segunda-feira, dezembro 13, 2010

O problema com o hedonismo.

As idéias, para serem seguidas, precisam de sua cota de sábios e tolos. Nada nesse mundo se desenvolve sem uma grande quantidade de idiotas seguindo algo por motivos equivocados e sim, isso inclui a sua religião, o seu movimento político, a sua teoria científica e filosófica. Pensamento crítico não é prático o bastante para que uma idéia "pegue", de modo que é inimaginável que qualquer coisa no mundo seja guiada por princípios corretos. Se por sorte, algo correto é seguido, os motivos são completamente errados.
Então não deveria ser surpresa - ou argumento - quando alguém age da tribo em questão age de forma estúpida e outra pessoa diz "mas ele não leu *de verdade* o pensador X, pois senão saberia etc. etc. e tal", aí nós temos que usar algum bom senso, se um doido varrido diz que marxismo significa fuzilar os outros, a gente até ignora e diz "esse cara é um idiota", mas se nações inteiras caem sob o poder de marxistas que fuzilam os outros, fica mais difícil salvar o movimento dizendo "esses caras são uns idiotas". Mesmo que se salve a teoria, há de se admitir que a práxis está fodida e se a práxis está fodida, eu meio que não vou jogar fora essa minha única vidinha na promessa de que os tolos se destolarizarão.
Digo isso porque comprei um livrinho esse fim de semana com máximas do Epicuro e encontrei uma formulação perfeita do meu problema com a maioria dos hedonistas. Aí vem alguém e diz "mas Rodrigo, Epicuro é um hedonista!" e eu terei que entrar em algum tipo de fúria assassina.
Enfim, a máxima (em grego. Brinkz):
"Não haveria maneira de suprimir aquilo que suscita temor a respeito das questões mais importantes sem entender a natureza do universo, mas tão somente alguma inquietação em relação aos mitos. De modo que não há meio, sem o estudo da natureza, de desfrutar os prazeres puros".
Se vale de algo, hedonismo não é *bem* um movimento. As pessoas não saem por aí se dizendo hedonistas, elas simplesmente tem essa noção meio vaga de que life ain't nothing but bitches and money. E aí elas formam família por algum motivo obscuro. Enfim, o meu problema com isso é que as pessoas simplesmente caem de para-quedas em um estilo de vida hedonista e, sem a compreensão da máxima acima e da mesma forma inconsciente que elas se tornaram hedonistas, elas deixam de ser hedonistas e uma série de tragédias ocorrem, geralmente elas se tornam cristãs, às vezes espíritas, wicca no caso de certos adolescentes, há também o efeito de tornar-se marxista, fã de Beatles, vegan (hey-o), ou jurar aliança a qualquer um desses tipos de mitos que prometem, nessa vida ou na próxima, algum tipo de alternativa mais "profunda" ao "mero" prazer físico. Seja um grande ideal altruísta, seja uma cruzada paranóica contra os inimigos da civilização ocidental, o importante é que você vivia "vazio" e agora você está "cheio".
O que acontece é um tipo muito básico de se focar em certas necessidades enquanto completamente ignora outras, mais sutis, mais difíceis de perceber que faltam do que uma fome ou uma carência sexual, e aí quando essa falta se torna crítica, você não está mais em um estado capaz de "estudar a natureza", você encontra um livro ou uma pessoa armada de um manualzinho "entenda o universo hoje!" ou "saiba porque você sofre!" e bau bau vidinha tranquila, money, bitches, pensamento crítico, etc. A partir de hoje você é um soldado, pois o universo *é* assim e quem discorda é mau e/ou burro e o você sofre por causa *disso* e quem quer te convencer do contrário, não entende como seu sofrimento é profundo, como o problema é que existem essa classe de pessoas que pelo choque dos átomos se organizam de modo a fazer sua vida ser uma droga ou como você é a estrelinha especial do criador onipotente de toda a existência.
E isso é menos crítica a marxismo ou cristianismo que alguém pode pensar lendo isso, o caminho reverso é tão irritante quanto, o ex-marxista que quer comer todo dinheiro que vê na frente porque o mundo é corrupto mesmo ou o ex-cristão que acha que deixar de pensar em Deus resolveria todos os problemas, por exemplo. Não vou ser eu quem vai criticar assim dessa forma bobinha que eu estou fazendo nesse post alguém que, em momentos de paz e equilibrio, foram lendo e de forma gradativa e *gasp* racional, foram mudando de opinião até se tornarem qualquer coisa que são, o que eu estou dizendo é que não é mérito nenhum fazer abraçar uma ideologia em um momento de sofrimento. Não é nenhum elogio ao cristianismo que as pessoas o encontrem em momentos de depressão, isso só significa que parasitar um espírito fraco é fair game pro proselitista, tampouco enobrece sua causa política que ela tenha muitos "jovens", pescar adolescente em fase particularmente confusa de autoconhecimento e "o mundo meio que parece errado, mas não sei porque" não é particularmente honesto também.
Em um mundinho bom, do tipo que esse não é, as pessoas não seriam presas tão fáceis de certas carências. O cristianismo não surtaria ninguém via proibição de prazeres e estudar um pouco a natureza viria no pacote hedonista, aí nós não viríamos pessoas dizendo que o cristianismo é a raíz de todo mal porque elas não comeram gente o bastante enquanto frequentavam a igreja com 14 anos e nem essa gente sendo "salva" de suas dúvidas.
Isso quando a pessoa nem troca de time, mas entra num simples caminho bobo de autodestruição via "vou aproveitar a vida ao máximo" ou "OMFG ereção, devo rezar mais!"
Enfim, acho que a moral é a seguinte, se você vai se tornar um guardião de um grande segredo capaz de trazer a salvação, tente ao menos não chegar lá via neuroses. Dúvidas existem, mas material de estudo existe também, o suficiente para uma vida, os atalhos não valem a pena, eles só te transformam numa *dessas* pessoas.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Hihi questionário de intewebs

1. Que horas você acordou hoje? 9h.

2. Diamantes ou pérolas? Diamantes.

3. Qual foi o último filme que você viu no cinema? Toy Story 3

4. O que você normalmente come no café da manhã? O que tiver.

5. Qual é o seu nome do meio? Braga.

6. Qual comida você não gosta? Pudim.

7. No momento, qual é o seu CD preferido? Heavenly vs Satan.

8. Que tipo de carro você dirige? N.

9. Sanduíche preferido? Vegetariano do Subway.

10. Que características você despreza? Guerreiro da liberdade/vítima da mídia malvada que oh tão pobrezinho está tão sozinho nesse mundo tão malvado que discorda tanto.

11. Roupas preferidas? Camiseta e calça jeans.

12. Se você pudesse ir pra qualquer lugar do mundo de férias, para onde vc iria? Deutschland. (é isso aí, motherfucker, estou há 2 meses no cursinho de alemão, olha pra minha fluência casual).

13. Marca preferida? Sony.

14. Onde você gostaria de se aposentar? Aqui tá bom.

15. Qual foi o seu aniversário recente mais memorável? 25.

16. Esporte preferido? Starcraft 2!

17. Quando é o seu aniversário? 07/11/1985

18. Você é uma ‘morning person’ ou uma ‘night person’? Night.

19. Quanto você calça? Sei lá.

20. Animais de estimação? Meus 3 gateenhos fofeenhos. A Elizabeth, o Henri e o Baco. ^_^ . Tem o estrábico que fica na janela que é furioso e a gente tem que dar comida de longe porque ele é um conservador comunista que acha que a mídia burguesa anticristã secular do B está perseguindo ele e sua esposa, uma gata negra, que só é esposa dele pra ele poder dizer que não é racista nos fóruns de internet.

21. Alguma novidade que você gostaria de compartilhar? Passei no mestrado da USP! Ponto pro time do Rodrigo!

22. O que você dizia que queria ser, quando criança? Eu nunca pensava sobre isso.

23. Como você está hoje? Bem.

24. Qual é o seu doce preferido? Nenhum em particular, algum bolo eu suponho.

25. Qual é a sua flor preferida? Manjo nada de flor.

26. Por qual dia do calendário você está esperando ansiosamente? Março, começar as aulas, voltar a ser o menino academia.

27. Qual é o seu nome completo? Rodrigo Braga Alonso.

28. O que você está escutando agora? O som do teclado.

29. Qual foi a última coisa que você comeu? Dadinho.

30. Você faz pedido pra estrelas? Não. Elas que fazem pedidos a mim.

31. Se você fosse um lápis de cor, que cor seria? Azul.

32. Como está o tempo agora? Calorzim.

33. Última pessoa com quem você falou no telefone? Ralpi.

34. Refrigente preferido? Coca-cola.

35. Qual era o seu brinquedo preferido quando criança? Meu Mega-Drive.

36. Inverno ou verão? Inverno

37. Beijos ou abraços? Beijos.

38. Chocolate ou Baunilha? Chocolate

39. Café ou chá? Chá.

40. O que tem debaixo da sua cama? Não há embaixo da cama.

41. O que você fez na noite passada? Cursinho de alemão, Evil Genius e Starcraft 2.

42. Do que você tem medo? Não ser bom o bastante. Ser mal esposinho e mal intelectual e mal jogador de videogame.

44. Quantas chaves tem no seu chaveiro? 3.

45. Há quanto tempo você está no seu atual emprego? Alguns meses.

46. Dia preferido da semana? Sábado.

47. Em quantos lugares você já morou? Esse é o terceiro.

48. Você faz amigos facilmente? Não.

49. Uma saudade? Minha esposinha está aqui, não sinto saudades assim.

50. Uma dúvida? Eu sei tudo.

51. Uma certeza? Mas não tenho certeza.

terça-feira, novembro 30, 2010

Polêmica pessimista

Não vamos dizer que eu sou alguém que acredita em um mundo "bonitinho", "bonzinho", sem angústias.
Boa parte, talvez a maioria, dos meus textos sobre filosofia são pessimistas. São sobre instintos bélicos e de dominação que se escondem atrás de belos discursos, o post passado foi sobre encarar finais trágicos, foi sobre todas as promessas feitas que falharam, falham e destinam-se a falhar; o pouco de esperança que eu derivo desse conhecimento que parte do princípio que o mundo é - e sempre será não importa seu projeto político - essencialmente ruim.
Partindo do princípio que o sofrimento está por toda parte, então podemos ajustar nossas expectativas e se decepcionar menos.
Então porque isso me incomoda se diz mais ou menos a mesma coisa?


