Ok, eu sei que estou particularmente burro hoje, mas vá lá.
Estou todo feliz lendo as notícias quando vejo a manchete: "Charlie Brown é referência para o The Go! Team, que toca sábado em SP" e eu pensando "what the fuck", o que Charlie Brown, a banda-símbolo da mediocridade, tem a ver com "The Go! Team" que é tudo menos mediocre?
Leio a noticia e é um bla bla bla comum de noticia que introduz a banda pra quem nunca ouviu falar dela na vida e enfim, eu nem vi aonde Charlie Brown é citado.
Aí eu dei um ctrl+f e encontrei isso:
"“Tentar definir o nosso som é uma armadilha”, diz Parton. “Trata-se de um mix de todas as minhas coisas favoritas com metais, guitarras barulhentas, baterias distorcidas, vocais de garotas de gangue e o piano de Charlie Brown”, diz."
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Certo, algumas coisas numeráveis:
1 - Entendo que o nome da banda é Charlie Brown Jr. e não Charlie Brown e isso deveria ter me dado a dica, mas vá lá, estamos falando de música, é igual eu falar "meu som é influenciado pelo Jefferson's Airplane; não a banda que é 'Jefferson Airplane', mas sim o avião do Jefferson, meu amigo milionário, o som de suas turbinas influenciou meu som"
2 - Dado que o "charlie brown" em questão não é a banda, mas sim o personagem, esse precisa realmente ser o título da matéria? Afinal, Parton fala de "todas as minhas coisas favoritas com metais" (1), "guitarras barulhentas" (2), "baterias distorcidas" (3), "vocais de garotas de gangue" (4), "piano de Charlie Brown" (5); de todas as 5 coisas, o néscio que escreveu essa matéria escolheu para colocar no título da matéria o "piano de Charlie Brown". Porque? Porque, eu pergunto?
Minhas teorias:
a) Ele quis atrair pessoas pra noticia assim como eu fui atraído, fazendo com que ele seja anti-ético como jornalistas geralmente são.
b) Ele fez a mesma confusão que eu, mas a citação não o clarificou, pois até agora ele acha que essa banda experimental inglesa é, de fato, inspirada pelo clichê santista.
c) Ele realmente acha que essa é uma chamada mais interessante e informativa do que algo retirado do bem escrito primeiro paragráfo da matéria: "Colagens de funks antigos, gritos, sirenes, ruídos, guitarras e duas baterias: há um quê de festa na música do The Go! Team." (poderia ser algo do tipo, "funk, gritos e guitarras com The Go! Team" ou algo do tipo)
d)"Piano de Charlie Brown" é algo grande, importante, significativo e eu por ser desinformado não sei o que é; afinal, o piano é do Schroeder. (heh, ok, ele provavelmente estava falando da abertura)
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Agora, se for a opção "a", eu entendo, ele é jornalista, se ele fosse honesto, eu não o respeitaria, pois ele estaria agindo contra alguma diretriz do sindicato ou algo do tipo.
Se for a opção "c" e "d" é de fato culpa minha, talvez o título seja bom e interessante e eu estou nitpicking porque sou um imbecil.
Agora se for a opção "b"... então... oh meus céus... O TERROR! ABSOLUTO! O TERROR!
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3 - The Go! Team é uma das melhores bandas da atualidade. Graças aos céus que o mundo é burro e que eles vão tocar de graça ao invés de num estádio com ingressos custando 7.000 reais por segundo que você assiste o show.
E recentemente eu disse pra uma menina bonita que não ia mais em shows porque tinha percebido que "não gosto dessas pessoas" e de fato, eu gosto da cena indie, gosto da música, gosto das roupas, só não gosto das pessoas; mas The Go! Team, ah, deles eu gosto.
(Still, não iria no show se fosse pago)
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4-
Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
sexta-feira, junho 27, 2008
Battlefield: Bad Company
Três coisas difíceis:
1 - Um jogo de videogame verdadeiramente engraçado e com uma história interessante
2 - Uma história qualquer passada na segunda guerra mundial verdadeiramente engraçada e interessante
3 - Um trailer para tal jogo com tal história contendo "mad world" (do Tear for Fears, mas conhecida pelo cover de Gary Jules).
Abaixo um trailer que explica a história
Então, é assim:
Eu não sou o maior fã de first person shooters do mundo; o único atual que eu jogaria é Call of Duty 4, isso antes de ver esses trailers de Bad Company, claro (na minha lista tem prioridade Metal Gear Solid 4; GTA 4 e Uncharted: Drake's Fortune).
-
Bad Company realmente me interessou, não só porque é engraçado, mas por causa do objetivo do jogo.
"Bad Company" é um grupo de soldados que por serem ineptos ou psicopatas não se encaixavam em outro lugar, a função deles é, basicamente, ser bucha de canhão e entrar primeiro no campo de batalha, atraindo fogo inimigo, para que o exército "de verdade" possa fazer seu trabalho com mais segurança.
Em algum momento do jogo, eles descobrem ouro nazista e, sendo os psicopatas ineptos que são, decidem deserdar e ficar com o ouro para si próprios: isso significa lutar contra nazistas enquanto fogem do próprio exército.
A história parece interessante não só porque o jogo tem um tema de comédia, mas porque parecia impossível, depois de "Saving Private Ryan", que qualquer história genuinamente interessante fosse contada no contexto das batalhas da segunda guerra mundial (excetuando os filmes que falam sobre ascenção nazista, estou falando das batalhas em si, filme de guerra e não drama de época que se passa na alemanha nazista), mas enfim, oras, um grupo de soldados norte-americanos deserdores é muito interessante!
Provavelmente não vou ter como comprar esse jogo, mas já estou pesquisando em São Paulo bons pontos para alugá-lo e me divertir num final de semana como o bom e relaxante blockbuster que ele parece ser.
EDIT:
Vendo o trailer de novo, não tenho mais tanta certeza que se passa durante a segunda guerra mundial especificamente, na Wikipedia diz "Bad Company puts the player in a fictional war against Russia, where gamers will lead a squad of AWOL soldiers fighting both Russians and Mercenaries."
Então é, acho que o jogo perde um pouco do encanto por algum motivo, but anyway, continuo afim de jogar!
1 - Um jogo de videogame verdadeiramente engraçado e com uma história interessante
2 - Uma história qualquer passada na segunda guerra mundial verdadeiramente engraçada e interessante
3 - Um trailer para tal jogo com tal história contendo "mad world" (do Tear for Fears, mas conhecida pelo cover de Gary Jules).
Abaixo um trailer que explica a história
Então, é assim:
Eu não sou o maior fã de first person shooters do mundo; o único atual que eu jogaria é Call of Duty 4, isso antes de ver esses trailers de Bad Company, claro (na minha lista tem prioridade Metal Gear Solid 4; GTA 4 e Uncharted: Drake's Fortune).
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Bad Company realmente me interessou, não só porque é engraçado, mas por causa do objetivo do jogo.
"Bad Company" é um grupo de soldados que por serem ineptos ou psicopatas não se encaixavam em outro lugar, a função deles é, basicamente, ser bucha de canhão e entrar primeiro no campo de batalha, atraindo fogo inimigo, para que o exército "de verdade" possa fazer seu trabalho com mais segurança.
Em algum momento do jogo, eles descobrem ouro nazista e, sendo os psicopatas ineptos que são, decidem deserdar e ficar com o ouro para si próprios: isso significa lutar contra nazistas enquanto fogem do próprio exército.
A história parece interessante não só porque o jogo tem um tema de comédia, mas porque parecia impossível, depois de "Saving Private Ryan", que qualquer história genuinamente interessante fosse contada no contexto das batalhas da segunda guerra mundial (excetuando os filmes que falam sobre ascenção nazista, estou falando das batalhas em si, filme de guerra e não drama de época que se passa na alemanha nazista), mas enfim, oras, um grupo de soldados norte-americanos deserdores é muito interessante!
Provavelmente não vou ter como comprar esse jogo, mas já estou pesquisando em São Paulo bons pontos para alugá-lo e me divertir num final de semana como o bom e relaxante blockbuster que ele parece ser.
EDIT:
Vendo o trailer de novo, não tenho mais tanta certeza que se passa durante a segunda guerra mundial especificamente, na Wikipedia diz "Bad Company puts the player in a fictional war against Russia, where gamers will lead a squad of AWOL soldiers fighting both Russians and Mercenaries."
Então é, acho que o jogo perde um pouco do encanto por algum motivo, but anyway, continuo afim de jogar!
quarta-feira, junho 25, 2008
Sobre vários assuntos
Recentemente na sala de aula, estava lendo um livro do Joseph Campbell que uma amiga estava carregando por algum motivo, é a clássica entrevista "O Poder do Mito"; em poucas linhas e em algumas poucas respostas, Joseph Campbell demonstra mais sabedoria do que todos os teólogos e ateístas jamais poderiam.
Com uma franqueza impossível para quem tem que escolher um lado em um debate, ele expõe o problema de um modo que interpreto da seguinte forma (haverá um momento em que eu deixo de interpretar o Campbell e passo a explorar como eu vejo as coisas, mas eu nem saberia dizer aonde é):
Nós vivemos em uma sociedade sem mitos, isso não significa apenas uma sociedade sem religião, mas significa que nós perdemos nossa capacidade de ter uma vida que é ao mesmo tempo subjetiva e coletiva. Nós perdemos um elo *dado de fora* com o qual podemos olhar *para dentro*, isso faz com que percamos uma ligação com a sociedade e suas leis, disso vem algum conservador e diz que é por isso que precisamos voltar para as tradições, mas isso é um erro, pois a tradição um dia significou algo, mas hoje não significa mais e, portanto, ela não tem mais poder de ser, bem, uma tradição.
Colocando isso em termos desse estúpido debate entre criacionistas e ateus, seria algo do tipo: não é possível ter um sistema ético baseado somente na razão, mas isso não significa que o cristianismo seja a resposta, aliás, não é, já foi, mas não é mais.
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Aqui abrimos a porta pra todo tipo de nonsense new-age, auto-ajuda, "segredos" e coisas do tipo; há esse grande vácuo espiritual na nossa sociedade e todo mundo está desesperado para preenchê-lo, do ateu que diz poder desenvolver um silogismo ético até, bem, eu, nesse blog, dizendo besteiras pra qualquer um besta o bastante pra dar atenção.
