As coisas que eu odeio me entendiam.
Minha apatia, minha falta de vontade de fazer qualquer coisa que seja, minha geral falta de coragem, minha falta de conhecimento, esse incessante não saber o que fazer.
Eu quero morrer.
Eu quero morrer e morrer e eu quero continuar morrendo.
Eu tenho cada vez menos capacidade e interesse em continuar vivendo.
Isso tudo parece cada dia ficar mais chato, menos interessante, há cada vez menos o que fazer, menos que eu quero fazer, menos que eu acredito que consiga fazer, viver parece a cada dia um exercício de futilidade, de irracionalidade, cada dia viver é cada vez mais um apenas andar pra frente, uma coleção ridícula de pequenas vitórias, pequenas derrotas e sentimentos que não quero sentir mais.
Eu tenho medo de morrer porque sou completamente incapaz de acreditar em Deus e eu tentei e eu tentei, mas eu sou completamente incapaz de acreditar que qualquer coisa vai sobreviver depois que o oxigênio parar de ir para o meu cérebro. Eu aguentaria inferno e qualquer coisa que um juíz onipotente e infinitamente bom quisesse jogar contra mim, mas o vazio me assusta. Eu aceitaria o inferno, mas eu tenho medo do vazio. Eu tenho medo do vazio e eu tenho medo de deixar minha mãe triste e fazer ela se sentir como se ela tivesse falhado em me criar, como se todo o esforço que ela depositou e deposita em mim tivesse sido em vão, minha mãe não merece sofrer minha morte.
Mas eu quero morrer.
Eu quero morrer e eu quero morrer.
E eu quero continuar morrendo até não ter mais o que morrer em mim.
Eu não me importo com solidão porque eu odeio pessoas e meu ódio me entendia e faz eu me odiar mais ainda do que odeio os outros. Eu nem me importo mais que eu tenha 23 anos e esse tipo de sentimento suicida adolescente deveria ter passado aos 16.
Eu só quero ouvir minhas músicas lindas.
Eu só quero morrer e morrer e continuar morrendo.
Me incomoda que eu continue adolescente e me incomoda que eu não consiga me livrar desses sentimentos que me acompanham desde que eu lembro de eu sendo eu, me incomoda não só porque me incomoda, mas me incomoda por causa dos que dão conselhos. E alguém vai dizer que eu não sou crente o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou ateu o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou de direita o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou de esquerda o suficiente e alguém vai dizer que eu não me importo o suficiente com os outros e alguém vai me dizer que eu me importo demais com os outros e alguém vai dizer que eu sou racional demais e alguém vai dizer que eu sou irracional demais e alguém vai dizer que é assim mesmo e alguém vai dizer que eu estou quebrado e alguém vai dizer que eu sou fresco e alguém vai dizer que eu preciso procurar ajuda e alguém vai dizer que eu estou deprimido e alguém vai dizer e alguém vai dizer e alguém vai continuar dizendo, todo mundo sabe, todo mundo tem uma resposta, todo mundo não entende como eu posso ignorar tal coisa que é tão óbvia, mas todo mundo vive e eu oscilo entre o não querer viver e o querer morrer e todo mundo acha que eu faço de propósito e todo mundo acha que eu ignoro porque eu sou chato, porque eu sou estúpido, porque eu sou quebrado, mas o que eu vou dizer? Eu não sei e eu não sei. Eu não entendo o que é essa coisa que vocês chamam de vida e eu não vejo nada de bom nela e eu me distraio com política pra que o tédio não me mate, mas faz dias que o Obama não faz nada de interessante, então eu vou morrer e eu vou morrer e eu não quero chatear minha mãe e eu queria que ela entendesse que não tem nada a ver com ela e que qualquer outra pessoa com qualquer outro cérebro teria utilizado toda a excelente criação que ela me deu e transformado em algo produtivo, em um bom cidadão ou em um bom anarquista, em um bom católico ou em um bom ateu, em um bom economista ou em um bom jornalista ou mesmo em um bom acadêmico, mas que eu não consigo, meu cérebro está quebrado, ele não me permite compreender o mundo e em algum lugar há uma sinapse em loop e os neurônios que dizem eu quero morrer e eu quero morrer e eu quero continuar morrendo não param de se ativar.
E eu me odeio porque depois disso tudo nada vai mudar, eu não vou morrer e eu ainda não vou querer viver e eu ouço a rádio Twee do LastFM e eu jogo LittleBigPlanet e essas coisinhas são as únicas coisas de proveitosas na minha vida.
Eu me odeio porque eu quero morrer e eu não vou.
Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
terça-feira, fevereiro 24, 2009
sábado, fevereiro 21, 2009
QI, raça, biologia e psicologia evolutva. (ufa)
Lendo um debatezinho na nature entre Steven Rose, que diz "em uma sociedade em que racismo e sexismo fosse ausente, as perguntas sobre se brancos ou homens são mais ou menos inteligentes que negros ou mulheres seriam não só sem sentido - elas não seriam nem perguntadas" e Stephen Ceci e Wendy M. Williams, que diz "a maioria dos pesquisadores, incluindo nós mesmos, concorda que genes não explicam diferença inter-grupos. Mas algumas questões permanencem não resolvidas, como a identificação dos mecanismos que levam potencial genético à fruição. Censurar debatentes que favorecem explicação genéticas de diferenças de inteligência não é a resposta para resolver tais mistérios".
A primeira coisa que eu achei interessante é que o sujeito que defende que ciência não pode explicar tais coisas é um neurocientista (mas vale notar que Steven Rose é contrário a idéia de psicologia evolutiva faz décadas, ser o lado "anti" nesses debates é simplesmente o destino midiático dele) e as pessoas "pró" fazem parte de um departamento de "Human Developments" de uma universidade, seja lá o que isso signifique. (ok, vou googlar)
Uma coisa que Steven Rose sempre reclamou a respeito desse pessoal que acredita em psicologia evolutiva é que eles raramente estudaram, de fato, o cérebro humano ou qualquer coisa a respeito de biologia; o nome mais famoso nesse campo, Steven Pinker, é um psiquiatra, por exemplo e uma colega neuróloga da faculdade me explicou geralmente que existe uma linha entre psiquatria e neurologia que quase nenhum cientista cruza, o que mostra o quão dualista é a ciência hoje em dia. Nós temos os cientistas estudando a mente e nós temos os cientistas estudando o cérebro e dizer que ambos são a mesma coisa é dizer pra um neurólogo que ele deveria estar no departamento de psicologia e vice-versa e acho que a maioria dos psicólogos e neurocientistas vão concordar que eles não estudam a mesma coisa, o que mostra que a divisão corpo e mente é mais complexa do que um mero preconceito cartesiano que nós carregamos.
Anyway, eu não manjo de psicologia e nem de neurologia, eu male male manjo de filosofia, o que me qualifica a dar opinião sobre tudo e sobre nada. Então, eu vou pegar metade da minha qualificação e opinar sobre o debate.
=
O que geralmente acontece com Steven Rose, é que ele é muito bom em explicar porque a genética dos oponentes está errada e não tão bom em explicar porque certas questões filosóficas que ele valoriza tanto (como ideologia) dos oponentes está errada.
nesse artigo em particular, ele faz isso sem problema nenhum, especialmente porque aqui, coisa que não acontece sempre, ele não se desvia demais do lado científico da questão pra entrar na sua filosofia.
Os 2 problemas que ele aponta, e eu pelo menos concordo sem restrições (ainda mais porque ele é o cientista e eu sou o cara de filosofia), é que:
"as categorias de inteligência, raça e gênero não são definíveis dentro do contexto requerido para pesquisa científica natural, falhando meu primeiro critério de ser bem-fundamentada. Elas também falham o segundo critério de serem respondíveis: nós não temos as ferramentas técnicas ou teóricas para estudá-las".
O que acontece (e esse sou eu falando e não o Rose, embora eu vá dizer aqui que a idéia é a mesma com um vocabulário diferente) é que lidamos com duas maneiras distintas de entender um ser humano. Uma é cultural e outra é biológica e nos faltam ferramentas para realmente diferenciar uma da outra.
"negro", "branco", "asiático" são termos culturais e não científicos. Um problema que Steven Rose aponta no artigo, é em cada uma dessas categorias existem tantos subgrupos que não faz nenhum sentido científico em agrupá-las. Um certo grupo de judeus, são mais propensos geneticamente a doença de Tay Sachs do que outro grupo de judeus; mas culturalmente, classificamos ambos na mesma etnia.
Seria uma questão, então, de refinarmos nossos parâmetros de acordo não com critérios sociais, mas com critérios de ancestralidade biogeográfica (como o próprio Rose propõe), mas isso sempre esbarra no problema maior que a fenomenologia geralmente põe.
A classificação científica tem que nascer de algum lugar e ela tem que nascer do "mundo da vida", ou do mundo social.
Critérios científicos não caem prontos do céu, o ponto de partida deles é a cultura onde os cientistas vivem e, mais importante, organismos são dinâmicos. Grande parte da importância do Darwinismo é justamente mostrar que organismos reagem ao ambiente. O meu cérebro, com a mesma estrutura genética, seria o mesmo cérebro se eu me alimentasse diferente? Se eu vivesse em uma área com mais ou menos poluição? Se eu tivesse uma vida mais ou menos estressada? Se eu estivesse mais ou menos acostumado ao multi-tasking desse estilo de vida internauta?
Nós podemos, muito cientificamente, rastrear qual é exatamente, com todas as nuances de subpopulação envolvidas, minha acestralidade biogeográfica e para questões que envolvem *apenas* isso, como no caso de uma doença genética, medir quais as particularidades desse meu subgrupo. Mas quando falamos em medir inteligência, a coisa complica porque é impossível dar uma definição não-cultural de inteligência, além do mais, inteligência não é só flexível entre populações, mas é flexível no percurso de uma mesma vida, o engraçado é que esse argumento é feito pelo grupo "pró" estudo da correlação entre raça e inteligência, diz a dupla:
"A primeira asserção de Watson [de que africanos são menos inteligentes que europeus] pode ser lida como cientificamente justificada: o resultado do QI de africanos negros é menor do que aqueles de europeus brancos. Mas o uso que Watson faz de 'inteligência' foi interpretada como significando 'habilidade intrínseca cognitiva', ignorando como a não familiaridade com o formato do teste, baixa qualidade de escolaridade, ou pouca saúde pode deprimir resultados de QI."
Mas toda a vantagem de estudar genética, partindo do pressuposto que o gene é a partícula irredutível da biologia, é exatamente mostrar o que é intrínseco do que não é! Esse é o debate inteiro!
Certas diferenças entre homens e mulheres são intrínsecas porque a parte de sua biologia que não se altera durante toda sua vida, a saber, os genes, são diferentes. O problema do cérebro é que ele está o tempo todo mudando! Cada vez que você pensa, que você vê, que você sente qualquer sensação que seja, seu cérebro, partindo do pressuposto que cérebro e mente são a mesma estrutura física, é alterado. Todo o debate para quem quer defender a psicologia evolutiva parte dessa palavra: intrínseco.
Se você não quer dizer diferença intrínseca, você está dizendo que tal característica é uma variável que depende do ambiente ou da cultura, sejamos dualistas ou não. É por isso que Tabula Rasa do Pinker me impressionou durante uma semana, mas depois eu já estava "meh".
Dizer que o cérebro só faz o que é possível o cérebro fazer é uma tautologia óbvia. É claro que eu só falo, desejo sexo, acredito em Deus, busco comida, etc porque um cérebro que evoluiu permite isso, está de certa forma adaptado para essas e tantas outras possibilidades, mas isso, no fim das contas, isso nos diz muito pouco. As pesquisas e teorias do Pinker (e um problema do Pinker é que ele nunca separa o que é uma conclusão tirada de suas pesquisas empíricas e o que é especulação filosófica da parte dele) são excelente porque combatem certas teorias de que nada é intrínseco, a noção de que em um ambiente "ausente de sexismo", homens e mulheres seriam diferenciados apenas pela sua individualidade e não por seus papéis sociais.
Isso não se sustenta, mas não estamos nem perto de resolver o problema maior que é explicar exatamente quais são as diferenças intrínsecas.
Então, o pessoal pró-psicologia evolutiva tem aí um desafio enorme que é o que Steven Rose chama de "falta de ferramentas técnicas ou teóricas" para estudar uma aparente divergência de comportamento ou QI entre os diferentes grupos. O máximo que se pode fazer é estudar pessoas da mesma ancestralidade que vivem em diferentes partes do mundo e ver se resultados coincidem, mas na prática isso tem vários problemas, pois não há de se decidir qual será a "verdadeira" amostragem e qual será "diferencial".
Então estudamos certo grupo de negros para saber sobre suas habilidades cognitivas intrínsecas (e, de novo, se não for isso, então esse debate não existe). Pegamos um punhado da África e um punhado do Brasil e um punhado dos Estados Unidos e um punhado do Oriente Médio.
No primeiro caso, eles vivem em guerra e mal nutrição, no segundo e no terceiro sofrem estigmas culturais a vida toda com gente repetindo pra eles a vida inteiro de que lugar deles não é na universidade, mas em algum esporte e no quarto, mesmo que não haja o racismo dos segundos e terceiros lugares, qualquer critério ocidental de avaliação de QI não se aplica porque a relação cultural com a lógica é diferente.
Então, quais dos quatro grupos consideramos a "base"? Seria uma surpresa se o resultado de QI de todos esses sejam mais baixos do que o QI de brancos que não vivem em guerra e mal nutrição, que não sofrem racismo e estigmas culturais e que aprendem desde cedo a valorizar tal modo de pensar que é superestimado pelo teste de QI? De novo, voltamos ao problema do começo, não há um tal ser humano sem cultura para utilizarmos como base. Nós não temos todo um campo separado do conhecimento humano chamado "Ciências Humanas" ou "Ciência do Espírito", que inclui História, Sociologia, Economia, Antropologia e Psicologia (e talvez Filosofia; eu não considero, but oh well, há quem considere) por nenhum motivo.
Nós temos porque toda vez que tentamos utilizar o método de uma área na outra, problemas desse tipo ocorrem.
=
Por fim, eis minha sugestão metodológica.
Se certos "cientistas do espírito" (como Pinker) querem fingir que são "cientistas naturais" (como Rose), eles precisam iniciar observando a estrutura física do mundo e aí partir para a psicologia e não, como é feito atualmente, ao contrário.
Pinker estuda o comportamento de gêmeos, de homens e mulheres em culturas diferentes e, quando acha diferenças e similaridades, postula, de modo irritantemente ad hoc, que a diferença é intrínseca ou genética.
Pois eu digo, se você quer fazer neurologia e biologia ao invés de psicologia (mesmo se for para mesclar as diferentes áreas), então digo para começar com a neurologia e a biologia e aí partir para a psicologia.
Primeiro devemos observar quais genes são responsáveis (se é que eles existem) por pensamento lógico, por "habilidades matemáticas", por tal e tal comportamento. Depois devemos ver em quais grupos esses genes são diferentes e de que modo são diferentes. Daí concluímos, em último lugar, o que os psicólogos evolutivos querem concluir em primeiro lugar.
Primeiro os fatos, depois a conclusão. Observação sociológica só demonstra, obviamente, conclusões sociológicas. Conclusões biológicas são adquiridas por meio de conclusões biológicas; que é porque é mais fácil respeitar Antônio Damásio do que Steven Pinker.
Eu, por exemplo, não nego o materialismo ou que mente e corpo sejam só uma substância (ok, eu tenho uns pensamentos complexos sobre o assunto e no fucking way vou entrar neles agora), se você me diz que retirando tal parte do cérebro eu perco minha capacidade de me sensibilizar com o sofrimento alheio, eu total acredito (como curiosidade, pra falar do autor que provavelmente vai ser meu objeto de estudo a vida acadêmica toda; não acho que Schopenhauer negaria isso também e ele é hardcore idealista), mas talvez a lição mais importante do Tabula Rasa do Pinker é a lição que ele não tira.
A estrutura física do cérebro é condição negativa para tal coisa. Sem a área do meu cérebro que controla minha empatia, eu não posso ter empatia; mas ter a área do cérebro que controla minha empatia intacta não é condição suficiente para que eu desenvolva empatia. Se eu vivo em uma cultura completamente egoísta, chances são que eu vou ser egoísta mesmo que a área "altruísta" do meu cérebro funcione perfeitamente. A lição que eu tirei do Tabula Rasa é a de que nós não podemos pensar em algo que o cérebro faz sem pensar que ele foi, de algum modo, configurado pela evolução para fazê-lo. Disso não se conclui que é minha configuração genética que faz eu me comportar daquela forma, só significa que eu estou corporeamente capacitado para me comportar daquela forma e que sem tal configuração genética eu não estaria.
É confundir potência com ato, really.
Particularmente (porque esse não é um blog de filosofia, mas um blog para choramingar), eu vou na igreja para desenvolver minha empatia e minha sensibilidade. Eu não acredito em Deus, mas fazer parte daquele ritual e ver a maravilhosa escultura de Jesus na cruz que existe na igreja que eu freqüento me faz querer ajudar os outros. É claro que se não existisse uma área do meu cérebro configurada geneticamente para permitir que eu desenvolvesse amor ao próximo, eu não teria amor ao próximo (e as pessoas ao meu redor sabem que eu sou um cara bem egoísta), mas posso dizer o mesmo da igreja, das lições de Schopenhauer acerca da compaixão, dos filmes que vejo, da pressão social, etc.
Isso tudo pode ser explicado de modo 100% material mesmo que atualmente a ciência não tenha avançado a esse ponto? Não vejo motivo de porque não. Mas que seja resguardada as diferenças entre o que é intrínseco e o que não é. Entre "natureza" e "ambiente".
A minha aposta é que vamos descobrir que a tábula é bem rasa sim, é só que ela é uma tábula. Que possamos utilizá-la apenas para escrever em baixo relevo ao invés de projetar hologramas não significa que haja algo escrito.
A primeira coisa que eu achei interessante é que o sujeito que defende que ciência não pode explicar tais coisas é um neurocientista (mas vale notar que Steven Rose é contrário a idéia de psicologia evolutiva faz décadas, ser o lado "anti" nesses debates é simplesmente o destino midiático dele) e as pessoas "pró" fazem parte de um departamento de "Human Developments" de uma universidade, seja lá o que isso signifique. (ok, vou googlar)
Uma coisa que Steven Rose sempre reclamou a respeito desse pessoal que acredita em psicologia evolutiva é que eles raramente estudaram, de fato, o cérebro humano ou qualquer coisa a respeito de biologia; o nome mais famoso nesse campo, Steven Pinker, é um psiquiatra, por exemplo e uma colega neuróloga da faculdade me explicou geralmente que existe uma linha entre psiquatria e neurologia que quase nenhum cientista cruza, o que mostra o quão dualista é a ciência hoje em dia. Nós temos os cientistas estudando a mente e nós temos os cientistas estudando o cérebro e dizer que ambos são a mesma coisa é dizer pra um neurólogo que ele deveria estar no departamento de psicologia e vice-versa e acho que a maioria dos psicólogos e neurocientistas vão concordar que eles não estudam a mesma coisa, o que mostra que a divisão corpo e mente é mais complexa do que um mero preconceito cartesiano que nós carregamos.
Anyway, eu não manjo de psicologia e nem de neurologia, eu male male manjo de filosofia, o que me qualifica a dar opinião sobre tudo e sobre nada. Então, eu vou pegar metade da minha qualificação e opinar sobre o debate.
=
O que geralmente acontece com Steven Rose, é que ele é muito bom em explicar porque a genética dos oponentes está errada e não tão bom em explicar porque certas questões filosóficas que ele valoriza tanto (como ideologia) dos oponentes está errada.
nesse artigo em particular, ele faz isso sem problema nenhum, especialmente porque aqui, coisa que não acontece sempre, ele não se desvia demais do lado científico da questão pra entrar na sua filosofia.
Os 2 problemas que ele aponta, e eu pelo menos concordo sem restrições (ainda mais porque ele é o cientista e eu sou o cara de filosofia), é que:
"as categorias de inteligência, raça e gênero não são definíveis dentro do contexto requerido para pesquisa científica natural, falhando meu primeiro critério de ser bem-fundamentada. Elas também falham o segundo critério de serem respondíveis: nós não temos as ferramentas técnicas ou teóricas para estudá-las".
