quinta-feira, julho 31, 2008

The Great Gig In The Sky

Ateísmo está cada vez mais se tornando que nem aquela banda que você realmente gosta, mas não usa a camiseta que é pra ninguém na rua te confundir com os fãs imbecis - especialmente os próprios fãs imbecis.
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Nada de especial aconteceu pra eu comentar isso, é só o que passa pela minha cabeça a maioria das vezes que vejo um companheiro de não-crença expressando os males da religião.
Aliás, costumava ser mega-popular o argumento ad hitlerium.
Funcionava assim:
Nazismo = mal
Hitler = nazismo
Seu governante = algo com o hitler, talvez o vegetarianismo, talvez a preferência por cachorros, talvez o bigode
Seu governante = mal

Agora o argumento preferido dos ateus é o argumento ad binladeium:
Terrorismo = mal
Bin Laden = Terrorismo
Bin Laden acredita em Deus = Você acredita em Deus
Você = Mal

E convenientemente esquecem que apesar de religião ser uma parte grande do esquema de grupos como a Al Qaeda, o que as torna terroristas são... bem, os atos terroristas, que são primariamente atos políticos. As fitas que Bin Laden divulgou tem um cunho claramente "anti-imperialista" e nada "anti-cristão"; os EUA são o "grande satã" não porque acreditam que Jesus Cristo morreu na cruz para salvá-los, mas porque invadem países árabes com seus exércitos, são ricos enquanto o resto do mundo é pobre, não assinaram o pacto de kyoto, enfim, acesse a página do PC do B e você vai ter lá um resumo do que o Bin Laden odeia nos EUA, na verdade, os cristãos norte-americanos parecem ter mais ódio dos muçulmanos do que os muçulmanos tem ódio dos cristãos num geral.

No mais, todo o mal da religião parece sempre vir dessa sua simbiose com a política, mas como bom anarquista de fim de semana, eu tendo a ver a política como essa força que transforma toda e qualquer coisa em um mal ao invés de pensar que a religião está arruinando nossa otherwise perfeita democracia.

Acho que não existe uma única causa que eu não defenda que não me faça eu me sentir violado ao ser defendida também por um político, o que me vem a cabeça agora é Hugo Chávez defendendo os direitos dos homossexuais só pra fazer birra com os republicanos que são contra, o que claro, só vai fazer com que eles fiquem ainda mais contra, já que homossexualidade deixa de ser uma orientação sexual e vira um pacote ideológico (sigh, tenho que escrever o post sobre pacotes ideológicos).

É que nem aquelas cenas de filme em que alguém está comendo, outra pessoa diz algo nojento e o sujeito comendo afasta o prato? É assim que eu me sinto quando um político defende algo que eu defendo. Estou lá todo feliz falando do retrocesso que é a homofobia e vem o Hugo Chávez e diz "Ei, Rodrigo! Também sou contra o homofobia!" e digo digo digo, ah, deixa pra lá, já perdi o apetite.

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Aí sobra o ponto final do argumento contra as religiões, a de que elas são um mal moral e falar em mal ou bem moral é sempre um assunto delicado, mas as pessoas criticam a religião e eu *tenho* que perguntar de que buraco elas saíram pra se sentir *atacadas* por serem atéias? Uma coisa é você ser de uma família religiosa e, pra não criar conflitos familiares, não tocar no assunto ou ter que frequentar a igreja nos domingos, outra coisa é fazer parte de uma sociedade que sistematicamente te odeia por ser ateu, mas onde que existe essa tal sociedade no ocidente atual? Se tal lugar existe, de fato merece um chega pra lá, mas desculpa ser excessivamente paulista aqui: ninguém *jamais* me odiou por ser ateu e *jamais* me deu qualquer tipo de problema. O máximo que acontece é algum evangélico dizer "tsc tsc tsc", mas se você acha que "tsc tsc tsc" é opressão, você está pior que os cristãos que dizem que ensinar darwinismo na aula de biologia é opressão.
Talvez seja porque eu (quase) nunca surto dizendo por aí que o cristianismo é um mal e que cristãos devam ser brutalmente fuzilados nas ruas para purificar nossos memes racionais (vai, acontece, mas está se tornando cada vez mais raro desde que eu comecei a ler o que os outros ateus dizem e perceber quão estúpido é esse tipo de atitude), talvez seja porque eu sou de uma cidade de mais de 10.000 habitantes, mas eu não consigo imaginar ninguém por aqui sendo oprimido por não ser religioso, de novo, talvez dentro de casa e acredito que certamente é um problema, mas até aí, você oculta tanta coisa da sua mãe, você finge em tantas coisas diferentes ser um bom filhinho, eu entendo que deva doer demais para um gay fingir que é hetero na família, não poder apresentar quem você ama pra sua família deve ser horrível, mas nem de longe é a mesma coisa esconder seu ateísmo; digo, não é como que você precise praticar seu ateísmo, é contra sua areligião passar uma hora por semana entediado num banquinho de madeira pra fazer a vovó feliz?

Enfim, o assunto é bem mais complicado que isso, religião é uma questão grande ainda hoje, do ponto de vista político, moral e espiritual; como eu disse, é um problemão quando política se mistura com religião no que política tem esse talento de pegar toda e qualquer coisa e distorcer pros interesses particulares do político em questão (e religião é algo bem poderoso pra se pegar quando se faz direito); moralmente, acredito que religião é algo inútil, desatualizado e pode, em dadas circunstânceas, se tornar um problema quando a pessoa não percebe o quanto suas crenças são incompatíveis com o estilo de vida de sua comunidade; por fim, espiritualmente, acredito que a religião também está desatualizada, em parte pela sua falha em explicar o mundo mesmo, de qualquer modo, é preciso fazer um certo esforço para ter fé hoje em dia e fé não deveria ser tão contra-intuitiva, que você passe tanto tempo se esforçando pra ter fé te impede de aproveitar a tranquilidade que ela supostamente te traria, em suma, passar a vida lutando com dúvidas não é lá a vida mais tranquila do mundo e como muitos outros ateus, eu gostaria de ver essa questão já resolvida, de ver a fé religiosa ou desaparecida ou em um âmbito particular demais para fazer diferença nas nossas vidas, que acredito que é o que os religiosos mais ou menos desejam no nosso caso (que religioso não gostaria que todos fossem da mesma religião ou que ao menos, não se opousessem em público?), mas não sendo esse caso, acho estúpido resumir a questão numa batalha entre o bem e o mal onde o os cavaleiros sagrados da luz da razão degladiam bravamente com os demônios do obscurantismo religioso, num geral, os ateus precisariam ler mais nietzsche e, num exame de consciência, perceber que a cada discurso anti-cristão, se tornam mais e mais parecidos com o obscurantismo que combatem.

Lançamentos


quarta-feira, julho 30, 2008

Google

*aiai*
Muita coisa legal num dia só.


Brusque, Santa Catarina arrived from google.com.br on "Sblargh: Primeiros pensamentos sobre "O único e sua propriedade" de Max Stirner" by searching for como o homem se torna único em algumas coisas que faz.
17:07:00 -- 20 minutes ago


Cachoeirinha, Rio Grande do Sul arrived from google.com.br on "Sblargh: Março 2005" by searching for fotos dos homens pelados mais gostosos do mundo inteiro a e pelados ain.
16:14:09 -- 1 hour 13 mins ago

São Paulo, Sao Paulo arrived from google.com.br on "Sblargh: A menina dentro da história em quadrinhos" by searching for quero ouvir historia em quadrinho.


Bariri, Sao Paulo arrived from google.com.br on "Sblargh" by searching for qual xaveco para conseguir transar com uma mulher.
20:32:46 -- 20 hours 55 mins ago


Porto Alegre, Rio Grande do Sul arrived from google.com.br on "Sblargh: HOLY FUCKING OMFG SHITHOLE HOLY HOLY HOLY" by searching for girls fucked pretas.
18:50:49 -- 22 hours 37 mins ago

Sumaré, Sao Paulo arrived from google.com.br on "Sblargh: Porque eu quero criar um site sobre cultura pop" by searching for quero fazer um site.

*sight*

Uma pesquisa da Universidade de Londres sugere que a forma como abelhas procuram por alimentos pode ajudar detetives a caçarem assassinos em série.

Segundo os estudiosos, da mesma forma que as abelhas procuram alimento a certa distância de suas colméias, assassinos evitam cometer crimes perto de suas casas.

