quinta-feira, outubro 30, 2008

Schopenhauer: conhecimento e conceito.

Schopenhauer é um pensador obscuro.
Isso foi uma frase que meu orientador muito me disse.
Schopenhauer é o tipo de pensador que engana com a simplicidade do seu texto.
Ele começa geralmente expondo uma idéia, fala sobre a importância dessa idéia, dá algumas premissas duvidosas, encaixa com exemplos, relatos de filósofos passados que aparentemente concordavam com ele nesse ponto, diz como ela é tratada em seu tempo e, afinal, nesse movimento, sem que você nem perceba, as premissas duvidosas estão claras e indubtáveis e ele passa adiante.
Antes de achar que isso é um modo de sofisma, fica o aviso do quanto Schopenhauer vê a si próprio como alguém com um compromisso com a verdade. Antes de ser um sofisma, isso é um método e como toda boa filosofia. Método e execução se confundem.

Schopenhauer é um pensador que dá muito valor ao conhecimento e muito pouco valor à razão.
Logo no começo de sua obra principal, Schopenhauer distingue entre conhecimento intuitivo e conhecimento abstrato.
Conhecimento abstrato - ou racional - seria conhecimento dos conceitos. Conceitos são representações de representações. São cópias - traduções em signos linguísticos - daquilo que a intuição e o entendimento compreendem de outros modos.
Dito isso. Esse conhecimento intuitivo; obscuro, misterioso, é de onde Schopenhauer retira o todo de sua filosofia.
Os conceitos - modo como a filosofia trabalha - é apenas um modo de expôr, na medida do possível, esse conhecimento. Mas em última instância é intraduzível em todos os níveis.
Entretanto, há níveis de fidelidade dessa tradução.
Algo empírico pode ser muito bem traduzido em conceitos, desde que tenhamos a mesma intuição.
Se eu concordo com você que essa coisa de quatro lados se chama "quadrado", então podemos ambos apontar pra essa coisa de quatro lados, chamá-la de "quadrado" e concordarmos.
Além do conhecimento intuitivo empírico propriamente dito; esse tipo de conhecimento geométrico é o intuitivo puro. É a intuição representando formas a priori pelas quais o mundo empírico é construído. Aqui, os conceitos são ainda claros. Embora Schopenhauer critique o que tradicionalmente se pensava por método geométrico.

Dizia-se que no método geométrico se definia algo, como ponto e reta, e da definição retirava-se conclusões: que a reta era a menor distância entre dois pontos por exemplo.
Pra Schopenhauer isso é uma inversão. Primeiro constrói-se na mente algo como um ponto e uma reta, "visualizamos" (ou traçamos essa visualização num pedaço de papel) essa figura e então percebemos que elas se comportam dessa maneira. O conceito é posterior. A razão é posterior. Sempre.

Quando Schopenhauer começa a tratar da Vontade - sua grande substância que compõe todo o em-si do mundo - o abismo entre conceito e intuição cresce.
Certamente temos intuição de que quando agimos há algo duplo em nós - um lado de uma ação é fácil - chamamos de "movimento do corpo"; oras, o corpo e seu movimento são dados empíricos, representações. Basta copiá-los, traduzí-los numa linguagem que concordamos e chamá-los de "movimento de corpo". Aí está a representação da representação de um ato corpóero.
Mas e o outro lado? Esse lado que de modo muito obscuro chamamos de "livre arbítrio"? Esse lado que quer coisas, que comanda a matéria bruta por meio de alguma força desconhecida, isso que existe "dentro de nós", mas que não se encontra em parte alguma do nosso espaço interior? Essa coisa, apreendida imediatamente, sem mediação da causalidade; isso que compartilhamos com o mundo como não-representação, isso nós chamamos de "vontade".
Mas é puramente nominal. Se não é uma representação, então não há o que "copiar e traduzir". É obscuro, é enigmático; exige exemplos, formulações de filósofos do passado, contextualização. É indefinível pela sua natureza. Mas é algo que todos sentimos e, portanto, permite uma palavra que razoavelmente faz sentido a qualquer um que entenda seu significado.

As duas últimas formas de intuição complicam-se pelo seu elitismo.
O conhecimento da Idéia, de uma representação da essência de algo, reservado ao gênio (seja o gênio que faz arte, seja o que gênio que aprecia arte) é algo de mais indizível que a vontade.
Não é só um sentimento elitista pela enorme maioria das pessoas não serem geniais (não terem um certo excesso de intelecto capaz de silenciar sua vontade), é um sentimento momentâneo que apreende algo eterno. É um conhecimento que se inicia na silenciação da vontade e se "esquece" quando a vontade mais uma vez toma controle do intelecto. Aqui sequer se falam em exemplos, no máximo alegorias; compartilhamos a experiência do alívio, da ausência de sofrimento, mas o que conhecemos? Isso é impossível dizer. Nos lembramos que, ao nos perdermos na visão de uma cachoeira, sentimos uma imensa paz tomar conta de nós e nos lembramos que nos sentimos parte de algo mais, que nos sentimos conectados com aquilo. Mas e o conhecimento da essência da cachoeira? E o conhecimento eterno e imutável da violência da força da gravidade e do conflito do choque? E o conhecimento de que isso existe em nós? De que isso É nós? Esse perde-se quando a vontade crava mais uma vez as garras em nossa consciência. Posso dizer de modo abstrato "eu sou isto", mas é tolo. Não é conhecimento. É formulação vazia.