Esse tal vazio é basicamente uma descrição do niilismo; Joseph Campbell diz também no livro que acha errado falar que as pessoas buscam um "sentido pra vida"; que seria mais correto dizer que elas buscam a experiência de estarem vivas, de sentir que sua passagem pelo planeta está sendo de fato sentida; lembro de uma professora de português do colégio, enquanto eu choramingava alguma maldade feita a mim, ela me disse: "ignora essas pessoas, elas só passam pela vida" e acho que o sentido é mais ou menos esse; quem para pra pensar sobre a vida, não busca exatamente um sentido, um motivo, uma causa final ou um propósito, mas é exatamente a experiência de estar vivo.
Isso é muito visível nessa tentativa estúpida de hedonismo que existe entre as pessoas moderninhas de São Paulo - as pessoas dedicam tempo e esforço para terem as maiores experiências, não só sexuais (embora em grande parte sexuais), mas querem estar perto de alguém famoso para tentar pegar um pouco da grandeza deles, querem estar atualizadas sobre os "assuntos do momento" - o desejo de querer estar na moda é algo muito importante; é o desejo de querer fazer parte do presente, existe esse sentimento enorme em toda cena de vanguarda de uma metrópole qualquer, essa coisa de dizer "faço parte do hoje", um medo de envelhecer e perceber que ocorreu algo de importante no passado, mas que você não experimentou e esse, acredito, é um desejo muito positivo da nossa era atual; é uma tentativa, falída que seja, de se conectar com o mundo, de fugir do solipsismo, de chegar aos 30 anos com um sentimento de que viveu nessa época, esteve nesse lugar, foi parte dessa coisa grotesca que chamamos "mundo" - mas afinal, é pouco; hedonismo descontrolado é algo parecido com euforia, é ótimo enquanto dura, mas sabemos que não dura, é basicamente o que fez Epicuro tão importante e Aristipo de Cirene uma figura mais obscura; Aristipo oferecia um momento de êxtase e Epicuro uma vida de prazer, ambos eram hedonistas, mas um bom hedonista tem que reconhecer a diferença entre euforia e uma vida prazerosa; "it's better to burn out than to fade away" é euforia, é experimentar a vida em qualidade em troca da quantidade, é um caminho que eu respeito, mais do que algum tipo de vida monástica, mas é um jogo perigoso - e se após trocar uma vida por um momento de êxtase você perceber que - blé - não era tudo isso? E no fim, acredito que não seja mesmo, uma vida razoavelmente chata tem sua cota de cerveja e sexo, não preciso me tornar um rockstar suicida para isso.
Único atrativo que eu vejo nesse estilo de vida é o dinheiro, really; é que nem aquele lance do Forest Gump: "ele disse que não preciso mais me preocupar com dinheiro, o que é bom porque é uma coisa a menos pra se preocupar".
Uma vida prazeirosa, por outro lado, também tem seus riscos, acho que o maior deles é que ela pode se tornar frustrante, acredito que a vida tende ao sofrimento, nesse sentido dou mais valor ao cristianismo que ensina a aceitar o sofrimento ou ao estoicismo que ensina a suportá-lo do que ao epicurismo que tenta simplesmente evitá-lo, num balanço interessante, acredito que as três doutrinas sacrificam os momentos de êxtase; o epicurismo porque, afinal, o êxtase leva ao sofrimento, para os cristãos, o êxtase é uma promessa para o além-vida, essa se baseia em aguentar sofrimento e pedir perdão pelo pecado original, já o estoicismo é indiferente, nem sei mais o que dizer.
Quando o epicurista perde sua capacidade de ter êxtase, seu hedonismo perde algo de propósito, o epicurista bem sucedido não sofre, mas muito parecido com um estóico, também não sente.
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Experimentar o mundo é, afinal de contas, algo de misterioso, acredito nesse sentido em algum número de coisas:
O primeiro se baseia na minha concepção da mente humana - acredito que a mente não é um algo dentro do cérebro ou fora do mundo material, não é uma "coisa" que recebe dados ou impõe formas, aquilo que entendemos como "mente" tem que ser algo *depois* das formas, pois se as formas condicionam todo pensamento, então condicionam também os pensamentos a respeito do que as causa, logo todo pensamento é já um fenômeno e todo "puro a priori" é um X, uma tal coisa-em-si tal qual aquilo "além" dos dados sensíveis - toda nossa experiência começa, bem, com a própria experiência, não há como saber o que exatamente causa nossa experiência, podemos apenas rezar que nossos cérebros entendam os sinais de modo razoavelmente igual para que possamos nos comunicar.
Daí vem que eu tenho uma concepção razoavelmente intersubjetiva da mente, ela não é uma coisa dentro da minha ou da sua cabeça que se desenvolve de modo parecido, mas é algo que ambos construímos ao mesmo tempo quando experimentamos o mesmo mundo e nos comunicamos, existe algo de puramente subjetivo no "eu" e existe algo de puramente objetivo no mundo, mas um está aquém da experiência e outro está além, então basicamente vivemos nessa mútua construção.
Isso não é dizer que a ciência é algo verdadeiro simplesmente porque concordamos nela, ciência é essa coisa que funciona mesmo que a gente não goste ou não entenda, o método científico, in a nutshell, consiste em expulsar o máximo de subjetividade que existe e encontrar o que é de mais objetivo, não consigo pensar em nada que seja mais útil do que a ciência, mas não consigo pensar nela como algo muito além de utilidade - certamente que o método científico nos traz conhecimento, mas é sempre aquela pergunta sobre que tipo de conhecimento é esse; a ciência, afinal, não é diferente de qualquer tipo de doutrina, ela quer ser totalizante e o que está fora do seu método, ela ou adapta e traduz para seus termos ou diz que é besteira e não devemos pensar nessas coisas.
Uma dessas coisas é a tal "vida interior" da qual Joseph Campbell fala - de acordo com o que eu acredito sobre a mente humana, não consigo conceber uma vida interior como algo solitário - é uma vida no mundo, logo a importância dos mitos e tradições serem realizações sociais e coletivas, uma rica vida interior não se baseia em trancar-se em si mesmo, isso seria trancar-se na sua memória de como o mundo era antes de se trancar.
A ciência, como empreitada objetificante, elimina essa "vida interior"; ela o traduz em muitos termos - antropológicos, neurológicos, de acordo com a psicanálise de freud, com a filosofia agostiniana, com a psicologia evolutiva - enfim, são muitos os meios que um estudioso tenta objetificar a experiência e de seus próprios pontos de vista, todas as áreas do conhecimento podem dizer algo a respeito disso, mas tenho que me perguntar se mesmo uma injeção que duplique completamente o cérebro de um verdadeiro cristão durante o auge de seu êxtase espiritual me faria sentir a mesma coisa que ele, me conectaria comigo mesmo e com o mundo da mesma forma que ele se conecta - no fim, há muita conversa hoje em dia sobre cérebros que nos enganam, o biólogo diz que nos apaixonamos porque nosso cérebro nos engana no nosso impulso sexual e o físico diz que vejo minha mão de tal forma e não como caóticas particulas elementares porque meu cérebro me engana e me mostra minha mão dessa forma - isso é um juízo interessante, no qual eu concordo e vou além (seu cérebro também te engana quando você analisa um gene ou uma particula elementar, somos escravos dessa gosma laranja - se é que é uma gosma - se é que é laranja - se é que é matéria) - mas é, num geral, um juízo um pouco inútil, que o fato de eu precisar de algum tipo de espiritualidade social para experimentar o mundo em algum tipo de totalidade satisfatória seja apenas uma artimanha desse meu cérebro sacana não muda o fato de que "preciso de uma espiritualidade, etc.", entender esse fenômeno de um ponto de vista objetivo é algo tão incrivelmente distinto de entender esse fenômeno de um ponto de vista subjetivo que sempre temos aquela pergunta sobre quem entende mais sobre espiritualidado: o erudito antropólogo ou o humilde crente? Um sabe em detalhes as forças primordiais que o cristianismo invoca para levá-lo a um estado de plenitude; o outro se sente pleno, não só isso, ele compreende as forças primordiais de um modo que a linguagem não pode descrever - isso quebra os limites do conhecimento, seja físico, seja metafísico; é, aliás, a grande maldição da metafísica - ela precisa de palavras, mas oras, seu objeto não pode ser descrito.
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Então temos uma questão interessante que sabota a si própria: como construir uma tradição intersubjetiva que nos conecte uns aos outros se o próprio pensar em "como" nos tira de uma ignorância necessária para que tratemos o assunto como experiência espiritual oposto a entendimento objetivo?
Os cientificistas e niilistas (bichos bem distintos, vale lembrar) têm suas resposta: o cientificista geralmente tenta desenhar uma ética racionalista, um conjunto de "deves...pois...logo" que num geral é algum tipo de ideologia, algum cristianismo sem o entulho mitológico ("seja bom com os outros, mas pode fazer sexo"), tem algum número de falhas inerentes:
Primeiro é que argumentos, num geral, podem ser disputados - acredito que nenhuma ética deva ser eterna, mas o juíz deve ser o tempo e não um argumento, certas coisas irracionais "fazem sentido" numa época e de fato ajudam a manter a lei e a ordem, me pergunto, nesse sentido, como que um ateu faz se chega a conclusão que Deus é "um imperativo moral", ou seja, se sem a crença em Deus não há moral; por uma coincidência mágica do destino, não há um ateu no sistema solar que acredite nisso - eu entendo isso em alguns casos - por exemplo, eu considero deus como um postulado moral, mas eu não vejo necessidade para esse postulado moral, logo sou ateu; primeiro vem a ética e depois o ateísmo - mas o contrário me pertuba, quer dizer que você acordou e pensou "não acredito em deus por causa do big bang" e aí magicamente a ética aconteceu de, por alguma alegria do destino, entrar em acordo com sua não-crença?
