Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
Nostalgia do contemporâneo
Nostalgia musical com rock é sempre estúpido. Anos 60 ou anos 90 ou anos 00 é uma diferença irrelevante, tudo é contemporâneo, quer você tenha ido pessoalmente na baladinha x de tal década ou não.
Estava ouvindo Smashing Pumpkins agora e sempre rola no youtube algo do tipo "ah, essa época sim tinha música. Não essa droga de hoje"
Meu rock favorito é algo que eu nunca participei, nem como nostalgia, twee é alien pra um bocado de gente que viu as bandas pessoalmente, mas de novo, não importa, os anos 80 são tão contemporâneos quanto o que aconteceu ontem. É tudo parte de um processo que é tão o mesmo processo e é tão sem rupturas relevantes... enfim.
Musicalmente, a época que mais marcou enquanto aconteceu - e assim será por toda a vida, pois ter 21 anos não acontece duas vezes - foi aquele momento entre 2003 - 2005 que tinham as coisas do tipo Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Franz Ferdinand, Killers, etc e tal.
Crianças burras que eramos na época, sentamos a inveja do nosso clubinho e ó que medo de Strokes ficar mainstream.
O que aconteceu com o pós-guerra foi uma constante necessidade por algo novo que leva as pessoas a cometerem o erro de pensar que coisas novas de fato estão acontecendo. Não há ruptura relevante entre Beatles, Velvet Underground, Sonic Youth, Yeah Yeah Yeahs e seja lá o que acontece hoje; se o Rock quer se compreender como arte, ele tem que pensar um pouco mais em eternidade e um pouco menos em ciclos de 10 anos e cortes de cabelo. A "nossa" geração ainda é a geração dos nossos pais e até dos nossos avós; a última ruptura foi a segunda guerra mundial (e olhe lá); desde então, a juventude dos Beatles é a mesma juventude do Restart e pensar as coisas do ponto de vista dos corpos que envelhecem nunca foi uma boa estratégia de análise histórica ou cultural. Que importa você e seu corpo mortal no esquema das coisas? Pensar a diferença entre hoje e os anos 60 vai ser uma curiosidade acadêmica (e arbitrária e cheia de problemas e útil só como ponto de partida) como pensar a diferença entre a Grécia de Sócrates e a de Aristóteles e estamos falando aqui da diferença entre uma geração sem escrita e uma geração com escrita. A diferença entre nós e os anos 60 é muitíssimo menor.
A internet é basicamente um telefone muito eficiente, mesmo tentando construir essa frase, eu não consigo ver a enorme diferença.... ou qualquer diferença. Não é como se esse blog não fosse existir como um fanzine e ser tão pouco lido e irrelevante
O que muitas pessoas experimentam como nostalgia de uma época que nunca viveram é uma experiência da própria época; confusa por esse conceito estranho de um ciclo cultural que dura risíveis 10 anos.
Talvez a grande prova que somos exatamente a mesma geração que nossos avós é que continuamos a cometer exatamente os mesmos erros. Algumas coisas dependem de avanço tecnologico - essa ou aquela doença foram curadas - as que dependem de qualquer mudança de espírito (o tal do Zeitgeist) continua na mesma. Nós ainda estamos parados no exato mesmo ponto da família dos anos 60 que de repente tinha todas essas tranqueiras novas para o lar sem saber o que fazer com elas a não ser afundar-se em mais depressão.
Se o sujeito do clube da luta se acha niilista, ele deveria ver quanto antidepressivo uma dona de casa norte-americana engole furiosamente, aí você me fala de não acreditar em nada, não ter esperança no futuro, ter tranqueiras e perceber que elas são inúteis, etc e tal.
Os problemas são os mesmos, a falta de solução também, a ansiedade da juventude idem, logo, o mesmo rock n roll. Desde os anos 80 nos chamam de década perdida, eu incluiria aí os anos 60 também já que estamos falando de contribuições culturais geneeralizadas e significativas ao invés de um bom momento aqui e lá (ah é, os hippies foram muito importantes, olha todo mundo vivendo como eles e rejeitando o cristianismo conservador).
A ruptura da segunda guerra mundial foi basicamente nos forçar a olhar as minorias. O problema judeu é também o problema negro, homossexual, etc e tal. As conquistas que esses grupos estão tendo é o exato mesmo processo que se originou (e nem assim originou originou no sentindo forte da palavra) desse trauma causado pelo holocausto.
A característica da atualidade envolve esse trauma; o niilismo, o fanatismo religioso, a democracia confusa, o hedonismo, isso tudo vem de antes, são problemas do século XIX que meio que entraram em pausa pelas guerras mundiais. Lidar com a tecnologia eu diria que é um problema do começo do século XX (a questão da técnica está pelo menos em Heidegger). Se eu posso profetizar a próxima geração, vai ser aquela que vai sinceramente olhar o fim do mundo nos olhos por conta dos problemas ambientais; hoje nós brincamos de nos preocupar com problemas ambientais, vai chegar a época que um ataque terrorista intencional vai ser irrelevante, pois você está com medo que a chuva mate todos aqueles que você conhece; essa é a próxima etapa, acredito (mas sei lá, especular demais o futuro é pamonha); até lá, os Beatles são tão jovens quanto você.
sábado, novembro 12, 2011
Diagnóstico de época
Começou com aquele tipo de equívoco que até é de se esperar quando há uma mistura de juventude, entusiasmo, teorias políticas, indignações mais ou menos legítimas. Em um surto, os alunos da USP fizeram o que fizeram e como uniu uma sequência de circunstâncias favoráveis para pintá-los na mais desfavorável das luzes (começou quando a polícia realizada uma abordagem legítima, tornou-se um furioso protesto com ares de violência e autoritarismo por algo que é longe de ser consenso na universidade, houve a invasão, algum abuso). A mídia aproveitou, inflamou os ânimos. A internet contribuiu. Eu contribui.
Acontece, entretanto, das coisas prosseguirem de tal modo que o que há por trás, o que há de inconsciente, o que é reprimido pelos motivos civilizatórios, começam a sentir seu próprio entusiasmo em sair. Na medida em que a mídia prepara os tambores de guerra, as pessoas se tornam um pouco receptivas demais a eles. Logo fica impossível de esconder que as indignações iniciais ("eles acham que estão acima da lei?" "como eles podem fazer isso com patrimônio público?" "Não se preocupam com a opinião dos outros sobre a segurança?") são só máscaras ou desculpas para um ressentimento.