Por fim há o fenômeno ético. A compaixão.
Do mesmo modo que a estética não cria artistas; a ética não cria virtuosos.
É algo que não pode ser ensinado, não pode ser apreendido, não pode ser posto em palavras. Se então havia o conhecimento das Idéias, aqui sequer se sabe do que tem conhecimento. Não é da vontade, pois vontade é o que há em nós; aqui há o conhecimento apenas "daquilo que traz a salvação".
A compaixão é o seu primeiro passo, mas ela é essencial para o processo: pela compaixão percebo a estupidez da minha vontade querendo se impôr sobre a sua. Nesse conhecimento se vê com horror a violência do mundo, a irracionalidade do egoísmo essencial à toda vida, à todo ser, ao próprio ser! Mais uma vez, dizer isso de modo abstrato é uma piada comparada ao conhecimento.
Aqui perde-se todo traço de si mesmo. Aqui vê-se no próprio egoísmo um sofrimento, um autoconflito e percebemos no sofrimento do outro nosso próprio sofrimento. A compaixão ainda é um sentimento confuso, pois ainda é um conhecimento obscuro. Percebe-se o outro como outro, mas o sofrimento dele como seu próprio. Não imagina-se, como critica Schopenhauer, pela fantasia um sofrimento similar. Conhece-se, com uma verdade inescapável, de que o sofrimento alheio é o seu, mas ainda vê o mundo entre eu e os outros.
No limite, essa distinção se perde. O que se conhece é a essência do mundo. Toda a violência, toda a guerra, todo o sofrimento e tudo isso como vontade de vida. Então negar a vida se torna o principal objetivo. Negar a própria vida, se é que podemos ainda falar em "própria", é buscar a redenção de todo o universo. Perde-se aqui na totalidade, o asceta não nega a si próprio, ele nega a tudo, ao mundo inteiro; à vontade e, portanto, à representação. O conhecimento último, trazido pela compaixão, leva a uma jornada ao niilismo, ao anular-se e, ao anular-se, anular ao todo. Ter o conhecimento e não negar a vida é um contrasenso. Apenas os santos conhecem. Nós falamos em palavras, abstrações vazias. Analogias fracas no melhor das hipóteses. Conhecimento de algo que sequer pode ser nomeado, pois nem mais de vontade pode se chamar o em-si do mundo.
Aqui as palavras perdem o significado, até mesmo as religiões orientais que Schopenhauer tanto respeitava se tornam nulas de sentido. Nem simbólicamente por meio de mitos é possível nomear esse conceito. Certamente não é nada, já que a essência do mundo é indestrutível. Mas se conhecer é negar a vida, quem senão os santos poderiam nos dizer? Mas santificar-se é uma espécie de auto-aniquilamento.
O conhecimento final não é só indescritível. Não está apenas além das palavras. Conhcer "isso que traz a salvação" é, afinal, trazer a salvação e salvação para um mundo composto essencialmente de sofrimento é esse: A não-existência.

domingo, outubro 26, 2008

Ainda Ravin é o novo prefeito de Santo André!!

HOLY SHIT!
O PT perdeu!
Vanderlei Motherfucking "Eleição Está Decidida" Siraque perdeu!
Alguém aqui acha que Dr. Aidan vai ser um bom prefeito?
Acho que ele vai ser bem medíocre embora aquele debate que assisti lá atrás tenha me dado a impressão que ele é o melhor indicado pra cuidar do problema da habitação (sua posição parece ser "transformar a favela em um lugar decente" ao invés de "construir habitações que não temos dinheiro pra construir"). But that's pretty much it e mesmo "it" pode significar simplesmente pavimentar umas ruas numas favelas e não realizar nada de realmente necessário.
MAS o mero fato do PT ter sido chutado daqui já é uma notícia das mais excelentes. Significa que a cidade tem ao menos alguma chance de acertar suas contas e pagar suas dívidas. Além do lado simbólico todo de que Santo André já era automaticamente considerada uma cidade petista e agora pessoal vê que não é bem assim.
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Dito isso, fica a grande notícia triste da eleição: Gabeira perdeu no Rio de Janeiro. A eleição do Kassab e do Dr. Aidan são boas notícias, mas Gabeira deveria ter ganho pra fechar o pacote. Muito triste, de fato.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Considerações finais.

Após essa proposta de modelo cultural vista nos posts passados, chegamos a arquétipos que, como arquétipos, tem mais uso na ficção que na filosofia:

Em relação a buscas espirituais, existem os religiosos otimistas que acreditam que há o bem na estrutura íntrinseca do universo, seja nessa vida ou na próxima. Existem os ascetas pessimistas que, se acreditam no bem, acreditam apenas na próxima vida, mas creêm no sofrimento como a estrutura íntrinseca da vida atual. Existem os hedonistas niilistas, que, na falta de crença no bem ou no mal, buscam o prazer onde quer que o encontrem na materialidade da vivência efetiva. Existem os fundamentalistas fanáticos cuja aversão ao vazio em que inevitavelmente se encontram o fazem postular um bem qualquer e o seguem com medo de olhar para os lados.

Em relação ao conhecimento, existem os cientistas otimistas que acreditam que o universo, de algum modo, concorda com a luz natural da razão e que, portanto, o conhecimento é inevitável. Existem os céticos pessimistas cuja definição de verdade permite apenas o absurdo, tornando tudo incerto e duvidoso. Existem os fisicalistas niilistas que sem um juízo sobre a razão respondem às contigências e exigências da experimentação nos laboratórios, criando modelos admitidamente ingênuos e, portanto, possíveis de adaptação ou até total descartamento dependendo das contigências. Existem os positivistas fanáticos, cuja aversão ao vazio em que inevitavelmente se encontram o fazem postular uma verdade qualquer e a seguem com medo de olhar para os lados.

Em relação à convivência social, existem os políticos otimistas que acreditam que a sociedade é inerentemente boa, bastando eliminar ou assimilar os elementos que causam "distorções". Existem os cínicos pessimistas que vêem nos outros apenas maldade e obstáculos, procurando se fechar e escapar dessa convivência na medida do possível. Existem os pragmatistas niilistas que na ausência de um ideal que os guie, buscam melhorar a convivência por meio da reação a qualquer coisa que atrapalhe essa convivência. Existem os fascistas fanáticos, cuja aversão ao vazio em que inevitavelmente se encontram o fazem postular um projeto social qualquer e o seguem com medo de olhar para os lados.

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Há, ainda, um último ponto a se tocar nesse assunto:
A primazia do estilo de vida sobre o discurso.

Na verdade, o discurso é o que menos importa. Uma vez lidando com arquétipos, o discurso específico é apenas o recheio diferente que explica os conflitos entre pessoas pertencentes a um mesmo tipo. A casca de todos é igual. Basta saber se é dada mais importância ao que há por dentro ou o que há por fora. A presente visão valoriza a casca externa e ignora o recheio.

A casca, no caso, é o estilo de vida.
Assim, não há visão entre o que se autodenomina fascista e o que se autodenomina anarquista ou o que se autodenomina criacionista ou se autodenomina darwinista ou o que se autodenomina cristão ou o que se autodenomina ateu.
Como dito em algum post passado; a maioria hoje tende ao niilismo. Há muito pouco otimismo no mundo atual. Muito pouco pessimismo. E o fanatismo é uma preocupação constante, não pelo seu número, mas pelo barulho e estrago que fazem.