Segundo é que isso não nos afeta, não conheço uma ética racionalista que não pode ser vencida pelo egoísmo; afinal, acho que a única ética racionalista que presta é o egoísmo racional da Ayn Rand, ao menos ele é honesto, ao menos ele não pega algum imperativo cristão ("seja bom com os outros") e finge que há uma justificativa racional pra isso, porque se eu *sei* que algo é errado, mas não *sinto* que algo é errado, eu sempre posso convenientemente esquecer esse "eu sei", passar a perna no meu vizinho e roubar o videogame dele, pra "voltar a saber" depois. Num geral, acho que nenhuma racionalidade vence a pergunta: "Se eu posso ganhar algo prejudicando outro sem ser punido, porque eu não faria?", a única resposta é convencer o sujeito que através de uma complexa cadeia holística social, um ato de desonestida também o prejudica, mas eu sempre posso responder isso com "ok, roubo meu vizinho e me mudo pra cidade vizinha, que não foi prejudicada pelo meu ato de desonestidade"; enfim, me pergunto o quanto uma sociedade pode sobreviver baseada no egoísmo.
Nesse sentido, não acredito que deus é um postulado moral necessário, acredito sim que é preciso algo que nos faça "sentir" a diferença entre certo e errado como um postulado moral, mas não é o deus cristão.
Essa é, num geral, minha maior crítica à igreja católica: é uma mitologia que não nos afeta, não nos faz sentir nada, é uma tradição sem propósito; se eu tivesse que deixar de ser ateu hoje, seria católico, por algum motivo acho que é a religião mais evoluída que temos, mas como um bom contemporâneo, Jesus é, para mim, uma curiosidade histórica e cultural, não sinto seu sofrimento, logo não posso ser católico; acredito que a maioria dos católicos, num momento de honestidade, concordaria comigo, seus rituais são burocráticos, vazios de sentimento.
As igrejas evangélicas todas são piores, elas enxergam em Jesus não como um companheiro no sofrimento, mas como um tipo de papai noel; alguém que te dá presentes se for bonzinho, é uma piada do que costumava ser uma bela tradição.
Alguém me diz "Rodrigo, você não tem medo do poder político da igreja" e eu respondo "mas é claro, só que eu tenho medo de *qualquer* medo político! Essa gente que faz leis! São todos doidos armados querendo me jogar na prisão por algum motivo ou por outro! Não conheço um projeto moral-legislativo que não me faria apodrecer na cadeia!"
Os conservadores religiosos de fato apresentam todo tipo de risco para a liberdade, mas também o fazem os socialistas ateus e os socialistas religiosos e, oras bolas, até os conservadores ateus, se existe algum por aí, mas não perco meu sono porque alguma escola em algum canto do Texas está ensinando criacionismo, no fim, quem comanda a aula é o professor, se ele for obrigado, por alguma lei estúpida, a falar sobre criacionismo, então resuma o conteúdo em uma frase: "então, existe essa gente que acredita que o universo é fruto de uma consciência inteligente, isso acontece porque eles julgam que o universo é demasiado complexo para ter sido criado pelas leis da física apenas, não há provas empíricas de tal consciência inteligente, por isso não é possível estudá-la a fundo, mas é uma concepção metafísica válida e seu professor de filosofia está na sala ao lado" e eis que o Rodrigo cai triste vítima de sua própria argumentação (que nunca digam que sou egoísta).
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O que acontece, então, é que perdemos a capacidade de criar sentimentos éticos por meio de alguma expressão mitológica, isso vem da nossa perdida capacidade de criar, por meio de uma doutrina, uma experiência de vida - não há algo que nos dá uma vida interior rica o bastante para ser compartilhada com os outros e, dessa vida interior em comum, se derivar uma ética qualquer.
Um problema, acredito, é que toda ética quer já nascer como ética, enquanto que o "certo e errado" não é algo que vem primeiro e o sentimento ético depois; primeiro nós temos um sentimento em comum, depois nomeamos esse sentimento comum de "certo", de fato, isso acontece o tempo todo, toda tribo urbana tem um conjunto ético, alguns é "ético" no sentido de "caminho para a felicidade", ou seja, é isso que dá prazer, é isso que te faz "mais profundo", é isso que te garante que sua vida está sendo de fato vivida ao invés de desperdiçada; outras tem éticas que dizem a respeito do certo e do errado - há essas coisas, raramente algum "ético" (seja um religioso ou um racionalista) denomina ética - o religioso diz que por não ter nascido de uma revelação espiritual, essas crianças são imbecis; o racionalista diz que por não ter nascido de um argumento, essas crianças são imbecis; o políticos diz que por não englobar toda a sociedade, essas crianças são imbecis e o legislador diz que por envolver atos ilícitos, essas crianças são imbecis até que provado o contrário; até o Rodrigo, tão defensor da juventude, acha essas crianças imbecis por algum motivo a ser exposto a seguir.
É sempre questionável se essas tribos urbanas podem produzir algo que garanta uma existência boa, significativa; acho que o próprio fato de existir tanta gente com medo de deixar de ser adolescente - e deprimido quando deixa - significa que essas éticas falham; por outro lado, grupos que promovem violência são falhos logo de cara, pois se você não consegue viver em sociedade, então não adianta matar todo mundo que te desagrada, isso vale para grupelhos e para estados - ou o violento tolera o desagradável ou a sociedade tem que eliminar o violento para prevenir uma guerra civil, queria elaborar nesse assunto, mas esse post está longo e eu estou com frio.
O que nos falta, então, não parece mais uma capacidade de criar sentimento ético (como eu disse há dois paragrafos atrás), mas sim de criar um sentimento amplo o bastante para absorver não só toda a sociedade, como também todos os estágios da vida (o que, no fundo, é a mesma coisa).
Então os jovens criam uma ética "dos jovens" e se tornam eternos adolescentes, de fato, sem meios de se tornar adultos; os adultos, por outro lado, se baseiam em conveniências sociais (ganhar dinheiro), medo da legislação e tradição falida; enquanto os jovens tem éticas falhas, os adultos não têm ética, ponto, suas vidas são infelizes, são desonestos a cada oportunidade, não experimentam, não refletem, não vivem; um adulto, acredito, deveria ser o arquétipo de algo que, como jovem, nos preparamos para ser, pelo contrário, o adulto atual é um vazio, não é surpresa, desse ponto de vista, que os jovens queiram ser eternamente adolescentes; se tornar um adulto não é se tornar algo, é deixar de ser algo que é; é perder todo pequeno traço de comunidade, felicidade e eticidade para se tornar uma alienada engrenagem cuja única esperança de felicidade é poder imitar um adolescente no fim de semana (curiosidade: conversando com meu pai, ele disse, tristemente empolgado, que estava saindo para o forró e o para show country e pareceu levemente desapontado quando tive que repetir pra ele *duas vezes* que não tenho saído pra balada, que tenho gastado todo meu dinheiro com livro).
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Então, no fim, talvez o que falte é que consigamos fazer com que esse nosso sentimento ético que já se desenvolve naturalmente na adolescência também englobar as outras etapas da vida, de novo, perguntar "como se faz isso" é uma pergunta se auto-sabota; mas acho que na imagem do profissional liberal e criativo está um pequeno indício de como será esse adulto arquétipo do futuro; mas o importante a se lembrar é que estamos em um momento em que estamos nos separando de uma tradição de 1000 anos, montar uma nova mitologia tem que ser algo confuso e difícil, senão não seria algo capaz de nos guiar novamente por outros 1000 anos, o próprio cristianismo demorou pelo menos 3 séculos pra se estabilizar, entre as pregações de Paulo, as trilhões de seitas gnósticas (no sentido de gnose, não sei se a palavra é certa) e o homogenia da santa igreja pela Europa, foi aí muito tempo, trabalho, debate, confusão e guerra.
Enfim, confio na ciência para resolver nossos problemas materiais e confio na nossa capacidade de contar histórias para resolver nossos problemas espirituais, além disso, confio na filosofia como ferramente crítica capaz de demonstrar quais os potenciais e limites de qualquer nova ciência e de qualquer nova mitologia.
Yep, esse é o Rodrigo, um cara otimista.
Com uma franqueza impossível para quem tem que escolher um lado em um debate, ele expõe o problema de um modo que interpreto da seguinte forma (haverá um momento em que eu deixo de interpretar o Campbell e passo a explorar como eu vejo as coisas, mas eu nem saberia dizer aonde é):
Nós vivemos em uma sociedade sem mitos, isso não significa apenas uma sociedade sem religião, mas significa que nós perdemos nossa capacidade de ter uma vida que é ao mesmo tempo subjetiva e coletiva. Nós perdemos um elo *dado de fora* com o qual podemos olhar *para dentro*, isso faz com que percamos uma ligação com a sociedade e suas leis, disso vem algum conservador e diz que é por isso que precisamos voltar para as tradições, mas isso é um erro, pois a tradição um dia significou algo, mas hoje não significa mais e, portanto, ela não tem mais poder de ser, bem, uma tradição.
Colocando isso em termos desse estúpido debate entre criacionistas e ateus, seria algo do tipo: não é possível ter um sistema ético baseado somente na razão, mas isso não significa que o cristianismo seja a resposta, aliás, não é, já foi, mas não é mais.
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Aqui abrimos a porta pra todo tipo de nonsense new-age, auto-ajuda, "segredos" e coisas do tipo; há esse grande vácuo espiritual na nossa sociedade e todo mundo está desesperado para preenchê-lo, do ateu que diz poder desenvolver um silogismo ético até, bem, eu, nesse blog, dizendo besteiras pra qualquer um besta o bastante pra dar atenção.
Esse tal vazio é basicamente uma descrição do niilismo; Joseph Campbell diz também no livro que acha errado falar que as pessoas buscam um "sentido pra vida"; que seria mais correto dizer que elas buscam a experiência de estarem vivas, de sentir que sua passagem pelo planeta está sendo de fato sentida; lembro de uma professora de português do colégio, enquanto eu choramingava alguma maldade feita a mim, ela me disse: "ignora essas pessoas, elas só passam pela vida" e acho que o sentido é mais ou menos esse; quem para pra pensar sobre a vida, não busca exatamente um sentido, um motivo, uma causa final ou um propósito, mas é exatamente a experiência de estar vivo.
