
Se existe alguma utilidade em estudar história da filosofia (ou do pensamento num geral) é saber de onde vem as coisas que você pensa que você ou acha que é senso comum que simplesmente existe do nada ou acha que é algo que você descobriu "sozinho".
O mesmo acontece com bons filmes. Ontem eu assisti pela primeira vez Taxi Driver e fiquei surpreso do quão o filme foi familiar, do quanto ele é diferente, mas sem ser surpreendente; ele não poderia mesmo ser surpreendente, ele é (mesmo sem eu nunca o ter assistido antes) uma grande influência minha e boa parte das minhas histórias, eu acabo tentando (com bem menos sucesso que o Scorsese) criar o mesmo clima estético do filme.
Esse "clima estético" é aquela coisa, cidade é uma coisa suja, claustrofóbica, é um amontoado de gente solitária e podre sorrindo de dia nos seus empregos entediantes enquanto choram, pagam prostitutas ou espancam suas esposas a noite.
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É impressionante, no fim das contas, como uma grande cidade te engole, como ela te mantém preso em um ambiente que você sente que não pertence, porque afinal, ninguém pertence a esse ambiente.
Eu sou uma pessoa bem urbana, ir para algum lugar mais rural, nem que por um fim semana, já faz meu nariz ficar todo zoado, gosto de neon, gosto de prédios, gosto de barzinhos, gosto da superlotação, gosto de prostitutas na rua, de ter que olhar para os dois lados antes de atravessar, gosto das pessoas desde que eu não tenha que de fato interagir com elas, gosto das pessoas estranhas, das que se esforçam pra parecer estranhas, gosto do quanto as noites são cinzentas com bolas amarelas no chão vindas dos postes de luz, não gosto da miséria, mas acredito que ela não existe em uma escala tão assustadora quanto dizem as pesquisas oficiais (feitas por gente que ou querem verba para "acabar com a pobreza" e que portanto precisam de uma imagem de calamidade e caos para receber seus fundos ou que se baseiam em impostos e documentos oficiais, ignorando o quanto as pessoas vivem bem "off the records").
Enfim, esse quadro todo que faz uma São Paulo ser uma São Paulo, eu acho isso tudo muito belo, fiquei chateado com a tal lei "cidade limpa" porque é uma tentativa de acabar com a espontaneidade que faz São Paulo ser São Paulo. Acabar com os outdoors é tão absurdo quanto acabar com os grafites ou as pixações ou as luzes de neon dos puteiros da Augusta.
Esteticamente falando, a cidade se beneficia do fato de não ter sido planejada, da poluição visual que seus professores de geografia sem graça tentaram te convencer que é um mal. O caos da cidade é bom porque permite que nos indentifiquemos com a cidade em sim, pois nossa vida na cidade é caótica e é caótica, em parte, por causa da cidade.
Mas o caos de um centro urbano sempre vai ser mais poderoso e mais lindo do que o delírio de algum burocrata, bastou que se tirassem os outdoors e surgiram em baixo deles prédios sujos, rachaduras gigantes, pinturas mal feitas e todo tipo de beleza suja que faz São Paulo um lugar tão bom de se viver.
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Voltando ao Taxi Driver, uma cena importantissima do filme mostra Travis conversando com o Senador Palantine e o senador pergunta "o que mais te incomoda nesse país?" esperando uma resposta do tipo "a guerra do Vietnã" ou "a falta de um sistema de saúde", a supresa foi quanto Travis não conseguiu pensar nacionalmente, a cidade o engoliu, não existe "Estados Unidos" para ele, existe "Nova York" e "essa cidade é como um esgoto aberto", o que foi a segunda surpresa do senador, uma que causou até nojo. Oras, Travis não é um neonazista, ele é racista e ele deseja "limpar a escória", mas ele não tem uma ideologia por trás, ele é simplesmente alguém vivendo na cidade e o que a "mente política" não consegue absorver é o quão clara é a metáfora do "esgoto aberto"; mas acho que isso vai ficar mais claro quando eu analisar esse personagem mais adiante.
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Existem, no filme, três personagens que são três pontos de vista.
