segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Profiles

Catarina Penha. 14 anos. Gosta de nadar. Vai mal na escola. Gosta de si mesma.

Andrey Kuznetsov. 32 anos. Tem 2 gatos. Tem fetiche por estupro. Colesterol alto.

Gagendra Bhatnagar. 2 anos. Aprecia coisas simples. Está acima do peso. Está faminto.

Devora Benjamin. 17 anos. Bibliófila. Aprecia os franceses. Quer vencer na vida.

Armand de Gaulle. 28 anos. Assassino. Vive sozinho. É feliz.

Mikko Ralph. 67 anos. Estrábico. Ama a família. Passa bem.

Ama Wickham. 40 anos. Concerta relógios. Vítima frequente de racismo. Entediada.

Nashwa Cone. 16 anos. Ouve Lady Gaga. Odeia o pai. Passou no vestibular.

Mitzi True. 36 anos. Professor universitário. Dedicou a vida à estudar Jung. Discorda do autor.

Duarte Lobato. 89 anos. Conta história aos bisnetos. Saudável para a idade. Quer morrer.

Anata Kemyss. 25 anos. Desempregada. Fumante. Tranquila.

Jasper Miriam. 13 anos. Amigável. Tentou seduzir uma professora. Gostaria de não ter seu apelido.

Than Rowena. 18 anos. Apaixonado. Observa o sangue escorrer dos pulsos. Arrepende-se.

Pamela McKie. 47 anos. Tem um filho adotado. Foi atriz pornô. Boa mãe.

Umeko Mie. 32 anos. Esposa. Mãe. Gosta de cães.

Jiera Otis. 21 anos. Secretária. Transsexual. Feliz com a compra de seu primeiro carro.

Falda Gorten. 41 anos. Brigona. Quebrou o braço de um homem. Paga uma cerveja quando isso ocorre.

Rodrigo Alonso. 24 anos. Formado em filosofia. Gosta de roxo. Um pouco deprimido.

Sulio Tiernay. 51 anos. Biólogo. Vegetariano. Hipocondríaco.

Amice Affleck. 51 anos. Bióloga. Vegetariana. Desiludida.

Dikranouhi Amaker. 15 anos. Bulímica. Gentil. Lê manga.

Leonard Isabel. 37 anos. Funcionário público. Don Juan. Satisfeito.

Unai Nisbett. 48 anos. Terrorista. Heterossexual. Bom cozinheiro.

Gomes Delia. 11 anos. Goleiro. Leva gols. Quer chorar.

Arnaldo Delia. 31 anos. Pai. Assiste os erros do filho. Quer espancá-lo.

Hirsh Addams. 19 anos. Soldado. Tirou uma vida. Bom soldado.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

O bem sucedido

Fazia a mesma rotina todo sábado. Levantava-se da cama às 8 da manhã e os criados suspiravam. Os pães do café da manhã tinham que estar perfeitamente quente e o café impecável. A roupa em cima da cama assim que ele saísse do banho e deviam, ao mesmo tempo, satisfazer o seu gosto pessoal, não ser formal demais e de nenhuma forma fazer com que ele se sinta ridicularizado na rua. Os seguranças praguejavam - maldito hábito - já é difícil proteger alguém com tanto dinheiro em situações normais, mas todo sábado o maldito insistia em andar até a lotérica do supermercado. Tinham que se lembrar a todo tempo que lidar com excentricidades era parte do serviço.

Qualquer dia da semana, não existia melhor patrão e ser humano que o senhor Tarquinio, mas havia algo nesses sábados de manhã que o transformavam em um velho rabugento e exigente, como se fosse o período que ele tivesse escolhido para toda a malvadeza que não existia no resto dos dias.

Tarquinio tinha uma história de vida inspiradora. Nascido de mãe morta, o bebê sobreviveu ao parto pela força de vontade que viria a ser sua característica a vida toda.

Tarquinio se destacava na escola. Aprendia a matéria e ensinava aos outros. Quando não havia a quem ensinar, lia livros das séries mais adiantadas. Nenhum professor jamais reclamou de sua insonia, todos tinham medo de quebrar o aluno perfeito.

Dificilmente um artigo ou biografia sobre Tarquinio omitia o termo "workaholic". Mal sabiam o quanto o termo era mal aplicado. Por um lado era verdadeiro - Tarquinio dedicava toda sua vida ao trabalho - por outro lado, ele era bem consciente dos estudos apontando que o excesso de trabalho levava ao declínio da produtividade. Tarquinio nunca deixou de se alimentar bem, de ter horas de lazer, de contratar boas prostitutas quando o estresse ameaçava-o.

Foi assim que ele foi subindo os degraus da multinacional em que conseguiu o trabalho. Tarquinio era simplesmente melhor que os outros, visivelmente melhor. Os superiores tinham tanto medo de ele tomar seus cargos quanto de não fazer uso de seu talento e Tarquinio, eficiente em resolver problemas, sempre foi o funcionário mais leal. Não há um antigo colega ou gerente que não lhe deu uma chance que hoje não ganha um farto salário em sua própria empresa.