Assim, se a sua tendência é pensar que a maioria das pessoas é religiosa porque frequentam a igreja ou conversam sobre Deus, eu pediria para analisar mais de perto o estilo de vida. Se elas não agem como se o mundo tivesse sido criado por uma entidade racional e bondosa e que o sofrimento do mundo é tolerável perante à promessa de salvação eterna. Mas se ao invés disso, a pessoa busca todo seu conforto no prazer momentâneo, então ela é uma hedonista, me importa pouco seu discurso.
É uma das minha birras com o Richard Dawkins por exemplo (talvez o maior exemplo de anti-filosofia da nossa época... para o desgosto desses que se dizem anti-filósofos, mas são, de fato, filósofos... filósofos toscos e tal, mas filósofos mesmo assim). Ele gasta páginas e páginas e dá uma imensa importância a um debate mitológico. Se existe ou não essa criatura que chamamos de "Deus"... isso é pouco importante.
O estilo de vida que Dawkins propõe como "alternativa" para os muitos crentes é o hedonismo que eles já praticam. Qual a diferença entre o Dawkins na balada e os religiosos na balada? Muito pouco. Eles tem um leve discurso sobre "crer em algo superior", mas isso não os impede de beber e trepar. Dawkins não tem esse leve discurso. É uma diferença tão insignificante e tentativas de se aprofundar nela são tão vazias, que o fato desses livros venderem mostram o triste estado intelectual de nossa época.
"Deus: uma ilusão" é um livro fanático que propõe positivismo como alternativa ao fundamentalismo. É trocar seis por meia dúzia. Abandona-se o fanatismo da busca espiritual pelo fanatismo do conhecimento. E como "alternativa" de busca espiritual, faz um ideológico espelho do modo como ele e a maior parte da classe média já vive de qualquer modo. É um livro que seria irrelevante, não fossem as vendas. É certamente redundante.
Um religioso que resenhou o livro disse que o que era mais aparente no livro era a falta de curiosidade filosófica acerca da questão. Ele "rebate" argumentos, mas nunca se questiona sinceramente sobre o assunto que se dedica a escrever. Talvez a intenção do religioso fosse dizer que se ele realmente se dedicasse ao assunto, teria descoberto Deus de alguma forma. Isso é falso, mas é fato a falta de curiosidade, que é o que faz o livro ser anti-filosófico e tão fanático. Ele entra no livro com o propósito de provar um ponto e, afinal, prova um ponto. Dado o quão fácil é fazer um argumento pra provar qualquer besteira nesse mundo, é um feito pouco impressionante e, de novo, irrelevante.
Já a falta de curiosidade é tão gritante pelo motivo já exposto aqui. Incapaz de deixar o fanatismo e com o horror pelo vazio típico dos fanáticos. Ele faz argumenta contra o fanatismo fundamentalista se utilizando do fanatismo positivista. É patético e eu já dei linhas demais para isso. Então vamos voltar para o porque entrei nesse assunto, a saber, que o discurso é pouco importante.

O extenso exemplo utilizado acima pode ser reformulado para se argumentar em favor do fascismo dos anarquistas ou o positivismo dos criacionistas.O que importa é que tais "istas" vivem em um mundo onde ser auto-crítico é um pecado por conta do constante medo da constatação do niilismo.
Acredito que existem anarquistas que se dizem niilista. De novo, é o erro de se analisar a questão pelo discurso. O niilista social não adota um ideal, não pensa em uma sociedade assim ou assada. O niilista social, ou pragmatista, pensa apenas nos problemas que o afetam e sua sociedade nesse momento e se dedica a resolvê-los de modo razoavelmente reformista, tomando cuidado para que a afobação não crie novos problemas. O anarquista pensa em utopias e ideais, isso é o oposto do niilismo.

E o que havia para se dizer para o conhecimento foi abordado de leve no caso do Dawkins. Só acrescentaria que Dawkins se envolve em problemas adicionais. Pois ele adiciona camadas à sua pesquisa científica: ele se preocupa com a ética e a política. Ele quer que as pessoas parem de acreditar em Deus para serem mais hedonistas (de novo, elas já são) e que os fundamentalistas percam poder político. Isso é muito nobre, mas destrutivo no laboratório. A questão ética e política certamente deve ser pensada em algum estágio pré-pesquisa ou pós-pesquisa. Mas e se descobertas novas no ramo da biologia (e o pesquisador deve estar sempre pronto para descobrir novas coisas) tornassem o modelo darwinista tão incompatível quanto o que o modelo relativista de Einstein fez com Newton?
Oras, um fisicalista comum não teria problema em mudar o modelo. Afinal, é a exigência do lab que comanda sua pesquisa. Mas Dawkins teria um problemão: ele perderia boa parte dos seus argumentos contra os fundamentalistas. A física avança, hoje, em um campo de incertezas. A biologia parece mais certa de seus resultados, logo, parece pra mim que ela avança consideravelmente menos.
É preciso se questionar se os nossos biólogos não estão comprometidos demais com o mundo fora do laboratório para se permitirem uma incerteza necessária para o avanço de uma ciência.

Por fim, resta eu:
Uma curiosidade particular seria onde eu me encaixo nisso tudo.
Ultimamente tenho me identificado com o seguinte aforismo de Pascal:

"Lamentar os ateus que procuram, pois não são eles bastante infelizes?".

Sim, sou bastante infeliz.
Me considero um pessimista em todos os sentidos.
Tenho admiração pelos que conseguem ser niilistas nessa minha análise. Uma certa inveja até. São a maioria, estão se adaptando bem a esse mundo. Os fanáticos são claramente um obstáculo e os otimistas... bem, eu teria que encontrar algum. Eles no momento me parecem mais uma fantasia da arquitetura dessa visão do que uma realidade. Quem hoje consegue acreditar no bem, na verdade e na justiça sem se tornar um fanático por essas crenças?
Deus verdadeiramente está morto, o otimismo nos parece estranho.
Dessa forma, entendemos pouco, por exemplo, a idade média e mesmo o iluminismo.
Vemos os medievais como fundamentalistas, fanáticos. Besteira: os medievais eram religiosos, os mais extremados eram ascetas. O fanatismo só veio com a reforma. A reforma foi um sinal do niilismo, a contra-reforma é a previsível manifestação anti-niilista.
O catolicismo tende ao pessimismo, se visto a vida anterior a morte. A tal "ética protestante" de Weber é puramente otimista. Mas estando tão comprometidos com o niilismo, hoje vemos cada vez mais essa que foi uma nobre tradição do iluminismo e do ocidente num geral, decaindo em um tacanho fascismo. Isso põe a igreja católica também em uma encruzilhada: é uma instituição ainda pessimista. Mas seus fiéis são hedonistas.
Desse modo, ou eles perdem fiéis que desejam o fanatismo ou têm meros frequentadores de igreja. Uma triste e riquíssima tradição vazia.