O que acontece (e esse sou eu falando e não o Rose, embora eu vá dizer aqui que a idéia é a mesma com um vocabulário diferente) é que lidamos com duas maneiras distintas de entender um ser humano. Uma é cultural e outra é biológica e nos faltam ferramentas para realmente diferenciar uma da outra.
"negro", "branco", "asiático" são termos culturais e não científicos. Um problema que Steven Rose aponta no artigo, é em cada uma dessas categorias existem tantos subgrupos que não faz nenhum sentido científico em agrupá-las. Um certo grupo de judeus, são mais propensos geneticamente a doença de Tay Sachs do que outro grupo de judeus; mas culturalmente, classificamos ambos na mesma etnia.
Seria uma questão, então, de refinarmos nossos parâmetros de acordo não com critérios sociais, mas com critérios de ancestralidade biogeográfica (como o próprio Rose propõe), mas isso sempre esbarra no problema maior que a fenomenologia geralmente põe.
A classificação científica tem que nascer de algum lugar e ela tem que nascer do "mundo da vida", ou do mundo social.
Critérios científicos não caem prontos do céu, o ponto de partida deles é a cultura onde os cientistas vivem e, mais importante, organismos são dinâmicos. Grande parte da importância do Darwinismo é justamente mostrar que organismos reagem ao ambiente. O meu cérebro, com a mesma estrutura genética, seria o mesmo cérebro se eu me alimentasse diferente? Se eu vivesse em uma área com mais ou menos poluição? Se eu tivesse uma vida mais ou menos estressada? Se eu estivesse mais ou menos acostumado ao multi-tasking desse estilo de vida internauta?
Nós podemos, muito cientificamente, rastrear qual é exatamente, com todas as nuances de subpopulação envolvidas, minha acestralidade biogeográfica e para questões que envolvem *apenas* isso, como no caso de uma doença genética, medir quais as particularidades desse meu subgrupo. Mas quando falamos em medir inteligência, a coisa complica porque é impossível dar uma definição não-cultural de inteligência, além do mais, inteligência não é só flexível entre populações, mas é flexível no percurso de uma mesma vida, o engraçado é que esse argumento é feito pelo grupo "pró" estudo da correlação entre raça e inteligência, diz a dupla:
"A primeira asserção de Watson [de que africanos são menos inteligentes que europeus] pode ser lida como cientificamente justificada: o resultado do QI de africanos negros é menor do que aqueles de europeus brancos. Mas o uso que Watson faz de 'inteligência' foi interpretada como significando 'habilidade intrínseca cognitiva', ignorando como a não familiaridade com o formato do teste, baixa qualidade de escolaridade, ou pouca saúde pode deprimir resultados de QI."
Mas toda a vantagem de estudar genética, partindo do pressuposto que o gene é a partícula irredutível da biologia, é exatamente mostrar o que é intrínseco do que não é! Esse é o debate inteiro!
Certas diferenças entre homens e mulheres são intrínsecas porque a parte de sua biologia que não se altera durante toda sua vida, a saber, os genes, são diferentes. O problema do cérebro é que ele está o tempo todo mudando! Cada vez que você pensa, que você vê, que você sente qualquer sensação que seja, seu cérebro, partindo do pressuposto que cérebro e mente são a mesma estrutura física, é alterado. Todo o debate para quem quer defender a psicologia evolutiva parte dessa palavra: intrínseco.
Se você não quer dizer diferença intrínseca, você está dizendo que tal característica é uma variável que depende do ambiente ou da cultura, sejamos dualistas ou não. É por isso que Tabula Rasa do Pinker me impressionou durante uma semana, mas depois eu já estava "meh".
Dizer que o cérebro só faz o que é possível o cérebro fazer é uma tautologia óbvia. É claro que eu só falo, desejo sexo, acredito em Deus, busco comida, etc porque um cérebro que evoluiu permite isso, está de certa forma adaptado para essas e tantas outras possibilidades, mas isso, no fim das contas, isso nos diz muito pouco. As pesquisas e teorias do Pinker (e um problema do Pinker é que ele nunca separa o que é uma conclusão tirada de suas pesquisas empíricas e o que é especulação filosófica da parte dele) são excelente porque combatem certas teorias de que nada é intrínseco, a noção de que em um ambiente "ausente de sexismo", homens e mulheres seriam diferenciados apenas pela sua individualidade e não por seus papéis sociais.
Isso não se sustenta, mas não estamos nem perto de resolver o problema maior que é explicar exatamente quais são as diferenças intrínsecas.
Então, o pessoal pró-psicologia evolutiva tem aí um desafio enorme que é o que Steven Rose chama de "falta de ferramentas técnicas ou teóricas" para estudar uma aparente divergência de comportamento ou QI entre os diferentes grupos. O máximo que se pode fazer é estudar pessoas da mesma ancestralidade que vivem em diferentes partes do mundo e ver se resultados coincidem, mas na prática isso tem vários problemas, pois não há de se decidir qual será a "verdadeira" amostragem e qual será "diferencial".
Então estudamos certo grupo de negros para saber sobre suas habilidades cognitivas intrínsecas (e, de novo, se não for isso, então esse debate não existe). Pegamos um punhado da África e um punhado do Brasil e um punhado dos Estados Unidos e um punhado do Oriente Médio.
No primeiro caso, eles vivem em guerra e mal nutrição, no segundo e no terceiro sofrem estigmas culturais a vida toda com gente repetindo pra eles a vida inteiro de que lugar deles não é na universidade, mas em algum esporte e no quarto, mesmo que não haja o racismo dos segundos e terceiros lugares, qualquer critério ocidental de avaliação de QI não se aplica porque a relação cultural com a lógica é diferente.
Então, quais dos quatro grupos consideramos a "base"? Seria uma surpresa se o resultado de QI de todos esses sejam mais baixos do que o QI de brancos que não vivem em guerra e mal nutrição, que não sofrem racismo e estigmas culturais e que aprendem desde cedo a valorizar tal modo de pensar que é superestimado pelo teste de QI? De novo, voltamos ao problema do começo, não há um tal ser humano sem cultura para utilizarmos como base. Nós não temos todo um campo separado do conhecimento humano chamado "Ciências Humanas" ou "Ciência do Espírito", que inclui História, Sociologia, Economia, Antropologia e Psicologia (e talvez Filosofia; eu não considero, but oh well, há quem considere) por nenhum motivo.
Nós temos porque toda vez que tentamos utilizar o método de uma área na outra, problemas desse tipo ocorrem.
=
Por fim, eis minha sugestão metodológica.
Se certos "cientistas do espírito" (como Pinker) querem fingir que são "cientistas naturais" (como Rose), eles precisam iniciar observando a estrutura física do mundo e aí partir para a psicologia e não, como é feito atualmente, ao contrário.
Pinker estuda o comportamento de gêmeos, de homens e mulheres em culturas diferentes e, quando acha diferenças e similaridades, postula, de modo irritantemente ad hoc, que a diferença é intrínseca ou genética.
Pois eu digo, se você quer fazer neurologia e biologia ao invés de psicologia (mesmo se for para mesclar as diferentes áreas), então digo para começar com a neurologia e a biologia e aí partir para a psicologia.
Primeiro devemos observar quais genes são responsáveis (se é que eles existem) por pensamento lógico, por "habilidades matemáticas", por tal e tal comportamento. Depois devemos ver em quais grupos esses genes são diferentes e de que modo são diferentes. Daí concluímos, em último lugar, o que os psicólogos evolutivos querem concluir em primeiro lugar.
Primeiro os fatos, depois a conclusão. Observação sociológica só demonstra, obviamente, conclusões sociológicas. Conclusões biológicas são adquiridas por meio de conclusões biológicas; que é porque é mais fácil respeitar Antônio Damásio do que Steven Pinker.
Eu, por exemplo, não nego o materialismo ou que mente e corpo sejam só uma substância (ok, eu tenho uns pensamentos complexos sobre o assunto e no fucking way vou entrar neles agora), se você me diz que retirando tal parte do cérebro eu perco minha capacidade de me sensibilizar com o sofrimento alheio, eu total acredito (como curiosidade, pra falar do autor que provavelmente vai ser meu objeto de estudo a vida acadêmica toda; não acho que Schopenhauer negaria isso também e ele é hardcore idealista), mas talvez a lição mais importante do Tabula Rasa do Pinker é a lição que ele não tira.
A estrutura física do cérebro é condição negativa para tal coisa. Sem a área do meu cérebro que controla minha empatia, eu não posso ter empatia; mas ter a área do cérebro que controla minha empatia intacta não é condição suficiente para que eu desenvolva empatia. Se eu vivo em uma cultura completamente egoísta, chances são que eu vou ser egoísta mesmo que a área "altruísta" do meu cérebro funcione perfeitamente. A lição que eu tirei do Tabula Rasa é a de que nós não podemos pensar em algo que o cérebro faz sem pensar que ele foi, de algum modo, configurado pela evolução para fazê-lo. Disso não se conclui que é minha configuração genética que faz eu me comportar daquela forma, só significa que eu estou corporeamente capacitado para me comportar daquela forma e que sem tal configuração genética eu não estaria.
É confundir potência com ato, really.
Particularmente (porque esse não é um blog de filosofia, mas um blog para choramingar), eu vou na igreja para desenvolver minha empatia e minha sensibilidade. Eu não acredito em Deus, mas fazer parte daquele ritual e ver a maravilhosa escultura de Jesus na cruz que existe na igreja que eu freqüento me faz querer ajudar os outros. É claro que se não existisse uma área do meu cérebro configurada geneticamente para permitir que eu desenvolvesse amor ao próximo, eu não teria amor ao próximo (e as pessoas ao meu redor sabem que eu sou um cara bem egoísta), mas posso dizer o mesmo da igreja, das lições de Schopenhauer acerca da compaixão, dos filmes que vejo, da pressão social, etc.
Isso tudo pode ser explicado de modo 100% material mesmo que atualmente a ciência não tenha avançado a esse ponto? Não vejo motivo de porque não. Mas que seja resguardada as diferenças entre o que é intrínseco e o que não é. Entre "natureza" e "ambiente".
A minha aposta é que vamos descobrir que a tábula é bem rasa sim, é só que ela é uma tábula. Que possamos utilizá-la apenas para escrever em baixo relevo ao invés de projetar hologramas não significa que haja algo escrito.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
E não é que o jogo de tiro pode vencer?
Um update rápido antes, como eu não conserto erros por causa de qualquer problema psicológico que eu tenha que me faça gostar de lembrar das vezes que erre, o post abaixo vai continuar igual, mas a charge não é do Washington Post e sim do New York Post.
-
Anyway, eu joguei os (agora menos de) 10 minutos do demo do Killzone 2 de novo e de novo e é, vai ter que ser esse, Street Fighter 4 fica pra outro dia, o que, dada minha situação financeira, pode bem ser apenas no fim do ano (o que significa que ele provavelmente vai cair na lista atrás de Uncharted 2 e God of War 3; oh well).
De qualquer forma, Killzone 2 é um puta dum jogo. Jogando o demo mais algumas vezes em cenários no início do jogo feitos com o objetivo de serem fáceis que é pra você treinar as armas, já dá pra perceber que a inteligência artificial é a melhor que existe por aí. É a melhor que eu já experimentei pelo menos, em qualquer jogo de videogame.
Em uma das vezes o soldado inimigo de fato saiu correndo na minha direção, mas atirando e olhando em outra, quando ele me percebeu (e tudo aconteceu meio rápido, então não deu pra eu parar de correr e atirar), ele parou, ficou algum meio segundo sem reação, e logo correu para uma proteção no lado oposto de onde ele estava correndo.
Eu sempre considerei que o maior desafio pra qualquer inteligência artificial de videogame é não ser perfeita. O videogame, obviamente, "sabe" de tudo que acontece e o grande desafio é como programar o inimigo de modo que ele "finja" que não sabe o que acontece, mas, por outro lado, reaja como se estivesse aprendendo as coisas na hora, como, no caso dessa cena, quando o Helgast "aprendeu", naquele momento, que eu corria em sua direção e teve que pensar o que fazer com essa nova informação.
Outra coisa impressionante, mas na mesma linha, é como os inimigos não agem como "hive mind", ou seja, como se compartilhassem a mesma mente. Eles agem em conjunto, mas cada inimigo é claramente individual. Sempre que podem, os helgastes vão dar cobertura para que algum aliado deles te cerquem, mas o que me impressionou é que algumas vezes aleatórias, algum inimigo tenta dar uma de rambo, ou seja, ele tenta correr atirando na esperança de matar o máximo possível antes de morrer. Se o jogador tenta fazer isso é morte na certa, já quando eles tentam... bom, aí também é morte na certa, a vez a que eu me refiro, que eu vi acontecendo, eu nem precisei atirar, o resto da minha equipe (também computador já que o demo não tem modo online) matou o pobre corajoso. Agora, porque o sujeito fez isso? Vai saber, é tanta coisa acontecendo e tanta gente atirando em tanta gente que vai ver que, do ponto de vista dele, simplesmente pareceu uma boa idéia... e acabou não sendo. Esse tipo de capacidade de errar de modo humano é pra mim uma prova bem decente da capacidade de inteligência artificial desse jogo.
Falando um pouquinho de filosofia da mente, uma coisa que sempre me incomodou em quem diz que o cérebro funciona como um computador é que a minha impressão é que, se fosse esse o caso, então o cérebro deveria funcionar como um computador quebrado.
=
Ok, eu prometi um parágrafo sobre a imparcialidade dos historiadores no tweeter.
Do modo que eu entendo, todos devemos buscar ser objetivos tendo consciência que não estamos sendo.
Dito isso, toda falha de objetividade deve ser inconsciente e reconhecer que ela exista é reconhecer o valor do inconsciente.
Então, eu escrevo algo tendo consciência que não estou sendo objetivo, mas eu não posso ter consciência acerca de qual fato não estou sendo objetivo, se eu tiver tal consciência, eu tenho que corrigi-la.
Por exemplo, se eu souber que ao falar do Brasil, eu sou injusto com tal figura histórica por causa de um complexo de vira-lata, então isso não é uma subjetividade inconsciente mais, esse é um desvio consciente do que seria um julgamento correto acerca de tal figura histórica e aí eu tenho o dever de corrigir minha posição.
É da maior importância saber que jamais chegaremos em uma tal objetividade, que jamais vamos refletir uma tal realidade com perfeição, mas isso não pode nos servir de desculpa para quando sabemos que estamos errando.
-
Anyway, eu joguei os (agora menos de) 10 minutos do demo do Killzone 2 de novo e de novo e é, vai ter que ser esse, Street Fighter 4 fica pra outro dia, o que, dada minha situação financeira, pode bem ser apenas no fim do ano (o que significa que ele provavelmente vai cair na lista atrás de Uncharted 2 e God of War 3; oh well).
De qualquer forma, Killzone 2 é um puta dum jogo. Jogando o demo mais algumas vezes em cenários no início do jogo feitos com o objetivo de serem fáceis que é pra você treinar as armas, já dá pra perceber que a inteligência artificial é a melhor que existe por aí. É a melhor que eu já experimentei pelo menos, em qualquer jogo de videogame.
Em uma das vezes o soldado inimigo de fato saiu correndo na minha direção, mas atirando e olhando em outra, quando ele me percebeu (e tudo aconteceu meio rápido, então não deu pra eu parar de correr e atirar), ele parou, ficou algum meio segundo sem reação, e logo correu para uma proteção no lado oposto de onde ele estava correndo.
Eu sempre considerei que o maior desafio pra qualquer inteligência artificial de videogame é não ser perfeita. O videogame, obviamente, "sabe" de tudo que acontece e o grande desafio é como programar o inimigo de modo que ele "finja" que não sabe o que acontece, mas, por outro lado, reaja como se estivesse aprendendo as coisas na hora, como, no caso dessa cena, quando o Helgast "aprendeu", naquele momento, que eu corria em sua direção e teve que pensar o que fazer com essa nova informação.
Outra coisa impressionante, mas na mesma linha, é como os inimigos não agem como "hive mind", ou seja, como se compartilhassem a mesma mente. Eles agem em conjunto, mas cada inimigo é claramente individual. Sempre que podem, os helgastes vão dar cobertura para que algum aliado deles te cerquem, mas o que me impressionou é que algumas vezes aleatórias, algum inimigo tenta dar uma de rambo, ou seja, ele tenta correr atirando na esperança de matar o máximo possível antes de morrer. Se o jogador tenta fazer isso é morte na certa, já quando eles tentam... bom, aí também é morte na certa, a vez a que eu me refiro, que eu vi acontecendo, eu nem precisei atirar, o resto da minha equipe (também computador já que o demo não tem modo online) matou o pobre corajoso. Agora, porque o sujeito fez isso? Vai saber, é tanta coisa acontecendo e tanta gente atirando em tanta gente que vai ver que, do ponto de vista dele, simplesmente pareceu uma boa idéia... e acabou não sendo. Esse tipo de capacidade de errar de modo humano é pra mim uma prova bem decente da capacidade de inteligência artificial desse jogo.
Falando um pouquinho de filosofia da mente, uma coisa que sempre me incomodou em quem diz que o cérebro funciona como um computador é que a minha impressão é que, se fosse esse o caso, então o cérebro deveria funcionar como um computador quebrado.
=
Ok, eu prometi um parágrafo sobre a imparcialidade dos historiadores no tweeter.
Do modo que eu entendo, todos devemos buscar ser objetivos tendo consciência que não estamos sendo.
Dito isso, toda falha de objetividade deve ser inconsciente e reconhecer que ela exista é reconhecer o valor do inconsciente.
Então, eu escrevo algo tendo consciência que não estou sendo objetivo, mas eu não posso ter consciência acerca de qual fato não estou sendo objetivo, se eu tiver tal consciência, eu tenho que corrigi-la.
Por exemplo, se eu souber que ao falar do Brasil, eu sou injusto com tal figura histórica por causa de um complexo de vira-lata, então isso não é uma subjetividade inconsciente mais, esse é um desvio consciente do que seria um julgamento correto acerca de tal figura histórica e aí eu tenho o dever de corrigir minha posição.
É da maior importância saber que jamais chegaremos em uma tal objetividade, que jamais vamos refletir uma tal realidade com perfeição, mas isso não pode nos servir de desculpa para quando sabemos que estamos errando.
Sobre a charge do Washington Post
Eu não achei agora googlando (embora tenha visto hoje em um lugar que poderia ter pego o link, mas acabei não pegando, foi mais cedo), mas a charge é assim.
Um macaco baleado está no chão e dois policiais com armas na mão comentam algo do tipo "e agora? Quem vai redigir a legislação do estímulo?"
A charge fazia referência a duas coisas: Uma é a notícia trash do momento, dos macacos que mataram uma mulher e foram baleados e a outra é uma crítica a legislação que Obama assinou esses dias.
Imediatamente a imprensa norte-americana começou a acusar o Post (tradicionalmente republicano) de racismo por comparar o macaco com Obama.
-
Minha opinião é essa: o sujeito do Post não tentou ser racista, mas não importa, ele foi, no mínimo, insensível e isso é também um problema grave.
Me impressiona como tem gente (i.e, Reinaldo Azevedo) fica indignada com as pessoas acusando o sujeito de racista. Pode-se discordar delas e eu acho que tem gente que realmente pegou mais pesado do que deveria, mas existe algum motivo pra ficar indignado?
De novo, se o sujeito não sabia que comparar a legislação assinada esses dias pelo Obama em meio a uma chuva de autógrafos com um macaco teria uma conotação racista, então o sujeito foi, no mínimo, insensível.
Ser insensível é isso mesmo. É passar uma mensagem que ofende e que machuca sem perceber que está ofendendo e machucando.
Até aí se resolve com um "puxa, eu fui insensível, desculpa, não percebi a ofensa". Mas quando você fica indignado que te chamaram atenção, dizendo "vocês são um bando de frescos!", aí a coisa piora.
Quando o Azevedo se indigna com as pessoas chamando atenção do sujeito, de novo, não entendo porque ele está indignado. Quer dizer que pedir pra fazer a gentileza de não comparar o presidente negro com um macaco é uma ameaça a nossa liberdade de expressão? Ninguém está pedindo para não criticar o Obama ou para aceitar sua legislação passivamente, mas você jura que está me dizendo que a nossa liberdade de expressão vai desaparecer caso não comparemos um macaco com o presidente negro?