E assim a pequeneza dos sentimentos e das piadinhas se tornam aquém do que quer que aconteça de fato na USP. Eu disse que os argumentos contra o reitor e contra o policiamento não importam, pois o protesto começou de maneira ilegítima, confusa e um tanto emocional demais; agora os argumentos em favor do policiamento também param de se importar, pois o ódio contra os "maconheiros" e os "vagabundos" começam a tornar ilegítimos também esses discursos.
Neste bate-boca de surdos, analisar argumentos e motivos torna-se vão; mero partidarismo, seja de algum partido específico ou de um inconsciente estilo de vida. Resta então uma análise da época.
Metafísica popular e niilismo popular
A cisão fundamental da modernidade ocidental - fé e razão - desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Por um lado a fé gira em falso, ora aquém da razão, ora em um sentimento que a ultrapassa, ora em um âmbito particular incomunicável, ora em um âmbito público indiscutível (passível apenas de um respeito politicamente correto). A razão, por outro lado, começa por um mecanicismo que torna-se um determinismo e converte-se em um positivismo que expulsa de si - e da possibilidade de ser racional - todo discurso fora do tecnicismo dos laboratórios e dos paradigmas apresentados nos livros didáticos.
Não se trata de uma questão de Deus e Materialismo, mas de toda uma gama de assuntos que são generalizados em um campo ou em outro. As chamadas "humanidades" no seu nome já incerto e vacilante de "ciências humanas" configuram-se quase como o embaraço dessa tensão. Entre o paradigma estabelecido e a crença aceita - o técnico e o espiritual - o estudo sistemático de temas que recusam-se a conformar-se à técnica e à espiritualidade aparecem quase como um confronto; quase como uma guerra entre céu e inferno que resolveria-se muito bem em um tipo de equilíbrio pré-estabelecido não fossem esses humanos ora divinos, ora diabólicos.
Que estejamos na universidade discutindo a morte; o sofrimento; a justiça; a virtude e a compaixão de pontos de vista francamente laicos é um ofensa por si só à uma noção de que se a religião não pode ter a razão, que ao menos não lhe tirem a ética.
Que estejamos na universidade fazendo ciência da morte; do sofrimento; da justiça; da virtude e da compaixão utilizando métodos hermenêuticos, analíticos ou construtivistas é uma ofensa por si só à uma noção de que o preço pela razão é o paradigma técnico.
O povo; violentamente arremessado nesse conflito, pois afinal, há de se lembrar, eles bem que fazem parte dessa tal "humanidade" que temos como objeto principal de estudo, ergue seus escudos. Acreditam possuir um tal senso comum ou uma tal sabedoria mundana cujo cinismo protege de todas as questões. Para os que se interessam pelo espírito, escolhem uma religião e prosseguem. Para os que não se interessam, resta apenas saber qual combinação de tempo trabalhando vs satisfação carnal fecha as contas no fim da vida. Se para Locke, qualquer um se ofenderia ao ser questionado o que entende-se por "vida"; para nós, há ofensa em dar valor para a questão (vida é a vida do médico, que me cura para eu poder voltar a rezar, trabalhar, beber); se para Pascal, era um tipo de frieza não lidar com a questão do espírito, hoje é uma frieza dedicar-se demais a ela (ou se abre a sensibilidade para a religião ou para a filantropia).
Para uns, estudar uma ciência humana é um sacrilégio. Retira-se da religião o seu direito sobre os assuntos que o positivismo autorizou a ela manter; trata-se de um desrespeito laico, uma brecha da própria liberdade de religião.
Para outros, estudar uma ciência humana é uma ociosidade. Desvia-se fundos da técnica séria para esses temas que no fundo são o que? Análise textual de ciências superadas? Cronologia de eventos passados? Jogos de palavras com termos abstratos?
E tantas outras críticas que os lados até compartilham, mas seja como for, a humanidades, sua mera existência é ilegítima. Depósito de jovens rebeldes que podem permitir-se a ociosidade às custas dos pais ou da sociedade em pesquisas que oscilam entre o desrespeito e o ilegítimo.
Aí a indignação se acumula: além de tudo querem quebrar a lei. Além de tudo arriscam a segurança dos outros. Além de tudo depredam o patrimônio público. Como podem fazer tudo isso, se sua própria existência já um favor que a sociedade concede; um que, a qualquer momento, poderia muito bem ser eliminado sem prejuízo?
As crises existenciais
Mas quais problemas estão resolvidos? Quais deles são discutidos?
Os cientistas e os religiões replicam um debate do século XVIII acerca da teologia natural que nem nos faz sentido, mas que faz parte de um teatro onde imagina-se discutir questões importantes que não resolvem nada. Os religiosos não dizem nada de relevante à ciência, querem apenas interferir; os ateus não dizem nada de relevante ao estilo de vida religioso, querem apenas interferir. O que esperar de niilistas diversos senão o ímpeto de expansão do vazio?
Todos os debates éticos caminham a relativismos irracionais. Não um relativismo consequente (relativo a X ou Y, dado que X e Y), mas o absoluto relativo da religião opcional (e nenhuma religião hoje pode-se dizer universal, o que faz dos seus absolutos absolutamente relativos) ou o absoluto relativismo do estilo de vida.
A questão da vida é uma matemática de quantos anos viver sabe-se lá por qual motivo além do básico imperativo biológico e animalesco: "deve-se viver".
A questão do sofrimento é um experimento social bizarro acerca de quantas combinações esquisitas de químicas no cérebro, de místicas importadas, de tradições e variações de cristianismo, prazeres sensuais diversos, vícios ou ausência de. Cada um virou uma bateria de testes onde todos julgam-se mutuamente no que parece ser um enorme campo de experimentações: "Eu vou tentar usar drogas na adolescência, aí ouvir Enia, então me converter ao cristianismo, no final ter uma crise de meia-idade e bola pra frente". Na medida em que avançamos (felizmente) ao tratamento de questões neuroquímicas específicas, há um completo descontrole no que diz respeito ao cotidiano. A bipolaridade e a esquizofrenia contam com seus remédios, enquanto isso, aumentam a lista de neuroses quimicamente tratáveis na esperança de um dia acharem o remédio para a pessoa normal. (e berram contra os "maconheiros")
Se o problema de épocas passadas eram insustentáveis disciplinas de vida que decaíam em hipocrisias diversas, o problema da nossa é esse insano cair de paraquedas na existência no meio de uma selva guiado apenas por um instinto de sobrevivência que diz que, afinal de contas, se eu andar sempre pra esquerda, uma hora eu saio desse lugar (e se me desviar pra direita, eu tenho que andar sempre pra direita; só não pode andar em círculos).
Além de questões realmente fisicamente existenciais.
