a ciência não analisa experiências, mas sim frases, basta que nós também analisemos frases.
A idéia é que a ciência tem resultados por ter um vocabulário técnico que permite o mínimo de divergências possíveis, ou seja, "toda vez que X acontecer, chamaremos de X, assim se você ver X em um paper, vai saber que X aconteceu", por isso, ainda o que se estuda são palavras num papel, mas um vocabulário rígido o bastante permite que essas palavras deêm apenas uma margem para interpretação, de modo que as "informações colaterais", embora sempre presentes, afetem o menos possível.
A idéia é fazer filosofia assim.
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De certa forma, a frustração de Kant continua válida; "porque a razão se coloca essas perguntas que não pode responder?" ou seja, porque a razão se pergunta pela alma ou pelo inicio do universo ou porque a Pucca é tão lindinha se não pode responder essas perguntas?
Bom, a idéia da filosofia analítica é retomar essas perguntas e criar uma vocabulário filosófico rígido o bastante pra permitir respostas.
Dessa forma, perguntar "o que é real?" é uma pergunta estranha, pois ela pede a definição de uma palavra sem definição; a pergunta certa, de acordo com Quine, seria "quais são os engajamentos ontológicos do nosso discurso?" ou seja, nessa frase aqui, quais são os "estatutos" de realidade dos objetos referidos por essas palavras?
Seja o que for, não se estuda a realidade diretamente e nem os dados dos sentidos, mas sim as afirmações feitas sobre a realidade e então procura verificar a veracidade lógica de tais afirmações e, num geral, se as palavras utilizadas no discurso estão sendo utilizadas de acordo com o que define o tal dicionário rígido e "científico" de termos filosófios.
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Acho que o interessante de Quine, por mais que eu sinta uma dificuldade particular em concordar com seu método (já chego lá), é que, diferente do que fizeram os positivistas lógicos (em quem ele se inspirou muito) e muitos e muitos outros filósofos importantes, ele entende que os objetos da filosofia e os das ciências são diferentes sem descartar os objetos da filosofia.
O método, afinal, é uma espécie de forma oca; por mais que tanto ciência e filosofia sejam feitas por análise de sentenças, a semelhança meio que para por aí; se você analisa uma proposição científica, você toma como pressuposto que aquilo quer descrever uma experiência, enquanto na filosofia geralmente se analisam argumentos.
Pode-se dizer que um analisa relações causais e o outro relações lógicas.
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O meu problema é que não acho que isso seja distância o bastante da ciência; acho louvável reconhecer que filosofia e ciência são coisas diferentes; pra começar, desde que o seu príncipio, a filosofia questiona a si própria "o que é filosofia?" e não acho que algum aluno de engenharia mecânica levante a mão e diga "o que é engenharia mecânica?" de acordo com a Wikipedia, engenharia mecânica é "a aplicação de matemática e ciêcias básicas, principalmente física, na concepção, construção, análise, manutenção e operação de sistemas mecânicos" e talvez um engenheiro ou outro tenha alguma divergência lá e cá nessa definição, mas acho que num geral, ninguém deixa de fazer seu trabalho por isso.
Agora a filosofia é diferente, "o que é filosofia?" é uma pergunta para a qual praticamente todo filósofo tem uma resposta diferente, não raro, como é o meu caso, não há resposta. Pelo menos não uma que contenha um rigor; poderia se dizer que filosofia é a área do conhecimento que lida com certas questões pré-definidas "filosóficas" como ética, estética; mas acontece que um dia engenharia mecânica também era uma área do conhecimento considerada "filosófica", astronomia então não existia sem metafísica!
A filosofia tem esse talento de agregar e abandonar assuntos ao seu leque de coisas estudadas; geralmente quando um assunto desenvolve um método confiável, ele deixa a filosofia pra trás; acho que ninguém mais discute astronomia na filosofia a não ser em questões históricas, os astrônomos conseguem fazer descobertas por conta própria muito bem sem ter que lidar conosco; economia por outro lado (por exemplo), vez ou outra dá um jeito de aparecer, não é considerado nenhum tipo de metafísica, mas ainda não é uma ciência formulada o bastante pra andar por conta própria; outras como psicologia está começando a aprender a andar sem filosofia; enquanto áreas como estética ainda são consideradas filosofia porque não existe nenhum tipo de método cientifico para estudar arte.
Então poderia se dizer que filosofia é uma espécie de "pré-ciência", um espaço onde estudar assuntos que ainda não desenvolveram um método; mas se a própria filosofia tem, com a filosofia analítica, um método que é formalmente igual ao método científico, então filosofia deixa de ser filosofia.
Por fim, eu estou mais alinhado com Kant; de que a ciência cuida de coisas que podem ser verificadas empiricamente enquanto filosofia cuida dessas coisas transcedentais como "alma" e "substância"; o que apresenta mais um problema; o primeiro é essa noção de a ciência não é lá aquela coisa assim tão empírica, embora isso seja muito importante; um motivo pelo qual "engenharia mecânica" é *bem ciência* e psicologia é *menos ciência* enquanto estética é *não ciência* é porque "sistemas mecânicos" são quase completamente observáveis (pelo menos enquanto lidamos com objetos "médios", ou seja, nada do tamanho de um sol, nada do tamanho de um quark); já psique não é observável, mas os comportamentos que ela produz são; enquanto "experiência estética" é pouquissimo ou nada observável; você tem ou não tem e ainda nada foi descoberto que cause essa experiência (tal "nada", chamamos de "arte").
Mas além desse problema, existe também o problema da limitação; ok, a filosofia em si não faz progresso nas outras ciências, mas o filósofo não pode se retirar completamente desse mundo. Quando eu digo que não há uma distância grande o bastante entre filosofia e ciência em Quine é que eu não acredito que filosofia possa ser feito por meio de análise de sentenças (acho que o principal motivo é que acredito que meu tempo é melhor gasto pensando nas coisas do que planejando um dicionário rigoroso de filosofia e - mesmo que tal dicionário exista - seria péssimo tê-lo me limitando, acho que filosofia tem esse talento de ser produtiva mesmo sendo nonsense às vezes), mas filosofia não pode deixar de utilizar (e, caso a oportunidade apareça, ampliar) os conhecimentos adquiridos pela ciência.
Então retirar filsofia do "mundo sensível", por tentador que seja, não é correto; vivemos em tal mundo sensível, fazemos parte dessa realidade, não podemos ignorar o pragmatismo e esperar encontrar algum tipo de verdade, porque afinal, essa idéia de encontrar respostas sobre uma tal "realidade em si" que é universal e eterna implica que estamos o tempo todo em nosso objeto de estudo; que aliás é um ponto que me leva a discordar dos pragmatistas e concordar ao mesmo tempo. Estudar uma tal "realidade me si" não é algo fútil só porque está fora do esquema sócio-político das coisas, afinal, estamos embrenhados na realidade mais do que estamos na sociedade ou na "pólis"; por outro lado; não dá pra ignorar a sociedade e a cultura porque elas são parte indispensáveis de nossas "teorias de mundo" e fingir que não é... bem... fingir que não e isso é errado e tal.
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Então eu não sei o que é filosofia, mas eu sei que eu faço isso, é um nonsense analítico, mas não deixa de fazer sentido. Sem nem entrar na questão de questão de que talvez o mundo não seja lógico (porque esse é o tipo de pergunta que pragmáticos dispensam inútil porque, afinal, não dá pra analisar discursos em um mundo ilógico [tem um "e, portanto" que se seguiria disso, mas acho que a primeira parte explica ele]), mas acho que a filosofia não sobrevive, não se torna culturalmente relevante, nem interessante; sem fazer saltos.
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Ok, tem que ser saltos calculados, mas acho que a filosofia é grandiosa por viver nessa área cinza em que ninguém tem muita certeza do que está falando; dado o quão pouco apreendemos da realidade (did you see what I just did there?) e que desse pouco não conseguimos elaborar discursos que descrevam com 100% de fidelidade nossa experiência sensível, acho seguro deduzir que a tal "área cinza" de incertezas é gigante. Esse movimento filosófico, de perguntar coisas sem nunca encontrar uma resposta, é relevante; não acho que seja um salto dizer que talvez a relevância cultural da filosofia está nas perguntas que formula e não nas que responde; nas hipóteses que levanta e não nas que comprova.
Mas de novo, é um movimento; filosofia não é formular perguntas da mesma forma que não é respondê-las; é exatamente essa caminhada na área cinzenta do conhecimento humano, não só do conhecimento científico, mas de toda "informação colateral" que nos acerta.
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Talvez o método do Quine leve a progressos na filosofia, mas acho relevante perguntar se "progresso" é um termo que se aplica aqui; se ao focar em responder as perguntas tradicionais ou buscar apenas questões de relevância sócio-cultural não perdemos o foco tanto do que há de tradicional tanto o que há de relevante na sociedade; porque o que se tornou tradição não se tornou tradição por já ser tradicional e o que se tornou relevante não se tornou relevante por já ser relevante; meu ponto é que a filosofia não se torna importante quando faz parte da sociedade, mas quando alguém olha pra um lado que ninguém está olhando e, quando essa pessoa se torna percebida, ela impõe que a sociedade olhe para o seu lado.
Não estou advogando aqui olhos de Deus; nem filósofos-reis; mas acho que a postura é meio que ser um freak. O freak não deixa de ser um produto da mesma sociedade que os normais; mas ele é um freak. Ele não deixa de fazer parte, mas também não faz parte.
Ele é cinza.
Recebemos alguns dados dos nossos sentidos, mas o que garante sua realidade?
A resposta de muitos filósofos contemporâneos seria "não importa".
Não tem como saber, mas não afeta nossa vida diretamente.
Sendo os dados do sentido fiéis a uma tal realidade independente deles ou não, a questão é que conseguimos formular teorias complexas sobre esses dados e, baseados nessas teorias, conseguimos construir coisas que funcionam e, num geral, conseguimos nos comunicar; podemos não nos entender de forma perfeitamente clara, mas se existem várias coisas em uma mesa e eu digo "me traz o copo", você entende não só de que objeto eu estou falando, mas também que interação eu quero que surja entre eu, você e o objeto em questão.
Tendo isso em mente, não importa realmente se o copo é ou deixa de ser assim na "realidade em si".
Empiristas num geral costumam partir desse príncipio; que se algo está além do mundo das coisas que podemos experimentar com qualquer ferramenta sensorial que tenhamos, então é perca de tempo falar sobre essas coisas, não só porque não podemos conhecê-las (o que por si só já torna uma perca de tempo tentar conhecê-las) como também porque conhecimento extraído disso não nos ajudaria a construir aviões, curar doenças e nem resolver o problema que os norte-americanos criaram no Oriente Médio.