E por enquanto, até onde eu sei, tudo que o Post recebeu foi um puxão de orelha da imprensa. É diferente do caso das charges na Dinamarca em que houve ameaças de morte e de terrorismo e etc. Se é ofensivo para o Islã que desenhemos o rosto do seu profeta, então não vamos desenhar o rosto do seu profeta. Não é censura, é boa educação; não dá pra ter civilização sem pessoas que se respeitam.
Eu particularmente fico muito incomodado toda vez que alguém associa padres a pedofilia, quando alguém faz uma piada do tipo "ih, é um padre, esconde as crianças" ou algo do tipo.
Isso significa parar de perseguir com todo o vigor os padres que de fato são suspeitos de terem molestado crianças? Claro que não. Assim como não significa parar de criticar o Obama, assim como não significa parar de criticar os abusos de direitos humanos nos países árabes, assim como boa parte da crítica a Israel não é antissemitismo.
Mas mesmo para que as coisas possam ser bem criticas, de modo sensato e correto, é preciso que ninguém seja ofendido gratuitamente no processo.
Quando discutindo terrorismo, só atrapalha partir do pressuposto que o Islã tem automaticamente algo a ver com isso, nos atrapalha na hora de identificar as questões econômicas, políticas e sociais do caso. Eu não tenho nenhum respeito por países com leis que criminalizam a homossexualidade e forçam mulheres a ser presas por terem sido estupradas, mas isso é falta de humanismo e não excesso de Islã. A cristandade faz muito bem sua cota enorme de atrocidades quando esquece o humanismo. Associar automaticamente terrorismo com Islã é só jogar ruído desnecessário em questões já complexas.
O mesmo acontece quando se compara Israel com nazismo, é só uma maneira de machucar. É coisa de gente que diz "dois lados porra nenhuma". É só antissemitismo rasteiro que traz ruído desnecessário a um debate que já é complexo sem isso. Comparar eventos em Israel com eventos do holocausto não ensina nada, não ilumina acerca de nenhuma questão, só ofende os judeus. Só machuca. Só, de novo, provoca ruído. Ninguém compara Israel com nazismo pra chamar atenção a qualquer crise humanitária. Só se faz isso pra ofender, pra chamar ao seu lado um racismo antigo, em outras palavras, pra chamar a irracionalidade pro seu lado. É quando não se está mais interessado em humanidade ou humanismo, mas só em angariar uma turba furiosa.
O mesmo acontece quando se compara Obama com um macaco. Não há nenhum problema em dizer que a legislação do Obama foi feita às pressas, mas invocar um macaco só traz ruído, só traz irracionalidade, só distrai, que foi exatamente o que aconteceu. Ofende um grupo de pessoas sem o objetivo de esclarecer nada, só com o objetivo de ofender mesmo e, se não teve o objetivo de ofender - e acho que não teve - então ofendeu pela insensibilidade, por não ter percebido de antemão que ofenderia. Isso não é um sujeito qualquer sendo ofendido por uma paranóia particular; isso é um grupo inteiro de cidadãos que passam suas vidas sendo maltratados pelo racismo e por piadas relacionadas ao imaginário que a charge invocou. E você quer me convencer que nossa liberdade de expressão está em risco porque nós damos um puxão de orelha em um chargista quando ele faz uso desse imaginário?
Certas palavras machucam, certas imagens machucam, a defesa "fui ofendido" certamente pode levar a abusos, mas é por isso que não temos uma regra a priori pra tais coisas, é por isso que analisamos caso a caso e, neste caso, uma série de pessoas se sentiu ofendida. Obama é criticado diariamente pela legislação, existe nos Estados Unidos uma tradição grande e importante de chargistas de direita e não são poucas as charges acusando Obama de todo tipo de desonestidade na hora de montar essa legislação (Rodrigo, afinal, é um garoto razoavelmente de direita, eu leio essas coisas); mas essas charges não comparam Obama a um macaco. Então não me venha com essa besteira de que o que ofendeu é que Obama foi criticado. Isso é idiota. A mídia norte-americana é a mais livre do mundo. Lá todo mundo critica todo mundo, todo mundo faz charge de todo mundo, ontem mesmo eu vi Obama ser chamado de assassino umas duas vezes (por causa de suas posturas pró-aborto). Mas qual a diferença? Bom, é que quando chamam Obama de assassino, não o comparam a um macaco.
Eu acho engraçado esses conservadores dispostos a tortura para manter a ordem, mas acham um absurdo ter que pensar duas vezes antes de falar algo que talvez ofenda alguém. O jeito mais certo e mais garantido de manter a ordem é simplesmente manter a comunicação e o melhor meio de manter a comunicação é não trazendo ao discurso público os ruídos das ofensas mesquinhas.
Alguns são difíceis de perceber e podem te pegar de surpresa mesmo, mas não mostrar um macaco morto dizendo que agora não sobrou ninguém pra redigir a legislação do presidente negro? Isso deveria ser bom senso e ninguém deveria ficar indignado quando damos um puxão de orelha público a quem falta bom senso.
Um macaco baleado está no chão e dois policiais com armas na mão comentam algo do tipo "e agora? Quem vai redigir a legislação do estímulo?"
A charge fazia referência a duas coisas: Uma é a notícia trash do momento, dos macacos que mataram uma mulher e foram baleados e a outra é uma crítica a legislação que Obama assinou esses dias.
Imediatamente a imprensa norte-americana começou a acusar o Post (tradicionalmente republicano) de racismo por comparar o macaco com Obama.
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Minha opinião é essa: o sujeito do Post não tentou ser racista, mas não importa, ele foi, no mínimo, insensível e isso é também um problema grave.
Me impressiona como tem gente (i.e, Reinaldo Azevedo) fica indignada com as pessoas acusando o sujeito de racista. Pode-se discordar delas e eu acho que tem gente que realmente pegou mais pesado do que deveria, mas existe algum motivo pra ficar indignado?
De novo, se o sujeito não sabia que comparar a legislação assinada esses dias pelo Obama em meio a uma chuva de autógrafos com um macaco teria uma conotação racista, então o sujeito foi, no mínimo, insensível.
Ser insensível é isso mesmo. É passar uma mensagem que ofende e que machuca sem perceber que está ofendendo e machucando.
Até aí se resolve com um "puxa, eu fui insensível, desculpa, não percebi a ofensa". Mas quando você fica indignado que te chamaram atenção, dizendo "vocês são um bando de frescos!", aí a coisa piora.
Quando o Azevedo se indigna com as pessoas chamando atenção do sujeito, de novo, não entendo porque ele está indignado. Quer dizer que pedir pra fazer a gentileza de não comparar o presidente negro com um macaco é uma ameaça a nossa liberdade de expressão? Ninguém está pedindo para não criticar o Obama ou para aceitar sua legislação passivamente, mas você jura que está me dizendo que a nossa liberdade de expressão vai desaparecer caso não comparemos um macaco com o presidente negro?
E por enquanto, até onde eu sei, tudo que o Post recebeu foi um puxão de orelha da imprensa. É diferente do caso das charges na Dinamarca em que houve ameaças de morte e de terrorismo e etc. Se é ofensivo para o Islã que desenhemos o rosto do seu profeta, então não vamos desenhar o rosto do seu profeta. Não é censura, é boa educação; não dá pra ter civilização sem pessoas que se respeitam.
Eu particularmente fico muito incomodado toda vez que alguém associa padres a pedofilia, quando alguém faz uma piada do tipo "ih, é um padre, esconde as crianças" ou algo do tipo.
Isso significa parar de perseguir com todo o vigor os padres que de fato são suspeitos de terem molestado crianças? Claro que não. Assim como não significa parar de criticar o Obama, assim como não significa parar de criticar os abusos de direitos humanos nos países árabes, assim como boa parte da crítica a Israel não é antissemitismo.
Mas mesmo para que as coisas possam ser bem criticas, de modo sensato e correto, é preciso que ninguém seja ofendido gratuitamente no processo.
Quando discutindo terrorismo, só atrapalha partir do pressuposto que o Islã tem automaticamente algo a ver com isso, nos atrapalha na hora de identificar as questões econômicas, políticas e sociais do caso. Eu não tenho nenhum respeito por países com leis que criminalizam a homossexualidade e forçam mulheres a ser presas por terem sido estupradas, mas isso é falta de humanismo e não excesso de Islã. A cristandade faz muito bem sua cota enorme de atrocidades quando esquece o humanismo. Associar automaticamente terrorismo com Islã é só jogar ruído desnecessário em questões já complexas.
O mesmo acontece quando se compara Israel com nazismo, é só uma maneira de machucar. É coisa de gente que diz "dois lados porra nenhuma". É só antissemitismo rasteiro que traz ruído desnecessário a um debate que já é complexo sem isso. Comparar eventos em Israel com eventos do holocausto não ensina nada, não ilumina acerca de nenhuma questão, só ofende os judeus. Só machuca. Só, de novo, provoca ruído. Ninguém compara Israel com nazismo pra chamar atenção a qualquer crise humanitária. Só se faz isso pra ofender, pra chamar ao seu lado um racismo antigo, em outras palavras, pra chamar a irracionalidade pro seu lado. É quando não se está mais interessado em humanidade ou humanismo, mas só em angariar uma turba furiosa.
O mesmo acontece quando se compara Obama com um macaco. Não há nenhum problema em dizer que a legislação do Obama foi feita às pressas, mas invocar um macaco só traz ruído, só traz irracionalidade, só distrai, que foi exatamente o que aconteceu. Ofende um grupo de pessoas sem o objetivo de esclarecer nada, só com o objetivo de ofender mesmo e, se não teve o objetivo de ofender - e acho que não teve - então ofendeu pela insensibilidade, por não ter percebido de antemão que ofenderia. Isso não é um sujeito qualquer sendo ofendido por uma paranóia particular; isso é um grupo inteiro de cidadãos que passam suas vidas sendo maltratados pelo racismo e por piadas relacionadas ao imaginário que a charge invocou. E você quer me convencer que nossa liberdade de expressão está em risco porque nós damos um puxão de orelha em um chargista quando ele faz uso desse imaginário?
Certas palavras machucam, certas imagens machucam, a defesa "fui ofendido" certamente pode levar a abusos, mas é por isso que não temos uma regra a priori pra tais coisas, é por isso que analisamos caso a caso e, neste caso, uma série de pessoas se sentiu ofendida. Obama é criticado diariamente pela legislação, existe nos Estados Unidos uma tradição grande e importante de chargistas de direita e não são poucas as charges acusando Obama de todo tipo de desonestidade na hora de montar essa legislação (Rodrigo, afinal, é um garoto razoavelmente de direita, eu leio essas coisas); mas essas charges não comparam Obama a um macaco. Então não me venha com essa besteira de que o que ofendeu é que Obama foi criticado. Isso é idiota. A mídia norte-americana é a mais livre do mundo. Lá todo mundo critica todo mundo, todo mundo faz charge de todo mundo, ontem mesmo eu vi Obama ser chamado de assassino umas duas vezes (por causa de suas posturas pró-aborto). Mas qual a diferença? Bom, é que quando chamam Obama de assassino, não o comparam a um macaco.
Eu acho engraçado esses conservadores dispostos a tortura para manter a ordem, mas acham um absurdo ter que pensar duas vezes antes de falar algo que talvez ofenda alguém. O jeito mais certo e mais garantido de manter a ordem é simplesmente manter a comunicação e o melhor meio de manter a comunicação é não trazendo ao discurso público os ruídos das ofensas mesquinhas.
Alguns são difíceis de perceber e podem te pegar de surpresa mesmo, mas não mostrar um macaco morto dizendo que agora não sobrou ninguém pra redigir a legislação do presidente negro? Isso deveria ser bom senso e ninguém deveria ficar indignado quando damos um puxão de orelha público a quem falta bom senso.
terça-feira, fevereiro 17, 2009
Acho que o jogo de tiro vai perder de novo.
No natal, a escolha era entre Little Big Planet e Resistance 2.
Pensei, sofri, ponderei, li resenhas, prós e contras e finalmente decidi por Little Big Planet.
Não dá pra falar sobre realidades alternativas, mas jogo LBP até hoje, ainda tenho um monte de troféis pra conseguir e não me vejo parando de jogar aquele jogo no futuro breve.
Ainda parece um jogo eterno.
Agora a dúvida volta: Killzone 2 ou Street Fighter 4?
O problema de jogos de tiro é que, embora uns pareçam melhores e outros piores, e Killzone 2 me parece o melhor jogo de tiro já feito, eles ainda são jogos de tiro. Ainda todos são mais ou menos parecidos.
Eu sei que o mesmo pode ser dito sobre jogos de luta, mas assim que saiu Street Fighter 2 HD na PSN, eu comprei e não tenho me arrependido.
Meses depois, eu ainda jogo Street Fighter 2 e SF4 não só é um jogo mais complexo, com mais o que fazer, mas é um jogo que, dizem, o online funciona bem melhor. Eu jogo SF2 online mesmo com os problemas, se desse pra jogar online sem os problemas, eu acho que isso é uma receita prática pra um vício.
=
Ainda me entristece não ter nenhum jogo de tiro em primeira pessoa em casa, já que eu estou sempre com vontade de jogar algo do gênero. Mas really, eu aluguei Call of Duty: Wolrd at War esses dias e achei bem meh.
A escolha se tornou entre o certo e o duvidoso. Claro que o duvidoso pode se tornar melhor que o certo, mas algo me indica que eu não vou ficar pensando: "ah, droga, estou jogando Street Fighter 4".
UPDATE:
Eu joguei o Demo de Killzone 2 e agora a bagaça fica difícil. O jogo é bom mesmo.
Quero dizer, bom MESMO.
O jogo parece muito diferente, parece pesado, você corre e a impressão que dá é que você é de fato um sujeito carregando 20 quilos de equipamento.
O demo se passa nos primeiros 10 minutos or so de jogo e eu morri umas 5 vezes pra passar esses primeiros 10 minutos.
Os gráficos são excelentes, mas eu de alguma forma já tinha me acostumado com eles depois de tantos vídeos, mas a jogabilidade é também excepcional.
Eu gostaria de comparar com a experiência real de sair correndo com uma arma e atirar em alguém, mas graças aos meus braços finos, eu nunca peguei uma arma na mão.
De qualquer forma, atirar funciona como imagino que atirar funcione. O primeiro tiro vai no alvo, os outros são seriamente influenciados pelo recuo. Os capacetes dos Helgastes garantem que eles sobrevivam a um tiro na cabeça, que torna as coisas mais emocionantes, mas a moral é que esse é o futuro e as armas disparam chumbo. Os seus tiros não machucam muito a armadura deles e nem a deles a sua.
Acho que isso é uma coisa excelente do jogo, o quanto parece que você não é de nenhum modo especial.
Se você estiver exposto e começarem a atirar em você, você até tem uma chance de fugir pra achar abrigo, mas num geral significa morte. O mesmo ocorre com eles, acertar alguns tiros fazem o bicho perder o equilibrio, mas a AI é impressionante. Eles não brincam! Eles estão lá pra te foder mesmo!
-
Foram duas seções no demo. A primeira tem um script claro. Os bichos andam entre o ponto A e o ponto B e é só pra você treinar a mira mesmo.
Na segunda, a bagaça complica (e imagino que o resto do jogo seja assim).
Eles invadem o prédio que você está (e vice-versa) e eles não ficam parados esperando tiro. Jogam granadas pra te tirar da posição, correm pra coberturas mais perto de você, te cercam, fazem o que você espera que humanos bem organizados fariam. Num grupo de 3, enquanto um atira e te mantém com medo atrás da parede, os outros dois estão agressivamente procurando um meio de te flanquear.
E de novo, eles aguentam alguns tiros e geralmente usam muito bem essa oportunidade para saírem da linha de fogo. Se você não pega um quando tem a oportunidade, chances são que você vai se arrepender.
É um jogo excelente. O que mais me impressiona, até agora, é a inteligência artificial. Me impressiona tanto que eu nem ligo que os inimigos sejam todos iguais, eles se parecem os mesmos, mas agem diferente. Cada inimigo é um inimigo. É um jogo espetacular.
=
E o drama continua.
Porque mesmo Killzone 2 sendo tão bom, Street Fighter 4 ainda parece o auge.
Pensei, sofri, ponderei, li resenhas, prós e contras e finalmente decidi por Little Big Planet.
Não dá pra falar sobre realidades alternativas, mas jogo LBP até hoje, ainda tenho um monte de troféis pra conseguir e não me vejo parando de jogar aquele jogo no futuro breve.
Ainda parece um jogo eterno.
Agora a dúvida volta: Killzone 2 ou Street Fighter 4?
O problema de jogos de tiro é que, embora uns pareçam melhores e outros piores, e Killzone 2 me parece o melhor jogo de tiro já feito, eles ainda são jogos de tiro. Ainda todos são mais ou menos parecidos.
Eu sei que o mesmo pode ser dito sobre jogos de luta, mas assim que saiu Street Fighter 2 HD na PSN, eu comprei e não tenho me arrependido.
Meses depois, eu ainda jogo Street Fighter 2 e SF4 não só é um jogo mais complexo, com mais o que fazer, mas é um jogo que, dizem, o online funciona bem melhor. Eu jogo SF2 online mesmo com os problemas, se desse pra jogar online sem os problemas, eu acho que isso é uma receita prática pra um vício.
=
Ainda me entristece não ter nenhum jogo de tiro em primeira pessoa em casa, já que eu estou sempre com vontade de jogar algo do gênero. Mas really, eu aluguei Call of Duty: Wolrd at War esses dias e achei bem meh.
A escolha se tornou entre o certo e o duvidoso. Claro que o duvidoso pode se tornar melhor que o certo, mas algo me indica que eu não vou ficar pensando: "ah, droga, estou jogando Street Fighter 4".
UPDATE:
Eu joguei o Demo de Killzone 2 e agora a bagaça fica difícil. O jogo é bom mesmo.
Quero dizer, bom MESMO.
O jogo parece muito diferente, parece pesado, você corre e a impressão que dá é que você é de fato um sujeito carregando 20 quilos de equipamento.
O demo se passa nos primeiros 10 minutos or so de jogo e eu morri umas 5 vezes pra passar esses primeiros 10 minutos.
Os gráficos são excelentes, mas eu de alguma forma já tinha me acostumado com eles depois de tantos vídeos, mas a jogabilidade é também excepcional.
Eu gostaria de comparar com a experiência real de sair correndo com uma arma e atirar em alguém, mas graças aos meus braços finos, eu nunca peguei uma arma na mão.
De qualquer forma, atirar funciona como imagino que atirar funcione. O primeiro tiro vai no alvo, os outros são seriamente influenciados pelo recuo. Os capacetes dos Helgastes garantem que eles sobrevivam a um tiro na cabeça, que torna as coisas mais emocionantes, mas a moral é que esse é o futuro e as armas disparam chumbo. Os seus tiros não machucam muito a armadura deles e nem a deles a sua.
Acho que isso é uma coisa excelente do jogo, o quanto parece que você não é de nenhum modo especial.
Se você estiver exposto e começarem a atirar em você, você até tem uma chance de fugir pra achar abrigo, mas num geral significa morte. O mesmo ocorre com eles, acertar alguns tiros fazem o bicho perder o equilibrio, mas a AI é impressionante. Eles não brincam! Eles estão lá pra te foder mesmo!
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Foram duas seções no demo. A primeira tem um script claro. Os bichos andam entre o ponto A e o ponto B e é só pra você treinar a mira mesmo.
Na segunda, a bagaça complica (e imagino que o resto do jogo seja assim).
Eles invadem o prédio que você está (e vice-versa) e eles não ficam parados esperando tiro. Jogam granadas pra te tirar da posição, correm pra coberturas mais perto de você, te cercam, fazem o que você espera que humanos bem organizados fariam. Num grupo de 3, enquanto um atira e te mantém com medo atrás da parede, os outros dois estão agressivamente procurando um meio de te flanquear.
E de novo, eles aguentam alguns tiros e geralmente usam muito bem essa oportunidade para saírem da linha de fogo. Se você não pega um quando tem a oportunidade, chances são que você vai se arrepender.
É um jogo excelente. O que mais me impressiona, até agora, é a inteligência artificial. Me impressiona tanto que eu nem ligo que os inimigos sejam todos iguais, eles se parecem os mesmos, mas agem diferente. Cada inimigo é um inimigo. É um jogo espetacular.
=
E o drama continua.
Porque mesmo Killzone 2 sendo tão bom, Street Fighter 4 ainda parece o auge.
domingo, fevereiro 15, 2009
Olavando.