E sobre a possibilidade do mundo literalmente acabar via questões ambientais? Isso também tornou-se um conflito partidário, vazio, absolutamente relativo ao estilo de vida.
E sobre a possibilidade de daqui há 10 ou 20 anos, o popularismo norte-americano, soviético ou de qualquer país possuidor de armas atômicas eleger um governante insano o bastante para ameaçar novamente o planeta? Idem.
Nós, como espécie, não temos ferramentas prontas para o tal "fim do mundo causado por nós mesmos", o que exige uma capacidade maior de reflexão e um debate mais sério e que, entretanto, é impossível de ser encontrado em um clima que as questões não podem ser postas sem o aval do cientista, do padre ou do modo como eu já vivo, cuja solução, portanto, tem que passar pela manutenção de um status quo individual.
O Ressentimento
Dados que os problemas estão aqui, seria de se esperar que o maior valor seria dado a quem dedica a vida a estudar esses problemas. O motivo que isso não acontece pode passar por alguma vias. Por um lado, nós da humanidades podemos também ser tão incompetentes quanto o resto em produzir respostas, mas esse é um motivo que, mesmo que seja verdade, não é o ponto em questão, pois as teses não recebem valor em primeiro lugar.
Não são teses descartadas após consideração, são teses descartadas por provirem das pessoas "que-estudam-isso-a-vida-inteira".
Irracionalidade? Mas é irracional dar-nos atenção, pois não somos a técnica do laboratório.
Frieza? Mas é frio dar-nos atenção, pois não somos os sensibilizados pela espiritualidade popular.
O que me parece acontecer é o abandono de um tipo de responsabilidade humana básica para com as questões importantes. A existência do estudante de humanas personifica essa responsabilidade abandonada por quem "já faz sua parte" repetindo os argumentos do padre ou do cientista ou do político ou do colunista de jornal ou etc.
A faculdade de filosofia não liberta ninguém das amarras da alienação (não gosto dessa impressão pela implicação que a acompanha de que eu posso diagnosticar que você está fora da realidade, pois eu sei como ela é. Isso é um caminho para um tipo de fanatismo filosófico; uma espécie de absolutismo esclarecido), o que ela oferece é familiarização com o debate humano por excelência e indissociável da civilização, em outras palavras, a faculdade de filosofia nos familiariza com o com a própria civilização por meio de suas ideias, do modo que a história o faz por meio do tempo, que a geografia o faz por meio do espaço, que a sociologia o faz por meio da intersubjetividade, que as letras o fazem por meio da uso estético e técnico da linguagem, etc.
Nós, das humanidades, não estamos mais dentro da realidade ou com consciência maior da realidade, estamos sim mais contextualizados conosco. E assim enfrentamos os problemas e as crises e dedicamos nossa vida a questões tão sérias cujas respostas fazem tantas faltas, ou seja, saciamos uma necessidade tão urgente que é como se fizéssemos nada além de ter o prazer que é a saciação da necessidade. Buscar respostas é sim um prazer, pois é sim a saciação de uma necessidade gravíssima; mas ela não precisa ser particular, não precisa ser um clube nosso, assim não precisa gerar essa inveja, esse ressentimento.
Sujeito corre pelas selvas olhando para o chão e para as árvores. Quer ter certeza de que não se desviou. Vê alguém caminhando e olhando para cima. Enfurece-se com a ociosidade de ter a cabeça nas nuvens, mas não se trata da obscuridade das nuvens; pare e veja o que estamos fazendo. Buscamos nos guiar pelas estrelas, é realmente um ato de localização, de familiarização.
Olhamos para cima, mas estudamos este mundo.
Acontece, entretanto, das coisas prosseguirem de tal modo que o que há por trás, o que há de inconsciente, o que é reprimido pelos motivos civilizatórios, começam a sentir seu próprio entusiasmo em sair. Na medida em que a mídia prepara os tambores de guerra, as pessoas se tornam um pouco receptivas demais a eles. Logo fica impossível de esconder que as indignações iniciais ("eles acham que estão acima da lei?" "como eles podem fazer isso com patrimônio público?" "Não se preocupam com a opinião dos outros sobre a segurança?") são só máscaras ou desculpas para um ressentimento.
E assim a pequeneza dos sentimentos e das piadinhas se tornam aquém do que quer que aconteça de fato na USP. Eu disse que os argumentos contra o reitor e contra o policiamento não importam, pois o protesto começou de maneira ilegítima, confusa e um tanto emocional demais; agora os argumentos em favor do policiamento também param de se importar, pois o ódio contra os "maconheiros" e os "vagabundos" começam a tornar ilegítimos também esses discursos.
Neste bate-boca de surdos, analisar argumentos e motivos torna-se vão; mero partidarismo, seja de algum partido específico ou de um inconsciente estilo de vida. Resta então uma análise da época.
Metafísica popular e niilismo popular
A cisão fundamental da modernidade ocidental - fé e razão - desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Por um lado a fé gira em falso, ora aquém da razão, ora em um sentimento que a ultrapassa, ora em um âmbito particular incomunicável, ora em um âmbito público indiscutível (passível apenas de um respeito politicamente correto). A razão, por outro lado, começa por um mecanicismo que torna-se um determinismo e converte-se em um positivismo que expulsa de si - e da possibilidade de ser racional - todo discurso fora do tecnicismo dos laboratórios e dos paradigmas apresentados nos livros didáticos.
Não se trata de uma questão de Deus e Materialismo, mas de toda uma gama de assuntos que são generalizados em um campo ou em outro. As chamadas "humanidades" no seu nome já incerto e vacilante de "ciências humanas" configuram-se quase como o embaraço dessa tensão. Entre o paradigma estabelecido e a crença aceita - o técnico e o espiritual - o estudo sistemático de temas que recusam-se a conformar-se à técnica e à espiritualidade aparecem quase como um confronto; quase como uma guerra entre céu e inferno que resolveria-se muito bem em um tipo de equilíbrio pré-estabelecido não fossem esses humanos ora divinos, ora diabólicos.
Que estejamos na universidade discutindo a morte; o sofrimento; a justiça; a virtude e a compaixão de pontos de vista francamente laicos é um ofensa por si só à uma noção de que se a religião não pode ter a razão, que ao menos não lhe tirem a ética.
Que estejamos na universidade fazendo ciência da morte; do sofrimento; da justiça; da virtude e da compaixão utilizando métodos hermenêuticos, analíticos ou construtivistas é uma ofensa por si só à uma noção de que o preço pela razão é o paradigma técnico.