A lealdade e honestidade se traduziu em marca quando abriu sua primeira loja. Tarquinio era tão controlador quanto paterno, nenhum funcionário mudava nenhum produto de lugar sem sua autorização, mas também era o chefe mais acessível. Os livros que escreveu sobre gerenciamento de negócios são amplamente estudados em universidades.

Tarquinio nunca se casou, sua rede de lojas se tornou sua família, visita, na medida do possível, o maior número delas pessoalmente. Faz questão de ter uma casa em cada estado que tem uma loja. Nunca se envolveu em polêmicas, sempre esteve atento ao discurso público: iniciou projetos de caridade anos antes da expressão "marketing social" ter sido criada e foi o primeiro a investir em modelos de produção sustentáveis, dando clara preferência aos fabricantes que melhor se adequassem às suas normas.

Mas sempre havia o sábado. Ao ser questionado, limita-se a dizer que era um hábito do pai. Essa é sua única mentira.

A verdade é que todo sábado Tarquinio se vê em uma mansão, sua vida invejada, seu conhecimento admirado, seu caráter respeitado e Tarquinio com a plena certeza de que tudo aquilo era o fruto de seu trabalho. Observava nos olhos de cada funcionário bem pago e com invejável plano de saúde a gratidão. Mas quem Tarquinio agradecia?

Todo sábado Tarquínio comprava um bilhete de loteria, esperava sempre tirar a sorte grande. Mas a sorte nunca vinha, era sempre mais trabalho, mais esforço, mais técnica.

E todo sábado, o senhor Tarquínio, ao conferir os resultados, ao encarar mais uma vez o vazio de sua não-premiação, entendia plenamente a mensagem que vinha dos céus.

A boa sorte é o presente dos deuses. A meritocracia é o refúgio dos amaldiçoados.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Casamento Gay - A Falta De Argumentos Contra

Bom, eu tenho a tendência de acompanhar mais os debates norte-americanos do que os brasileiros; em parte porque lá eles discutem um pouco mais os valores atrás das coisas e aqui costumamos ficar presos na tecnicalidade das questões.

Enfim, recentemente lá rolou a famosa proposition 8 na Califórnia que baniu o casamento gay; aí tiveram a boa idéia de processar o estado, considerando que isso seria inconstitucional; o que, claro, alavancou o debate.

Pois até então, não havia bem debate. Havia quem era a favor, quem era contra e vez ou outra eles mediam os números de cada lado pra ver pra onde ia a lei. Aconteceu que, na Califórnia, teve mais gente contra do que a favor. A diferença é que agora, ao invés de anúncio televisivos de 30 segundos, as pessoas contra o casamento gay tem que sentar, na frente de juíz e juri, e explicar, de modo a evitar o crime de discriminação contra homossexuais, porque casamento gay é algo pró-família e não anti-gays.

O que tem acontecido, como esperado, é a falha dessas pessoas. É, convenhamos, bem difícil dizer "não tenho nada contra essas pessoas, só não quero que elas se casem com quem amam, nem que tais uniões sejam reconhecidas pela justiça, nem que elas jamais possam ter a alegria de ter um filho"? É bem difícil.
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O padrão que eu vi, veja bem, é que aqueles contra o casamento gay anunciam que tem um argumento, mas nunca o demonstram.

Em defesa deles, é um argumento muito difícil de demonstrar: de que, de alguma forma, permitir gays se casarem tornará menos legitimo o casamento heterossexual.

Pra analisar esse padrão de "tell, don't show", trago essa notícia sobre um cardeal dizendo ser impossível ser católico e apoiar casamento gay ao mesmo tempo (ele fala sobre legislação, logo, está aqui):

http://www.catholic.org/international/international_story.php?id=35459

Esse documento do Vaticano que também fala de uniões civis (e não apenas casamento):

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homosexual-unions_po.html

E, enfim, o julgamento reencenado (pois as filmagens foram proibidas):
http://marriagetrial.com/

O debate. em suma, é esse:

Ted Olson, one of the lead attorneys for plaintiff couples Kristin Perry and Sandra stier and Paul Katami and Jeffrey Zarillo, explains that the plaintiffs are arguing that Proposition 8 violates federal constitutional rights to equal protection and to marry; that marriage is of great importance in U.S. society and lack of access to it stigmatizes and harms same-sex couples and their families; that there is "no good reason" for the discrimination worked by Proposition 8 - not procreation or parenting - and indeed that Proposition 8 was enacted out of prejudice and stereotypes about gay and lesbian people; and that it is the courts' role to protect the constitutional rights of vulnerable minority groups.