A análise dos pesquisadores descreve como as abelhas criam uma "zona de proteção" em volta das colméias, onde elas não buscam alimentos, para reduzir o risco de predadores e parasitas localizarem a colméia.

Os pesquisadores descobriram que este padrão de comportamento é parecido com o perfil geográfico de criminosos perseguindo suas vítimas.

"A maioria dos assassinatos ocorrem perto da casa do assassino, mas não na área que cerca diretamente a casa do criminoso, onde os crimes têm menos probabilidade de serem cometidos devido ao temor de ser flagrado por alguém conhecido", explicou Nigel Raine, que participou da pesquisa.
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O fato de que cometer um crime um pouco longe de casa é racionalmente a melhor maneira de cometer um crime com menos riscos de ser preso não é um dado óbvio o bastante? Precisamos mesmo de um pesquisador traçar paralelos entre humanos e abelhas para descobrir que um sujeito não assaltaria a própria vizinhança?

Acho legal o termo "descobriram", os pesquisadores "descobriram" que criminosos funcionam como abelhas; os pesquisadores chegaram a uma coincidência sem nenhum paralelo lógico entre criminosos e abelhas (pra usar um exemplo clássico, eu posso declarar que foi "descoberto" que quanto menos piratas há nos mares, maior é o aquecimento global, pois do séc. XVIII pra cá, o número de piratas só diminui enquanto a temporatura média do planeta se eleva)?

Há de se perguntar, porque abelhas? Como que o resto dos animais segue essa lógica? Isso é algo em comum a animais num geral ou quando uma mulher grávida é picada por uma abelha, o gene criminoso passa para o bebê?
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"Abelhas têm o cérebro bem mais simples, então, entender como as abelhas são recrutadas para as flores é mais fácil do que entender os pensamentos complexos de um assassino em série", disse Raine.
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Well, duhr... e por fim:
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Mas os cientistas afirmam que a compreensão da polinização também é importante para a alimentação dos humanos.

"Os 'serviços' de polinização das abelhas é responsável por um em cada três bocados de alimentos que consumimos. Elas polinizam uma enorme diversidade de nossas lavouras de frutas e vegetais", afirmou Raine.
=
Então, uma informação útil de verdade, que um terço dos alimentos que consumimos tem a ver com abelhas, uma informação que se for melhor estudada e manipulada pode ajudar na produção de alimentos, a acabar com a fome mundial, etc e etc é um "mas" em relação a um paralelo entre o modo como um sujeito age sistemática contra a lei de uma sociedade e o modo como uma abelha procura alimento?
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Vou te falar, o G1 poderia muito bem mudar a seção de "Ciência e Saúde" deles pra "Fofoquinhas estúpidas sobre a comunidade científica"

Ok ok, para tudo

Eu ia fazer um post sobre vegetarianismo, mas algo muito mais relevante me chamou a atenção:
A Record vai estrear "30 Rock" (talvez a sitcom mais inteligente sendo exibida atualmente) com o nome de "Um Maluco Na TV".
Isso mesmo, 30 rock (titulo tirado do prédio que a tal emissora de TV acontece, o 30 Rockfeller Plaza) foi transformado em "Um Maluco Na TV".
Em primeiro lugar, isso não é só um titulo ruim (titulo de filme do Eddie Murphy), como é errado: uma das grandes coisas de 30 Rock é a excelente Tina Fey, que não só é a personagem principal e não só é uma das roteiristas, mas também é uma das personagens femininas mais interessantes na TV atualmente (ela é praticamente o oposto de Sarah Jessica Parker em Sex and the City; embora as duas sejam "nova yorkinas independentes", Liz Lemon é desleixada, workaholic, nerd, não sabe se comportar em público, enfim, é excelente); custava a série se chamar "Uma Maluca Na TV"? Me faz perguntar quem seria "o maluco"? O personagem de Alec Baldwin? Ele é excelente também, é "maluco", mas come the fuck on, a série é sobre Liz Lemmon! Uma mulher moderna e independente que se afunda tanto no seu trabalho que não consegue aproveitar a modernidade, nem a independência que seu trabalho deveria supostamente trazer.
A Record tem muita sorte que eu jamais assistiria essa série não importa qual o título que eles colocassem porque senão teriam perdido um telespectador nessa.
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Já que estamos falando dessas coisas, recentemente baixei um álbum do "Black Kids" que é supostamente uma banda mega-hypada, cujo álbum passou 2008 inteiro sendo aguardado por todos.
A minha pergunta é quem é esse "todos"?
Só eu tenho a impressão que essa indústria do jornalismo de rock (representado no Brasil pela Bizz e pela Rolling Stones) existe só pra eles próprios? Que as únicas pessoas do universo que dão a minima pro hype são os próprios jornalistas que os criam? Que um álbum pode até vender bastante porque uma revista bem vendida o anuncia como a segunda vinda do led zeppelin, mas mesmo assim, essas pessoas que o compram não dão a mínima pra essa gente? Que são esses profissionais modernos e independentes que *tem* que ficar "por dentro" pra garantir sua posição de "profissional moderno e independente", então acabam comprando os CDs que a NME recomenda e que toda a indústria do rock atualmente gira em torno dessa "industria do cool" para pessoas que sequer conseguem ser cool mais?
Sério, essa gente tem muita sorte que eu não compro essas revistas e que eu baixo CDs ilegalmente, senão estaria todo mundo perdendo consumidor.
Black Kids é uma droga. Não vale sequer a bandwith que você vai gastar fazendo download. E todas as revistas de música do mundo vão elogiar porque todas revistas de música fazem suas reportagens lendo as outras revistas de música e copiando e colando as opiniões.
O único mistério disso tudo é o seguinte: Quem escreve a primeira matéria?
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Acabei de ler num blog chamado "O Biscoito Fino E A Massa" (preguicinha de linkar, googlem) sobre um desses americanos que entram nos lugares atirando nas pessoas, dessa vez foi um sujeito que entrou numa igreja que tem na sua porta o letreiro "welcome gays" atirando com uma shotgun durante uma apresentação infantil, dessas que as criancinhas se vestem toscamente e ficam cantando, no carro do sujeito foi encontrado um documento de 4 páginas acusando o partido democrata de prejudicar a guerra contra o terrorismo, os gays e os "liberals" (esquerdistas não-socialistas do tipo que só existe nos EUA) de arruinarem a nação, essas coisas e o que poderia se tornar uma interessante discussão sobre esse tipo de sujeito e seu lugar em um mundo que cada vez mais abraça Barack Obama como um super-herói está se tornando uma patética discussão sobre "os males da religião", o próprio idelber faz algo do tipo, o titulo do post dele é "religião e insanidade" e ele descreve o crime como "americano como torta de maçã", restando a pergunta: ser americano é uma religião? Isso na verdade tem a ver com meu post sobre vegetarianismo, mais tarde escrevo a respeito.
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Por enquanto, beijocas e lembrem-se: NÃO ASSISTAM "UM MALUCO NA TV", POIS O TÍTULO É SEXISTA E OFENSIVO!

segunda-feira, julho 28, 2008

Descartes e problemas linguisticos e lógicos

http://edsongil.wordpress.com/2008/07/28/o-argumento-do-cogito-segundo-ayer/

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Ok, só dois comentários rápidos sobre dois tecos do texto.
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"A razão disso é que o “sum” segue do “cogito” dependendo de regras que governam o usuário do “cogito” e “sum“, e é sempre aberto à dúvida o fato de alguém estar aplicando tais regras corretamente. Ayer considera esta dúvida fútil, e dispensável através de um ato de resolução segundo o qual não afirmaríamos sob hipótese alguma o “cogito” se não estivéssemos preparados para afirmar o “sum”. Mesmo assim, que eu assinto a tal resolução é um fato empírico, não necessário. Desta maneira, se todas as proposições empíricas forem consideradas dubitáveis, esta dúvida também não poderá ser resolvida. Se nada for contar como estando certo da verdade de qualquer proposição, então é necessariamente verdadeiro, neste sentido, que nenhuma proposição é certa. O gênio maligno, que Descartes evoca na Meditação Primeira como a forma suprema de dúvida, triunfa por definição, segundo a argumentação de Ayer. Por conseguinte, não há razão pela qual se importar com o mesmo."