Isso é muito visível nessa tentativa estúpida de hedonismo que existe entre as pessoas moderninhas de São Paulo - as pessoas dedicam tempo e esforço para terem as maiores experiências, não só sexuais (embora em grande parte sexuais), mas querem estar perto de alguém famoso para tentar pegar um pouco da grandeza deles, querem estar atualizadas sobre os "assuntos do momento" - o desejo de querer estar na moda é algo muito importante; é o desejo de querer fazer parte do presente, existe esse sentimento enorme em toda cena de vanguarda de uma metrópole qualquer, essa coisa de dizer "faço parte do hoje", um medo de envelhecer e perceber que ocorreu algo de importante no passado, mas que você não experimentou e esse, acredito, é um desejo muito positivo da nossa era atual; é uma tentativa, falída que seja, de se conectar com o mundo, de fugir do solipsismo, de chegar aos 30 anos com um sentimento de que viveu nessa época, esteve nesse lugar, foi parte dessa coisa grotesca que chamamos "mundo" - mas afinal, é pouco; hedonismo descontrolado é algo parecido com euforia, é ótimo enquanto dura, mas sabemos que não dura, é basicamente o que fez Epicuro tão importante e Aristipo de Cirene uma figura mais obscura; Aristipo oferecia um momento de êxtase e Epicuro uma vida de prazer, ambos eram hedonistas, mas um bom hedonista tem que reconhecer a diferença entre euforia e uma vida prazerosa; "it's better to burn out than to fade away" é euforia, é experimentar a vida em qualidade em troca da quantidade, é um caminho que eu respeito, mais do que algum tipo de vida monástica, mas é um jogo perigoso - e se após trocar uma vida por um momento de êxtase você perceber que - blé - não era tudo isso? E no fim, acredito que não seja mesmo, uma vida razoavelmente chata tem sua cota de cerveja e sexo, não preciso me tornar um rockstar suicida para isso.
Único atrativo que eu vejo nesse estilo de vida é o dinheiro, really; é que nem aquele lance do Forest Gump: "ele disse que não preciso mais me preocupar com dinheiro, o que é bom porque é uma coisa a menos pra se preocupar".
Uma vida prazeirosa, por outro lado, também tem seus riscos, acho que o maior deles é que ela pode se tornar frustrante, acredito que a vida tende ao sofrimento, nesse sentido dou mais valor ao cristianismo que ensina a aceitar o sofrimento ou ao estoicismo que ensina a suportá-lo do que ao epicurismo que tenta simplesmente evitá-lo, num balanço interessante, acredito que as três doutrinas sacrificam os momentos de êxtase; o epicurismo porque, afinal, o êxtase leva ao sofrimento, para os cristãos, o êxtase é uma promessa para o além-vida, essa se baseia em aguentar sofrimento e pedir perdão pelo pecado original, já o estoicismo é indiferente, nem sei mais o que dizer.
Quando o epicurista perde sua capacidade de ter êxtase, seu hedonismo perde algo de propósito, o epicurista bem sucedido não sofre, mas muito parecido com um estóico, também não sente.
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Experimentar o mundo é, afinal de contas, algo de misterioso, acredito nesse sentido em algum número de coisas:
O primeiro se baseia na minha concepção da mente humana - acredito que a mente não é um algo dentro do cérebro ou fora do mundo material, não é uma "coisa" que recebe dados ou impõe formas, aquilo que entendemos como "mente" tem que ser algo *depois* das formas, pois se as formas condicionam todo pensamento, então condicionam também os pensamentos a respeito do que as causa, logo todo pensamento é já um fenômeno e todo "puro a priori" é um X, uma tal coisa-em-si tal qual aquilo "além" dos dados sensíveis - toda nossa experiência começa, bem, com a própria experiência, não há como saber o que exatamente causa nossa experiência, podemos apenas rezar que nossos cérebros entendam os sinais de modo razoavelmente igual para que possamos nos comunicar.
Daí vem que eu tenho uma concepção razoavelmente intersubjetiva da mente, ela não é uma coisa dentro da minha ou da sua cabeça que se desenvolve de modo parecido, mas é algo que ambos construímos ao mesmo tempo quando experimentamos o mesmo mundo e nos comunicamos, existe algo de puramente subjetivo no "eu" e existe algo de puramente objetivo no mundo, mas um está aquém da experiência e outro está além, então basicamente vivemos nessa mútua construção.
Isso não é dizer que a ciência é algo verdadeiro simplesmente porque concordamos nela, ciência é essa coisa que funciona mesmo que a gente não goste ou não entenda, o método científico, in a nutshell, consiste em expulsar o máximo de subjetividade que existe e encontrar o que é de mais objetivo, não consigo pensar em nada que seja mais útil do que a ciência, mas não consigo pensar nela como algo muito além de utilidade - certamente que o método científico nos traz conhecimento, mas é sempre aquela pergunta sobre que tipo de conhecimento é esse; a ciência, afinal, não é diferente de qualquer tipo de doutrina, ela quer ser totalizante e o que está fora do seu método, ela ou adapta e traduz para seus termos ou diz que é besteira e não devemos pensar nessas coisas.
Uma dessas coisas é a tal "vida interior" da qual Joseph Campbell fala - de acordo com o que eu acredito sobre a mente humana, não consigo conceber uma vida interior como algo solitário - é uma vida no mundo, logo a importância dos mitos e tradições serem realizações sociais e coletivas, uma rica vida interior não se baseia em trancar-se em si mesmo, isso seria trancar-se na sua memória de como o mundo era antes de se trancar.
A ciência, como empreitada objetificante, elimina essa "vida interior"; ela o traduz em muitos termos - antropológicos, neurológicos, de acordo com a psicanálise de freud, com a filosofia agostiniana, com a psicologia evolutiva - enfim, são muitos os meios que um estudioso tenta objetificar a experiência e de seus próprios pontos de vista, todas as áreas do conhecimento podem dizer algo a respeito disso, mas tenho que me perguntar se mesmo uma injeção que duplique completamente o cérebro de um verdadeiro cristão durante o auge de seu êxtase espiritual me faria sentir a mesma coisa que ele, me conectaria comigo mesmo e com o mundo da mesma forma que ele se conecta - no fim, há muita conversa hoje em dia sobre cérebros que nos enganam, o biólogo diz que nos apaixonamos porque nosso cérebro nos engana no nosso impulso sexual e o físico diz que vejo minha mão de tal forma e não como caóticas particulas elementares porque meu cérebro me engana e me mostra minha mão dessa forma - isso é um juízo interessante, no qual eu concordo e vou além (seu cérebro também te engana quando você analisa um gene ou uma particula elementar, somos escravos dessa gosma laranja - se é que é uma gosma - se é que é laranja - se é que é matéria) - mas é, num geral, um juízo um pouco inútil, que o fato de eu precisar de algum tipo de espiritualidade social para experimentar o mundo em algum tipo de totalidade satisfatória seja apenas uma artimanha desse meu cérebro sacana não muda o fato de que "preciso de uma espiritualidade, etc.", entender esse fenômeno de um ponto de vista objetivo é algo tão incrivelmente distinto de entender esse fenômeno de um ponto de vista subjetivo que sempre temos aquela pergunta sobre quem entende mais sobre espiritualidado: o erudito antropólogo ou o humilde crente? Um sabe em detalhes as forças primordiais que o cristianismo invoca para levá-lo a um estado de plenitude; o outro se sente pleno, não só isso, ele compreende as forças primordiais de um modo que a linguagem não pode descrever - isso quebra os limites do conhecimento, seja físico, seja metafísico; é, aliás, a grande maldição da metafísica - ela precisa de palavras, mas oras, seu objeto não pode ser descrito.
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Então temos uma questão interessante que sabota a si própria: como construir uma tradição intersubjetiva que nos conecte uns aos outros se o próprio pensar em "como" nos tira de uma ignorância necessária para que tratemos o assunto como experiência espiritual oposto a entendimento objetivo?
Os cientificistas e niilistas (bichos bem distintos, vale lembrar) têm suas resposta: o cientificista geralmente tenta desenhar uma ética racionalista, um conjunto de "deves...pois...logo" que num geral é algum tipo de ideologia, algum cristianismo sem o entulho mitológico ("seja bom com os outros, mas pode fazer sexo"), tem algum número de falhas inerentes:
Primeiro é que argumentos, num geral, podem ser disputados - acredito que nenhuma ética deva ser eterna, mas o juíz deve ser o tempo e não um argumento, certas coisas irracionais "fazem sentido" numa época e de fato ajudam a manter a lei e a ordem, me pergunto, nesse sentido, como que um ateu faz se chega a conclusão que Deus é "um imperativo moral", ou seja, se sem a crença em Deus não há moral; por uma coincidência mágica do destino, não há um ateu no sistema solar que acredite nisso - eu entendo isso em alguns casos - por exemplo, eu considero deus como um postulado moral, mas eu não vejo necessidade para esse postulado moral, logo sou ateu; primeiro vem a ética e depois o ateísmo - mas o contrário me pertuba, quer dizer que você acordou e pensou "não acredito em deus por causa do big bang" e aí magicamente a ética aconteceu de, por alguma alegria do destino, entrar em acordo com sua não-crença?
Segundo é que isso não nos afeta, não conheço uma ética racionalista que não pode ser vencida pelo egoísmo; afinal, acho que a única ética racionalista que presta é o egoísmo racional da Ayn Rand, ao menos ele é honesto, ao menos ele não pega algum imperativo cristão ("seja bom com os outros") e finge que há uma justificativa racional pra isso, porque se eu *sei* que algo é errado, mas não *sinto* que algo é errado, eu sempre posso convenientemente esquecer esse "eu sei", passar a perna no meu vizinho e roubar o videogame dele, pra "voltar a saber" depois. Num geral, acho que nenhuma racionalidade vence a pergunta: "Se eu posso ganhar algo prejudicando outro sem ser punido, porque eu não faria?", a única resposta é convencer o sujeito que através de uma complexa cadeia holística social, um ato de desonestida também o prejudica, mas eu sempre posso responder isso com "ok, roubo meu vizinho e me mudo pra cidade vizinha, que não foi prejudicada pelo meu ato de desonestidade"; enfim, me pergunto o quanto uma sociedade pode sobreviver baseada no egoísmo.
Nesse sentido, não acredito que deus é um postulado moral necessário, acredito sim que é preciso algo que nos faça "sentir" a diferença entre certo e errado como um postulado moral, mas não é o deus cristão.
