quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz Ano Novo

É impossível disassociar o mundo de seus significados. Perceber é perceber conceitualmente.
Isso não significa, claro, perceber em linguagem. Um cão não tem uma palavra para maçã, mas ele confere à ela um série de significados. É uma e não duas; é para comer e não para fugir; etc.
O que a linguagem permite é que um conceito seja fixo e transmitido, mas antes de existir a linguagem, é preciso já que uma sensação tenha gerado uma representação não apenas empiricamente (sua forma, sua cor, etc), mas também conceitualmente.
Se formos imaginar um primeiro homem, ao ver qualquer coisa, ele apreendia não apenas o que os seus sentidos forneciam, mas ele também fornecia à sua representação a qualidade de "desconhecido", "a ser investigado", "a ser temido", "a ser nomeado", etc.
Alguns desses significados são instintivos, outros são deliberados, outros ainda ensinados, geralmente alguma mistura dos três.
Cada objeto é uma história inteira de infinitos significados. Diferentes pontos de vista não se anulam, no máximo, um modifica o outro. Se o mundo está fixo no céu e de repente o percebemos como móvel, o primeiro significado não está destruído.
Enquanto esse conhecimento for passado, o mundo será sempre aquele que um dia foi fixo.

O mundo é aquele que um dia foi fixo e o ano é aquilo que um dia foi o movimento do sol.
Hoje o sol está relativamente fixo e o ano é o movimento em torno do sol.

E por mais que alguém queira se convencer de que o ano nada mais é que um movimento de translação, tal pessoa, ao dizer "o ano é apenas..." não consegue destruir isso: "O Ano".

E por mais calendário que invoquemos, jamais destruiremos que hoje é o último dia de 2009.

Eu queria pensar em um significado mais digno para 2009, mas 2009 foi, para mim, o ano da cerejeira. O ano de Sakura.

Eu comecei o ano caído e me levantei, eu lutei e fui derrotado de novo, agora começo mais um ano caído e eu choro e eu estou cansado, eu quero morrer, mas eu vou lutar mais uma vez. Eu tenho medo, mas eu não tenho escolha.

É engraçado falar de Street Fighter porque, afinal, esse foi o ano que eu me formei, mas também foi o ano que eu não consegui entrar em mestrado. As derrotas são muito mais dolorosas do que as vitórias são prazerosas.

Quando eu venço, eu sei o que eu fiz, eu sei onde o outro errou, o que deu certo não deu a toa, deu porque eu treinei um monte. Dar certo só é uma surpresa para quem está fora ou pra quem ganha algum tipo de sorteio aleatório; quando você passa tanto tempo na sala de treino repetindo o mesmo combo de novo e de novo, que ele saia de modo perfeito na hora que tem que sair não é nada de especial, é só aquilo mesmo.
Perder, por outro lado, tem um significado tão distinto. Ninguém planeja a derrota então aquela mística do sucesso aleatório está em cada uma de suas derrotas. Uma derrota sempre soa como uma espécie de azar porque significa sempre que acontece algo que você não esperava. Existe um limite do quanto estamos preparados para levar um soco. Nós sabemos que pode acontecer, claro, mas de resto, corre-se o risco até de gerar um paradoxo.
Se você sabe que vai levar um soco, você não se põe na posição de levar um soco, logo, você não leva o soco e logo você não sabe que vai levar o soco.

E entre a má decisão e a punição sempre existe um tempo. Quando você sabe que vai levar o soco, você já cometeu a má decisão faz tempo. Quando foi isso? Qual foi ela? Foi consequência de outra decisão que não teve nenhum impacto negativo? Quando paramos arbitrariamente a linha do tempo e dizemos "aqui eu poderia ter feito diferente?"

Nesse sentido, um ano é pouco. O que deu errado em 2009 eu consigo traçar à minha primeira memória e traçaria até a mais se não fosse essa limitação.

Então a cada ano nós traçamos uma linha na areia.
Nós sabemos que do ponto de vista da galáxia um ano é irrelevante, nós sabemos que a mesma desonestidade humana, que as mesmas condições climáticas, que as mesmas guerras, que os mesmos problemas ainda estão aí, mas isso não importa. Quando em uma guerra, existe um ponto que você decide que esse território foi conquistado e esse ainda não. Não poderíamos ser um pouco mais gentis com nossos soldados e dizer "ok, aumentemos o território em 10 centímetros?". Claro. Mas de 10 centímetros em 10 centímetros perdemos noção do quanto avançamos.

A imprecisão de nosso calendário é irrelevante, as maluquices do clima são irrelevantes, a translação é só um marcador. É quando dizemos "Esse território foi conquistado. Com ele, suas riquezas e suas misérias".

Alguém dirá que o dia amanhã será igual ontem foi para hoje e por mais que esse ponto de vista seja verdadeiro ele não mudará o fato que o ano que vem não será mais o ano da Sakura.

É claro, ela ainda vai estar aí, eu ainda vou estar aí, ambos estaremos lutando com essa tristeza esperançosa daqueles que são mais fracos e que admiram os gigantes. E ambos caíremos muitas vezes e será doloroso e não esqueceremos. E ambos venceremos muitas vezes e será prazeroso, mas só mais um dia de trabalho.

Mas esse é o ano que teve esse significado. Foi o ano que eu lutei, que eu perdi, que eu fui fraco, que eu admirei gigantes.
Esse ano pra mim significa derrota e eu não o culpo por isso, amanhã um novo começa e qualquer derrota que aconteça de amanhã em diante, não será mais uma derrota de 2009. Hoje é o dia de dizer a nós mesmos que sobrevivemos aos nossos erros e que ganhamos tempo para cometer novos, como disse um grande sobrevivente.