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Foi partindo desses príncipios que Willard Van Norman Quine começou a se aprofundar no estudo da filosofia e, logo em suas primeiras descobertas, ele se tornaria um dos principais personagens da novela filosófica contemporânea chamada "filosofia analítica".
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Quine inicia seus pensamentos tendo como verdade que é impossível ter qualquer conhecimento que não tenha partido dos sentidos, mas eventualmente ele chega a questão de que não é possível traçar de volta todos seus conhecimentos aos estimulos sensoriais que eles receberam.
Ou seja, você sabe que aviões voam, que a Pucca é lindinha, que azul e vermelho são coisas diferentes, mas você não consegue descobrir o momento em que "aprendeu" essas coisas; a primeira vez que viu um avião no céu, que viu uma Pucca na TV, que viu as cores vermelho e azul. Isso não significa que seu conhecimento não foi empírico, só quer dizer que você age no cotidiano sem ser fiel a proposição "todo conhecimento é empírico" porque você não precisa sempre ver aviões no céu para saber que eles voam e você não precisa lembrar da primeira vez que viu um, você simplesmente sabe.
Em teorias científicas, as coisas ficam ainda mais complicadas, porque a idéia de progresso na ciência é que você leia o que outra pessoa escreveu e, a partir disso, experimente mais; mas por exemplo, você está testando cientificamente se existe algum ponto no corpo humano que não sente dor. Então você lê o trabalho de alguém que deu um peteleco na orelha esquerda de uma pessoa e ela sentiu dor; a partir disso você dá um peteleco na orelha direita de outra pessoa e vê que ela sente dor; então anota "petelecos nas duas orelhas causam dor"; mas, de fato, você só experimentou cientificamente a orelha direita, a orelha esquerda você simplesmente assume que o cientista anterior não estava mentindo.
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Isso fez com que Quine chegasse a seguinte conclusão: nós não, de fato, estudamos o que os sentidos nos dizem, além dos dados dos sentidos, temos uma porção de "informações colaterais", ou seja, informações que não são inatas (ou seja, que temos desde o nascimento), não vieram de uma realidade além do tal "mundo físico" dos nosso sentidos, mas que também não vieram da empiria; ou seja, são coisas que recebemos culturalmente de outros seres humanos ou por vias que não lembramos, mas que fazem parte de nossa "teoria de mundo" particular.
Essas informações colaterais são importantes, pois, por meio delas, podemos ter uma mesma quantidade de dados empíricos que levam a conclusões diferentes. Dois cientistas olham o mesmo estudo e chegam a conclusões diferentes; isso acontece, em primeiro lugar, porque, como diz Hume, não podemos observar a causalidade; ou seja, nós vemos um evento acontecendo primeiro e outro em seguida e logo deduzimos que o segundo foi causado pelo primeiro, entretanto, isso é uma mera dedução, não há garantias disso; em segundo lugar, porque cada cientista tem sua própria "teoria de mundo" formado pelas informações colaterais que receberam, culturalmente, durante suas vidas.
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É claro que a empiria tem um "grau" de verdade mais forte do que as informações colaterais; você não pode negar a visão de uma pessoa assassinando a outra só pelo fato de sua religião ter te ensinado desde criança que seres humanos são incapazes de ferir uns aos outros; ciência se tornou tão confiável a nós exatamente porque divergências culturais que um indivíduo tem com o outro não tem uma força maior do que os dados das experiências sensíveis, mas, afinal de contas - e esse é talvez o ponto que os filósofos contemporâneos mais prestam atenção - as pesquisas científicas não progridem ao se analisar as experiências dos outros; mas ao se analisar seus relatos científicos; no fundo, você não está lendo meu conhecimento, mas meramente minhas palavras e você não as está interpretando exatamente da maneira que quero que interprete e nem tirando exatamente as conclusões que quero que tire, mas está interpretando esse texto de acordo com sua própria formação cultural (parenteses bobinho: se você não sabe ler português, aqui não existe nenhum "conhecimento", apenas letras sem sentido...mesmo lendo português talvez isso seja verdade) e tirando suas conclusões sobre ele.
Isso levaria Quine, eventualmente, a admitir que "de acordo com posicionamento epistemológico, os objetos físicos e os deuses apenas diferem em grau e não em tipo. Ambos tipos de entidades entram nosso conceito apenas como proposições culturais", claro, Quine admite que seria um erro aos cientistas levarem os deuses tão a sério como se levam os objetos físicos; mas a questão é que a maioria do nosso conhecimento pode ser chamado de "cultural" ao invés de "empírico", pois o que analisamos quando fazemos ciência não é a experiência alheia, mas sim seu relato expresso em palavras que só fazem sentido em um certo contexto cultural.
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Prosseguindo o raciocinio, alguém poderia perguntar "se tanto ciência quanto os deuses são apenas proposições culturais, porque levamos um a sério e não o outro?" e a resposta é pragmática; a ciência constrói computadores, os deuses não. Os gatos também não constróem computadores, mas eles são lindinhos e podem ser acariciados.

Tudo isso faz parte de um projeto maior e mais ambicioso (e que vem sendo tentado desde o século XVII até onde eu sei) que é de fazer filosofia com um método científico.
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Não que o projeto seja o mesmo desde o século XVII, assim que Descartes o propôs pela primeira vez, a idéia de ciência era uma ciência racionalista, ou seja, a idéia era que se partisse de uma proposição "clara e distinta" e dela se tirasse uma conclusão e dessa conclusão outra e bla bla bla até descobrir tudo que há de se descobrir.
Quando o empirismo ganhou força, isso se tornou mais difícil, pois se a idéia é "partir da experiência sensível", fica difícil perguntar coisas do tipo "o que é o real?" porque nós temos experiências de coisas "reais" e não do "Real" com R maiusculo; depois de Kant então, sequer experiência do "real" nós temos, apenas mesmo dos seus fenômenos.
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Com Quine, a idéia ganhou força de novo.
Se a ciência não analisa experiências, mas sim frases, basta que nós também analisemos frases.
A idéia é que a ciência tem resultados por ter um vocabulário técnico que permite o mínimo de divergências possíveis, ou seja, "toda vez que X acontecer, chamaremos de X, assim se você ver X em um paper, vai saber que X aconteceu", por isso, ainda o que se estuda são palavras num papel, mas um vocabulário rígido o bastante permite que essas palavras deêm apenas uma margem para interpretação, de modo que as "informações colaterais", embora sempre presentes, afetem o menos possível.
A idéia é fazer filosofia assim.
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De certa forma, a frustração de Kant continua válida; "porque a razão se coloca essas perguntas que não pode responder?" ou seja, porque a razão se pergunta pela alma ou pelo inicio do universo ou porque a Pucca é tão lindinha se não pode responder essas perguntas?
Bom, a idéia da filosofia analítica é retomar essas perguntas e criar uma vocabulário filosófico rígido o bastante pra permitir respostas.
Dessa forma, perguntar "o que é real?" é uma pergunta estranha, pois ela pede a definição de uma palavra sem definição; a pergunta certa, de acordo com Quine, seria "quais são os engajamentos ontológicos do nosso discurso?" ou seja, nessa frase aqui, quais são os "estatutos" de realidade dos objetos referidos por essas palavras?
Seja o que for, não se estuda a realidade diretamente e nem os dados dos sentidos, mas sim as afirmações feitas sobre a realidade e então procura verificar a veracidade lógica de tais afirmações e, num geral, se as palavras utilizadas no discurso estão sendo utilizadas de acordo com o que define o tal dicionário rígido e "científico" de termos filosófios.
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Acho que o interessante de Quine, por mais que eu sinta uma dificuldade particular em concordar com seu método (já chego lá), é que, diferente do que fizeram os positivistas lógicos (em quem ele se inspirou muito) e muitos e muitos outros filósofos importantes, ele entende que os objetos da filosofia e os das ciências são diferentes sem descartar os objetos da filosofia.
O método, afinal, é uma espécie de forma oca; por mais que tanto ciência e filosofia sejam feitas por análise de sentenças, a semelhança meio que para por aí; se você analisa uma proposição científica, você toma como pressuposto que aquilo quer descrever uma experiência, enquanto na filosofia geralmente se analisam argumentos.
Pode-se dizer que um analisa relações causais e o outro relações lógicas.
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O meu problema é que não acho que isso seja distância o bastante da ciência; acho louvável reconhecer que filosofia e ciência são coisas diferentes; pra começar, desde que o seu príncipio, a filosofia questiona a si própria "o que é filosofia?" e não acho que algum aluno de engenharia mecânica levante a mão e diga "o que é engenharia mecânica?" de acordo com a Wikipedia, engenharia mecânica é "a aplicação de matemática e ciêcias básicas, principalmente física, na concepção, construção, análise, manutenção e operação de sistemas mecânicos" e talvez um engenheiro ou outro tenha alguma divergência lá e cá nessa definição, mas acho que num geral, ninguém deixa de fazer seu trabalho por isso.
Agora a filosofia é diferente, "o que é filosofia?" é uma pergunta para a qual praticamente todo filósofo tem uma resposta diferente, não raro, como é o meu caso, não há resposta. Pelo menos não uma que contenha um rigor; poderia se dizer que filosofia é a área do conhecimento que lida com certas questões pré-definidas "filosóficas" como ética, estética; mas acontece que um dia engenharia mecânica também era uma área do conhecimento considerada "filosófica", astronomia então não existia sem metafísica!
A filosofia tem esse talento de agregar e abandonar assuntos ao seu leque de coisas estudadas; geralmente quando um assunto desenvolve um método confiável, ele deixa a filosofia pra trás; acho que ninguém mais discute astronomia na filosofia a não ser em questões históricas, os astrônomos conseguem fazer descobertas por conta própria muito bem sem ter que lidar conosco; economia por outro lado (por exemplo), vez ou outra dá um jeito de aparecer, não é considerado nenhum tipo de metafísica, mas ainda não é uma ciência formulada o bastante pra andar por conta própria; outras como psicologia está começando a aprender a andar sem filosofia; enquanto áreas como estética ainda são consideradas filosofia porque não existe nenhum tipo de método cientifico para estudar arte.
Então poderia se dizer que filosofia é uma espécie de "pré-ciência", um espaço onde estudar assuntos que ainda não desenvolveram um método; mas se a própria filosofia tem, com a filosofia analítica, um método que é formalmente igual ao método científico, então filosofia deixa de ser filosofia.