Isso é exemplo da linguistic turn em esteróides, a sensação de que eu existo é claramente anterior ao fato de eu podê-la expressá-la em linguagem e mesmo que eu não possa expressá-la, ela é indubtável, o problema aqui parece anacronismo mais que qualquer coisa e falta de respeito pela ordem de argumentação do autor do que qualquer coisa.
Primeiro, Descartes não estava nesse debate "empirismo vs racionalismo" por incrível que pareça (pois ele é o modelo do racionalista), como de certa forma foi ele que inaugurou o debate, não se pode exigir dele uma afirmação do tipo "todas as proposições empíricas são consideradas dubitáveis", o que é considerado dubitável é o que vem dos sentidos externos, resta a questão se o "sentido interno" (a sensação empírica dos meus pensamentos) é considerado duvidoso para descartes e todo o sentido do argumento do cogito é que não, que desse "sentido interno" não é possível duvidar, duvido da validade dele, se o que eu penso corresponde a uma realidade externa é duvidoso, mas sua existência é indubtável, isso é algo *anterior* a proposição lógica, dessa forma, Ayer está certo em considerar fútil a dúvida a respeito da lógica do "cogito ergo sum", "penso logo existo" não é verdadeiro por sua forma lógica, a validade lógica está no argumento anterior (daí a necessidade de respeitar a ordem de argumentação do autor) e o argumento anterior é "se há algo que duvida, então há algo", o que é lógico, daí vamos pra conclusão do texto.
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"Ayer finaliza sua crítica chamando a nossa atenção para o fato de que o que é necessariamente verdadeiro é que ‘eu estou tendo a experiência que estou tendo’, mas que disso não se segue nem que é necessário que há tal experiência, nem que qualquer descrição que possa enunciar da mesma seja correta, nem mesmo que esta é a experiência de qualquer pessoa, se ser a experiência de alguma pessoa for entendido como implicando que esta é relacionada a qualquer coisa além de si mesma. Em suma, para Ayer as únicas coisas certas além de qualquer dúvida são proposições que possuem seu valor de verdade em virtude de sua forma (e.g. “homens solteiros não são casados”), ou seja, sentenças analíticas[3]; e aceitando tal acepção não é possível conferir ao argumento do “cogito” o papel que Descartes atribui ao mesmo: o de engendrar uma primeira certeza."

O problema aqui é mania de pegar Descartes pela segunda meditação e esquecer o resto.
De novo, a primeira certeza não é "penso, logo existo"; a primeira certeza é "duvido, logo há uma coisa que duvida", como duvido em pensamento, essa coisa é "uma coisa que pensa" e é isso. O que "existe" é "uma coisa que pensa" e isso é induvidável.
A problemática aqui não é se a coisa que pensa é uma pessoa ou não, esse é o tipo de coisa que só vai ter sua certeza afirmada depois que Descartes conclui a existência de um deus perfeito; a pergunta é se essa coisa sou eu.
Então, o principal problema desse trecho específico da segunda meditação é se a coisa que tem pensamentos duvidosos sou eu, mas é justamente isso que ele dá como dado, já que a certeza, pra ele é ‘eu estou tendo a experiência que estou tendo’, minha dúvida é se isso é logicamente necessário, embora seja intuitivamente inegável, como você formula uma frase a respeito do seu próprio pensamento sem usar a primeira pessoa? Como você diz "eu não existo"? Logicamente, me parece que é possível afirmar que outra pessoa pensa no meu espírito, desde que seja uma lógica pré-linguagem, mas aí eu fodo toda a lógica (já que por definição, um sistema lógico precisa de uma semântica... ou assim dizem), então deixa isso pra lá.
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O importante é que Descartes jamais usa "cogito ergo sum" por si só para afirmar algo além de "eu existo", sendo que "eu" é "uma coisa que pensa" e *nada* além disso. Pode ser até uma coisa que toda vez que pensa 2 + 2 = 4 erra na conta porque um gênio maligno manipula os pensamentos, mas mesmo uma coisa manipulada por pensamentos alheios ainda pode ser dita "eu" e ainda pode ser dita "existente" e isso É uma certeza e se isso É uma certeza, não sei do que porra que Ayers reclama.
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Qualquer proposição que o Ayers finge que o Descartes retira disso, a de que "eu sou uma pessoa" e "eu penso corretamente" e etc; passa primeiro pelo fato de que um criador perfeito garante que o universo funcione perfeitamente de modo que 2 + 2 seja 4, de modo que quando eu me vejo no espelho com um corpo humano isso seja real, etc.
Enfim, Cogito Ergo Sum permanece a primeira certeza de Descartes e o próprio jamais tenta retirar nada dela além do fato de que "a existência existe", após o argumento do cogito, descartes argumenta em favor de um deus criador perfeito e essa é a segunda certeza dele e dessas duas ele retira a certeza de que toda matéria é extensa e dessas três ele retira proposições empíricas.
Sem esse movimento, Descartes não teria um sistema filosófico, quem pula da certeza 1 pra certeza 5 é o crítico e não o autor.

Prefeitura de Santo André - bah

Eleições se aproximando, decidi fazer meu dever civico e procurar saber quem são os candidatos a prefeitura de Sando André, quais suas propostas de governo, essas coisas.
Eu não esperava nada além de bla bla bla de político, mas eis minha surpresa: eu sequer encontrei bla bla bla de político.
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O ÚNICO candidato que tem uma página oficial ativa (ou fácil de encontrar, porque o google me falhou em encontrar a página de todos os outros) é Vanderlei Siraque do PT.
A página de Siraque é um pouco melhor que eu pensava, existe o bla bla bla de político sem nenhuma proposta concreta e crível, mas além disso, existem links pra congressos realizados sobre os assuntos, existe a visão de que ele ao menos pensa sobre esse e aquele assunto (não é necessário um candidato a prefeitura de Santo André dizer que se preocupa com discriminação sexual, já que o povo dessa cidade não dá a minima pra isso, mas ele foi e se posicionou, é bom), enfim, é um site de candidato.
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Quanto à Aidan Ravin, a internet não me ofereceu nenhuma informação sobre ele além de que ele é médico, candidato à prefeitura de Santo André e do PTB, que é um desses partidos de centro-esquerda que significa "em cima do muro em todas as questões".
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Quanto à Raimundo Salles, a internet não me ofereceu nenhuma informação sobre além de que ele é secretário de comunicação de São Bernardo e usa funcionários públicos da prefeitura de São Bernardo pra ajudar na sua campanha pela prefeitura de Santo André - poderia ao menos ter enlistado um webdesigner nessa trambicagem, já que, além do fato de que ele é trambiqueiro, eu só sei que ele é do DEM, que é um partido que muito me interessa (sim, eu sei, é o PFL), mas exatamente por causa disso, eu fiquei chateado de não ter encontrado informações a respeito - Santo André tem um claro problema de impostos altos e desperdicios da prefeitura em baboseiras "culturais" que o povo passando fome não dá a minima, se algum partido pode dar um jeito nisso é o DEM, mas ele irá? Não sei. O candidato não mexeu um dedo pra que eu saiba, tudo que eu sei dele é que ele usa dinheiro público da cidade vizinha pra financiar a campanha e dado que até hoje eu nem sabia de sua existência, usa muito mal.
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Por fim, o ex-prefeito Newton Brandão do PSDB costumava ter um site, mas não existe mais, então eu continuo sem saber nada dele além do fato que ele é um ex-prefeito e que o povo de Santo André não gosta dele, possivelmente porque ele é daquele tipo de prefeito stealth, do tipo que você lê o diario do ABC todo dia e nem fica sabendo dele, porque pro bem ou pro mal, ele não faz nada, é aquele tipo de prefeito de cidadezinha que existe só pra falar que a cidadezinha tem um prefeito.
Só que por mais que o ABC não sejá lá tudo aquilo, Santo André ainda é um polo industrial e comercial, é uma cidade grande (em extensão e população) e tem problemas de cidade grande e não dá mesmo pra confiar nesse tipo de prefeito que não faz nada.
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Então é isso, eu nunca gostei do PT, como eu meio que deixei claro no post, eu sou um cara mais voltado ao DEM, mas infelizmente, eu vou ter que votar no PT nessa eleição porque é o único candidato que eu conheço, acho que ele vai vencer de qualquer forma, mas pela reportagem da UOL, existem 13% de votos nulos e 17¨% de indecisos, sendo que Siraque tem 37% das intenções de voto, esses 17% de indecisos podem facilmente dar o segundo turno pra qualquer candidato, mas que candidato? Quem são essas pessoas além de um nome e uma sigla? Eu fiz essa pesquisa com a intenção de dar uma olhada nos planos de governo e, baseado neles, fazer perguntas pras assessorias dos candidatos, perguntar coisas mais específicas e concretas e descobrir o que há de plano real em meio ao bla bla bla de político, mas de novo, eu sequer tenho o bla bla bla de político, tudo que fazem aqui em Santo André é "showmicio", o candidato contrata algum cantor de música sertaneja, põe um carro de som num lugar da cidade, berra clichés, faz o show, move pra outro bairro; eu não esperava um estudo complexo e profundo dos problemas da cidade, mas eu esperava *alguma coisa*, *qualquer coisa*, 3 linhas de "eu prometo que..." e nem isso eu encontrei!
Não procurei direito? Eu já deveria saber de algum modo misterioso? Eu sei lá, não existe tanta gente assim com internet a ponto dos candidatos investir *pesado* nisso, mas você vai me dizer que o tipo de bilionario que se candidata a esses cargos não pode contrar um webdesigner pra copiar e colar o panfleto dele? Isso é má vontade.
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PS: Hehe, só pra não ser injusto, eu decidi googlar o candidato do PSOL Ricardo Álvares, as duas primeiras ocorrências são de um sujeito que morreu, a terceira é de alguém que faz manutenção de aeronaves em brasília, aparentemente ele tem um blog, mas sei lá se é o mesmo Ricardo Álvares, já que o blog é sobre política, mas não diz nada sobre o candidato do PSOL, enfim, o sujeito é um fantasma.
O que eu vou fazer agora é entrar nas páginas oficiais dos partidos e tentar, lá por dentro, saber mais dos candidatos, mas não tenho muita esperança.