E minha resposta é, bobinhamente o suficiente, algo entre o tom e a linguagem polêmica.
E eu posso estar só lembrando errado, mas eu não lembro do Pondé fazendo isso há alguns anos atrás.
O meu problema com isso é o seguinte: Todo mundo choraminga. Faz parte do meu pessimismo acreditar que todo mundo choraminga. Esse blog mesmo não existiria se eu não choramingasse sobre coisas.
Enfim, todo mundo choraminga, Pondé, de algum tempo X pra cá, começou a pintar o quadro de um pobre trágico sozinho em um mundo de intelectualóides multibilhonários culturetes esquerdistas que apesar de serem intelectualóides são na verdade muito burros e/ou ingênuos e destilam sua burrice e/ou ingenuidade da forma mais clichê que alguém pode clichezar nessa situação.
Eu lembro que um post que eu meio que critiquei o Pondé foi porque eu queria frequentar uma dos jantares dele onde as pessoas criticavam a igreja católica enquanto defendiam necrofilia e bestialidade.
O Pondé tem a vantagem sobre Olavo de Carvalho de ser só choramingar de modo blasé ao invés de choramingar de modo furioso e paranóico, mas ainda assim o estímulo é o mesmo: "Oh, pobre de mim, sozinho e abandonado em um mundo onde os ricos intelectualóides culturetes de esquerda repetem suas burrices e/ou ingenuidades".
Parte do meu pessimismo é não direcionar demais minha decepção contra nenhum grupo específico, mantendo um certo desgosto com a humanidade em geral. Pondé decidiu que todo mundo é mal, mas a esquerda é mais mal que os outros. E não só mal, como burros. E não só burros, como ingênuos. E não só ingênuos, como errados. E não só errados, como numerosos. E não só numerosos, como desmerecidamente ricos. E não só desmerecidamente ricos, como etc.
Enfim, você posa de pessimista e concentra tudo que há de mal no mundo em um único tipo de pessoa.
E aí há a hipocrisia de dizer que as crenças desse grupo de pessoas é parte de um tipo de marketing pessoal, como se chamar a crença alheia de marketing não fosse, por si só, uma propaganda para vender o livro que você está nesse momento anunciando.
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Polêmica é uma estratégia de combate e não pedagógica. Assim como aqueles horríveis livros ateus de Hitchens, Dawkins e companhia (outro grupo de pessoas que eu concordo, mas cuja polêmica barata me repulsa), esses livros não servem pra avançar nenhum debate ou ensinar nada. Eles servem pra que um grupo de pessoas que já tem uma opinião sobre um assunto possam se autocongratular por pensar do jeito que pensam.
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Eu não vou ler o livro dele não porque eu acho que ele não seja um bom escritor - eu leio as colunas - mas por mera falta de tempo. Há o suficiente da biblioteca de Anatole France antes que eu possa ler algo que, pelo jeito, é só uma elaboração daquilo que já é dito nas colunas que eu leio. Mas assim, de modo mal informado, eis algo que eu discordo:
Eu não acho que exista nada de particularmente errado em querer melhorar o mundo, eu acho que há tanto sofrimento no mundo, que minha última preocupação é ele ser resolvido, não acho que ele tenha que se preocupar um dia existir qualquer força humana - tirânica ou pedagógica - capaz de fazer as pessoas se amarem. Então Pondé pode dormir tranquilo.
Dito isso, nada impede a gente de fazer pequenos atos para aliviar esse sofrimento. A expressão "moralmente superior" é esquisita, por exemplo. Eu acho que realizo um gesto moralmente correto, pois o meu gesto causa menos sofrimento que o seu. Nesse ponto, eu me considero moralmente superior. Eu teria que saber exatamente o argumento dele contra isso no livro, mas no vídeo parece que o único crime é um de arrogância enquanto tenta esconder a arrogância, mas não é como se eu me considerasse o Deus encarnado quando entro em um McDonald's. Eu só acho que faço algo certo enquanto eles fazem algo errado, como tenho certeza que o Sr. Pondé se acha correto enquanto os outros estão errados em uma série de situações.
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Outro exemplo é quando ele diz, todo orgulhoso de defender uma postura polêmica, de que a guerra não é insana. Eu não diria que a guerra é insana, eu diria que a guerra tem vários elementos irracionais, assim como a busca da paz perpétua tem sua cota de elementos irracionais, mas isso não está em nenhum lugar da fala dele. O que ele tem é que a guerra pode ser necessário para uma tal situação X, mas oras, a paz também pode ser necessária para uma tal situação X.
Olha o que aconteceu no Rio de Janeiro. Por anos e anos o debate era entre tocar fogo na favela assassinando todo ser vivo lá dentro ou baixar as armas e mandar os nossos professores de sociologia ensinar o socialismo aos traficantes. O que está dando resultado é uma mistura de ambos. Dar apoio à população quando possível e meter bala quando necessário, não é de nenhuma forma uma questão de guerra contra paz ou de força policial contra assistencialismo à população, mas uma mistura de ambos.
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O problema do vídeo, assim como dos panfletos socialistas, dos livros dos "novos ateus" e de uma porção de mídia que sempre houve é que se tem aquela impressão chatinha de que Pondé está claramente jogando pra um time específico que quer crer que suas opiniões já estabelecidas estejam corretas e precisa de alguém formado na Université de Paris VIII pra dizer "muito bem, aqui está um docinho por estar do lado certo". Fazer isso enquanto critica um certo marketing de comportamento é, bom, eu já disse. A questão é que se colocar em uma luta de bem contra o mal, ou sábios contra estúpidos, ou "meu time" contra "seu time" acaba sendo sacrificar uma parte do seu pessimismo pra que alguém saia bem na fita ou que alguém saia mais mal do que o seu leitor sairia.
Então os novos ateus sacrificam a noção de que, como animais puramente biológicos formados de instintos e entranhas, nós estaríamos por aí massacrando outras pessoas quer fosse por religião ou não. Chamar nazismo e comunismo de religião só ganha ponto entre os já convertidos para o "religião é a raíz de todo o mal".
E, ao ser perguntado se a guerra é insana, "esquecer" de dizer que há gente bem insana fazendo guerra, e, ao invés disso, *mudar o assunto* pra como a paz em certa situação X *pode* ser insana, é ser curiosamente tímido ao estender seu pessimismo para os seus leitores que você acredita que apóiem uma guerra ou outra em algum lugar do mundo.
Por fim, é aquele problema de escolher alvos fáceis. De novo, não li o livro, nem vou ler, mas para algo que se diz filosofia do cotidiano, o alvo parece ser um bocado de gente exótica, a saber, o pessoal muito louco com quem Pondé faz seus jantares regados a anticristianismo e bestialidade. Se alguém puder me informar se ele algum dia critica o vendedor de materiais elétricos da Mooca ao invés do psiquiatra estudante de artes plásticas da Vila Madalena, eu agradeceria. É como criticar religião usando Al Qaeda como exemplo.
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É muito raro escolher um alvo e permanecer coerente, isso porque a humanidade tem lá seus problemas em geral. Cada lado do espectro político tem mais do que sua cota de gente má, tirânica e irracional, em cada pessoa há uma série de atos realizados por "marketing pessoal" que na verdade escondem um desejo de dominação, de sobrevivência, de simplesmente ferrar o outro. Mas aí entramos em um problema, se todo mundo tem uma agenda, qual é a do Pondé?
A minha eu acho que eu deixo razoavelmente clara: o mundo é uma droga, tentar consertá-lo, seja pela ciência ou pela mística, só vai dar em merda, eu sou ateu e não acho que há esperança no futuro, então, num geral, eu vou defender pequenos atos (geralmente no centro do espectro político) que aliviem algum sofrimento que é pra tornar meu tempo nesse planeta ao menos tolerável. Não é consertar tudo, nem nenhum utopia de nenhum tipo, mas se eu puder respirar um ar um pouco melhor, se eu puder ter a tranquilidade de saber que menos pessoas passam fome ou menos bichinhos são assassinados ou que gays não sejam perseguidos na rua ou que minhas próprias perversões sexuais sejam autorizadas porque estou autorizando as dos outros, isso melhora minha vida, então eu vou atrás disso.
Mas qual é a de alguém que vem dizer que se diz contra um mundo melhor? Não um mundo consertado, não um mundo utópico, mas um mundo melhor? Minha primeira reação, vendo que ele ensina filosofia da religião, é que ele está querendo contribuir pra concretizar uma utopia mística, é fácil, muito fácil, muito muito fácil, pra um religioso ser pessimista. Se você acredita que a próxima vida é a felicidade absoluta e eterna, aceitar que esse mundo é ruim não exige nenhuma força, nenhum caráter, nenhum nada, exige apenas um frio cálculo utilitarista de que eternidade > o tempo aqui. Mas se é esse o caso, porque se importar? Porque não ficar rezando e tentar ser um bom cristão e deixar o mundo ir para o inferno a não ser que, de alguma forma, ao criticar as utopias, você calcule, de novo, de modo muito frio e utilitarista que, ao perder a confiança em utopias terrenas, você, para não se suicidar, encontre a religião? Cristãos às vezes dão a louca de aumentar seu sofrimento ao máximo e ter certeza que você se sente um lixo miserável para que a amizade do menino jesuis seja uma boa saída. Não digo que é comum, mas vá lá, está no livrinho de táticas deles. Proselitismo é certamente superior à compaixão para muitos religiosos.
Outra alternativa seria outro cálculo utilitarista, dessa vez político, de que certo partido que ele discorda tem monopólio da noção de "mundo melhor" e que ele quer sim um mundo melhor, mas um mundo melhor de acordo com o partido *dele*, então que parte do plano para que candidatos simpáticos a ele ganhem eleições futuras passa por colocar certas posturas defendidas por partidários adversário como burras, ingênuas, utópicas.
E assim, ainda sem ler o livro e com sua dose de preconceito, chegamos ao ponto de Pondé é algum tipo de proselitista místico ou político que quer avançar sua agenda que é tão insana e egoísta quanto o resto de nossas agendas. E que antes de ser contra um mundo melhor, ele ou aposta em um mundo infinitamente melhor após a vida ou um mundo alguma coisa melhor a partir das próximas eleições, seja como for, ele cria um marketing pessoal com o objetivo de fazer o mundo bonitinho de certas pessoas parecer menos bonitinho para que o mundo que ele próprio defende parecer mais bonitinho, tudo isso em lindinhos fragmentos que por um módico preço você pode ler antes de ir dormir. É adorável, mas eu tenho um montão de coisas pra ler antes. =/
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Se alguém ler, me dá um toque sobre eu estar muito errado, outra coisa do pessimismo é não ter vergonha de admitir que é um mundo onde é fácil estar errado.