Voltando a mim. Eu não consigo ser um niilista. O hedonismo me oferece muito pouco (transformar prazer carnal em estilo de vida? Em algum tipo de sabedoria de vida? Me parece frágil demais. Procuro algo além... infelizmente.); o pragmatismo é algo que admiro, mas está mais no meu discurso que no meu estilo de vida. Vivo cínico, desconfiado, achando que os ideais são todos maus e que os projetos bem intencionados todos resultaram em calamidade. Desconfio de nossos idealistas políticos. Quero ser deixado em paz apenas. Sei que é inevitável que as hordas irracionais realizem suas furiosas revoluções. Mas não me matem... e não roubem meu videogame!
Por fim, falando em idealistas; em relação ao conhecimento sou um idealista transcendental sem a coisa-em-si. Acredito que minha mente, que é fenômeno; cria fenômenos. Essa é a verdade que creio e ela é um absurdo: acho difícil acreditar na ciência... primeiro pela sua incapacidade de curar minha infelicidade, segundo pela própria ciência. Os modelos físicos estão tão irrealistas que não há como não acreditar que isso que vejo e sinto é apenas um fenômeno de algo irracional. Ao mesmo tempo, é um fenômeno criado por um cérebro desenvolvido por uma evolução. Oras, será que, ao alterarmos a química de nosso cérebro, não estamos verdadeiramente alterando esses fenômenos que ele cria? Pense em como raciocina diferente os dependentes químicos e alucinados? Se a evolução nos causasse uma alteração química no cérebro a ponto de aos poucos nossa espécie decair em prol de um homo sapiens com um cérebro alterado? Não teriam eles uma razão diferente da nossa? Não representariam outros mundos, creriam em outros deuses, teriam outros problemas e pensariam em outras soluções? Que valor há para se dar a uma razão que se tornará inútil no alvorecer de uma nova espécie? Não sei. Sei de muitas poucas coisas hoje em dia. Sei que vivo, que sofro e que percebo algo que não sei o que é. Sei que crio modelos conceituais para simplificar a realidade. Mas que ainda assim ela continua esmagadora, imprevisível e frustrante.
Sei de pouco, mas sinto muito.

Niilistas e fanáticos: os dois lados da mesma moeda.



E o que acontece quando, após todas as promessas falharem, a vida apenas não for o suficiente?
O que fazemos quando precisamos sentir, precisamos conhecer, precisamos agir e, afinal, não há nenhum chão para pisar?
E quando precisamos nos mover para frente, mas tudo que há é o abismo?
A solução é clara e única: damos um passo e caímos.
Há dois modos básicos de se cair. O primeiro é aceitar a queda e fazer o melhor para aproveitar o momento caindo e o segundo é cair, mas recusar que está caindo, fingindo que o nada à sua volta é um chão seguro e fechando os olhos e ouvidos para qualquer evidência do contrário.
No primeiro caso temos o niilismo, no segundo temos o fanatismo.
Nenhuma opção é honesta. Apenas o pessimismo é honesto, mas a questão aqui é que o verdadeiro e o bom há muito estão extintos, então para o inferno com a honestidade.

Quando aquele que buscam uma vida mais espiritual caem no abismo, eles podem se tornar um hedonista ou um fundamentalista.
O hedonismo é uma busca espiritual por meio da coisa mais espiritual que se tem acesso no abismo: o corpo.
Uma vez que os niilistas são a imensa maioria no mundo atual, não é de se espantar que a maioria das pessoas sejam hedonistas. Qualquer um pode sair (e a maioria do faz) no fim de semana à noite para uma noite de música e sexo fácil, é algo tão rotineiro que a mera idéia de certos filósofos escrevendo sobre hedonismo como que propondo um estilo de vida alternativo é uma piada. Hedonismo não é alternativo, é a norma. Você pode pintar isso com as cores da contra-cultura, mas há de se perguntar contra qual cultura você se posiciona sendo hedonista uma vez que a coisa mais comum, banal e alienada do mundo atual é sair por aí atrás de sexo.
Mas é claro que há uma expressiva quantidade de fanáticos no mundo. Desesperados com o vazio da vida de prazeres materialistas, os fanáticos fingem que acreditam em algum Deus.
Me mostre uma Igreja Universal do Reino de Deus e lá estará a maior reunião de ateus que você verá. Não existe, entre as paredes de um desses shopping centers da fé, um único crente. Apenas ateus em auto-negação vivem ali e é por isso que eles gritam tanto e é por isso que eles querem criar políticas próprias, ciências próprias, tudo convenientemente distante do mundo, tudo separado.
A religião, sendo uma metafísica razoavelmente decente dado seu entulho mitológico, é bem pautada no mundo. Leva em conta o sofrimento do mundo e é otimista em relação à salvação em outra vida. Mas o fundamentalismo não tem metafísica, tem cada vez menos teologia, aos poucos eliminam a mitologia, ficando com um mítico nome - "Jesus!", "Maomé!", "Einstein!" - que significa cada vez menos, restando apenas a palavra (uma palavra de ordem!) e, como se sabe, palavras sem essência que correspondam a ela são vazias.

Para aqueles que buscam conhecimento, enquanto estão em seus labs, isso pouco importa. Os fisicalistas, maioria entre os cientistas atuais, não se importam com fundamentos, apenas com resultados. Eles não buscam significado ou interpretação de suas pesquisas, tampouco a compreendem como uma verdade. Eles documentam e utilizam. Constróem coisas e experimentam. Mudam teorias. Reescrevem leis. Criam modelos conceituais e os adaptam de acordo com a observação. O fisicalista tem como única base o lab e fora do lab ele é um sujeito como qualquer um de nós, com seu niilismo, fanatismo, pessimismo ou otimismo.
O mesmo não ocorre com o positivista. O positivista é um fundamentalista que acredita na ciência como religião, gosta de fingir que é um ateu e brinca com seus argumentos acerca de existência ou não existência de certas entidades. Afinal de contas, uma briga entre fanáticos.
Se a internet não favorecesse o fanatismo, jamais perderíamos tempo com criacionistas ou positivistas. Mas como é a internet, eles de algum modo conseguiram sair de suas desprezíveis cavernas para as livrarias. O que certos biologistas tem a dizer sobre metafísica? Aparentemente o mesmo que o resto dos fanáticos. Um monte de nada. Pois eles vivem no nada e, incapazes de viverem nos labs deixando as experiências guiarem suas mãos, precisam fingir que essa bolota alaranjada dentro de seus crânios serve pra algo de mais interessante que comer alface.
O engraçado aqui é a incoerência do discurso com a prática. O positivista hoje gosta de mentir se dizendo um tipo de humanista naturalista. Gosta de explicar as coisas a partir da razão e da natureza, mas esta é a inconsistência. O positiva, sub-repticiamente, trata as coisas como opostas.
Ele dá a ciência e a razão (de modo não declarado) um poder sobrenatural para desvelar a verdade do mundo, ao mesmo tempo, ele diz que a bolota alaranjada em seu crânio é apenas um produto da evolução. Mas oras, como ele pode saber isso se a bolota alaranja em seu crânio é apenas uma bolota alaranja em seu crânio?
Como dito, o pessimismo é o único modo honesto de viver; mas os fisicalistas ao menos produzem, criam, se fazem úteis para a vida e isso supera, sejamos sinceros, a necessidade por honestistade. Já os positivistas e suas declarações de humanismo? São anti-humanos, no sentido que são irracionais na sua exacerbada devoção à razão. É destrutivo para as ciências a criação de dogmas inquebráveis e a repetição de nomes de cientistas como se fossem autoridades. O laboratório é autoridade. Cientistas só são crianças. E os positivistas? Escravos de crianças.