sábado, julho 26, 2008

Bah, não consigo gostar de Beatles... com a possível exceção de Eleanor Rigby.
Porque há uma pergunta sincera lá. De onde vêm todos os solitários?
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Falando em música, o terrível e horroroso e herético e sem sal, sem gosto, sem criatividade e sem respeito trailer do Watchmen, que está para se tornar a pior adaptação dos quadrinhos para o cinema já feita - pior que A Liga Extraordinária - trapaceou a usar uma música excelente.
Acho que a única vez que vi trilha sonora tão boa em trailer foi no trailer do Sin City, mas olha a diferença, no caso do trailer do Sin City música e trailer se encaixavam perfeitamente, já The End Is The Beginning Is The End (ou algo suficientemente similar) se encaixaria em qualquer trailer.
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Enfim. Comparem.


Percebam como o trailer introduz os personagens, as histórias, como é sexy, bem editado, inteligente, começa silencioso e vai usando a música pra construir o hype enquanto o dialogo que direciona o interesse e como a depois "sometimes it means killing a whole lotta people" a música explode na perseguição de carro e os atores vão sendo introduzidos, para terminar, afinal, com uma linha excelente de dialogo.



Percebam como a música já aparece no logo da WB, com uma cena que não existe no quadrinho, de forma que não existe no quadrinho (tão sutil Dr. Manhattan relembrando que ao pegar o relógio, ri de si mesmo e pede para abrir a porta apenas para perceber que os do lado de fora não estavam sorrindo, e ao invés de entrar nesse pânico ridiculo e infantil de ficar vendo pelinho do braço, ele simplesmente olha o relógio e desintegra, em um quadro, que foi prolongado inutilmente só para satisfazer a burrice do público).
Percebam o fogo, as explosões, as figuras dark e fodonas, as chamas e as chamas e as chamas e as chamas que gritam "se você for burro de gastar seu dinheiro com esse filme, merece um chute na cara" e olha como a música sequer termina de modo decente, como ela de repente se desacelera para caber artificialmente no tempo do pedaço de lixo mais caro da história do cinema.
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Adorei 300, mas se a proposta do diretor é 3 horas de explosões e CGs que encobrem o fato que a Graphic Novel é tão fortemente marcada por pouca ação, momentos constragedores, personagens pouquissimo "super" e (com a possível exceção do Rorscharch e do Comediante) dialogos ditos de modo mais casual possível, então isso vai ser um pedaço de lixo que vai ganhar milhões de dólares e vai merecer cada centavo por ser o maior estudo de como a humanidade é imbecil.

quinta-feira, julho 24, 2008

Existe alguma época da humanidade que não falhou em viver o que se esperava dela?
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Em matéria de "horror ao vácuo", somos os que nos damos melhores, não só não temos horror ao vazio, como o abraçamos como o que há de melhor.
É assim que funciona a música da cena alternativa:
Qualquer coisa que você ouve no seu quarto deve ser profunda, experimental, deve ser um trabalho artístico com o objetivo de se aprofundar o quanto for possível nas entranhas da sua mente.
Qualquer coisa que você ouve em público deve ser superficial, cliché, deve ser "música pop" com o objetivo de cinismo, qualquer coisa que glorifique a burrice e que torne mais fácil tratar-se e ao resto como objeto.
Mas bah, estou só sendo rabugento.
Vocês não precisam de mim pra dizer essas coisas imbecis, a internet está cheia de gente profunda acusando a cultura de ser superficial ou abraçando a superficialidade como se fosse algo profundo sem saber exatamente porque.
A única coisa que eu gostaria de rabugentar ainda é o que se esperava dos indies?
Sempre foi uma tribo hostil a inteligência e a idéias (novas ou velhas ou qualquer tipo de idéias) sobre qualquer coisa que não fosse música. Foram pessoas que, isoladamente ou em pequenos grupos, tentaram todo tipo de fanzines, escritos, estéticas, ideais, mas que num geral sempre rejeitaram sequer tocar em qualquer assunto que não fosse "qual a melhor balada" ou "qual a banda do momento"; sério, o que se esperava dessa gente? O que eles esperavam deles mesmos? Às vezes eu me sinto como um dos que surfou cegamente nessa onda esperando que ela ia dar em um lugar maravilhoso, que o tal "bom gosto musical" nos traria todos juntos em torno de algo inteligente e bom, mas não é como os hippies ou os punks em que isso começou aconteceu e desabou no meio do caminho ou algo assim, mas o que aconteceu com os indies é que isso sequer começou, não foi uma rejeição generalizada a ess ou aquela idéia, foi uma rejeição ao ato de pensar sobre qualquer coisa que não fosse "melhor balada" e "banda do momento"; talvez como uma tentativa de fugir de uma desnecessária intelectualidade, acabaram se tornando o povo mais fútil e superficial de todos, mais que os emos, mais que qualquer fã de Britney Spears, mais que funk carioca, mais do que o povinho da vila olimpia, ao menos essas pessoas conseguiram se unir o suficiente para se tornar toscas, os indies sequer se tornaram algo tosco, permanecem até hoje essa massa amorfa de pessoas que recusam fazer qualquer coisa fora do seu grupinhos particulares e são incapazes de atingir qualquer público fora de seus grupinhos particulares porque como um todo sempre foram aversos a inteligência.
Inteligência, sentimentos, bom gosto musical, confiança genuína no poder que a arte tem de unir as pessoas e causar sensações inalcançáveis e essencialmente boas, isso tudo existia, mas era sentimento pra dentro do quarto, pro fanzine não lido, pro blog, mas no lugar que os indies conseguiram construir e conquistar para si próprios, seu ninho por assim dizer, as baladas alternativas, tudo que não fosse extritamente "qual a melhor balada" e "qual a banda do momento" não era permitido entrada.
E ao falharmos em tornar as baladas alternativas algo mais do que baladinhas que toca smiths, falhamos em atingir o que se esperava de nós... agora decaímos, ficamos velhos, mais ou menos bem sucedidos, com nossos 25/30 anos, alguns começando a ter filhos, todos meio que desencando, o universo acabou pagando nosso cinismo com cinismo, nos recusamos a ser qualquer coisa senão blasé, senão "me recuso a ouvir" e o universo paga na mesma moeda, morremos em um mundo que se recusa a nos ouvir, crianças com cortes de cabelo cada vez mais desatualizados e nada mais, tudo porque continuamente nos recusamos a nos tornar mais, mas isso é rabugentice, a oportunidade passou, a cena que se esforçou para se recusar a existir com medo de falhar como as cenas que a antecederam agora falhou e morreu e toda resposta que se pode esperar disso é "não quero ler".
Achamos que o mero fato de ter franz ferdinand tocando na pista de dança era uma vitória.
Que o mero fato de ter pessoas tatuadas debaixo de um globo de luz era importante.
Que 5 opções de rock n roll nos arredores da avenida paulista era o suficiente.
Não foi.
Faltou a grandiosidade, abafada na univocidade do cinismo.
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Nossa geração jamais experimentou horror ao vazio, experimentamos horror ao conteúdo, nosso medo de estar errado é vastamente superior a nosso medo de estagnação e essa é a história dos que nunca quiseram ser, mas foram mesmo assim e falharam de qualquer modo.