Não levem esse post a sério. (como se qualquer post meu fosse ser levado a sério)
-
Uma teoria: a esquerda gosta de genocidas.
Não é que eles aprendem depois, não é que eles são idiotas úteis, não é que a história prova que suas teorias inevitavelmente levam a qualquer tipo de autoritarismo.
A esquerda ativamente sente prazer em apoiar pessoas com milhões de mortos no placar.
Então eis o que acontece:
A esquerda apoiou Stalin, Mao Tse Tun, Pol Pot, Fidel Castro; praticamente todo mundo que se diverte com matanças intermináveis.
Mas olha a palavra chave: "Praticamente".
Existiu um genocida que a esquerda não apoiou: Hitler.
E eles se sentem tristes!
Eles se encontram no bar e pensam "como deixamos esse escapar?"
E entristecidos por terem perdido a oportunidade de apoiar um grupo de gente que mata judeus, negros e homossexuais, a esquerda, pois, caso contrário, eles poderia dizer com orgulho que apoiaram todos os principais genocidas do século, eles decidem fazer algo a respeito!
Já que não tem Hitler, apoiarão o que há de mais próximo.
Eles descobriram o mundo árabe!
Os árabes africanos são racistas contra os negros africanos. No Sudão eles ativamente assassinam negros, muçulmanos ou não, não tem nada a ver com religião, os árabes odeiam *negros*, eles são racistas, são religiosos fanáticos que matam pessoas da mesma religião, eles odeiam os negros tanto assim.
Então, negros está na lista.
Os árabes odeiam homossexuais. Árabes tratam homossexuais pior do que o Bush tratava terroristas:
Um jovem gay de 17 anos passou meses em uma prisão palestina onde interrogadores o cortavam com vidro e então jogavam água sanitaria nas feridas.
Céus, os árabes tratam homossexuais pior do que os árabes tratam pessoas que querem matá-los.
O Irã enforca homossexuais para todo mundo ver e anuncia na imprensa ocidental que o crime foi outro qualquer (como se enforcar pessoas para todo mundo fosse justificativa pra qualquer crime; os árabes tratam seus homossexuais da mesma maneira que Bush tratou Saddam Hussein).
Na Nigéria, jovens foram condenados a 8 anos de prisão por terem sido pegos distribuindo camisinha, a acusação: homossexualidade.
Então, homossexuais está na lista.
Por fim, judeus.
Então, judeus está na lista.
Resumo. Existiu um genocida que esquerda não apoiou: foi o genocida que queria a morte de negros, judeus e homossexuais.
Existe um grupo que a esquerda hoje apóia: são os caras que querem a morte de negros, judeus e homossexuais.
A esquerda apóia hoje o mundo árabe (mesmo após a revolução iraniana ter matado sua cota de esquerdistas) que é porque eles se sentem tristes por não terem apoiado o único sistema que não matou negros, judeus e homossexuais.
Numa nota, quando eu digo árabes, é porque infelizmente, não conheço um vocabulário para distinguir os governos árabes da etnia árabe. O Obama usa a expressão "muslim world" e eu acho ainda pior.
O mundo islâmico é também o mundo cristão, judeu e ateu. Nossa sociedade é aberta a todas as religiões e não divide o mundo por religiões.
Da mesma forma, é questionável se a maioria dos árabes (etnia) gostam de viver no mundo árabe (política).
Árabes, como o povo vindo do Oriente Médio, não pode ser automaticamente ligado a racismo, homofobia e antissemitismo. Existem no Brasil muitos árabes e descendentes e certamente não posso acusá-los de nada acima.
Não, quem eu estou acusando de racismo, homofobia e antissemitismo são os governos opressores e autoritários que a esquerda apóia.
E porque a esquerda apóia governos que assassinam a própria população baseado em cor de pele, orientação sexual e religião? Porque, oras bolas, só faltava esse tipo específico de governo assassino para a esquerda apoiar!
Agora, todo mundo que se sente confortável andando com uma camiseta que tenha a foice e o martelo pode se sentir tranquilo de que apóia o único grupo genocida que deixou de apoiar no passado.
=
E porque esse texto não pode ser levado a sério?
Porque, infelizmente pra minha teoria, mas felizmente pro mundo, os genocidas são diferentes.
Os árabes que matam negros no Sudão não são os mesmos árabes que matam homossexuais no Irã, mas deve ser notado que o Irã mantém sim laços de amizade com o Sudão baseados no fato de que são dois governos árabes. Mas dito isso, eu chutaria que nos países árabes do Oriente Médio existe menos racismo contra negros que aqui.
A Nigéria, por exemplo, é mais complicada; pois a maior parte do corpo político não quer fazer parte dessa doidera, mas parte significante quer e, portanto, às vezes acontece essas mortes de homossexuais e a parte sã do governo não consegue impedir.
Além do mais, a ONU passou uma resolução dizendo que nós não podemos fazer isso que eu estou fazendo, ou seja, chamar os homofóbicos de homofóbicos porque, tadinhos, ofende a sensibilidade dessa gente que gosta de enforcar homossexuais em praça pública. Morro de pena da sensibilidade iraniana. Mas enfim, não pode, e quem ajudou a passar essa resolução? O Vaticano.
Odiar os homossexuais é o UM projeto que une Estados Unidos, Oriente Médio e o Vaticano.
=
Mas olha que coisa engraçada.
A moda agora é chamar a Suíça de neonazista. A moda semana passada era chamar Israel de neonazista. O governo brasileiro praticamente fez ambos oficialmente.
Quem o governo brasileiro não chama de neonazista?
Bom, sabe aquele governo que diz que deseja o assassinato de todos os judeus do mundo, que enforca homossexuais em plena luz do dia e que tem acordos com o governo que mata negros?
Sabe aquele Irã que é praticamente a definição de neonazismo?
Esse o governo brasileiro não só não chama de neonazista, como faz acordos comerciais e manda comissão de diplomatas tomar cafezinho junto.
Então, vamos de novo olhar o fato curioso:
Israel tem parada gay, direitos democráticos para toda a população (isso pode estar chegando ao fim, então eu vou defender enquanto posso), imprensa livre, *é o único país do mundo a oferecer refúgio aos negros de Darfur quando eles são expulsos a força do Egito* e é neonazista.
Suíça tem parada gay, direitos democráticos para toda a população, imprensa livre e é neonazista.
Irã enforca homossexuais em plena luz do dia para todos verem e aplaudirem, tem um sistema legal que oprime mulheres e gays, acordos comerciais com o governo que mata negros por ser o governo que mata negros, imprensa censurada, opressão de dissidentes e não só não é neonazista, como é um parceiro comercial bem vindo e amigo do Brasil.3
Mas não vamos esquecer o próprio Brasil!
O Brasil não só tem acordo comercial com esse governo não-neonazista que tem laços com o governo do Sudão, como lambe os pés da China, esse outro governo não-neonazista que financia o massacre todo (aliás, o HSBC financia a PetroChina; boicotem! Pelo amor de Deus, se existe uma causa no universo que merece boicote, é essa!), aliás, o Brasil, governo Lula, em uma de suas poucas participações na ONU, impediu que fosse feita uma investigação. Atrasou toda a resolução do conflito, sabe-se lá quantas dezenas de milhares (sendo bonzinho) de pessoas morreram em Darfur por causa da decisão de deixar o Brasil votar essas coisas na ONU.
Então se você vota no Lula, parabéns! Você vota a favor do sistemático extermínio dos negros do Sudão. Feliz agora? Espero que esteja, ser de esquerda é isso mesmo amigão. Não ache que só porque você nasceu depois do fim da guerra fria que deixou de ter incontáveis mortes na consciência por apoiar governos de esquerda.
Acho que é por isso que nosso acadêmico de New Orleans defende que a questão em Gaza, um lugar que morrem menos pessoas por ano do que morre em Pernambuco, é a "crise humanitária de nossa era".
Oras bolas, esse cara, que, quando a Marta Suplicy se juntou ao pessoal do "povo de deus não vota em gay", fez uma acusação meia-boca, mas só escreveu meeeesmo pra dizer o quanto a imprensa estava sendo injusta com nossa baronesa do ódio, está mais que certo em ignorar o massacre de centenas de milhares de pessoas (chegando ao um milhão enquanto o Brasil estiver ajudando!).
Afinal, a morte de um homofóbico racista antissemita é uma tragédia! A morte de quinhentos mil negros? Apenas uma estatística.
-
Uma teoria: a esquerda gosta de genocidas.
Não é que eles aprendem depois, não é que eles são idiotas úteis, não é que a história prova que suas teorias inevitavelmente levam a qualquer tipo de autoritarismo.
A esquerda ativamente sente prazer em apoiar pessoas com milhões de mortos no placar.
Então eis o que acontece:
A esquerda apoiou Stalin, Mao Tse Tun, Pol Pot, Fidel Castro; praticamente todo mundo que se diverte com matanças intermináveis.
Mas olha a palavra chave: "Praticamente".
Existiu um genocida que a esquerda não apoiou: Hitler.
E eles se sentem tristes!
Eles se encontram no bar e pensam "como deixamos esse escapar?"
E entristecidos por terem perdido a oportunidade de apoiar um grupo de gente que mata judeus, negros e homossexuais, a esquerda, pois, caso contrário, eles poderia dizer com orgulho que apoiaram todos os principais genocidas do século, eles decidem fazer algo a respeito!
Já que não tem Hitler, apoiarão o que há de mais próximo.
Eles descobriram o mundo árabe!
Os árabes africanos são racistas contra os negros africanos. No Sudão eles ativamente assassinam negros, muçulmanos ou não, não tem nada a ver com religião, os árabes odeiam *negros*, eles são racistas, são religiosos fanáticos que matam pessoas da mesma religião, eles odeiam os negros tanto assim.
Então, negros está na lista.
Os árabes odeiam homossexuais. Árabes tratam homossexuais pior do que o Bush tratava terroristas:
Um jovem gay de 17 anos passou meses em uma prisão palestina onde interrogadores o cortavam com vidro e então jogavam água sanitaria nas feridas.
Céus, os árabes tratam homossexuais pior do que os árabes tratam pessoas que querem matá-los.
O Irã enforca homossexuais para todo mundo ver e anuncia na imprensa ocidental que o crime foi outro qualquer (como se enforcar pessoas para todo mundo fosse justificativa pra qualquer crime; os árabes tratam seus homossexuais da mesma maneira que Bush tratou Saddam Hussein).
Na Nigéria, jovens foram condenados a 8 anos de prisão por terem sido pegos distribuindo camisinha, a acusação: homossexualidade.
Então, homossexuais está na lista.
Por fim, judeus.
Então, judeus está na lista.
Resumo. Existiu um genocida que esquerda não apoiou: foi o genocida que queria a morte de negros, judeus e homossexuais.
Existe um grupo que a esquerda hoje apóia: são os caras que querem a morte de negros, judeus e homossexuais.
A esquerda apóia hoje o mundo árabe (mesmo após a revolução iraniana ter matado sua cota de esquerdistas) que é porque eles se sentem tristes por não terem apoiado o único sistema que não matou negros, judeus e homossexuais.
Numa nota, quando eu digo árabes, é porque infelizmente, não conheço um vocabulário para distinguir os governos árabes da etnia árabe. O Obama usa a expressão "muslim world" e eu acho ainda pior.
O mundo islâmico é também o mundo cristão, judeu e ateu. Nossa sociedade é aberta a todas as religiões e não divide o mundo por religiões.
Da mesma forma, é questionável se a maioria dos árabes (etnia) gostam de viver no mundo árabe (política).
Árabes, como o povo vindo do Oriente Médio, não pode ser automaticamente ligado a racismo, homofobia e antissemitismo. Existem no Brasil muitos árabes e descendentes e certamente não posso acusá-los de nada acima.
Não, quem eu estou acusando de racismo, homofobia e antissemitismo são os governos opressores e autoritários que a esquerda apóia.
E porque a esquerda apóia governos que assassinam a própria população baseado em cor de pele, orientação sexual e religião? Porque, oras bolas, só faltava esse tipo específico de governo assassino para a esquerda apoiar!
Agora, todo mundo que se sente confortável andando com uma camiseta que tenha a foice e o martelo pode se sentir tranquilo de que apóia o único grupo genocida que deixou de apoiar no passado.
=
E porque esse texto não pode ser levado a sério?
Porque, infelizmente pra minha teoria, mas felizmente pro mundo, os genocidas são diferentes.
Os árabes que matam negros no Sudão não são os mesmos árabes que matam homossexuais no Irã, mas deve ser notado que o Irã mantém sim laços de amizade com o Sudão baseados no fato de que são dois governos árabes. Mas dito isso, eu chutaria que nos países árabes do Oriente Médio existe menos racismo contra negros que aqui.
A Nigéria, por exemplo, é mais complicada; pois a maior parte do corpo político não quer fazer parte dessa doidera, mas parte significante quer e, portanto, às vezes acontece essas mortes de homossexuais e a parte sã do governo não consegue impedir.
Além do mais, a ONU passou uma resolução dizendo que nós não podemos fazer isso que eu estou fazendo, ou seja, chamar os homofóbicos de homofóbicos porque, tadinhos, ofende a sensibilidade dessa gente que gosta de enforcar homossexuais em praça pública. Morro de pena da sensibilidade iraniana. Mas enfim, não pode, e quem ajudou a passar essa resolução? O Vaticano.
Odiar os homossexuais é o UM projeto que une Estados Unidos, Oriente Médio e o Vaticano.
=
Mas olha que coisa engraçada.
A moda agora é chamar a Suíça de neonazista. A moda semana passada era chamar Israel de neonazista. O governo brasileiro praticamente fez ambos oficialmente.
Quem o governo brasileiro não chama de neonazista?
Bom, sabe aquele governo que diz que deseja o assassinato de todos os judeus do mundo, que enforca homossexuais em plena luz do dia e que tem acordos com o governo que mata negros?
Sabe aquele Irã que é praticamente a definição de neonazismo?
Esse o governo brasileiro não só não chama de neonazista, como faz acordos comerciais e manda comissão de diplomatas tomar cafezinho junto.
Então, vamos de novo olhar o fato curioso:
Israel tem parada gay, direitos democráticos para toda a população (isso pode estar chegando ao fim, então eu vou defender enquanto posso), imprensa livre, *é o único país do mundo a oferecer refúgio aos negros de Darfur quando eles são expulsos a força do Egito* e é neonazista.
Suíça tem parada gay, direitos democráticos para toda a população, imprensa livre e é neonazista.
Irã enforca homossexuais em plena luz do dia para todos verem e aplaudirem, tem um sistema legal que oprime mulheres e gays, acordos comerciais com o governo que mata negros por ser o governo que mata negros, imprensa censurada, opressão de dissidentes e não só não é neonazista, como é um parceiro comercial bem vindo e amigo do Brasil.3
Mas não vamos esquecer o próprio Brasil!
O Brasil não só tem acordo comercial com esse governo não-neonazista que tem laços com o governo do Sudão, como lambe os pés da China, esse outro governo não-neonazista que financia o massacre todo (aliás, o HSBC financia a PetroChina; boicotem! Pelo amor de Deus, se existe uma causa no universo que merece boicote, é essa!), aliás, o Brasil, governo Lula, em uma de suas poucas participações na ONU, impediu que fosse feita uma investigação. Atrasou toda a resolução do conflito, sabe-se lá quantas dezenas de milhares (sendo bonzinho) de pessoas morreram em Darfur por causa da decisão de deixar o Brasil votar essas coisas na ONU.
Então se você vota no Lula, parabéns! Você vota a favor do sistemático extermínio dos negros do Sudão. Feliz agora? Espero que esteja, ser de esquerda é isso mesmo amigão. Não ache que só porque você nasceu depois do fim da guerra fria que deixou de ter incontáveis mortes na consciência por apoiar governos de esquerda.
Acho que é por isso que nosso acadêmico de New Orleans defende que a questão em Gaza, um lugar que morrem menos pessoas por ano do que morre em Pernambuco, é a "crise humanitária de nossa era".
Oras bolas, esse cara, que, quando a Marta Suplicy se juntou ao pessoal do "povo de deus não vota em gay", fez uma acusação meia-boca, mas só escreveu meeeesmo pra dizer o quanto a imprensa estava sendo injusta com nossa baronesa do ódio, está mais que certo em ignorar o massacre de centenas de milhares de pessoas (chegando ao um milhão enquanto o Brasil estiver ajudando!).
Afinal, a morte de um homofóbico racista antissemita é uma tragédia! A morte de quinhentos mil negros? Apenas uma estatística.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Oh Deus, o medo. O mundo doido.
Eu tenho quase nenhum respeito pelos ateuzinhos de internet. São burros 99,97% das vezes e fingem que sua burrice tem qualquer coisa a ver com ciência porque compraram um tratado de pop science ausente de peer review na livraria.
Mãs, uma coisa podemos dizer dos ateuzinhos: eles não são perigosos.
A não ser que você ache que ateísmo significa a ruína da civilização ocidental, eu acho que significa simplesmente uma civilização ocidental mais boboca ao invés de arruinada.
Dito isso, o outro lado da moeda, o do fundamentalismo religioso: esse sim é perigoso.
Infelizmente, a maior arma contra o fundamentalismo são os religiosos moderados insistindo que religião não tem nada a ver com coisas doidas como mandar prender alguém por ter ofendido uma religião (como aconteceu da Índia esses dias, portanto, o post atual).
Meu medo toda vez que vejo um país como a Índia e a Inglaterra se curvando aos ímpetos de fundamentalistas é que os moderados estejam perdendo a voz; pior, que os moderados estejam, mesmo que secretamente, gostando que a tirania esteja vencendo uma tal ameaça do secularismo.
Estou com medo do nosso século.
O século passado foi denominado "a era dos extremos" e isso significou a morte de mais de cem milhões de pessoas (bem mais, eu digo cem milhões que é por preguiça de pesquisar, estou chutando um número baixo de quantos morreram nas guerras mundiais e nas ditaduras da guerra fria, à esquerda e à direita).
Não sei se o planeta aguenta mais uma era de extremos.
Eu fiquei tão feliz com a vitória do Obama porque foi uma vitória do centro, da democracia, do debate - e por mais que os republicanos e direitistas num geral apontem qualquer lentidão natural de um processo legitimamente democrático como algum tipo de prova de que não existe centrismo, acho que a vitória do Obama ainda significa isso.
Mas mesmo assim, é só os Estados Unidos.
O Oriente Médio não parece pronto para um centro (nem em Israel, nem na Palestina, nem na Arábia Saudita, nem no Irã, nem no Paquistão... e esses são só os lugares que eu meio que acompanho, medo de saber o que rola em nações ainda mais obscuras que essas); a Europa não parece fazer idéia do que fazer, mas parece estar presa entre ultra-nacionalismo e um abandonar o secularismo em nome do multiculturalismo; aqui na América Latina, o único lugar são do continente é nosso país, hoje mesmo li a notícia de que Hugo Chavez está respondendo com violência contra prefeitos que ganharam em cidades que ele não gostaria de ter perdido, Evo Morales não parece se decidir acerca da realidade de uma guerra civil, o Paraguai... bom, acho que o Paraguai está all right, sujeito é de esquerda, mas não parece ser diferente do Lula. Mas isso prova o quão doida está a coisa, "ser que nem o Lula" virou, relativo ao resto da América Latina, algo excelente. E eu sei lá da Ásia, não leio da Ásia.
Esse século vai ser difícil.
Hoje eu estava tomando sopa pensando na possibilidade do Irã atacar Israel com uma arma nuclear. Embora a possibilidade seja quase impossível, caso aconteça, o mundo inteiro vai atacar o Irã - e não vai ser com outra bomba nuclear porque nós, diferente deles, nos importamos com causalidades civis.
E aí o que acontece se o mundo árabe inteiro decide apoiar o Irã nessa guerra? O que acontece é que os EUA não dão conta.
E se os EUA não dão conta, quem sobra?
Isso aí molecada.
Nós vamos lá pro Oriente Médio morrer porque algum doido achou uma boa idéia explodir Israel.
Me ignorem, eu estou com medo. Gente com medo diz coisas doidas.
Mãs, uma coisa podemos dizer dos ateuzinhos: eles não são perigosos.
A não ser que você ache que ateísmo significa a ruína da civilização ocidental, eu acho que significa simplesmente uma civilização ocidental mais boboca ao invés de arruinada.
Dito isso, o outro lado da moeda, o do fundamentalismo religioso: esse sim é perigoso.