E ao falarmos de escravidão, chegamos ao fim desse apressado e ressentido estudo (altamente ressentido porque o niilismo se faz tão presente que acho impossível escrever disso sem que me afete).

Faltando motivos para o otimismo na política, mesmo por meio de todas as guerras e tomadas de poder, mas ainda necessitando agir, não podendo apenas esperar o tempo passar como faz o cínico, o político também cai no abismo e precisa tomar sua decisão.

Sem o que se fundamentar, o político pode assumir que a própria espiral vertiginosa da política é o fundamento e assim o pragmatista surge como um reacionário no sentido positivo do termo.
O pragmatista não guia a população. Guiaria pra onde? Ele apenas reage. Mas é sua maior qualidade: a capacidade de reação.
Sem ideais para se guiar, o pragmatista se guia pela velocidade com que cai no abismo; sem estar à frente da situação, tentando guiar a história (ou fingir que é guiado por ela) e nem ao lado olhando passivamente, o pragmatista consegue reagir à situações. E só.
Mas há de se perguntar, afinal, se é preciso mais que resolver os problemas que surgem, se é preciso levar a humanidade para um estágio mais elevado mesmo o mundo não apresentando nenhuma dica desse estágio.
Aqui entra em cena o fascista. Que vendo o vazio do mundo tenta, pela força, criar algo.
Enquanto o político tradicionalmente busca inimigos para justificar que o mundo não esteja bom; o fascista vê apenas inimigos.
Sob essa ótica, importa muito pouco o "ismo" do fascista em questão. Assim como um fundamentalista pode ser ateu e um positivista criacionista, o fascista pode ser um anarquista também. Desejar ou não algo que chamemos de "governo" é tão pouco relevante para a presente visão quanto crer ou não em uma divindade. A única coisa que importa para o fascista é que o mundo absolutamente não suporta nada que não seja ele. Pois na ausência de verdade, o fascista se torna a medida. Não a situação, não o mundo, não os problemas, como é o caso do pragmatista; não o ideal, não a teoria, não a visão de mundo, como é o caso do político e não a sobrevivência, não o conforto, não a ausência de conflito como é o caso do cínico. Para o fascista, ele próprio é a medida e é por isso que fascismos caem tão fácil no culto de personalidade. Então ficam essas interpretações eternas de Marx, de Lênin, as camisetas de Chê Guevara, a invocação de nomes como Kropotkin e Bakunim, enfim; os pensadores não eram fascistas, mas eles se tornaram personalidades cultuadas por fascistas. Pois, para o fascista, o indivíduo é a medida de verdade. Sequer sua teoria.
Entendam como isso é parecido com o descrito acima: o fundamentalista não estuda teologia, mas invoca o nome de Jesus; o positivista não duraria uma semana aplicando seu dogmatismo no laboratório, mas invoca o nome de Darwin; o fascista não adapta, de modo sincero e crítico, a teoria para a realidade presente, mas invoca o nome de Marx.

Aliás, em todos esses casos, é sempre a realidade que deve ser martelada e deformada para que ela caiba na teoria. Os fundamentalistas se esforçam na conversão, no fim do estado laico, no terror em geral para que todos sejam de modo que eles acham que está inevitavelmente predestinado.
O positivista fica argumentando e racionalizando e dizendo como é a realidade ao invés de experimentar a realidade. Me pergunto o que um positivista faz no seu laboratório já que ele já tem certeza que o seu cientista favorito disse toda a verdade. Ele faz ajustes acredito, mas é pequeno demais para que eu consiga visualizar.
Por fim o fascista é mais direto. Se o mundo não é da forma que ele pensa, eles primeiro escrevem sobre porque a realidade se recusa a aceitar a teoria; após descobrir, eles pegam em armas e vão lá mudar a realidade. Aliás, essa é uma expressão que eles adoram, não? "Mudar a realidade".

Essas são expressões do vazio e não há nada mais vazio que um nome e a imagem de um morto. Desse modo, são justamente essas as coisas invocadas.

De fato, o vazio aparece nessas duas formas básicas: No desonesto niilista que garante uma boa vida por meio de sua saudável desonestidade e no fanático que nega toda realidade senão a história que ele conta para si próprio que é para não ser forçado a abrir os olhos e, no nada, ver a si mesmo.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Roteiros!

Quinto mundo!
Quem quiser ler/desenhar meus roteiros é só se registrar no quinto mundo e entrar nesse tópico.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Prefeitura de São Paulo

Já que o Salles ficou fora do segundo turno aqui em Santo André (o que vai fazer eu votar no Aidan só por ser o voto anti-PT-que-torra-todo-o-dinheiro-sem-nem-poder-pagar-funcionário-público-mas-ainda-assim-faz-promessas-megalomaniacas), eu acabei me interessando um pouco pela eleição de São Paulo.
E parece que o DEM tem um bom prefeito em Kassab.
Não gosto do Kassab. Não gostava da admnistração Serra que fechou várias baladinhas inocentes e odeio-odeio-odeio-odeio o projeto Cidade Limpa, que a Marta aliás disse que ampliaria (porra! Já tirou os outdoors, muitos deles lindos, vai fazer o que agora? Arrancar os muros?).
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Não sou bem informado como o resto da blogosfera, mas esse post do Gravataí parece justificar bem porque essa é a melhor escolha.

De resto, eu mesmo elogiei a Marta aqui um tempo atrás (e critiquei a "Cidade Limpa" no mesmo post) justamente por ela ter defendido os homossexuais perante bispos batistas.
E o que ela faz agora?

"É casado? Tem filhos?"

Nunca fui fã da Marta porque nunca fui fã do PT, mas não achei a gestão dela RUIM, (embora esteja achando agora lendo os comentários todos) mas respeitava bastante ela. Era contra ideologicamente, mas respeitava como pessoa; agora nem isso mais.