Therese Stewart explains for San Francisco that the city will contend that Proposition 8 contributes to anti-gay hate crimes as well as significant economic losses to the city and state. Charles Cooper then argues for the Defendant-Intervenors that Proposition 8 restores a traditional definition of marriage; that California generously protects gay and lesbian people as a consequence of great political power; that opposition to marriage for same-sex couples is not necessarily born of prejudice; that central purpose of marriage has to do with heterosexual procreation; that letting same-sex couples marry risks transforming marriage away from being a pro-child institution and lead to various social harms; that the effects of letting same-sex couples marry is uncertain and so courts chould defer to the people's choice not to experiment.
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Ambos os lados concordam que casamento é importante, *logo* banir um grupo de pessoas dessa instiuição afeta a sociedade. Isso é bem demonstrado pelo modo como gays são discriminados e marginalizados. Sem fazer parte da sociedade (pois, como ambos os lados concordam, constituir família faz parte desse processo), os gays acabam em guetos culturais, onde ao invés de ser o seu habitante normal, que tem um emprego normal, bebe socialmente, volta pra casa às 18h, brinca com o filho e todo ano se preocupa com o imposto de renda; eles acabam em estilos de vida menos saudáveis. Consequência comum de marginalização. Isso, os *defensores* da proposição 8, aqueles contra o casamento gay, concordaram. Eles concordam que a ausência de tal direito leva à perdas econômicas para a cidade e estado e para o aumento de crimes homofóbicos (lembrem-se, é um julgamento, não um debate de blog, se eles falam o contrário, eles terão que, na frente de juri, ser desmentidos por estudos a respeito e, portanto, fazer seu caso parecer mais fraco).

O que aqueles contra o casamento gay afirmam é que, apesar de todo o mal que essa discriminação causa aos gays, o mal contra a sociedade seria ainda maior. Casamento se define pela procriação, sem isso, a instituição deixa de ter como finalidad as crianças, o que levaria a males sociais; além disso, como é algo que a sociedade não experimentou ainda, podem haver efeitos nocivos futuros e as pessoas tem escolha de não serem cobaias de tal experimento.

Enfim, o debate então prossegue nesses termos:

Os defensores do casamento gay tem que provar que o casamento gay é capaz (e tem como um de seus propósitos) gerar famílias (inclusive criar filhos, mesmo que adotados) e não só em unir duas pessoas. Família é uma coisa, um "namoro mais sério" é outra, afinal de contas.

Aqueles contra o casamento gay tem que provar que os gays não são capazes (e/ou não tem a intenção) de gerar famílias e que não há nada em homofóbico em dizer isso (pois parte central do processo está em que a inconstitucionalidade da proposição 8 é sua natureza discriminatória; se ficar provado que os defensores do casamento gay são homofóbicos, o julgamento acaba aí).

Então uma nota de diferença entre o julgamento e as propagandas invocando pessoas à irem às urnas é que no julgamento não pode haver referência relacionando homossexuais com pedofilia. Enquanto os comerciais contra o casamento gay sempre implicitavam que gays e pedófilos são meio que a mesma coisa (um argumento corrente em blogs conservadores), no julgamento, isso teria que ser provado ou fim. Como não há provas, o argumento não é sequer levantado. Assim o lance se resume a duas coisas:

Capacidade de se criar filhos sem figura paterna/materna (os conservadores certamente concordam que o Estado deveria cuidar do filho das viúvas) e a centralidade da biologia no casamento.

Logo no começo, uma historidadora defendeu que a biologia importa pouco, que casamento vai além do que criar filhos e que o filho ser biológico ou não significa praticamente nada. Nota que estamos falando de uma historiadora especializada na sociedade norte-americana, esse não é um julgamento sobre a civilização ocidental ou a antropologia católica; trata-se de saber se, nos EUA, casamento é relacionado principalmente à filhos biológicos - e a resposta é que não há nada que leve a crer isso.

Enfim, eu não vou descrever o julgamento inteiro, são 12 emocionantes arquivos de pdf com um debate onde, perante juíz e juri, ninguém pode ficar irritadinho e dizer que o outro é um imoral burro inimigo da sociedade. É fascinante, é quase outro universo.

Mas nesse universo sem Ser para julgá-los, a igreja católica discorda do que é dito pelos defensores do casamento gay. Veja bem, é a igreja católica, eles foram os guardiões da razão na idade média, com significantes contribuições para a filosofia. Digo isso tudo sem ironia, pode-se criticar a igreja católica um monte - eu faço - mas eles nunca dizem nada por simples ódio ou por simples preconceito - mesmo que o que eles digam seja motivado por ódio ou por preconceito, eles fazem questão de se justificar racionalmente.

O Cardeal Carlo se justifica dizendo que casamento é um dos bens mais preciosos da humanidade, o que os gays querendo se casar concordam, concordam de modo que eles querem compartilhar desse bem, pois, talvez com certa razão, consideram-se parte da humanidade.