domingo, novembro 28, 2010

Twin Peaks, Lost, finais, expectativas, literatura, bla bla bla

Spoilers de Twin Peaks e Lost abaixo.
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Além de estar vivendo uma existência perfeitamente apaixonado (mas com sua dose de sofrimento pra evitar neuroses futuras), uma das grandes vantagens de estar morando com minha bonita muy bonita é eu sair um pouco do meu universo solitário de video games e quadrinhos e voltado a assistir coisas, pois é uma atividade que você pode fazer com sua alma gêmea.
Bem, eu assisti 3 coisas com ela até agora: fomos do começo ao fim de futurama (que não vou comentar aqui, só vou dizer o quanto essa série é, em geral, boa e o quanto a temporada mais recente é tão boa quanto as temporadas passadas); outras coisas que eu assisti foi De Volta Para O Futuro, um filme que eu sou viciado e já vi umas 1000 vezes, mas ela nunca tinha visto e outra coisa foi ver Twin Peaks do começo ao fim.
E uma coisa curiosa vendo ela ver De Volta Para o Futuro foi que, ao final, quando acontece aquela cena clássica e toda excelente com o Doutor e Martin ambos em uma série de pequenos atrasos que levará à Doc descer heroicamente da torre do relógio para plugar o fio no segundo exato, Thaís comentou "não vai dar tempo" e, no seu costume irritante mas adorável de insistentemente pedir o fim do filme durante o filme, ela perguntou algumas vezes na última meia hora do filme se ele ia ou não conseguir voltar para o presente.
A duvida nunca tinha me passado, acho que não é uma duvida comum, filmes assim tem uma formula tal que você entra no filme já sabendo que o final será feliz, restando saber como exatamente vai acontecer. No mundo ideal do roteirista, todos seriam Thaís, nunca sabendo se o mocinho vai ou não voltar para sua namorada em 1985, mas nós sabemos que as coisas vão dar certo e o máximo que podemos esperar é que o filme nos distraia o suficiente de nossa racionalidade para que em nenhum momento lembremos que as coisas sempre dão certo no final (mas isso significa, claro, não questionar se as coisas darão ou não certo).
Mas a questão é que Thaís vem de um contexto diferente: ela é a maior leitora que eu conheço, dos grandes clássicos da humanidade a infanto-juvenis e, quando se pensa a respeito de livros, é assustador o quanto um livro tem uma liberdade muito muito muuuuito maior para um final imprevisível, infeliz ou bizarro do que um filme ou uma série de TV.
Então eu me peguei imaginando lendo um livro de De Volta Para o Futuro. Mesmo em um livro junevil, cheio de bom humor e cenas fofas, um fim onde ele não consegue voltar não soa errado como soaria se a última cena do filme falhasse, daria até um certo tchans bacana pro livro se eles tivessem esse conhecimento tão impressionantemente conveniente de saber onde e quando um raio vai cair, mas falhassem em pegar o raio devido à uma série de pequenos imprevistos, contribuiria pro humor, não seria nem considerado uma tragédia. Em filme ficaria simplesmente boboca. O público amaldiçoaria, etc.
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Twin Peaks não teve fim, propriamente dizendo, a série foi cancelada antes de uma resolução. Lost teve.
Eu nem de longe devo ser o primeiro a comparar Twin Peaks com Lost, mas vamos lá:
Ambas são séries sobre um lugar místico, com mistérios e segredos, (aliás, trivia, a palavra "mística" e "mistério" são ligadas, então é um pouco redundante dizer que é um lugar místico com mistérios) e esses mistérios e segredos fazem personagens únicos interagir de modo que embora a série tenha um ou mais heróis, o real tema dela é como a mística move esses personagens.
E embora um apologista de Lost, assim como os anos 90 tiveram sua cota de apologistas de Twin Peaks (sem internet pra criar os debates furiosos), eu não vou fingir que o fim da série - ou a série como um todo - não tiveram suas cotas de problema, mas eu acho que o fim de Lost, a última temporada toda, tem uma temática tão especial e tão distinta e tão genial que é um daqueles casos raros em que eu digo que as pessoas não entenderam por falta de visão. Eu não costumo ser uma dessas pessoas, mas serei aqui.
Aliás, pra todos os efeitos, eu vou considerar o fim de Twin Peaks como um fim propriamente dito. É claro que não era com os mil cliffhangers por segundo que o episódio final teve, mas vá lá.
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Eu também nunca fui uma dessas pessoas a criticar a obsessão norte-americana por finais felizes, mas há de se apontar exageros. Há pelo menos 2 pontos de Twin Peaks que poderiam marcar seu final e nenhum deles seria feliz, os 2 causariam a frustração que causou. Lost é, também, apesar do fim, uma das séries com a moral mais pessimista que eu já vi e é quase um dever profissional meu apreciar um bom uso do pessimismo onde quer que ele apareça.

Os 2 pontos que Twin Peaks poderiam ter terminado são: O fim mesmo da segunda temporada, como ocorreu e o episódio em que Leeland morre que amarra boa parte das pontas, deixando apenas o místico no ar.

O fim propriamente dito de Twin Peaks, se considerado como um fim, tem tanta tragédia que é insuportável. Annie não é resgatada, Nadine "desperta" do seu delírio complicando o romance de Ed e Norma de novo (arruinando a própria existenciazinha perfeita no processo), o corpo de Dale Coop fica preso no salão negro, Donna foge, Ben Horne é ferido, Audrey e Pete explodem no banco.
Ainda assim, toda a tragédia tem o excelente tema de lidar com as consequências de um bem que dá um passo maior que a perna na luta contra o mal. Os destinos de Audrey, Ben Horne e Donna estão ligados ao novo desejo de Ben de fazer o bem a todo custo. Se ele é a pessoa mentirosa de sempre e o mal pai de sempre, nenhuma das tragédias ocorrem relacionadas a esses três personagens ocorre.
Ed, Norma e Nadine, por outro lado, pagam por mentiras bem intencionadas. Eles constróem uma vida perfeita baseadas nos delírios de Nadine. Eles começam cautelosos, mas assim que confiam que tudo vai dar certo, a coisa cai como um castelo de cartas. Em uma série que diz que o maior medo é que o amor não supere tudo, é o amor de Ed e Norma que "acorda" Nadine causando esses problemas.
Quanto a Coop, ele é a representação mais simbolista disso. Para salvar a amada, ele entra no salão negro, é um tanto impossível entender exatamente o que ocorre, mas ele se sacrifica para salvá-la, perdendo seu corpo no processo. No que ele entra no coração do mal pra fazer o bem, o mundo perde essa enorme força do bem e o mal anda por aí com seu corpo.
Um fim no episódio onde Leeland é revelado o assassino seria semelhante, Maddy morta, Bob à solta, o homem errado preso, mas não teria tanto do simbolismo. Seriam só coisas dando errado.
Já o terceiro fim, o final mais feliz, encerraria a série com o mal incompreendido e à solta. Mistério resolvido, nem todas as pontas amarradas, Bob claramente por aí, mas não seria trágico, o bem teria cumprido seu trabalho em agir como contrapeso pro mal, mas nunca teria tentado erradicá-lo de vez causando todas as tragédias.
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Lost funciona assim também. Eu vejo toda a realidade alternativa da última temporada como um castelo nas nuvens posando de castelo real e essa é talvez a análise mais óbvia que existe, mas eu acho impressionante o pouco esforço em pensar a respeito disso.
A última temporada faz o audacioso trabalho de nos fazer uma grande promessa (há um mundo onde não só o avião pousa, como tudo dá certo, não só que tudo dá certo, como que os personagens ressucitados lembram de suas experiências na ilha, podendo prosseguir seus amores). O fim de Lost brinca com nossas expectativas quando nos oferece, em um único pacote: ressurreição, redenção, vida plena, amor, etc.
No fim, esse mundo não existe: o que aconteceu aconteceu, quem morreu morreu, os amores perdidos foram perdidos; creio que parte da fúria com Lost vem mais dessa decepção do que qualquer decepção com respostas ou ausência de.
Ainda comparando com Twin Peaks, David Lynch já afirmou que seria a favor de nunca resolver o mistério de Laura Palmer, há quem diz também que o mistério realmente só foi resolvido por pressão dos executivos. Twin Peaks foi cancelado antes de começar a responder seus mistérios envolvendo aliens e fantasmas, mas eles seriam tão bobinhos quanto foram as respostas de Lost. Quanto mais coisas além de um fantasma pode ser um fantasma?
Mas eu vou avançar aqui a teoria de que o modo como Lost revela seu castelo de cartas em pleno desmoronamento é o que emputeceu as pessoas: de repente Charlie está vivo, Sun e Jin estão juntos, Locke está contente na sua cadeira de rodas (aliás, em quantas séries o conformismo da cadeira de rodas é visto como sinal maior de felicidade do que o milagre de andar de novo? Nem a bíblia tem esse insight, já que Jesus cura os paraplégicos ao invés de ensiná-los a viver com o sofrimento do mundo), Desmond e Penny se conhecem sem toda a bagagem anterior, Danny se torna um pianista como sempre quis, etc.
E então era tudo um sonho - ou céu - ou alucinação de um Jack morrendo - ou whatever. O que importa é que em ambas as séries que tratam extensivamente de dualidade e de uma disputa essencial do mal contra o bem terminam de modo a desmontar a idéia do bem vencendo o mal. Twin Peaks pune de forma até cruel cada uma das muitas boas intenções surgidas no final, elas eram simplesmente boas *demais*. Já Lost simplesmente nos maravilha com a idéia de um mundo perfeito, só pra adicionar "mas é uma mentira, no mundo real, os amores são perdidos, os filhos ficam órfãos, o que acontece acontece".
De novo, são duas séries que personificam a luta do bem contra o mal. Não é um cara honesto contra um cara desonesto, mas é o próprio confronto do bem contra o mal. Afinal de contas, Dale é dominado por Bob e a ilha fica nas mãos de Hurley. O mal tem uma vitória contra um bem que tentou tudo e o bem tem uma vitória contra um mal que tentou tudo, mas nenhum *vence*, Twin Peaks não perde todos seus heróis e Lost não corrige nenhuma de suas injustiças.
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Em forma de livro, isso seria perfeitamente aceitável, lembrando os últimos livros que li, não lembro de nenhum fazendo nenhum esforço em particular pra chegar a um final feliz; um deles termina inclusive em um desaparecimento que não se tem nenhuma resposta, não se sabe se o personagem fugiu, morreu, foi sequestrado, ele some, as pessoas sentem sua falta, questionam-se sobre o motivo, mas meio que continuam a vida mesmo assim porque fazer-o-que-né e acaba aí. Meu livro favorito - Thaís de Anatole France - termina com corrupção e redenção ocorrendo simultaneamente, com suas respectivas grandiosidades.
Alguns livros com final feliz que consigo me lembrar são muito mais a respeito de personagens que entram em termos com a própria vida - que descobrem algo sobre si que os faz mais resistentes às mazelas do mundo - do que sobre o mundo se conformando à eles.
Enquanto o final feliz, sem nada a se pagar por isso senão ferimentos e momentos de tensão, são um tipo de final a ser encontrado entre outros, não há nada de inerentemente errado neles, mas a noção de que se não é feliz é porque não chegou ao fim é das mais prejudiciais. As pessoas sentiram-se trapaceadas com Lost quando ele nunca abandonou seu bordão de que o aconteceu aconteceu. As pessoas sentem que Twin Peaks não teve uma conclusão - justificado também pelas histórias dos bastidores - mas por um sentimento de que é impossível que esses personagens tão essencialmente bons tenham encontrado fins tão horríveis. Mas isso não é culpa das obras, especialmente daquelas que nunca nos prometeram o final feliz.
É no fim, uma diferença entre visões de vida. Entre arriscar arrumar o mundo ou resignar-se a viver em um mundo quebrado e o impulso talvez seja escolher a primeira, mas é também um problema de expectativas: e se a primeira for falsa?
Pior, e se ela prender nossa alma no coração do mal que buscamos extirpar? A história abunda em exemplos.

