Lendo um debatezinho na nature entre Steven Rose, que diz "em uma sociedade em que racismo e sexismo fosse ausente, as perguntas sobre se brancos ou homens são mais ou menos inteligentes que negros ou mulheres seriam não só sem sentido - elas não seriam nem perguntadas" e Stephen Ceci e Wendy M. Williams, que diz "a maioria dos pesquisadores, incluindo nós mesmos, concorda que genes não explicam diferença inter-grupos. Mas algumas questões permanencem não resolvidas, como a identificação dos mecanismos que levam potencial genético à fruição. Censurar debatentes que favorecem explicação genéticas de diferenças de inteligência não é a resposta para resolver tais mistérios".
A primeira coisa que eu achei interessante é que o sujeito que defende que ciência não pode explicar tais coisas é um neurocientista (mas vale notar que Steven Rose é contrário a idéia de psicologia evolutiva faz décadas, ser o lado "anti" nesses debates é simplesmente o destino midiático dele) e as pessoas "pró" fazem parte de um departamento de "Human Developments" de uma universidade, seja lá o que isso signifique. (ok, vou googlar)
Uma coisa que Steven Rose sempre reclamou a respeito desse pessoal que acredita em psicologia evolutiva é que eles raramente estudaram, de fato, o cérebro humano ou qualquer coisa a respeito de biologia; o nome mais famoso nesse campo, Steven Pinker, é um psiquiatra, por exemplo e uma colega neuróloga da faculdade me explicou geralmente que existe uma linha entre psiquatria e neurologia que quase nenhum cientista cruza, o que mostra o quão dualista é a ciência hoje em dia. Nós temos os cientistas estudando a mente e nós temos os cientistas estudando o cérebro e dizer que ambos são a mesma coisa é dizer pra um neurólogo que ele deveria estar no departamento de psicologia e vice-versa e acho que a maioria dos psicólogos e neurocientistas vão concordar que eles não estudam a mesma coisa, o que mostra que a divisão corpo e mente é mais complexa do que um mero preconceito cartesiano que nós carregamos.
Anyway, eu não manjo de psicologia e nem de neurologia, eu male male manjo de filosofia, o que me qualifica a dar opinião sobre tudo e sobre nada. Então, eu vou pegar metade da minha qualificação e opinar sobre o debate.
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O que geralmente acontece com Steven Rose, é que ele é muito bom em explicar porque a genética dos oponentes está errada e não tão bom em explicar porque certas questões filosóficas que ele valoriza tanto (como ideologia) dos oponentes está errada.
nesse artigo em particular, ele faz isso sem problema nenhum, especialmente porque aqui, coisa que não acontece sempre, ele não se desvia demais do lado científico da questão pra entrar na sua filosofia.
Os 2 problemas que ele aponta, e eu pelo menos concordo sem restrições (ainda mais porque ele é o cientista e eu sou o cara de filosofia), é que:
"as categorias de inteligência, raça e gênero não são definíveis dentro do contexto requerido para pesquisa científica natural, falhando meu primeiro critério de ser bem-fundamentada. Elas também falham o segundo critério de serem respondíveis: nós não temos as ferramentas técnicas ou teóricas para estudá-las".
O que acontece (e esse sou eu falando e não o Rose, embora eu vá dizer aqui que a idéia é a mesma com um vocabulário diferente) é que lidamos com duas maneiras distintas de entender um ser humano. Uma é cultural e outra é biológica e nos faltam ferramentas para realmente diferenciar uma da outra.
"negro", "branco", "asiático" são termos culturais e não científicos. Um problema que Steven Rose aponta no artigo, é em cada uma dessas categorias existem tantos subgrupos que não faz nenhum sentido científico em agrupá-las. Um certo grupo de judeus, são mais propensos geneticamente a doença de Tay Sachs do que outro grupo de judeus; mas culturalmente, classificamos ambos na mesma etnia.
Seria uma questão, então, de refinarmos nossos parâmetros de acordo não com critérios sociais, mas com critérios de ancestralidade biogeográfica (como o próprio Rose propõe), mas isso sempre esbarra no problema maior que a fenomenologia geralmente põe.
A classificação científica tem que nascer de algum lugar e ela tem que nascer do "mundo da vida", ou do mundo social.
Critérios científicos não caem prontos do céu, o ponto de partida deles é a cultura onde os cientistas vivem e, mais importante, organismos são dinâmicos. Grande parte da importância do Darwinismo é justamente mostrar que organismos reagem ao ambiente. O meu cérebro, com a mesma estrutura genética, seria o mesmo cérebro se eu me alimentasse diferente? Se eu vivesse em uma área com mais ou menos poluição? Se eu tivesse uma vida mais ou menos estressada? Se eu estivesse mais ou menos acostumado ao multi-tasking desse estilo de vida internauta?