O povo; violentamente arremessado nesse conflito, pois afinal, há de se lembrar, eles bem que fazem parte dessa tal "humanidade" que temos como objeto principal de estudo, ergue seus escudos. Acreditam possuir um tal senso comum ou uma tal sabedoria mundana cujo cinismo protege de todas as questões. Para os que se interessam pelo espírito, escolhem uma religião e prosseguem. Para os que não se interessam, resta apenas saber qual combinação de tempo trabalhando vs satisfação carnal fecha as contas no fim da vida. Se para Locke, qualquer um se ofenderia ao ser questionado o que entende-se por "vida"; para nós, há ofensa em dar valor para a questão (vida é a vida do médico, que me cura para eu poder voltar a rezar, trabalhar, beber); se para Pascal, era um tipo de frieza não lidar com a questão do espírito, hoje é uma frieza dedicar-se demais a ela (ou se abre a sensibilidade para a religião ou para a filantropia).
Para uns, estudar uma ciência humana é um sacrilégio. Retira-se da religião o seu direito sobre os assuntos que o positivismo autorizou a ela manter; trata-se de um desrespeito laico, uma brecha da própria liberdade de religião.
Para outros, estudar uma ciência humana é uma ociosidade. Desvia-se fundos da técnica séria para esses temas que no fundo são o que? Análise textual de ciências superadas? Cronologia de eventos passados? Jogos de palavras com termos abstratos?
E tantas outras críticas que os lados até compartilham, mas seja como for, a humanidades, sua mera existência é ilegítima. Depósito de jovens rebeldes que podem permitir-se a ociosidade às custas dos pais ou da sociedade em pesquisas que oscilam entre o desrespeito e o ilegítimo.
Aí a indignação se acumula: além de tudo querem quebrar a lei. Além de tudo arriscam a segurança dos outros. Além de tudo depredam o patrimônio público. Como podem fazer tudo isso, se sua própria existência já um favor que a sociedade concede; um que, a qualquer momento, poderia muito bem ser eliminado sem prejuízo?
As crises existenciais
Mas quais problemas estão resolvidos? Quais deles são discutidos?
Os cientistas e os religiões replicam um debate do século XVIII acerca da teologia natural que nem nos faz sentido, mas que faz parte de um teatro onde imagina-se discutir questões importantes que não resolvem nada. Os religiosos não dizem nada de relevante à ciência, querem apenas interferir; os ateus não dizem nada de relevante ao estilo de vida religioso, querem apenas interferir. O que esperar de niilistas diversos senão o ímpeto de expansão do vazio?
Todos os debates éticos caminham a relativismos irracionais. Não um relativismo consequente (relativo a X ou Y, dado que X e Y), mas o absoluto relativo da religião opcional (e nenhuma religião hoje pode-se dizer universal, o que faz dos seus absolutos absolutamente relativos) ou o absoluto relativismo do estilo de vida.
A questão da vida é uma matemática de quantos anos viver sabe-se lá por qual motivo além do básico imperativo biológico e animalesco: "deve-se viver".
A questão do sofrimento é um experimento social bizarro acerca de quantas combinações esquisitas de químicas no cérebro, de místicas importadas, de tradições e variações de cristianismo, prazeres sensuais diversos, vícios ou ausência de. Cada um virou uma bateria de testes onde todos julgam-se mutuamente no que parece ser um enorme campo de experimentações: "Eu vou tentar usar drogas na adolescência, aí ouvir Enia, então me converter ao cristianismo, no final ter uma crise de meia-idade e bola pra frente". Na medida em que avançamos (felizmente) ao tratamento de questões neuroquímicas específicas, há um completo descontrole no que diz respeito ao cotidiano. A bipolaridade e a esquizofrenia contam com seus remédios, enquanto isso, aumentam a lista de neuroses quimicamente tratáveis na esperança de um dia acharem o remédio para a pessoa normal. (e berram contra os "maconheiros")
Se o problema de épocas passadas eram insustentáveis disciplinas de vida que decaíam em hipocrisias diversas, o problema da nossa é esse insano cair de paraquedas na existência no meio de uma selva guiado apenas por um instinto de sobrevivência que diz que, afinal de contas, se eu andar sempre pra esquerda, uma hora eu saio desse lugar (e se me desviar pra direita, eu tenho que andar sempre pra direita; só não pode andar em círculos).
Além de questões realmente fisicamente existenciais.
E sobre a possibilidade do mundo literalmente acabar via questões ambientais? Isso também tornou-se um conflito partidário, vazio, absolutamente relativo ao estilo de vida.
E sobre a possibilidade de daqui há 10 ou 20 anos, o popularismo norte-americano, soviético ou de qualquer país possuidor de armas atômicas eleger um governante insano o bastante para ameaçar novamente o planeta? Idem.
Nós, como espécie, não temos ferramentas prontas para o tal "fim do mundo causado por nós mesmos", o que exige uma capacidade maior de reflexão e um debate mais sério e que, entretanto, é impossível de ser encontrado em um clima que as questões não podem ser postas sem o aval do cientista, do padre ou do modo como eu já vivo, cuja solução, portanto, tem que passar pela manutenção de um status quo individual.
O Ressentimento
Dados que os problemas estão aqui, seria de se esperar que o maior valor seria dado a quem dedica a vida a estudar esses problemas. O motivo que isso não acontece pode passar por alguma vias. Por um lado, nós da humanidades podemos também ser tão incompetentes quanto o resto em produzir respostas, mas esse é um motivo que, mesmo que seja verdade, não é o ponto em questão, pois as teses não recebem valor em primeiro lugar.
Não são teses descartadas após consideração, são teses descartadas por provirem das pessoas "que-estudam-isso-a-vida-inteira".
Irracionalidade? Mas é irracional dar-nos atenção, pois não somos a técnica do laboratório.
Frieza? Mas é frio dar-nos atenção, pois não somos os sensibilizados pela espiritualidade popular.
O que me parece acontecer é o abandono de um tipo de responsabilidade humana básica para com as questões importantes. A existência do estudante de humanas personifica essa responsabilidade abandonada por quem "já faz sua parte" repetindo os argumentos do padre ou do cientista ou do político ou do colunista de jornal ou etc.
A faculdade de filosofia não liberta ninguém das amarras da alienação (não gosto dessa impressão pela implicação que a acompanha de que eu posso diagnosticar que você está fora da realidade, pois eu sei como ela é. Isso é um caminho para um tipo de fanatismo filosófico; uma espécie de absolutismo esclarecido), o que ela oferece é familiarização com o debate humano por excelência e indissociável da civilização, em outras palavras, a faculdade de filosofia nos familiariza com o com a própria civilização por meio de suas ideias, do modo que a história o faz por meio do tempo, que a geografia o faz por meio do espaço, que a sociologia o faz por meio da intersubjetividade, que as letras o fazem por meio da uso estético e técnico da linguagem, etc.