A seguir, ele diz que um dos pilares da nossa ordem moral iria ruir. Isso é idemonstrável, como demonstrado no julgamento, mas esse é o padrão. Anuncie que algo é mal, justificar é secundário.

Ele continua, "a sociedade deve sua sobrevivência ao casamento - não à união homossexual"; como ambos são mutuamente excludentes não é claro. Mas isso é um cardeal dizendo algo, não é um documento oficial do Vaticano explicando sua posição.
Pois vamos ao documento:

Eu vou ignorar o que o documento diz sobre o que a bíblia fala sobre o casamento. O cardeal nos disse que o Estado não deve ser neutro na questão, pois então cabe ao Estado laico não levar em consideração a bíblia. É perfeitamente democrático e de nenhum modo errado que religiosos se reúnam e votem em legisladores que defendam seu ponto de vista moral; e tal documento é mais direcionado à essas pessoas do que à mim; entretanto, não me cabe julgar a bíblia e nem ser julgado por ela.

Então toda a primeira seção do documento é inútil:
Pouco importa como a criatura mitológica cristã supostamente criou macho e fêmea ou como a literatura mitológica cristã não permite analogias entre a união entre tais machos e fêmeas e a união civil homossexual.
Eu concordaria que, de fato, não há analogia entre o casamento descrito na bíblia e nenhum tipo de união civil, dado que um é evento religioso e o outro é reconhecimento social dado pelo Estado laico.

O que não for inútil no documento, eu vou colar aqui e comentar embaixo.


"Em relação ao fenómeno das uniões homossexuais, existentes de facto, as autoridades civis assumem diversas atitudes: por vezes, limitam-se a tolerar o fenómeno; outras vezes, promovem o reconhecimento legal dessas uniões, com o pretexto de evitar, relativamente a certos direitos, a discriminação de quem convive com uma pessoa do mesmo sexo; nalguns casos, chegam mesmo a favorecer a equivalência legal das uniões homossexuais com o matrimónio propriamente dito, sem excluir o reconhecimento da capacidade jurídica de vir a adoptar filhos."


Cabe notar o uso da palavra "pretexto", é como se uma mentira estivesse sendo contada. Veja só, o Estado, como mostrado no julgamento da Califórnia, não promove o reconhecimento legal com o pretexto de evitar discriminação, mas sim com o propósito explícito de tal. Esse é um documento oficial do vaticano, vale lembrar, não um blogueiro qualquer desmerecendo a posição contrária via piadinhas. O uso da palavra "pretexto" é desonesto. Cabe perguntar; se evitar a discriminação é uma raão falsa, qual a verdadeira? O Estado quer, de propósito, destruir a sociedade? Ou o Estado quer agradar o lobby gay, esses sim, textoquerendo, de propósito, destruir a sociedade?

Sem apontar quem está mentindo, o uso da palavra "pretexto" é infantil e desnecessário.

A seguir, a Igreja afirma o quanto a consciência moral exige o combate ao casamento gay.

Não vou argumentar sobre o ímpeto da Igreja em querer nos dar diretrizes morais. Essa é uma de suas funções afinal de conta, nos dizer, baseada na razão e nas revelações, como prosseguir para o Bem e evitar o Mal.

Se a igreja define o casamento como o Mal a ser combatido e se a consciência moral do católico em questão concordar, então que ele se oponha ao lobby LGBT com seu lobby católico e boa sorte a quem tiver o maior capital político.

A seguir, o texto nos ofende um pouco nos lembrando que a lei deve ser racional, como se, sei lá, eu achasse que podia defender algo sem motivo nenhum e, puxa, agora sim que li esse documento que me toquei que não, eu devia estar seguindo à reta razão. Enfim...

7. Nas uniões homossexuais estão totalmente ausentes os elementos biológicos e antropológicos do matrimónio e da família, que poderiam dar um fundamento racional ao reconhecimento legal dessas uniões. Estas não se encontram em condição de garantir de modo adequado a procriação e a sobrevivência da espécie humana. A eventual utilização dos meios postos à sua disposição pelas recentes descobertas no campo da fecundação artificial, além de comportar graves faltas de respeito à dignidade humana,(15) não alteraria minimamente essa sua inadequação.

Vamos apreciar o Vaticano sendo ultra-materialista por um minuto. Você consegue imaginar o maior biologista que você conhece, dizendo que as instituições legais poderiam ser fundamentadas por meio da biologia e da antropologia?

Ignorando como os bebês de proveta não respeitam a dignidade humana (se um de vocês estiver lendo, peça desculpas à todos nós pela sua má educação, moleque malcriado em laboratório), o Vaticano; veja bem, o Vaticano, a Santa Igreja Católica, dá como "fundamento racional", a biologia e a antropologia!

Eu queria saber, por curiosidade, quais outras leis o Vaticano apóia fundamentando-se na biologia.