Por fim, eu estou mais alinhado com Kant; de que a ciência cuida de coisas que podem ser verificadas empiricamente enquanto filosofia cuida dessas coisas transcedentais como "alma" e "substância"; o que apresenta mais um problema; o primeiro é essa noção de a ciência não é lá aquela coisa assim tão empírica, embora isso seja muito importante; um motivo pelo qual "engenharia mecânica" é *bem ciência* e psicologia é *menos ciência* enquanto estética é *não ciência* é porque "sistemas mecânicos" são quase completamente observáveis (pelo menos enquanto lidamos com objetos "médios", ou seja, nada do tamanho de um sol, nada do tamanho de um quark); já psique não é observável, mas os comportamentos que ela produz são; enquanto "experiência estética" é pouquissimo ou nada observável; você tem ou não tem e ainda nada foi descoberto que cause essa experiência (tal "nada", chamamos de "arte").
Mas além desse problema, existe também o problema da limitação; ok, a filosofia em si não faz progresso nas outras ciências, mas o filósofo não pode se retirar completamente desse mundo. Quando eu digo que não há uma distância grande o bastante entre filosofia e ciência em Quine é que eu não acredito que filosofia possa ser feito por meio de análise de sentenças (acho que o principal motivo é que acredito que meu tempo é melhor gasto pensando nas coisas do que planejando um dicionário rigoroso de filosofia e - mesmo que tal dicionário exista - seria péssimo tê-lo me limitando, acho que filosofia tem esse talento de ser produtiva mesmo sendo nonsense às vezes), mas filosofia não pode deixar de utilizar (e, caso a oportunidade apareça, ampliar) os conhecimentos adquiridos pela ciência.
Então retirar filsofia do "mundo sensível", por tentador que seja, não é correto; vivemos em tal mundo sensível, fazemos parte dessa realidade, não podemos ignorar o pragmatismo e esperar encontrar algum tipo de verdade, porque afinal, essa idéia de encontrar respostas sobre uma tal "realidade em si" que é universal e eterna implica que estamos o tempo todo em nosso objeto de estudo; que aliás é um ponto que me leva a discordar dos pragmatistas e concordar ao mesmo tempo. Estudar uma tal "realidade me si" não é algo fútil só porque está fora do esquema sócio-político das coisas, afinal, estamos embrenhados na realidade mais do que estamos na sociedade ou na "pólis"; por outro lado; não dá pra ignorar a sociedade e a cultura porque elas são parte indispensáveis de nossas "teorias de mundo" e fingir que não é... bem... fingir que não e isso é errado e tal.
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Então eu não sei o que é filosofia, mas eu sei que eu faço isso, é um nonsense analítico, mas não deixa de fazer sentido. Sem nem entrar na questão de questão de que talvez o mundo não seja lógico (porque esse é o tipo de pergunta que pragmáticos dispensam inútil porque, afinal, não dá pra analisar discursos em um mundo ilógico [tem um "e, portanto" que se seguiria disso, mas acho que a primeira parte explica ele]), mas acho que a filosofia não sobrevive, não se torna culturalmente relevante, nem interessante; sem fazer saltos.
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Ok, tem que ser saltos calculados, mas acho que a filosofia é grandiosa por viver nessa área cinza em que ninguém tem muita certeza do que está falando; dado o quão pouco apreendemos da realidade (did you see what I just did there?) e que desse pouco não conseguimos elaborar discursos que descrevam com 100% de fidelidade nossa experiência sensível, acho seguro deduzir que a tal "área cinza" de incertezas é gigante. Esse movimento filosófico, de perguntar coisas sem nunca encontrar uma resposta, é relevante; não acho que seja um salto dizer que talvez a relevância cultural da filosofia está nas perguntas que formula e não nas que responde; nas hipóteses que levanta e não nas que comprova.
Mas de novo, é um movimento; filosofia não é formular perguntas da mesma forma que não é respondê-las; é exatamente essa caminhada na área cinzenta do conhecimento humano, não só do conhecimento científico, mas de toda "informação colateral" que nos acerta.
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Talvez o método do Quine leve a progressos na filosofia, mas acho relevante perguntar se "progresso" é um termo que se aplica aqui; se ao focar em responder as perguntas tradicionais ou buscar apenas questões de relevância sócio-cultural não perdemos o foco tanto do que há de tradicional tanto o que há de relevante na sociedade; porque o que se tornou tradição não se tornou tradição por já ser tradicional e o que se tornou relevante não se tornou relevante por já ser relevante; meu ponto é que a filosofia não se torna importante quando faz parte da sociedade, mas quando alguém olha pra um lado que ninguém está olhando e, quando essa pessoa se torna percebida, ela impõe que a sociedade olhe para o seu lado.
Não estou advogando aqui olhos de Deus; nem filósofos-reis; mas acho que a postura é meio que ser um freak. O freak não deixa de ser um produto da mesma sociedade que os normais; mas ele é um freak. Ele não deixa de fazer parte, mas também não faz parte.
Ele é cinza.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Máquinas de Deus e Máquinas do Homem 2
(o problema de se criar títulos legais é essa vontade de reutilizá-los.)
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Em 1748, Julien Offray de La Mettrie, um médico francês, criou um conceito que, até onde eu sei, é praticamente unânime nos circulos científicos atuais; a idéia de que o homem é uma máquina metabolizante, que desde seu corpo até sua alma não fossem mais do que reações químicas.
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Séculos mais tarde, o alemão Martin Heidegger se viu em uma configuração mundial que lhe causou certo desconforto.
Olhando para um lado, ele via nos Estados Unidos da América e na Europa ocidental, sob a bandeira da liberdade, habitantes felizes cercados por máquinas que realizavam serviços domésticos, rádios que transmitiam notícias e histórias e, cada vez mais, um entusiasmo por essas coisas que prometiam trabalhar em seu lugar; do outro lado, a União Soviética via toda a sociedade como uma enorme máquina, cada operário uma engrenagem, restando a razão humana descobrir qual o lugar certo de colocá-lo e otimizá-lo para saciar todas as necessidades; enfim, na sua própria Alemanha; sob a bandeira do partido nazista (que Heidegger fazia parte), médicos e biólogos ganhavam honras e destaques e focavam sua atenção na evolução genética.
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Heidegger viu nesse quadro alguns paradoxos; que engraçado esse homem, ele cria técnicas científicas para se retirar da natureza, controlá-la, estudá-la, se ver livre dela e, quanto mais faz isso, mais se vê como um ser sujeito as leis da natureza, quanto mais se distancia, mais ele faz parte.
De fato, quando os antigos gregos, ainda pagãos, se sentiam muito mais conectados a natureza e ao mundo, havia com eles uma linha definitiva entre homem e animal; a razão.
Com trabalhos como o de La Mettrie, essa linha vai se acabando; logo plantas, animais e homens, todos fazem parte do mesmo complexo de relações bioquímicas, mas apesar de se ver cada vez mais como parte integral da natureza, o homem também se vê cada vez mais distante da natureza; logo, criamos todo tipo de técnicas para nos afastarmos, técnicas para construirmos casas e carros e afastar cada vez mais tudo que é de animalesco e brutal da nossa sociedade; não só isso, criamos técnicas de auto-controle, técnicas para aliviar o sofrimento, técnicas para emagrecer, ter bons relacionamentos; tudo tem um manual explicando técnicas de como chegar lá e cada técnica tem esse objetivo: afastar a natureza; mas tais técnicas só fazem sentido em um ambiente cientificista; para que o homem possa realizar uma técnica de "auto-controle" (por exemplo) é preciso que ele veja o seu controle como algo explicável pela razão, ou seja, algo feito da mesma coisa que são feitos as plantas e as webcams, fazendo isso, o homem perde aquilo que faz dele um "homem" fora do ciclo natural das coisas e se torna um animal como qualquer outro; seu objetivo com isso? Superar seus instintos e fazê-lo algo além de um animal como qualquer outro.
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Estou com uma tentação enorme de tentar deixar esse paradoxo mais claro, mas paradoxos são confusos mesmo, pra resumir, é algo assim:
O homem realiza técnicas para controlar a natureza e se libertar dela; o homem também faz isso consigo próprio, ele cria técnicas para controlar sua natureza e se libertar dela, ao fazer isso ele se inclui totalmente como parte da natureza, ou seja, eis o paradoxo, quanto mais o homem tenta se excluir da natureza, mas ele se vê como parte integrante dessa.
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Em relação a técnica, acho que Heidegger expressa bem o medo que alguns sentem em relação a tecnologia; por um lado existe o medo de estarmos nos afastando demais da natureza, perdendo contato com ela, por outro lado estamos fazendo parte demais dela, perdendo, portanto, contato com nossa humanidade.
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Não vejo, agora, nenhuma barreira óbvia pra ciência; tirando algumas questões éticas específicas; não acho que um cientista deva interromper seu trabalho dizendo "pesquisar isso vai fazer o homem se ver como uma máquina e perder contato com sua humanidade"; num geral, trabalhos como o de La Mettrie devem ser respeitados e tratados com seriedade.
Outro problema com a técnica é a nossa dependência dela; escolhemos nos libertar da natureza e, em troca, somos escravizados pela técnica; num exemplo bobo; escolhemos nos libertar do trabalho laborial em uma fazenda para nos tornar escravos do supermercado; mais uma vez, não acho que cientistas deveriam perder o sono por causa disso.
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Em termos de vidas particulares e uma busca geral pela felicidade, acho que as coisas mudam; por mais que a ciência diga que o homem pode ser reduzido a química; existe um problema grande na pessoa se ver como um ser reduzido a química, algo do tipo, não existe problema ético no cientista te dizer que todos seus sonhos e esperanças não passam de reações químicas; existe sim um problema ético em você acreditar nisso.
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Quer nos vejamos como máquinas ou parte da natureza (que, na visão de Heidegger, e eu concordo; é a mesma coisa) estamos sacrificando nossa humanidade, pior, estamos deixando de fazer parte do mundo real para sermos observados por nós próprios; estamos nos tornando nossas próprias cobaias.
Não falo isso em um sentido coletivista, no sentido de "um humano torna o outro sua cobaia", mas numa relação interna.
Tomamos essas pílulas para ajustar isso ou aquilo, estudamos essa ou aquela ação nossa, planejamos nosso dia, ao fazer essa coisa, não parece que estamos tratando a nós mesmos na terceira pessoa? Não é como se uma parte da minha cabeça, pretensamente fora da minha cabeça, dissesse para mim "hora de fazer isso ou aquilo"?
-
Pois acho que temos que temos que queimar essas últimas pontes.
O desafio que se coloca a nós, humanos, é que tudo que encontramos para nos libertar de uma aflição acaba se tornando um vício, logo outra aflição. Trocamos uma escravidão por outra e ficamos nesses debates para ver qual é melhor.
Mas eu acho que isso está acabando. Acho que estamos conquistando nosso direito a arrogância.
Estamos, finalmente, aprendendo a andar no mundo.
-
De repente, me deu grande alegria em fazer parte do hoje.