Ela não só foi homofóbica (e isso pra ela é 14 milhões de vezes mais imperdoável do que se o Maluf, por exemplo, tivesse sido - porque o Maluf todos já sabemos que é um imbecil e é por isso que ele não ganha eleição nem pra síndico, mas a Marta eu gostava pô!!!), como ela sequer tentou se justificar. Defendeu e defendeu que a vida pessoal do Kassab deveria ser examinada. Isso é grotesco. No primeiro turno eu recomentava às pessoas votar "na Soninha ou na Marta", mas tinha birra do Kassab pelo projeto cidade limpa e birra da admnistração PSDB/DEM como um todo por seu ataque à vida noturna paulistana. MAS a Marta me incentivou a ler mais sobre o Kassab e ver que, de fato, ele não está sendo um prefeito ruim, como alguns amigos já diziam toda vez que eu o criticava bem antes da eleição.

Então é isso, eu não vou colocar selinho de "voto no Kassab" no meu blog porque não gosto de me comprometer assim e ter que servir de advogado de nenhum candidato.
Eu estaria disposto a isso pelo Salles aqui em Santo André, mas ah, tristeza das tristezas, ele ficou fora do segundo turno.

(ainda devendo um post sobre niilismo.
Vai sair!)

Discursos genéricos

Acompanhando mais o segundo turno de São Paulo que o daqui de Santo André (já que meu candidato ficou fora porque 1% dos seus eleitores votaram em algum outro qualquer porque achavam que ele não teria chance de ir pro segundo turno), é impressionante como está genérico o nível da discussão.
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A idéia, por enquanto, parece a seguinte:
Marta e Kassab são relativamente iguais. Votando Kassab, nada muda; votando Marta, corre-se o risco de ela afundar a cidade em dívidas mais uma vez.
Além disso, o que se observa é o seguinte:
As pessoas votam em Marta por algum motivo muito obscuro, pouco definido e pouco explicado: "ela é de esquerda"
As pessoas votam em Kassab por algum motivo muito obscuro, pouco definido e pouco explicado: "ele é contra o PT"
Fica minha pergunta de pessoa mais alienada da blogosfera: existe algo nos planos de governo que realmente distinguem um do outro?

(PS: Devendo um post sobre niilismo, hoje pensei no conceito do contra-niilismo, oh dialética)

segunda-feira, outubro 06, 2008

Os pessimistas



A história do conhecimento humano é também a história da moral humana.
O modo como organizamos nossos discursos a respeito da estrutura do universo é o modo como organizamos nossos discursos a respeito de nossos estilos de vida.
Descrevemos o mundo de modo que consigamos sobreviver nele, mesmo que tal descrição seja uma ausência de vida - especialmente, quando tal descrição é uma ausência de vida.
Descrevemos o mundo real como choques cegos de átomos, como conceitos abstratos, como um paraíso e descrevemos o mundo falso, este que vivemos, como sentimentos, como sofrimento, como superficialidade, como enganação.
Nossos cérebros nos enganam, os pecados de nossos ancestrais nos cegam para a verdadeira luz, nossos sentidos nos afastam das idéias.
O mundo designado para a adaptação humana da vida é o mundo onde o ser humano menos vive. Aliás, o ser humano não vive em tal mundo, desprovido completamente de realidade do ponto de vista da vida, é apenas o homem que vive nesse mundo.
O ser é um átomo, um deus, uma idéia.

O progresso ocidental então nos trouxe uma armadilha.
Confortáveis em nossa existência, sem obrigações morais e sem precisar de esforço para a sobrevivência, esta foi deixada de lado.
Assim nasceu a negação da vida e o descobrimento da mesma.

Sem a necessidade de sobreviver, o mundo falso se revela como verdadeiro, o superficial como toda profundidade possível e as descrições como meras operações fisiológicos de um cerebro guiado pela replicação.

Não há verdade para quem não deseja viver. Não há mentira. Não há bem. Não há mal.
Há sofrimento, pois para quem não deseja viver, há apenas vida.

Cínicos, céticos, ascetas, niilistas: para todos estes não há nada senão vida por toda parte e, portanto, não se esforçam para mantê-la.

O cínico ignora tudo que é possível ignorar, mas há o que não é possível: sua vivência.
O cínico se distância do sofrimento dos outros, do próprio, das alegrias dos outros e da própria. O cínico é apático. Ele apenas passa o tempo, pois, assim como a vida, o tempo está por toda parte.
O cínico não se importa, ele ri um riso sem graça perante todas as coisas. Ele não se diverte quando ri, ele não é um coringa, ele apenas é alguém que se fecha a toda reação senão um triste riso que o lembra que ele vive.
Fechado em sua própria redoma, para o cínico nenhum problema é urgente demais e nenhuma alegria é necessária demais. Ele não simpatiza, não compartilha, não coopera, não descobre, não busca. O cínico apenas sobrevive porque a única verdade que lhe resta é esta.
O cínico é o oposto do político.
Para ele não há guerra. O cínico é o grande pacifista, pois sua sobrevivência está garantida e, portanto, ele será sempre o grande alvo de todo político.
Obviamente o cínico não reagirá quando outros forem vítimas da guerra, ele não deseja a paz, é só que a guerra é o fim do seu único sentimento: a vivência.

Assim como o cínico é desprovido de sentimentos senão o da vivência, o cético é desprovido de conhecimentos senão o de que ele vive (corporalmente ou não, pouco importa).
A única certeza do cético é sua existência e todo o resto é duvidoso.
Diferente do cínico, há esforço no cético: o cético não é fechado em si próprio, ele observa todos os conhecimentos, mas os observa como incertos e ele luta para que permaneçam incertos.
O cético faz isso por causa de seu comprometimento inesgotável com sua única verdade: a existência.
Todo conhecimento senão o da existência é um conhecimento que diminui a importância do que certamente existe em prol de algo que incertamente existe.
Vislumbrado pela sua plena realidade, o cético teme que a invasão dessas realidades menores: desses átomos, dessas cores, desses cheiros, dessas divinidades, desses conceitos, dessas leis naturais. Tais realidades são menores e impuras se comparadas à existência e, portanto, o cético as repele.
O cético é o oposto do cientista.
Enquanto cientistas utilizam a palavra "verdade" e "conhecimento" do mesmo modo leviano e preguiçoso que os bêbados que fofocam, o cético refina a descrição de verdade até torná-la absurda.
Um cientista sem uma verdade não existe: Descartes, Kant, Husserl, todos esses buscavam uma verdade fundamental para que cientistas pudessem construir, já o objetivo do cético é outro: é definir a verdade do modo que ela seja uma contradição em termos, fazendo com que a única certeza não seja uma lei, uma teoria ou uma descrição, mas apenas aquele fato solitário: existe.