quinta-feira, novembro 25, 2010

A dificuldade do presente

Nenhum tempo é mais difícil de se lidar do que o presente.
As duas grandes categorias que abraçam os diversos pensamentos políticos são espécies de conservadorismo ou progressivismo (reacionarismo e revolução sendo seus extremos).
O conservadorismo é uma impossibilidade se levarmos apenas a palavra a sério. O presente não pode ser preservado, ser constante mudança é característica do presente, se há algo a ser conservado é aquilo que precisamente já não tem mais realidade: o passado.
Todo ato político é um modo de planejar o futuro, a diferença entre conservadores e progressistas é simplesmente um de referência.
O conservador, que pode ser um empirista, um tradicionalista ou uma mistura de ambos, guia-se pelo passado. Ele julga que o que houve é melhor do que há ou ao menos melhor do que a alternativa progressista e age para que o futuro se assemelhe a tal passado.
O progressista, por sua vez, que pode ser um racionalista, um profeta ou uma mistura de ambos, guia-se pelo futuro. Ele postula um ponto em um futuro indeterminado e deixa-se atrair por ele.
Esse ponto pode ser tanto uma visão de mundo onde se pode dizer que este é um bom mundo na medida do possível, pode ser um ponto de uma teoria sobre história ou pode ser uma causa final qualquer inscrita no livro do universo.

Qualquer que seja a validade das posturas políticas, o que elas fazem é consideravelmente mais fácil do que lidar com o presente.
O conservador cristaliza uma visão de passado e o progressista cristaliza uma visão de futuro e o presente, no seu caráter de perpétua mudança, torna-se perpétuo meio, o que é natural dado que é tudo feito por um ser que vive em perpétua insatisfação.
Boa parte de nossa política é construída em cima dessa fuga gerada por essa insatisfação. Para o conservador, o sofrimento do passado não parece assim tão terrível quanto o sofrimento que é sentido neste exato momento e para o progressista, este sofrimento precisa acabar logo, mas é característico do presente que haja algum sofrimento, assim sempre haverá quem acha que o sofrimento passado era preferível e sempre haverá quem acha que ainda estamos longe do ponto em que não se há mais sofrimento.
Pra resumir, a dificuldade do presente está que nele nós concentramos muito daquilo que escapa ao nosso modo de fazer ciência: no presente é que estamos nos sentindo cansados, frustrados, alegres, empolgados, esperançosos e outros tantos sentimentos que nos puxam para a irracionalidade. No presente não há o ato de fixar um conceito necessário para o ato de pensar, de fato, fixar um conceito tem um quê de suspendê-lo acima do tempo, mesmo com a consciência de que o conceito poderá ser modificado com o conhecimento futuro, um conceito traz em si essa característico de dizer "caso eu esteja correto, eu sou eterno". O presente resiste à eternidade, pois sua constante mudança é inescapavelmente temporal.
É possível conceitualizar um infinito no futuro ou no passado, é possível pensar que o mundo existiu desde sempre ou sempre existirá, mas o presente nasce e morre em todos os momentos. O presente constantemente chega e vai.
Quando o presente chega, ele chega com toda a força da realidade, da existência, e há poucas coisas nesse mundo mais difíceis do que reagir com exatidão - do que adaptar-se com racionalidade precisa - ás constantes novidades do presente.
Quando o presente vai, ele vai com toda a força do acontecimento, do inexorável. O presente surge como uma oportunidade e fecha-se logo em seguida, tornando-se um passado bom ou ruim, mas cristalizado e imutável. E quando cristaliza-se, é possível formar dele um conceito, mas eis que o conceito é de um presente que já foi, o novo presente já exige um novo conceito, já é uma nova oportunidade, já necessita de nova reação, é uma nova chance de acerto ou de erro, é uma nova realidade e uma nova existência furiosamente avançando sobre as fronteiras de nossa vida.
Não é de se espantar o nosso instinto - conservador ou progressista - de considerar o presente apenas um meio, pois se o tempo move a cavalgadas, nosso espírito não é o ponto de partida e nem de chegada, vemos apenas os cavaleiros passarem, admiramos as riquezas que eles trazem de suas terras antigas e admiramos sua coragem ao vê-los cavalgar rumo ao desconhecido. Mas e quanto ao momento em que eles estão aqui, à nossa frente? Apenas borrões, figuras barulhentas em movimento, tememos até que nos atropelem.

Compreendemos um mundo estático, mas vivemos constantemente em movimento. A dificuldade do presente é não poder se dar ao luxo de ser conceito, ao invés disso, o presente é condenado sempre a ser existência.

