Oh céus, Rodrigo falando do que não entende.
Vamos lá.
Lendo uns autores e tentando conciliar meu relativismo.
Por curiosidade; são Paul Boghossian, Richard Nisbett, Antonio Damasio e assim vai.
Mas tudo muito por cima e na internet. Estou tentando "costurar" isso tudo no meu pensmaento atual e já me preparando pro meu cursinho auto-didata de fenomenologia no ano que vem.
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O problema de interdisciplinariedade, especialmente entre ciências humanas e exatas, é que muitos termos simplesmente não se trocam.
Lendo a introdução do livro "fear of knowledge: against relativism and social construtivism" de Paul A. Boghossian - ele cita um grupo de arqueologistas que se dizem relativistas dizendo que as explicações deles próprios para o início do mundo são tão válidas quanto as das tribos que eles estudam.
Esse tipo de relativismo acaba sendo um alvo fácil porque, oras bolas, se conhecimento é assim tão relativo, então pra que perder tempo buscando um rigor e uma objetividade na ciência?
Nesses momentos, por incrível que pareça, é preciso um relativismo para curar o relativismo exacerbado.
Nós, da filosofia, dizemos esse tipo de coisa porque nós estamos falando as coisas de um ponto de vista onde geralmente o conhecimento em si é tomado como problemático. No fim, aquilo que Husserl chama de "atitude fenomenológica" que é oposta a "atitude natural" meio que serve pra filosofia como um todo.
Então quando Rorty faz um apelo ao relativismo, ele com certeza não está falando para os arqueólogos aceitarem a explicação das tribos como "tão válida quanto", esse tipo de trabalho geralmente está em um nível onde não há a possibilidade de interdisciplinariedade.
O trabalho de Rorty me irrita muitas vezes porque ele critica os filósofos de se isolarem, mas afinal, ele acaba escrevendo apenas para filósofos; isso talvez seja inconsciente da parte dele, mas algumas vezes filósofos precisam se fechar dentro dos seus clubinhos para resolver os problemas particulares típicos da disciplina.
Então eu aceito boa parte do relativismo Rortiano, mas um erro que eu me vejo cometendo é quando há uma interdisciplinariedade que eu não percebo; no fim, é preciso um certo exercício para sair da "atitude transcendental" - o clubinho filosófico - e entrar na "atitude natural".
Relativismo, no fim das contas, é isso. É definir qual seu ponto de vista e aí afirmar que, *desse ponto de vista*, o caminho é *esse*. A ambiguidade do pensamento racional, no fim das contas, deve ser resolvida ou pela solução ou pelo esclarecimento de qual ponto de vista estamos falando. Aceitando a perspectiva X, então não pode mais haver ambiguidade.
Aí o debate é sobre se tal perspectiva é suficiente para explicar o mundo - geralmente acaba sendo "a ciência, sem nada além dela, pode explicar o mundo?" - mas aceitar contradições dentro de uma única perspectiva é abandonar princípios básicos que usamos para nos comunicar.
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Dito isso, é uma questão de um passo pra trás pra dar dois a frente. A filosofia precisa se fechar, num primeiro momento, em um grupinho com pesquisas que não faz diferença pro resto do mundo, que é, pra num segundo momento, olhar as coisas como um todo.
Então primeiro assumimos o conhecimento como um problema, dizemos que o empirismo não diz nada, que nenhuma ciência tem nada a oferecer e nós não temos nada a oferecer para nenhuma ciência.
A partir daí, podemos construir, da base, uma disciplina que leve em conta todas as dimensões de nossos conhecimentos. Que somos seres que vivemos nesse momento histórico, influenciados por essa cultura, nessa situação social, com esse corpo que funciona dessa maneira, nos comunicando por essa linguagem, etc.
Entretanto, é sempre bom lembrar do nosso relativismo aqui para impedir o relativismo lá: aqui nós somos filósofos, nós procuramos um tipo de resposta sobre totalidades, algo que não deixe escapar nada, que não deixe nada de fora.
E mesmo dito isso, é preciso assumir uma posição sobre isso.
Aqui não significa tornar o equívoco aceitável (equívoco, lembrando, não é erro; mas é o fato de vozes diferentes terem valor igual), mas sim englobar o equívoco em um esquema não-ambíguo de pensamento.
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A ciência não pode ser relativista assim!
O Arqueólogo, na sua posição de arqueólogo, tem que falar que o que destruiu a vila foi uma chuva e não o deus do vilarejo.
O cientista tem que dizer que o que cura é o seu remédio, etc.
