quarta-feira, março 31, 2010

Grunf grunf grunf

Um dos meus sentimentos mais estúpidos é o de me sentir traído por gente que nunca deu nem sinal que respeitaria qualquer idéia minha.
Uns dias atrás fiz um post sobre os recentes escândalos da Igreja Católica.
Disse que a doutrina não tinha nada a ver com o problema. Que o celibato ou nada em geral católico poderia ser causa do problema, pois a imensa maioria de padres nunca fizeram nada do tipo.
Acredito que sinceramente que a ICAR é uma força boa no mundo, especialmente por sua rede de caridade e ajuda aos pobres ser provavelmente a mais eficiente e abrangente no mundo. Em outro tema polêmica, acredito também que a igreja católica e seus ensinamentos combate a AIDS na África de modo mais eficiente que distribuição de camisinha ou coisa do tipo.

O problema, quando disse naquele post, não era nada intrínseco à igreja católica, era o problema da hierarquia (que pode sempre ser reformada sem ser desestruturada) escondendo crimes. E se for provado que de fato chegou ao ponto mais alto da hierarquia, algo deveria ser feito *pelo bem da Igreja Católica*, pois a Igreja é *mais importante* que os membros particulares da hierarquia que possam vir a ser prejudicados por esse escândalo.

E como me "pagam" por esse apoio? (de novo, eis um sentimento doente e estúpido meu, pois os católicos não poderiam se lixar menos com minha opinião, jamais a pediram e provavelmente seriam ativamente hostis à ela?)

Com um anúncio no New York Times que diz: "O Times continua a editorializar a 'crise pedófila' enquanto na verdade é uma crise homossexual. 80% das vítimas são homens e a maioria deles são pós-pubescentes. Enquanto homossexualidade não causa comportamento predatório, e a maioria dos padrs gays não são molestadores, a maioria dos molestadores são gays".
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Primeiro o nojento e completamente desprezível cinismo hipócrita. Você não pode dizer "crise homossexual" e então vir com o que há de pior no politicamente correto, ou seja, usá-lo de forma burocrática para escapar da acusação de uma discriminação ofensiva que você está claramente cometendo.

Primeiro: Se o problema não são só os crimes, mas a sistemática cobertura deles, não importa, para os interesses da igreja católica, se são pedófilos ou homossexuais.

O ódio aos homossexuais é de tal forma intenso que até se defendendo de sérias acusações, eles encontram tempo para disseminá-lo.

Esse é um ad feito para, e apenas para, pessoas com ódio aos homossexuais.

Vamos trocar as minorias. Encontre um racista e diga a ele que o problema da criminalidade é dos negros. Encontre um antissemita e diga a ele que o problema do terrorismo é do comportamento de Israel em relação à palestina.

Logo para essa pessoa, todo o resto se torna insignificante ou até não-existente. Ele focará somente no ódio em questão e esquecerá o resto. Sua postura é: "elimine todos os negros/judeus e o problema se extinguirá".

Aqui a Igreja joga para o mesmo público. Se você diz para alguém que não odeia homossexuais que esse é um problema homossexual ao invés de pedófilo, ele perguntará qual a diferença. Menores ainda foram violentados e os crimes ainda foram acobertados. É indiferente. Agora, se você diz para um homofóbico, aí a questão se encerra: os gays são o mal e devemos destruí-los, ou, ao menos, expulsá-los da igreja, e tudo se resolverá, pois, para quem odeia, o objeto do ódio é sempre um enorme problema.

Segundo: Mesmo levando em consideração o acima, o argumento é errado. "pós-pubescente" é uma maneira cínica de colocar as coisas, pois pode incluir até uma criança de 12 ou 14 anos. Há aqui uma série de problemas.
Um é que estupro muitas vezes não é uma questão relacionada à sexualidade, mas sim à poder. Não é raro, por exemplo, heterossexuais estuprarem homens, pois o que os excita não é um desejo, mas o poder.
Outro problema é que o que separa o desejo por crianças do desejo por homens é exatamente a masculinidade. "pós-pubescente", além de cínico e cruel, é insuficiente.

Primeiro porque o problema ético em relação à pedofilia é que não se pode dizer que a criança dá consenso para a prática, sendo classificado, portanto, como um ato de violência. Se o senhor da liga católica pagando por um anúncio no New York Times diz: "bem, não são crianças", a culpa passa a ser da vítima, pois entende-se que eis um homem em idade para decidir por si próprio e que fez sexo com o padre por sua própria vontade. Eis a crueldade e a profunda injustiça de que se querer alterar "crise de pedofilia" para "crise de homossexualidade". É quase como culpar uma moça que foi estuprada, pois estava vestida de modo a "pedir por isso". Aqui, o católico nem pode dizer que defende a hierarquia e a autoridade moral da igreja, ele defende um indivíduo criminoso (que poderia ser responsabilizado sem que a hierarquia e a autoridade moral da igreja fosse danificada) ao culpar o crime na vítima. Em outras palavras, a injustiça é defendida com mais afinco que a própria Igreja. Embora, nesses meios, confunde-se defender a injustiça e defender a igreja, fazendo, ironicamente, que a igreja seja vista como injusta. Prejudicam a igreja e destróem sua autoridade moral, mas quem sou eu para dizer isso? Caso algum católico leia, eu sou apenas um inimigo que quer defender os homossexuais e eis que ele prepara a longa réplica dizendo o quão estúpido, desinformado e inculto eu sou. Certamente citará Tomás de Aquino em algum momento. Em latim. Com o grego entre parenteses ao lado.