domingo, novembro 14, 2010

Razão e controle

A armadilha que geralmente caem os que postulam algum tipo de irracionalismo é a de acharem que, ao ter consciência da irracionalidade, ascendem para além dela.
Assim, é comum a marxistas declararem os outros alienados e a eles próprios alguma espécie de livres-pensadores, pois enquanto os outros são determinados pela ideologia a sujeitarem-se ao domínio por outra classe, o determinismo dos marxistas os levam à "verdadeira" liberdade e à "verdadeira" unidade.
Afinal, se a ideologia da classe burguesa leva à um tipo de dominação sob o nome de liberdade, o que haveria de diferente na ideologia da classe trabalhadora?
O mesmo acontece com os que escrevem textos dizendo que textos são uma mera ferramenta de dominação, sem notar que o próprio texto que escrevem são também ferramentas de dominação.
Em casos semelhantes a esse, o que falta é mais um componente de honestidade do que de lógica. Não há nada de errado em uma teoria que põe a razão como instrumento de dominação ser ela própria um racional instrumento de dominação, mas admitir isso evitaria problemas futuros e messianismos terrenos.
Creio nessas coisas: que a razão existe como apêndice de um ímpeto cego que, nos indivíduos, manifesta-se como desejo. O desejo que nos une não é necessário um desejo para aumentar posses materiais e prazeres terrenos, ele manifesta-se de diversas maneiras, pois é de sua característico ser múltiplo (se fosse uno, não buscaria dominar o outro).
Por exemplo, quando postulada uma vida além, o desejo (ou instinto) de sobrevivência pode muito bem adquirir a forma de uma vida monástica e de atos suicidas, pois o cálculo de quem acredita no sacrifício dessa vida por uma vida eterna é o mesmo de quem economiza dinheiro hoje para comprar uma coisa mais cara amanhã. E isso ainda é mais racional do que aqueles que buscam fama ou glória póstuma. Quem se sacrifica por um futuro que não presenciará, pois aí o instinto não é sequer o egoísmo humano, mas meramente o instinto animalesco de preservação dos próprios genes.
Mas atrás deste texto que escrevo está o meu próprio desejo de preservar meu estilo de vida. Colocar a religião como um cálculo racional que é, na verdade, apenas manifestação de um egoísmo comum, conforta o meu ateísmo (que por sua vez só precisa ser confortado, pois ser ateu implica que digam que você é o Mal Absoluto comparável ao nazismo vez ou outra, é um ciclo, instintos são tanto impulso de desejo quanto de repulsa, tanto ação quanto reação).
A questão realmente complicada que sai desse tipo de honestidade é o motivo pelo qual as pessoas simplesmente não admitem esse tipo de coisa: se eu admito que sou irracional, qual a validade do meu discurso?
Eu vou fazer um truque bobinho de filósofos e dizer que a pergunta é errada, pois o que temos em questão não é irracionalidade vs racionalidade. Esse já é um modo errado de ver as coisas e é esse modo errado que leva às contradições. O que temos é uma razão, que é razão, que é normativa, que é objetiva, mas que é, ao mesmo tempo, um fruto de - e guiado por - um ímpeto que nos indivíduos manifesta-se como desejo.
Analisar o mundo é analisá-lo por meio de olhos que observam, pois gostam de observar seios. É um motivo pelo qual eu acho que adolescentes são simplesmente novos demais para a escola e que evitaríamos uma porção de crises de media idade se o primeiro colegial rolasse lá pelos 30 anos.
É preciso que nossos olhos tenham saciado-se de seios o suficiente para que estejam prontos para observar as estrelas. Não há como esperar um bom uso da razão em pessoas cujos desejos básicos não estejam bem saciados, assim como não podemos esperar um bom uso da razão daqueles que acreditam que todo bom uso da razão é aquele que leva a satisfação de um desejo. Digo simplesmente para não confiar nem no Pai e nem no Filho; nem no padre e nem no libertino. Pois dividir espírito e carne cria guerra entre eles. O puritano sofre, pois a carne distrai demais o espírito e o hedonista sofre, pois o tédio logo se impõe àqueles que envolvidos demais na roda gigante das fomes.
As lentes impostas pela vontade nos fazem ver o mundo de modo parecido o suficiente, de modo objetivo o suficiente, e, portanto, discursos racionais podem ser realizados. Mas mesmo que discursos racionais sejam possíveis, isso não significa não utilizá-los como ferramenta de dominação, de preservação da espécie, de satisfação dos desejos, o que significa que o mundo sempre verá sua cota de discórdia e de guerra.
Mas quanto a nós que preservamos nosso estilo de vida, que buscamos sobreviver, eliminar o que impede a sobrevivência, saciar nossos desejos e garantir dominação, e sabemos quão escravos somos disso, nos resta uma vida longa e tortuosa buscando - se é impossível amenizar - ao menos guiar esses instintos para uma maior universalidade e uma maior unidade, se não por um motivo ético, ao menos por uma maior compreensão de nossa metafísica, compreensão essa que tende ao universal e ao uno.
E vendo o mal em nós mesmos, aos poucos nos pegamos percebendo o mesmo mal nos outros. Entender o "lado" de quem é rabugento e escroto é entender nossa rabugentice e nossa escrotidão.
Encarar para o abismo - e percebê-lo encarando-o de volta - é uma forma de compaixão.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Arrogância

Um sinal claro de arrogância é o de simplesmente colocar objetivos que não se tem capacidade para alcançar.
Em qualquer época da humanidade, confiança vem seguida desse tipo de promessa.
Atingir o Bem, receber a Salvação, saciar universalmente as necessidades materiais. Boa parte das crises espirituais da humanidade pode ser vista como meramente um ajuste e uma moderação.
O homem sente-se melhor confiando que pulará o abismo do que planejando a ponte e ele definitivamente sente-me melhor crendo que a ponte é possível do que admitindo que o outro lado será sempre o outro lado.
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A natureza das coisas desse mundo é a de modificarem-se sem rumo. Manter-se parado é morte, ir em uma direção é ilusório, modificar-se ao acaso - ou empurrado por forças além do controle - é perigoso, mas esse é um mundo perigoso mesmo. É preciso mais força para viver em um mundo inevitavelmente quebrado do que para passar a vida toda tentando consertar o mundo ou apostando em um pós-mundo.
A diferença entre posturas niilistas é a perseverança (mesmo que falha e vacilante) de um em relação à falta de sentido e o seu oposto em outro, um tipo de apego desesperado (jamais vacilante) ao sentido que aconteceu de cair no seu colo em algum momento de sua vida.
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Encontrar-se no mundo, ser empurrado pra lá e pra cá de acordo com uma natureza incontrolável, chegar em lugar algum, perder a consciência; é isso que eu entendo como sendo uma vida humana. Dar sentido à isso é um ato de desespero e perplexidade. Sinceramente esperar percorrer tal caminho é o que entendo como arrogância.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Porque eu vou votar no Serra.

Porque a Dilma é uma comunista assassina que vai entregar a garagem da sua casa pro MST, lógico.
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Enfim, não, né.
O Serra é um bom admnistrador, ele entende de legislação e sabe se impôr no próprio partido, assim como se defender perante oposição, que são qualidades básicas, mas necessárias para um presidente. A proposta dele é continuista, mas o país vai bem, então continuismo vai bem; décimo terceiro pro bolsa família é um pedaço de populismo demais pro meu gosto, mas whatever, eleição, ninguém é perfeito.
O bolsa-família, aliás, funcionou, ponto, não tem muito o que criticar o programa senão em detalhes e, bom, sendo o bom admnistrador que é Serra, acho que ele vai conseguir impedir que o programa se torne um buraco negro de dinheiro público, assim como acho que ele está preparado para questões técnicas do tipo a inevitável crise que vai atingir em 2011 (Brasil cresce rápido demais aparentemente, uma pequena recessão vai rolar).
Quanto a diplomacia, sem o status de estrela do Lula, ele vai ser forçado a falar menos e ser mais esperto, o que acho que vai render bons frutos.
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Porque não a Dilma.
Não acho que a Dilma tenha experiência o suficiente e a experiência que ela tem não acredito que tenha se mostrado boa. Acho que ela não vai conseguir governar, pois de um lado vai ter a oposição de sempre e do outro, ela vai ter que combater entre o PT e o PMDB, que são aliados eleitorais, mas opostos ideológicos (se é que podemos dizer que a massa amorfa do PMDB tem ideologia) e eu não acho que ela tem capital político (ainda mais que a eleição foi pro segundo turno e há esse clima de que ela está só sobrevivendo ao ciclo eleitoral, o que é falso, mas enfim, impressões) nem pra segurar a "ala radical" do PT e nem pra negociar com o PMDB, o que vai criar uma lambança.
Quanto a economia, tudo bem aí, porque de novo, ela propõe um continuismo pleno e a economia vai bem, algo vai ter que ser feito em relação aos juros, mas isso, acredito, se resolverá de forma técnica e burocrática como é o problema.
E quanto à política externa, é outra preocupação minha, Lula construiu uma ótima imagem do Brasil "lá fora" só pra sacrificar tudo em prol do Irã (*sigh*). Isso é, nem o próprio Lula conseguiu segurar a tal "ala radical" do PT (sabe, aqueles que tomam as decisões imbecis motivados por algum colunista francês), teve que jogar um osso pra eles e esse osso foi (**sigh**) sacrificar nossa imagem pelo motherfucking Irã.
Facepalm, mano, facepalm.
Mas dito isso, pode ser que ela não tente nada no tipo, então quem sabe. O PT está aprendendo (aliás, diria que já sabe um bocado) a agir de acordo com pesquisas de opinião, não sei o quanto ele está disposto a arriscar eleitor em prol de gente como o Chávez e o Ahmadinejad.
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Então é isso, voto no Serra porque acho que ele será um gestor marromenos bom e não voto na Dilma porque acho que ela terá problemas internos em relação a partido e alianças, além de me preocupar que ela tente se aventurar pela política externa como o presidente faz atualmente.

E é isso. Não acho que ninguém é mau, que ninguém vai tentar destruir sua vida, que ninguém representa nenhuma elite assassina, bla bla bla.
Um é um pouco melhor e a outra é um pouco pior.
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Edit:
Outros tópicos importantes:
Casamento gay - ambos os candidatos jogam a questão pro senado
Aborto - Pessoalmente a Dilma é mais favorável que o Serra (que é favorável à legislação atual e não uma criminalização completa), mas não importa, porque ambos os candidatos jogam a questão pro senado.
Ambientalismo - Aqui a coisa fica triste, nenhum candidato vai colocar o meio-ambiente na frente de algo que traz ganho econômico imediato pro país. São casos a serem estudados um a um esses de meio ambiente, mas é visível que nenhum partido se importa muito com a questão na hora em que podemos nos importar com a questão.
Vejo assim: escolher desenvolvimento sustentável ao invés de simplesmente tacar um usina em tal lugar é escolher o longo prazo ao invés do médio. Quando questões ambientais começarem a se tornar brutalmente sérias, o país que tomou as providências *hoje* não só será o mais bonitinho politicamente correto, mas também o que terá a liderança econômica. O PT não vai tomar as providências hoje, é só ver os episódios que levaram a Marina Silva a sair do partido, e o PSDB não vai tomar as providências hoje, pois boa parte do partidos e dos aliados (olhando pra você DEM) tem interesses econômicos na questão.

O que fez dessa eleição *um saco* é que as três questões acima eram as principais pra mim porque o resto todo mundo propôs mais ou menos a mesma coisa, aí veio a Marina Silva, que discorda de mim nas duas primeiras pra concordar na terceira.
A esperança é essa, que mesmo ela tendo perdido a eleição, que seus 20% de votos mostrem que "causa ambiental" é uma que satisfaz o custo-benefício político, mas eu não vejo isso acontecendo a não ser que nós (entenda, "ecochatos" na linguagem do blog da Dilma) aporrinhemos os senadores em quem votamos todo dia.
Então é bom aporrinharmos, porra!

quarta-feira, outubro 06, 2010

E essa eleição que me lembra porque petista é tão irritante, hein?