Essa é, num geral, minha maior crítica à igreja católica: é uma mitologia que não nos afeta, não nos faz sentir nada, é uma tradição sem propósito; se eu tivesse que deixar de ser ateu hoje, seria católico, por algum motivo acho que é a religião mais evoluída que temos, mas como um bom contemporâneo, Jesus é, para mim, uma curiosidade histórica e cultural, não sinto seu sofrimento, logo não posso ser católico; acredito que a maioria dos católicos, num momento de honestidade, concordaria comigo, seus rituais são burocráticos, vazios de sentimento.
As igrejas evangélicas todas são piores, elas enxergam em Jesus não como um companheiro no sofrimento, mas como um tipo de papai noel; alguém que te dá presentes se for bonzinho, é uma piada do que costumava ser uma bela tradição.
Alguém me diz "Rodrigo, você não tem medo do poder político da igreja" e eu respondo "mas é claro, só que eu tenho medo de *qualquer* medo político! Essa gente que faz leis! São todos doidos armados querendo me jogar na prisão por algum motivo ou por outro! Não conheço um projeto moral-legislativo que não me faria apodrecer na cadeia!"
Os conservadores religiosos de fato apresentam todo tipo de risco para a liberdade, mas também o fazem os socialistas ateus e os socialistas religiosos e, oras bolas, até os conservadores ateus, se existe algum por aí, mas não perco meu sono porque alguma escola em algum canto do Texas está ensinando criacionismo, no fim, quem comanda a aula é o professor, se ele for obrigado, por alguma lei estúpida, a falar sobre criacionismo, então resuma o conteúdo em uma frase: "então, existe essa gente que acredita que o universo é fruto de uma consciência inteligente, isso acontece porque eles julgam que o universo é demasiado complexo para ter sido criado pelas leis da física apenas, não há provas empíricas de tal consciência inteligente, por isso não é possível estudá-la a fundo, mas é uma concepção metafísica válida e seu professor de filosofia está na sala ao lado" e eis que o Rodrigo cai triste vítima de sua própria argumentação (que nunca digam que sou egoísta).
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O que acontece, então, é que perdemos a capacidade de criar sentimentos éticos por meio de alguma expressão mitológica, isso vem da nossa perdida capacidade de criar, por meio de uma doutrina, uma experiência de vida - não há algo que nos dá uma vida interior rica o bastante para ser compartilhada com os outros e, dessa vida interior em comum, se derivar uma ética qualquer.
Um problema, acredito, é que toda ética quer já nascer como ética, enquanto que o "certo e errado" não é algo que vem primeiro e o sentimento ético depois; primeiro nós temos um sentimento em comum, depois nomeamos esse sentimento comum de "certo", de fato, isso acontece o tempo todo, toda tribo urbana tem um conjunto ético, alguns é "ético" no sentido de "caminho para a felicidade", ou seja, é isso que dá prazer, é isso que te faz "mais profundo", é isso que te garante que sua vida está sendo de fato vivida ao invés de desperdiçada; outras tem éticas que dizem a respeito do certo e do errado - há essas coisas, raramente algum "ético" (seja um religioso ou um racionalista) denomina ética - o religioso diz que por não ter nascido de uma revelação espiritual, essas crianças são imbecis; o racionalista diz que por não ter nascido de um argumento, essas crianças são imbecis; o políticos diz que por não englobar toda a sociedade, essas crianças são imbecis e o legislador diz que por envolver atos ilícitos, essas crianças são imbecis até que provado o contrário; até o Rodrigo, tão defensor da juventude, acha essas crianças imbecis por algum motivo a ser exposto a seguir.
É sempre questionável se essas tribos urbanas podem produzir algo que garanta uma existência boa, significativa; acho que o próprio fato de existir tanta gente com medo de deixar de ser adolescente - e deprimido quando deixa - significa que essas éticas falham; por outro lado, grupos que promovem violência são falhos logo de cara, pois se você não consegue viver em sociedade, então não adianta matar todo mundo que te desagrada, isso vale para grupelhos e para estados - ou o violento tolera o desagradável ou a sociedade tem que eliminar o violento para prevenir uma guerra civil, queria elaborar nesse assunto, mas esse post está longo e eu estou com frio.
O que nos falta, então, não parece mais uma capacidade de criar sentimento ético (como eu disse há dois paragrafos atrás), mas sim de criar um sentimento amplo o bastante para absorver não só toda a sociedade, como também todos os estágios da vida (o que, no fundo, é a mesma coisa).
Então os jovens criam uma ética "dos jovens" e se tornam eternos adolescentes, de fato, sem meios de se tornar adultos; os adultos, por outro lado, se baseiam em conveniências sociais (ganhar dinheiro), medo da legislação e tradição falida; enquanto os jovens tem éticas falhas, os adultos não têm ética, ponto, suas vidas são infelizes, são desonestos a cada oportunidade, não experimentam, não refletem, não vivem; um adulto, acredito, deveria ser o arquétipo de algo que, como jovem, nos preparamos para ser, pelo contrário, o adulto atual é um vazio, não é surpresa, desse ponto de vista, que os jovens queiram ser eternamente adolescentes; se tornar um adulto não é se tornar algo, é deixar de ser algo que é; é perder todo pequeno traço de comunidade, felicidade e eticidade para se tornar uma alienada engrenagem cuja única esperança de felicidade é poder imitar um adolescente no fim de semana (curiosidade: conversando com meu pai, ele disse, tristemente empolgado, que estava saindo para o forró e o para show country e pareceu levemente desapontado quando tive que repetir pra ele *duas vezes* que não tenho saído pra balada, que tenho gastado todo meu dinheiro com livro).
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Então, no fim, talvez o que falte é que consigamos fazer com que esse nosso sentimento ético que já se desenvolve naturalmente na adolescência também englobar as outras etapas da vida, de novo, perguntar "como se faz isso" é uma pergunta se auto-sabota; mas acho que na imagem do profissional liberal e criativo está um pequeno indício de como será esse adulto arquétipo do futuro; mas o importante a se lembrar é que estamos em um momento em que estamos nos separando de uma tradição de 1000 anos, montar uma nova mitologia tem que ser algo confuso e difícil, senão não seria algo capaz de nos guiar novamente por outros 1000 anos, o próprio cristianismo demorou pelo menos 3 séculos pra se estabilizar, entre as pregações de Paulo, as trilhões de seitas gnósticas (no sentido de gnose, não sei se a palavra é certa) e o homogenia da santa igreja pela Europa, foi aí muito tempo, trabalho, debate, confusão e guerra.
Enfim, confio na ciência para resolver nossos problemas materiais e confio na nossa capacidade de contar histórias para resolver nossos problemas espirituais, além disso, confio na filosofia como ferramente crítica capaz de demonstrar quais os potenciais e limites de qualquer nova ciência e de qualquer nova mitologia.
Yep, esse é o Rodrigo, um cara otimista.
segunda-feira, junho 23, 2008
domingo, junho 22, 2008
Sobre ofender a USP
Gente, eu não ofendo o curso de filosofia da USP - seria ofender o não-existente.
Eu ofendo "o clubinho dodói da Marilena".
Mas tudo bem, num geral não existe curso de filosofia no Brasil (talvez no mundo).
Minha faculdade também não tem curso de filosofia, é "a associação ganha-grana dos amigos do Plínio".
Já a PUC é algo tipo "clube esportivo CCCP para milionários" mesmo.
-
E quanto a sociologia, como que eu vou ofender? Não é uma ciência, não é especulação metafísica, não é a priori, nem a posteriori, não é exata, não é humana, ofender a sociologia seria como ofender um quadrado redondo ou um ferro feito de madeira.
Eu ofendo "o clubinho dodói da Marilena".
Mas tudo bem, num geral não existe curso de filosofia no Brasil (talvez no mundo).
Minha faculdade também não tem curso de filosofia, é "a associação ganha-grana dos amigos do Plínio".
Já a PUC é algo tipo "clube esportivo CCCP para milionários" mesmo.
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E quanto a sociologia, como que eu vou ofender? Não é uma ciência, não é especulação metafísica, não é a priori, nem a posteriori, não é exata, não é humana, ofender a sociologia seria como ofender um quadrado redondo ou um ferro feito de madeira.
terça-feira, junho 17, 2008
Que bom seria se pudessemos escolher nossas crenças!
E ainda se tivessemos a sabedoria de escolher apenas aquelas que podemos aguentar!
Tudo o que é fraco no mundo seria cético, com medo de se comprometer a qualquer crença que não pudesse ser vivenciada na sua maior honestidade!
Pois quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pela arrogância de um primeiro homem? Que tudo que existe, existe para o Ser e pelo amor do Ser? Que nenhum segundo de nossa vida poderia ser desperdiçada a não ser amando, sofrendo e pedindo perdão àquele que tudo ama e tudo criou? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno pedir perdão?
E quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pelo nada? Que tudo o que sofremos e amamos e sentimos acontece por causa de um aleatório arranjo de misteriosas particulas elementares que a tudo é indiferente? Que todo sentido, todo propósito, todo objetivo não passa de uma contigência, de uma desculpa, de um auto-engano, que tudo que dizemos "bom" e "mau" são apenas palavras que podem ser utilizadas para descrever qualquer espécie de atrocidade? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno auto-engano de irracionais particulas cegas?
-
Do modo que estamos, entretanto, não somos nós que escolhemos nossas crenças, sustentar uma crença é menos uma força e mais uma fraqueza, cremos quando somos derrotados por algo externo a nós, por uma experiência de vida, por uma revelação espiritual, por um argumento racional.
Ceticismo não é nada menos fraco, é a crença em algo sem a honestidade em admiti-lo.
Que estúpido!
Somos derrotados por coisas que nem conseguimos levar a sério.
Tudo o que é fraco no mundo seria cético, com medo de se comprometer a qualquer crença que não pudesse ser vivenciada na sua maior honestidade!
Pois quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pela arrogância de um primeiro homem? Que tudo que existe, existe para o Ser e pelo amor do Ser? Que nenhum segundo de nossa vida poderia ser desperdiçada a não ser amando, sofrendo e pedindo perdão àquele que tudo ama e tudo criou? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno pedir perdão?
E quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pelo nada? Que tudo o que sofremos e amamos e sentimos acontece por causa de um aleatório arranjo de misteriosas particulas elementares que a tudo é indiferente? Que todo sentido, todo propósito, todo objetivo não passa de uma contigência, de uma desculpa, de um auto-engano, que tudo que dizemos "bom" e "mau" são apenas palavras que podem ser utilizadas para descrever qualquer espécie de atrocidade? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno auto-engano de irracionais particulas cegas?
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Do modo que estamos, entretanto, não somos nós que escolhemos nossas crenças, sustentar uma crença é menos uma força e mais uma fraqueza, cremos quando somos derrotados por algo externo a nós, por uma experiência de vida, por uma revelação espiritual, por um argumento racional.
Ceticismo não é nada menos fraco, é a crença em algo sem a honestidade em admiti-lo.
Que estúpido!
Somos derrotados por coisas que nem conseguimos levar a sério.
quinta-feira, junho 12, 2008
Algum comentário sobre a coluna de Hélio Schwartsman
Primeiro eu tenho que agradecer a Hélio por fazer uma crítica a volta da filosofia sem dizer que o problema é a "doutrinação marxista" (e ainda ressaltar que uma doutrinação teológica é um problema tão presente quanto) e por outro lado por ser sensato ao não atribuir a volta da filosofia um estatuto mágico que vai resolver todos os problemas da educação.
Sim, os problemas da educação brasileira continuam sendo "o profissional não é valorizado", "o professor não estuda" (de fato, quando eu fui fazer atribuição de aula encontrei professores que chamaria de semi-analfabeto sem nenhum peso de consciência), "não há recursos" e coisas do tipo.
Ainda acredito que há outros problemas na educação brasileira, além do professor não se sentir valorizado, o aluno também não tem estimulo para estudar, pois pensa "estou em uma escola pública, logo não passarei em um vestibular bom, logo não terei um bom emprego, logo tanto faz eu estar aqui" e falar em "conhecimento pelo conhecimento" hoje em dia é idiotice nerd, ta achando que conhecimento é o que? Sexo? Videogame? Pff.
Ainda assim, Hélio reflete uma ideologia chatinha dos tempos contemporâneos e como toda boa ideologia (e não essa ideologia de boteco da esquerda que mal convence a eles próprios), ele o faz sem perceber, com a maior naturalidade.
O primeiro é o de colocar a filosofia como uma disciplina qualquer: "O aluno é apresentado a um universo conceitual específico e, depois, nas provas e trabalhos, instado a mostrar como lida com as novas 'ferramentas'."
Ora, se há algo que, desde Kant e, mais fortemente com Husserl e Heidegger, vem acontecendo, é o de separar a filosofia da ciência, na verdade, eu diria que produzir conhecimento filosófico que não se reduza a proto-conhecimento científico é uma das características da filosofia contemporânea; dito isso, a filosofia não pode ser encarada como qualquer outra disciplina.
A filosofia não é uma "ferramenta" como a matemática ou a física; você não a "aplica" aqui e ali com o propósito de "fazer" isso ou aquilo. Foi o que eu disse no post passado, o aluno vai te perguntar "pra que serve?" e a resposta da matemática não serve.
O que Hélio diz reflete a ideologia (que permeia tanto a esquerda quanto a direita, é uma ideologia materialista afinal de contas) de que conhecimento útil é aquele que você pode aplicar na produção de algo, se filosofia não te ajuda a fazer calculadora, então ela tem que ao menos te ajudar a ser ético ou a ser moral ou te dar ferramentas epistemológicas para melhor absorver os conteúdos das matéria que de fato servem pra fazer calculadora, não, o problema aqui é diferente daquele das variações de mercado e, portanto, quem acha que a filosofia vai melhorar o mercado, vai trazer prosperidade econômica, como muita gente a favor da volta da filosofia parece estar achando, melhor pensar em soluções mais economicistas mesmo.
O que a filosofia tem a oferecer, é algo que a civilização muito precisa, que é uma postura crítica em relação a sua experiência de mundo. Isso não vai melhorar os resultados da eleição, não vai fazer calculadoras mais eficientes, me pergunto até se melhora a qualidade de vida pessoal ou social, mas faz seres humanos mais completos, mais aptos a lidar com o mundo, a "pensar por conta própria", não no sentido utilitarista que Hélio propõe (pensar melhor = aprender matemática mais fácil), mas em um sentido mais subjetivo. A filosofia cria desse modo uma parede contra obscurantismos e fanatismos, mas oras, obscurantistas e fanáticos podem ser excelentes trabalhadores, brilhantes pesquisadores e muito bons vizinhos, então a filosofia não serve pra isso ou pra aquilo, ela é o centro da nossa civilização e não há como pensar um ser humano ocidental como alguém que não compreende a filosofia, se não compreende, é vítima dela; é isso que tentamos impedir.
Mais adiante ele diz:
"É preciso passar também algumas referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais. A filosofia é uma boa candidata, mas está longe de ser a única. Por que não história da arte, direito, estatística, psicologia, medicina? O melhor, creio, seria deixar para cada escola definir o que convém mais a seu público."
Aqui ele confunde duas coisas.
Primeiro confunde filosofia com história da filosofia, como algo que dá "referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais", mas tenho que perguntar, existe algo mais estúpido do que dar referência cultural a alguém que não se sente parte da cultura? A alguém que não compreende que esse mundo do qual falamos é o mundo em que ele vive? A alguém que não tem confiança de que esse conhecimento pode ser aplicado na sua vida pelo mero fato de ele não poder ser usado para lhe conseguir um emprego? Estaria melhor ensinando sobre vilões de batman, pelo menos o Batman é alguém que eles respeitam!
A filosofia precisa de fato fazer o aluno notar de que ele é um ocidental, que vive e pensa como ocidental e precisa ter consciência disso para não fazê-lo inconsciente, para pensar por conta própria ao invés de repetir pensamentos criados por humanos como se fossem pensamentos criados por uma luz desprovida de corpo. Isso é algo que só a filosofia pode fazer; confundir filosofia com "história da X" é, em primeiro lugar, confundir filosofia com história da filosofia.
É de fato estúpido achar que conhecimentos histórico vazio (coisa que nem uma boa aula de história é!) tem algum valor senão o de "curiosidades interessantes".
Confundindo isso, ele faz uma segunda confusão, que é o da obrigatoriedade da filosofia com a sua função. Concordo que deveria caber a escola escolher sua grade e não ao MEC, mas tem que ser notado que uma escola que escolha "história da arte" como *substituto* para filosofia, está cometendo uma confusão.
Por fim: "Meu propósito central nesta coluna é mostrar que a volta da filosofia e da sociologia ao ciclo básico não passa nem perto de ser uma solução para a grave crise que a educação enfrenta hoje."
Isso eu concordo e isso ele demonstra razoavelmente bem, então no geral foi uma boa coluna, apesar de que ele faz confusões típicas de alguém que viu muita história da filosofia e pouca filosofia. Deve ter se formado na USP.
Sim, os problemas da educação brasileira continuam sendo "o profissional não é valorizado", "o professor não estuda" (de fato, quando eu fui fazer atribuição de aula encontrei professores que chamaria de semi-analfabeto sem nenhum peso de consciência), "não há recursos" e coisas do tipo.
Ainda acredito que há outros problemas na educação brasileira, além do professor não se sentir valorizado, o aluno também não tem estimulo para estudar, pois pensa "estou em uma escola pública, logo não passarei em um vestibular bom, logo não terei um bom emprego, logo tanto faz eu estar aqui" e falar em "conhecimento pelo conhecimento" hoje em dia é idiotice nerd, ta achando que conhecimento é o que? Sexo? Videogame? Pff.
Ainda assim, Hélio reflete uma ideologia chatinha dos tempos contemporâneos e como toda boa ideologia (e não essa ideologia de boteco da esquerda que mal convence a eles próprios), ele o faz sem perceber, com a maior naturalidade.
O primeiro é o de colocar a filosofia como uma disciplina qualquer: "O aluno é apresentado a um universo conceitual específico e, depois, nas provas e trabalhos, instado a mostrar como lida com as novas 'ferramentas'."
Ora, se há algo que, desde Kant e, mais fortemente com Husserl e Heidegger, vem acontecendo, é o de separar a filosofia da ciência, na verdade, eu diria que produzir conhecimento filosófico que não se reduza a proto-conhecimento científico é uma das características da filosofia contemporânea; dito isso, a filosofia não pode ser encarada como qualquer outra disciplina.
A filosofia não é uma "ferramenta" como a matemática ou a física; você não a "aplica" aqui e ali com o propósito de "fazer" isso ou aquilo. Foi o que eu disse no post passado, o aluno vai te perguntar "pra que serve?" e a resposta da matemática não serve.
O que Hélio diz reflete a ideologia (que permeia tanto a esquerda quanto a direita, é uma ideologia materialista afinal de contas) de que conhecimento útil é aquele que você pode aplicar na produção de algo, se filosofia não te ajuda a fazer calculadora, então ela tem que ao menos te ajudar a ser ético ou a ser moral ou te dar ferramentas epistemológicas para melhor absorver os conteúdos das matéria que de fato servem pra fazer calculadora, não, o problema aqui é diferente daquele das variações de mercado e, portanto, quem acha que a filosofia vai melhorar o mercado, vai trazer prosperidade econômica, como muita gente a favor da volta da filosofia parece estar achando, melhor pensar em soluções mais economicistas mesmo.
O que a filosofia tem a oferecer, é algo que a civilização muito precisa, que é uma postura crítica em relação a sua experiência de mundo. Isso não vai melhorar os resultados da eleição, não vai fazer calculadoras mais eficientes, me pergunto até se melhora a qualidade de vida pessoal ou social, mas faz seres humanos mais completos, mais aptos a lidar com o mundo, a "pensar por conta própria", não no sentido utilitarista que Hélio propõe (pensar melhor = aprender matemática mais fácil), mas em um sentido mais subjetivo. A filosofia cria desse modo uma parede contra obscurantismos e fanatismos, mas oras, obscurantistas e fanáticos podem ser excelentes trabalhadores, brilhantes pesquisadores e muito bons vizinhos, então a filosofia não serve pra isso ou pra aquilo, ela é o centro da nossa civilização e não há como pensar um ser humano ocidental como alguém que não compreende a filosofia, se não compreende, é vítima dela; é isso que tentamos impedir.
