Eu estou pra escrever um post defendendo casamento gay faz um tempão, mas é meio longo e complicado e eu estou com alguma preguiça. Sem contar que o post só faria sentido em um contexto cristão e, ah a vida, estou me sentindo nada cristão ultimamente.
Anyway, pensar sobre esse tema me fez pensar algumas coisas que dá pra falar a respeito rapidinho.
É impressionante como algumas pessoas absorvem uma idéia meramente por fazer parte de um grupo de pessoas que abraça aquela idéia.
A maior prova disso é como certos grupos ideológicos abraçam certos ideais que não tem nada a ver com tais grupos ideológicos.
Acho que um dos maiores exemplos disso é a fascinação da direita religiosa em negar que há aquecimento global.
Afinal, o que ser um cristão tem a ver com negar aquecimento global?
O que acreditar no livre-mercado tem a ver com negar aquecimento global?
Muito pouco, mas por algum motivo, os cristãos capitalistas negam aquecimento global.
Eu entendo que alguém de direita seja contra a idéia que devemos lutar contra o aquecimento global por meio de regulamentos na indústria, mas negar um evento que é muito documentado por uma porção de cientistas importantes me parece estúpido demais.
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Sempre existe a questão sobre o quanto devemos confiar na ciência.
Aqui temos que separar, em primeiro lugar, duas questões:
Primeiro é o quanto devemos confiar nos cientistas e, cientistas, fora do seu campo de especialização (às vezes sub-especialização) sabem tão pouco quanto a gente. Eu jamais vou discutir com o Dawkins sobre como genes se comportam, mas em termos de qualquer outro assunto no universo, ele é um mané tão grande quanto o resto de nós.
A coisa mais estúpida do mundo é achar que um doutorado em biologia te dá condições pra falar sobre qualquer coisa que não seja biologia.
Nietzsche, por exemplo, estudou teologia. Não é a toa que quando eu leio Dawkins tenho uma crise de ateísmo e começo a ver a religião como uma força positiva no universo e como eu me torno tão pouco cristão nessas épocas que decido ler Nietzsche. É outro nível.
Não é um porque um tem diploma de teologia e outro não tem; nem sei o que o século XIX considera como curso de teologia, o que eu sei é a diferença entre ler um sujeito com uma imensa cultura, um enorme senso histórico e uma enorme habilidade em lidar com questões filosóficas e ler um cara que, basicamente, compila num livro o lixo que é vomitado em fóruns de internet.
E sim, eu sou extremamente afetado sobre o que leio e assisto e ouço, mas gente deprimida é assim mesmo. Me deixem sofrer.
Anyway.
Em segundo lugar, existe a pergunta sobre o quanto devemos confiar nessa coisa chamada "ciência" e o principal problema em responder essa pergunta é que é difícil responder "o que é ciência"?
Eu pelo menos acho difícil dar qualquer resposta clara além de "é aquela coisa que cientistas fazem".
Eu não sei exatamente a quantas andam filosofia da ciência em 2009, mas o debate no século XX foi basicamente entre o Popper e o Kuhn e, do pouquinho que eu entendo do assunto, o problema da teoria do Popper, que é o que os ateus bobinhos de internet costumam defender, é que ela têm mais contra-exemplos do que a casa internacional dos contra-exemplos.
Aí se torna aquela coisa, talvez a teoria do Popper dê uma boa noção do que deveria ser ciência, mas ela não explica o que, até hoje, foi ciência e aí rola aquele medo; se ciência, seja lá o que for, está dando certo e é por motivos que o Popper não dá conta, então talvez se a gente começar a dar razão pro Popper, a ciência vai parar de funcionar.
Já o problema do Kuhn é que sua definição de ciência não é nada imensamente mais forte do que "aquilo que os cientistas fazem". Mas parece meio redundante (especialmente quando expomos dessa maneira tendenciosa, tosca e inexata como estou expondo).