Com todos os nossos problemas climáticos, políticos e culturais e, talvez por causa disso, eu sinto como se tudo aquilo que impede algo grande e bom de acontecer está "apelando" por se sentir desesperado.
-
Logo eles se cansam, mas nós não.
Nós já estamos cansados e aprendemos a viver assim.
Logo eles perdem a esperança, mas nós não.
Nós nunca tivemos esperança e aprendemos a viver assim.
Logo eles se desesperam porque suas técnicas se movem a si próprios e eles se sentirão inúteis.
Nós nunca vimos utilidade na sua utilidade.
-
Eu não sei quem é esse "nós", talvez seja simplesmente minhas múltiplas personalidades entrando em acordo; a questão é quase uma experiência sublime schopenhaueriana; uma conexão com o real por meio de um mergulho dentro de si próprio.
-
Deus está morto e para andarmos na terra com sua arrogância, precisamos primeiro caminhar em nossas vidas.
Criamos máquinas para que as máquinas de Deus não nos impeçam, só temos agora que estabilizar esse planetinha mal feito que ele toscamente criou.
Derrotamos Deus com a técnica, não podemos fazer isso conosco; a técnica é controle e nossa ânsia por controle tem que parar nas fronteiras com nossa liberdade. Controlamos o mundo, não podemos controlar a nós mesmos.
-
Acho que a resposta pra isso está em aceitar as não-respostas.
Desde o começo da ciência, uma das qualidades da ciência sempre foi sua capacidade de prever o futuro.
Acho que a nossa questão é começar a achar formas de imprevisibilidade sem perder o controle que conquistamos.
A idéia (e é uma idéia difícil de ser implementada) não é abdicar da segurança de previsibilidade, mas apenas da previsibilidade; acho que, nesse sentido, "cobrir o mundo de plástico" ganha um aspecto importante; é algo como plástico-bolha que dá a caixa o direito de cair no chão.
-
A dictonomia segurança x liberdade é clássica e ela se aplica aqui; como criar um mundo que te dá liberdade para falhar em segurança?
Não vejo uma resposta, mas acho que em algum lugar dessa minha linha de pensamento vai surgir alguma nova proposta de vida. Não nova ou original, simplesmente algo em que o futuro não importe; a idéia é que falhar tenha consequências, que não exista segurança, mas que isso não importe porque aguentamos as punições.
-
Liberdade em um sentido não-político é complicada; não podemos ser escravos das técnicas de auto-controle; nem das vontades irracionais; nem dos impulsos biológicos; muitas prisões a se libertar, uma leva a outra, é como um complexo de masmorras subterrâneas e... de alguma forma... a saída secreta parece ser desistir... existe algo de libertador em falhar... ou melhor, em não precisar ser bem-sucedido.
-
Matamos Deus; estamos acabando de limpar sua sombra da parede, o planeta em breve será completamente nosso; a humanidade, vista como simplesmente humanidade em si, vai cada vez crescer mais no nosso imaginário. O humanismo que está para vir será tão diferente do que veio que nem vai merecer o prefixo "neo"; não vai ser uma questão de nos afirmarmos como centro do universo, não teremos mais concorrentes, será uma questão de ganharmos estatuto de seres que observam, de deixarmos de ser objeto de estudo, controle e utilitarismo para nos tornar objetos de vida.
-
Existe uma tensão entre o ser humano real e o ser humano observado, ela vai vir a tona quando esses probleminhas menores como terrorismo e aquecimento global forem resolvidos.
Vai ser uma batalha gloriosa e vai vencer aquele que se importar menos, o prêmio será o nada e virá empacotado em plástico e incertezas.
Será que esse dia vai chegar? Ou estou me tornando uma daquelas pessoas loucas da internet que inventam teorias abstratas que não fazem sentido?
...
Eu tenho medo de teorias.
Eu tenho medo de ter que mostrar ao mundo minha visão do mundo.
É nessas horas que eu vejo os espaços entre arte e filosofia.
Minhas histórias tem muito da minha filosofia nelas, mas eu *PRECISO* filosofar para me expressar; a arte não chega perto de englobar a totalidade do meu pensamento e nem a filosofia, mas a parte de mim que é expressa pela arte não tem medo. Ninguém pode julgar minhas histórias de amor.
Mas minhas histórias sobre mundos de plástico, deuses mortos e amantes do caos... essas sim serão julgadas.
Tenho medo...
Tenho medo porque está tudo começando a, de alguma forma, fazer sentido... até o que não faz sentido, está se encaixando de alguma forma... e eu não me sinto inteligente o suficiente para fazer sentido, não acho que tenha conhecimento o bastante para fazer sentido, meu medo é que o quebra-cabeça só está se completando porque eu estou brincando com o modelo recomendado para crianças e em algum lugar os adultos vão rir de mim.
-
Malditos adultos e seus sapatos grandes demais.
-
Em 1748, Julien Offray de La Mettrie, um médico francês, criou um conceito que, até onde eu sei, é praticamente unânime nos circulos científicos atuais; a idéia de que o homem é uma máquina metabolizante, que desde seu corpo até sua alma não fossem mais do que reações químicas.
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Séculos mais tarde, o alemão Martin Heidegger se viu em uma configuração mundial que lhe causou certo desconforto.
Olhando para um lado, ele via nos Estados Unidos da América e na Europa ocidental, sob a bandeira da liberdade, habitantes felizes cercados por máquinas que realizavam serviços domésticos, rádios que transmitiam notícias e histórias e, cada vez mais, um entusiasmo por essas coisas que prometiam trabalhar em seu lugar; do outro lado, a União Soviética via toda a sociedade como uma enorme máquina, cada operário uma engrenagem, restando a razão humana descobrir qual o lugar certo de colocá-lo e otimizá-lo para saciar todas as necessidades; enfim, na sua própria Alemanha; sob a bandeira do partido nazista (que Heidegger fazia parte), médicos e biólogos ganhavam honras e destaques e focavam sua atenção na evolução genética.
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Heidegger viu nesse quadro alguns paradoxos; que engraçado esse homem, ele cria técnicas científicas para se retirar da natureza, controlá-la, estudá-la, se ver livre dela e, quanto mais faz isso, mais se vê como um ser sujeito as leis da natureza, quanto mais se distancia, mais ele faz parte.
De fato, quando os antigos gregos, ainda pagãos, se sentiam muito mais conectados a natureza e ao mundo, havia com eles uma linha definitiva entre homem e animal; a razão.
Com trabalhos como o de La Mettrie, essa linha vai se acabando; logo plantas, animais e homens, todos fazem parte do mesmo complexo de relações bioquímicas, mas apesar de se ver cada vez mais como parte integral da natureza, o homem também se vê cada vez mais distante da natureza; logo, criamos todo tipo de técnicas para nos afastarmos, técnicas para construirmos casas e carros e afastar cada vez mais tudo que é de animalesco e brutal da nossa sociedade; não só isso, criamos técnicas de auto-controle, técnicas para aliviar o sofrimento, técnicas para emagrecer, ter bons relacionamentos; tudo tem um manual explicando técnicas de como chegar lá e cada técnica tem esse objetivo: afastar a natureza; mas tais técnicas só fazem sentido em um ambiente cientificista; para que o homem possa realizar uma técnica de "auto-controle" (por exemplo) é preciso que ele veja o seu controle como algo explicável pela razão, ou seja, algo feito da mesma coisa que são feitos as plantas e as webcams, fazendo isso, o homem perde aquilo que faz dele um "homem" fora do ciclo natural das coisas e se torna um animal como qualquer outro; seu objetivo com isso? Superar seus instintos e fazê-lo algo além de um animal como qualquer outro.
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Estou com uma tentação enorme de tentar deixar esse paradoxo mais claro, mas paradoxos são confusos mesmo, pra resumir, é algo assim:
O homem realiza técnicas para controlar a natureza e se libertar dela; o homem também faz isso consigo próprio, ele cria técnicas para controlar sua natureza e se libertar dela, ao fazer isso ele se inclui totalmente como parte da natureza, ou seja, eis o paradoxo, quanto mais o homem tenta se excluir da natureza, mas ele se vê como parte integrante dessa.
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Em relação a técnica, acho que Heidegger expressa bem o medo que alguns sentem em relação a tecnologia; por um lado existe o medo de estarmos nos afastando demais da natureza, perdendo contato com ela, por outro lado estamos fazendo parte demais dela, perdendo, portanto, contato com nossa humanidade.
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Não vejo, agora, nenhuma barreira óbvia pra ciência; tirando algumas questões éticas específicas; não acho que um cientista deva interromper seu trabalho dizendo "pesquisar isso vai fazer o homem se ver como uma máquina e perder contato com sua humanidade"; num geral, trabalhos como o de La Mettrie devem ser respeitados e tratados com seriedade.
Outro problema com a técnica é a nossa dependência dela; escolhemos nos libertar da natureza e, em troca, somos escravizados pela técnica; num exemplo bobo; escolhemos nos libertar do trabalho laborial em uma fazenda para nos tornar escravos do supermercado; mais uma vez, não acho que cientistas deveriam perder o sono por causa disso.
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Em termos de vidas particulares e uma busca geral pela felicidade, acho que as coisas mudam; por mais que a ciência diga que o homem pode ser reduzido a química; existe um problema grande na pessoa se ver como um ser reduzido a química, algo do tipo, não existe problema ético no cientista te dizer que todos seus sonhos e esperanças não passam de reações químicas; existe sim um problema ético em você acreditar nisso.
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Quer nos vejamos como máquinas ou parte da natureza (que, na visão de Heidegger, e eu concordo; é a mesma coisa) estamos sacrificando nossa humanidade, pior, estamos deixando de fazer parte do mundo real para sermos observados por nós próprios; estamos nos tornando nossas próprias cobaias.
Não falo isso em um sentido coletivista, no sentido de "um humano torna o outro sua cobaia", mas numa relação interna.
Tomamos essas pílulas para ajustar isso ou aquilo, estudamos essa ou aquela ação nossa, planejamos nosso dia, ao fazer essa coisa, não parece que estamos tratando a nós mesmos na terceira pessoa? Não é como se uma parte da minha cabeça, pretensamente fora da minha cabeça, dissesse para mim "hora de fazer isso ou aquilo"?
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Pois acho que temos que temos que queimar essas últimas pontes.
O desafio que se coloca a nós, humanos, é que tudo que encontramos para nos libertar de uma aflição acaba se tornando um vício, logo outra aflição. Trocamos uma escravidão por outra e ficamos nesses debates para ver qual é melhor.
Mas eu acho que isso está acabando. Acho que estamos conquistando nosso direito a arrogância.
Estamos, finalmente, aprendendo a andar no mundo.
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De repente, me deu grande alegria em fazer parte do hoje.