Bom, enfim, está aí: eles anunciaram que casamento gay é contrário à biologia e à antropologia, vejamos os motivos:

Nas uniões homossexuais está totalmente ausente a dimensão conjugal, que representa a forma humana e ordenada das relações sexuais. Estas, de facto, são humanas, quando e enquanto exprimem e promovem a mútua ajuda dos sexos no matrimónio e se mantêm abertas à transmissão da vida.

Vocês vêem os motivos? Pois é, nem eu.

Não há nada biológico que diz que heterossexualidade tem o monopólio da vida conjulgal e que ordena a relação sexual. Afirmar esse tipo de coisa seria todo tipo de esquisito do ponto de vista biológico; seria ignorar tanto que gays associam-se em casais e que sentem prazer sexual.

Claro que se tais coisas não existissem, não existiriam gays e não haveria esse debate em primeiro lugar.

Para dizer que não há vida conjugal entre gays, não poderíamos ter gays de fato vivendo tal vida. Mas eles existem - e existiriam ainda mais se não fosse esse tipo de afirmação feita pelo Vaticano - aí se torna uma piada cruel.

Eu te proíbo de casar e de como argumento que você não é casado. Não é exatamente isso, mas é próximo o bastante.

E dizer que a função biológica do sexo é reprodução é esquisito porque se cria uma teleologia na biologia dizendo que se pessoas fazem sexo sem motivo de reprodução e sentem prazer, então elas estão *erradas* biologicamente. Isso é nonsense, claro; não falo nem só de sexo homossexual, mas todo e qualquer sexo, toda e qualquer masturbação, toda e qualquer ereção na rua, que não tenha em vista a reprodução. Veja bem, não estamos falando que isso é imoral, estamos falando que é biologicamente incorreto...... eu nem saberia dar um exemplo de algo que de fato acontece que é biologicamente incorreto. É biologicamente incorreto que porcos tenham asas, mas se um dia surgir um, bom, é porque algo de biológico permitiu isso. Aí eu posso dizer que tal porco é imoral, esquisito, fala estranho, que eu não quero ele perto dos meus filhos, mas que argumento biológico você pode dar contra um corpo se comportando de tal maneira na frente dos teus olhos?

É claro que a carta dirá porque exatamente a biologia é contrária a isso, pois é uma afirmação e tanto!
Mas nada. O assunto logo muda.

Como a experiência confirma, a falta da bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças eventualmente inseridas no interior dessas uniões. Falta-lhes, de facto, a experiência da maternidade ou paternidade. Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano. Não há dúvida que uma tal prática seria gravemente imoral e pôr-se-ia em aberta contradição com o princípio reconhecido também pela Convenção internacional da ONU sobre os direitos da criança, segundo o qual, o interesse superior a tutelar é sempre o da criança, que é a parte mais fraca e indefesa.

Lembra do trecho dizendo que inseminação artificial é contrária à dignidade humana? Aquilo tinha nota de rodapé? Sabe esse? Nenhuma.

O Vaticano acusa os gays que hoje vivem com filhos adotados de uma série de coisas, diz até que "não há dúvida" que isso é contrário à princípios reconhecidos pela ONU.

Veja, é igual o parágrafo passado, eles dizem algo enorme, eles dizem que um gay criar o próprio filho com seu marido "é uma violência" (sabe aqueles ateus bobocas que dizem que criar um filho cristão é cometer uma violência contra eles? Acho que descobri de onde tiraram a idéia). A carta sequer tem a decência de apontar um estudo maquiado e manipulado ao seu favor, ela simplesmente acusa e acusa, acusa coisas violentas e coisas graves, põe pais gays como alguém cometendo violência contra os filhos adotivos que amam, que cuidam, que dão educação.

Mas é claro que eles tem ótimos motivos para acusar. Quero dizer, "se a experiência demonstra", deve ser fácil para eles nos apontar como. Um estudo. Um dado. Um motivo. Um argumento.

E mais uma vez silêncio, como se a palavra da igreja bastasse por si só. Não há mais sequer a *pretensão* de racionalidade. Acusações graves, cruéis e completamente injustificadas. A primeira vez que me linkaram esse texto, eu respondi que me surpreendi, que não esperava do Vaticano um texto desse, que não passasse de recitação de ódio. Mas por favor, ausente da expressão vazia (por falta de referência à documentação empírica) à "experiência confirma", alguém pode me mostrar como esse parágrafo inteiro não é destinado a destruir famílias sem oferecer nenhuma justificativa para tal?

Não. O assunto muda. Para mais acusação baseado na ausência.