Nós, das humanidades, não estamos mais dentro da realidade ou com consciência maior da realidade, estamos sim mais contextualizados conosco. E assim enfrentamos os problemas e as crises e dedicamos nossa vida a questões tão sérias cujas respostas fazem tantas faltas, ou seja, saciamos uma necessidade tão urgente que é como se fizéssemos nada além de ter o prazer que é a saciação da necessidade. Buscar respostas é sim um prazer, pois é sim a saciação de uma necessidade gravíssima; mas ela não precisa ser particular, não precisa ser um clube nosso, assim não precisa gerar essa inveja, esse ressentimento.
Sujeito corre pelas selvas olhando para o chão e para as árvores. Quer ter certeza de que não se desviou. Vê alguém caminhando e olhando para cima. Enfurece-se com a ociosidade de ter a cabeça nas nuvens, mas não se trata da obscuridade das nuvens; pare e veja o que estamos fazendo. Buscamos nos guiar pelas estrelas, é realmente um ato de localização, de familiarização.
Olhamos para cima, mas estudamos este mundo.
sábado, setembro 10, 2011
Alho
O relato a seguir trata-se daquilo que, em épocas passadas, consideraria-se um dos mais importantes e vitais, mas que aos olhos de hoje será seguramente tratado como uma curiosa anedota de um tempo mais inconsequente.
Como se sabe, o atual estado de imortalidade se dá pela alho. De todos os alimentos, o alho é o único que reage ao complexo químico que impede a divisão celular; este é, obviamente, o motivo pelo qual existe a Lei De Absoluta Defesa à Vida demandando que todos os alimentos ingeridos após os 30 anos contenha alguma quantia de alho, o que é irrelevante para todos os habitantes senão pelo inconveniente menor de comprar produtos diferentes no mercado, um pequeno preço pela imortalidade. Sabe-se também que esta mesma lei inclui a pena de morte à qualquer assassinato. Tal medida anteriormente não surtiria efeito, mas após o advento da imortalidade, a vida se tornou extremamente preciosa de modo que nenhum problema é grande demais que não pode ser resolvido com o tempo.
Não há amor ou rancor grande demais que não possa ser esquecido em 500 anos, o que levou ao fim dos crimes passionais, assim como os suicídios por esse mesmo motivo; não há pressa em conseguir dinheiro, portanto, não há porque cometer crimes em geral. A paciência se tornou a virtude última; o tempo, em sua infinitude, resolve todos os problemas e se a vida tornar-se insuportável há inúmeras maneiras de ir para outro planeta, comprar uma nova identidade e em cerca de 1000 anos sequer restará a lembrança da miséria anteriormente vivida.
O espaço tornado infinito pela viagem espacial e o tempo tornado infinito pela imortalidade. Esta é a história daquela que abdicou a utopia pelo paladar.
Os jornais da época deram ampla atenção ao caso, em via de regra com escárnio: Uma jovem brasileira de 18 anos tinha absoluta repulsa do alho. Não só não podia sentir seu gosto, como não poderia saber que ele estava na comida e, uma vez que a lei foi passada, tornou-se impossível não saber que em todos os alimentos o alho estaria presente, mesmo que o gosto fosse indetectável.
O primeiro passo da jovem foi buscar a justiça. Certamente poderiam abrir uma exceção à ela; entretanto, não poderiam por um motivo de antecedência: se uma exceção fosse aberta para ela, por mais grave que fosse seu estado psicológico, então outras exceções seriam abertas para outros e logo a solução perfeita de alimentar a todos com a química da imortalidade seria perdida, tornando uma questão de tratamento contínuo para uns poucos, criando uma desigualdade inaceitável logo nos primeiros dias da nova ordem.
Assim foi decretado que a jovem deveria superar seu problema alimentício ou envelhecer. No momento da decisão um certo debate surgiu em alguns círculos acadêmicos: teria esta sido a primeira pena de morte pós-imortalidade? Hoje podemos perguntar se teria sido a única.
Quando seu aniversário de 30 anos chegou, ela já era notícia antiga. Ninguém prestou atenção senão os oficiais presentes. Ela se recusou o alimento, nesse meio tempo havia na fazenda de seu avô uma plantação que a permitiria viver sem os produtos comerciais. Seu namorado, anteriormente 7 anos mais velho, agora era de sua idade, no dia posterior, ela era um dia mais velha. De todos os seus amigos do colégio, seus conhecidos nas baladas, seus amantes e colegas, ela era a única a possuir 30 anos e um dia de idade. Em breve seria mais velha que seus pais. Então mais velha que seus avós.
Esta é a história da última entre nós que morreu. As lágrimas daqueles que a amaram foram as últimas a cair pelo que antes entendeu-se como a única inevitabilidade. De certa maneira, a única entre nós a quem se perguntou o valor da vida e aprendamos algo quando descobrirmos o motivo pela resposta negativa.
sexta-feira, setembro 02, 2011
Romantismo
Romantismo é um estado de época que exige um certo conjunto de forças em que a vida é avaliada de acordo com a sua própria condição de vida.
À primeira vista, isso pode soar como aqueles argumentos acerca da ociosidade onde se fala sobre o passo além da necessidade de sobrevivência, mas o amor jamais pode estar no estado de coisas dissociadas de uma necessidade de sobrevivência; ele vem, afinal, com toda a bagagem da reprodução da espécie e por aí que entendemos o seu valor como "vida".
O romantismo é um estado de época em que a vida é apreciada na sua condição de miséria, luta e ímpeto ao contrário de uma época tão desesperadamente afogada em miséria, luta e ímpeto que necessita sonhar com prosperidade, paz e autonomia.
O sentimento romântico, ultra-sensual, profundamente ligado ao corpo e à natureza, é acompanhado de um sentimento pagão incapaz de compactuar com a racionalidade pagã. O romântico não busca, como o epicurista, o prazer como via para a tranquilidade e definitivamente não busca, como o estóico, inserir-se na ordem do cosmo; o romântico, de certa forma, não busca nada, ele está, afinal, alheio ao conceito de autonomia. O romântico não é dono de si próprio e vê como pobreza de espírito ser dono de si próprio, não se trata de uma rendição ao desejo, mas do reconhecimento da condição de ser que deseja. Trata-se de não se enganar, mas, ao mesmo tempo, é uma sabedoria sem virtude.