Com todos os nossos problemas climáticos, políticos e culturais e, talvez por causa disso, eu sinto como se tudo aquilo que impede algo grande e bom de acontecer está "apelando" por se sentir desesperado.
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Logo eles se cansam, mas nós não.
Nós já estamos cansados e aprendemos a viver assim.
Logo eles perdem a esperança, mas nós não.
Nós nunca tivemos esperança e aprendemos a viver assim.
Logo eles se desesperam porque suas técnicas se movem a si próprios e eles se sentirão inúteis.
Nós nunca vimos utilidade na sua utilidade.
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Eu não sei quem é esse "nós", talvez seja simplesmente minhas múltiplas personalidades entrando em acordo; a questão é quase uma experiência sublime schopenhaueriana; uma conexão com o real por meio de um mergulho dentro de si próprio.
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Deus está morto e para andarmos na terra com sua arrogância, precisamos primeiro caminhar em nossas vidas.
Criamos máquinas para que as máquinas de Deus não nos impeçam, só temos agora que estabilizar esse planetinha mal feito que ele toscamente criou.
Derrotamos Deus com a técnica, não podemos fazer isso conosco; a técnica é controle e nossa ânsia por controle tem que parar nas fronteiras com nossa liberdade. Controlamos o mundo, não podemos controlar a nós mesmos.
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Acho que a resposta pra isso está em aceitar as não-respostas.
Desde o começo da ciência, uma das qualidades da ciência sempre foi sua capacidade de prever o futuro.
Acho que a nossa questão é começar a achar formas de imprevisibilidade sem perder o controle que conquistamos.
A idéia (e é uma idéia difícil de ser implementada) não é abdicar da segurança de previsibilidade, mas apenas da previsibilidade; acho que, nesse sentido, "cobrir o mundo de plástico" ganha um aspecto importante; é algo como plástico-bolha que dá a caixa o direito de cair no chão.
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A dictonomia segurança x liberdade é clássica e ela se aplica aqui; como criar um mundo que te dá liberdade para falhar em segurança?
Não vejo uma resposta, mas acho que em algum lugar dessa minha linha de pensamento vai surgir alguma nova proposta de vida. Não nova ou original, simplesmente algo em que o futuro não importe; a idéia é que falhar tenha consequências, que não exista segurança, mas que isso não importe porque aguentamos as punições.
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Liberdade em um sentido não-político é complicada; não podemos ser escravos das técnicas de auto-controle; nem das vontades irracionais; nem dos impulsos biológicos; muitas prisões a se libertar, uma leva a outra, é como um complexo de masmorras subterrâneas e... de alguma forma... a saída secreta parece ser desistir... existe algo de libertador em falhar... ou melhor, em não precisar ser bem-sucedido.
-
Matamos Deus; estamos acabando de limpar sua sombra da parede, o planeta em breve será completamente nosso; a humanidade, vista como simplesmente humanidade em si, vai cada vez crescer mais no nosso imaginário. O humanismo que está para vir será tão diferente do que veio que nem vai merecer o prefixo "neo"; não vai ser uma questão de nos afirmarmos como centro do universo, não teremos mais concorrentes, será uma questão de ganharmos estatuto de seres que observam, de deixarmos de ser objeto de estudo, controle e utilitarismo para nos tornar objetos de vida.
-
Existe uma tensão entre o ser humano real e o ser humano observado, ela vai vir a tona quando esses probleminhas menores como terrorismo e aquecimento global forem resolvidos.
Vai ser uma batalha gloriosa e vai vencer aquele que se importar menos, o prêmio será o nada e virá empacotado em plástico e incertezas.
Será que esse dia vai chegar? Ou estou me tornando uma daquelas pessoas loucas da internet que inventam teorias abstratas que não fazem sentido?
...
Eu tenho medo de teorias.
Eu tenho medo de ter que mostrar ao mundo minha visão do mundo.
É nessas horas que eu vejo os espaços entre arte e filosofia.
Minhas histórias tem muito da minha filosofia nelas, mas eu *PRECISO* filosofar para me expressar; a arte não chega perto de englobar a totalidade do meu pensamento e nem a filosofia, mas a parte de mim que é expressa pela arte não tem medo. Ninguém pode julgar minhas histórias de amor.
Mas minhas histórias sobre mundos de plástico, deuses mortos e amantes do caos... essas sim serão julgadas.
Tenho medo...
Tenho medo porque está tudo começando a, de alguma forma, fazer sentido... até o que não faz sentido, está se encaixando de alguma forma... e eu não me sinto inteligente o suficiente para fazer sentido, não acho que tenha conhecimento o bastante para fazer sentido, meu medo é que o quebra-cabeça só está se completando porque eu estou brincando com o modelo recomendado para crianças e em algum lugar os adultos vão rir de mim.
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Malditos adultos e seus sapatos grandes demais.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Felicitologia
No começo do século XX, intelectuais vienenses passaram a se reunir regularmente e discutir as questões filosóficas e cientificas que eram mais pertinentes a eles; isso eventualmente se chamaria "Círculos de Viena".
Uma teoria que se tornou popular nesse círculo era o que acabou sendo chamado de "neopositivismo".
-
O positivismo é a doutrina que vê no método científico uma superação da filosofia, mais especificamente, da metafísica.
O neopositivismo preserva essa doutrina básica, tendo como diferença principal a atenção à linguagem; ou seja; se os positivistas acreditavam que conseguiriam decifrar o mundo por meio da ciência, o neopositivista acredita que ciência é uma convenção de frases aceitas por um grupo e que a ciência não bem estuda o mundo, mas sim essas frases que são, na melhor das hipóteses, traduções mais ou menos fiéis do que os sentidos de algum indíviduo particular "pega" do mundo.
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Dessa forma, a propósita maior do neopositivismo é a criação de uma linguagem lógica e cientifica que consiga integrar as ciências ao fazê-las falarem todos o mesmo idioma.
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Seja como for, a questão do positivismo que é mais polêmica é a idéia de que o método lógico-empirista pode ser usado não só pra explodir coisas e garantir que eu assista séries legendadas no meu computador sem pagar nada aos autores, mas também para criar seres humanos melhores, organizar a economia, resolver problemas éticos; enfim, tudo depende da razão.
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Há um tempo atrás eu fiz um post dizendo porque eu gostava tanto de tecnologia e eu faria mais desses, mas tem sempre algo que me pertuba.
É essa idéia de que a razão é uma coisa que serve tanto para fazer videogames caros demais pra mim quanto pra me apontar qual é o caminho para a felicidade.
A idéia de felicidade baseada em razão não é nem um pouco nova, aliás, ela existe na maioria dos autores até a modernidade, agora de cabeça, só consigo lembrar de David Hume explicitamente condenando esse tipo de postura, aliás, vale a pena até ser citado:
"Mas, de todas as mais infrutíferas tentativas de fazer arte, nenhuma é tão ridícula como aquela empreendida pelos severos filósofos, de produzir uma felicidade artificial, procurando dar-nos satisfação através da razão e da reflexão."
Talvez por motivos diferentes, concordo com Hume; o "mundo" dentro da nossa cabeça é um lugar muito muito complexo, por anacrônico que seja (anacrônico ao nível do ingênuo talvez) eu concordo com Schopenhauer que a mente, de alguma forma, obedece leis metafísicas e que seu funcionamento está além da nossa capacidade de compreensão.
Aliás, tirando a parte metafísica da minha forma de ver as coisas, a parte do "além da nossa capacidade de compreensão" acho que é mais ou menos consenso entre os psicólogos, sempre vai ter *algum* inconsciente.
-
Dado o caráter altamente não-empírico da felicidade, é estranho que positivistas tenham se interessado tanto por esse tema; felicidade não pode ser observada (apenas "comportamento feliz", o que é outra coisa imensamente diferente), comprovada, verificada, falseada e, enfim, existem pouquissimas, se alguma, relações causais universais em relação a felicidade (ou seja, existem poucas coisas que sempre causam felicidade não importa o contexto).
-
Esses problemas entretanto não impediram Otto Neurath, do Primeiro Círculo de Viena, a criar algo chamado "felicitologia"; antes de pensar em uma teoria filosófica ou científica complexa, Neurath era um auto-proclamado engenheiro social marxista que simplesmente acreditava ser capaz de organizar a economia através de um planejamento central e assim saciar a necessidade das pessoas e, portanto, trazer a felicidade.
Longe de ser um pensamento original ou incomum, o que me surpreendeu foi como Neurath transportava a complexidade do mundo para sua área de interesse.
-
Por exemplo, outras características do (neo)positivismo é o holismo que, nesse contexto, significa que um sistema científico faz parte de um todo e que, portanto, você não consegue alterar um fator sem alterar um sistema inteiro e relativismo, especialmente forte no neopositivismo, relativismo aqui diz que "certo" e "errado" só é certo e errado em relação ao sistema científico escolhido pelo pesquisador em questão.
-
Além disso, Neurath particularmente acreditava em algo chamado decisionismo; ou seja; quando um pesquisador cientifico chega a uma encruzilhada e não tem meios objetivos de realizar a escolha, é recomendado que ele jogue uma moeda pra cima e escolha aleatoriamente, é algo do tipo, entre perder tempo tentando fazer uma opção impossível e/ou desistir da pesquisa, que se prossiga sem ter certeza mesmo e, caso a tese se apresente falsa, que se descubra lá na frente.
-
Achei interessante como alguém que acredita que o problema da felicidade pode ser resolvido organizando racionalmente os recursos materiais da sociedade de forma centralizada (ele até dizia algo meio específico do dia "os homens trabalhariam 12 anos e as mulheres 7" ou algo assim) admtisse tão sem problemas que uma pesquisa científica pode depender do acaso, aliás, até recomendasse que deixasse a sorte logo cuidar de decisões que, aparentemente, estavam além da razão.
-
Enfim, acho que o impulso de Otto Neurath não foi estranho, ele era um cientista, um engenheiro, ele estudava economia e, portanto, não via problemas em admitir complexidade nessas áreas; felicidade, por outro lado, é uma questão que sempre dá um jeito de ser metafísica (por mais que drogas alterem sua personalidade, dificilmente alguém diria que uma droga te faz "feliz"; só o fato de haver uma distinção entre "felicidade" e "euforia" já problematiza a questão); uma vez que Neurath acreditava que metafísica deveria ser eliminada e que os métodos científicos deveriam oferecer todas as respostas, parece natural que ele simplificasse uma questão metafísica; afinal, se você reduz a questão da felicidade ao materialismo, então se torna uma questão de saciar necessidades corporais ou ativar hormônios e áreas do cerebro correspondentes a euforia e essa tal "felicidade" que consiste em algo maior do que estar sorrindo o tempo todo pode ser dispensado como uma palavra sem sentido, tal como "substância" ou "alma".
