sábado, agosto 13, 2011

A falta

O que a nossa geração ou nosso país tem a oferecer? Ou ainda, o que já oferece, o que já faz? Em algum momento crítica virou só falar mal: olha essa gente profunda e sábia dizendo que essa molecada não presta, olha esses críticos sociais guardiões da realidade de verdade dizendo que o país não presta.
Se existe um argumento pró-pessimismo é o quanto o equivalem à verdade.
Tenho pensado muito no Brasil, nas coisas que temos de bom, em como eu não tenho mais vontade de sair daqui. E eu gosto da minha geração, eu costumo é ter uma raivinha de algo irracional com as gerações passadas, acho que comparado ao quanto todo mundo errou até aqui, nós estamos segurando as pontas até que bem, fazendo nossa parte, tentando fazer o mundo mais habitável com pequenos atos aqui e lá enquanto os conservadores, esses eternos velhos, nos odeiam porque agora aparentemente é algo cristão odiar quem é bom ou sei lá. Acho que pra uma época que troca promessas de revolução sangrenta por promessas de reciclar todo o plástico, os conservadores deveriam beijar nossos pés pela nossa imensa sabedoria.
Mas os ingratos fazem parte do mundo, fazer o que?
Eu já falei disso algumas vezes no blog, mas é que com todo esse meu lance de pessimismo cosmológico (o mundo existe de tal modo que tende ao sofrimento), esse pessimismo meramente cínico é só rabugentice e eu manjo de rabugentice, pode perguntar o quanto eu fico grunf grunf por aí.
Por um lado é meio que falta de um inimigo de verdade, da mesma forma que a esquerda pamonha sente falta de lutar contra a ditadura, a direita pamonha sente falta de lutar contra o comunismo. É um mundo chato, deal with it.
Por enquanto, críticas interessantes deixam de ser feitas por todos os lados e coisas como o que aconteceu em Londres pega de surpresa os nossos gloriosos pensadores. Você dedica sua vida a falar mal de uma juventude tentando substituir Deus por shenanigans e enquanto está puto da vida com essa gente que gosta de reciclar e evitar piadas racistas, perde o ponto mais óbvio diante dos seus olhos: a massa de jovens que são efetivamente niilistas adquirindo cada vez mais poder. Sim, perde de vista o seu sobrinho ou seu filho e ao invés disso se concentra na classe média-alta paulistana.
Existe algo que falta no mundo, é verdade; Deus é, pra não perder o hábito, a resposta mais preguiçosa (algum tipo de marxismo mal formulado é a segunda mais preguiçosa, geralmente vem logo atrás, toda feliz), mas existe uma falta de normatividade, pro bem ou pro mal (pro bem: menos pessoas honestas e "de bem" são vistas como anormais; pro mal: qualquer pirralho burro de 12 anos acha que consegue desenvolver a própria moral e ainda pode ter o azar de ele conseguir algum poder sobre outras pessoas), essa não é nenhuma crítica nova, a sociedade entrou em um tipo de piloto automático em que as instituições funcionam à parte delas. É irônico porque é um projeto bem sucedido da democracia: instituições mais fortes do que a mesquinharia de um indivíduo de tal modo que a humanidade deu um jeito de produzir mesquinharia tão sistematicamente que sequer precisa do rei mais.
Perdemos a translação porque o sol não é mais o centro, mas a rotação existe firme e forte porque onde quer que você vá, seu umbigo está sempre no meio. Se fanatismos e extremismos são sinais de niilismo, pois no vazio, coisinhas tornam-se imensamente importantes, então estabilidade é também, pois uma época niilista funciona sem problema desde que os mecanismos estejam postos. E os nossos estão bem fixadinhos no chão.
Ao mesmo tempo, é esse ambiente mole e morno que permite que coisas boas aconteçam aos poucos, sem afobação e derramamento de sangue. É uma época boa pra filosofia, sim, a filosofia se dá bem na conformidade. Muita crise e logo os filósofos são convocados para auxiliar o poder, aí danou-se. Pouca crise e podemos estudar o mundo desse modo que as pessoas gostam de dizer que é inútil (quando você precisa que os filósofos sejam úteis é porque todo o resto falhou).
E os jovens niilistas e a revolta em Londres e os terroristas religiosos e a crise econômica? Pois é, com tudo isso e ninguém sente seu estilo de vida seriamente ameaçado, um mundo estável, eu diria.
Dá até pra fazer metafísica.

Adendo já que eu estou revisando esse post, pois minha namorada se re-cu-sa a colocar um texto cheio de erro de concordância no facebook sagrado dela:
A questão de uma juventude com poder é interessante. Durante sei lá qual momento ganhou força a noção de ter jovens "no poder".
Em primeiro lugar, nós nem sabemos o que é um jovem: alguém com 15 anos? Com 20? Com 25? Com 35? Quando alguém deixa de ser jovem e vira um conservador ranzinza? É daquelas bobices em que "jovem" é ainda mais uma palavra para "pessoas com nosso direcionamento político". Não, ninguém quer um jovem no poder. Se você é de esquerda, quer o poder na esquerda; se é de direita, quer o poder na direita; jovem, velho, burguês, proletário, analfabeto, acadêmico, humilde, arrogante, violento, pacifista, etc e etc só são qualidades na medida em que respeita a primeira condição da concordância com suas opiniões em assuntos de legislação. O que importa é como a máquina do Estado é comandada, o resto é a sempre bem sucedida retórica vazia.
Jovens no poder pra mim é simplesmente isso: gente sem informação o suficiente inventando a própria moral em uma cultura de arrogância sem motivo, i.e., seu papai ou seu professor disse que você é todo especial e pode fazer o que quiser, então você se junta com seus amiguinhos e começa a queimar uns carros ou você aprende a mexer em um computador e começa a com hacker-bullying, seja em empresas que você considera malvadas, seja em meninas que você acha que realmente deveria se mostrar na webcam sem roupa pra você ou você faz coisas mais inofensivas e com menor relevância como se juntar a um partido político que vai te ignorar ou montar uma banda pra passar uma mensagem que tudo bem que será ignorada pelos adolescentes que só estão atrás de romancezinho na balada, pois a mensagem é inócua e boboca pra começo de conversa.
A questão é que vivemos em uma época em que os jovens não estão entrando "no poder", mas eles estão adquirindo poder, seja por falta de medo de coerção paterna ou por estarem entediados em grande número ou pelo anonimato da internet, mas juventude com poder é o que há de maior selvageria e irracionalidade fora de uma guerra de verdade. E não é muito poder, não é nada que abale "o sistema", só é o suficiente pra destruir umas vidas aqui e ali. Não é o poder de mudar nada, mas é o poder de ser escroto impunemente; o que casa direitinho, pois essa tal da juventude, num geral, não deseja muito mais além de ser escrota.