Teorias científicas seriam aquelas aceitas pela comunidade de cientistas e os cientistas aceitam tal teoria porque ela resolve problemas que a teoria anterior falhava em resolver, mas porque a nova teoria resolve mais problemas? Quem sabe. Porque resolve. Porque prevê o futuro melhor. Porque é mais completa. Enfim, coisas circulares, é melhor porque se encaixa na nossa definição daquilo que é "melhor".
Isso não é pra dizer que a ciência não merece o maior respeito. Esse é exatamente um dos maiores problemas da filosofia desde Galileu: então, esse treco chamado "ciência" funciona MUITO bem, é inegável que essa coisa de fato explica o mundo e que essa coisa de fato melhora nossa vida, mas nós não fazemos idéia como.
Muito da filosofia moderna (muuuito da filosofia moderna) consiste em explicar porque a ciência funciona; raramente em questionar se ela funciona, mas tentar descobrir como.
Acho que, ironicamente, é mais fácil pra nós do século XXI questionar se ciência funciona porque ela é parte tão integral da nossa vida. Ligar um computador é algo tão natural quando abrir a boca e produzir voz, é tão natural que nem percebemos a ciência como sendo ciência e o mero ato de apertar um botão e ligar um monitor envolve um conhecimento tão especializado e tão inacessível pra qualquer um que passe anos estudando como funciona, que a gente nem percebe a quantidade imensa de conhecimento que existe nesse gesto estúpido e simples de apertar um botão e ver uma tela brilhando na frente de nossos olhos.
Nietzsche diz em uma passagem de Aurora que a ciência transformou respostas simples em complexas.
Eu acho que os nossos ateus bobinhos falham demais em reconhecer isso, alguém pergunta como surgiu a vida e alguém responde "ah, foi evolução", mas nessa palavra "evolução" existe o trabalho da vida de inúmeros homens e mulheres do passado e hoje que estudam e experimentam e analisam e comprovam e refutam.
"ah, foi evolução" é uma resposta indiscritivelmente complexa.
Meu sentimento nessa questão é o mesmo de Nietzsche, vou até copiar a passagem:
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O Prestigiador e Seu Contrário
O que espanta na ciência é o contrário do que espanta na arte do prestigiador. De fato, este que levar-nos a ver uma causalidade muito simples onde, na realidade, uma causalidade muito complicada está em jogo. Pelo contrário, a ciência nos obriga a abandonar a crença na causalidade simples, nos casos em que tudo parece extremamente simples e em que não passamos de vítimas da aparência. As coisas 'mais simples' são muito complicadas - não podemos espantar-nos suficientemente com elas!
"
É, de fato, impossível se espantar suficientemente com a complexidade envolvida no gesto de apertar um botão em um pedaço de plástico e ter uma tela que brilha e que reage aos botões do teclado que aperto e, enfim, dá pra continuar essa descrição até chegarmos no funcionamento da internet e da própria estrutura física de todo o universo.
Não dá pra se espantar suficientemente com a complexidade envolvido no velho e sujo e comum monitor de computador ligado na minha frente, então eu não quero nem começar a pensar na complexidade envolvida na origem e funcionamento de toda a vida.
Se Popper tem tantos problemas de contra-exemplos é porque a própria construção da ciência é algo complexo, é talvez o maior símbolo de comunitarismo da humanidade; comparável apenas ao que acontece quando uma religião consegue unir ao invés de dividir (e a noção de que religiões mais dividem do que unem é, no mínimo, sociologicamente questionável, mas eu não vou entrar nessa).
A construção de uma ciência, mesmo deixando pra lá os problemas irritantemente humanos demais (cientistas não terminam suas obras porque querem criar família, cientistas defendem ardentemente coisas que meio que sabem que são falsas por ego, dinheiro e política, cientistas são mortos em acidentes ou perseguidos por governos estúpidos, enfim), é um esforço que atravessa países, culturas e gerações. Se faz tanto por meio de revoluções que alteram completamente o modo de ver os fenômenos como por meio de papers solitários de alunos e professores em universidades grandes e pequenas.