O asceta se diferencia dos acima por acreditar em um bem, em uma verdade, na salvação do sofrimento, mas ele os acredita se e apenas se não existir vida.
O asceta não faz questão de preservar a vida, como os acima mencionado, mas além disso, ele não deseja preservar a vida. O asceta preserva a vida apenas se sua religião é contrária ao suicídio. Estando este caminho fechado, o asceta adota o que há de mais próximo ao suicídio.
Auto-flagelação, isolamento, abstinências. Tudo que expanda o que há de naturalmente na vida.
Com a vida vem inevitavelmente a dor, a solidão e a privação e pelos meios mencionados, o asceta as expande ao máximo.
Nós de algum modo temos a tendência de considerar como uma vida "mais real" aquela que sofre mais.
Aquela pessoa que na infância passou fome, que sofre violência nas ruas, que é privado de luxos. Dizemos (e este sentimento os socialistas parasitam ao infinito) que isso é mais real do que uma vida tranquila e agradável.
Desse modo, ninguém está mais absorto na realidade do que aquele que nega toda realidade senão as inevitabilidades da vida.
A irônia do asceta é que estando o caminho do suicídio fechado a ele, ele busca negar a vida sem morrer, mas a vida é tão imensamente a única verdade que ele consegue apenas negar todo o resto senão a vida.
O asceta é o oposto da religião.
Enquanto toda religião foi criada como manutenção da vida perante ao sofrimento, o asceta utiliza a mesma mitologia como manutenção do sofrimento perante a vida. Enquanto a religião afirma a sobrevivência negando a vida, o asceta nega a sobrevivência afirmando a vida.
O religioso admira o asceta de modo parecido como o cientista admira o cético.
O cientista admira o cético (até às vezes mente se dizendo um) pela sua adoração incontestável da verdade, desde que, claro, o cético não negue a verdade do cientista, nesse caso ele "deixa de ser razoável".
O religioso admira o asceta (até às vezes adota uma ou duas de suas posturas um ou dois dias do ano) pela sua adoração incontestável da divinidade, desde que, claro, o asceta não aponte como que o religioso não adora o suficiente e como que o religioso é tão pecador quanto um ateu pela seu excessivo amor à vida material, nesse caso ele vida um "fundamentalista" ou "extremista".

Por fim há o niilista.

sábado, outubro 04, 2008

Os otimistas



Nossa civilização se ergueu no ombro de promessas.
Incapazes de escapar do sofrimento da vida, fizemos todo tipo de apostas.
As religiões, as ciências e os sistemas políticos são os tipos de apostas mais comuns que presenciamos.

As religiões se erguem nos ombros da promessa de um caminho que transcende o sofrimento, seja em vida como o nirvana ou em morte como o paraíso, esse é o ponto principal das religiões. Os deuses, os templos, as leis morais, essas coisas são apenas anexos de menor importância comparada a promessa de que algo na estrutura intrínseca do universo garante que o sofrimento seja apenas um estado temporário, relacionado à vida e que basta algum tipo de ausência de vida (seja isso ascetismo ou a morte propriamente dita) para que possamos nos livrar daquilo que parece tão inevitável.
Toda religião se baseia em uma negação da vida, em uma transcendência do material para o imaterial. Mas as religiões confundem o que é de imaterial e o que é de material no homem. O intelecto, a luz da razão, aquilo que nos permite compreender a obra divina e nos consolar, isso é o que há de contigente e não imortal.
Se há no mundo uma tal essência divina que é o início e causa de todas as coisas, então o mundo deve compartilhar sua própria essência com essa causa.
O intelecto e a promessa da ausência de sofrimento é algo restrito aos seres humanos, é algo que existe em um cerebro humano e que morre com a morte de um cerebro humano. Mas ao observarmos o espetáculo da natureza o que fica aparente é que quanto mais próximos estamos da criação, menos racional ela é.
Não há nada de mais racional e unívoco do que as leis da natureza.
Estando nossa consciência tão distante de tais leis naturais, as percebemos repetitivas, certas, imutáveis e organizadas, mas o quanto mais nos aproximamos do ser humano. Passando pelo orgânico, pelo animal e finalmente ao racional, mais camadas de incerteza, mudança e caos nós adicionamos.
É possível pensar que se de algum modo nós mesmos fossemos uma lei natural, veríamos o ser humano como a mais estática e imutável criatura enquanto sofreríamos com nossa falta de controle.
É que o mais essencial, ou seja, o mais divino, não é o que garante o auto-controle, mas é o que escapa desse auto-controle, a vontade individual é um fenômeno raro e estranho nascido de um cerebro.
O seguir cego de leis que conflitam sem motivo é o que está por toda a parte e é, portanto, a marca do divino.
O mundano contigente é a constatação racional de que leis são essas e o inevitável sentimento de impotência perante tais ímpetos.

As ciências se erguem nos ombros da promessa da solução do sofrimento por meio da transcendência do imaterial para o material. Enquanto as religiões prometem o fim do sofrimento causado pelo mundo material, as ciências prometem o fim do sofrimento por meio da negação do imaterial e da crença básica de que se uma televisão pode ser consertada, então também pode sua alma. Os cientistas apostam que a resposta está na razão, mas eis que se aproximam de um problema, pois eles próprios chegam a conclusão de que a razão nada mais é que um aparato contigente de um cerebro que aos poucos se adapta ao seu ambiente.
Somos umas das primeiras espécies a fazer uso da linguagem, ou seja, a descrever o mundo por meio de simbolos e leis. Temos então, um cerebro relativamente novo e pouco adaptado para tal tarefa.
Nosso infeliz cerebro gosta de enganar a si próprio acreditando que desvenda leis, mas pobre e sobrecarregado cerebro, cuja racionalidade é a última e mais frágil camada de uma série de coisas: das leis mecânicas que governam seus átomos e o espreme dentro de uma pequena caixa craniana causando dores, das leis biológicas que governam seus genes que não se importam com ciências, mas com a cega e eterna auto-replicação e portanto causam pensamentos de reprodução e sobrevivência, onde o enganado cientista, enquanto defende sua racionalidade pensando que defende algo que transcende suas próprias pesquisas, está na verdade apenas defendendo seu pagamento e sua capacidade reprodutiva e, por fim, das próprias leis lógicas das quais ele necessita para pensar.
O cientista diz a si mesmo a palavra "verdade" enquanto deveria ser honesto consigo próprio e dizer a palavra "adaptação". O cientista não descobre o mundo, ele apenas luta de forma cega e constante para sobreviver e ele esbraveja contra seus oponentes, contra os "irracionais", porque aquilo que há de mais irracional nele grita dentro de seu pequeno e sobrecarregado aparato fisiológico de que se ele não for a verdade, então a sobrevivência de seus genes estarão em risco.
O cerebro do cientista o engana para garantir sua sobrevivência.