A sociedade deve a sua sobrevivência à família fundada sobre o matrimónio. É, portanto, uma contradição equiparar à célula fundamental da sociedade o que constitui a sua negação. A consequência imediata e inevitável do reconhecimento legal das uniões homossexuais seria a redefinição do matrimónio, o qual se converteria numa instituição que, na sua essência legalmente reconhecida, perderia a referência essencial aos factores ligados à heterossexualidade, como são, por exemplo, as funções procriadora e educadora. Se, do ponto de vista legal, o matrimónio entre duas pessoas de sexo diferente for considerado apenas como um dos matrimónios possíveis, o conceito de matrimónio sofrerá uma alteração radical, com grave prejuízo para o bem comum. Colocando a união homossexual num plano jurídico análogo ao do matrimónio ou da família, o Estado comporta-se de modo arbitrário e entra em contradição com os próprios deveres.

Aqui acusa-se a união homossexual de ser a negação da família. Nenhum motivo, falando só por falando.

Aqui coloca-se a heterossexualidade como referência essencial de procriação e educação. Do ponto de vista da procriação é algo complicado, o texto quer dizer que, do ponto de vista da ordem social que a procriação é heterossexual? Não, veja bem, isso é assunto da biologia que já foi discutido antes. O que é fundamental aqui não é a procriação, mas sim a família, de novo, a acusação vale igualmente para casais estéreis ou que simplesmente não desejam filhos. Se a igreja quiser excomungar essa gente, boa sorte, mas você está me dizendo pra lei proibir o casamento entre estéreis?

E quanto a educação, outra acusação, outra falta de referência.

No fim, mais uma afirmação sem justificativa. O casamento gay supostamente causa grave mal ao bem comum.

Qual mal? Como?

Teremos resposta? Não. O assunto muda.

Em defesa da legalização das uniões homossexuais não se pode invocar o princípio do respeito e da não discriminação de quem quer que seja. Uma distinção entre pessoas ou a negação de um reconhecimento ou de uma prestação social só são inaceitáveis quando contrárias à justiça.(16) Não atribuir o estatuto social e jurídico de matrimónio a formas de vida que não são nem podem ser matrimoniais, não é contra a justiça; antes, é uma sua exigência.

Nem tão pouco se pode razoavelmente invocar o princípio da justa autonomia pessoal. Uma coisa é todo o cidadão poder realizar livremente actividades do seu interesse, e que essas actividades que reentrem genericamente nos comuns direitos civis de liberdade, e outra muito diferente é que actividades que não representam um significativo e positivo contributo para o desenvolvimento da pessoa e da sociedade possam receber do Estado um reconhecimento legal especifico e qualificado. As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimónio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um recto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efectiva incidência sobre o tecido social.


A referência do (16) é ao Harvard Law Review de 19... não, brincadeira, é a São Tomás de Aquino. Certamente que entre ele e nós não houve nenhum filósofo do direito que contribuiu para a fundamentação do Estado. O que o Vaticano defende aqui é uma forma de discriminação justa, o que certamente os defensores de cotas para negros na universidade podem usar em defesa, mas anuncia-se a união civil entre homossexuais como uma injustiça. Porque? Talvez esteja lá em cima na seção em que a Bíblia diz que é injusta, talvez não, quem sabe nesse ponto? O costume de simplesmente anunciar o que se acredita sem se justificar é tão comum que não é nem inesperado.

O que chateia nos católicos é quando eles violentam assim filósofos da idade média porque, em geral, são os únicos que eles estudam. São Tomás foi certamente uma grande mente que contribuiu muito para as ciências de sua época; desnecessário trazê-lo para um debate sobre uma questão jurídica do século XXI. É como perguntar o que Kant acharia da legalização da maconha ou o que Aristóteles acharia da criação do Estado de Israel.

O argumento à autoridade é um hábito muito nocivo nesse meio, eu só tenho que agradecer que ao menos ele não citou em latim e eu pude compreender.

Por fim, eles anunciam (sem motivos, mas até aí, o momento de motivos foram nos parágrafos passados e eles foram gastos com acusações), que o casamento gay nada tem a ver (nem de modo análogo, é tipo, uau, *nada a ver*) com casamento hetero. E, então, afirma que há razões para achar que tais casamentos são nocivos. QUais razões são essas? Vai saber.

Porque as cópias matrimoniais têm a função de garantir a ordem das gerações e, portanto, são de relevante interesse público, o direito civil confere-lhes um reconhecimento institucional. As uniões homossexuais, invés, não exigem uma específica atenção por parte do ordenamento jurídico, porque não desempenham essa função em ordem ao bem comum.

Não é verdadeira a argumentação, segundo a qual, o reconhecimento legal das uniões homossexuais tornar-se-ia necessário para evitar que os conviventes homossexuais viessem a perder, pelo simples facto de conviverem, o efectivo reconhecimento dos direitos comuns que gozam enquanto pessoas e enquanto cidadãos. Na realidade, eles podem sempre recorrer – como todos os cidadãos e a partir da sua autonomia privada – ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco. Constitui porém uma grave injustiça sacrificar o bem comum e o recto direito de família a pretexto de bens que podem e devem ser garantidos por vias não nocivas à generalidade do corpo social.(17)


O primeiro parágrafo tem talvez o primeiro argumento do texto. Pode ser ruim, eu não sei, mas dá um alívio ver um argumento depois de um texto inteiro sem nenhum. Aí alguém especialista em direito teria que opinar, mas me parece esquisito que toda a função jurídica do casamento seja montar árvore genealógica. Isso é, aliás, um dos temas centrais do julgamento que eu falei a respeito acima e nenhum lado sequer tenta argumentar esse tipo de coisa. Do ponto de vista da lei, parece bem claro que o casamento garante privilégios legais.