Segundo porque, como já disse, diferencia-se a pedofilia da homossexualidade por características que surgem exatamente quando já se é um jovem adulto e não um mero "pós-pubescente" de 14 anos. Entre elas (e isso é muito importante) está no relaciomanento homossexual ser, de fato, um relacionamento, uma relação de troca mútua que em nada pode se comparar ao ato de subjulgar alguém que considera-se nascido apenas para servir. Fisicamente falando, mesmo o maior dos metrossexuais tem claras características masculinas (ou seriam travestis) que o fazem homens. E são claramente diferente de meninos.
Mas é por outro lado estúpido eu dizer isso, pois quando os católicos jogam a carta homossexual, de novo, eles não entram nessa por considerarem de fato que isso é um problema, eles entram porque, na cabeça deles que odeiam, é como matar dois coelhos com uma cajadada só. Faz-se a fumaça e espelhos para distrair do verdadeiro problema e, como bode expiatório, colocam as aberrações antinaturais que deveriam ser expulsas da igreja.
É claro que isso é o tipo de coisa que só funciona em blogs católicos. Que só convence os já convencidos. Etc.
E eu não vou ficar encanando com o que diz um blog católico. Mas quando o sujeito se dispõe a falar esse tipo de coisa em um quarto de página do New York Times, significa que ele quer que gente como eu acredite nisso.

Se a igreja católica nunca tentou acobertar nenhum crime, deixem os fatos falar por si e defendam-se com eles. Mostre os padres que foram denunciados pela própria igreja assim que seus crimes foram descobertos e eis um grande fato à seu favor.
Mostre que os casos não denunciados não eram também de conhecimento da igreja (ou mostre que não há como fazer a afirmação contrária) e eis um grande fato à seu favor.
Tente despejar a culpa em uma minoria já tão perseguida e eis uma grande confissão, não só de culpa, como de amor à injustiça.

domingo, março 28, 2010

Vindos do passado.

Algumas vezes, aleatoriamente, eu me pego pensando "e se tal pensador do passado caísse aqui no presente, o quanto ele se maravilharia?"
A resposta, geralmente, é "não muito, na verdade".

Não sei, olhando alguém aleatório aqui na estante de livro: Descartes.
Como todo homem daquela época, ele ficaria encantado com a nossa mecânica e eletrônica, devoraria nossos livros de matemática, admiraria sim o progresso das ciências. Mas passado o fato de que construímos uma porção de tranqueiras novas, do que ele teria a se orgulhar? Ainda não temos uma boa teoria moral, os homens ainda debatem questão de fé versus razão com a habitual arrogância infantil dos dois lados, o projeto epistêmico dele, aquele de encontrar um fundamento seguro pelo qual todo conhecimento poderia ser erguido, foi, pra todos os efeitos, considerado um fracasso; ignorado em prol de técnicas que não se importam exatamente como elas próprias funcionam.

Ou pensemos em Platão, ele viria, também, se espantaria com a tecnologia, apreciaria o desenvolvimento da matemática e da astronomia. Mas de resto, nossas cidades não tem nenhum senso de cidadania senão aquela risível burocracia dada pela democracia representativa, junto com Descartes, se decepcionaria que não temos nenhuma boa epistemologia, nenhuma noção de verdade além da opinião compartilhada.
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Não que eu acredite que deveríamos viver de acordo com os valores de outras eras, tem muito disso também quando começo a pensar sobre essas coisas (Platão logo perguntaria: "Onde estão seus escravos?"), é só que eu tenho a impressão que nós mesmos nos maravilhamos mais com o presente do que outras eras o fariam; significa que nós infalmos a importância de certas coisas que são bem meh no fim das contas.

Enaltecemos nosso progresso enquanto temos medo de andar na rua, pois qualquer um pode nos assassinar; enquanto basta escolher um presidente errado duas ou três vezes para nosso país cair em tirania; enquanto não somos felizes e não parece que nos aproximamos de nenhum modo significante da felicidade; enquanto não temos segurança para fazer distinções básicas entre certo e errado, bem ou mal; enquanto somos confusos em geral, perdidos, dependentes de preconceitos que ou são antigos ou são muito antigos.

Não é que em certas questões somos piores que nossos antepassados, fosse esse o caso teríamos motivo para comemoração, pois poderíamos sempre nos esforçar a voltar a ser de tal modo; o que incomoda é que somos exatamente comos nossos antepassados, que em certas coisas somos absolutamente incapazes de progresso. Religião não fez do homem uma criatura nem um pouco melhor, nem as éticas seculares, nem a arte, claramente nem a ciência, etc.