O romântico, que reflita uma verdade, não tem na verdade uma virtude, pois a verdade não é buscada, ela, bem literalmente, encarna-se no romântico. A verdade também não leva à felicidade ou à lugar algum na verdade. É uma verdade destituída de noções de progresso ou retrocesso; como verdade encarnada, ela simplesmente é, ela simplesmente um caminhar no ciclo cego do desejo e da beleza
É como se a luz do sol não apenas cegasse, mas também queimasse a pele. O romântico, em sua união entre corpo, natureza e consciência, não tem escolha senão seguir os comandos no corpo na medida em que este segue os comandos da natureza ao passo em que são apenas presenciados pela consciência.
Sim, o sujeito transcendental põe o mundo, mas ele põe um mundo apesar de si. Como a monarquia contemporânea, ele senta em um trono meramente simbólico. O sujeito é a fundação e centro de uma nação que não comanda. É um mundo bem estruturado que é posto pelo sujeito: ele no mínimo é lógico, pois essa é a condição inicial desse ato de criar mundos com a mente e ele é ao menos passível de sobrevivência, pois essa é a condição inicial de se ter um corpo, então a vida não é de modo algum aleatória e intransitável, mas a consciência é ainda mais um peão ao invés de um rei ou mesmo de quem observa a partida, sim, a vida é um jogo de xadrez onde todas as peças são o peão (e ninguém, os coitados só ficam andando pra lá e pra cá esperando uma chance de ir pra diagonal).
O romântico não é um animal mais escravo do que o resto, mas ele é genuinamente o animal com uma alma. Uma alma que não se confunde com a razão, que é incapaz de abdicar da razão, que não se destaca da vida e que, em sua plena força de vida é, ao mesmo tempo, plena força de espírito.
O romântico não é um animal mais escravo do que o resto, mas ele é genuinamente o animal com uma alma. Uma alma que não se confunde com a razão, que é incapaz de abdicar da razão, que não se destaca da vida e que, em sua plena força de vida é, ao mesmo tempo, plena força de espírito.
sábado, agosto 13, 2011
A falta
O que a nossa geração ou nosso país tem a oferecer? Ou ainda, o que já oferece, o que já faz? Em algum momento crítica virou só falar mal: olha essa gente profunda e sábia dizendo que essa molecada não presta, olha esses críticos sociais guardiões da realidade de verdade dizendo que o país não presta.
Se existe um argumento pró-pessimismo é o quanto o equivalem à verdade.
Tenho pensado muito no Brasil, nas coisas que temos de bom, em como eu não tenho mais vontade de sair daqui. E eu gosto da minha geração, eu costumo é ter uma raivinha de algo irracional com as gerações passadas, acho que comparado ao quanto todo mundo errou até aqui, nós estamos segurando as pontas até que bem, fazendo nossa parte, tentando fazer o mundo mais habitável com pequenos atos aqui e lá enquanto os conservadores, esses eternos velhos, nos odeiam porque agora aparentemente é algo cristão odiar quem é bom ou sei lá. Acho que pra uma época que troca promessas de revolução sangrenta por promessas de reciclar todo o plástico, os conservadores deveriam beijar nossos pés pela nossa imensa sabedoria.
Mas os ingratos fazem parte do mundo, fazer o que?
Eu já falei disso algumas vezes no blog, mas é que com todo esse meu lance de pessimismo cosmológico (o mundo existe de tal modo que tende ao sofrimento), esse pessimismo meramente cínico é só rabugentice e eu manjo de rabugentice, pode perguntar o quanto eu fico grunf grunf por aí.
Por um lado é meio que falta de um inimigo de verdade, da mesma forma que a esquerda pamonha sente falta de lutar contra a ditadura, a direita pamonha sente falta de lutar contra o comunismo. É um mundo chato, deal with it.
Por enquanto, críticas interessantes deixam de ser feitas por todos os lados e coisas como o que aconteceu em Londres pega de surpresa os nossos gloriosos pensadores. Você dedica sua vida a falar mal de uma juventude tentando substituir Deus por shenanigans e enquanto está puto da vida com essa gente que gosta de reciclar e evitar piadas racistas, perde o ponto mais óbvio diante dos seus olhos: a massa de jovens que são efetivamente niilistas adquirindo cada vez mais poder. Sim, perde de vista o seu sobrinho ou seu filho e ao invés disso se concentra na classe média-alta paulistana.
Existe algo que falta no mundo, é verdade; Deus é, pra não perder o hábito, a resposta mais preguiçosa (algum tipo de marxismo mal formulado é a segunda mais preguiçosa, geralmente vem logo atrás, toda feliz), mas existe uma falta de normatividade, pro bem ou pro mal (pro bem: menos pessoas honestas e "de bem" são vistas como anormais; pro mal: qualquer pirralho burro de 12 anos acha que consegue desenvolver a própria moral e ainda pode ter o azar de ele conseguir algum poder sobre outras pessoas), essa não é nenhuma crítica nova, a sociedade entrou em um tipo de piloto automático em que as instituições funcionam à parte delas. É irônico porque é um projeto bem sucedido da democracia: instituições mais fortes do que a mesquinharia de um indivíduo de tal modo que a humanidade deu um jeito de produzir mesquinharia tão sistematicamente que sequer precisa do rei mais.
Perdemos a translação porque o sol não é mais o centro, mas a rotação existe firme e forte porque onde quer que você vá, seu umbigo está sempre no meio. Se fanatismos e extremismos são sinais de niilismo, pois no vazio, coisinhas tornam-se imensamente importantes, então estabilidade é também, pois uma época niilista funciona sem problema desde que os mecanismos estejam postos. E os nossos estão bem fixadinhos no chão.
Ao mesmo tempo, é esse ambiente mole e morno que permite que coisas boas aconteçam aos poucos, sem afobação e derramamento de sangue. É uma época boa pra filosofia, sim, a filosofia se dá bem na conformidade. Muita crise e logo os filósofos são convocados para auxiliar o poder, aí danou-se. Pouca crise e podemos estudar o mundo desse modo que as pessoas gostam de dizer que é inútil (quando você precisa que os filósofos sejam úteis é porque todo o resto falhou).
E os jovens niilistas e a revolta em Londres e os terroristas religiosos e a crise econômica? Pois é, com tudo isso e ninguém sente seu estilo de vida seriamente ameaçado, um mundo estável, eu diria.
Dá até pra fazer metafísica.
Adendo já que eu estou revisando esse post, pois minha namorada se re-cu-sa a colocar um texto cheio de erro de concordância no facebook sagrado dela:
A questão de uma juventude com poder é interessante. Durante sei lá qual momento ganhou força a noção de ter jovens "no poder".