Infelizmente, a maior arma contra o fundamentalismo são os religiosos moderados insistindo que religião não tem nada a ver com coisas doidas como mandar prender alguém por ter ofendido uma religião (como aconteceu da Índia esses dias, portanto, o post atual).
Meu medo toda vez que vejo um país como a Índia e a Inglaterra se curvando aos ímpetos de fundamentalistas é que os moderados estejam perdendo a voz; pior, que os moderados estejam, mesmo que secretamente, gostando que a tirania esteja vencendo uma tal ameaça do secularismo.
Estou com medo do nosso século.
O século passado foi denominado "a era dos extremos" e isso significou a morte de mais de cem milhões de pessoas (bem mais, eu digo cem milhões que é por preguiça de pesquisar, estou chutando um número baixo de quantos morreram nas guerras mundiais e nas ditaduras da guerra fria, à esquerda e à direita).
Não sei se o planeta aguenta mais uma era de extremos.
Eu fiquei tão feliz com a vitória do Obama porque foi uma vitória do centro, da democracia, do debate - e por mais que os republicanos e direitistas num geral apontem qualquer lentidão natural de um processo legitimamente democrático como algum tipo de prova de que não existe centrismo, acho que a vitória do Obama ainda significa isso.
Mas mesmo assim, é só os Estados Unidos.
O Oriente Médio não parece pronto para um centro (nem em Israel, nem na Palestina, nem na Arábia Saudita, nem no Irã, nem no Paquistão... e esses são só os lugares que eu meio que acompanho, medo de saber o que rola em nações ainda mais obscuras que essas); a Europa não parece fazer idéia do que fazer, mas parece estar presa entre ultra-nacionalismo e um abandonar o secularismo em nome do multiculturalismo; aqui na América Latina, o único lugar são do continente é nosso país, hoje mesmo li a notícia de que Hugo Chavez está respondendo com violência contra prefeitos que ganharam em cidades que ele não gostaria de ter perdido, Evo Morales não parece se decidir acerca da realidade de uma guerra civil, o Paraguai... bom, acho que o Paraguai está all right, sujeito é de esquerda, mas não parece ser diferente do Lula. Mas isso prova o quão doida está a coisa, "ser que nem o Lula" virou, relativo ao resto da América Latina, algo excelente. E eu sei lá da Ásia, não leio da Ásia.
Esse século vai ser difícil.
Hoje eu estava tomando sopa pensando na possibilidade do Irã atacar Israel com uma arma nuclear. Embora a possibilidade seja quase impossível, caso aconteça, o mundo inteiro vai atacar o Irã - e não vai ser com outra bomba nuclear porque nós, diferente deles, nos importamos com causalidades civis.
E aí o que acontece se o mundo árabe inteiro decide apoiar o Irã nessa guerra? O que acontece é que os EUA não dão conta.
E se os EUA não dão conta, quem sobra?
Isso aí molecada.
Nós vamos lá pro Oriente Médio morrer porque algum doido achou uma boa idéia explodir Israel.
Me ignorem, eu estou com medo. Gente com medo diz coisas doidas.
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
Sobre várias coisas, eu estou deprimido, me aguentem. Ou não leiam. Vão se foder. Sobre ciência. É isso aí. Eu fico deprimido e falo sobre ciência.
Eu estou pra escrever um post defendendo casamento gay faz um tempão, mas é meio longo e complicado e eu estou com alguma preguiça. Sem contar que o post só faria sentido em um contexto cristão e, ah a vida, estou me sentindo nada cristão ultimamente.
Anyway, pensar sobre esse tema me fez pensar algumas coisas que dá pra falar a respeito rapidinho.
É impressionante como algumas pessoas absorvem uma idéia meramente por fazer parte de um grupo de pessoas que abraça aquela idéia.
A maior prova disso é como certos grupos ideológicos abraçam certos ideais que não tem nada a ver com tais grupos ideológicos.
Acho que um dos maiores exemplos disso é a fascinação da direita religiosa em negar que há aquecimento global.
Afinal, o que ser um cristão tem a ver com negar aquecimento global?
O que acreditar no livre-mercado tem a ver com negar aquecimento global?
Muito pouco, mas por algum motivo, os cristãos capitalistas negam aquecimento global.
Eu entendo que alguém de direita seja contra a idéia que devemos lutar contra o aquecimento global por meio de regulamentos na indústria, mas negar um evento que é muito documentado por uma porção de cientistas importantes me parece estúpido demais.
-
Sempre existe a questão sobre o quanto devemos confiar na ciência.
Aqui temos que separar, em primeiro lugar, duas questões:
Primeiro é o quanto devemos confiar nos cientistas e, cientistas, fora do seu campo de especialização (às vezes sub-especialização) sabem tão pouco quanto a gente. Eu jamais vou discutir com o Dawkins sobre como genes se comportam, mas em termos de qualquer outro assunto no universo, ele é um mané tão grande quanto o resto de nós.
A coisa mais estúpida do mundo é achar que um doutorado em biologia te dá condições pra falar sobre qualquer coisa que não seja biologia.
Nietzsche, por exemplo, estudou teologia. Não é a toa que quando eu leio Dawkins tenho uma crise de ateísmo e começo a ver a religião como uma força positiva no universo e como eu me torno tão pouco cristão nessas épocas que decido ler Nietzsche. É outro nível.
Não é um porque um tem diploma de teologia e outro não tem; nem sei o que o século XIX considera como curso de teologia, o que eu sei é a diferença entre ler um sujeito com uma imensa cultura, um enorme senso histórico e uma enorme habilidade em lidar com questões filosóficas e ler um cara que, basicamente, compila num livro o lixo que é vomitado em fóruns de internet.
E sim, eu sou extremamente afetado sobre o que leio e assisto e ouço, mas gente deprimida é assim mesmo. Me deixem sofrer.
Anyway.
Em segundo lugar, existe a pergunta sobre o quanto devemos confiar nessa coisa chamada "ciência" e o principal problema em responder essa pergunta é que é difícil responder "o que é ciência"?
Eu pelo menos acho difícil dar qualquer resposta clara além de "é aquela coisa que cientistas fazem".
Eu não sei exatamente a quantas andam filosofia da ciência em 2009, mas o debate no século XX foi basicamente entre o Popper e o Kuhn e, do pouquinho que eu entendo do assunto, o problema da teoria do Popper, que é o que os ateus bobinhos de internet costumam defender, é que ela têm mais contra-exemplos do que a casa internacional dos contra-exemplos.
Aí se torna aquela coisa, talvez a teoria do Popper dê uma boa noção do que deveria ser ciência, mas ela não explica o que, até hoje, foi ciência e aí rola aquele medo; se ciência, seja lá o que for, está dando certo e é por motivos que o Popper não dá conta, então talvez se a gente começar a dar razão pro Popper, a ciência vai parar de funcionar.
Já o problema do Kuhn é que sua definição de ciência não é nada imensamente mais forte do que "aquilo que os cientistas fazem". Mas parece meio redundante (especialmente quando expomos dessa maneira tendenciosa, tosca e inexata como estou expondo).
Teorias científicas seriam aquelas aceitas pela comunidade de cientistas e os cientistas aceitam tal teoria porque ela resolve problemas que a teoria anterior falhava em resolver, mas porque a nova teoria resolve mais problemas? Quem sabe. Porque resolve. Porque prevê o futuro melhor. Porque é mais completa. Enfim, coisas circulares, é melhor porque se encaixa na nossa definição daquilo que é "melhor".
Isso não é pra dizer que a ciência não merece o maior respeito. Esse é exatamente um dos maiores problemas da filosofia desde Galileu: então, esse treco chamado "ciência" funciona MUITO bem, é inegável que essa coisa de fato explica o mundo e que essa coisa de fato melhora nossa vida, mas nós não fazemos idéia como.
Muito da filosofia moderna (muuuito da filosofia moderna) consiste em explicar porque a ciência funciona; raramente em questionar se ela funciona, mas tentar descobrir como.
Acho que, ironicamente, é mais fácil pra nós do século XXI questionar se ciência funciona porque ela é parte tão integral da nossa vida. Ligar um computador é algo tão natural quando abrir a boca e produzir voz, é tão natural que nem percebemos a ciência como sendo ciência e o mero ato de apertar um botão e ligar um monitor envolve um conhecimento tão especializado e tão inacessível pra qualquer um que passe anos estudando como funciona, que a gente nem percebe a quantidade imensa de conhecimento que existe nesse gesto estúpido e simples de apertar um botão e ver uma tela brilhando na frente de nossos olhos.
Nietzsche diz em uma passagem de Aurora que a ciência transformou respostas simples em complexas.
Eu acho que os nossos ateus bobinhos falham demais em reconhecer isso, alguém pergunta como surgiu a vida e alguém responde "ah, foi evolução", mas nessa palavra "evolução" existe o trabalho da vida de inúmeros homens e mulheres do passado e hoje que estudam e experimentam e analisam e comprovam e refutam.
"ah, foi evolução" é uma resposta indiscritivelmente complexa.
Meu sentimento nessa questão é o mesmo de Nietzsche, vou até copiar a passagem:
"
O Prestigiador e Seu Contrário
O que espanta na ciência é o contrário do que espanta na arte do prestigiador. De fato, este que levar-nos a ver uma causalidade muito simples onde, na realidade, uma causalidade muito complicada está em jogo. Pelo contrário, a ciência nos obriga a abandonar a crença na causalidade simples, nos casos em que tudo parece extremamente simples e em que não passamos de vítimas da aparência. As coisas 'mais simples' são muito complicadas - não podemos espantar-nos suficientemente com elas!
"
É, de fato, impossível se espantar suficientemente com a complexidade envolvida no gesto de apertar um botão em um pedaço de plástico e ter uma tela que brilha e que reage aos botões do teclado que aperto e, enfim, dá pra continuar essa descrição até chegarmos no funcionamento da internet e da própria estrutura física de todo o universo.
Não dá pra se espantar suficientemente com a complexidade envolvido no velho e sujo e comum monitor de computador ligado na minha frente, então eu não quero nem começar a pensar na complexidade envolvida na origem e funcionamento de toda a vida.
Se Popper tem tantos problemas de contra-exemplos é porque a própria construção da ciência é algo complexo, é talvez o maior símbolo de comunitarismo da humanidade; comparável apenas ao que acontece quando uma religião consegue unir ao invés de dividir (e a noção de que religiões mais dividem do que unem é, no mínimo, sociologicamente questionável, mas eu não vou entrar nessa).
A construção de uma ciência, mesmo deixando pra lá os problemas irritantemente humanos demais (cientistas não terminam suas obras porque querem criar família, cientistas defendem ardentemente coisas que meio que sabem que são falsas por ego, dinheiro e política, cientistas são mortos em acidentes ou perseguidos por governos estúpidos, enfim), é um esforço que atravessa países, culturas e gerações. Se faz tanto por meio de revoluções que alteram completamente o modo de ver os fenômenos como por meio de papers solitários de alunos e professores em universidades grandes e pequenas.
É um projeto inacabado. É um projeto maravilhoso. É um projeto que ninguém faz a menor idéia de como acontece, mas que é indiscutivelmente inquestionável que acontece.
Ao menos em termos de técnica (e eu não quero entrar na discussão mais complexa da diferença entre técnica e conhecimento); questionar que a ciência é algo que funciona é fingir que meu monitor não funciona quando eu aperto o botão; bom, meu monitor funciona, então esses nerds nos departamentos de eletrônica de universidades e empresas privadas estão fazendo algo de certo.
Agora como que dá certo, de novo, é um problema complexo. Aparentemente não existe uma fórmula científica para fazer ciência.
=
A crítica sendo feito à ciência desde o início do século XX nunca foi sobre se ela está certo, mas sempre sobre seus limites.
A ciência, maravilhosa que seja, não é menos dependente dos conceitos utilizados na comunicação diária.
Então a ciência muito rápido perde sua autoridade quando tem que lidar com miríade de conceitos não-científicos que lidamos no cotidiano. Não é a toa que a ciência tem vocabulários técnicos e complexos e compreensíveis apenas para iniciados. Sem um vocabulário rígido, a coisa não anda. Sem uma completa ausência de ambiguidade nos conceitos, a ciência perde sua característica básica de ser conhecimento comunitário, passível de crítica.
Mas a linguagem cotidiana não consegue deixar de ser ambígua.
"Bom", "Mau", "Democracia", "Dinheiro", "Direitos", "Humanidade"... palavras como essa não só abrangem uma infinitude de significados por vezes contraditórios, como elas *precisam*, para a nossa sobrevivência, serem capazes de ser alteradas de acordo com o contexto.
Uma definição rigída demais de "Bem" e tudo que entendemos como progresso chega ao fim, afinal, progresso moral (individual ou coletivo) consiste justamente em mudar a definição daquilo que é bom e mau.
A civilização considerava ódio aos homossexuais um bem, agora considera um mal. Parabéns civilização, você progrediu. Os árabes discordam.
João considerava os ensinamentos da igreja uma mal, agora ele frequenta a igreja e distribui comida para os mendigos nas quartas à noite. Parabéns João, você progrediu. Os ateus discordam.
(ai céus, entrei no tema de relativismo moral, essa porra desse post não vai acabar nunca)
O problema é sempre que base você usa pra mudança. Se é possível alterar os conceitos usando como parâmetro apenas as contigências que apareçam ou se precisamos de algum tipo de tradição para nos guiar.
Pra responder alguém que diria "não precisamos de tradição, precisamos apenas ser racionais", eu estou considerando isso como um "precisamos de uma tradição racionalista", afinal, eu não acho que tal alguém fosse desejar que é uma boa ser racional hoje, mas que podemos deixar de ser racionais na geração seguinte. Se for esse o caso, ele cai na primeira categoria, dos pragmatistas.
Mas tais conceitos não podem ser rigídos ou atrapalham nossa habilidade de reagir a um mundo em constante mudança.
O mesmo acontece com conceitos culturais, psicológicos; como felicidade e prazer.
Conceitos muito rígidos de felicidade e prazer atrapalham justamente nossa habilidade de sermos felizes e sentirmos prazer.
Um meio claro de enrijecer noções de felicidade e prazer é dizer que "reação química X equivale a prazer".
Não sei se alguém tem esse projeto, mas é meio assustador os danos que um tal projeto pode causar se levado a sério.
Há um tempinho atrás (talvez ainda hoje) existiu uma tendência de psicólogos delimitando suas noções de neurose e depressão, no fim das contas, podia-se dizer que metade das pessoas eram neurótica, a saber, que metade das pessoas não funcionavam de maneira "normal".
Se metade não faz a norma, então eu vou chutar que o problema está na regra e não na amostragem.
Não é diferente do que quando uma tradição insiste em te convencer que seu comportamento bom é na verdade ruim.
Mas a verdade é que esse risco hoje é pouco.
Cientistas que tentam cristalizar conceitos culturais são exceções e se os livros deles aparecem em livrarias é por falta de segurança em publicar artigos em publicações acadêmicas, onde eles serão criticados por cientistas tão especializados quanto eles ao invés de por jornalistas.
Mas que a ciência não mereça tantas críticas, ainda é difícil saber exatamente porque confiar tanto nela (e eu vou deletar comentário me passando link pra página de "método científico" da wikipedia), ainda mais em temas recentes. No caso do aquecimento global, eu acho a maior estupidez deixar de agir de modo mais ecologicamente correto porque algum detalhe pode estar errado.
Se os cientistas estiverem errados, o pior que fazemos ao andar menos de carro é ter uma vida um pouco mais saudável.
Se os cientistas estiverem certos, vocês estão colocando o planeta em risco por causa de birra infantil contra o Al Gore.
E o que me surpreende não é só ceticismo em relação a ciência, isso é saudável, mas é a disposição em botar toda a vida da terra em risco, duvidando de um sem-número de pessoas que estudaram o assunto muito mais que você, só porque essa é uma questão "de esquerda".
Eu entendo não se render à histeria em torno do aquecimento global (ver paragrafo acima: "botar toda a vida da terra em risco!!"), mas eu não entendo como se cria histeria anti-teorias de aquecimento global.
É assim tão ruim querer poluir menos?
O que eu encontro de mais interessante no cristianismo, especificamente na Igreja Católica, é que a Igreja consegue ser, hoje, uma boa alternativa espiritual ao hedonismo materialista.
E a igreja é consistente com isso quando diz que sacrificar luxúrias materiais estúpidas em prol de um planeta mais saudável é uma boa idéia (se eu não me engano, a Praça de São Pedro estava sendo adaptada pra funcionar com energia solar, não sei se isso já rolou).
Então continua a me espantar o problema que coloquei no começo do post.
Porque a direita religiosa insiste na sua histeria contra o aquecimento global? De novo, eu entendo ser contra algo como o protocolo de Kyoto, mas porque diabos um cristão se sente tão ofendido quando alguém pede pra ele comprar um carro mais modesto em troca de qualidade de vida?
Mas de novo, eu sou católico, mesmo sendo ateu e lendo Nietzsche, eu vejo essas coisas diferentes. Toda vez que vejo um católico se comportando demais como um republicano norte-americano, eu tenho a impressão de estar diante de um protestante que esqueceu de sair da igreja.
Se a religião quer ser uma força moral no mundo tão positiva quanto a ciência para ter o direito de criticá-la, então os religiosos deveriam começar a fazer muito bem pro mundo ao invés de perder tanto tempo defendendo porque poluição não é ruim e porque gays são abomináveis.
Só dizendo.
Anyway, pensar sobre esse tema me fez pensar algumas coisas que dá pra falar a respeito rapidinho.
É impressionante como algumas pessoas absorvem uma idéia meramente por fazer parte de um grupo de pessoas que abraça aquela idéia.
A maior prova disso é como certos grupos ideológicos abraçam certos ideais que não tem nada a ver com tais grupos ideológicos.
Acho que um dos maiores exemplos disso é a fascinação da direita religiosa em negar que há aquecimento global.
Afinal, o que ser um cristão tem a ver com negar aquecimento global?
O que acreditar no livre-mercado tem a ver com negar aquecimento global?
Muito pouco, mas por algum motivo, os cristãos capitalistas negam aquecimento global.
Eu entendo que alguém de direita seja contra a idéia que devemos lutar contra o aquecimento global por meio de regulamentos na indústria, mas negar um evento que é muito documentado por uma porção de cientistas importantes me parece estúpido demais.
-
Sempre existe a questão sobre o quanto devemos confiar na ciência.
Aqui temos que separar, em primeiro lugar, duas questões:
Primeiro é o quanto devemos confiar nos cientistas e, cientistas, fora do seu campo de especialização (às vezes sub-especialização) sabem tão pouco quanto a gente. Eu jamais vou discutir com o Dawkins sobre como genes se comportam, mas em termos de qualquer outro assunto no universo, ele é um mané tão grande quanto o resto de nós.
A coisa mais estúpida do mundo é achar que um doutorado em biologia te dá condições pra falar sobre qualquer coisa que não seja biologia.
Nietzsche, por exemplo, estudou teologia. Não é a toa que quando eu leio Dawkins tenho uma crise de ateísmo e começo a ver a religião como uma força positiva no universo e como eu me torno tão pouco cristão nessas épocas que decido ler Nietzsche. É outro nível.
Não é um porque um tem diploma de teologia e outro não tem; nem sei o que o século XIX considera como curso de teologia, o que eu sei é a diferença entre ler um sujeito com uma imensa cultura, um enorme senso histórico e uma enorme habilidade em lidar com questões filosóficas e ler um cara que, basicamente, compila num livro o lixo que é vomitado em fóruns de internet.
E sim, eu sou extremamente afetado sobre o que leio e assisto e ouço, mas gente deprimida é assim mesmo. Me deixem sofrer.
Anyway.
Em segundo lugar, existe a pergunta sobre o quanto devemos confiar nessa coisa chamada "ciência" e o principal problema em responder essa pergunta é que é difícil responder "o que é ciência"?
Eu pelo menos acho difícil dar qualquer resposta clara além de "é aquela coisa que cientistas fazem".
Eu não sei exatamente a quantas andam filosofia da ciência em 2009, mas o debate no século XX foi basicamente entre o Popper e o Kuhn e, do pouquinho que eu entendo do assunto, o problema da teoria do Popper, que é o que os ateus bobinhos de internet costumam defender, é que ela têm mais contra-exemplos do que a casa internacional dos contra-exemplos.