Debates sobre se quem causou o progresso da humanidade foi a revolução francesa ou a igreja católica são inócuos. A humanidade só progrediu de um ponto de vista técnico, irrelevante tanto do ponto de vista iluminista quanto da salvação cristã. Se os positivistas quiserem crédito pela bomba atômica ou os cristãos quiserem crédito pela metanfetamina, eu lhes dou.

Parabéns a todos os envolvidos.

Um pouquinho de desonestidade... (rant)

Um pouquinho de desonestidade e paciência pra fingir que debates bobocas tem a maior importância do mundo e eu teria uma carreira ótima nisso de ter um blog.
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"Razão" é um tema complexo, pois não é uma mera faculdade psiquíca, mas um princípio regulador do mundo sensível. Nós compreendemos o mundo racionalmente assim que ele entra pelos nossos olhos; ou, diria alguém um pouco mais irracionalista; nossa mente impõe racionalidade à um mundo que, em si, não o tem.

A história da filosofia tem lá seus motivos, mas é triste que Kant foi o único a realmente tentar uma crítica da razão no sentido de pensar em como legislamos o mundo de acordo com as formas pelas quais o percebemos; não só em termos de cognição, mas em termos de moral, beleza e teleologia, sabe? As três críticas todas.

Gostaria de ver um novo projeto que buscasse uma crítica da racionalidade e da irracionalidade. Por um lado o modo como nossa racionalidade confere regras ao mundo e, por outro, o modo como o mundo confere regras à nossa racionalidade.

O primeiro, imagino, trataria do que é a priori e (portanto) universal e o segundo trataria do que é a posteriori e particular. Primeiro falariamos do modo como o homem é uma comunidade de seres pensantes e então falaríamos como somos indivíduos e como nossas vivências particulares nos impede de fazermos inteiramente parte dessa comunidade.
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Esse desejinho particular entra no tema desse post, pois eu sempre me sinto sujo e, de certa forma, traindo algo muito importante, quando falo a respeito de temas que disse nos dois posts passados: estou colocando os burros na frente dos carros e jogando um jogo que sei que está viciado, mas que me falta saber exatamente como.

Um pouquinho de desonestidade e eu seria um desses sábios prontos a ensinar as pessoas como se comportar diante do que aconteceu durante o dia. Creio que seria bom nisso também, talvez até a ponto de ganhar um dinheiro que, como sabem, bem aprecio.

Conheci algumas pessoas bem inteligentes na minha vida, então sei que elas existem e que se escondem por aí; penso que cada vez que escrevo aqui perco um pouco da dignidade desses anônimos.

É como dizem as crianças na escola: quem sabe faz, quem não sabe ensina.

Cada vez que me meto a ensinar qualquer coisa a alguém percebo a verdade disso. Sinto-me rebaixando meu nível ao de alguém com uma coluna em jornal.

sábado, março 27, 2010

Nota sobre os escândalos recentes contra a Igreja Católica

Eu acompanho alguns blogs católicos (que, afinal, é ainda meu cristianismo favorito), tanto norte-americanos quanto nacionais, e parece que ou há uma tentativa deliberada de criar um chamado "boneco de palha" ou uma má interpretação em relação à qual o problema:

Eu concordo com os que dizem que matérias jornalísticas que dizem algo do tipo "pecando em nome de Deus" não fazem sentido. Não é a doutrina cristã que está mandando ninguém ir lá e abusar crianças. Mas por mais que os títulos sensacionalistas sejam bobocas, o conteúdo a ser argumentado não é contra a fé cristã, nem a católica, mas contra a igreja como instituição que dedica-se a encobrir crimes quando estes são cometidos pelos seus membros. Não tenho familiaridade com os fatos específicos, mas, enfim, aí estamos no terreno dos fatos e não da doutrina.

Se notícias de que pedofilia ocorreu chegou à um nível mais alto da hierarquia e tal nível mais alto, ao invés de punir o criminoso o encobriu, então a igreja é culpada. Se não, não.
De novo, terreno dos fatos. Não vejo muita gente (e quem vejo, não levo a sério) argumentando que a igreja é inerentemente má e que há algo nela que leva a esses crimes. Como referência, um dos únicos argumentos que vi nesse sentido foi de Reinaldo Azevedo, que é católico, aproveitando a situação para defender que padres deveriam poder casar (gostaria de ver os próprios padres protestando que querem casar, mas a igreja não os permite, só pela ironia).

Então, eis os argumentos que eu vejo flutuando por aí, mais ou menos numa ordem que considero do mais fraco ao mais forte:

O mais fraco seria que há algo na doutrina cristã/católica que leva a isso.

Em seguida viria que o problema é que os padres são gays (o que tem toda a carga de preconceito e desinformação que se espera da igreja católica levantando juízo sobre homossexualismo).

Em seguida viria que o problema é que o celibato os leva a isso - esse é um argumento popular e é feito de vários modos. Ateus o usam para dizer que o celibato causa, em si, danos psicológicos que levam a isso. Protestantes o usam para dizer que a ausência de família faz com que o padre se dessensibilize em relação à gravidade do problema.

Esses três argumentos acima são fracos, em minha opinião, porque afinal é uma minoria de padres que pratica pedofilia (é uma minoria de gays também, claro, o que não impede católicos de fazerem a relação entre homossexualismo e pedofilia).
Se apenas uma pequena minoria, beirando o estatisticamente insignificante, faz algo; não dá pra apontar como causa algo a que todos os padres são submetidos.