terça-feira, julho 22, 2008

1979

Sempre que eu ouço 1979 do Smashing Pumpkins dá vontade de escrever alguma coisa, mas eu nunca sei exatamente o que... então, é isso, o que eu vou falar sobre a música? Acho que cada frase diz tanto, mas naquele esquema de poesia... que se eu pudesse fazer um texto a respeito, a música não seria tão essencial.
Toda a parte:

We don't even care, as restless as we are
We feel the pull in the land of a thousand guilts
And poured cement, lamented and assured
To the lights and towns below
Faster than the speed of sound
Faster than we thought we'd go, beneath the sound of hope

diz algo muito sobre a minha vida ou sobre como eu vejo minha vida, é difícil explicar, a coisa é bem encaixada demais; no que não nos importamos, na nossa inquietude, sentimos o puxão de mil culpas e cimento, lamentações e garantias e no meio de todos esses sentimentos estão as luzes e as cidades e a velocidade e mais velocidade e mais mais mais, mas ainda tudo abaixo do som da esperança. Enfim, não sei o que falar a respeito, é um daqueles sentimentos de verdade que boa arte causa às vezes, sentimento de conhecimento, de saber algo mais sobre o mundoo.
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Nesse sentido é ruim ser de Santo André, eu sempre senti que os paulistanos sabem algo que eu não sei, que eles tem algum conhecimentozinho secreto, ir pra São Paulo é sempre uma dor, pegar um ônibus de 50 minutos para chegar ao metrô mais próximo e aí sim começar a jornada pela cidade, que se não tiver um guia, vai acabar sendo sempre mais ou menos pros mesmos lugares, mas talvez por isso, por ser levemente de fora, por querer tanto aprender qualé dessa cidade, que São Paulo é tão importante pra mim, não sei descrever a sensação de respirar o ar frio da paulista num dia de manhã, sabe? Estar lá cercado pelos prédios e respirar fundo - antes que alguém faça piadinha com poluição, não sei, não sinto, só o frio congelando minhas narinas enquanto os prédios parecem um pouco mais próximos, um pouco mais aconchegantes e naquele momento eles me dizem algo, me contam algo que eu só posso entender por ser estrangeiro, mais estrangeiro que os imigrantes porque um imigrante se torna um paulistano no momento em que se mistura aos tantos e tantos outros imigrantes da cidade, mas eu sou o eterno turista, visitando a cidade frequentemente só para voltar para Santo André a noite.
E eu agradeço o conhecimento e fico feliz com ele, me sinto de certa forma privilegiado, mas ainda resta aquele sentimento irritante de que existe algo que não estão me contando.

segunda-feira, julho 21, 2008

Coisinhas

Ok, como eu fiquei um tempão sem atualizar, vou falar de vários assuntinhos:
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Life with Playstation

Sim, estou com meu playstation 3 e só o Inexistente sabe quantos problemas financeiros isso trará pra minha vida.
Dois jogos também: Metal Gear Solid 4 e GTA 4
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MGS4 é um jogo cujo hype me alimentou do momento que vi o primeiro trailer e que o jogo satisfaça a expectativa já é excelente, mas que além disso, ele consiga me surpreender, tanto em termos de história, como em termos de jogabilidade, isso é brilhante.
E já que traçamos essa linha entre história e jogabilidade, que esse tenha sido o último MGS é bom e mau.
É bom porque a história do snake se concluiu, é difícil ver alguém com coragem de botar um ponto final numa história dessa maneira; como foi discutido foruns de internet afora, ainda existem alguns furos na saga do Big Boss que possam ser jogados (lá pelos anos 70/80) e algumas coisas que o Raiden fez antes do jogo também seria interessante jogá-los, mas quanto a Solid Snake, não tem mais o que fazer, a história termina aí e é bom que termine, ele cumpre sua missão final, sofre um monte a mais do que eu pensei que sofreria no processo (sério, do que seria justo que ele sofresse dado quantas vezes ele salva o mundo antes) e, no fim, termina. Não dá pra pedir por mais em termos de história.
O lado ruim é que a jogabilidade atingiu a perfeição, os inimigos são meio bobocas, mas os controles são perfeitos; a primeira vez que joguei, fiquei todo embaralhado, achei que nunca entenderia como fazer tantas milhões de coisas diferentes, mas pouco depois a mão se acostuma e o controle nunca falha, é aquele tipo de coisa que você sabe que é perfeita porque você não percebe, você se esconde atrás de uma parede, espera o soldado passar, anda lentamente atrás dele, o rende, aí alguém te vê, e você rapidamente nocaltea o soldado rendido enquanto mira e atira em quem está atirando em você, etc e etc e isso tudo sem pensar no que está fazendo, em que botão está apertando; o jogo tem um sistema de auto-mira (comum em jogo de tiro de terceira pessoa), mas em toda minha primeira vez jogando, eu nunca usei, de tão fácil que é mirar manualmente com o controle; só tive que usar mesmo em uma sequência específica na conquista do Big Boss Emblem, enfim, com uma jogabilidade tão perfeita, é ruim não vê-la em outro jogo, a Konami bem que podia usar parte da programação de MGS4 para fazer outro jogo de espionagem; outra história, outro mundo, outro título, enfim, outro jogo, mas com a mesma jogabilidade. Seria excelente.
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GTA4 eu ainda não terminei, o jogo é ridiculamente grande, a história, contada numa sinopse, não é enorme coisa: Niko Bellic, um ex-soldado de alguma guerra do leste europeu, chega na América excitado com as cartas de seu primo, que descreve mulheres e dinheiro em abundância, quando ele chega, a realidade é bem outra e Niko logo se envolve no mundo do crime; o interessante da sinopse é que, diferente do que foi dito nos anúncios do jogo (pelo menos foi o que eu entendi), é que Niko não está lá "em busca do sonho americano", ele tem outros objetivos, bem mais interessantes do que ficar rico, embora dinheiro e poder talvez ajude nesses objetivos; de qualquer forma, os dialogos são incrivelmente bem escritos, especialmente quando Niko resolve falar do seu passado, mas mesmo quando é GTA e seu clássico humor negro, ainda assim os dialogos acertam de modo impecável; aliás, acho que é o primeiro GTA que fez com que eu de fato me importasse e acreditasse no personagem. GTA 3 simplesmente não tinha personagem, era alguém andando pra lá e pra cá obedecendo ordens; Vice City tinha o adorável Tommy Vercetti, que era um personagem excelente e, bom, não tenho reclamações em relação a Tommy Vercetti, não tem nada de errado no personagem, é só que em comparação com Niko, ele acaba se saindo meio superficial demais e, enfim, Carl Johnson de San Andreas foi alguém que eu não gostei; ele sempre me pareceu bonzinho demais pra alguém que mata tanta gente e meio que desmotivado também, mas enfim, talvez eu que não entendi o personagem.
Quanto a gameplay, é excelente, mas o sistema de mira automática me irrita demais, não que ele falhe tantas vezes assim, mas como é algo que essencialmente se usa durante um tiroteio, quando ele falha, significa que você morre e às vezes você tem tudo planejado, menos o fato que ao segurar o R2, um pedestre e não o policial atirando em você que vai ser mirado - ou mesmo ninguém! Às vezes tem um sujeito na sua frente atirando em você e a mira não tranca em ninguém e mirar manualmente nesse jogo é ágil de menos pra tentar, mesmo porque, é fácil morrer; o que seria excelente, pois os GTAs antigos eram fáceis demais, mas é frustrante morrer porque o botão não responde da maneira que você espera.
Mas tirando esse problema, dirigir os carros é bom, difícil, mas de um bom modo; o novo sistema de cobertura funciona muito bem (você aperta R1 e ele procura o lugar mais próximo pra se esconder, mesmo que esse lugar esteja há uns metros de distância, ele simplesmente corre na direção, muito útil), eu muito raramento tenho os tais pop-ins que a internet tanto reclama (é quando você se movimenta mais rápido do que o cenário carrega, então você chega no lugar e só tem uma tela meio cinza com blocos cinzas estranhos, aí um segundo depois as texturas e os objetos aparecem do nada) e, afinal, são horas e horas e horas jogando e ele é incrivelmente viciante, sempre tem alguma coisa pra fazer e nenhum lugar parece bom o bastante pra parar.
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PS3 e a conferência da Sony na E3
A Sony anunciou na E3 que vai "voltar sua atenção" para a américa latina; espero que isso signifique um modo fácil para nós comprarmos via Playstatyon Network (PSN), especialmente agora que eles abriram um serviço online de venda e aluguel de filmes em alta definição - além, é claro, dos joguinhos maravilhoso exclusivos da PSN; são jogos pequenos, baseados em conceitos simples, que geralmente se vendem baseados na direção de arte; por 10 dólares, os jogos são pérolas, se existe algo relativo à indie rock (sabe? Essa coisa que não é nem underground, nem mainstream) no mundo dos videogames, eu diria que é a PSN; jogos baratos, pequenos, divertidos, altamente criativos, uma pena que eu tenha que ficar só nos demos, enquanto não dou um jeito de arrumar um cartão de crédito internacional.
E eu ainda tenho que assistir um filme em alta definição nele; mas se alta definição de filme for alta definição de Metal Gear Solid 4, então uau, eu TENHO que ver Piratas do Caribe em alta definição! (que é a melhor triologia do cinema, sério, melhor que indiana jones e star wars, desculpa, mas é... embora tecnicamente indiana jones seja uma tetrologia e star wars uma hexologia, mas enfim)
Sobre a conferência da Sony, eu sou da opinião que foi tão melhor que a da Microsoft e da Nintendo; o maior anúncio da Microsoft é que Final Fantasy 13 não é mais exclusivo da Sony, essa notícia quebrou a internet em dois, fez pessoas chorar por toda parte, mas sério, é estúpido, quem se importa? O maior anúncio da Microsoft é que eles conseguiram um jogo que nós (har har har - agora eu posso falar de "Playstation 3 owners" com um "nós") sempre soubemos que teríamos; toda a conferência da Microsoft foi como eles conseguem imitar bem o resto do mundo e, bom... parabéns, eu acho.
Daquela conferência estou bem empolgado por Resistance 2 (irck, vou ter que arrumar um jeito de comprar Resistance 1 primeiro... e Uncharted... e Call of Duty 4... céus, tantos jogos bons por aí), nem tanto por Killzone 2; curioso acerca do MAG, mas, como todo mundo, esperando pra ver se é possível colocar 256 pessoas se fuzilando ao mesmo tempo num campo de batalha sem quebrar a internet e MUITO empolgado por Little Big Planet! MUITO MUITO! É TÃO fofinho! Awww, sackboy... anyway, deu até vontade de ser um fã da DC e não da Marvel só pra jogar DCU Online, mas enfim, eu não manjo nada de DC, então vou passar esse; mas The Agency (que por bobeira ele não citou na conferência) parece excelente e se for mesmo de graça como dizem os boatos, então com certeza (embora provavelmente vai cobrar uma taxa mensal...) e então há God of War... mas na boa, não existe uma data, não existe uma ceninha do jogo em ação, é um trailer de 10 segundos, Kratos todo bonitão e tal, mas ah, vou esperar mais um ano até me empolgar por esse. Resident Evil 5 chegando! Street Fighter 4 chegando! Mirror's edge parece absolutamente excelente! Infamous está muito bom também! *respira* muitos jogos. Devo até estar esquecendo algum que eu vi e gostei.
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Pra não dizer que não pensei em filosofia durante esse tempo:
Marx, o burguês