Na boa, petista histérico é a coisa *mais* irritante desse planeta.
Começa com aquela história de que voto neles é o voto iluminado, sincero, absoluto e voto na oposição é o voto reacionário, burro, preconceituoso.
O lance é que todo candidato tem seus votantes que votam mais ou menos conscientes e por motivos mais ou menos irracionais. Faz parte do ser humano ter suas decisões influenciadas por impulsos irracionais.
E sim, me irrita quem diz (embora eu já tenha dito em algum momento estúpido ou outro, mas aquela foi outra vida, hoje sou um cara bacana de centro) que os pobres estão sendo subornados pelo bolsa-família ou algo assim. Mas quer saber? Eu não vi quase nada disso nessa eleição, eu vi muito disso na outra eleição, há 4 anos atrás, mas nessa, o bolsa-família é um ponto comum entre todos os candidatos e aí que petistas começam a me emputecer.
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Pra quem depende tanto de espalhar desinformação, os petistas se ofendem demais com panfletos que não estão bem mentindo (embora sejam histéricos demais e claramente tenham a irracionalidade como alvo).
Ontem alguém dizia que a "classe" quadrinhista não devia votar no Serra porque ele algum dia fez algum comentário contra quadrinhos. Só que na boa, vai na comix, vai na seção de quadrinhos nacionais e vê na contra-capa quantos deles tem o selo do Estado de SP. O governo do Estado de SP financia uma porrada de quadrinhistas a ponto de alguns deles apostar toda sua carreira em conseguir esse financiamento e sujeito vem me dizer que o Serra tem algo contra a "classe". E claro, fica aquela certeza que o sujeito *sabe* disso. Ele sabe que o Serra não é anti-quadrinhos, mas ele diz mesmo assim, que se foda, petista é assim mesmo, a podridão do alto escalão caiu para os militantes, o que é ainda mais nojento, pois o sujeito é mentiroso e desonesto e nem vai conseguir poder em troca. Ele é mentiroso em prol de outros mentirosos.

Aí começaram a ficar putos por causa de um panfleto que dizia coisas que foram assinadas pelo presidente Lula.
O PT é a favor da legalização do aborto, da maconha e do casamento gay? Que diga! Pois, como disse o Alon, eles bem se benficiam do voto feminista e gay. Se não é, que diga também. Na verdade, a posição da Dilma sobre o assunto é *muito boa*. "Que o Senado decida" é uma posição ótima, pois são 3 casos legislativos e quem deve decidir o assunto é realmente o legislativo. Mas mesmo tendo uma posição *muito boa* sobre o assunto, a primeira reação petista é histérica, a primeira reação é se ofender, a primeira reação é acusar e se fazer de vítima. Oh, pobres petistas que passaram os últimos 8 anos no poder, são uns coitados vítimas do malvado fazedor de panfletinhos. E nem vou começar no quanto acusaram a Marina de conquistar o "voto reacionário" e começar a pintar uma imagem que ela nem ambientalista é; o que é um claro absurdo, mas foda-se, petista diz claros absurdos mesmo, não tá nem aí.

Agora no twitter começou a se espalhar que o Serra mandou demitir Maria Rita Kehl por causa de um artiguinho de primeiro ano de ciências sociais que defende um projeto de governo (o bolsa-família) que o Serra disse não só que vai manter, como que vai criar um décimo-terceiro para ele. Então o artigo já parte da premissa implicita claramente (e isso é *claramente*, pois foi discutido à exaustão nessa eleição) falsa de que o Serra é anti-bolsa-família. E aí, sem *nenhuma* prova, a twittosfera (?) petista espalha aos quatro ventos de que ele pessoalmente mexeu algum pauzinho pra autora do texto adolescente ser demitida e se isso for verdade, então o Serra merece mesmo sumir de vez da vida pública porque reagir assim à um textinho vagabundo daquele é quase tão imperdoável ao autoritarismo inerente do ato.
Mas eu não tenho nenhum motivo pra acreditar que o Serra de fato mandou demitir a mulher e 99% dos petistas retwittando isso com a indignação de mil sóis também não tem nenhum motivo pra acreditar nisso e *mesmo assim*, espalham isso por aí. E que os militantes estejam dispostos a serem desonestos assim me emputece tanto, porque você meio que espera que um político diga mentiras, agora um zé-qualquer mentindo em prol de um político é ridículo. Vocês, seus putos, deviam ser os fiscais do seu partido, não os aliados das mentiras deles.

Vocês me envergonham. Se querem transformar o partido na sua nova religião que vão pros EUA se juntar aos republicanos e sejam histéricos lá, pois lá eles tem saco pra essas coisas.

/FuriousRant

segunda-feira, setembro 27, 2010

Desistindo, har har

Meu povo, eu vou desistir de continuar essa história de civ, haha.
Enquanto tem pouca coisa acontecendo, é fácil tirar screenshot, escrever um evento, etc.
Mas aí você tem que lidar com 15 problemas por turno e pensar neles e na história ao mesmo tempo é um pouco estressante demais.
Se tipo, um zilhão de pessoas gostaram do formato, em uma partida futura eu tento de novo.

Civilization 5 - historinha - Rhamkhaensk - Era Renascentista

Em 1555, o sonho de gerações de escoteiros se concretizou. Navegando sempre ao norte, terra foi encontrada! E nas novas terras, havia um novo povo.
O povo alemão, vivendo sob a tutela de Bismarck, nos recebeu de braços abertos e logo foi estabelecido comércio entre ouro alemão e vinho siamês.
Os alemães concordaram também em permitir aos nossos escoteiros acesso à seu território. Na terra-mãe, agora percebendo-se um continente entre outros, o povo comemorava as notícias nas ruas.

Baphomet é o Justo. Jamais ele dá uma recompensa sem um obstáculo.
No início, nossos escoteiros admiravam a formidável cultura do vasto império alemão, aliados e protetores da pequena nação de Tiro assim como os siameses protegem Varsóvia e Copenhague.
Mas uma outra pequena nação foi encontrada, a cidade de Cingapura, despojada de sua liberdade pelos alemães, roubada de sua nacionalidade e glória.
Sim, haviam bárbaros no mundo, antes eram acampamentos, agora havia um império deles.
Não demorou até o espírito de justiça inflar os corações do povo. O senado clamou justiça pela pobre Cingapura. E se justiça demanda a ruína de todo o império alemão por essa única cidade, que assim seja!
Os navios guiavam-se pelos mapas dos escoteiros. A nação siamesa navegava rumo à guerra.
Em 1670, a guerra foi oficialmente declarada. Bismarck recusou-se a libertar Cingapura e, dessa forma, recusou-se a permanecer do lado do bem. Perder o ouro alemão causou grande descontentamento na república, mas malditos sejam os nobres que colocam o ouro na frente da guerra justa.
Aproveitando o elemento surpresa, Cingapura e Stuttgart foram citiadas. Em 1685 Cingapura foi liberada dos tiranos. A batalha, entretanto, não foi sem custo e muitos espadachins perderam suas vidas no cerco de Cingapura. Esses heróis serão para sempre lembrados nos livros de história de dois povos.
O povo siamês conheceu o mundo e, com ele, a dor. A guerra contra a Alemanha não parecia apresentar nenhuma grande dificuldade e em 1700 a cidade de Stuttgart foi conquistada. A cidade se localizava na península mais próxima do continente siamês e foi conquistada por tal propósito estratégico. Mas o grande Rhamkhaensk não contava com seu pior inimigo... o senado.
Logo que Stuttgart foi conquistada, as tropas iniciaram a marcha em direção à Colonia, uma grande cidade alemã localizada em meio à montanhas e selvas. A campanha foi um desastre e as perdas muito numerosas para serem relatadas.
Em 1735, um escoteiro inglês trazia notícias de sua líder, Elizabeth. Ela nos trazia ouro o qual trocamos pelo nosso vinho, que começava a se tornar mundialmente famoso. Os senadores, apaixonados pela idéia de comercializar o vinho, tinham cada vez menos interesse na guerra e preferiam construir mercados à investir em tropas.
Em 1750, descobrimos que ao oeste se encontrava o reino de Elizabeth, a Inglaterra, ela estava em guerra com outra grande nação local, a França, comandada pelo pequeno Napoleão que nos ofereceu mármore pelo nosso vinho. No front, a batalha continuava desastrosa, as tropas sobreviventes recuavam o máximo que podiam, mas o terreno pregava peças e localizações que pareciam seguras não eram, e inimigos que pareciam vulneráveis, não estavam. Além disso, as tropas alemães provaram ser muito mais numerosas do que nos seria capaz reconhecer.
Em 1808, um cientista preocupado com a situação das tropas desenvolveu a ciência chamada "química". Tyro Brahe deu à humanidade essa preciosa ciência, mas ela na verdade foi apenas um efeito colateral de sua pesquisa com canhões.
Em 1814, nosso objetivo principal na guerra foi anulado. Cingapura foi reconquistada pelos alemães, tudo que sobrou do nosso exército foram os recentes canhões de Tyro Brahe e um destacamento de piqueiros. Eles recuaram até Stuttgart e lá ficaram esperando um reforço que nunca chegava.
Em 1826, descobrimos ainda mais um continente, este parecia inteiramente dominado por Augustus César, imperador de Roma. Este nos ofereceu prata pelo nosso vinho, mimando ainda mais o odioso senado siamês.
Por fim, em 1844, descobrimos que ele estava em guerra com uma pobre e pequena nação, a Índia, liderada pelo valoroso Ghandi que nos ofereceu algodão pelo vinho.
As cidades siamesas construíam coliseus, teatros e mercados. Dedicavam-se nem à ciência ou à guerra, mas apenas ao ouro e à diversão. Enquanto isso, o canhão e os piqueiros resistiam em Stuttgart, por quase 100 anos eles resistiram, sozinhos, ao infinito número de tropas alemãs.
Mas enfim, o piqueiro caiu. E o conto de seu valor ecoou pela república. Pouco tempo depois, o castelo Hemji foi construído em Sukhothai e os senadores não mais podiam ignorar a guerra.
Os mosqueteiros logo chegavam às costas de Stuttgart e aos poucos avançavam junto com os canhoneiros que agora eram verdadeiros mestres em sua arte, podendo dizimar grandes números de tropas em pouco tempo.
Em 1919, Cingapura foi liberada novamente. Bismarck havia investido recursos demais na conquista de Stuttgart, ele pedia pela paz, mas o povo agora clamava guerra. Assim iniciou-se o que a história veio chamar de Era Industrial.