É um projeto inacabado. É um projeto maravilhoso. É um projeto que ninguém faz a menor idéia de como acontece, mas que é indiscutivelmente inquestionável que acontece.
Ao menos em termos de técnica (e eu não quero entrar na discussão mais complexa da diferença entre técnica e conhecimento); questionar que a ciência é algo que funciona é fingir que meu monitor não funciona quando eu aperto o botão; bom, meu monitor funciona, então esses nerds nos departamentos de eletrônica de universidades e empresas privadas estão fazendo algo de certo.
Agora como que dá certo, de novo, é um problema complexo. Aparentemente não existe uma fórmula científica para fazer ciência.
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A crítica sendo feito à ciência desde o início do século XX nunca foi sobre se ela está certo, mas sempre sobre seus limites.
A ciência, maravilhosa que seja, não é menos dependente dos conceitos utilizados na comunicação diária.
Então a ciência muito rápido perde sua autoridade quando tem que lidar com miríade de conceitos não-científicos que lidamos no cotidiano. Não é a toa que a ciência tem vocabulários técnicos e complexos e compreensíveis apenas para iniciados. Sem um vocabulário rígido, a coisa não anda. Sem uma completa ausência de ambiguidade nos conceitos, a ciência perde sua característica básica de ser conhecimento comunitário, passível de crítica.
Mas a linguagem cotidiana não consegue deixar de ser ambígua.
"Bom", "Mau", "Democracia", "Dinheiro", "Direitos", "Humanidade"... palavras como essa não só abrangem uma infinitude de significados por vezes contraditórios, como elas *precisam*, para a nossa sobrevivência, serem capazes de ser alteradas de acordo com o contexto.
Uma definição rigída demais de "Bem" e tudo que entendemos como progresso chega ao fim, afinal, progresso moral (individual ou coletivo) consiste justamente em mudar a definição daquilo que é bom e mau.
A civilização considerava ódio aos homossexuais um bem, agora considera um mal. Parabéns civilização, você progrediu. Os árabes discordam.
João considerava os ensinamentos da igreja uma mal, agora ele frequenta a igreja e distribui comida para os mendigos nas quartas à noite. Parabéns João, você progrediu. Os ateus discordam.
(ai céus, entrei no tema de relativismo moral, essa porra desse post não vai acabar nunca)
O problema é sempre que base você usa pra mudança. Se é possível alterar os conceitos usando como parâmetro apenas as contigências que apareçam ou se precisamos de algum tipo de tradição para nos guiar.
Pra responder alguém que diria "não precisamos de tradição, precisamos apenas ser racionais", eu estou considerando isso como um "precisamos de uma tradição racionalista", afinal, eu não acho que tal alguém fosse desejar que é uma boa ser racional hoje, mas que podemos deixar de ser racionais na geração seguinte. Se for esse o caso, ele cai na primeira categoria, dos pragmatistas.
Mas tais conceitos não podem ser rigídos ou atrapalham nossa habilidade de reagir a um mundo em constante mudança.
O mesmo acontece com conceitos culturais, psicológicos; como felicidade e prazer.
Conceitos muito rígidos de felicidade e prazer atrapalham justamente nossa habilidade de sermos felizes e sentirmos prazer.
Um meio claro de enrijecer noções de felicidade e prazer é dizer que "reação química X equivale a prazer".
Não sei se alguém tem esse projeto, mas é meio assustador os danos que um tal projeto pode causar se levado a sério.
Há um tempinho atrás (talvez ainda hoje) existiu uma tendência de psicólogos delimitando suas noções de neurose e depressão, no fim das contas, podia-se dizer que metade das pessoas eram neurótica, a saber, que metade das pessoas não funcionavam de maneira "normal".
Se metade não faz a norma, então eu vou chutar que o problema está na regra e não na amostragem.
Não é diferente do que quando uma tradição insiste em te convencer que seu comportamento bom é na verdade ruim.
Mas a verdade é que esse risco hoje é pouco.