Não é nada daquela besteira de dizer que Karl Marx não era trabalhador, ou bla bla bla de panfletista de direita, mas um tópico que eu tenho pensado bastante ultimamente é como que todas essas pessoas que dizem que "eu vejo a realidade e você é alienado dela" fez para se libertar do feitiço em primeiro lugar; algo como alguém te dizer que você só vê algo assim porque seu cérebro te engana: "você não tem um? Você conseguiu arrancar seu cérebro da cabeça, deixar ele de lado, estudar o fenômeno e aí colocar de volta, então você sabe como é ver a vida sem o seu cérebro te enganando?"
Nisso, eu acabei pensando no quanto o socialismo só faz sentido se nós comprarmos, com esse pacote, com um monte de premissas ideológicas da burguesia.
Vamos lá, seguindo a cartilha marxista, esse modo aparentemente neutro e objetivo de pensar e fazer pesquisa científica, na verdade esconde objetivos ideológicos de satisfazer a classe dominante.
Ok, mas tem uma coisa desse rol de objetivos que é necessário ao marxismo e que eu entendo como puramente moderno (e pensamento moderno = burguês pros marxistas, até o coitado do Descartes que vivia dos seios da monarquia da época é considerado burguês) que é a noção de progresso; é claro que quando pensamos em uma caminhada do escuro da caverna pra luz do sol, pensamos em progresso, mas progresso no sentido moderno é diferente, não é progresso em direção a uma essência, mas é a noção de que o desenvolvimento do pensamento sempre faz o futuro melhor que o passado; então uma das diretrizes do materialismo histórico é essencialmente uma ideologia burguesa - o fato de que há rupturas na história e de que elas fazem a história avançar - desde o começo da modernidade sempre se fez questão de discursar a respeito de uma ruptura com o passado, com a escolástica; na prática, a transição entre o pensamento "místico" para o pensamento "científico" foi bem gradual; dá pra citar um medieval como Ockham que já não tinha quase nada de místico e o matemático Descartes que não conseguia deixar de enfiar seu deus em suas teorias, mas não é só isso, se fosse isso, eu estaria dizendo apenas que o progresso não é feito por rupturas, mas que há progresso; a questão aqui é que nada que é sólido se desmancha no ar (ou quase nada, sei lá), os pensamentos sempre continuam, sempre sobrevivem, perdem a força, então voltam, aí a mesma idéia se divide em dois ou três conceitos e dois ou três conceitos passam a ser considerados como um, enfim; pensamentos são coisas eternamente líquidas; não são sólidos e nunca se desmancham no ar.
Então, no fim, o materialismo acaba ficando restrito a si mesmo, coisas que causam graves mudanças sociais são aquelas coisas materialistas: guerras, pestes, catástrofes num geral.
Já os pensamentos, são afetados pela condição econômica no sentido que economia é uma parte da vida e a vida afeta o pensamento, mas enfim, existe mais na vida e, portanto, existe mais que afeta o pensamento.
Mas estou saindo do ponto, a questão é que, no ramo dos pensamentos, existiu algo importante na modernidade que foi esse grupo de pensadores batendo os pés, escrevendo fora das universidades, adotando uma postura diferente, dizendo "não somos o mesmo que o passado", é claro, eles ainda tinham muito do passado, mas sempre gostavam de falar que não, isso foi algo que Marx acreditou, ele viu esse pensamento e olhou "uau, esses caras são realmente diferentes do passado" e ele olhou pra sociedade civil burguesa e falou "uau, isso realmente é diferente da idade média! Ouve uma ruptura em ambas as partes", fast-foward e ele deduziu uma nova ruptura intelecto-social mais a frente desbocando no comunismo.
Mas a questão aqui é que ele viu a história com olhos burgueses, com olhos desses caras que (de acordo com o marxismo) tinham que fazer você acreditar que o pensamento deles era distinto do medieval que era pra que você acreditasse que o estado civil burguês era melhor que a monarquia; é claro, eu não acredito nisso, acho que em nenhum momento houve rupturas de pensamentos (a ciência tem suas rupturas devido a novos e surpreendentes fatos, mas a filosofia, lidando com o que é eterno, não tem novos e surpreendentes fatos pra causar rupturas) e as rupturas sociais podem muito bem ser explicadas sem que se faça uso de nada transcendente à condições econômicas, etc; enfim, existe um certo senso de holismo no universo, de que tudo está ligado a tudo, então alguma mudança no pensamento leva a alguma descoberta científica que leva a alguma mudança social, mas ah, deu pra entender o que eu quis dizer, né? Não estou falando de mudanças indiretas causadas pela rede das coisas, mas de achar que Locke acreditava nas propriedades secundárias porque construíram uma fábrica do lado da casa dele ou achar que os trabalhadores passam fome porque Hume era cético. (ei, não riam, já me disseram que a maior aceitação dos homossexuais a partir dos anos 70 só acontece porque surgiu uma industria com esse público-alvo; tipo, um sujeito na casa dele inventa uma cueca com um furo na parte de trás e pensa "uau! Isso é genial! Pena que não tem ninguém pra comprar!!! Hum... talvez eu devesse promover direitos civis dos homossexuais")
Enfim, a conclusão disso é que uma noção de progresso só surgiu no nosso inconsciente porque pessoas que queriam se auto-promover disseram "estamos progredindo", não é pra dizer que não é possível fazer um conceito razoável de progresso, mas o que temos hoje como progresso é simplesmente o ato de se distanciar da idade média e foi isso que Marx entendeu e foi isso elevado ao infinito que ele pensou como sua sociedade perfeita: uma sociedade sem nenhum tipo de misticismo, plenamente racionalista, baseada numa ciência empirista, materialista e coletivamente produtiva (oposto a agriculturas familiares ou artesanatos individuais) - é sim uma premissa marxista que o próprio marxismo é algo que só poderia surgir na socidade burguesa, mas é preciso se perguntar até onde a ideologia burguesa influencia o pensamento de esquerda, pode ser que no final se deêm conta que toda sua luta é só o sonho da classe dominante.
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Enfim, não é nenhum pensamento genial ou relevante, mas qualé, não peguei num livro as últimas semanas.
Playstation 3, caras! \o/
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E o quanto ter ido a falência por um aparelhinho caro que me deu tanta felicidade me influenciou a escrever um post falando mal de marx?
*aiai*
Isso aí, vou colocar uma plaquinha de "não ultrapasse" do lado do meu tijolão de ébano e atirar em qualquer comunista que vier! Yeah!