Aqui o problema vai para os dois lados.
Se estamos analisando a totalidade daquilo que é ser, temos que levar em conta várias coisas que não levamos quando estamos analisando o modo como os fatos se encadearam na cronologia humana ou o modo como os organismos vivos se constituem.
Analisando a totalidade, eu não posso ignorar nossa dimensão "exata" como descoberta pelas ciências empíricas do mesmo modo que não posso ignorar dimensões menos exatas, como crenças religiosas, arte, ideologias, comunicação, percepção, etc.
Se nós não gostamos dos reducionistas, ou seja, não gostamos de quem diz "o ser é ISSO" ignorando o que ignoram, mas então nossa explicação deve englobar e o problema de certo relativismo é quando ele cai no niilismo de dizer que as opiniões contrárias se anulam e que nenhuma é conhecimento. Pelo contrário, todo modo de conhecer que traz algo a mesa que os outros modos de conhecer falham em trazer é algo que deve ser acrescentado ao invés de relativizado.
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Então o problema dos arqueólogos é, afinal, uma falta de treino em assuntos filosóficos para "relativizar direito" as coisas.
Quando estamos em contato com uma crença que diverge da crença científica, não é questão de aceitar as duas como igualmente válidas, mas perguntar (e a redução fenomenológica ajuda a responder justamente essa pergunta) o que cada uma me traz como conhecimento?
Não se trata de aceitar todas as descrições do mundo como iguais, mas de ouvir todas e então, com o rigor filosófico, julgar o que cada uma traz.
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O que experiências religiosas e místicas geralmente trazem é (e aqui vou me apoiar em Schopenhauer) um senso de unidade com o mundo; de qualquer modo, é algo único por ser indescritível de outro modo. É preciso ter a experiência para saber o que é - algo parecido do que a experiência da arte; lembro que a primeira aula de estética da faculdade foi um quadro colocado na parede e o professor nos pedindo para descrevê-lo.
Oras, se você descreve objetivamente o quadro, você perde justamente aquilo que faz dele arte, objetivizar a arte é perder aquilo que ela traz de único; assim como explicar racionalmente para alguém que é preciso ter compaixão é perder aquilo que a experiência mística tem a oferecer.
A perspectiva de terceira pessoa tira muitas coisas em termos de conhecimento, mas nós nos comunicamos para uma comunidade de pensadores racionais assumindo tal perspectiva.
Mas enfim, falar mais sobre esses assuntos seria um post só pra eles, o que eu dei aqui foram exemplos bem rápidos e, como exemplos rápidos, faltam neles uma série de nuances.
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Esse post seria melhor se eu de fato acabasse ler o Boghossian, porque embora o pouco que eu li (haha, tipo, duas páginas da introdução) me fez escrever esse post, o medo é que ele esteja lutando não contra filósofos relativistas, mas contra cientistas fazendo mal uso do relativismo, já que o próprio Rorty, citado de novo e de novo como o relativista chefe, argumenta muito contra a legitimidade de governos totalitários, contra a legitimidade de conhecimentos religiosos que tentam tomar o lugar de conhecimentos científicos, etc.
Mas enfim, o relativismo que ele propõe sempre foi meio diferente do meu; eu gosto dos debates que ele considera inúteis por exemplo e, (mais uma vez inspirado por Schopenhauer) eu me vejo como algo além do que o darwinismo que Rorty se inspira.
Certamente Rorty não afirma que duas crenças conflitantes são "igualmente" válidas, se não há o parâmetro do espelho do mundo, há pelo menos o parâmetro da utilidade e mesmo assim não é qualquer tipo de utilidade, mas é utilidade em garantir a sobrevivência da espécie.
Se eu nego o conhecimento empírico que de fato cura doenças em prol do conhecimento divino de que deus cura as doenças e o primeiro salva vidas enquanto o segundo não, então não há relativismo aqui, nem pro Rorty; o conhecimento que salva vidas é mais útil do que o que não salva, mesmo que o que não salve tenha outras utilidades.
Certamente o sujeito pode acreditar que deus ajuda, mas isso não pode interferir em sua vida ou é um conhecimento que deve ser extinguido. Além disso, mesmo que o conhecimento te faça um bem particular, mas seja mal para a espécie, ele ainda assim merece ser extinguido.
Então no fim, o que é objetivo acaba prevalecendo e a ciência acaba sendo salva.