Aí se torna aquela coisa, talvez a teoria do Popper dê uma boa noção do que deveria ser ciência, mas ela não explica o que, até hoje, foi ciência e aí rola aquele medo; se ciência, seja lá o que for, está dando certo e é por motivos que o Popper não dá conta, então talvez se a gente começar a dar razão pro Popper, a ciência vai parar de funcionar.
Já o problema do Kuhn é que sua definição de ciência não é nada imensamente mais forte do que "aquilo que os cientistas fazem". Mas parece meio redundante (especialmente quando expomos dessa maneira tendenciosa, tosca e inexata como estou expondo).
Teorias científicas seriam aquelas aceitas pela comunidade de cientistas e os cientistas aceitam tal teoria porque ela resolve problemas que a teoria anterior falhava em resolver, mas porque a nova teoria resolve mais problemas? Quem sabe. Porque resolve. Porque prevê o futuro melhor. Porque é mais completa. Enfim, coisas circulares, é melhor porque se encaixa na nossa definição daquilo que é "melhor".
Isso não é pra dizer que a ciência não merece o maior respeito. Esse é exatamente um dos maiores problemas da filosofia desde Galileu: então, esse treco chamado "ciência" funciona MUITO bem, é inegável que essa coisa de fato explica o mundo e que essa coisa de fato melhora nossa vida, mas nós não fazemos idéia como.
Muito da filosofia moderna (muuuito da filosofia moderna) consiste em explicar porque a ciência funciona; raramente em questionar se ela funciona, mas tentar descobrir como.
Acho que, ironicamente, é mais fácil pra nós do século XXI questionar se ciência funciona porque ela é parte tão integral da nossa vida. Ligar um computador é algo tão natural quando abrir a boca e produzir voz, é tão natural que nem percebemos a ciência como sendo ciência e o mero ato de apertar um botão e ligar um monitor envolve um conhecimento tão especializado e tão inacessível pra qualquer um que passe anos estudando como funciona, que a gente nem percebe a quantidade imensa de conhecimento que existe nesse gesto estúpido e simples de apertar um botão e ver uma tela brilhando na frente de nossos olhos.
Nietzsche diz em uma passagem de Aurora que a ciência transformou respostas simples em complexas.
Eu acho que os nossos ateus bobinhos falham demais em reconhecer isso, alguém pergunta como surgiu a vida e alguém responde "ah, foi evolução", mas nessa palavra "evolução" existe o trabalho da vida de inúmeros homens e mulheres do passado e hoje que estudam e experimentam e analisam e comprovam e refutam.
"ah, foi evolução" é uma resposta indiscritivelmente complexa.
Meu sentimento nessa questão é o mesmo de Nietzsche, vou até copiar a passagem:
"
O Prestigiador e Seu Contrário
O que espanta na ciência é o contrário do que espanta na arte do prestigiador. De fato, este que levar-nos a ver uma causalidade muito simples onde, na realidade, uma causalidade muito complicada está em jogo. Pelo contrário, a ciência nos obriga a abandonar a crença na causalidade simples, nos casos em que tudo parece extremamente simples e em que não passamos de vítimas da aparência. As coisas 'mais simples' são muito complicadas - não podemos espantar-nos suficientemente com elas!
"
É, de fato, impossível se espantar suficientemente com a complexidade envolvida no gesto de apertar um botão em um pedaço de plástico e ter uma tela que brilha e que reage aos botões do teclado que aperto e, enfim, dá pra continuar essa descrição até chegarmos no funcionamento da internet e da própria estrutura física de todo o universo.
Não dá pra se espantar suficientemente com a complexidade envolvido no velho e sujo e comum monitor de computador ligado na minha frente, então eu não quero nem começar a pensar na complexidade envolvida na origem e funcionamento de toda a vida.
Se Popper tem tantos problemas de contra-exemplos é porque a própria construção da ciência é algo complexo, é talvez o maior símbolo de comunitarismo da humanidade; comparável apenas ao que acontece quando uma religião consegue unir ao invés de dividir (e a noção de que religiões mais dividem do que unem é, no mínimo, sociologicamente questionável, mas eu não vou entrar nessa).
A construção de uma ciência, mesmo deixando pra lá os problemas irritantemente humanos demais (cientistas não terminam suas obras porque querem criar família, cientistas defendem ardentemente coisas que meio que sabem que são falsas por ego, dinheiro e política, cientistas são mortos em acidentes ou perseguidos por governos estúpidos, enfim), é um esforço que atravessa países, culturas e gerações. Se faz tanto por meio de revoluções que alteram completamente o modo de ver os fenômenos como por meio de papers solitários de alunos e professores em universidades grandes e pequenas.
É um projeto inacabado. É um projeto maravilhoso. É um projeto que ninguém faz a menor idéia de como acontece, mas que é indiscutivelmente inquestionável que acontece.
Ao menos em termos de técnica (e eu não quero entrar na discussão mais complexa da diferença entre técnica e conhecimento); questionar que a ciência é algo que funciona é fingir que meu monitor não funciona quando eu aperto o botão; bom, meu monitor funciona, então esses nerds nos departamentos de eletrônica de universidades e empresas privadas estão fazendo algo de certo.
Agora como que dá certo, de novo, é um problema complexo. Aparentemente não existe uma fórmula científica para fazer ciência.
=
A crítica sendo feito à ciência desde o início do século XX nunca foi sobre se ela está certo, mas sempre sobre seus limites.
A ciência, maravilhosa que seja, não é menos dependente dos conceitos utilizados na comunicação diária.
Então a ciência muito rápido perde sua autoridade quando tem que lidar com miríade de conceitos não-científicos que lidamos no cotidiano. Não é a toa que a ciência tem vocabulários técnicos e complexos e compreensíveis apenas para iniciados. Sem um vocabulário rígido, a coisa não anda. Sem uma completa ausência de ambiguidade nos conceitos, a ciência perde sua característica básica de ser conhecimento comunitário, passível de crítica.
Mas a linguagem cotidiana não consegue deixar de ser ambígua.
"Bom", "Mau", "Democracia", "Dinheiro", "Direitos", "Humanidade"... palavras como essa não só abrangem uma infinitude de significados por vezes contraditórios, como elas *precisam*, para a nossa sobrevivência, serem capazes de ser alteradas de acordo com o contexto.
Uma definição rigída demais de "Bem" e tudo que entendemos como progresso chega ao fim, afinal, progresso moral (individual ou coletivo) consiste justamente em mudar a definição daquilo que é bom e mau.
A civilização considerava ódio aos homossexuais um bem, agora considera um mal. Parabéns civilização, você progrediu. Os árabes discordam.
João considerava os ensinamentos da igreja uma mal, agora ele frequenta a igreja e distribui comida para os mendigos nas quartas à noite. Parabéns João, você progrediu. Os ateus discordam.
(ai céus, entrei no tema de relativismo moral, essa porra desse post não vai acabar nunca)
O problema é sempre que base você usa pra mudança. Se é possível alterar os conceitos usando como parâmetro apenas as contigências que apareçam ou se precisamos de algum tipo de tradição para nos guiar.
Pra responder alguém que diria "não precisamos de tradição, precisamos apenas ser racionais", eu estou considerando isso como um "precisamos de uma tradição racionalista", afinal, eu não acho que tal alguém fosse desejar que é uma boa ser racional hoje, mas que podemos deixar de ser racionais na geração seguinte. Se for esse o caso, ele cai na primeira categoria, dos pragmatistas.
Mas tais conceitos não podem ser rigídos ou atrapalham nossa habilidade de reagir a um mundo em constante mudança.
O mesmo acontece com conceitos culturais, psicológicos; como felicidade e prazer.
Conceitos muito rígidos de felicidade e prazer atrapalham justamente nossa habilidade de sermos felizes e sentirmos prazer.
Um meio claro de enrijecer noções de felicidade e prazer é dizer que "reação química X equivale a prazer".
Não sei se alguém tem esse projeto, mas é meio assustador os danos que um tal projeto pode causar se levado a sério.
Há um tempinho atrás (talvez ainda hoje) existiu uma tendência de psicólogos delimitando suas noções de neurose e depressão, no fim das contas, podia-se dizer que metade das pessoas eram neurótica, a saber, que metade das pessoas não funcionavam de maneira "normal".
Se metade não faz a norma, então eu vou chutar que o problema está na regra e não na amostragem.
Não é diferente do que quando uma tradição insiste em te convencer que seu comportamento bom é na verdade ruim.
Mas a verdade é que esse risco hoje é pouco.
Cientistas que tentam cristalizar conceitos culturais são exceções e se os livros deles aparecem em livrarias é por falta de segurança em publicar artigos em publicações acadêmicas, onde eles serão criticados por cientistas tão especializados quanto eles ao invés de por jornalistas.
Mas que a ciência não mereça tantas críticas, ainda é difícil saber exatamente porque confiar tanto nela (e eu vou deletar comentário me passando link pra página de "método científico" da wikipedia), ainda mais em temas recentes. No caso do aquecimento global, eu acho a maior estupidez deixar de agir de modo mais ecologicamente correto porque algum detalhe pode estar errado.
Se os cientistas estiverem errados, o pior que fazemos ao andar menos de carro é ter uma vida um pouco mais saudável.
Se os cientistas estiverem certos, vocês estão colocando o planeta em risco por causa de birra infantil contra o Al Gore.
E o que me surpreende não é só ceticismo em relação a ciência, isso é saudável, mas é a disposição em botar toda a vida da terra em risco, duvidando de um sem-número de pessoas que estudaram o assunto muito mais que você, só porque essa é uma questão "de esquerda".
Eu entendo não se render à histeria em torno do aquecimento global (ver paragrafo acima: "botar toda a vida da terra em risco!!"), mas eu não entendo como se cria histeria anti-teorias de aquecimento global.
É assim tão ruim querer poluir menos?
O que eu encontro de mais interessante no cristianismo, especificamente na Igreja Católica, é que a Igreja consegue ser, hoje, uma boa alternativa espiritual ao hedonismo materialista.
E a igreja é consistente com isso quando diz que sacrificar luxúrias materiais estúpidas em prol de um planeta mais saudável é uma boa idéia (se eu não me engano, a Praça de São Pedro estava sendo adaptada pra funcionar com energia solar, não sei se isso já rolou).
Então continua a me espantar o problema que coloquei no começo do post.
Porque a direita religiosa insiste na sua histeria contra o aquecimento global? De novo, eu entendo ser contra algo como o protocolo de Kyoto, mas porque diabos um cristão se sente tão ofendido quando alguém pede pra ele comprar um carro mais modesto em troca de qualidade de vida?
Mas de novo, eu sou católico, mesmo sendo ateu e lendo Nietzsche, eu vejo essas coisas diferentes. Toda vez que vejo um católico se comportando demais como um republicano norte-americano, eu tenho a impressão de estar diante de um protestante que esqueceu de sair da igreja.
Se a religião quer ser uma força moral no mundo tão positiva quanto a ciência para ter o direito de criticá-la, então os religiosos deveriam começar a fazer muito bem pro mundo ao invés de perder tanto tempo defendendo porque poluição não é ruim e porque gays são abomináveis.
Só dizendo.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Uma resposta ao texto "Laranja Mecânica e o livre-arbítrio"
Bom, esse é um comentário ao texto moralista (portanto pobre, acho) de Flávio Paranhos na revista Ciência e Vida: Filosofia nº 31
=
Bom, o texto é sobre a questão do livre-arbítrio que o filme "Laranja Mecânica" coloca.
Ele inicia com uma breve descrição do filme e do livro, mas já me incomoda um bocado na hora de descrever a diferença entre os dois.
Ele diz sobre a decisão do editor americano de Laranja Mecânica e de Kubrick de terem retirado o último capítulo da obra de Burgess:
"Numa tacada genial, transformou um livro moralista (portanto pobre) num livro cínico (portanto rico)."
Como o autor do texto não explica (provavelmente pra evitar spoilers), eu explico (e, portanto, eis os spoilers):
O filme de Kubrick, como vocês galerinha moderna de óculos quadrado bem sabem, termina com Alex feliz da vida se livrando dos efeitos de sua lavagem cerebral, tão malvado quanto sempre foi, mostrando que o processo todo tinha sido fútil.
O livro vai um capítulo além e mostra que, embora o processo todo tenha sido fútil, Alex simplesmente se torna um adulto e deixa a vida de violência pra trás, se tornando um burguês comum e feliz da vida.
Agora, é interessante que um texto que invoque tanto Nietzsche não se furte em fazer uma divisão entre aquilo que é "pobre" (ou mau) e aquilo que é "rico" (ou bom).
Antes do juízo de valor apressado, seria interessante analisar as diferentes perspectivas pelas quais a obra se apresenta e eu tenho muitos problemas em acreditar que é o final de Burgess que é moralista ao invés do final de Kubrick, ainda mais dado o contexto histórico.
Defendo aqui que nenhuma das obras consegue escapar de um certo moralismo. Mas Burgess é um tipo de progressista enquanto Kubrick é perigosamente autoritário no seu suposto cinismo.
Na época em que o livro foi lançado, nos anos 60, havia um enorme medo da juventude que, perdendo seu compasso moral, se tornariam todos um bando de selvagens. Ambas as obras se ligam nisso e ambas as obras assinalam que ter cultura, uma família amorosa e um governo protetor em nada mudam o fato que Alex é um assassino e estuprador. A questão do livre-arbítrio já começa aí, antes de qualquer sala de cinema e remédios: A questão é se Alex é um produto do sistema? Sua violência não pode ser relacionada à ignorância, à uma relação mal resolvida com a família, ao abandono pelas instituições.
Isso significa que ele escolhe ser mal ou que existe algo na sua natureza que o impele a isso?
A obra de Burgess deixa essa questão em aberto; a de Kubrick aparentemente responde. Mas já chegamos lá.
Argumento aqui que a obra de Kubrick é mais conservadora que a Burgess pelo motivo de que a obra de Burgess inocenta o jovem assassino. Ele diz para o leitor britânico de 1962 "chill out! Essas crianças parecem descontroladas, mas é isso, elas são crianças. Elas são cruéis e perigosas e merecem levar um tapa na orelha, mas elas vão crescer. Não tenham medo dos jovens, eles não são o declínio da sociedade, são só diferentes".
A obra de Kubrick adota outra perspectiva, a obra de Kubrick diz: "Essas crianças vão estuprar sua esposa e cuidar delas (como fazem o padre e o político) é só ser apunhalado nas costas". O filme poderia ser uma propaganda para a pena de morte.
Enquanto a obra de Burgess apresenta que não só é desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, como também é estúpido porque, afinal, um dia todo mundo cresce e faz parte da sociedade; a obra de Kubrick dá a entender que, apesar de ser desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, pode bem ser a única escolha; basta a lavagem cerebral parar de fazer efeito, que mais uma vez temos um assassino estuprador em nossas mãos. Pior! Um assassino estuprador que usa as instituições políticas e a mídia para seu ganho próprio.
Repito: poderia ser uma propaganda para a pena de morte.
Se Alex não pode ser reabilitado e ele inevitavelmente será sempre um assassino; que outra escolha existe?
A obra de Burgess é muito mais liberal nesse sentido. É até ingênua na sua defesa da juventude: Alex não precisa ser reabilitado. Ele cresce. Ser um membro da sociedade é um corretivo muito mais eficiente que uma lavagem cerebral.
Essa é, aliás, a bandeira que os progressistas defendem em relação aos presidiários. Eles não precisam ser coagidos, precisam apenas ser introduzidos corretamente à sociedade.
Um segundo ponto em que as diferentes perspectivas divergem é que Burgess está firme em uma tradição literária Kierkegaardiana cujo problema básico da vida de um homem é quando ele deixa de ser uma criança e se torna um adulto.
O grande medo da sociedade dos anos 60 é que essas crianças não se tornariam adultos capazes de prosseguir com a civilização, pois estavam destruindo todas suas bases morais.
As obras dessa tradição geralmente partem de alguma premissa desse tipo: elas apresentam um jovem adulto que não aprendeu a crescer por qualquer motivo e que precisa, no decorrer da história, buscar desesperadamente tais fundamentos (geralmente porque se apaixona por uma mulher, mas não é o caso aqui) para poder sair do seu ciclo hedonista auto-destrutivo. É certamente moralista e conservador, mas conservador em um sentido não-reacionário.
É conservador no sentido em que os valores hedonistas dos jovens não são uma revolução, mas apenas uma fase a ser superada, permitindo ao jovem se tornar um membro da sociedade. Desse modo, tais valores também não são uma ameaça, portanto, não precisam ser combatidos por nenhum meio coercivo.
A obra de Kubrick, por outro lado, permanece adolescente.
O cinismo que Flávio põe como riqueza é um mero não-crescer. Isso não é um defeito moral desde que se mostra como o não-crescer não é um defeito moral. Isso não fica claro no filme; pelo contrário, o filme mostra um jovem que não cresce e que, portanto, se torna um parasita cruel das instituições: um estuprador assassino que é recompensado por ter sido pego no fogo cruzado de dois partidos políticos.
O próprio triunfalismo no fim do filme é algo adolescente. O único trunfo que o filme apresenta é o infantil prazer da criança que passou a perna nos adultos.
O homem traumatizado por Alex tê-lo forçado a assistir o estupro da esposa continua traumatizado (e é um homem que demonstrou, duas vezes, que se preocupa em ajudar os outros em momentos de necessidade). A mulher que Alex assassinou continua morta (e o seu crime parece ser de que era uma mulher de meia-idade independente e sem vergonha de sua sexualidade) e a sociedade não só não consegue nem punir Alex e nem reabilitá-lo (seja por meio do padre ou por meio da lavagem cerebral), como ainda sustenta suas contas hospitalares enquanto ele ri da cara de todos.
Certamente Alex tem sua vitória e o espectador a partilha, mas é, como já dito, uma vitória infantil. Nós torcemos por Alex pelo impulso burro de torcer por quem quer que seja o personagem principal. Fosse a história de um homem bondoso que teve sua casa invadida por uma gangue que estupra sua mulher enquanto o força a assistir ou fosse a história de uma mulher solteira de meia-idade que não vê problemas em ter esculturas e quadros eróticos em sua casa que é assassinada enquanto um homem a chama de "safada" e, bem, o que aconteceu com Alex não seria uma vitória, mas uma grande injustiça.
Ainda mais se adicionarmos um tema anteriormente citado (eu disse que já chegava lá)de que a questão de responsabilidade e livre-arbítrio permeia toda a obra.
Até o momento da lavagem cerebral, a impressão que temos é que toda ação de Alex é uma escolha livre.
Flávio chama Alex de "marginal" e nada poderia ser mais errado. Alex é branco, de classe média, com acesso à cultura, querido pelos seus pais e bem protegido pelo seu advogado.
Ele se torna um marginal após sair da prisão, mas até lá, nenhuma de suas ações podem ser ditas que são fruto de pobreza ou falta de cultura.
Se entendermos a falta de liberdade está relacionada a falta de condições materiais (e a obra não parece abordar um tal fatalismo biológico); então Alex de nenhuma forma foi forçado a realizar seus atos.
Ele escolhe ser um assassino e um estuprador por diversão; entenda, por escolha, não por necessidade material. Ele escolhe antagonizar a própria gangue; ele escolhe até, sendo líder da gangue, caminhar para sua armadilha (embora não soubesse que era uma armadilha, não teria acontecido se ele não tivesse concordado com o plano).
A obra de Burgess adiciona aí mais uma escolha: ele escolhe crescer, se tornar um adulto, fazer parte da sociedade.
A obra de Kubrick o priva dessa escolha sem motivos claros. Alex é mal porque é mal ou simplesmente porque é mais vantajoso ser assim do ponto de vista do hedonismo raso que guia todas suas ações?
De qualquer forma, na obra de Kubrick, Alex não tem escolha. Ele é um cara malvado e vai ser até que, enfim, eu já disse vezes demais que o filme poderia ser propaganda da pena de morte.
Talvez não tenha sido intenção de Burgess mostrar que todo jovem delinqüente se redime, mas certamente mostra que é possível a redenção até para o pior deles. A obra de Kubrick é uma obra sem redenção, é precisamente a bandeira de todos que advogam a pena de morte.
Guiados pelo sentimento compartilhado com o ator principal, temos a impressão que Alex passa a perna no sistema. Lendo os fatos no jornal ao invés de assistindo em uma obra de ficção e isso faria com que as pessoas logo demandassem um sistema mais autoritário e punitivo. O oposto da obra "moralista" e "fraca" de Burgess, que nos ensina a não temer até o pior dos jovens. Se um assassino estuprador como Alex não é uma ameaça para a sociedade, certamente não vai ser os Beatles e os Rolling Stones que a destruíram.