domingo, setembro 26, 2010

Civilization 5 - historinha - Rhamkhaensk - Era Medieval

Em 50 Antes do Nascimento, o Colosso em Sokuthai foi construído. Era um monumento admirável e a tocha que ele trazia dava esperança aos cidadãos. Ainda assim, essa esperança de certo modo os provocava. Que bom futuro poderia haver nessa terra? Os homens olhavam para os céus, pois se cansavam de olhar para o mar.
Lampang foi fundada em 620 Após a vinda de Baphomet. Motivado pela religião que pregava fazer o melhor dessa terra nos oferecida por Baphomet, o escoteiro saiu do mar. Lampang foi fundada ao norte de Sukhothai nas encostas da principal rota do vinho de Muang Saluang. Tal rota passava pelo deserto e logo a expressão "avistar o trigo de Lampang" se tornou popular, significando chegar ao fim de uma árdua jornada. Alguns a utilizavam para significar o fim da vida.
Em 1010 Após o Nascimento, novas batalhas se concluíam contra bárbaros do norte. A persistência destes levaram a república siamêsa a valorizar mais o mundo civilizado. Uma grande oferta de ouro foi feita a Varsóvia e as duas nações tornaram-se aliadas. Eles ofereciam para nós artistas e pérolas e esse pacto foi visto como um modelo de excelência entre os povos civilizado.
Os escoteiros, sem terem o que explorar, agora passavam todo o tempo ao norte. Sempre olhando para o norte infinito, ainda crendo haver algo ali além de oceano.
A república estava feliz com seus monumentos e agora com as pérolas de seu novo aliado. Acreditavam ser esse um mundo bom e olhavam com maus olhos desejos de exploração.
Em 1100, uma profesora de nome Hypatia escreveu um grande tratado sobre educação e para todo o sempre seu nome será lembrado como símbolo da pedagogia.
1220 foi marcado pela fundação de Phit Sanulok e seu contexto conturbado.
Nos 200 anos em que os escoteiros fizeram acampamento ao norte, eles ganharam seguidores, que eventualmente fundaram a cidade. Embora completamente fiéis à república, agora representativa e muito respeitosa dos princípios da meritocracia, seus sonhos de descobertas causavam problemas entre os religiosos. Pois não era que Baphomet os havia colocado no meio do infinito do oceano para que fizessem o melhor da terra? Ainda assim, a perseverança monástica daqueles escoteiros, o mesmo grupo que há milhares de anos atrás lutou contra os bárbaros na fundação de Si Satchanalai, inspirou os sábios a pesquisarem um instrumento que facilitava saber se eles olhavam para o norte ou para o leste.
Os religiosos zombavam: "Norte? Há a direção da Varsóvia, a direção de Copenhague, a direção de Si Satchanalai, a direção de Lampang. Com nossa capital ao centro, essas são todas as direções que precisamos."
Em 1540, um grande homem chamado, filho de escoteiros, trazia em seus pensamentos a resposta para os anseios de seu povo.
Aristóteles um dia invadiu o senado e exclamou: "Encontrei meios de navegar os oceanos!"
Os senadores riram e zombaram, mas aqueles entre eles que conseguiam entender a ciência por trás das palavras do jovem, surpreenderam-se. O homem era capaz de ler as estrelas e, por meio delas, jamais uma navegação se perderia em alto-mar.
Senadores da ala religiosa dos filhos de Baphomet levantaram-se e amaldiçoaram o rapaz, mas eis que o grande cônsul Rhamkhaensk finalmente se pronunciou:
"Baphomet nos colocou neste mundo para livrá-lo dos bárbaros. Nesta terra não há barbáridade além de nossos costumes, demasiados acostumados ao encanto dos vinhos e das pérolas. Os escoteiros, esses nobres senhores que foram tão indispensáveis na criação de nossa grande civilização, deram a nós agora Aristóteles, seu filho, para que por meio dele, outros povos possam ser salvos dos bárbaros. Pergunto-lhes senadores, o que importa neste momento? Realizar a missão de nosso Deus ou apegar-nos à detalhes teológicos?"
Este discurso de Rhamkahensk iniciou o que a história chamou de renascentismo. A era em que o povo siamês construiu embarcações para seus escoteiros e lhes deu a benção enquanto partiam para o norte. O império crescia e a ilha que parecia tão imensa começava a ficar pequena e era bem sabido que Baphomet divertia-se tanto com os testes quanto com as recompensas. As grandes navegações provariam ser ambos.

Civilization 5 - historinha - Rhamkhaensk - Era Clássica

Era o ano de 625 Antes do Nascimento quando o Oráculo foi construído em Sukhothai. Foi também o ano em que inspirados pelas palavras de Baphomet que saíam dos belos lábios das ninfas que os escoteiros, tendo desbravado toda a terra, decidiram se aventurar nos mares. A embarcação naquela época não era capaz de navegar para muito além das praias, mas cada vez mais os cidadãos sonhavam com outras praias em outras terras.
O império florescia. Cidadania havia sido adotada para separar os cidadãos dos trabalhadores e, assim, os trabalhadores puderam rapidamente utilizar o calendário desenvolvido por meio da observação da lua para colher o algodão para as roupas e lençóis de seus senhores. Foi também instituído que esses cidadãos governariam coletivamente, com a sabedoria coletiva, estavam confiantes de que as próximas cidades a serem fundadas seriam melhor admnistradas.
Mas o ápice desse tempo foi quando o último acampamento bárbaro foi destruído pelos bons arqueiros, que utilizando de sua velocidade conseguiram atacar a distância inimigos que eram-lhes numericamente superiores.
Os filósofos brincavam que essa vitória demonstrava que esse experimento chamado "civilização" dava certo. E, portanto, os cidadãos começaram a se organizar para fundar uma nova cidade.
Muang Saluang foi fundada em 350 Antes do Nascimento. Os filósofos debatiam questões acerca de quantidades.
Muang Saluang ficava à grande distância em terra, mas à uma breve distância pelo mar. Estava também próxima de Copenhague, podendo assim protegê-la dos bárbaros, e de misteriosas frutas capazes de criar o milagre chamado vinho, que ajudavam a proteger os cidadãos dos maus espíritos e das dores de cabeça causadas pelos trabalhadores.
Sendo o oceano tão importante, Rhamkhaensk projetou pessoalmente um grande farol, que não apenas permitiria o melhor trabalho nos perigosos mares, como também simbolizaria a luz da civilização.
A era clássica do império siamês é talvez mais lembrada pelas histórias acerca de um cientista social chamado Antoine Laurent Lavoisier quem andava pelos mercado de Sukhothai implorando para que ouvissem suas idéias. "Serviço social", ele exclamava, "devemos nós, cidadãos, pensarmos na admnistração não apenas como uma necessidade, mas como um orgulhoso dever". Suas idéias incluíam que o conselho de cidadãos financiasse coletivamente os serviços nas fazendas, tornando-as mais produtivas.
Não foi sem infelicidade que a idéia repercutiu e, de fato, a burocracia, embora de fato aumentasse a produção das fazendas. Em muito desmotivava o trabalho dos cidadãos.
A era de prazeres parecia haver passado, o que se seguiu, foi compreendido como a Era Medieval.
Até mesmo o entusiasmo inicial dos escoteiros encontrou suas dificuldades. Cruzar o território da Varsóvia criou um pequeno atrito diplomático e, como esperado, tudo que conseguiram foi visualizar apenas mais oceano, fazendo a população questionar a sabedoria em se ignorar as teorias filosóficas acerca dos mares infinitos e sem terra em nenhuma outra parte.
Havia esperanças de melhoras uma vez que a plantação de uvas de Muang Saluang fosse utilizada para produzir vinhos em quantidade o suficiente, mas noções teológicas acerca de Baphomet preocupavam a população, pois não era ele o justo? Aquele que dá e tira na mesma proporção?
Muitos teólogos previam que, quando os vinhos chegassem, também chegaria outro desastre. Ao que os hedonistas replicavam: "Maior desastre que viver sem vinho?"