Os argumento forte, então, como dito acima, seria esse:

Quando um crime de pedofilia é cometido por um membro da igreja católica e a instituição toma conhecimento, está esforça-se mais em defender o criminoso do que em colaborar com a justiça. Por vezes, esforça-se para que haja completa impunidade.

Essa é uma proposição (de novo, como dito acima) dependente dos fatos e, pelo que leio as notícias, os fatos parecem contra a Igreja Católica nesse sentido, mostrando que se a mídia não descobre uma tal ocorrência, a hierarquia não se esforça em investigações ou punições internas. Mas claro, eu, e a mídia, podemos estar errados em relação a tais fatos.

Se é esse o problema, não há como argumentar contra a Igreja Católica como instituição espiritual, mas há muito o que argumentar contra ela como instituição política. A boa notícia para os católicos é que instituições políticas podem ser reformadas, a má notícia é que a hierarquia não parece disposta a reformar-se.

Um honesto "mea culpa" seguido de uma reorganização admnistrativa e o fim à tolerância para com crimes de pedofilia por parte da hierarquia poderia muito bem livrar a igreja católica. Tentativas de defender o status quo, a meu ver, apenas comprova o que é implícito nos fatos: Católicos precoupam-se mais com os membros da hierarquia do que com os membros da congregação que são feridos por esta.
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Argh, um post sobre política e outro sobre igreja católica. Ainda volto a escrever sobre assuntos interessantes.

segunda-feira, março 22, 2010

Obras

De todos os maus costumes brasileiros durante eleições, um que me importuna é essa mania de obras.
Todo o PAC é um imenso calhamaço de obras e todo o debate é centrado sobre se 40% foram concluídas ou 54% sequer saíram do papel.
Serra brinca em alguma inauguração: "o problema não é obras pra inaugurar, é o tempo para inaugurá-las".

De fato, isso é um problema.
O brasileiro parece uma criança com mais vontade de ter novos brinquedos do que para brincá-los.
Creio que certa infra-estrutura é uma função do Estado na medida em que apenas este pode coordenar certos projetos, mas infra-estrutura não é necessariamente "obras".
O Brasil poderia ampliar e melhorar ferrovias e portos, assim como reformar hospitais e escolas; mas uma ampliação ou uma reforma não dá essa sensação de brinquedo novo, não dá tanto pra ir e cortar uma faixinha e o povo impressionado pensar: "antes era um terreno baldio, agora é uma universidade".

O pior problema brasileiro é fazer funcionar as coisas que tem, acredito que em qualquer ponto de Santo André que você me largue, eu consigo chegar a um hospital em meia hora a pé (talvez não em áreas rurais, mas enfim); o problema não é chegar a um hospital, o problema é ser atendido.

Amiga esses tempos decidiu não optar por biologia na Unifesp em Diadema, pois falta infra-estrutura, isso com algumas UFABCs sendo construídas (ou já construídas a pouco tempo) por aí.

Então é, eu nem tenho mais o que falar, de fato deve faltar tempo para inaugurar obras e isso, de fato, é um problema.

sexta-feira, março 19, 2010

O Mais Vertiginoso Ronronar

Observar os gatos é como observar os homens, caso houvesse nos homens tal majestade em seus vícios e virtudes.
De fato é a pequenez do homem que nos leva a crer que somos primatas e que somos racionais. Caso houvesse divindade o suficiente em nosso espírito a ponto de sobrepujar a racionalidade, sem duvida seriamos mais felinos.

Os gatos são divinos dada a plenitude de suas características. Há algo de mais risível do que considerar divino aquilo ausente de maldade? Que idéia tola! Que espécie senão o homem pensaria tal estupidez?

Os gatos, em sua posição de animais irracionais ausentes de nossa força bruta, são mestres em tudo que somos mestres.

Magoam-se, desconfiam, insinuam e conquistam com tal proeza que faria nossas mais habilidosas cortesãs não passarem de meninas chorosas carregando bonecas empoeiradas.

Atacam-se, territorializam, ousam e conquistam com tamanha audácia que Alexandre o Grande bateria em retirada caso o general inimigo fosse felino.

É provável que revele-se, ao longuissimo prazo, que os gatos abandonaram de propósito a razão, de modo que sem a técnica permanencem dispersos e infinitamente complexos em sua geopolítica. Cada gato é uma nação, com calculada estratégia em relação a outros gatos, outros animais e aos homens.

Enquanto os outros animais são levados a extinção, condenados a se tornar alimento, refugiados em reservas florestais e zoológicos ou domesticados e patéticos, os gatos permanecem gatos onde quer que estejam.

Seres de vontade assim como nós, os gatos sentem as fomes e, assim como nós, são elas que os escravizam e por meio delas que são enfraquecidos.

Gatos também, certamente, são abatidos pela força bruta, são enganados, derrotados, presos, maltratados. Tais infelicidades destróem os gatos da mesma forma que destróem os deuses. De fato, ao observarmos os gatos que observamos que assim devem ser os deuses. Ou talvez seja ao observar os deuses que conseguimos decifrar os gatos.