Mais adiante ele diz:
"É preciso passar também algumas referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais. A filosofia é uma boa candidata, mas está longe de ser a única. Por que não história da arte, direito, estatística, psicologia, medicina? O melhor, creio, seria deixar para cada escola definir o que convém mais a seu público."
Aqui ele confunde duas coisas.
Primeiro confunde filosofia com história da filosofia, como algo que dá "referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais", mas tenho que perguntar, existe algo mais estúpido do que dar referência cultural a alguém que não se sente parte da cultura? A alguém que não compreende que esse mundo do qual falamos é o mundo em que ele vive? A alguém que não tem confiança de que esse conhecimento pode ser aplicado na sua vida pelo mero fato de ele não poder ser usado para lhe conseguir um emprego? Estaria melhor ensinando sobre vilões de batman, pelo menos o Batman é alguém que eles respeitam!
A filosofia precisa de fato fazer o aluno notar de que ele é um ocidental, que vive e pensa como ocidental e precisa ter consciência disso para não fazê-lo inconsciente, para pensar por conta própria ao invés de repetir pensamentos criados por humanos como se fossem pensamentos criados por uma luz desprovida de corpo. Isso é algo que só a filosofia pode fazer; confundir filosofia com "história da X" é, em primeiro lugar, confundir filosofia com história da filosofia.
É de fato estúpido achar que conhecimentos histórico vazio (coisa que nem uma boa aula de história é!) tem algum valor senão o de "curiosidades interessantes".
Confundindo isso, ele faz uma segunda confusão, que é o da obrigatoriedade da filosofia com a sua função. Concordo que deveria caber a escola escolher sua grade e não ao MEC, mas tem que ser notado que uma escola que escolha "história da arte" como *substituto* para filosofia, está cometendo uma confusão.
Por fim: "Meu propósito central nesta coluna é mostrar que a volta da filosofia e da sociologia ao ciclo básico não passa nem perto de ser uma solução para a grave crise que a educação enfrenta hoje."
Isso eu concordo e isso ele demonstra razoavelmente bem, então no geral foi uma boa coluna, apesar de que ele faz confusões típicas de alguém que viu muita história da filosofia e pouca filosofia. Deve ter se formado na USP.
domingo, junho 08, 2008
Filosofia de volta ao ensino médio.
Se ensinar filosofia fosse ensinar história da filosofia, eu não estaria preocupado, bastaria fazer o caminho "de heráclito a heidegger" (pulando um monte de gente) e estariamos resolvidos.
Acho que a maioria dos professores vão acabar ensinando história da filosofia; alguns vão tentar algo diferente e acabar caindo numa de "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e outros poucos vão dar boas aulas.
Eu vou ser um desses professores de filosofia e não sei em qual categoria vou cair; não gosto da idéia de ser do primeiro tipo, não sei se tenho capacidade pra ser um "bom professor", então vou ficar em algum lugar do "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e aqueles que confundem aula de filosofia com aula de sociologia achando que eu tenho que necessariamente falar sobre o MST ou sobre a Al Qaeda agradecerão que ao menos eu não estou pisando no pé de ninguém por ser um cara mais metafísico.
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Dito essa besteira toda, é preciso levar em consideração que a filosofia está em crise (ok, a filosofia está SEMPRE em crise, é o que faz ela tão divertida), mas recentemente numa pesquisa que a "The Philosophers Magazine" fez com um grupo de filósofos acadêmicos norte-americanos (i.e, filosofia analítica) perguntando "a filosofia tem algo a dizer sobre grandes eventos, por exemplo, o 11 de Setembro" e uma grande parte respondeu que não, que coisas como "universais e particulares" ou "monismo e dualismo" não tinham nada a ver com o que as pessoas passam no seu dia a dia; é claro, do lado da filosofia continental, todo o povo influenciado tanto pelo pragmatismo marxista quanto pela fenomenologia discorda e é um motivo pelo qual eu escolho esse povo, mas mesmo assim, parece pra mim claro que, seja qual for o motivo, a filosofia não tem (eu ia dizer "perdeu", mas resta a questão se ela já teve) um contato assim tão direto com a vida das pessoas (se tivesse, alguém como Rorty simplesmente não existiria).
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Então eis os problemas que um professor de filosofia terá que enfrentar:
1 - Ele terá que "ganhar" os alunos.
Mais do que qualquer matéria, filosofia não pode ser alienada. Ela tem que FAZER PARTE da vida de quem aprende. Isso acontece por uma dupla de motivos:
O primeiro, mais óbvio, mais superficial, mais bobinho, é o de que filosofia não é algo tão valorizado no mercado de trabalho, "mas Rodrigo! Deveria ser!" sim, eu sei, então faça suas malas e vá para o mundo possível lebniziano em que a filosofia é valorizada no mercado de trabalho. Hoje não é. Logo, se algum aluno perguntar "pra que serve isso?" (e um bom aluno deve sempre ter essa pergunta na ponta da língua) o professor vai ter que dar uma resposta e a resposta do professor de matemática "serve pra construir calculadora" não vai servir. Então, o que você vai responder?
Segundo é que filosofia é um tipo de conhecimento fora do escopo da técnica; seja ele pré-tecnico, pós-tecnico ou simplesmente tratando de temas ou visões que a técnica simplesmente não consegue tocar; a filosofia não é um conhecimento que você usa pra algo senão na sua vida como ser humano. Agora, esse é o engraçado; isso torna a filosofia ao mesmo tempo inútil (em um certo contexto) e universal: ela é inútil porque você não vai usar a filosofia pra construir uma máquina do tempo, mas ela é universal porque ela serve pra você não importa o que você vai fazer com a sua vida, MAS (e aqui vem a jogada) o professor vai ter que CONVENCER os alunos disso, porque, dada a sociedade utilitarista e cientificista que vivemos, isso NÃO É auto-evidente.
Agora a minha pergunta é essa: A dificuldade em convencer alunos de que algo tão próximo da vida deles é um conhecimento que vale a pena adquirir é um problema pedagógico ou filosófico? Porque se for uma questão de técnica de ensino, então que nos afundemos em livros de psicologia juvenil e resolvamos o problema, mas se A PRÓPRIA FILOSOFIA tem algo em si que impede essa aproximação, então temos um problema que nós, como filósofos, vamos ter que resolver durante as aulas.
Isso pra mim é importante porque não é uma mera questão de criancinhas sabendo em quem votar nas eleições, de novo, eu sou um cara metafísico, em 100 anos estaremos todos mortos, o que eu me importo com as eleições? O meu problema é filosófico e não político. O problema é o seguinte: Se a filosofia não consegue cruzar a ponte entre teoria e vida, então ela NÃO EXISTE, em outros termos, o VALOR DE VERDADE de uma teoria não é só sua validade lógica, mas também o sentimento de "faz sentido" que ela desperta nas pessoas. A técnica pode se dar ao luxo de ser esquisita além de toda compreensão porque ela faz máquinas; eu não preciso saber como mecânica quântica funciona porque eis suas descobertas fazendo meu computador funcionar (eu acho), mas se o propósito da filosofia são respostas que contém uma certa universalidade, então ela se comprova quando cada ser humano percebe que há algo aí que faz sentido. Do contrário é a lógica ditando regras pra si própria e se auto-validando em circularidade.
Esse tipo de masturbação intelectual não é só socialmente estúpido, como também faz pouco sentido.
Esse tipo de postura frente a filosofia cria zilhões de problemas, um que eu consigo pensar de cara é que o "faz sentido" se dá socialmente e não pela nossa "condição de ser humano" e a única resposta que eu tenho pra isso é que sou um cara pós-moderno, razoavelmente bonito e não me importo se minhas teorias deixarem de funcionar daqui 50 anos quando eu for feio.
2 - O professor terá que saber, ele próprio, o que é filosofia.
Repetindo que a filosofia está sempre em crise; saber o que é filosofia é o tipo de coisa que fica mais difícil quanto mais você se aprofunda em filosofia. Eis uma crença estúpida que eu tenho: Quanto mais clara a visão de filosofia de um professor, menos ele entende do assunto.
Se você conseguir chegar em uma sala de aula, dizer "filosofia é X" e acrescentar "quando eu perguntar na prova é essa a resposta que eu quero receber", então você está fazendo alguma coisa errada.
Agora, você vai ter um monte de adolescente bobocas e iletrados na sua frente cujos objetivos são sexo e dinheiro para o sexo; você vai ter que conquistar atenção deles e, não só isso, passar conteúdo (se tudo que a filosofia demandasse fosse "ganhar" os alunos eu estaria advogando palhaços de circo ou publicitários e não filósofos), agora vem a questão de qual conteúdo você passa.
Repetindo, se o propósito fosse ensinar história da filosofia, estaria resolvido, mas não é: você vai ter que dizer algo que tem de fato algum conteúdo que valha a pena ser passado. Eu sou totalmente pró começar um curso de filosofia com Tales de Mileto, mas dizer "é o cara que disse que tudo é água" é insuficiente, você vai ter que "entrar" no autor, tirar algo dele que tem valor filosófico (seja lá o que isso signifique) e que faça sentido para esses monstrinhos estúpidos que serão seus alunos.
Ao fazer isso, eu espero que o professor em questão não tente fazer o que certos livros populares de filosofia atuais tem feito. Que é dizer "no que Tales se parece com os simpsons" ou algo do tipo; isso não é nem sequer analisar os simpsons filosoficamente, é simplesmente fazer cegas relações de idéias. Eu também espero que o pobre professor de filosofia não tente dizer "isso é importante pra você sair lá fora e mudar o sistema!", isso é besta e ei, a escola já tem um professor de sociologia. A filosofia é universal porque ela tem que tocar o aluno em um ponto humano aquém e/ou além do seu contexto social, mas ela tem que fazer isso EM RELAÇÃO ao contexto social pra não se tornar alienação e, repetindo, uma filosofia alienada é uma filosofia que não existe.
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Enfim, tem muito mais o que dizer e eu provavelmente falei besteira demais already, o ideal seria eu chegar aqui e dar um exemplo de como se dar uma aula de filosofia e talvez um dia eu o faça ou talvez eu me desinteresse desse assunto todo, quem sabe, né?
Acho que a maioria dos professores vão acabar ensinando história da filosofia; alguns vão tentar algo diferente e acabar caindo numa de "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e outros poucos vão dar boas aulas.