Civilization 5 - historinha - Rhamkhaensk - Era Antiga

Disclaimer, porque lol:
Eu comprei civilization 5 um tempinho atrás e rapaz, que jogão. Então sei lá, de tempos em tempos escreverei essas historinhas porque coisas interessantes ocorrem de vez em quando. Dependendo do quanto o jogo me viciar (tenho ele há uns 3 dias e já to com 28 horas jogadas, então vocês me avisam o quão viciado eu estou) essas historinhas serão mais ou menos frequentes. Quanto a vocês, caros leitores não-existentes, será um tempo de acompanhar minha excelente narrativa, quanto a mim, é uma forma de praticar tal excelente narrativa.
Antes de ser aporrinhado por todas as minhas civilizaçõs serem adoradores de Baphomet:
1 - O cara tem cabeça de bode, o que é bem bacana, esteticamente faz sentido e, sério, bodes, porque não?
2 - Baphomet é levemente provocativo de todo mundo. Eu provoco um pouquinho os cristãos que devem achar que eu faço algo muito errado e eu provoco um pouquinho minha namorada que sabe mais sobre essas coisas que eu e sempre se incomoda quando eu utilizo o nome de Baphomet sem usar os super-poderes específicos dele.
3 - A verdade é que "Baphomet", nas coisas fictícias que faço, virou uma deidade baunilha, ou seja, é um nome que eu posso usar para dar as características que eu quiser. Quero um senhor dos mares? Baphomet, o senhor dos mares. Preciso de um deus da paz? Baphomet, o senhor da paz. Etc. Como eu não sei que caminho os jogos irão (no último jogo, eu quis ser pacífico, como tentarei ser nesse e acabei dominando 70% do mundo tentando proteger coisas a serem explicadas a seguir)
Regras rápidas:
Sem entrar em detalhes que não dizem a respeito da história em si, civ 5 funciona assim:
Há as civilizações (são 8) que expandem e querer vencer o jogo e há as cidades-estado (são 16) que não expandem, não tentam ganhar o jogo, mas que dão coisas pra você se você agradá-las, seja por ouro, seja cumprindo pedidos, seja protegendo-as das outras civilizações. Acho que será fácil indentificar na história quando falo de um ou de outro.
De resto, é gameplay e se você se interessar, compre o jogo, 60 doletas não é nada caro para algo que vai te dar algumas centenas de horas de diversão.
Dito isso, vamos à história. Eu vou tentar fazer com que cada post cubra uma era. Isso me ajuda também a jogar os jogos até o final, mesmo os que eu estou perdendo, porque enquanto não é assim tão legal jogar um jogo que as coisas dão errado, é legal escrever a respeito.
Divirtam-se e, claro, não leiam, pois só a introdução já é mais longa do que vocês toleram que um post de blog seja.
As imagens são pequenas, mas sabiamente clicáveis. Recomendo clicá-las pra entender um pouco do que eu estou descrevendo.
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Era o ano 6000 antes do nascimento do nosso senhor Baphomet, O Justo que diverte-se testando o senso de dever do grande povo siamês.
Neste ano, uma comunidade de agricultores uniu-se em torno do grande imperador Rhamkhaensk e fundou a cidade de Sukhothai próxima à ovelhas para alimentar e aquecer nosso povo e os peixes que o bondoso oceano nos entregava.
O mundo ao nosso redor é enorme e misterioso, começamos a pesquisar os mistérios do aquecimento de barro para melhor transportarmos água e alimentos. Os nossos guerreiros aventuraram-se no grande desconhecido, enviando mensageiros que nos entretiam com histórias de suas descobertas.
Durante milhares de anos, os guerreiros batalharam contra um acampamento bárbaro ao norte enquanto descobriam as ruínas de outros povos. Encontramos ouro e inscrições em seus muros detalhando como retirar minérios da terra. Essas ruínas causaram uma impressão muito forte no jovem povo siamês, que acreditavam-se a única civilização do mundo.
Dedicados a descobrir mais sobre este mundo e suas crueldades, os homens mais rápidos de nossa tribo decidiram unir-se para desvendar o que as tundras gélidas do sul tinha a oferecer. Encontraram mais bárbaros que quase os dizimaram, mas nas palavras de um escoteiro ferido veio também esperança: uma tribo civilizada. A varsóvia nos ofereceu ouro em comemoração ao nosso encontro e eles pareciam também dispostos a formar famílias ao invés de guerras. Sentimos ser nosso dever impedir que os bárbaros devastassem esse bondoso povo que compartilhava o mundo com o nosso e decidimos que onde seria difícil derrotá-los em bruta fúria, faríamos como uma família. Era o ano 3120 antes do Nascimento e nossos guerreiros e sábios reuniam-se aperfeiçoando os arcos de caçada em armas de guerra.
Os nossos guerreiros lutavam contra bárbaros ao Oeste e ruínas continham a pista da carnificina causada por mais bárbaros ao norte. Assim, para proteger a população, os nobres escoteiros arriscaram sua vida confrontando-se com os bárbaros do sul. Sua vitória no ano de 2720 Antes do Nascimento marcou o lugar onde a vila de Si Satchanalai seria fundada. Havia caça ao norte e grandes quantidades de peixe no oceano. Baphomet certamente era bondoso para com os peixes, mas sendo O Justo, ele compensou essa bondade com um cruel terreno infértil ao redor de toda a cidade.
Com o acampamento bárbaro destruído, apenas um grupo isolado de brutos restava neste pedaço cruel de mundo.
Por milhares de anos os combates contra os bárbaros continuaram. O acampamento destruído ao noroeste se reestabeleceu e eliminou nossos grandes guerreiros. No norte, nossos arqueiros faziam progresso, conseguindo destruir até uma embarcação de guerra. Mas sem os guerreiros, nosso povo temia pelo futuro. Nosso povo descobria como se comunicar por meio de símbolos entalhados em pedra e desenhados em pedaços de couro. Agora concentrava todos seus esforços em uma grande biblioteca onde poderíamos guardar nosso conhecimento.
Liderar o pequeno povo começava a exigir mais do grande Rhamkhaensk. Precisava expandir para impedir que os bárbaros tomassem a terra, mas sabia o custo que isso traria à seu povo já à beira do cansaço. Decidiram ao menos tentar finalizar a biblioteca e então buscariam novas terras.
Em meio à tantas tragédias, mais um sinal de esperança. Outro povo civilizado, a vila de Copenhague, amigável e fértil, surgiu aos olhos do nosso ferido grupo de escoteiros. Tornava-se claro que esses 3 povos eram a totalidade do mundo civilizado e que a terra que compartilhávamos com os bárbaros, a totalidade da terra desse mundo.
A construção da Grande Biblioteca de Sukhothai foi um sucesso e, graças à ela, os escritos dos diversos filósofos puderam ser compilados e em 1600 Antes do Nascimento, iniciou-se o que é descrito como a era clássica de nossa civilização. Entretanto, a construção da biblioteca não foi comemorada. O povo estava cansado e o grande Rhamkhaensk decidiu que buscar conhecimento, nesse momento, era mais importante do que buscar mais terra. Outra biblioteca começou sua construção enquanto os sábios buscavam uma maneira melhor de locomoção entre as duas cidades.
Entre os consensos dos filósofos (ou o que se pode chamar de consenso entre tais pessoas) era que havíamos visto todo o mundo. Parte do desânimo do povo dava-se justamente a isso. O universo, acreditavam os filósofos, era composto de três planos paralelos: abaixo haviam as águas infinitas, repousando sobre a água, o pequeno pedaço de terra, que Baphomet, O Justo, colocou como contraste ao infinito das água. Acima da terra, os céus. Acima dos céus, Baphomet divertia-se com nossas tragédias e orgulhava-se de nossos progressos.

terça-feira, setembro 14, 2010

A rainha

O general aguardava do lado de fora do grande portal de madeira.
Mantinha a postura, respirava fundo, repassava pela cabeça as coisas que tinha que dizer.
Recusava-se a olhar para trás, a encarar qualquer um nos olhos. Eles, assim como a rainha, já sabiam o que ele tem a dizer, se a notícia fosse outra, ele já teria contado. Ele quase tinha vontade de gritar para todos fugirem, assegurar a sobrevivência, neste momento, significava destruir qualquer traço de esperança.
Hoje é o dia em que o mundo não é mais e quando as pesadas portas lentamente se abrem, ele sabe que em breve a rainha, como legítima representante de Deus nesse mundo, deve anunciar seu fim.
O general avança em passos curtos, como se para preservar o mundo um pouco mais, ao se aproximar do trono, ele reverencia e aguarda a permissão para falar. Mas é a rainha quem fala:
- As pessoas revoltam-se contra um peso, general. Eu poderia dar-lhes boa comida e boas leis, mas elas jamais suportariam viver com o peso deste trono.
O general ainda olha ao chão.
- Os povos da terra cansaram-se da dignidade. Cansaram-se da moderação e da racionalidade. Eles invadem meu palácio pela minha cabeça e quando a guilhotina falar, não mais falarei por Deus. O mundo que se alimentará de nossos cadáveres não mais terá espíritos para verdadeiramente nutri-lo. A dignidade se tornará confusão travestida de liberdade e a racionalidade não passará de máquinas. Deus é eterno, general, mas se não posso mais falar em Seu nome, que papel nesse mundo ele tem senão o de criador de um vulgar e cego maquinário?
A rainha retira a coroa.
- Pegue-a general, leve aos povos, diga a eles que a monarquia está acabada. Tome para si algum crédito e talvez consiga graças o bastante para alguma dessa autoridade vazia das repúblicas. Não sou mais sua rainha, pode falar.
- Farei o que me pede, pois sempre será minha rainha. Tornarei-me um político mesquinho como todo cidadão está para se tornar, pois creio em suas palavras. Há um navio que a espera caso queira sobreviver, sem a tua dignidade e a luz do teu mandato divino, não mais me sacrificarei pela pátria. Assim, deves fugir logo, pois assim que desaparecer de minha presença, Deus e razão também desaparecerão e eu venderei sua localização pelo ouro vazio das repúblicas.
- Garanto-lhe o paraíso general, pois obedece a palavra divina enquanto podes ouvi-la. Aos nascidos amanhã, não haverá inferno ou paraíso. Aos meus assassinos e traidores de amanhã, o que farão não será pecado, pois desobedecem apenas uma figura política. O inferno está reservado apenas aos que me traíram hoje e durante todo meu mandato. Leve a coroa general, a destrua como um gesto de poder mesquinho. Sem a coroa, também morrem as verdades metafísicas. Estarei em meu navio e não mais haverá terra.
A rainha viajou pelo mundo, seu reino tornou-se uma democracia e, portanto, caiu em desgraça. Os templos construídos no antigo reino oscilavam entre ditar os fúrias irracionais dos partidos políticos ou obedecer irracionalmente a estes. Os doutores não mais estudavam metafísica e portanto dedicavam-se apenas a prolongar vidas infelizes e perdidas, que seguravam-se a cada segundo de prazer vazio por saberem não mais ter lugar na eternidade. Tiranos ganhavam poder graças à pautas mesquinhas do dia e disputas políticos caminhavam à irracionalidade até a eclosão de guerras civis cujo terror servia apenas para restaurar breves momentos de moderação pela covardia.
A rainha perdeu seu reino, mas continuou rainha. Manteve toda sua dignidade e sua presença ainda era a presença divina. Navegou os grandes mares e chegou à outras repúblicas. Recusando-se a humilhação de ser mera cidadã, tornou-se um gato e possuindo a majestade dos gatos, não necessitava mais ser rainha dos homens.
Em sua nova casa, era apenas a estrangeira. Apreciava a adoração e as caminhadas noturnas.
Quando morreu, o mundo já estava deteriorado demais para perceber que perdeu muito de sua dignidade.