-
Por mais que eu aprecia o entusiasmo dos positivistas pela razão e pelo progresso da ciência, é sempre bom tomar cuidado com teorias que expliquem comportamentos ou estados mentais.
-
Pra quem acha que positivismo foi ultrapassado e que hoje entendemos que não devemos ter um governo central controlando a felicidade e coisas do tipo, acho importante notar que o governo chavista tem muito dessa postura e, deixando política de lado, é interessante observar o caráter científico dos livros de auto-ajuda atuais.
-
Manuais de como aliviar o sofrimento são comuns na humanidade e, particularmente, acho que eles são um ótimo reflexo do que a época considera importante; auto-ajuda no helenismo e no império romano era filosófica; na idade média era religiosa e hoje é científica; que essa ciência seja uma psicologia estudada durante anos em uma universidade ou uma lei da atração inventada em 5 minutos por alguma doida parasita, a lógica é mais ou menos a mesma.
"Olha, essa coisa resolveu esse problema, então veja como eu a usarei para resolver o seu sofrimento".
-
De certa forma, isso tem origem no nosso modo grego de pensar as coisas, de novo, voltando a Tales de Mileto; "tudo é água", desde as rochas até os deuses.
"Se o método cientifico descobriu como os átomos se movem, porque não pode descobrir como a felicidade se move?"
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Não é a toa que essa é uma etapa do niilismo; a modernidade iniciou um movimento que acabou por destruir a religião e, depois, a metafísica como força capaz de explicar o universo; sobra a ciência. Então reduzir a felicidade a uma questão materialista e, admitir complexidade na ciência, mas encarar o sofrimento humano como uma questão econômica, é, de certa forma, um impulso de sobrevivência.
Se Otto Neurath admitisse que a felicidade de alguém também dependesse de acasos, arbitrariedades, complexos sistemas holísticos e relativismos; então ele estaria fechando sua última porta até essa; se tornaria um cético e, quem sabe, pessimista; o que contrariaria não só seu marxismo, mas todo seu ofício como "engenheiro social".
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Existe mesmo algo de difícil em admitir que a felicidade é incerta.
Uma teoria que se tornou popular nesse círculo era o que acabou sendo chamado de "neopositivismo".
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O positivismo é a doutrina que vê no método científico uma superação da filosofia, mais especificamente, da metafísica.
O neopositivismo preserva essa doutrina básica, tendo como diferença principal a atenção à linguagem; ou seja; se os positivistas acreditavam que conseguiriam decifrar o mundo por meio da ciência, o neopositivista acredita que ciência é uma convenção de frases aceitas por um grupo e que a ciência não bem estuda o mundo, mas sim essas frases que são, na melhor das hipóteses, traduções mais ou menos fiéis do que os sentidos de algum indíviduo particular "pega" do mundo.
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Dessa forma, a propósita maior do neopositivismo é a criação de uma linguagem lógica e cientifica que consiga integrar as ciências ao fazê-las falarem todos o mesmo idioma.
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Seja como for, a questão do positivismo que é mais polêmica é a idéia de que o método lógico-empirista pode ser usado não só pra explodir coisas e garantir que eu assista séries legendadas no meu computador sem pagar nada aos autores, mas também para criar seres humanos melhores, organizar a economia, resolver problemas éticos; enfim, tudo depende da razão.
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Há um tempo atrás eu fiz um post dizendo porque eu gostava tanto de tecnologia e eu faria mais desses, mas tem sempre algo que me pertuba.
É essa idéia de que a razão é uma coisa que serve tanto para fazer videogames caros demais pra mim quanto pra me apontar qual é o caminho para a felicidade.
A idéia de felicidade baseada em razão não é nem um pouco nova, aliás, ela existe na maioria dos autores até a modernidade, agora de cabeça, só consigo lembrar de David Hume explicitamente condenando esse tipo de postura, aliás, vale a pena até ser citado:
"Mas, de todas as mais infrutíferas tentativas de fazer arte, nenhuma é tão ridícula como aquela empreendida pelos severos filósofos, de produzir uma felicidade artificial, procurando dar-nos satisfação através da razão e da reflexão."
Talvez por motivos diferentes, concordo com Hume; o "mundo" dentro da nossa cabeça é um lugar muito muito complexo, por anacrônico que seja (anacrônico ao nível do ingênuo talvez) eu concordo com Schopenhauer que a mente, de alguma forma, obedece leis metafísicas e que seu funcionamento está além da nossa capacidade de compreensão.
Aliás, tirando a parte metafísica da minha forma de ver as coisas, a parte do "além da nossa capacidade de compreensão" acho que é mais ou menos consenso entre os psicólogos, sempre vai ter *algum* inconsciente.
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Dado o caráter altamente não-empírico da felicidade, é estranho que positivistas tenham se interessado tanto por esse tema; felicidade não pode ser observada (apenas "comportamento feliz", o que é outra coisa imensamente diferente), comprovada, verificada, falseada e, enfim, existem pouquissimas, se alguma, relações causais universais em relação a felicidade (ou seja, existem poucas coisas que sempre causam felicidade não importa o contexto).
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Esses problemas entretanto não impediram Otto Neurath, do Primeiro Círculo de Viena, a criar algo chamado "felicitologia"; antes de pensar em uma teoria filosófica ou científica complexa, Neurath era um auto-proclamado engenheiro social marxista que simplesmente acreditava ser capaz de organizar a economia através de um planejamento central e assim saciar a necessidade das pessoas e, portanto, trazer a felicidade.
Longe de ser um pensamento original ou incomum, o que me surpreendeu foi como Neurath transportava a complexidade do mundo para sua área de interesse.
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Por exemplo, outras características do (neo)positivismo é o holismo que, nesse contexto, significa que um sistema científico faz parte de um todo e que, portanto, você não consegue alterar um fator sem alterar um sistema inteiro e relativismo, especialmente forte no neopositivismo, relativismo aqui diz que "certo" e "errado" só é certo e errado em relação ao sistema científico escolhido pelo pesquisador em questão.
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Além disso, Neurath particularmente acreditava em algo chamado decisionismo; ou seja; quando um pesquisador cientifico chega a uma encruzilhada e não tem meios objetivos de realizar a escolha, é recomendado que ele jogue uma moeda pra cima e escolha aleatoriamente, é algo do tipo, entre perder tempo tentando fazer uma opção impossível e/ou desistir da pesquisa, que se prossiga sem ter certeza mesmo e, caso a tese se apresente falsa, que se descubra lá na frente.
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Achei interessante como alguém que acredita que o problema da felicidade pode ser resolvido organizando racionalmente os recursos materiais da sociedade de forma centralizada (ele até dizia algo meio específico do dia "os homens trabalhariam 12 anos e as mulheres 7" ou algo assim) admtisse tão sem problemas que uma pesquisa científica pode depender do acaso, aliás, até recomendasse que deixasse a sorte logo cuidar de decisões que, aparentemente, estavam além da razão.
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Enfim, acho que o impulso de Otto Neurath não foi estranho, ele era um cientista, um engenheiro, ele estudava economia e, portanto, não via problemas em admitir complexidade nessas áreas; felicidade, por outro lado, é uma questão que sempre dá um jeito de ser metafísica (por mais que drogas alterem sua personalidade, dificilmente alguém diria que uma droga te faz "feliz"; só o fato de haver uma distinção entre "felicidade" e "euforia" já problematiza a questão); uma vez que Neurath acreditava que metafísica deveria ser eliminada e que os métodos científicos deveriam oferecer todas as respostas, parece natural que ele simplificasse uma questão metafísica; afinal, se você reduz a questão da felicidade ao materialismo, então se torna uma questão de saciar necessidades corporais ou ativar hormônios e áreas do cerebro correspondentes a euforia e essa tal "felicidade" que consiste em algo maior do que estar sorrindo o tempo todo pode ser dispensado como uma palavra sem sentido, tal como "substância" ou "alma".
-
Por mais que eu aprecia o entusiasmo dos positivistas pela razão e pelo progresso da ciência, é sempre bom tomar cuidado com teorias que expliquem comportamentos ou estados mentais.
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Pra quem acha que positivismo foi ultrapassado e que hoje entendemos que não devemos ter um governo central controlando a felicidade e coisas do tipo, acho importante notar que o governo chavista tem muito dessa postura e, deixando política de lado, é interessante observar o caráter científico dos livros de auto-ajuda atuais.
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Manuais de como aliviar o sofrimento são comuns na humanidade e, particularmente, acho que eles são um ótimo reflexo do que a época considera importante; auto-ajuda no helenismo e no império romano era filosófica; na idade média era religiosa e hoje é científica; que essa ciência seja uma psicologia estudada durante anos em uma universidade ou uma lei da atração inventada em 5 minutos por alguma doida parasita, a lógica é mais ou menos a mesma.
"Olha, essa coisa resolveu esse problema, então veja como eu a usarei para resolver o seu sofrimento".
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De certa forma, isso tem origem no nosso modo grego de pensar as coisas, de novo, voltando a Tales de Mileto; "tudo é água", desde as rochas até os deuses.
"Se o método cientifico descobriu como os átomos se movem, porque não pode descobrir como a felicidade se move?"
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Não é a toa que essa é uma etapa do niilismo; a modernidade iniciou um movimento que acabou por destruir a religião e, depois, a metafísica como força capaz de explicar o universo; sobra a ciência. Então reduzir a felicidade a uma questão materialista e, admitir complexidade na ciência, mas encarar o sofrimento humano como uma questão econômica, é, de certa forma, um impulso de sobrevivência.
Se Otto Neurath admitisse que a felicidade de alguém também dependesse de acasos, arbitrariedades, complexos sistemas holísticos e relativismos; então ele estaria fechando sua última porta até essa; se tornaria um cético e, quem sabe, pessimista; o que contrariaria não só seu marxismo, mas todo seu ofício como "engenheiro social".
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Existe mesmo algo de difícil em admitir que a felicidade é incerta.
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Oh sweet nothing
Niilismo é, toscamente, aquilo que acontece quando um sistema de valores derruba a si próprio e nada entra em seu lugar.
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O sistema de valores baseados em mitologia ou força bruta que existia nos tempos antigos não derrubou a si próprio; ele foi superado por outros valores; quando Heráclito disse que Homero merecia ser açoitado e expulso da cidade, não foi algo tão diferente do que quando Nietzsche disse que Deus estava morto (só, talvez, mais inconsciente).
Ainda na Grécia, um menino de ombros largos ficou muito impressionado com Heráclito; algo na teoria de que tudo mudava e nada permanecia o mesmo assustava Platão: "Oras" dizia o serzinho patético "se um homem não pode sequer entrar no mesmo rio duas vezes, pois tanto o homem quanto o rio mudam continuamente, como posso viver em uma sociedade justa, sendo que a sociedade sempre muda? Como terei uma opinião se os fatos sempre mudam?" e assim ele continuava se perguntando até sentir tédio e ir atrás de algum menino bonito.