Os erros de amanhã, claro, serão consequências de decisões feitas hoje ou ontem ou em 2004 ou em 1992, mas eles não pertencem ao ano que foram cometidos, mas ao ano que sentimos suas consequências. 2009 foi o ano da derrota não só pelo que eu cometi de errado em 2009, mas porque nunca antes eu senti tanto arrependimento por minha vida inteira. Nunca antes eu senti tanta vergonha de ser quem eu sou. Nunca antes eu questionei tanto meu caminho. E do questionamento surgiu que eu não tenho escolha senão continuar. Alguém vai dizer que isso é uma vitória e eu odeio essa pessoa; desejo a ela todo meu sofrimento multiplicado por mil. Será uma vitória quando eu vencer. Por enquanto eu não estou feliz com minha vida e não pretendo estar.
2009 é um ano sobrevivido, é um território conquistado. Suas misérias são misérias conquistadas. Não há mais doente crueldade do que retirar de mim minhas cicatrizes. A vitória traz a glória, mas não a dignidade específica da dor.

Amanhã será como hoje.
A mesma vida ruim.
Mas o sofrimento de amanhã pertence a um novo significado.
Hoje eu durmo em sofrimento, amanhã acordarei em sofrimento.
E aos poucos, o mundo terá ares de manhã, mesmo que mantenha o cheiro de pólvora da guerra travada à noite.
E isso muda as coisas.
Um ano é uma linha na areia. É uma demarcação. É um significado.
Mas é impossível disassociar o mundo de seus significados.
E uma vez que representamos o amanhã como sendo algo de novo é impossível que o espírito que representa também não se renove de certo modo.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

A revolução verde no Irã



Não, eu não sou o mais indicado pra falar sobre isso; eu pego os fatos e os dados de modo desorganizado como eles vão chegando à blogosfera norte-americana.
No mainstream, tanto daqui como de lá, há um silêncio assustador. Um país importante como o Irã, centro das atenções nas eleições norte-americanas e cujo presidente visitou o Brasil há pouco tempo, está em algo como uma pré-guerra civil.
No Brasil, até onde eu sei, até a blogosfera tem falado pouco. Talvez seja um despreparo geral, mas despreparo jamais impediu um blogueiro de blogar; o que me assusta nesse caso é que os revolucionários no Irã não estão exatamente de nenhum lado do nosso espectro político. Eu vi comentários, por exemplo, que se eles entrarem no poder, então uma das medidas populistas que farão para manter a paz é acelerar o programa de armas nucleares.

É o problema da nossa época que trata disputas políticas como jogo de futebol.

Se eles fossem pró-norte-americanos, pró-cristianismo, então a direita faria da missão de vida deles fazer com que cada homem, mulher e criança nesse lado do hemisfério decorasse cada cantiga de protesto e cada nome de cada um assassinado pelo regime.

Se eles não estivessem lutando contra um regime que foi apoiado por intelectuais de esquerda, se não fossem tão abertamente classe média e pró-capitalismo, se Ahmedinejad não fosse queridinho de Lula e Hugo Chávez, então a esquerda estaria nessa torcida também.

Como não dá pra encaixar os verdes em nenhum lado específico, os comentadores se calam.

Eu vejo da seguinte forma: são homens e mulheres se revoltando contra um regime assassino em prol da democracia.
Toda a revolução se iniciou, de fato, quando perceberam que uma eleição foi roubada. Foi uma brecha da democracia que simbolizou a última gota.
O povo do Irã não quer mais viver nessa situação. E eles estão morrendo nas ruas pela convicção de que a morte é preferível à tirânia.

Isso é suficiente para que eu os apóie. Seja o que eles façam após a revolução, eles deverão ser julgados por isso; se tornarem-se ditadores maiores do que o atual governo (o que geralmente acontece em revoluções), se tornarem-se menos globalizados ainda (difícil dado que os revolucionários são bem burgueses no geral), se caminharem em direção a bomba atômica, etc; tudo isso teremos que lidar quando as situações se apresentarem.
No momento, eu tenho a máxima de aplaudir sempre que um povo se levanta de modo tão corajoso contra a tirânia; eu apoiaria, por exemplo, a revolução Russa enquanto ele ocorria e seria logo crítico de suas consequências.
Pessoal sabe como eu desgosto de Hugo Chávez, mas eu apóio o modo como ele voltou ao poder depois de ter sido tirado à força.

No momento a minha aliança é com a democracia. Se o governo democrático é de esquerda ou de direita, pouco importa. Se os verdes, após a revolução, foram democráticos e tomarem decisões que me desagradam, eu estarei muito feliz por aquele país. Assim como o meu governo democrático toma muitas decisões que me desagradam e ainda assim eu estou muito feliz pelo nosso Brasil e não o trocaria por nenhuma tirânia que concordasse comigo (há, claro, quem declara "tirânica" qualquer legislação que discorda. Gritar "fascismo" de modo paranóico dessa forma é um desserviço, pois nos anestesia e nos impede de perceber o fascismo quando ele chega de fato)

Os iranianos estão sendo assassinados na rua, lutando em nome da democracia. Essa luta é nossa. Não cabe a nós oferecer apoio se não há um pedido explícito (houve no Vietnã, por exemplo), mas se tudo que podemos fazer é assistir, então há um certo dever em admirar a história quando um grande evento se apresenta.