Isso não existe na obra de Kubrick. O sentimento de Kubrick é, como já dito, o sentimento adolescente. E sendo sentimento adolescente, falta futuro.
Esse é o último ponto que vou apontar nesse post:
O texto de Flávio anuncia orgulhosamente que o livre-arbítrio foi derrotado e cita Nietzsche ao dizer que ensinar o livre-arbítrio é um instinto de punir e julgar.
Isso significa que toda nossa moral determinada pela nossa crença no livre-arbítrio caiu. E o que fazemos agora?
Primeiro ele passa a resposta para um tal ignorante "homem comum" que acredita em Deus, aí ele entra no assunto do livre-arbítrio no plano da providência divína, passa pra Leibniz (acha em algum momento que não percebemos que ele está fugindo do tema) e depois de concluir que Leibniz falha na sua defesa do livre-arbítrio, passa pro "ateísmo biologista".
E daí ele inconclui uma determinação epistêmica e "somos portanto, responsáveis pelos nossos atos, sim senhor".
A lógica me escapa. Somos ignorantes, portanto responsáveis?
Vai ver eu tenho que ler mais Dennett pra entender esse raciocínio, mas me parece só uma maneira de fugir a pergunta.
Se não sabemos se temos livre arbítrio, então não sabemos se somos responsáveis. Dá pra contornar essa pergunta com o Searle, na minha opinião; dá pra postular uma realidade social em que o livre arbítrio exista. Mas o Dennett não admite isso, logo não dá pra concluir nossa responsabilidade. É mania dos "ateístas biologistas" de não levar a sério suas próprias teorias por terem medo demais de serem, de fato, anti-cristãos. Dennett tem um projeto político de fazer o ateísmo não parecer amedrontador pra sociedade (tal como o Burgess tem um projeto político de fazer a juventude dos anos 60 não parecer amedrontadora).
Se Dennett de fato defende nossa responsabilidade como Flávio dá a entender, então ele só faz isso porque seu modelo de sociedade é um exatamente igual o que existe hoje, com os mesmos valores, mas sem que ninguém acredite na mitologia cristã. Ele quer viver na cristandade sem que exista cristianismo. Se é possível ou não, é um tema mais complicado. Ilógico não é, resta saber se a realidade política suporta tal modelo.
Prosseguindo com esse último ponto. Assim como Flávio falha em dar qualquer tipo de alternativa razoável ao livre-arbítrio; o filme, ao destruir o futuro de Alex e, portanto, sua escolha de ingressar na sociedade, não dá nenhum futuro para tal sociedade.
Afinal, Alex é um simbolismo de todo jovem sessentista que farreia com os amigos, se ele é tão extremo, é, como eu já disse, pra mostrar que nem o extremo é uma ameaça. O livro mostra que a sociedade não deteriora só porque a molecada sai pra beber. Isso é incerto no filme. Tal questão não é nem levanta da no filme.
Então Alex passa a perna na sociedade. E aí?
A sociedade leva um tombo? E depois?
Uma revolução ocorre? Que revolução?
Alex é cínico, ele não tem ideais. O filme mostra várias vezes seu caráter autoritário.
O livro mostra justamente tal caráter autoritário sendo apenas megalomania adolescente, mas no filme é pra valer.
Se Alex é o modelo do jovem, então o que temos em mãos não é uma revolução iluminista, é só o seqüestro da sociedade por oportunistas megalomaníacos.
Mas claro, a gente não sabe. O filme não mostra. Não há futuro além do momento em que a infantilidade se torna vitoriosa.
O que pode se dizer (e é disso que os cínicos se vangloriam) é que "reflete a realidade".
Que é um frio e calculista e amoral reflexo da realidade. É a realidade tal como ela é.
Flávio não diz isso, mas me falha ver qualquer outra vantagem na perspectiva "cínica".
Afinal, o ponto forte do seu cinismo sempre foi o de não estar comprometido com estruturas de poder, mas me parece extremamente ingênuo, ainda mais em um texto que invoca tanto Nietzsche, acreditar que o discurso cínico não está comprometido com nenhuma estrutura de poder.
Pelo contrário, argumento no decorrer do texto que o discurso cínico do filme está comprometido com uma postura mais autoritária que o moralismo conservador do livro; o discurso é o de que confiar nos criminosos é uma tola ilusão. De que eles são monstros inevitavelmente maus que só deixam de matar e estuprar quando são forçados a isso.
Ainda, que quando damos a eles chance de redenção, eles riem na nossa cara.
Que sintamos o prazer do monstro não muda esses fatos, só diz que também temos nosso lado monstruoso e nos atenta ao fato que os outros também têm.
Isso nos ensina a ser "cínicos", isso significa, não confiantes nos membros de nossa comunidade, isso significa, que acreditamos não no dialogo e na cooperação, mas em um frio jogo de forças. Ainda, que nós mesmos não somos confiáveis e que nós mesmos traíremos ao termos a oportunidade.
O resto é uma profecia auto-realizada. Você se torna um cínico e vê toda a sociedade com cinismo. Quando alguém age de forma aparentemente altruísta, logo se põe a trabalhar para traduzir toda a linguagem do altruísmo em egoísmo ("Ele fez porque faz ele se sentir bem, logo é egoísmo") e assim calibrar o mundo com sua teoria. Logo, você vê todos como cínicos e, portanto, prova, a cada dia, sua teoria.
Essa é minha conclusão.
Esse é um post certamente moralista, portanto pobre de acordo com Flávio Pranhos; mas saber por qual prisma vejo as coisas é o que mais me auxilia na eterna luta contra as ideologias.
Considero pobre de quem acha que está livre de uma tal moralidade e que, portanto, vê o mundo sem filtros. Só não é mais pobre do que quem considera sua miséria uma fortuna.
=
Bom, o texto é sobre a questão do livre-arbítrio que o filme "Laranja Mecânica" coloca.
Ele inicia com uma breve descrição do filme e do livro, mas já me incomoda um bocado na hora de descrever a diferença entre os dois.
Ele diz sobre a decisão do editor americano de Laranja Mecânica e de Kubrick de terem retirado o último capítulo da obra de Burgess:
"Numa tacada genial, transformou um livro moralista (portanto pobre) num livro cínico (portanto rico)."
Como o autor do texto não explica (provavelmente pra evitar spoilers), eu explico (e, portanto, eis os spoilers):
O filme de Kubrick, como vocês galerinha moderna de óculos quadrado bem sabem, termina com Alex feliz da vida se livrando dos efeitos de sua lavagem cerebral, tão malvado quanto sempre foi, mostrando que o processo todo tinha sido fútil.
O livro vai um capítulo além e mostra que, embora o processo todo tenha sido fútil, Alex simplesmente se torna um adulto e deixa a vida de violência pra trás, se tornando um burguês comum e feliz da vida.
Agora, é interessante que um texto que invoque tanto Nietzsche não se furte em fazer uma divisão entre aquilo que é "pobre" (ou mau) e aquilo que é "rico" (ou bom).
Antes do juízo de valor apressado, seria interessante analisar as diferentes perspectivas pelas quais a obra se apresenta e eu tenho muitos problemas em acreditar que é o final de Burgess que é moralista ao invés do final de Kubrick, ainda mais dado o contexto histórico.
Defendo aqui que nenhuma das obras consegue escapar de um certo moralismo. Mas Burgess é um tipo de progressista enquanto Kubrick é perigosamente autoritário no seu suposto cinismo.
Na época em que o livro foi lançado, nos anos 60, havia um enorme medo da juventude que, perdendo seu compasso moral, se tornariam todos um bando de selvagens. Ambas as obras se ligam nisso e ambas as obras assinalam que ter cultura, uma família amorosa e um governo protetor em nada mudam o fato que Alex é um assassino e estuprador. A questão do livre-arbítrio já começa aí, antes de qualquer sala de cinema e remédios: A questão é se Alex é um produto do sistema? Sua violência não pode ser relacionada à ignorância, à uma relação mal resolvida com a família, ao abandono pelas instituições.
Isso significa que ele escolhe ser mal ou que existe algo na sua natureza que o impele a isso?
A obra de Burgess deixa essa questão em aberto; a de Kubrick aparentemente responde. Mas já chegamos lá.
Argumento aqui que a obra de Kubrick é mais conservadora que a Burgess pelo motivo de que a obra de Burgess inocenta o jovem assassino. Ele diz para o leitor britânico de 1962 "chill out! Essas crianças parecem descontroladas, mas é isso, elas são crianças. Elas são cruéis e perigosas e merecem levar um tapa na orelha, mas elas vão crescer. Não tenham medo dos jovens, eles não são o declínio da sociedade, são só diferentes".
A obra de Kubrick adota outra perspectiva, a obra de Kubrick diz: "Essas crianças vão estuprar sua esposa e cuidar delas (como fazem o padre e o político) é só ser apunhalado nas costas". O filme poderia ser uma propaganda para a pena de morte.
Enquanto a obra de Burgess apresenta que não só é desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, como também é estúpido porque, afinal, um dia todo mundo cresce e faz parte da sociedade; a obra de Kubrick dá a entender que, apesar de ser desumano tentar coagir uma mudança no comportamento do jovem, pode bem ser a única escolha; basta a lavagem cerebral parar de fazer efeito, que mais uma vez temos um assassino estuprador em nossas mãos. Pior! Um assassino estuprador que usa as instituições políticas e a mídia para seu ganho próprio.
Repito: poderia ser uma propaganda para a pena de morte.
Se Alex não pode ser reabilitado e ele inevitavelmente será sempre um assassino; que outra escolha existe?
A obra de Burgess é muito mais liberal nesse sentido. É até ingênua na sua defesa da juventude: Alex não precisa ser reabilitado. Ele cresce. Ser um membro da sociedade é um corretivo muito mais eficiente que uma lavagem cerebral.
Essa é, aliás, a bandeira que os progressistas defendem em relação aos presidiários. Eles não precisam ser coagidos, precisam apenas ser introduzidos corretamente à sociedade.
Um segundo ponto em que as diferentes perspectivas divergem é que Burgess está firme em uma tradição literária Kierkegaardiana cujo problema básico da vida de um homem é quando ele deixa de ser uma criança e se torna um adulto.
O grande medo da sociedade dos anos 60 é que essas crianças não se tornariam adultos capazes de prosseguir com a civilização, pois estavam destruindo todas suas bases morais.
As obras dessa tradição geralmente partem de alguma premissa desse tipo: elas apresentam um jovem adulto que não aprendeu a crescer por qualquer motivo e que precisa, no decorrer da história, buscar desesperadamente tais fundamentos (geralmente porque se apaixona por uma mulher, mas não é o caso aqui) para poder sair do seu ciclo hedonista auto-destrutivo. É certamente moralista e conservador, mas conservador em um sentido não-reacionário.
É conservador no sentido em que os valores hedonistas dos jovens não são uma revolução, mas apenas uma fase a ser superada, permitindo ao jovem se tornar um membro da sociedade. Desse modo, tais valores também não são uma ameaça, portanto, não precisam ser combatidos por nenhum meio coercivo.
A obra de Kubrick, por outro lado, permanece adolescente.
O cinismo que Flávio põe como riqueza é um mero não-crescer. Isso não é um defeito moral desde que se mostra como o não-crescer não é um defeito moral. Isso não fica claro no filme; pelo contrário, o filme mostra um jovem que não cresce e que, portanto, se torna um parasita cruel das instituições: um estuprador assassino que é recompensado por ter sido pego no fogo cruzado de dois partidos políticos.
O próprio triunfalismo no fim do filme é algo adolescente. O único trunfo que o filme apresenta é o infantil prazer da criança que passou a perna nos adultos.
O homem traumatizado por Alex tê-lo forçado a assistir o estupro da esposa continua traumatizado (e é um homem que demonstrou, duas vezes, que se preocupa em ajudar os outros em momentos de necessidade). A mulher que Alex assassinou continua morta (e o seu crime parece ser de que era uma mulher de meia-idade independente e sem vergonha de sua sexualidade) e a sociedade não só não consegue nem punir Alex e nem reabilitá-lo (seja por meio do padre ou por meio da lavagem cerebral), como ainda sustenta suas contas hospitalares enquanto ele ri da cara de todos.
Certamente Alex tem sua vitória e o espectador a partilha, mas é, como já dito, uma vitória infantil. Nós torcemos por Alex pelo impulso burro de torcer por quem quer que seja o personagem principal. Fosse a história de um homem bondoso que teve sua casa invadida por uma gangue que estupra sua mulher enquanto o força a assistir ou fosse a história de uma mulher solteira de meia-idade que não vê problemas em ter esculturas e quadros eróticos em sua casa que é assassinada enquanto um homem a chama de "safada" e, bem, o que aconteceu com Alex não seria uma vitória, mas uma grande injustiça.
Ainda mais se adicionarmos um tema anteriormente citado (eu disse que já chegava lá)de que a questão de responsabilidade e livre-arbítrio permeia toda a obra.
Até o momento da lavagem cerebral, a impressão que temos é que toda ação de Alex é uma escolha livre.
Flávio chama Alex de "marginal" e nada poderia ser mais errado. Alex é branco, de classe média, com acesso à cultura, querido pelos seus pais e bem protegido pelo seu advogado.
Ele se torna um marginal após sair da prisão, mas até lá, nenhuma de suas ações podem ser ditas que são fruto de pobreza ou falta de cultura.
Se entendermos a falta de liberdade está relacionada a falta de condições materiais (e a obra não parece abordar um tal fatalismo biológico); então Alex de nenhuma forma foi forçado a realizar seus atos.
Ele escolhe ser um assassino e um estuprador por diversão; entenda, por escolha, não por necessidade material. Ele escolhe antagonizar a própria gangue; ele escolhe até, sendo líder da gangue, caminhar para sua armadilha (embora não soubesse que era uma armadilha, não teria acontecido se ele não tivesse concordado com o plano).
A obra de Burgess adiciona aí mais uma escolha: ele escolhe crescer, se tornar um adulto, fazer parte da sociedade.
A obra de Kubrick o priva dessa escolha sem motivos claros. Alex é mal porque é mal ou simplesmente porque é mais vantajoso ser assim do ponto de vista do hedonismo raso que guia todas suas ações?
De qualquer forma, na obra de Kubrick, Alex não tem escolha. Ele é um cara malvado e vai ser até que, enfim, eu já disse vezes demais que o filme poderia ser propaganda da pena de morte.
Talvez não tenha sido intenção de Burgess mostrar que todo jovem delinqüente se redime, mas certamente mostra que é possível a redenção até para o pior deles. A obra de Kubrick é uma obra sem redenção, é precisamente a bandeira de todos que advogam a pena de morte.
Guiados pelo sentimento compartilhado com o ator principal, temos a impressão que Alex passa a perna no sistema. Lendo os fatos no jornal ao invés de assistindo em uma obra de ficção e isso faria com que as pessoas logo demandassem um sistema mais autoritário e punitivo. O oposto da obra "moralista" e "fraca" de Burgess, que nos ensina a não temer até o pior dos jovens. Se um assassino estuprador como Alex não é uma ameaça para a sociedade, certamente não vai ser os Beatles e os Rolling Stones que a destruíram.
Isso não existe na obra de Kubrick. O sentimento de Kubrick é, como já dito, o sentimento adolescente. E sendo sentimento adolescente, falta futuro.
Esse é o último ponto que vou apontar nesse post:
O texto de Flávio anuncia orgulhosamente que o livre-arbítrio foi derrotado e cita Nietzsche ao dizer que ensinar o livre-arbítrio é um instinto de punir e julgar.
Isso significa que toda nossa moral determinada pela nossa crença no livre-arbítrio caiu. E o que fazemos agora?
Primeiro ele passa a resposta para um tal ignorante "homem comum" que acredita em Deus, aí ele entra no assunto do livre-arbítrio no plano da providência divína, passa pra Leibniz (acha em algum momento que não percebemos que ele está fugindo do tema) e depois de concluir que Leibniz falha na sua defesa do livre-arbítrio, passa pro "ateísmo biologista".
E daí ele inconclui uma determinação epistêmica e "somos portanto, responsáveis pelos nossos atos, sim senhor".
A lógica me escapa. Somos ignorantes, portanto responsáveis?
Vai ver eu tenho que ler mais Dennett pra entender esse raciocínio, mas me parece só uma maneira de fugir a pergunta.
Se não sabemos se temos livre arbítrio, então não sabemos se somos responsáveis. Dá pra contornar essa pergunta com o Searle, na minha opinião; dá pra postular uma realidade social em que o livre arbítrio exista. Mas o Dennett não admite isso, logo não dá pra concluir nossa responsabilidade. É mania dos "ateístas biologistas" de não levar a sério suas próprias teorias por terem medo demais de serem, de fato, anti-cristãos. Dennett tem um projeto político de fazer o ateísmo não parecer amedrontador pra sociedade (tal como o Burgess tem um projeto político de fazer a juventude dos anos 60 não parecer amedrontadora).
Se Dennett de fato defende nossa responsabilidade como Flávio dá a entender, então ele só faz isso porque seu modelo de sociedade é um exatamente igual o que existe hoje, com os mesmos valores, mas sem que ninguém acredite na mitologia cristã. Ele quer viver na cristandade sem que exista cristianismo. Se é possível ou não, é um tema mais complicado. Ilógico não é, resta saber se a realidade política suporta tal modelo.
Prosseguindo com esse último ponto. Assim como Flávio falha em dar qualquer tipo de alternativa razoável ao livre-arbítrio; o filme, ao destruir o futuro de Alex e, portanto, sua escolha de ingressar na sociedade, não dá nenhum futuro para tal sociedade.
Afinal, Alex é um simbolismo de todo jovem sessentista que farreia com os amigos, se ele é tão extremo, é, como eu já disse, pra mostrar que nem o extremo é uma ameaça. O livro mostra que a sociedade não deteriora só porque a molecada sai pra beber. Isso é incerto no filme. Tal questão não é nem levanta da no filme.
Então Alex passa a perna na sociedade. E aí?
A sociedade leva um tombo? E depois?
Uma revolução ocorre? Que revolução?
Alex é cínico, ele não tem ideais. O filme mostra várias vezes seu caráter autoritário.
O livro mostra justamente tal caráter autoritário sendo apenas megalomania adolescente, mas no filme é pra valer.
Se Alex é o modelo do jovem, então o que temos em mãos não é uma revolução iluminista, é só o seqüestro da sociedade por oportunistas megalomaníacos.
Mas claro, a gente não sabe. O filme não mostra. Não há futuro além do momento em que a infantilidade se torna vitoriosa.
O que pode se dizer (e é disso que os cínicos se vangloriam) é que "reflete a realidade".
Que é um frio e calculista e amoral reflexo da realidade. É a realidade tal como ela é.
Flávio não diz isso, mas me falha ver qualquer outra vantagem na perspectiva "cínica".
Afinal, o ponto forte do seu cinismo sempre foi o de não estar comprometido com estruturas de poder, mas me parece extremamente ingênuo, ainda mais em um texto que invoca tanto Nietzsche, acreditar que o discurso cínico não está comprometido com nenhuma estrutura de poder.
Pelo contrário, argumento no decorrer do texto que o discurso cínico do filme está comprometido com uma postura mais autoritária que o moralismo conservador do livro; o discurso é o de que confiar nos criminosos é uma tola ilusão. De que eles são monstros inevitavelmente maus que só deixam de matar e estuprar quando são forçados a isso.
Ainda, que quando damos a eles chance de redenção, eles riem na nossa cara.
Que sintamos o prazer do monstro não muda esses fatos, só diz que também temos nosso lado monstruoso e nos atenta ao fato que os outros também têm.
Isso nos ensina a ser "cínicos", isso significa, não confiantes nos membros de nossa comunidade, isso significa, que acreditamos não no dialogo e na cooperação, mas em um frio jogo de forças. Ainda, que nós mesmos não somos confiáveis e que nós mesmos traíremos ao termos a oportunidade.
O resto é uma profecia auto-realizada. Você se torna um cínico e vê toda a sociedade com cinismo. Quando alguém age de forma aparentemente altruísta, logo se põe a trabalhar para traduzir toda a linguagem do altruísmo em egoísmo ("Ele fez porque faz ele se sentir bem, logo é egoísmo") e assim calibrar o mundo com sua teoria. Logo, você vê todos como cínicos e, portanto, prova, a cada dia, sua teoria.