Em primeiro lugar, nós nem sabemos o que é um jovem: alguém com 15 anos? Com 20? Com 25? Com 35? Quando alguém deixa de ser jovem e vira um conservador ranzinza? É daquelas bobices em que "jovem" é ainda mais uma palavra para "pessoas com nosso direcionamento político". Não, ninguém quer um jovem no poder. Se você é de esquerda, quer o poder na esquerda; se é de direita, quer o poder na direita; jovem, velho, burguês, proletário, analfabeto, acadêmico, humilde, arrogante, violento, pacifista, etc e etc só são qualidades na medida em que respeita a primeira condição da concordância com suas opiniões em assuntos de legislação. O que importa é como a máquina do Estado é comandada, o resto é a sempre bem sucedida retórica vazia.
Jovens no poder pra mim é simplesmente isso: gente sem informação o suficiente inventando a própria moral em uma cultura de arrogância sem motivo, i.e., seu papai ou seu professor disse que você é todo especial e pode fazer o que quiser, então você se junta com seus amiguinhos e começa a queimar uns carros ou você aprende a mexer em um computador e começa a com hacker-bullying, seja em empresas que você considera malvadas, seja em meninas que você acha que realmente deveria se mostrar na webcam sem roupa pra você ou você faz coisas mais inofensivas e com menor relevância como se juntar a um partido político que vai te ignorar ou montar uma banda pra passar uma mensagem que tudo bem que será ignorada pelos adolescentes que só estão atrás de romancezinho na balada, pois a mensagem é inócua e boboca pra começo de conversa.
A questão é que vivemos em uma época em que os jovens não estão entrando "no poder", mas eles estão adquirindo poder, seja por falta de medo de coerção paterna ou por estarem entediados em grande número ou pelo anonimato da internet, mas juventude com poder é o que há de maior selvageria e irracionalidade fora de uma guerra de verdade. E não é muito poder, não é nada que abale "o sistema", só é o suficiente pra destruir umas vidas aqui e ali. Não é o poder de mudar nada, mas é o poder de ser escroto impunemente; o que casa direitinho, pois essa tal da juventude, num geral, não deseja muito mais além de ser escrota.
quinta-feira, julho 21, 2011
Infantilização
Nos círculos conservadores, vez ou outra surge o tema da "feminilização" da sociedade, o que nunca ficou claro pra mim exatamente o que é, só dá a impressão que o objetivo do autor é transformar a sociedade em um viril ambiente de narcotráfico onde tudo se resume em acumular dinheiro e mulher por meio de um exército armado, violento, amoral e fora da lei. Sim, tenho certeza que é isso que os conservadores querem.
Mas se existe uma consequência de certas práticas que os conservadores não gostam - a escamoteação da cultura de responsabilidade individual por exemplo - não é bem uma feminilização, mas uma infantilização. Acho que os conservadores tem um certo ponto de que a sociedade está perdendo sua virilidade, mas, senso conservadores, o objetivo principal de qualquer verdade que por acidente caia em seus colos é o de ataque à alguma minoria e o da preservação de um tipo de status quo bizarro que existe tão somente na cabeça deles, então vão atrás das feministas e dos gays, enquanto eu acredito que o problema é exatamente este: a falta de responsabilidade individual é igual à falta de responsabilidade individual. Eu sei, insano!
Muitas das coisas vistas como causas dessa falta de responsabilidade individual - excesso de discurso politicamente correto, redes de segurança social - são, na verdade, sintomas. Por faltar a maturidade de não fazer piadas com pessoas que já sofrem demais que o legislativo entra em cena, por faltar a maturidade (e profissionalismo) de tratar as pessoas com dignidade no ambiente de trabalho que leis trabalhistas são criadas; na falta de profissionalismo da policia que os direitos humanos ganham força, etc.
Um estado paternalista não é causa de uma sociedade que precisa de uma figura paterna, mas antes, um sintoma disso e se é possível, a partir disso, inferir uma feminilização, é porque de fato falta na sociedade uma força viril, mas essa força viril não é do homem que se torna mulher, mas das crianças que jamais se tornam homens. Se há quem olha pros nerds e seus jogos de videogame (pff, esses nerds) ou pros moderninhos e sua vida cínica e diz "ah, olha esses homens que nunca crescem", eu diria que esses são simplesmente pessoas honestas e vivendo o seu tempo: os engravatados são como meninos vestindo sapatos grandes demais.
Acho que em certo sentido - pois eu tenho mesmo uma visão de certa forma uniforme da humanidade - nunca houve essa tal de "maturidade". Que infantil, por exemplo, essa brincadeira de padres, reis, rainhas, ditadores, etc que causaram tantas guerras no curso da humanidade. Essa guerra tão associada à virilidade é uma mera brincadeira de menininhos, maturidade envolve paciência, racionalidade, diplomacia, etc. As crianças irritam os adultos, podem lhes tomar toda a atenção, podem lhes distrair dos assuntos sérios: assim é quando as boas e saudáveis mentes de um tempo são forçadas a dedicar sua atenção à pequenezas políticas da época. As crianças recusam-se a brincar juntas; o adulto deve intervir. As crianças não decidem-se quem é o dono do carrinho; o adulto deve intervir. As crianças são malvadas pelo prazer da maldade; o adulto deve intervir. A diferença do cenário social pro cenário doméstico é que no cenário doméstico, em última instância, o adulto tem a força - claro, a criança não tem uma capacidade plena de raciocinar, às vezes deve-se descer ao nível dela - em termos de sociedade, são as crianças as possuidoras das armas e do dinheiro: segue-se o triste caminho de tentar dialogar com quem não sabe falar, pois sabe apertar um gatilho ou realizar um trabalho bem-pagante qualquer.
Assim que desenvolvemos toda uma cultura de falar com adultos em linguagem de bebês: livros de auto-ajuda dizendo que tudo vai ficar bem, pode parar de chorar. Livros dos mais diversos assuntos dizendo que você é o fofuchinho mais bonito de todos os tempos e que os outros meninos são maus, grr, muito maus e feios também. Muito dos livros "técnicos" de uma livraria não passam de "alugue-um-argumento" para fazer bonito quando você entrar na internet.
Lendo os aforismos sobre a sabedoria de vida de Schopenhauer e tantos outros livros sobre sabedoria de vida que são lançados por aí percebemos claramente a diferença entre maturidade e infantilização: no primeiro recomenda-se autocontrole, conformidade com o sofrimento inevitável, que se dê valor à saúde e ao temperamento, que não se valorize tanto honrarias e posses; os outros são guias práticos de como adquirir aquilo que você nem sabe se quer, regras para ser feliz a todo custo, que se valorize qualquer coisa que sua vontade aleatoriamente deseje. É a diferença entre um adulto caminhando no mundo e uma criança chorona que acha que o próprio umbigo é o centro do mundo.