No modo como brincam, se entristecem, sofrem, caçam, amedrontam-se vemos a incrível habilidade dos gatos de ser em si mesmos, até quando são para os outros.

É verdade que há estímulos interesseiros nos gatos, mas também há amor. Quando ama, o gato compreende que deu um presente. O amor dos gatos é como o amor dos nobres, no sentido em que não é desinteressado, pois exige o cumprimento do dever para com o gato. E embora o maltrato aos animais em geral seja imoral pela sua crueldade, o maltrato aos gatos é duplamente imoral, pois trai o imperativo dever de nossa racionalidade para com tal raça.

A domesticação não quebra o gato, não acalma sua ferocidade, seu ímpeto ou sua personalidade. Apenas sacia suas necessidades e, como criatura civilizada, gatos não agem violentamente senão por necessidade.

É deste modo que segue-se, portanto, o pacto: o gato aceita manter-se gato em si perante a domesticação e com o respeito que o homem confere à idéia de civilização, ele confere ao gato certas dádivas que a racionalidade lhe deu. Permite ao gato abrigo, conforto, alimento; permite ao gato, ao menos, a livre passagem no território dos homens sem a ele cometer maldades.

Quebrar o pacto com os gatos é quebrar o pacto com a racionalidade e, portanto, com todos os homens. É de nosso interesse, lesgislativamente, que não comparemos punição a crimes contra gatos com a punição a crime a contras homens, mas que fique avisado desde já: O inimigo dos gatos é inimigo de toda civilização, pois o gato é o único animal além do homem que está plenamente em casa na civilização. (vale notar, o gato compreende, mais do que o homem, a medida da selvageria na civilização)

Ao que o gato permite ser observado em si no cotidiano, observá-lo é modo de observar a vontade e, assim, compreender o enigma do mundo.

Se o homem busca a clareira do Ser para lá construir a casa do Pensar, é certo que nessa casa estará um gato mordendo a beirada dos livros, ao menos para nos lembrar que também nessa moradia se infiltra a Vontade.

É deste modo que percebemos que no mais vertiginoso ronronar está a chave para nossa metafísica.

terça-feira, março 16, 2010

Investigação

- Isso não está indo a lugar algum. - Disse Samanta, enquanto esfregava os olhos, antes de encarar seu sócio por algum tempo e tomar um gole da cerveja sobre a mesa.

- E não é isso que vai nos ajudar a pensar direito. - Apontou Marcos com desgosto. Ele estava naquela sala abafada a tanto tempo quanto ela, mas era mais treinado em termos de paciência.

Samanta põe a lata de cerveja de volta na mesa e retira o pequeno revolver de uma gaveta. - Eu acredito que passei de ponto de pensar.

- Largue essa coisa! Deus do céu, parece uma criança com essas malditas armas.

- Preocupado que alguém vá perder um olho? - Sorri, instintivamente busca seduzir o mirrado contador enquanto, com o dedo no gatilho, bate com o cano da arma na própria tempôra.

- Acha que foi suicidio?

- Não.

- Tanta certeza?

- Do ponto de vista técnico, eu diria que ele nunca apresentou nenhum sinal de depressão. Se alimentava normalmente, nunca pareceu dormir mais ou menos que o normal, não deixava de sair ou de praticar nenhum hobby. Particularmente, suicidio é coisa de gente profunda e ele era só um panaca.

Marcos a encara com um semblante um tanto triste.

- Além disso, se ele se matou, como eu vou me vingar de alguém?

Samanta sente um pouco de nojo da própria piada, mas desde que se conhece por gente não pode evitar pequenos gestos autodestrutivos, designados apenas para que saciasse sua necessidade de sentir culpa.

- Lembra-se daquela vez em Santos?

- Em 2002?

- É.

- Uhum.

- Nós estavamos assim, que nem agora, sem saber o que fazer. Chegou uma hora lá em que só desencanamos e começamos a beber. E aí bebemos e bebemos e dissemos: 'quer saber? Foda-se. Olha pra gente. Nós não somos bons nisso" e nós não eramos mesmo. Decidimos fechar a agência e abrir um quiosque na praia.

- Mas vocês são bons nisso... eram... ele era bom nisso.

- Ouve a história, homem.

- Vocês nunca deixaram de resolver--

- Olha. A conclusão que chegamos naquele dia: eu sou bom em dar pros homens até eles falarem e ele era bom em bater nos homens até eles falarem, teehee, saca só, a gente tava lá e ele disse assim: 'você é boa comendo o pau e eu sou bom no pau comendo'. - Samanta não consegue parar de rir e Marcos a acompanha, mesmo que de modo bem mais silencioso. - Vai! Ele era mó engraçado! Era estúpido, mas era engraçado!

- Mas vocês resolveram aquele caso. Acharam o cara que matou aquela menina.

Silêncio.

- É...

- Pra quem você deu? - Marcos percebe que a piada é sem graça um segundo após dizê-la.

- Ninguém.

- Hum... em quem ele bateu?

- Ninguém.

- Samanta!