A pergunta em que Rorty se embaraça é sobre como nós sabemos que um conhecimento é mais útil ou não, certamente não é um chute que faz tal conhecimento curar doenças e tal não; mas enfim, eu não estou aqui pra defender o Rorty, só pra dizer que mesmo em alguém tão relativista não há um relativismo ingênuo a ponto de considerar opiniões conflitantes igualmente válidas ao mesmo tempo; quanto muito, se suas opiniões conflitantes conseguem ser hipócritas na medida exata de beneficiar a espécie como um todo, aí sim.
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Por isso que me incomoda quando Boghossian escolhe os exemplos da sua introdução: arqueólogos e sociólogas feministas; imagino que mais pra frente no livro ele vá, de fato, entrar em um dialogo mais saudável com o Rorty, mas por enquanto, eu não me admiraria de ver arqueólogos e sociólogos falando besteiras epistemológicas, porque eu também falaria besteiras argumentando a respeito de arqueologia e sociologia.
Não que esse post não tenha uma série de besteiras epistemológicas que estão desapercebidas, mas é coisa da minha falta de conhecimento particular, porque um bom epistemólogo - e afinal, Rorty era um bom epistemólogo, mesmo que adotando uma teoria polêmica - sabe mais do que simplesmente ignorar a ciência.
É até algo de interessante no curso de filosofia, sempre que começamos a considerar um ponto de vista diferente do científico, há sempre um aviso no começo: "isso não é pra dizer que a ciência não tem validade"; o próprio Merleau-Ponty diz isso no começo de suas conferências, em que ele diz a famosa frase: "o cientista não tem mais a ilusão de alcançar seu próprio objetivo", ele fala que não diz essas coisas pra desafiar a ciência, mas porque a própria ciência convida a pensar desse modo.
Afinal, uma comparação engraçada que fazem é que a filosofia é a mãe da ciência e como filho, a ciência nos desaponta às vezes, é arrogante, acha que estamos errados e somos velhos e inúteis, mas assim que dá qualquer problema, corre pra debaixo de nossas asas. E como mães, nós nos preocupamos com nossos filhos sendo arrogantes *pelo bem deles*, porque achamos que isso vai fazer eles darem passos maior que as pernas, mas de nenhuma forma queremos dizer que eles são inúteis e que esperamos vê-los fracassar. Queremos que sejam bem sucedido, logo, pedimos alguma cautela e humildade.
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Concluindo, com o disclaimer mais repetido no meu curso de filosofia, isso não é um ataque contra a ciência, não se pode fazer esse ataque, filosofia e ciência são dois modos racionais de ver o mundo, mesmo que o primeiro parta para o irracionalismo de vez enquanto; ser irracionalista não significa ser irracional afinal de contas. Mas é dizer que nossa pesquisa filosófica, pelo menos desse ponto de vista da fenomenologia, parte de um lugar diferente da ciência porque busca objetivos diferentes. O objetivo da ciência é elaborar modelos compatíveis com o que é observável de modo a melhor a influenciar o mundo. O objetivo da filosofia é um tipo de descrição de uma totalidade, assim, ela geralmente parte (seja no caso da fenomenologia ou do pragmatismo) de um ponto pré-científico.
Filósofos sabem que não devem disputar aquilo que a ciência já descobriu (quando muito, disputar que aquilo que a ciência acha que sabe, mas não sabe, pois está usando um método inadequado para analisar tal situação; de novo, o ponto de vista é pré-científico, mas essa situação raramente ocorre porque, afinal, cientistas tendem a ser rigorosos), mas isso não significa se limitar a ela e não se limitar a ciência não significa tomar o que uma tribo indígena fala como "de igual valor", mas simplesmente olhar isso de uma perspectiva que a ciência não pode e retirar disso algo que a teoria filosófica em questão consegue retirar para explicar o mundo da perspectiva que pretende.
Mas adotar perspectivas diferentes é sempre um trabalho complicado; o fenomenólogo precisa realizar a redução fenomenológica, o pragmatista precisa analisar as necessidades da época, por aí vai; num geral, é algo que os cientistas, com suas respectivas especializações, não estão preparados para fazer, mesmo os cientistas das ciências humanas.
Confio em um sociólogo para me dizer como que o trabalho está organizado nessa época, como que certos povos desenvolvem certos modos de viver, como que são as classes sociais, os preconceitos e racismos, toda sorte de coisas envolvendo as pessoas como agentes de uma sociedade, até mesmo como que as diferentes classes tem valores diferentes de verdade e de conhecimento, mas não me venha dizer como que esses fatores influenciam a formação pré-científica do ser dessas pessoas e como que essas estruturas se traduzem em conhecimento. Pra isso temos filósofos.