Betsy é o ponto de vista "oficial" da cidade; ela acorda de manhã, troca piadinhas bobas com os co-workers e quando ela flerta com Travis, ela está flertando com o lado "não-oficial" da cidade, um lado que ela sente que deveria se sentir confortável, afinal, ela usa um broche dizendo "nós somos o povo" (da mesma forma que o senador que sentiu nojo de Travis se sentia parte "do povo" e acho que o que Scorsese tentou passar aqui é o quão ridículo que essa gente engravatada vivendo das 7h as 17h diga "nós somos o povo"; não concordo com isso, mas acho que foi o que ele tentou passar), só que quando ela entra um pouquinho na sujeira que é a vida do Travis (na forma de um filme pornô, que é algo tão rotineiro para ele, que tem tanto nojo dos outros, que sequer passa pela sua cabeça que ela pudesse se sentir ofendida) ela logo foge, diz que eles são diferentes e sua fachada de "liberal" cai como uma bomba atômica devastando seu relacionamento com o personagem principal.
Iris é o ponto de vista oposto, ela tem "doze anos e meio", é prostituta, seu namorado é seu cafetão e a vida "no esgoto" é tão comum que ela não consegue nem entender o conceito de "vim te tirar daqui", se Betsy se ofendeu em um mero cinema pornô, imagino a reação dela se ela tivesse que viver a vida de Iris por 5 minutos que seja. É uma vida suja, amoral, irracional, linda em todos os aspectos, ela sofre, ela ama, ela se sacrifica, se diverte, se defende, ela está tão completamente em sintonia com a cidade que anda pelas suas ruas como se fosse parte do cenário.
Travis é algo como o meio termo e ele é, como Betsy diz, uma contradição (o que o torna um personagem tão interessante).
Ele faz parte do "esgoto" em relação a Betsy e é "quadrado" em relação a Iris.
Ele acha que a cidade é um "esgoto aberto", não aguenta a vida de lá, odeia as pessoas e o ambiente, mas quando Iris propõe que eles fujam para uma "comuna" hippie em outro estado, ele recusa e não consegue sequer se imaginar fora da cidade.
Minha opinião sobre Travis é que ele é uma pessoa naturalmente organizada que não conseguiu absorver o caos da cidade; caos que o transformou e essa contradição entre ser, ao mesmo tempo, organizado e caótico, é o que o deprime.
Os problemas reais do filme começam (acredito) a primeira vez em que vemos na casa dele a plaquinha "one of these days I will get organized"; isso causa a contradição absurda que é a lei "cidade limpa" ou os grupos neonazis, não dá pra se organizar e ficar em sintonia com a cidade ao mesmo tempo.
Quando Travis consegue se organizar, quando ele compra as armas, passa a fazer exercícios, passa a comer direito, etc e tal; o filme nem mostra ele mais no taxi, a vida de taxista com os tipos estranhos que ele pega, a falta de destinos certos e a imprevisibilidade toda é simplesmente estranha demais para um estilo de vida "organizado".
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Por fim, ele faz o que a "mente política" considerou um nojo e é aclamado como herói, mostrando a contradição que a esquerda permanentemente vive, a saber, que se posiciona "a favor do povo" sendo anti-racismo e anti-preconceito e "mente aberta", mas tal povo sendo racista, preconceituoso e pronto pra aclamar como herói alguém que mata um cafetão.
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Enfim, acho que tem muita coisa a ser dita sobre esse filme, assim como tem muita coisa a ser dita sobre a vida na cidade, sinceramente, eu não consigo imaginar a pessoa que eu sou distinta de São Paulo, da beleza da cidade e da sujeira da cidade e claro, existe bem mais sujeira do que eu poderia suportar, estou mais perto da Betsy do que do Travis e seria absurdo começar a me comparar com Iris, mas todos os personagens fazem parte desse caos urbano a sua própria forma, ninguém é completamente puro ou completamente sujo e tanto "pureza" como "sujeira" estão em igualdade, ninguém é melhor, "mais real", mais útil ou mais fútil; é a mesma cidade que atinge as pessoas de maneira diferente e que se revela de maneira diferente e nenhuma dessas maneiras está mais próxima da realidade do que outra, no fim, não é uma questão de opinião ou de ponto de vista, mas também de que sua cidade tem máscaras que influenciam e respondem às suas máscaras.
Fica a pergunta, como sua cidade se revela para você?