Essa é minha conclusão.
Esse é um post certamente moralista, portanto pobre de acordo com Flávio Pranhos; mas saber por qual prisma vejo as coisas é o que mais me auxilia na eterna luta contra as ideologias.
Considero pobre de quem acha que está livre de uma tal moralidade e que, portanto, vê o mundo sem filtros. Só não é mais pobre do que quem considera sua miséria uma fortuna.
domingo, fevereiro 08, 2009
Deus, se você existe, obrigado por Street Fighter
Abertura de Street Fighter 4.
Não sei se a versão norte-americana vai traduzir a música. Eu sinceramente não me importo, o clima que essa abertura cria é uma das coisas mais perfeitas que eu já vi no mundo do videogame em muito, muito tempo.
PS: fiz dowload do demo de Resident Evil 5 e está excelente, mas um pouco parecido demais com Resident Evil 4; o que é desapontador por um lado, mas por outro, se RE4 é um dos melhores jogos já feitos na história, então que a continuação seja parecida não é ruim. Aumentou muito meu ânimo em jogar RE5 ter assitindo Resident Evil: Degeneration.
Me wants more Claire Redfield! (meu avatar no Playstation@Home é um barbado com uma camiseta da Claire, har har har)
sábado, fevereiro 07, 2009
E o Papa acerta novamente.
Quer o mundo perceba ou não, o tal Vaticano que "tira férias da realidade" e "abraça antissemitas" faz, ainda mais uma vez, uma grande contribuição na luta contra o antissemitismo.
-
Pois vejam, que a SSPX começou a retirar dos seus websites textos relacionados ao judaísmo.
O antissemitismo da SSPX vai além das declarações doidas do Williamsom. O grupo é, em si, antissemita. Um dos motivos pelos quais eles se separaram da igreja era que a igreja não mais aceitava que se acusasse os judeus de deicidio e que a igreja não mais pedisse conversão dos judeus; mesmo porque, seria redundante. O povo judeu já é tão salvo quanto o povo cristão (Wiccas ainda vão pro inferno, sorry).
Trazer a SSPX pra igreja significa dizer "abandone essas coisas". Claro, o Vaticano tem um péssimo departamento de relação pública, mas vá lá; são monges, não marketeiros e nem políticos. Monges lutam kung fu, não fazem conferências de imprensa.
Está acontecendo uma quebra na SSPX; os que quiserem continuar antissemitas vão provavelmente ser expulsos e criar um outro secto ainda mais doido e extremista. Mas a maioria (e são alguns milhares de fiéis no mundo) vai simplesmente deixar o antissemitismo pra lá.
-
Isso é o que a Igreja faz; ela acolhe pecadores e vai aos pouquinhos expurgando o pecado. A gente costumava queimar as pessoas pra ser mais rápido, mas isso se tornou politicamente incorreto, então ao invés disso usamos essas táticas de abolir excomunhões pra iniciar um dialogo.
=
O lado mais progressivo da Igreja está puto que o Papa escolheu abraçar primeiro esse grupo, levar todo esse dano na imagem; do que abrir um maior dialogo com posições como ordenação de mulheres e aceitação dos gays católicos.
Eu concordo que essas questões merecem ser mais levadas em consideração pelo Papa; eu tenho um especial carinho pelos gays católicos, que foram basicamente eles que me fizeram ver o quanto a Igreja pode ser uma força positiva no mundo (e aí, graças a eles, eu passei a estudar o assunto e ver que a Igreja é uma força positiva no mundo de muitas outras maneiras); mas o pessoal tem que lembrar que o Papa é católico (é, eu sei, um choque) e que religião é uma força política, em primeiro lugar, conservadora e tradicionalista.
Dito isso, a igreja católica é a instituição política com maior capacidade de progresso, não significa que ela é progressista, só significa que ela conversa e é racional enquanto as outras religiões estão colando flyers de "o povo de Deus não vota em gay" na av. Paulista; declarando 5 penas de morte diferentes para homossexuais no Teerã; etc.
A igreja católica ainda vai aceitar os gays, inclusive casamento gay; considero isso algo inevitável. Só não é agora. Por enquanto o que podemos fazer é ensinar esses sectos mais tradicionalistas que os velhos ensinamentos acerca dos judeus estavam errados e que hoje eles são bacanas e bonitos. Já acho ótimo. Não acredito em revoluções, acredito em passos de pomba mesmo.
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Pois vejam, que a SSPX começou a retirar dos seus websites textos relacionados ao judaísmo.
O antissemitismo da SSPX vai além das declarações doidas do Williamsom. O grupo é, em si, antissemita. Um dos motivos pelos quais eles se separaram da igreja era que a igreja não mais aceitava que se acusasse os judeus de deicidio e que a igreja não mais pedisse conversão dos judeus; mesmo porque, seria redundante. O povo judeu já é tão salvo quanto o povo cristão (Wiccas ainda vão pro inferno, sorry).
Trazer a SSPX pra igreja significa dizer "abandone essas coisas". Claro, o Vaticano tem um péssimo departamento de relação pública, mas vá lá; são monges, não marketeiros e nem políticos. Monges lutam kung fu, não fazem conferências de imprensa.
Está acontecendo uma quebra na SSPX; os que quiserem continuar antissemitas vão provavelmente ser expulsos e criar um outro secto ainda mais doido e extremista. Mas a maioria (e são alguns milhares de fiéis no mundo) vai simplesmente deixar o antissemitismo pra lá.
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Isso é o que a Igreja faz; ela acolhe pecadores e vai aos pouquinhos expurgando o pecado. A gente costumava queimar as pessoas pra ser mais rápido, mas isso se tornou politicamente incorreto, então ao invés disso usamos essas táticas de abolir excomunhões pra iniciar um dialogo.
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O lado mais progressivo da Igreja está puto que o Papa escolheu abraçar primeiro esse grupo, levar todo esse dano na imagem; do que abrir um maior dialogo com posições como ordenação de mulheres e aceitação dos gays católicos.
Eu concordo que essas questões merecem ser mais levadas em consideração pelo Papa; eu tenho um especial carinho pelos gays católicos, que foram basicamente eles que me fizeram ver o quanto a Igreja pode ser uma força positiva no mundo (e aí, graças a eles, eu passei a estudar o assunto e ver que a Igreja é uma força positiva no mundo de muitas outras maneiras); mas o pessoal tem que lembrar que o Papa é católico (é, eu sei, um choque) e que religião é uma força política, em primeiro lugar, conservadora e tradicionalista.
Dito isso, a igreja católica é a instituição política com maior capacidade de progresso, não significa que ela é progressista, só significa que ela conversa e é racional enquanto as outras religiões estão colando flyers de "o povo de Deus não vota em gay" na av. Paulista; declarando 5 penas de morte diferentes para homossexuais no Teerã; etc.
A igreja católica ainda vai aceitar os gays, inclusive casamento gay; considero isso algo inevitável. Só não é agora. Por enquanto o que podemos fazer é ensinar esses sectos mais tradicionalistas que os velhos ensinamentos acerca dos judeus estavam errados e que hoje eles são bacanas e bonitos. Já acho ótimo. Não acredito em revoluções, acredito em passos de pomba mesmo.
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Oh, Bento.
- Eu consegui! Vejam só! Estou fazendo a cadeira flutuar com meus poderes papais!
=
Eu tenho uma série de assuntos pra comentar, infelizmente, preguiça e o dano que esse pacote gigante de cheetos fez ao meu estômago me impedem.
Mas uma coisa tem particularmente me incomodado esses dias e é meio que tudo que o Azevedo fala.
Por algum motivo masoquista, eu decidi acompanhar o blog do Reinaldo Azevedo via reader; afinal, ele é de direita, eu sou de direita; ele gosta de Israel, eu gosto de Israel; ele é católico, eu sou um ateu confuso que gosta bastante da Igreja católica; que mal poderia acontecer?
OH. Céus!
Muito mal.
O homem é doido.
Eu não sei se o mais chato é a insistência dele em viver em uma realidade alternativa e bizarra ou se é o consciente esforço dele em não ser nada além do que candidato a Bill O'Reilly brasileiro.
-
Por exemplo, iniciou-se um meme semana passada ou retrasada de que fechar Guantanamo significaria libertar terroristas.
O que acontece é o seguinte: Gitmo foi criada não para ser uma prisão de segurança máxima (apenas), mas pra ser um local em águas internacionais livres das leis norte-americanas.
É claro, esse é típica criação de realidades alternativas do bushismo. Crie algo absurdo, finja que faz sentido e confie que seu poder militar e suas ameaças de morte vão fazer o mundo concordar.
O mundo concorda, por sorte, os norte-americanos são pessoas decentes e votaram pelo fechamento de Gitmo. Estar em águas internacionais não muda o fato de que é uma prisão norte-americana com presos que estão lá sem ninguém nem ter certeza se são culpados ou não.
Logo, quando a prisão fechar, ocorrerão julgamentos. Como informação obtida de modo ilegal não conta numa corte, é capaz que algum terrorista seja solto na brincadeira. Embora seja improvável; se existe qualquer prova de que o sujeito é terrorista, não existe juíz norte-americano no universo que o libertaria.
Ainda assim, Reinaldo Azevedo escreve pelo menos um post por dia alertando-nos para os perigos de soltarem todos os terroristas.
Isso é só doente. O maior debate nos EUA atualmente é pra que prisão eles vão e a maior crítica ao Obama é que nenhuma prisão em solo norte-americana é segura o bastante pra caso algum homem-bomba tente libertá-los.
Veja só: existe uma pessoa e uma pessoa apenas em todo o mundo que ainda acha que terroristas serão libertos em massa - essa pessoa é Reinaldo Azevedo.
Aí ele escreve um post gigante falando sobre como isso vai ser mal pro mundo.
No shit! Jura amigão? Sério que centenas de terroristas andando livres e saudáveis pelos Estados Unidos serão um risco para aquele país? Minha nossa hein!
Se ao menos existisse essa tal coisa chamada "mundo real" em que o presidente norte-americano jamais os soltaria assim para impedir essa catástrofe.
Mas na cabeça do Reinaldo, o presidente dos Estados Unidos é anti-americano.
-
Hoje rolou essa, o assunto eram cotas:
"Ali por 2030, o macho, branco, heterossexual e católico, sob risco de extinção e tornado o verdadeiro negro do mundo, também pode se candidatar a cotas. O mais provável é que acabe numa jaula, sob uma placa: "É PROIBIDO DAR PIPOCA AO ESQUISITO"."
Eu sou um homem branco heterossexual e ateu-confuso-se-tornando-católico-aos-pouquinhos.
Jura, Reinaldo, jura, que você acha que nossa espécie está ameaçada?
Eu não vou nem comentar o "tornado o verdadeiro negro do mundo".
Agora, eu queria saber com quem porra que o Reinaldo trabalha na redação da Veja? Eu vou arriscar que a maioria lá é formada de homens brancos heterossexuais e católicos, mas sinto que talvez haja uma ou outra mulher branca heterossexual e católica no meio que sirva de contra-exemplo; ou homem branco heterossexual e protestante.
Aliás, queria saber se os donos do restaurante que ele frequenta não são homens brancos heterossexuais e católicos; se os políticos em quem ele vota não são homens brancos heterossexuais e católicos (eu sei que o presidente é); enfim, dá pra continuar.
Eu não quero nem comentar o racismo do Reinaldo (e achar que não é racismo ter medo do homem branco heterossexual se tornar um "esquisito", sabe, que nem as mulheres negras e homossexuais são esquisitas, é no mínimo ter um conceito restrito demais de racismo), só quero comentar que esse post veio dois dias depois do NY Times ter acusado Bill O'Reilly de racismo pelo Bill O'Reilly ter dito, guess what, que a "white male power structure" está ameaçada.
Então é isso pessoal, querem saber o que o Azevedo pensa sobre determinado assunto? Não espere, é só ver o que Bill O'Reilly fala.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Sobre blogs, arrependimentos e redenção.
Às vezes eu reclamo que ninguém lê esse blog, mas são dias como os de hoje que eu me lembro porque esse lugar é tão importante.
Esse blog não existe pra ser lido, ele existe pra um ser um diário que apenas eu compreenda. Um compêndio de estupidez e arrependimento. Um eterno e onipresente pedido de desculpas sem ninguém que seja capaz de me perdoar.
Eu sou incapaz de me perdoar e é apenas com o perdão que há redenção e apenas na redenção que o crime termina.
Todo erro, pequeno ou grande, que eu cometi em toda minha vida continua a cada respiração. O conceito de salvação completamente perdido. Cada sucesso devidamente ignorado e afogado em um oceano de auto-derrota.
A estética do loser cobra um preço alto e não nos devolve nada além de uma vaga promessa de que alguém em algum lugar vai se dedicar o suficiente a você para ver por meio das rachaduras da máscara.
Mas não acontece. Não há como acontecer. Cada máscara quebrada traz outra por trás ao infinito.
É um preço alto que pagamos por algo que simplesmente nunca vai acontecer.
É estupidez e arrependimento que jamais podem se esconder atrás de um "eu não sabia" ou de um "eu não sou realmente assim".
Eu sabia que era errado.
Essa farsa sou eu.
E não há verdade em nenhuma parte.
Eu me sinto cada vez mais perdido em uma realidade construída anti-socialmente. Algo criado com o objetivo expresso de manter os outros fora.
Sinto medo de submeter as outras pessoas à mim. Sinto medo de sinceramente gostar de alguém, pois isso significaria machucar alguém que sinceramente gosto.
Sinto medo dessas palavras não serem verdade. De eu estar copiando os sentimentos de outra pessoa para preencher o vazio dos meus.
Sinto medo desse blog ser meu único vestígio de realidade, pois apenas aqui as minhas ficções são tratadas como ficções e apenas aqui eu posso afirmar a única verdade da completa ausência de verdade.
Apenas aqui eu sei que não sei.
E se outras pessoas lêem ou não é o de menos, esse blog não foi feito pra ser lido. Quem quiser se arriscar em absorver essas mentiras todas, que entre na minha lista de arrependimento.
Esse blog é onde eu venho pra morrer.
Quando eu nascer de novo, eu vou estar um pouco mais velho e um pouco mais triste e, se tudo deu certo, um pouco mais apto nesse negócio de sobreviver.
Mas sempre estúpido e arrependido.
Esse blog não existe pra ser lido, ele existe pra um ser um diário que apenas eu compreenda. Um compêndio de estupidez e arrependimento. Um eterno e onipresente pedido de desculpas sem ninguém que seja capaz de me perdoar.
Eu sou incapaz de me perdoar e é apenas com o perdão que há redenção e apenas na redenção que o crime termina.
Todo erro, pequeno ou grande, que eu cometi em toda minha vida continua a cada respiração. O conceito de salvação completamente perdido. Cada sucesso devidamente ignorado e afogado em um oceano de auto-derrota.
A estética do loser cobra um preço alto e não nos devolve nada além de uma vaga promessa de que alguém em algum lugar vai se dedicar o suficiente a você para ver por meio das rachaduras da máscara.
Mas não acontece. Não há como acontecer. Cada máscara quebrada traz outra por trás ao infinito.
É um preço alto que pagamos por algo que simplesmente nunca vai acontecer.
É estupidez e arrependimento que jamais podem se esconder atrás de um "eu não sabia" ou de um "eu não sou realmente assim".
Eu sabia que era errado.
Essa farsa sou eu.
E não há verdade em nenhuma parte.
Eu me sinto cada vez mais perdido em uma realidade construída anti-socialmente. Algo criado com o objetivo expresso de manter os outros fora.
Sinto medo de submeter as outras pessoas à mim. Sinto medo de sinceramente gostar de alguém, pois isso significaria machucar alguém que sinceramente gosto.
Sinto medo dessas palavras não serem verdade. De eu estar copiando os sentimentos de outra pessoa para preencher o vazio dos meus.
Sinto medo desse blog ser meu único vestígio de realidade, pois apenas aqui as minhas ficções são tratadas como ficções e apenas aqui eu posso afirmar a única verdade da completa ausência de verdade.
Apenas aqui eu sei que não sei.
E se outras pessoas lêem ou não é o de menos, esse blog não foi feito pra ser lido. Quem quiser se arriscar em absorver essas mentiras todas, que entre na minha lista de arrependimento.
Esse blog é onde eu venho pra morrer.
Quando eu nascer de novo, eu vou estar um pouco mais velho e um pouco mais triste e, se tudo deu certo, um pouco mais apto nesse negócio de sobreviver.
Mas sempre estúpido e arrependido.
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
E olha que ele nem está falando de quadrinhos nacionais
My own view is that the publishing industry deserves to die in its current state. It never made economic sense to me; there are no real editors of books any more; the distribution network is archaic; the technology of publishing pathetic; and the rewards to authors largely impenetrable. I still have no idea what my occasional royalty statements mean: they are designed to be incomprehensible, to keep the authors in the dark, to maintain an Oz-like mystery where none is required.
The future is obviously print-on-demand, and writers in the future will make their names first on the web. With e-distribution and e-books, writers will soon be able to put this incompetent and often philistine racket behind us. It couldn't happen too soon.
-
Eu concordo. Do sempre genial gay católico conservador pró-Obama Andrew Sullivan
Aliás, eu vou discordar de um detalhe.
Antes da internet, a publicação via papel (e sim, praticamente sem editora. Eu pelo menos, único editor de quadrinhos que conheci na minha vida foi o Lobo da Mosh, o resto é colador-de-logotipo-na-capa) - e o autor fala em livros, nem em quadrinhos; mas só pra mostrar como o problema permeia toda a indústria de coisas de papel - fazia econômico sentido porque era o único modo de distribuir coisas escritas, a não ser que pergaminhos de pele de carneiro sejam uma possibilidade.
Agora com a internet, a idiotice do modelo se revela.
Alguém vai dizer que há o prazer de ter um livro na sua estante, que ler no papel é bem melhor que ler no computador, etc.
Eu concordo com isso e acho que é só por isso que a idiotice da publicação continua fazendo alguém em algum lugar ganhar dinheiro; pra resolver isso falta apenas mais uma revolução tecnológica: impressoras.
O dia que eu tiver uma impressora na minha casa que me permite imprimir um livro em formato de livro (ou seja, que dê pra tirar da impressora e já colocar na estante) não vai fazer sentido pagar um editor-que-não-é-editor e uma distribuidora; sendo que apenas centavos disso irão pro autor de qualquer modo e, como explica o Sullivan com seus livros lançados, ele nem sabe quanto recebe de royalties porque é algo feito de propósito para confundir o autor.
É um modelo besta.
O lance seria fazer um site de contos que permitisse doação dos visitantes.
Mas quem terá essa idéia genial?
Quem?
The future is obviously print-on-demand, and writers in the future will make their names first on the web. With e-distribution and e-books, writers will soon be able to put this incompetent and often philistine racket behind us. It couldn't happen too soon.
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Eu concordo. Do sempre genial gay católico conservador pró-Obama Andrew Sullivan
Aliás, eu vou discordar de um detalhe.
Antes da internet, a publicação via papel (e sim, praticamente sem editora. Eu pelo menos, único editor de quadrinhos que conheci na minha vida foi o Lobo da Mosh, o resto é colador-de-logotipo-na-capa) - e o autor fala em livros, nem em quadrinhos; mas só pra mostrar como o problema permeia toda a indústria de coisas de papel - fazia econômico sentido porque era o único modo de distribuir coisas escritas, a não ser que pergaminhos de pele de carneiro sejam uma possibilidade.
Agora com a internet, a idiotice do modelo se revela.
Alguém vai dizer que há o prazer de ter um livro na sua estante, que ler no papel é bem melhor que ler no computador, etc.
Eu concordo com isso e acho que é só por isso que a idiotice da publicação continua fazendo alguém em algum lugar ganhar dinheiro; pra resolver isso falta apenas mais uma revolução tecnológica: impressoras.
O dia que eu tiver uma impressora na minha casa que me permite imprimir um livro em formato de livro (ou seja, que dê pra tirar da impressora e já colocar na estante) não vai fazer sentido pagar um editor-que-não-é-editor e uma distribuidora; sendo que apenas centavos disso irão pro autor de qualquer modo e, como explica o Sullivan com seus livros lançados, ele nem sabe quanto recebe de royalties porque é algo feito de propósito para confundir o autor.
É um modelo besta.
O lance seria fazer um site de contos que permitisse doação dos visitantes.
Mas quem terá essa idéia genial?
Quem?
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