- A gente não resolveu porra nenhum, Marcos. Saímos aquela noite, achamos um maconheiro dormindo na rua e acusamos ele.

- Quê?!

- Ok, olha, nós somos profissionais. Esperamos ele acordar, seguimos ele por aí, vimos que ele não tinha casa e colocamos um papelzinho com o endereço da casa do sorveteiro no bolso dele.

- Só isso?

- É o que precisa pra receber a recompensa. Foi aí que decidimos que abrir um quisoque na praia seria uma besteira. Nós ganhamos dinheiro, não ganhamos?

- Eu não acredito.

- Acredite.

- E você fala isso assim?

- Qual o problema? Não é como se o moleque tivesse qualquer futuro!

- E se eu te denunciar?

- Como você vai provar? Colocando um papelzinho no meu bolso? - Samanta ri alto.

- Deus do céu...

- Relaxa.

- Não é a toa que nossa lista de suspeitos tem tanta gente.

- Uns 12 desses foram dos casos honestos. Só uns 2 teriam razão em matar ele.

- Começamos por eles?

- Não, né. Não quer dizer nada.

- Começamos por onde?

- Não sei. Pra ser sincera, eu não sei se sem ele eu vou resolver qualquer coisa.

- É perverso isso. Um detetive morre e ninguém acha o culpado.

- Hum.

- O que?

- Achar o culpado não é tão importante...

- Não tem recompensa nisso, forjar qualquer coisa não ajuda, você não quer saber quem matou ele?

Samanta levanta-se da cadeira.

- Não quero. É assim que vai funcionar: você estava tendo um caso com a esposa dele, não é?

- Hein?!

Ao que a bala atinge o crânio de Marcos, as pequenas gotículas de sangue preenchem a sala como se fosse uma nuvem. Samanta com pressa pega o papel com os nomes dos suspeitos antes que se suje de sangue.

- Uma dessas pessoas matou meu parceiro. Quando isso acabar, terei cometido 14 injustiças e uma vingança.

segunda-feira, março 08, 2010

Autocrítica (e, lol, política)

Estava há um tempão escrevendo o post, estava super longo, aí rolou um "ok, estou errado".
Qual meu erro?
Claro que vocês jamais saberão.
Mas já que estou aqui, mudando de assunto: (qual era o assunto antigo? mua ha ha ha)
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Não só é interessante que vivamos em uma era de conflitos como é interessante quando aliados temporários precisam se bater:
Onde está sua lealdade? Ao seu país, à sua religião, às suas tradições, à sua comunidade, à sua família, à sua ética, etc?

É claro que essas coisas às vezes vem em pacotes: Sua religião é a religião da maioria do país, que é também da sua comunidade e das tradições de sua religião partem sua ética e sua família. Mas ainda assim, vivemos de modo plural o bastante para que nunca se possa escapar algum conflito:

O próprio Estado democrático é fundamentado na noção do conflito, por isso renovamos o poder legislativo e executivo de pouco em pouco tempo, que é pra agilizar manutenções, mas a própria noção de um poder móvel e orgânico é contrário à uma visão de mundo fundamentada em universalidades. Se, por exemplo, fumar maconha é um ato religioso e o Estado o proíbe, você invariavelmente tem que escolher um lado: ou você obedece à lei do seu país ou a lei de sua divindade - é um conflito semelhante ao que os evangélicos sentem em relação à leis que intendem criminalizar a homofobia. Se ele não pode dizer que um pecado é um pecado, ele está agindo contra Deus. Como que o Estado pede para você se pôr contra Deus? Se César e Deus pedem coisas mutuamente excludentes, como que você dá a cada um o que é de cada um?

Religião é geralmente utilizado como exemplos nesses pontos simplesmente porque elas tem tantas regras universais; enquanto um cidadão liberal e laico age de acordo com certos universais abstratos - liberdade e tolerância, por exemplo - um religioso tem um monte de regras pequenas e específicas que em algum momento da história serão desafiadas. Você contorna algo como "não comer carne de porco", fica mais difícil contornar algo como "apredejar os adúlteros" - de modo que religiões tendem a, na prática, serem mais orgânicas do que suas teorias. Não sem conflito uma religião se adapta quando o Estado se recusa a criminalizar ou descriminalizar algo, mas ela se adapta (e mais divertido? Muda sua teologia. Quantas leis imutáveis não se modificaram? A hermenêutica autoriza a tudo) mas parte da democracia laica (e isso é importantissimo) se baseia no estado também se adaptar à religião quando o povo assim demanda.

Um estado laico é um estado com liberdade de culto, sem religião oficial, com liberdade de expressão; um estado que bloqueie o esforço plenamente legal de um grupo de legisladores representando seus votantes religiosos deixa de ser um estado laico.

Isso pra dizer que os conflitos são interessantes - e importantes - pois quando começamos o projeto moderno de construir um mundo sem uma autoridade absoluta, nós aceitamos os riscos e desafios de não ter garantias em relação às batalhas. É algo como que uma aposta: se há um poder absoluto e ele está a nosso favor, sempre ganhamos; se está contra, sempre perdemos. Quando retiramos o poder absoluto, perdemos a proteção absoluta, mas também o obstáculo absoluto. Criamos, por assim dizer, o chamado jogo político, que não a toa é sempre ameaçado quando um lado perde a esperança de vencer e outro o medo de perder (por isso, crianças, é uma boa idéia votar contra o PT só pra que nenhum partido fique lá confortável demais no poder).