Aí o parágrafo seguinte é a versão desse texto para "tenho um amigo gay, até deixo ele usar meu banheiro". Os gays, podem, claro, recorrer à justiça para buscar direitos por viverem juntos. Agora, deixa eu perguntar, não é *exatamente* isso que está em questão aqui?

Quer dizer que os gays podem recorrer ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco como - adoção de filhos, direitos de visitas no hospital, autoridade sobre doação de órgãos, etc. - bom, se eles *podem* recorrer ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco de modo que sejam juridicamente idênticos à casais heteeros, contra o que mesmo o vaticano está argumentando? Que o processo seja simplificado? Não pode nem ser contra o título "casamento", porque o texto fala o tempo todo em uniões homossexuais.

Um parágrafo eles reservam para dizerem "somos tolerantes" e basta pro texto inteiro cair. Ah, vamor rir da nota 17. Dois homens podem mentir que são casados só para conseguirem certos direitos específicos.

Claro, isso é um problema porque mentira é monopólio dos gays. Isso também é um problema porque esses exatos dois seres humanos nessa exata mesma situação não "podem sempre recorrer – como todos os cidadãos e a partir da sua autonomia privada – ao direito comum para tutelar situações jurídicas de interesse recíproco".

De novo, se um casal gay pode ter os mesmos direitos dos heteros, seja por uma lei grande, seja processando todo mundo até consguir direito por direito, então o debate acabou. O problema é que negar aos gays a união civil os impede de ter tais direitos que são exclusivos de pessoas casadas. Digo, céus, se fosse possível conseguir tais direitos de outra forma, muitos heteros não se casariam. Se fosse questão de ir em um advogado fazer um contrato de quem fica com os bens; porque mesmo os ateus se casam? Argh.

O resto são diretrizes para políticos que esperam ganhar o voto católico (se os católicos em geral não fosse mais de esquerda do que a Igreja gostaria) e, enfim, a conclusão que afirma sem justificar coisas bestas de novo.
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Agora, isso é o que eu acho interessante.
Em algum lugar deve existir um livro enorme justificando cada acusação dessa, uma por uma, em detalhes, com fontes, pesquisas, etc.

Mas não é esse texto, não é o texto que o Cardeal ofereceu, não é o testemunho dos que defendem a proposição 8.

Em algum lugar deve existir bons argumentos contra casamento gay ou, sei lá, eu gosto de acreditar que se a sociedade debate algo, então algo nesse debate é legítimo; faz parte de minha maneira boba de ver as coisas. Não é possível que um lado esteja defendendo algo de modo tão apaixonado sem ter nenhuma justificativa!

Mas, enfim, não estão nesses textos, nem nessas pessoas. E estamos falando de gente que se diz especialista o suficiente na questão para enfrentar juíz e juri. Estamos falando de uma instituição que há mais de 1000 anos é uma das guardiãs da razão. Se a Igreja Católica se dispõe e lançar um documento e ele é esse monte de acusações e afirmações vazias, então de onde eu vou esperar bons argumentos contra o casamento gay?

Talvez eu esteja errado. Talvez a sociedade discuta mesmo o que não há para se discutir.

Bem triste isso.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

O Velho Seu Vitório

Vitório esforçava-se para andar nas ruas. A vista já era fraca e as lágrimas o forçavam a andar como que tateando no escuro. Recusava-se a parar ao mesmo tempo que seu corpo combatia o progresso, as pernas tremiam a cada passo.
Faltava um quarteirão pra chegar em casa. Lá teria a garrafa de pinga para sua dose diária, teria suas árvorezinhas, teria um pão e teria sua cama; já no almoço... no almoço teria que pensar. Desaba. Está irritado demais para pensar no significado da própria morte. Quer dormir. Fecha os olhos. Quer apenas dormir.
...
Acorda com um susto. Alguém o chacoalha. Maldição! Dormiu no meio da rua! Que vergonha! Que indignidade! Trabalhou tanto na vida para se tornar um vagabundo de sarjeta. Um homem o encara. É um homenzarrão, mas a primeira coisa que Vitório nota é o terno. Há uma pequena falha na costura do botão da manga que o chacoalha. Ninguém notaria, mas ele nota, pois lembra que poderia, perfeitamente, ter gasto alguns minutos consertando a falha, mas estava rabugento demais para isso, ninguém percebe essas coisas, ainda mais esses moleques. Só então que lembrou do cliente. Era só o que faltava. De todos os clientes que teve, esse era o mais digno! Sempre foi educado, sempre pagou direito, era exigente, mas justo. Vitório agora notava duas coisas: a primeira era que tal homem, que nunca o fez nenhum tipo de mal, teve que sofrer com um botão imperfeito graças à sua rabugentice. A segunda era que provavelmente achava que seu alfaiate era um vagabundo sujo e bêbado que não consegue se aguentar às 10 da manhã! O que poderia ser pior? Passara a vida sóbrio e profissional. Uma pinga no começo do dia, uma no almoço e outra na janta. Apenas. Não tomava cerveja, nem whisky, nem ia para os bares fazer farra. Gostava de sua pinga, mas não era um desses bêbados que dão vergonha! Mas agora, pobre Vitório, o que pensariam dele?