A política se ergue nos ombros da promessa da concordância e cooperação como alternativa ao sofrimento.
O político tem duas faces: a que culpa e a que propõe soluções.
O político culpa outros seres humanos pelo seu sofrimento como se ele próprio não fosse um ser humano. Ele procura uma diferença qualquer nesse ser que é um infeliz como ele próprio e diz que essa diferença o prejudica.
Nesse sentido, o político é uma criatura parasita. Ele usa da biologia para dizer que o outro é diferente, ele usa da religião para dizer que o outro é diferente, ele usa da economia para dizer que o outro é diferente, ele usa conceitos que ele criou nesse instante para dizer que o outro é diferente.
Tudo que o político precisa é inventar um conceito que se aplique a outro, mas não a si próprio para causar a guerra que todo político almeja.
O político é, portanto, um paradoxo. Ele usa a guerra para que as pessoas concordem e cooperem.
É por isso que o alvo mais básico dos políticos é uma minoria numérica: os poucos daquela etnia não nativa; os poucos daquela religião estrangeiras; os poucos daquela classe social mais abastada.
No que a sociedade se torna mais complexa, o político utiliza uma minoria representativa, aqueles com menor poder político, mesmo que sejam aqueles com maior número: Os muitos imigrantes incapazes de votar que invadem nossa terra, a imensa classe média que não se afilia a nada em particular e se divide facilmente, a multidão de pobres sem recursos para exportar e desenvolver idéias senão por meio de expressões artisticas que cada vez se tornam apenas tristes auto-paródias.
Escolhido seus alvos, o político busca eliminá-los das sociedades primárias ou eliminar sua representatividade nas sociedades complexas.
A guerra que todo política tanto deseja é eterna.
O político, afinal, não difere em nenhum conceito essencial dos seus inimigos, apenas em conceitos contigentes e, portanto, basta uma mudança conceitual em algum circulo intelectual qualquer para que ele próprio se torne o inimigo perseguido pela sociedade e uma vez estabelecido que outro ser humano é a causa do problema, faltando apenas o detalhe da menor importância de determinar qual ser humano que é o problema, o político criará guerras enquanto for político.
A cooperação sem um alvo humano ocorre apenas quando se entende que o problema não é outro ser humano, mas algo vindo da natureza ou da essência do mundo. Mas se o político acredita no primeiro caso, ele se torna um cientista e se acredita no segundo, se torna um metafísico ou religioso.
O político só é um político enquanto deseja guerra.

Estes são os otimistas de nossa sociedade.
Em breve. Os pessimistas.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Debate dos candidatos a prefeitura de Santo André

Como eu disse há um tempinho atrás, eu vou votar no Salles (DEM), então eu assisti o debate mais pra ver se ele merecia mesmo o voto, já que os outros não teriam por outro motivo.
Dito isso, eu acho que ele foi muito bem; eu assisti dois dos três blocos, então no último bloco pode ter acontecido algo que radicalmente mudaria minha opinião, mas do que eu vi, eis algumas poucas coisas que me impressionaram:

Alguém; não lembro agora se é o sujeito do PSOL (Alvarez ou Alvares, não vou nem citar o nome dele, porque da última vez que fiz isso nesse blog, troquei o "s" pelo "z" e a militância baixou aqui me chamando de burro) ou o Siraque (PT), comparou Salles a Bush! Começou algo como "hehe, liberalismo, né? Essa politica do Bush" e etc; isso foi ridículo a um nível que eu não sei nem como começar a expôr.
Aceitando a premissa que a economia norte-americana quebrou por falta de regulação em Wall Street (embora eu tenha tido a impressão que, na verdade, foi falta de regulação no setor imobiliário e não exatamente Wall Street), há de se perguntar, o que exatamente há de comum entre a prefeitura de Santo André e o governo dos Estados Unidos?

No mais, o Siraque falou e falou e falou em desburocratização.
Oras bolas, liberalismo em nível municipal não é exatamente desburocratizar coisas? Como que o sujeito dá risadinha ao dizer a palavra liberalismo e 5 minutos depois está repetindo a palavra "desburocratização" como se ele tivesse inventado ela na hora?
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Outro ponto alto foi quando o sujeito PSOL (aquele cuja última letra no nome aparentemente é sagrada) acusou Salles de ter copiado alguma idéia dele e Salles foi firme e disse que o que é bom ele copia mesmo, que plano de governo é do povo e não desse ou daquele partido. Foi bom isso, foi ótimo aliás.
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Por fim, o ponto cômico foi o "Dr. Brandão" (PSDB) choramingando que o parque ele construiu e que foi nomeado Ana Brandão por causa da mãe dele tinha sido trocado de nome e agora virou "Parque da Juventude".
Por um lado é engraçado, por outro lado me assusta esse tipo de governante que acha que trabalho de prefeito é mais construir coisa e menos admnistrar.
Acho que é algo que tem que ser dito sobre o Maluf também.
Tirando certos pontos, as cidades hoje em dia, num geral, já tem toda infraestrutura física que elas precisam, o problema é que é mal utilizado.
Problema de hospital, por exemplo, é falta de médico e não falta de um posto de saúde em tal lugar.
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Aliás, Salles também avançou uma proposta lá, que eu não conhecia, que era de fazer uma espécie de vouchers; já que saúde é um tema tão importante em Santo André, a proposta dele é tipicamente liberal, rápida e acho que relativamente barata também; que é, bom, vouchers mesmo; um voucher é quando o governo te dá um "vale" para usar um serviço público. Então a proposta dele (que é basicamente o que o ProUni faz e é o que a Marta tem proposto fazer em relação a creches em São Paulo) é do governo ajudar a população a pagar um plano de saúde privado.
É uma solução de um admnistrador e não de um político: ao invés de construir algo que você pode colocar uma plaquinha dizendo "a prefeitura te ama", você dá acesso a recursos já existentes.
É questionável o quanto isso funciona no longo prazo, o quanto isso aumentaria o valor dos planos de saúde tornando mais caro do que de fato investir na própria rede de saúde, etc e tal, mas como uma solução imediata para um problema que exige uma solução imediata, é um bom projeto sim.
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Enfim, eu vou encerrar esse blog antes que pareça propaganda eleitoral. É que eu vou votar no sujeito e eu escrevo isso mais pra me convencer que estou fazendo uma boa escolha do que convencer qualquer um, mas de certo modo é inevitável eu votar nele, já que nossas visões são naturalmente parecidas.
Repetindo, a única coisa liberal que teve lá além de Salles foi o Siraque repetindo desburocratização a torto e direito, mas sério, alguém em algum lugar do universo acredita num petista quando ele fala em desburocratização?
Burocracia não é só algo ideológico para o PT, mas é o meio pragmático que o partido usa para manter uma base constantemente fiel. Não dá pra acreditar quando um petista fala em desburocratização.