Nós podemos, muito cientificamente, rastrear qual é exatamente, com todas as nuances de subpopulação envolvidas, minha acestralidade biogeográfica e para questões que envolvem *apenas* isso, como no caso de uma doença genética, medir quais as particularidades desse meu subgrupo. Mas quando falamos em medir inteligência, a coisa complica porque é impossível dar uma definição não-cultural de inteligência, além do mais, inteligência não é só flexível entre populações, mas é flexível no percurso de uma mesma vida, o engraçado é que esse argumento é feito pelo grupo "pró" estudo da correlação entre raça e inteligência, diz a dupla:
"A primeira asserção de Watson [de que africanos são menos inteligentes que europeus] pode ser lida como cientificamente justificada: o resultado do QI de africanos negros é menor do que aqueles de europeus brancos. Mas o uso que Watson faz de 'inteligência' foi interpretada como significando 'habilidade intrínseca cognitiva', ignorando como a não familiaridade com o formato do teste, baixa qualidade de escolaridade, ou pouca saúde pode deprimir resultados de QI."
Mas toda a vantagem de estudar genética, partindo do pressuposto que o gene é a partícula irredutível da biologia, é exatamente mostrar o que é intrínseco do que não é! Esse é o debate inteiro!
Certas diferenças entre homens e mulheres são intrínsecas porque a parte de sua biologia que não se altera durante toda sua vida, a saber, os genes, são diferentes. O problema do cérebro é que ele está o tempo todo mudando! Cada vez que você pensa, que você vê, que você sente qualquer sensação que seja, seu cérebro, partindo do pressuposto que cérebro e mente são a mesma estrutura física, é alterado. Todo o debate para quem quer defender a psicologia evolutiva parte dessa palavra: intrínseco.
Se você não quer dizer diferença intrínseca, você está dizendo que tal característica é uma variável que depende do ambiente ou da cultura, sejamos dualistas ou não. É por isso que Tabula Rasa do Pinker me impressionou durante uma semana, mas depois eu já estava "meh".
Dizer que o cérebro só faz o que é possível o cérebro fazer é uma tautologia óbvia. É claro que eu só falo, desejo sexo, acredito em Deus, busco comida, etc porque um cérebro que evoluiu permite isso, está de certa forma adaptado para essas e tantas outras possibilidades, mas isso, no fim das contas, isso nos diz muito pouco. As pesquisas e teorias do Pinker (e um problema do Pinker é que ele nunca separa o que é uma conclusão tirada de suas pesquisas empíricas e o que é especulação filosófica da parte dele) são excelente porque combatem certas teorias de que nada é intrínseco, a noção de que em um ambiente "ausente de sexismo", homens e mulheres seriam diferenciados apenas pela sua individualidade e não por seus papéis sociais.
Isso não se sustenta, mas não estamos nem perto de resolver o problema maior que é explicar exatamente quais são as diferenças intrínsecas.
Então, o pessoal pró-psicologia evolutiva tem aí um desafio enorme que é o que Steven Rose chama de "falta de ferramentas técnicas ou teóricas" para estudar uma aparente divergência de comportamento ou QI entre os diferentes grupos. O máximo que se pode fazer é estudar pessoas da mesma ancestralidade que vivem em diferentes partes do mundo e ver se resultados coincidem, mas na prática isso tem vários problemas, pois não há de se decidir qual será a "verdadeira" amostragem e qual será "diferencial".
Então estudamos certo grupo de negros para saber sobre suas habilidades cognitivas intrínsecas (e, de novo, se não for isso, então esse debate não existe). Pegamos um punhado da África e um punhado do Brasil e um punhado dos Estados Unidos e um punhado do Oriente Médio.
No primeiro caso, eles vivem em guerra e mal nutrição, no segundo e no terceiro sofrem estigmas culturais a vida toda com gente repetindo pra eles a vida inteiro de que lugar deles não é na universidade, mas em algum esporte e no quarto, mesmo que não haja o racismo dos segundos e terceiros lugares, qualquer critério ocidental de avaliação de QI não se aplica porque a relação cultural com a lógica é diferente.