Cientistas que tentam cristalizar conceitos culturais são exceções e se os livros deles aparecem em livrarias é por falta de segurança em publicar artigos em publicações acadêmicas, onde eles serão criticados por cientistas tão especializados quanto eles ao invés de por jornalistas.
Mas que a ciência não mereça tantas críticas, ainda é difícil saber exatamente porque confiar tanto nela (e eu vou deletar comentário me passando link pra página de "método científico" da wikipedia), ainda mais em temas recentes. No caso do aquecimento global, eu acho a maior estupidez deixar de agir de modo mais ecologicamente correto porque algum detalhe pode estar errado.
Se os cientistas estiverem errados, o pior que fazemos ao andar menos de carro é ter uma vida um pouco mais saudável.
Se os cientistas estiverem certos, vocês estão colocando o planeta em risco por causa de birra infantil contra o Al Gore.
E o que me surpreende não é só ceticismo em relação a ciência, isso é saudável, mas é a disposição em botar toda a vida da terra em risco, duvidando de um sem-número de pessoas que estudaram o assunto muito mais que você, só porque essa é uma questão "de esquerda".
Eu entendo não se render à histeria em torno do aquecimento global (ver paragrafo acima: "botar toda a vida da terra em risco!!"), mas eu não entendo como se cria histeria anti-teorias de aquecimento global.
É assim tão ruim querer poluir menos?
O que eu encontro de mais interessante no cristianismo, especificamente na Igreja Católica, é que a Igreja consegue ser, hoje, uma boa alternativa espiritual ao hedonismo materialista.
E a igreja é consistente com isso quando diz que sacrificar luxúrias materiais estúpidas em prol de um planeta mais saudável é uma boa idéia (se eu não me engano, a Praça de São Pedro estava sendo adaptada pra funcionar com energia solar, não sei se isso já rolou).
Então continua a me espantar o problema que coloquei no começo do post.
Porque a direita religiosa insiste na sua histeria contra o aquecimento global? De novo, eu entendo ser contra algo como o protocolo de Kyoto, mas porque diabos um cristão se sente tão ofendido quando alguém pede pra ele comprar um carro mais modesto em troca de qualidade de vida?
Mas de novo, eu sou católico, mesmo sendo ateu e lendo Nietzsche, eu vejo essas coisas diferentes. Toda vez que vejo um católico se comportando demais como um republicano norte-americano, eu tenho a impressão de estar diante de um protestante que esqueceu de sair da igreja.
Se a religião quer ser uma força moral no mundo tão positiva quanto a ciência para ter o direito de criticá-la, então os religiosos deveriam começar a fazer muito bem pro mundo ao invés de perder tanto tempo defendendo porque poluição não é ruim e porque gays são abomináveis.
Só dizendo.
2 comentários:
Caríssimo.
Em primeiro lugar, escreva mais vezes enquanto estiver deprimido. Saem boas coisas..rs. Dito isso, espero que a parte sobre gays serem abomináveis não seja para mim, já que realmente não os acho abomináveis e minha crítica seja especificamente sobre a tentativa de validação da homossexualidade dentro da teologia católica, só isso. ;)
Fique com Deus.
Haha, não é você não. O que me revoltou no post não é sua crítica ao casamento gay dentro da teologia católica, mas aquelas coisas mais pesadas sobre como homossexualismo é uma doença, sobre como que aquecimento global é uma mentira desses cientistas ateus que odeiam o cristianismo (?).
Anyway, coisas de freaks.
Eu não me importo com os freaks quando sinto que eles estão no Bible Belt norte-americano. Mas eu imensamente me importo com os freaks quando sinto que eles estão perto de casa.
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E com meu interesse em coisinhas internacionais, eu particularmente me importo com os freaks quando a ONU é impedida de julgar um país por sistematicamente assassinar homossexuais e por forçar mulheres estupradas a casar com os estupradores porque dizer que tais coisas são monstruosas seria um atentado contra a liberdade religiosa.
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