Eu vou ser um desses professores de filosofia e não sei em qual categoria vou cair; não gosto da idéia de ser do primeiro tipo, não sei se tenho capacidade pra ser um "bom professor", então vou ficar em algum lugar do "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e aqueles que confundem aula de filosofia com aula de sociologia achando que eu tenho que necessariamente falar sobre o MST ou sobre a Al Qaeda agradecerão que ao menos eu não estou pisando no pé de ninguém por ser um cara mais metafísico.
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Dito essa besteira toda, é preciso levar em consideração que a filosofia está em crise (ok, a filosofia está SEMPRE em crise, é o que faz ela tão divertida), mas recentemente numa pesquisa que a "The Philosophers Magazine" fez com um grupo de filósofos acadêmicos norte-americanos (i.e, filosofia analítica) perguntando "a filosofia tem algo a dizer sobre grandes eventos, por exemplo, o 11 de Setembro" e uma grande parte respondeu que não, que coisas como "universais e particulares" ou "monismo e dualismo" não tinham nada a ver com o que as pessoas passam no seu dia a dia; é claro, do lado da filosofia continental, todo o povo influenciado tanto pelo pragmatismo marxista quanto pela fenomenologia discorda e é um motivo pelo qual eu escolho esse povo, mas mesmo assim, parece pra mim claro que, seja qual for o motivo, a filosofia não tem (eu ia dizer "perdeu", mas resta a questão se ela já teve) um contato assim tão direto com a vida das pessoas (se tivesse, alguém como Rorty simplesmente não existiria).
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Então eis os problemas que um professor de filosofia terá que enfrentar:
1 - Ele terá que "ganhar" os alunos.
Mais do que qualquer matéria, filosofia não pode ser alienada. Ela tem que FAZER PARTE da vida de quem aprende. Isso acontece por uma dupla de motivos:
O primeiro, mais óbvio, mais superficial, mais bobinho, é o de que filosofia não é algo tão valorizado no mercado de trabalho, "mas Rodrigo! Deveria ser!" sim, eu sei, então faça suas malas e vá para o mundo possível lebniziano em que a filosofia é valorizada no mercado de trabalho. Hoje não é. Logo, se algum aluno perguntar "pra que serve isso?" (e um bom aluno deve sempre ter essa pergunta na ponta da língua) o professor vai ter que dar uma resposta e a resposta do professor de matemática "serve pra construir calculadora" não vai servir. Então, o que você vai responder?
Segundo é que filosofia é um tipo de conhecimento fora do escopo da técnica; seja ele pré-tecnico, pós-tecnico ou simplesmente tratando de temas ou visões que a técnica simplesmente não consegue tocar; a filosofia não é um conhecimento que você usa pra algo senão na sua vida como ser humano. Agora, esse é o engraçado; isso torna a filosofia ao mesmo tempo inútil (em um certo contexto) e universal: ela é inútil porque você não vai usar a filosofia pra construir uma máquina do tempo, mas ela é universal porque ela serve pra você não importa o que você vai fazer com a sua vida, MAS (e aqui vem a jogada) o professor vai ter que CONVENCER os alunos disso, porque, dada a sociedade utilitarista e cientificista que vivemos, isso NÃO É auto-evidente.
Agora a minha pergunta é essa: A dificuldade em convencer alunos de que algo tão próximo da vida deles é um conhecimento que vale a pena adquirir é um problema pedagógico ou filosófico? Porque se for uma questão de técnica de ensino, então que nos afundemos em livros de psicologia juvenil e resolvamos o problema, mas se A PRÓPRIA FILOSOFIA tem algo em si que impede essa aproximação, então temos um problema que nós, como filósofos, vamos ter que resolver durante as aulas.
Isso pra mim é importante porque não é uma mera questão de criancinhas sabendo em quem votar nas eleições, de novo, eu sou um cara metafísico, em 100 anos estaremos todos mortos, o que eu me importo com as eleições? O meu problema é filosófico e não político. O problema é o seguinte: Se a filosofia não consegue cruzar a ponte entre teoria e vida, então ela NÃO EXISTE, em outros termos, o VALOR DE VERDADE de uma teoria não é só sua validade lógica, mas também o sentimento de "faz sentido" que ela desperta nas pessoas. A técnica pode se dar ao luxo de ser esquisita além de toda compreensão porque ela faz máquinas; eu não preciso saber como mecânica quântica funciona porque eis suas descobertas fazendo meu computador funcionar (eu acho), mas se o propósito da filosofia são respostas que contém uma certa universalidade, então ela se comprova quando cada ser humano percebe que há algo aí que faz sentido. Do contrário é a lógica ditando regras pra si própria e se auto-validando em circularidade.
Esse tipo de masturbação intelectual não é só socialmente estúpido, como também faz pouco sentido.
Esse tipo de postura frente a filosofia cria zilhões de problemas, um que eu consigo pensar de cara é que o "faz sentido" se dá socialmente e não pela nossa "condição de ser humano" e a única resposta que eu tenho pra isso é que sou um cara pós-moderno, razoavelmente bonito e não me importo se minhas teorias deixarem de funcionar daqui 50 anos quando eu for feio.
2 - O professor terá que saber, ele próprio, o que é filosofia.
Repetindo que a filosofia está sempre em crise; saber o que é filosofia é o tipo de coisa que fica mais difícil quanto mais você se aprofunda em filosofia. Eis uma crença estúpida que eu tenho: Quanto mais clara a visão de filosofia de um professor, menos ele entende do assunto.
Se você conseguir chegar em uma sala de aula, dizer "filosofia é X" e acrescentar "quando eu perguntar na prova é essa a resposta que eu quero receber", então você está fazendo alguma coisa errada.
Agora, você vai ter um monte de adolescente bobocas e iletrados na sua frente cujos objetivos são sexo e dinheiro para o sexo; você vai ter que conquistar atenção deles e, não só isso, passar conteúdo (se tudo que a filosofia demandasse fosse "ganhar" os alunos eu estaria advogando palhaços de circo ou publicitários e não filósofos), agora vem a questão de qual conteúdo você passa.
Repetindo, se o propósito fosse ensinar história da filosofia, estaria resolvido, mas não é: você vai ter que dizer algo que tem de fato algum conteúdo que valha a pena ser passado. Eu sou totalmente pró começar um curso de filosofia com Tales de Mileto, mas dizer "é o cara que disse que tudo é água" é insuficiente, você vai ter que "entrar" no autor, tirar algo dele que tem valor filosófico (seja lá o que isso signifique) e que faça sentido para esses monstrinhos estúpidos que serão seus alunos.
Ao fazer isso, eu espero que o professor em questão não tente fazer o que certos livros populares de filosofia atuais tem feito. Que é dizer "no que Tales se parece com os simpsons" ou algo do tipo; isso não é nem sequer analisar os simpsons filosoficamente, é simplesmente fazer cegas relações de idéias. Eu também espero que o pobre professor de filosofia não tente dizer "isso é importante pra você sair lá fora e mudar o sistema!", isso é besta e ei, a escola já tem um professor de sociologia. A filosofia é universal porque ela tem que tocar o aluno em um ponto humano aquém e/ou além do seu contexto social, mas ela tem que fazer isso EM RELAÇÃO ao contexto social pra não se tornar alienação e, repetindo, uma filosofia alienada é uma filosofia que não existe.
-
Enfim, tem muito mais o que dizer e eu provavelmente falei besteira demais already, o ideal seria eu chegar aqui e dar um exemplo de como se dar uma aula de filosofia e talvez um dia eu o faça ou talvez eu me desinteresse desse assunto todo, quem sabe, né?
segunda-feira, junho 02, 2008
O Crepúsculo
Somos uma civilização que cresceu acostumada a promessas.
Promessa de felicidade, paz eterna, prosperidade, liberdade e progresso, nessa vida ou na próxima, em lados opostos em um debate não há nenhum que cedo ou tarde não diga que é melhor por ser mais capaz de cumprir suas promessas.
Olhemos para o horizonte, a perfeitamente retilinia linha entre o sol e o oceano infinito, o que ele nos promete?
Com um certo tipo de olhos, ele nos promete qualquer coisa, qualquer maravilha, qualquer tragédia, é só olhar com um certo tipo de olhos.
O infinito é uma mentira.
Nos conta mentiras.
Poderosos homens, com suas máquinas e suas leis, porque ainda se encolhe na sua cama e chora o medo de ficar sozinho? Porque ainda se preocupa em fracassar? Pra quem é preciso provar seu poder? O planeta ainda não se ajoelhou o bastante? Deuses o suficiente não foram assassinados? Quantas verdades ainda há para descobrir? Quantas peças do quebra-cabeça são necessárias para que você pare de chorar? Quantas vezes você ainda vai ter que trair sua esposa e decepcionar seus filhos para perceber que é indigno? Quantos ainda vai precisar afastar da sua vida para que consiga afastar a si próprio?
Nos prometeram tanto e ainda estamos aqui, desesperados para sentir algo, obcecados como Xerxes, oferecendo qualquer fortuna a quem invente um novo tipo de prazer. Pertubados e infelizes como sempre fomos.
O sol se põe e o infinito morre em uma linha perfeitamente reta e se tivermos sorte nossa vida vai terminar com o apito de uma máquina e uma linha perfeitamente reta, pois que morramos entubados e conectados a algo significa que estamos a morrer como homens, como seres que sabem e que transformam.
E a parte mais gloriosa de nossa marcha fúnebre é quando um bisturi abre o corpo que já não somos mais e desvenda os mistérios da morte.
Os ritos, a despedida, se vamos ser enterrados ou cremados, esses são ecos do passado, nossa porta no Valhalla é aberta na autopsia, o momento que brilhamos é quando nós mesmos somos um mistério e se somos chatos, entediantes e óbvios em vida, seria digno que ao menos sejamos um problema na morte, pois eis que honramos nossos filhos ao nos tornarmos um problema para que eles resolvam.
A glória do ser humano é ser problemático ou se encontrar com o problemático.
A felicidade é nossa corrupção.
O inferno é onde não há sofrimento.
Pois o jogo tem que ser jogado.
Somos uma civilização que joga o jogo de saber coisas.
E a recompensa?
Uma promessa.
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