Então, quais dos quatro grupos consideramos a "base"? Seria uma surpresa se o resultado de QI de todos esses sejam mais baixos do que o QI de brancos que não vivem em guerra e mal nutrição, que não sofrem racismo e estigmas culturais e que aprendem desde cedo a valorizar tal modo de pensar que é superestimado pelo teste de QI? De novo, voltamos ao problema do começo, não há um tal ser humano sem cultura para utilizarmos como base. Nós não temos todo um campo separado do conhecimento humano chamado "Ciências Humanas" ou "Ciência do Espírito", que inclui História, Sociologia, Economia, Antropologia e Psicologia (e talvez Filosofia; eu não considero, but oh well, há quem considere) por nenhum motivo.
Nós temos porque toda vez que tentamos utilizar o método de uma área na outra, problemas desse tipo ocorrem.
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Por fim, eis minha sugestão metodológica.
Se certos "cientistas do espírito" (como Pinker) querem fingir que são "cientistas naturais" (como Rose), eles precisam iniciar observando a estrutura física do mundo e aí partir para a psicologia e não, como é feito atualmente, ao contrário.
Pinker estuda o comportamento de gêmeos, de homens e mulheres em culturas diferentes e, quando acha diferenças e similaridades, postula, de modo irritantemente ad hoc, que a diferença é intrínseca ou genética.
Pois eu digo, se você quer fazer neurologia e biologia ao invés de psicologia (mesmo se for para mesclar as diferentes áreas), então digo para começar com a neurologia e a biologia e aí partir para a psicologia.
Primeiro devemos observar quais genes são responsáveis (se é que eles existem) por pensamento lógico, por "habilidades matemáticas", por tal e tal comportamento. Depois devemos ver em quais grupos esses genes são diferentes e de que modo são diferentes. Daí concluímos, em último lugar, o que os psicólogos evolutivos querem concluir em primeiro lugar.
Primeiro os fatos, depois a conclusão. Observação sociológica só demonstra, obviamente, conclusões sociológicas. Conclusões biológicas são adquiridas por meio de conclusões biológicas; que é porque é mais fácil respeitar Antônio Damásio do que Steven Pinker.
Eu, por exemplo, não nego o materialismo ou que mente e corpo sejam só uma substância (ok, eu tenho uns pensamentos complexos sobre o assunto e no fucking way vou entrar neles agora), se você me diz que retirando tal parte do cérebro eu perco minha capacidade de me sensibilizar com o sofrimento alheio, eu total acredito (como curiosidade, pra falar do autor que provavelmente vai ser meu objeto de estudo a vida acadêmica toda; não acho que Schopenhauer negaria isso também e ele é hardcore idealista), mas talvez a lição mais importante do Tabula Rasa do Pinker é a lição que ele não tira.
A estrutura física do cérebro é condição negativa para tal coisa. Sem a área do meu cérebro que controla minha empatia, eu não posso ter empatia; mas ter a área do cérebro que controla minha empatia intacta não é condição suficiente para que eu desenvolva empatia. Se eu vivo em uma cultura completamente egoísta, chances são que eu vou ser egoísta mesmo que a área "altruísta" do meu cérebro funcione perfeitamente. A lição que eu tirei do Tabula Rasa é a de que nós não podemos pensar em algo que o cérebro faz sem pensar que ele foi, de algum modo, configurado pela evolução para fazê-lo. Disso não se conclui que é minha configuração genética que faz eu me comportar daquela forma, só significa que eu estou corporeamente capacitado para me comportar daquela forma e que sem tal configuração genética eu não estaria.
É confundir potência com ato, really.
Particularmente (porque esse não é um blog de filosofia, mas um blog para choramingar), eu vou na igreja para desenvolver minha empatia e minha sensibilidade. Eu não acredito em Deus, mas fazer parte daquele ritual e ver a maravilhosa escultura de Jesus na cruz que existe na igreja que eu freqüento me faz querer ajudar os outros. É claro que se não existisse uma área do meu cérebro configurada geneticamente para permitir que eu desenvolvesse amor ao próximo, eu não teria amor ao próximo (e as pessoas ao meu redor sabem que eu sou um cara bem egoísta), mas posso dizer o mesmo da igreja, das lições de Schopenhauer acerca da compaixão, dos filmes que vejo, da pressão social, etc.
Isso tudo pode ser explicado de modo 100% material mesmo que atualmente a ciência não tenha avançado a esse ponto? Não vejo motivo de porque não. Mas que seja resguardada as diferenças entre o que é intrínseco e o que não é. Entre "natureza" e "ambiente".
A minha aposta é que vamos descobrir que a tábula é bem rasa sim, é só que ela é uma tábula. Que possamos utilizá-la apenas para escrever em baixo relevo ao invés de projetar hologramas não significa que haja algo escrito.
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