terça-feira, julho 01, 2008

O Mal

Links:
Entrevista com Elisabeth Roudinesco sobre perversidade:
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita/
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita-2/
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita-3/
Discurso de Bernard Henry-Lévi sobre Darfur:
http://www.guernicamag.com/interviews/610/crisis_darfur/
Debate na BBC sobre possíveis soluções para Darfur:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6058920.stm
Reportagem da BBC sobre carta aberta escrita por sobrevivente de genocidios:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6069600.stm
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Alguns dias atrás eu li a entrevista com Elisabeth Roudinesco e discordei de umas coisas, mas até aí é normal, entrevistas são um bom meio de sabermos em 15 minutos o que uma pessoa acha de certo assunto, mas enfim, é meio que um apanhado sobre conclusões e é difícil concordar ou discordar das conclusões sem saber as premissas.
Existem coisas que ela disse na entrevista, entretanto, que me assustaram, que acho que são má concepções que leva a erros perigosos, a maioria delas relacionada ao nazismo.
Claro que recomendo a todo mundo ler a entrevista inteira, mas vou fazer minha crítica tomando como base um parágrafo apenas que acho que encapsula o pensamento de Roudinesco a respeito do nazismo.

"[os nazistas são perversos] porque eles têm prazer com o mal. Mas existe um lado sexual também no nazismo. Rudolf Hess, o chefe dos campos de extermínio, tem uma sexualidade aparentemente normal e ele é absolutamente perverso. O nazismo é o caso único de um Estado inteiro que inverteu a lei e governou em nome do mal."
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Nazismo, hoje, é uma mitologia.
Isso não é pra dizer que ele não existiu, esse não é um pensamento revisionista.
Nazismo foi real, cruel, matou milhões e se tornou um mito, a coisa mais próxima de "satã" que existe na era atual, mas, como todo mito, ele nos guia na direção certa se o vivenciamos na nossa realidade espiritual enquanto mantemos contato com a realidade material ou ele nos cega para a realidade material enquanto só existimos espiritualmente.
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A primeira má concepção que acredito que existe a respeito do nazismo é de que havia, como Roudinesco diz, "gozo com o mal", essa é a imagem mitológica do diretor do campo de concentração rindo histericamente dando tiros pro alto tal como acontece no filme "A Lista de Schindler".
Assim, Rudolf Hess é um perverso, pois sentia prazer no seu trabalho de acionar as câmaras de gás.
Para saber se isso é verdade, precisaria ler uma biografia de Rudolf Hess, mas assumindo que não seja, que, como nazista, ele considerasse que aquelas mortes erma necessários para o fortalecimento da nação, mas que não sentisse prazer nisso, que visse tudo isso como um mal necessário, mas oras, um mal mesmo assim; ele seria menos perverso? Ele mereceria algo de nossa compaixão? Ainda é o mesmo homem que voluntariamente realizou os mesmos atos terríveis, mas agora ele não está gargalhando dando tiros para o alto enquanto corpos queimam no plano de fundo. É menos perverso matar de modo profissional e sistemático?
Porque num geral, mesmo que os individuos nazistas sintam prazer com o holocausto, a ideologia nazista é uma filosofia, no sentido que é um corpo de saber racional que analisa criticamente a realidade, ainda, é uma filosofia pragmática; que propõe não só "entender o mundo", mas também mudá-lo.
Seguindo sua concepção de teleologia, os nazistas fizeram o que achavam que deveriam fazer para utilizar certas regras determinísticas da história a seu favor; os altos membros do partido nazista não eram homens ignorantes e cegos de ódio, mas sim homens intelectuais agindo de acordo com seu corpo de saber racional; efetivando sua filosofia.
Isso me soa estranho, porque agora parece que esses homens são menos perversos que Hudolf Hess; esses homens que ordenaram que assinaram os papéis legitimando "a solução final" são homens de ciência, homens de respeito, cavalheiros de terno reunidos em uma sala assinando um pedaço de papel que garantiria um futuro saudável e seguro a seus filhos.
O perverso? Rudolf Hess. O homem que apertou o botão.
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Acho importante salientar a perversidade de quem nunca colocou o pé em um campo de concentração que é para melhor entendermos o que o mito do nazismo pode nos ensinar ao invés de tomá-lo indiferentemente como uma página da história ou como algo de outro mundo, pois o que mais me assusta nesse parágrafo que estou analisando é exatamente isso:
"O nazismo é o caso único de um Estado inteiro que inverteu a lei e governou em nome do mal."
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Roudinesco poderia muito bem evitar que eu escrevesse um post a criticando se essa frase fosse "o nazismo é um caso de Estado...", mas quando ela diz que o nazismo é "o caso único", isso é como aquela criança que vai na igreja todo domingo e morre de medo do diabo e reza toda noite para que aquela criatura vermelha e de chifres não o leve para o inferno só para chegar na segunda, bater no coleguinha e levar seu lanche.
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Oras, tenho que perguntar, o que é exatamente governar "em nome do mal"?
É governar em nome do racismo? E o racismo norte-americano que perdurou na legislação até a década de 1960? E o racismo de Mugabe em relação aos brancos? E o Apartheid?
É governar em nome da intolerância? E a intolerância soviética aos opositores do Estado? A intolerância Hutu aos Tutsis? A intolerância chinesa aos donos de terra? A intolerância chilena e brasileira aos comunistas?
É governar em nome da expansão militar? E os norte-americanos e suas intermináveis guerras ao redor do mundo? E os soviéticos que financiavam guerrilhas e guerras civis? E os outros países da segunda guerra mundial? O Japão não era nazista, mas lá estavam eles! Os italianos não também não eram nazistas, parecidos, mas não eram "O Mal"! E quanto aos espanhóis? Que eram fascistas, mas decidiram não se envolver nem de um lado e nem de outro?
É governar em nome do genocídio? E a Partido Comunista da União Soviética, de Camboja e da China? Camboja eliminou 1/5 da sua população! Eles não merecem entrar no hall da fama dos Estados que governaram em nome do mal? Porque? E quanto ao governo sudanês atual que financia os Janjawid que já mataram, no mínimo, 200.000 pessoas (mas que pode ter chegado a 500.000)? Isso não é governar em nome do mal?!
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Em Fevereiro de 2003, rebeldes não-Árabes iniciaram uma revolta contra o governo sudanês, acusando-o de favorecer os Árabes, isso causou uma reação por parte das milícias Árabes que, apoiada pelo governo, começaram a eliminar não só os rebeldes, como também eliminar vilas inteiras, sem diferenciar civis de rebeldes.
Esse mês, Jan Eliasson da ONU e Salim Ahmed Salim da União Africana (UA) se retiraram de Darfur admitindo fracasso nas tentativas de paz.
Uma reportagem da CNN de fevereiro de 2008 fala em mais de 200.000 mortos, com mais de 2.5 milhões de refugiados.
Existe a discussão sobre se isso se qualifica genocídio ou não, já que parece faltar um elemento étnico, mas no fim não importa.
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O importante aqui é o seguinte:
Desde o fim da segunda guerra mundial, governos continuam a exterminar suas populações.