Mas eis que Platão eventualmente encontrou um menino feio que ofereceu uma resposta; era algo do tipo "tudo que os sentidos experimentam estão sempre em mudança, são sempre um 'vir-a-ser', mas existem aquelas coisas que permanecem sempre as mesmas, aquelas coisas que nunca mudam" e então dizia Sócrates, bem inspirado por Parmênides (outro feio, mas nem tanto) que existiam essas coisas além do mundo dos sentidos, essas coisas chamadas "justo" e "belo"; essas coisas não nascem do mundo dos sentidos, elas entram na nossa cabeça de alguma outra forma e elas podem ser acessíveis se ficarmos irritante nos perguntando "porque?" o tempo todo.
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Logo isso se desenvolveu, Sócrates foi condenado a escolher entre ouvir um disco de si próprio repetindo "porque?" eternamente ou beber veneno; muito sábio, escolheu o veneno.
Sem o mestre, Platão continuou por conta própria e desenvolveu a teoria dos conceitos puros; eventualmente ele chegou a conclusão que se tais conceitos não vinham do mundo sensível, eles tinham que vir de um mundo onde as coisas fossem eternamente imútaveis, oras, apenas no mundo das coisas eternas e imutáveis que podia se dizer algo sobre a verdade (afinal, o que é a verdade nesse mundo ridículo que tudo fica mudando o tempo todo?); logo esse mundo é o mundo verdadeiro enquanto esse mundo em que vivemos é um mundo de cópias toscas do mundo real.
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A história continua até hoje; ainda hoje perseguimos a tal Verdade eterna e imutável, ainda hoje perseguimo o tal Bem eterno e imutável... ou quase.
O lance é que, afinal, o platonismo se tornou uma bomba relógio. Fato, ela demorou milhares de anos pra explodir, mas enfim, aqui estamos nós no meio da explosão.
Aconteceu mais ou menos da seguinte forma: todo nosso sistema de valores foi erigido nessa pergunta "porque?" e em suas respostas.
A intenção da pergunta é que a resposta expulsa aquilo que é falso e nos aproxima do mundo real, onde poderemos ter acesso aos fundamentos ocultos daquilo que direciona nossas ações, daquilo que é Bom, daquilo que é Verdadeiro, daquilo que é Belo, enfim, essas coisas importantes para nós.
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Eventualmente, a pergunta se tornou séria demais; fato que a pergunta levava a resultados, conseguiamos descobrir como as leis da física funcionavam, como que os planetas giravam, como misturar coisas, fazê-las explodir e movimentar transportes públicos cujos preços insistem em subir; mas existia algo de pertubar em conseguir essas respostas, porque elas fazem parte desse mundo sensível e falso em que vivemos; e quando ao mundo real? Porque não conseguimos respostas sobre ele? Porque sabemos como fazer bombas nucleares, mas não sabemos o que é o Bem?
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É então que o niilismo aparece, quando perguntamos o "porque?" e não temos uma resposta; não só isso como essa pergunta que deveria nos levar para mais perto do mundo real acaba destruindo tudo; pergunta-se com o objetivo de eliminar "mal fundamentos" e acabam-se destruindo todos os fundamentos. Sobra o nada.
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Isso tudo aí em cima foi só uma introdução, uma breve e tosca "história do niilismo" e não tem aí uma idéia minha, é tudo um apanhado besta do que tenho lido sobre o assunto.
Agora vem eu.
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Nietzsche diz haver dois tipos de niilismo; o forte e o fraco.
O niilismo fraco é aquele cansaço e desmotivação que vem com a falta de valores, com a falta de propósitos, aliás, "desmotivação" é a palavra exata. Veja como que nós transformamos a palavra que significa "sem motivo" em sinônimo de apatia, há algo de muito forte na nossa cultura que diz "sem motivo não há ação"; e o que é um motivo? Oras bolas, é exatamente a resposta da pergunta "porque?"
O niilismo forte é a superação dos valores, é a ação sem necessidade dos valores, ou seja, é quando alguém consegue ser desmotivado sem apresentar sinais de apatia.
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Acho que existe algo interessante em jogar videogame, qualquer um, que é, por exemplo, ao jogar Sim City, a falta de nexo em se perguntar "porque você quer governar essa cidade?"
A pergunta com sentido vem antes "porque você quer jogar Sim City?" por exemplo, isso sim tem suas respostas "porque diverte" ou "porque gosto da sensação de construir algo só pra destruir depois", enfim... mas uma vez dentro do jogo, a pergunta perde seu sentido, a resposta é um mero "porque sim" ou "porque é esse o jogo" ; ou ainda, em um jogo de luta, alguém pergunta "porque você está batendo no outro sujeito?", de novo, "porque é esse o jogo".
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Talvez seja nesse sentido em que a vida em si pode ser contraposta aos valores, como que a vida pode levar a um niilismo forte, que é, afinal, como se escapa da bomba-relógio platônica.
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Existe, claro, uma diferença vital entre o jogo de videogame e a vida; o jogo tem objetivos imbutidos em si próprio e, no caso, isso o torna mais sábio que a vida, ou ao menos que a civilização ocidental que precisa buscar um objetivo em algum "mundo real" distante dos sentidos.
A questão que fica é a seguinte: "A vida consegue, por conta própria, sem se utilizar de religião ou metafísica, criar valores para si própria?"
Não acho que exista resposta simples para essa pergunta, em partes, porque ela é horrivelmente subjetiva e o motivo é que, oras bolas, se não há um tal "mundo real" onde posso buscar verdades eternas, então não posso buscar respostas para as suas questões ou para os seus valores; o máximo que posso fazer é buscar respostas para o mundo que compartilhamos, "qual o melhor plano econômico?" ou "como essa doença afeta seu organismo?" porque o mundo da economia e o mundo da biologia é um mundo que nós dois fazemos parte, mas como posso buscar resposta para "você consegue viver sem motivos para tal?"
E claro, não estamos falando de um simples se arrastar para o trabalho e então de volta para casa, mas de "você consegue viver feliz sem motivos para tal?" porque se a resposta for "não" então temos um problema grave aqui, porque tais motivos podem não existir.
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Entenda como é difícil escapar do esquema platônico, você pode dizer simplesmente "bom, eu não preciso de metafísica, eu tenho meus amigos, eu faço sexo, eu fico feliz and that's that", excelente, mas tudo isso está sujeito a pergunta (que eu fazendo ou não, pode cruzar sua vida) "porque seus amigos te fazem feliz?" "porque sexo te faz feliz?" e aí é uma estrada até o abismo porque não importa o que você me responde eu posso perguntar outro porque até chegarmos aos limites da razão.
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O engraçado é o seguinte; não ter respostas não vai te fazer infeliz; se você é feliz você vai continuar sendo mesmo sem respostas do porque; isso é, de certa forma, um bom niilismo, mas é engraçado como que ele geralmente é inconsciente; você fica contente em fazer as coisas que faz sem as questionar sem realmente precisar de motivos e você é uma pessoa de sorte enquanto a pergunta não te atingir.
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Afinal, a vida exige que muitas vezes façamos coisas que não gostamos ou que nos faça sentir mal, nesse caso, a pergunta se impõe: "Porque faço isso?" e se você tem um Deus te esperando do outro lado da vida ou algum prazer futuro como recompensa para o desprazer presente ou algum senso de honra ou virtude que o leve a realizar tal ato, então ótimo, mas veja só como funciona a vida no meio da explosão.
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Deus deixou de ser uma certeza inquestionável e necessária para existência da realidade; ele é, no máximo, uma hipótese que aceitamos por pena daqueles que ainda acreditam.
Um prazer futuro pode chegar, mas ele é suficiente para justificar toda merda que acontece em nossa vida? Na maioria das vezes, achar que seu sofrimento vai ser "recompensado" lá na frente é tão irracional que bloqueamos nossa mente para que não pensemos a respeito por acidente.
E enfim, virtude, o que é virtude sem o Bem? Sem a Justiça? Uma mera convicção particular, tirada de um lugar que você não sabe daonde, no máximo, baseados em preconceitos, criação ou qualquer pseudo-fim que você não consegue botar a prova, mas obedece por hábito.
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Enfim, já não é de todo simples ser feliz sem motivos, mas ser infeliz sem motivo parece tornar a vida irracional... e afinal, torna; ser feliz sem motivo também torna a vida irracional, mas foda-se, estou debaixo das cobertar com uma menina peituda, mas ser infeliz sem motivo torna a vida irracional e... bem, sem motivo... veja como a coisa é forte, dizer "vida sem motivo" nem pede explicações, a expressão tem "suícidio" gritando dela. É, de fato, um reflexo da nossa civilização o de anular coisas que não tem motivo para ser, de expulsá-las como falsas e dispensáveis; em termos éticos é ainda pior; toda ação pressupõe um motivo, "fiz porque quis" já pressupõe um motivo e ainda assim é considerado insatisfatório, tem que perguntar "porque quis?" e aí, bem, abismo.
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Acho que daí que vem um dos prazeres de fazer filosofia nos dias de hoje, especialmente, em não ser pragmático; oras cacilda, existe algo de mais "niilismo forte", de maior afirmação da vida em si, do que fazer perguntas que não precisam de respostas? Existe diversão maior do que se dedicar a fazer algo que não vai te dar dinheiro, não vai te trazer mais perto da felicidade, não vai te ajudar a conquistar quem você ama, cuja resposta você não vai achar e cujos progressos, caso existam, não vão interessar a ninguém?
E, na verdade, acho que tem muito disso na moral dessa tal "geração apática", desses "jovens que passam o dia todo sem fazer nada", oras, isso é um tipo de afirmação da vida.
Claro, de novo, pode representar fraqueza, apátia, desânimo, coisa e tal; mas às vezes não, às vezes isso tudo é um prelúdio de tempos melhores; diga-se de passagem, são pessoas ativas e bem motivadas que sequestram aviões, explodem prédios e iniciam guerras por causa de petróleo.
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Existe algo de atrativo em simplesmente viver... não é fácil chegar nesse ponto, o risco de suicidio ou fanatismo no meio do caminho é grande, mas vai que dá certo... e aí, quem sabe, não conseguimos passar o dia inteiro sem fazer nada?
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O sistema de valores baseados em mitologia ou força bruta que existia nos tempos antigos não derrubou a si próprio; ele foi superado por outros valores; quando Heráclito disse que Homero merecia ser açoitado e expulso da cidade, não foi algo tão diferente do que quando Nietzsche disse que Deus estava morto (só, talvez, mais inconsciente).