Mas o homem não parecia sentir nojo. Havia uma bondade em seus olhos. Não sentia nenhum tipo de pena ou compaixão. Não olhava para Vitório como um bêbado ou um velho despedaçado na rua, mas emanava camaradagem. Com um sorriso largo e mostrando os dentes levanta o velho da rua. "Tem que tomar mais cuidado, seu Vitório! Consegue andar?" Que homem! Vitório agradece e continua a andar. Mas logo ele vem atrás! Vitório se irrita! Consegue andar sozinho! Agradece novamente a ajuda, mas diz que está bem. O homem concorda, não era essa sua intenção. Precisa de um novo terno, estava indo para sua casa de qualquer modo quando o viu jogado no chão. O velho solta um grunhido rabugento, mas seu coração logo dá algum traço de vida, o que é, de todo modo, uma imensa surpresa!

Chegam na casa, o homem com seu sorriso largo busca a dona Lurdes. Não a encontra na cozinha, como de costume e quando ele volta, Vitório quase se dá um tapa na testa. Lurdes faleceu. Está voltando de seu funeral agora. Portanto não haverá almoço. "Foi uma boa mulher, seu Vitório. Teve sorte de tê-la enquanto a teve!" Sim, ele teve. Lurdes era uma reclamona cujo principal passatempo era antagonizar noras e roubar seu dinheiro para entregar praquela igreja que ela ia. mas Deus livre o seu Vitório se um único dia ela não se dedicou de corpo e alma a dar a ele um grande almoço com arroz e feijão fresquinhos. Todo santo dia ela ia ao açougue ter certeza que o bife estava certo. E sempre estava.

Bem, Vitório logo voltou à sala com as medidas anotadas. Perguntou se queria tirá-las de novo ou se aquelas serviam. "De forma alguma!" respondeu o homem "tire as medidas!". Vitório grunhiu, mas ele tinha razão. Certo é certo e se deve fazer o trabalho direito. Foram para um pequeno quarto nos fundos e se pôs a trabalhar. aquele era um homem de verdade. Grande peitoral, as pernas como troncos de árvores e os braços bem que poderiam meter medo em um urso! Mas não era como esses moleques vagabundos que passam o dia todo em acadêmia com dinheiro do papai. Dava pra ver que era um homem trabalhador. Tinha jeito de empresário, mas daqueles que iam colocar a mão na massa. Que não ficavam só assistindo não, ele tinha dinheiro para todos esses ternos porque trabalhava de verdade. Assim como devia ser.

Invejava o homem. Um dia já foi que nem ele. Mas agora está fraco. Precisa se sentar. O homem se aproxima:

- Sem forças, Seu Vitório?
- Só preciso tomar um folêgo.
- Não se preocupe, pode descansar.

O impulso é de recusar, mas a autorização veio como uma poção embriagante, logo os olhos se fechavam:

- Você é um bom amigo. - Disse com os olhos já fechados.
- Eu sou o amigo de todos os homens. - Disse enquanto tirava a gravata do pescoço.

Aproximou-se por trás do velho domindo e deu-lhe um beijo no topo da cabeça:

- Fez bem, seu Vitório, teve uma vida digna e trabalhadora, respeitou sua mulher, criou bem seus filhos, jamais aceitou Jesus em seu coração.

Enrolou a gravata em sua garganta:

- Já sofreu demais em sua vida, peço-lhe que suporte apenas uma última falta de ar. Quando acordar, estará no meu jardim, sob minha proteção e tratará de vestir os dignos condenados pela eternidade. Esteja avisado que não tolerarei botões mal costurados.

Aperta a gravata e o velho acorda com um susto. A vida se vai antes que a compreensão venha. Sofreu menos que um bebê ao nascer.

O diabo recoloca a gravata no pescoço e caminha para fora. Em seu reino os homens estão protegidos do amor de Deus. Lá vivem e trabalham sem precisar dar satisfações aos sentimentos de um adolescente que crê que o mundo surge com sua própria existência.

O diabo não ama os homens, mas é um companheiro em suas misérias.