O mesmo ocorre em outras esferas. Toda nova noção de mundo se coloca contra a tradição - as boas noções e as más noções - e às vezes a tradição vence (amor livre vs família nuclear? Venceu a família nuclear. Não que o mundo não tenha se tornado um tanto mais hedonista), mas às vezes a tradição tem que conflitar consigo própria - a família é parte indispensável de nossa tradição, 10% das pessoas de nossa sociedade são homossexuais (give or take) e a tradição quer que eles de algum modo vivam sem tradição. Defender o casamento gay é defender toda a instituição familiar - ser contrário é dizer que família não é assim tão importante, que todo um bom naco da população pode muito bem viver sem esse detalhezinho, basta assinar leis que mais ou menos emulem a situação jurídica - aqui a tradição de que heterossexualidade é importante se opõe a noção de que família é importante e o conflito ocorre diante de nossos olhos e sabe-se lá quem vencerá.

No fim das contas, um grande inimigo da democracia é muitas vezes a falta de saco. Às vezes não queremos jogar, estamos tão confiantes que estamos corretos que queremos logo institucionalizar nosso ponto de vista. E às vezes estamos mesmo, mas eis como funciona a democracia: Vencer é importante, mas permanecer em guerra também é.

terça-feira, março 02, 2010

Transcrição N. 882913/08

Presentes na sala:
Brigadeiro Alex Bach
Major General Harrisson Mack
Soldado Jorge Gutierrez
A Datilógrafa é Linda Mitchell
-
HARRISON MACK
Tudo pronto aí? Certo.
Então, descreva novamente o que ocorreu.

(Silêncio)

ALEX BACH
Está tudo bem, soldado. Você está seguro.

(Silêncio)

HM
Isso é perda de tempo.

JORGE GUTIERREZ
Espere!

AB
Tem certeza que pode?

HM
O homem quer falar! Nâo o desencoraje!

JG
Eram aproximadamente 1800 horas e estavamos em patrulha.
(silêncio)

HM
Jesus Cristo! Isso é ridículo!

JG
Perdão, senhor; é que-- para ser sincero, senhor. Estou com medo de que a culpa recairá sobre mim.

HM
O que você fez de errado, soldado?

JG
Eu não! Quero dizer, nós estavamos despreocupados. Estavamos em meio a planície, não havia árvore ou prédio ou qualquer abrigo. Nesses lugares o risco geralmente vem de armas a longo alcance, então não esperavamos combate. Não prestamos atenção, senhor. Não prestamos atenção e por isso fomos assassinados. Não prestamos atenção. Não prestamos atenção. Deveríamos ter visto! Nós dever--(resmungos)--

AB
Tome um pouco de água.

HM
Soldado, me ouça bem! É um inferno lá fora e eu entendo, certo? Não foi você quem assassinou esses americanos lá fora. Foram aqueles pagãos filhos da puta. Você é o primeiro que sobrevive a um ataque desses desgraçados. Eu preciso saber o que aconteceu lá fora. Quantos eram?

JG
Impossível contar. Eles surgem do ar e por toda direção. Não é uma emboscada, não como entendemos. Eles não nos esperam estar em um lugar determinado, eles não nos enganam de nenhum modo, eles decidem nos matar e então estamos mortos.

HM
Filho, eu aceito essa merda de quem encontra os cadáveres, mas você os viu, você sobreviveu! Você está confundindo o que seus olhos viram e o que as histórias dizem. Eles não surgiram do nada, eles vieram de algum lugar, quero saber como.

JG
O que meus olhos viram?
(silêncio)
Bem, estavamos andando como eu disse, sim, você tem razão, eles não surgiram do nada, foi algum tipo de gás. Lembro que de repente fumaça surgiu, sim, deve ser um gás! Nos fez ver coisas. Eu não lembro o que vi. Lembro de ter pensado que eram nossos irmãos e irmãs mortos. Mas eu sou filho único, então não compreendia, mas sabia que era isso que via. Eles me culpavam. E eu queria ser perdoado.

AB
Gás potente. Nunca ouvi falar de algo assim.

HM
Vamos pesquisar depois, mas é uma boa estratégia.

JG
Quando recobrei o sentido, eu já era um prisioneiro. Minha primeira reação foi a de buscar informações sobre o acampamento inimigo, mas não havia acampamento inimigo. Eu estava nu e amarrado feito um boi no mesmo campo aberto.
(silêncio)

HM
O que foi agora?

JG
Eu tenho medo de como isso vai soar.

AB
Não tenha, eu vi os cadáveres pessoalmente. Se algo não bater com a autópsia, entendemos que sua mente está sob stress.

JG
Quando perceberam que eu estava acordado, uma mulher me perguntou se Tina era virgem.

HM
Tina?

AB
Althea Bishop. Era a única mulher do esquadrão.