Ainda na Grécia, um menino de ombros largos ficou muito impressionado com Heráclito; algo na teoria de que tudo mudava e nada permanecia o mesmo assustava Platão: "Oras" dizia o serzinho patético "se um homem não pode sequer entrar no mesmo rio duas vezes, pois tanto o homem quanto o rio mudam continuamente, como posso viver em uma sociedade justa, sendo que a sociedade sempre muda? Como terei uma opinião se os fatos sempre mudam?" e assim ele continuava se perguntando até sentir tédio e ir atrás de algum menino bonito.
Mas eis que Platão eventualmente encontrou um menino feio que ofereceu uma resposta; era algo do tipo "tudo que os sentidos experimentam estão sempre em mudança, são sempre um 'vir-a-ser', mas existem aquelas coisas que permanecem sempre as mesmas, aquelas coisas que nunca mudam" e então dizia Sócrates, bem inspirado por Parmênides (outro feio, mas nem tanto) que existiam essas coisas além do mundo dos sentidos, essas coisas chamadas "justo" e "belo"; essas coisas não nascem do mundo dos sentidos, elas entram na nossa cabeça de alguma outra forma e elas podem ser acessíveis se ficarmos irritante nos perguntando "porque?" o tempo todo.
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Logo isso se desenvolveu, Sócrates foi condenado a escolher entre ouvir um disco de si próprio repetindo "porque?" eternamente ou beber veneno; muito sábio, escolheu o veneno.
Sem o mestre, Platão continuou por conta própria e desenvolveu a teoria dos conceitos puros; eventualmente ele chegou a conclusão que se tais conceitos não vinham do mundo sensível, eles tinham que vir de um mundo onde as coisas fossem eternamente imútaveis, oras, apenas no mundo das coisas eternas e imutáveis que podia se dizer algo sobre a verdade (afinal, o que é a verdade nesse mundo ridículo que tudo fica mudando o tempo todo?); logo esse mundo é o mundo verdadeiro enquanto esse mundo em que vivemos é um mundo de cópias toscas do mundo real.
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A história continua até hoje; ainda hoje perseguimos a tal Verdade eterna e imutável, ainda hoje perseguimo o tal Bem eterno e imutável... ou quase.
O lance é que, afinal, o platonismo se tornou uma bomba relógio. Fato, ela demorou milhares de anos pra explodir, mas enfim, aqui estamos nós no meio da explosão.
Aconteceu mais ou menos da seguinte forma: todo nosso sistema de valores foi erigido nessa pergunta "porque?" e em suas respostas.
A intenção da pergunta é que a resposta expulsa aquilo que é falso e nos aproxima do mundo real, onde poderemos ter acesso aos fundamentos ocultos daquilo que direciona nossas ações, daquilo que é Bom, daquilo que é Verdadeiro, daquilo que é Belo, enfim, essas coisas importantes para nós.
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Eventualmente, a pergunta se tornou séria demais; fato que a pergunta levava a resultados, conseguiamos descobrir como as leis da física funcionavam, como que os planetas giravam, como misturar coisas, fazê-las explodir e movimentar transportes públicos cujos preços insistem em subir; mas existia algo de pertubar em conseguir essas respostas, porque elas fazem parte desse mundo sensível e falso em que vivemos; e quando ao mundo real? Porque não conseguimos respostas sobre ele? Porque sabemos como fazer bombas nucleares, mas não sabemos o que é o Bem?
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É então que o niilismo aparece, quando perguntamos o "porque?" e não temos uma resposta; não só isso como essa pergunta que deveria nos levar para mais perto do mundo real acaba destruindo tudo; pergunta-se com o objetivo de eliminar "mal fundamentos" e acabam-se destruindo todos os fundamentos. Sobra o nada.
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Isso tudo aí em cima foi só uma introdução, uma breve e tosca "história do niilismo" e não tem aí uma idéia minha, é tudo um apanhado besta do que tenho lido sobre o assunto.
Agora vem eu.
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Nietzsche diz haver dois tipos de niilismo; o forte e o fraco.
O niilismo fraco é aquele cansaço e desmotivação que vem com a falta de valores, com a falta de propósitos, aliás, "desmotivação" é a palavra exata. Veja como que nós transformamos a palavra que significa "sem motivo" em sinônimo de apatia, há algo de muito forte na nossa cultura que diz "sem motivo não há ação"; e o que é um motivo? Oras bolas, é exatamente a resposta da pergunta "porque?"
O niilismo forte é a superação dos valores, é a ação sem necessidade dos valores, ou seja, é quando alguém consegue ser desmotivado sem apresentar sinais de apatia.
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Acho que existe algo interessante em jogar videogame, qualquer um, que é, por exemplo, ao jogar Sim City, a falta de nexo em se perguntar "porque você quer governar essa cidade?"
A pergunta com sentido vem antes "porque você quer jogar Sim City?" por exemplo, isso sim tem suas respostas "porque diverte" ou "porque gosto da sensação de construir algo só pra destruir depois", enfim... mas uma vez dentro do jogo, a pergunta perde seu sentido, a resposta é um mero "porque sim" ou "porque é esse o jogo" ; ou ainda, em um jogo de luta, alguém pergunta "porque você está batendo no outro sujeito?", de novo, "porque é esse o jogo".
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Talvez seja nesse sentido em que a vida em si pode ser contraposta aos valores, como que a vida pode levar a um niilismo forte, que é, afinal, como se escapa da bomba-relógio platônica.
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Existe, claro, uma diferença vital entre o jogo de videogame e a vida; o jogo tem objetivos imbutidos em si próprio e, no caso, isso o torna mais sábio que a vida, ou ao menos que a civilização ocidental que precisa buscar um objetivo em algum "mundo real" distante dos sentidos.
A questão que fica é a seguinte: "A vida consegue, por conta própria, sem se utilizar de religião ou metafísica, criar valores para si própria?"
Não acho que exista resposta simples para essa pergunta, em partes, porque ela é horrivelmente subjetiva e o motivo é que, oras bolas, se não há um tal "mundo real" onde posso buscar verdades eternas, então não posso buscar respostas para as suas questões ou para os seus valores; o máximo que posso fazer é buscar respostas para o mundo que compartilhamos, "qual o melhor plano econômico?" ou "como essa doença afeta seu organismo?" porque o mundo da economia e o mundo da biologia é um mundo que nós dois fazemos parte, mas como posso buscar resposta para "você consegue viver sem motivos para tal?"
E claro, não estamos falando de um simples se arrastar para o trabalho e então de volta para casa, mas de "você consegue viver feliz sem motivos para tal?" porque se a resposta for "não" então temos um problema grave aqui, porque tais motivos podem não existir.
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Entenda como é difícil escapar do esquema platônico, você pode dizer simplesmente "bom, eu não preciso de metafísica, eu tenho meus amigos, eu faço sexo, eu fico feliz and that's that", excelente, mas tudo isso está sujeito a pergunta (que eu fazendo ou não, pode cruzar sua vida) "porque seus amigos te fazem feliz?" "porque sexo te faz feliz?" e aí é uma estrada até o abismo porque não importa o que você me responde eu posso perguntar outro porque até chegarmos aos limites da razão.
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O engraçado é o seguinte; não ter respostas não vai te fazer infeliz; se você é feliz você vai continuar sendo mesmo sem respostas do porque; isso é, de certa forma, um bom niilismo, mas é engraçado como que ele geralmente é inconsciente; você fica contente em fazer as coisas que faz sem as questionar sem realmente precisar de motivos e você é uma pessoa de sorte enquanto a pergunta não te atingir.
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Afinal, a vida exige que muitas vezes façamos coisas que não gostamos ou que nos faça sentir mal, nesse caso, a pergunta se impõe: "Porque faço isso?" e se você tem um Deus te esperando do outro lado da vida ou algum prazer futuro como recompensa para o desprazer presente ou algum senso de honra ou virtude que o leve a realizar tal ato, então ótimo, mas veja só como funciona a vida no meio da explosão.
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Deus deixou de ser uma certeza inquestionável e necessária para existência da realidade; ele é, no máximo, uma hipótese que aceitamos por pena daqueles que ainda acreditam.
Um prazer futuro pode chegar, mas ele é suficiente para justificar toda merda que acontece em nossa vida? Na maioria das vezes, achar que seu sofrimento vai ser "recompensado" lá na frente é tão irracional que bloqueamos nossa mente para que não pensemos a respeito por acidente.
E enfim, virtude, o que é virtude sem o Bem? Sem a Justiça? Uma mera convicção particular, tirada de um lugar que você não sabe daonde, no máximo, baseados em preconceitos, criação ou qualquer pseudo-fim que você não consegue botar a prova, mas obedece por hábito.
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Enfim, já não é de todo simples ser feliz sem motivos, mas ser infeliz sem motivo parece tornar a vida irracional... e afinal, torna; ser feliz sem motivo também torna a vida irracional, mas foda-se, estou debaixo das cobertar com uma menina peituda, mas ser infeliz sem motivo torna a vida irracional e... bem, sem motivo... veja como a coisa é forte, dizer "vida sem motivo" nem pede explicações, a expressão tem "suícidio" gritando dela. É, de fato, um reflexo da nossa civilização o de anular coisas que não tem motivo para ser, de expulsá-las como falsas e dispensáveis; em termos éticos é ainda pior; toda ação pressupõe um motivo, "fiz porque quis" já pressupõe um motivo e ainda assim é considerado insatisfatório, tem que perguntar "porque quis?" e aí, bem, abismo.
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Acho que daí que vem um dos prazeres de fazer filosofia nos dias de hoje, especialmente, em não ser pragmático; oras cacilda, existe algo de mais "niilismo forte", de maior afirmação da vida em si, do que fazer perguntas que não precisam de respostas? Existe diversão maior do que se dedicar a fazer algo que não vai te dar dinheiro, não vai te trazer mais perto da felicidade, não vai te ajudar a conquistar quem você ama, cuja resposta você não vai achar e cujos progressos, caso existam, não vão interessar a ninguém?
E, na verdade, acho que tem muito disso na moral dessa tal "geração apática", desses "jovens que passam o dia todo sem fazer nada", oras, isso é um tipo de afirmação da vida.
Claro, de novo, pode representar fraqueza, apátia, desânimo, coisa e tal; mas às vezes não, às vezes isso tudo é um prelúdio de tempos melhores; diga-se de passagem, são pessoas ativas e bem motivadas que sequestram aviões, explodem prédios e iniciam guerras por causa de petróleo.
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Existe algo de atrativo em simplesmente viver... não é fácil chegar nesse ponto, o risco de suicidio ou fanatismo no meio do caminho é grande, mas vai que dá certo... e aí, quem sabe, não conseguimos passar o dia inteiro sem fazer nada?
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