Enquanto você lê esse post, algum civil está sendo morto pelo seu governo por algum motivo. Ele é de uma raça diferente, de uma religião diferente, de uma sexualidade diferente, de alguma opinião política diferente ou ele simplesmente mora suficientemente perto de algum diferente - ele está sendo morto *pelo seu governo* só porque existe - essa pessoa não realizou nenhum ato violento, ela não se envolve em política, ele nem gosta do assunto, ela acorda de manhã, beija sua filha, vai para o trabalho e lá ouve a noticia que alguma milicia apoiada pelo governo do seu país está chegando e ele sabe que é um dos alvos; ele para tudo que está fazendo e assim como outros tantos trabalhadores corre em direção de sua casa, desesperado, disposto a largar tudo o que conquistou, quando ele chega sua filha já está morta. Não houve campo de concentração, não houve câmara de gás, não houveram bandeiras vermelhas com suásticas, soldados bem vestidos marchando impecavelmente, não houveram grandiosos discursos filmados em contra-plongé. O homem que fez isso recebeu sua arma do seu governo, suas ordens do seu governo e Elisabeth Roudinesco quer me convencer que o Estado nazista foi O ÚNICO a governar em nome do mal.
Chame o que acontece em Darfur de genocidio, de democidio, de conflito, de guerra, pouco me importa, mas não me diga que é um Estado que não governa em nome do mal, isso é estupidez, é desrespeito, é má interpretação.
Enquanto glorificamos o nazismo e o colocamos no trono do mal absoluto há alguém que chega em casa e não encontra sua filha e nós não fazemos nada, pois o absoluto é absoluto por não deixar espaço para ninguém - o nazismo é mal absoluto para Roudinesco, as vítimas de Darfur terão que se contentar em ser um mal menor e, portanto, receber menor atenção.
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Em 2006, um grupo de 120 sobreviventes dos genocidios na Alemanha, Camboja, Ruanda e Bosnia escreveram uma carta aberta pedindo ao mundo que algo seja feito em relação a Darfur.
Procurando pela internet não encontro a tal carta, apenas notícias que falam a respeito dela, é uma pena, pois acho que é mais importante documento que podemos ter agora.
Um judeu que sobreviveu ao nazismo entende ele, de fato, presenciou o mal absoluto, mas não foi Hitler, não foi o Mein Kampf, não foram as paradas, as fogueiras de livros, as bandeiras vermelhas com a suástica - foi ver seu próprio governo assassinando todos aqueles que você conhece e convive, nisso, o judeu pode se ver como um cambojano, como um tutsi, como um muçulmano, como um croata, como qualquer um que se viu preso em um país onde o poder oficial decidiu que hoje você é uma ameaça.
E se o sobrevivente de um holocausto consegue ver o mal absoluto no holocausto e compreender que é no holocausto - e não no ridículo simbolismo - que reside o mal, porque a estética nazista (como bem disse Thaís) nos assusta tanto e os ATOS nazistas realizados por governos e mais governos ao redor do mundo não nos choca?
Porque SÓ os nazistas?
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A resposta terrível parece ser que só os nazistas eram ocidentais.
Enquanto os outros eram bárbaros do leste europeu ou da África, gente que não possui nossa brilhante ciência e nossa elevada filosofia, os nazistas eram "um de nós" - é o melhor motivo que consigo pensar para eles nos assustarem tanto, mas esse é um pensamento errado - ser um ocidental significa ser um humanista - nosso universalismo é talvez a raiz dos nossos maiores pecados e nossas maiores bençãos - nosso univeralismo é a causa de genocidios e a solução para genocidios - nosso universalismo matou índigenas e africanos sob a bandeira de que o mundo é a Europa, mas o nosso universalismo nos levou a buscar um conhecimento certo, seguro, além das fronteiras de crenças, é o que nos trouxe ciência, é o que nos trouxe democracia, é o que nos permite que consideremos como monstruoso um governo que assassine parte da sua própria população, pois somos univeralistas enquanto somos humanistas enquanto somos ocidentais - o que importa é o ser humano, é absurdo que um país trate um humano diferente do outro - esse absurdo tem suas raízes gregas no sentido da busca de um princípio comum para o universo que ultrapassa os limites das religiões locais, esse absurdo tem suas raízes cristãs no sentido de que todas as pessoas foram criadas pelo mesmo deus, esse absurdo é o centro do que chamamos de "democracia", uma de nossas mais queridas invenções.
Mas eis que estamos dando mais valor ao ocidentalismo que ao humanismo - odiamos os nazistas, pois eram ocidentais que abandoram o humanismo, quanto ao resto, reservamos um indiferente relativismo...
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A próxima questão é técnica: contra certos governos o melhor é uma intervenção militar, contra outros o melhor é um embargo comercial, contra outros outras estratégias, não saberia dizer, mas quero isso: Jamais indiferença.
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Enquanto homens ocidentais, é nossa função reservada a nós pelos nossos antepassados e confiadas a nós pelos nossos filhos que jamais sejamos indiferentes.
O resto é o segundo passo: há muitos problemas nesses debates acerca de capitalismo contra socialismo, em relação ao que fazer com os que morrem de fome, muitos sentimentos, muita discórdia, mas é um problema que garanto que conseguiremos superar, pois quer você seja liberal ou socialista, você acredita que é um humano que sofre e seja via mercado ou Estado, você acredita que seu maior inimigo é a miséria e que se acredite em estratégias opostas para combater o mesmo inimigo não muda o fato que estamos agindo como dignos representantes da humanidade, do modo como entendemos o que é o ser humano, que é o modo legado pela nossa tradição e pelo nosso modo único de pensar racionalmente e universalmente.
Que sejamos indiferentes, entretanto, isso é uma vergonha para nós: que discordemos em relação a uma invasão militar em Darfur, que discordemos em relação a embargos econômico a governos que assassinam seus homosexuais, que discordemos - mas jamais indiferentes - jamais largar humanos a sua própria sorte quando o seu próprio se dedica a exterminá-los - isso é dizer que a essência do homem africano é diferente da essência do homem europeu e isso é um pensamento contrário à nossa ciência, à nossa filosofia, às nossas religiões, à tudo que nós somos - odiamos os nazistas e os declaramos o mal absoluto, pois eles foram os ocidentais que se viraram contra a filosofia ao declararem que um judeu é algo de radicalmente diferente que um ariano - mas eis que estamos a fazer o mesmo, nos indignando em relação a uns e sendo indiferentes em relação a outros.
Há no nosso universalismo uma lista extensa de pecados, que o medo de cometer mais um não negue o que somos.
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O governo Sudanês é apoiado economica e politicamente pelo governo Chinês, está aí mais um motivo para boicotar as olimpíadas. (significa não assistir os jogos na TV e, se possível, escrever um e-mail para todos os canais que televisionarão os jogos dizendo "adoro seu canal, sinto muito prejudicá-los, mas se eu ver um jogo olímpico, farei do uso do controle remoto")
Não só isso, mas daqui há dois anos teremos uma nova eleição presidencial, não quero mais saber desse governo brasileiro que ignora o resto do mundo - qual a posição brasileira em relação ao autoritarismo da Venezuela? Ao atual estado caótico do Haiti? À tensão causada pelo desejo de autonomia de certas provínias na Bolívia? Às Farcs? Aos Zapatistas? Aos norte-americanos? À Darfur? À tantos países que hojem vivem sob a ameaça de guerras ou democidio e nem os conheço?
É muito comum ouvir alguém dizer que o Brasil "já tem tantos problemas" e que não devemos pensar nos outros, mas isso é um pensamento ultrapassado, não tem lugar no mundo globalizado, não tem lugar na civilização ocidental, enquanto o Brasil não for politicamente importante internacionalmente, não o será nossa filosofia, nossas opiniões, e, em certo sentido, nossos produtos e nossas fábricas - isso não significa cegamente bater cabeça para o aplauso de meia dúzia de intelectuais como acontece com a Venezuela - significa diplomacia inteligente, mas atuante - não quero silêncio dos meus governantes, não quero indiferença, nessas eleições escreverei para todo senador que tem chance de conseguir meu voto, todo candidato a presidente - quero saber qual a sua opinião a respeito de quem governa em nome do mal.