JG
Eu estava atordoado, talvez ainda sob o efeito do gás, senti que devia dizer a verdade e falei que não. Olhei ao redor e eles estavam (pausa) não sei o que estavam fazendo pra ser sincero. Eles arrancaram a cabeça do Lewis e grudaram ela no seu peito. Quem faz isso?
(choro)
(silêncio)

HM
A mulher que te interrogou. Era oficial?

JG
Não usava uniforme do exército. Para ser sincero, o tempo todo em que eles me carregaram para cima e para baixo, nada me deu a impressão de que eram militares. Apenas uma vez um jipe se aproximou. Um oficial conversou com o que pareceu ser o, não sei como chamá-lo, o chefe, xamã, de qualquer forma, eles trocaram algumas palavras e o oficial logo foi embora. O que são eles?

AB
Será que eles são mercenários ou civis?

HM
Não, são definitivamente exército, a unidade foi criada como uma piada; houve uma pequena polêmica entre os conservadores acerca de pagãos no exército e decidiram juntá-los todos em um lugar só. A taxa de sucesso foi extraordinária. Eu diria que eles são tão supersticiosos como nós. Nossos homens morrem de medo deles, mas o próprio exército inimigo não é confortável ao seu redor. Extra-oficialmente eles ganharam autonomia. O Coven Armado é como chamam.

AB
É incrível que estejamos aqui e não rindo disso.

HM
Ah, nós rimos, aí os filhos da puta começaram a matar gente. É claro que não são bruxas de verdade! Alguém sugeriu que os malditos hippies conhecem túneis graças ao tempo todo abraçando árvores, mas nunca encontramos nada. De qualquer forma-- aonde você vai?

JG
Preciso me levantar.

AB
Está tudo

RHÇPTFOL.;
















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segunda-feira, março 01, 2010

Eu sinto vergonha de mim.
Eu oscilo entre querer ser um eu melhor e um eu completamente outro.
Ser melhor é difícil, ser outro é impossível, me sinto cansado demais para ambos. Só sei que não estou bem como estou.
Sinto vergonha de mim, do modo como me comporto, como me estresso, como falo com os outros. Sinto vergonha do que sinto.
E todos os meus sentimentos bons, minha habilidades, qualquer talento que eu tenha, é fruto de uma vergonha, de uma mesquinhez. Para deixar de ser pequeno, de ser quem eu me envergonho; teria que destruir aquilo que é grande em mim, de ser quem eu me orgulho. E desse nada, o que surgiria? E a memória permanece, a própria autodestruição tem como origem um sentimento mesquinho.
Até algo criado do nada seria criado com um excesso de história.
Ter que viver comigo mesmo parece um castigo perfeitamente bom para meus pecados. Às vezes parece crueldade, mas meus pecados são grandes. Crimes contra mim principalmente, mas crimes de qualquer forma.

Se sou vago, é por vergonha, é triste que eu saiba o que fiz, não conseguiria lidar com vocês também sabendo.
Basta que saibam o poço de ressentimento que sou, cheio de desejozinhos de vingança e sonhos de poder e superioridade. Patético para quem não consegue ser ressentimento dos outros, para quem não consegue se vingar de nada, para quem não tem poder. É também um crime não ter poder para ser tão mau quanto se deseja ser.

Se tenho qualquer coisa de inteligente, é porque fracassei em ser de outro modo. Se tenho qualquer coisa de individualidade, é porque fracassei em me unir a grupos. Se tenho qualquer coisa de underground, é porque fracassei em chegar ao mainstream. Quero me vender! Quero doentemente me vender! Eis minha alma! Comprem! Comprem pelo amor de quem quer que você seja! Mas de nada vale essa alma. Se sou honesto, é por falta de habilidade na desonestidade. Se sou bom filho, é porque não sei ser de outro modo. Gostaria de ser respeitado e nem eu próprio me respeito. Gostaria de ter poder e nem possuo autocontrole. Gostaria de ser ocidental e sou apenas brasileiro. Gostaria de estar aquém, estou brutalmente envolvido. Gostaria de estar além, mas a minha frente está sempre minha expectativa em relação a mim mesmo como o horizonte permanentemente móvel. Ela ri. E se ultrapassasse o mundo? Ela ainda riria. Posso ser melhor. Sempre posso. É um crime portanto não sê-lo. E se não posso? Então é um crime possuir tão pouca potência.

E quero poder! E quero respeito! Há sentimentos mais risíveis? Sei de antemão o quanto continuaria infeliz. Mas ainda os quero. Implode-se assim também qualquer pretensão de racionalidade. Não sou racional. Não consigo sequer ser razoável. Se contesto o senso comum, é por incapacidade de compreendê-lo - ou pior - de me ligar a ele. O senso comum é quase como uma rede em que as pessoas são simplesmente pegas. Quero ser pego! Quero ser um de vocês! Quero fazer parte da maioria, ter os seus preconceitos, seus gostos! Não posso. Sou um peixe pequeno demais. Uma alma pequena demais. O que me resta senão ressentimento? O que posso desejar além de vingança?

Peço desculpas por ser uma pessoa ruim. Juro que não quis. Mas que outra escolha tem um homem pequeno?