É bom que filósofos não tenham armas - isso aparentemente só acontece quando a humanidade deseja novas formas de genocídio - assim como é desejável que jamais se aplique violência contra as crianças (e quando o faça, que seja com bom senso - é pela falta de bom senso e maturidade na aplicação de força contra as crianças que o estado acaba por legislar o assunto) e na medida que a humanidade não se extinga, o que é uma preocupação real dado que as crianças detém as bombas atômicas, serão poucos os adultos e frequentemente serão ridicularizados por não estarem usando calças longas (das estupidezas de épocas que não a nossa: definir maturidade pela calça).
Há quem ache que um mundo infantil seria colorido e cheio de algodão doce, mas não, um mundo infantil é esse mesmo, onde tudo o que é pequeno impera. Que as crianças brinquem e se matem então, o que eu posso fazer? Só gostaria que saíssem do meu gramado.
segunda-feira, julho 04, 2011
Sobre buscar a felicidade aos pouquinhos
Às vezes eu me preocupo que esses pequeno posts falando mal de auto-estima soem do tipo que eu quero fazer polêmica a toa, enquanto as pessoas bem sabem que, ao menos na internet, eu busco evitar conflitos (às vezes eu falho, às vezes meu alvo é a Deborah Secco lol), mas aí eu lembro que ninguém lê esse blog e upa! Vamos adiante!
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Vendo a história do ponto de vista da busca da felicidade - terrena ou transcendente - a época atual parece ter mudado de estratégia, em vez de busca da felicidade, de um constante convencer-se que já é feliz e nas vezes que falha constatar que há algo de errado e que algo precisa de concerto e se for possível uma expliaçãozinha rápida e maneira com uma cura, de todo o melhor.
Por um lado, transformou-se a auto-estima - o que eu considero um auto-engano na grande maioria das vezes - em valor.
Auto-estima é auto-arrogância, na verdade, dado que ela tem que ser algo que você *precisa* ter de antemão no bolso para ser alguém feliz-saudável-bem-sucedido, então ela acaba se tornando, quase que por definição, uma auto-arrogância não-merecida e, na medida em que tanta gente precisa do aval dos outros para sua auto-estima, ela perde sua autonomia e vira apenas arrogância não-merecida.
Substitui-se uma sincera busca de admiração por meio de bons atos por um automático "seja bom comigo" e os amigos, então, invertem-se junto, perdem a agradável função de viver em harmonia pra você para viverem como juízes da verdade. Pra que um verdadeiro amigo esforçaria-se em "levantar sua bola" se boa parte da massa anônima de instituições e forças sociais já existe com esse propósito?
A questão é que no que a sociedade democratiza-se - politica e economicamente - todo mundo passa a ser bajulado: você não tem culpa, a culpa é de quem você vota contra. Você não tem culpa, a culpa é do diabo, pague-me para se ver livre dele. E a questão nem se resume a culpa.
Eis um dado interessante, o quanto os professores de colégio são obcecados pela noção de poder espancar os seus alunos quando expulsá-los da escola é uma solução menos barbárica e mais democrática até (não quer estudar, não estuda). Mas não se pode expulsar um aluno da escola: o aluno que paga é um cliente e o cliente tem razão, o aluno que não paga é um cidadão e o cidadão tem direitos. Expulsar os alunos em massa de uma escola pública causaria grande transtorno social, toda essa molecada na rua causarão problemas.
A própria vida se contrapõe violentamente a esse impulso que temos: a felicidade ainda é difícil, ter essa tão almejada auto-estima ainda exige trabalho (e na medida em que nos enganamos ao acreditar que já a temos ou já deveríamos tê-la, as crises de auto-estima ainda ganha a vantagem do ataque surpresa), o transtorno social já está aí, a miséria ainda está aí. Tudo nessa sociedade que não seja construir calculadoras e gerar entretenimento falha. Calculadoras são úteis decerto, assim como entretenimento, mas essa valorização da técnica e da diversão vem quase como um prêmio de consolação: "é isso que nós temos". E faltando todas as outras partes, numerosas demais até pra eu catalogar rapidinho aqui, é só isso mesmo que nó temos.
Gostaria de ver essa civilização voltar a conciliar-se com o fato de que a vida é miserável, com a transitoriedade dos pequenos prazeres, não para errar de novo e mais uma vez buscar superar a vida e os seus pequenos prazeres, mas para dar às coisas o seu devido lugar.
Busco viver aos pouquinhos, conquistar as coisas aos pouquinhos, lidar com as necessidades; alguém tentará convencê-lo de que isso é mediocridade, mas, para mim, medíocre é deixar-se enganar.
sexta-feira, junho 03, 2011
Queimar as asas
Nunca houve bons motivos ou bons propósitos ou bons ideais, nem boas idéias em geral. Se a civilização é um movimento de elevação, é precisamente por ter sua matéria-prima naquilo que há de mais baixo, em dar alguma grandeza ao que não tem.
Medos em leis, ímpetos em deveres, toda uma relação confusa e desajeitada com fluídos e hormônios. Ainda não sabemos o que fazer com nossos corpos, entre castidade e hedonismo, a única característica marcante da humanidade é sua capacidade para o erro; pois apenas pelo juízo racional tipicamente humano que se dá o erro. Os sentidos, afinal, transmitem o que transmitem, é na interpretação dos dados e no desenvolvimento de teorias que está a capacidade de errar e é no desenvolvimento de éticas que está a capacidade para o mal. Não que teorias sempre levem ao erro ou éticas sempre causem mal; há a capacidade para o acerto e a capacidade para o bem, mas o cotidiano são as opiniões erradas e as justificativas.
As guerras e as tiranias, os fundamentos inseguros pelos quais se ergueram superstições com o nome de sabedoria. É o velho conflito: a verdade tende a ser duradoura, mas é apenas uma contra a multidão de erros que, mesmo se passageiros, ainda são uma legião.
E isso nem toca o problema, aquele dos motivos, das justificativas e racionalizações, daquele vibrar cego da natureza que torna-se uma teleologia; mas não é para baixo que as coisas são atraídas? Se há uma causa final, não é mais intuitivo pensá-la como um abismo? Se a humanidade é empurrada por uma causa primeira, não é de se imaginar um chicote que estala dando o passo da marcha? Se caminha por si só, não é de se imaginar uma turba descontrolada? Se tende a uma direção, não é para baixo? E se escreve para relatar sua escravidão, sua falta de sentido, sua queda, não busca fazê-lo com heroísmo, sabedoria e ascensão?
Mas será todo o heroísmo o relato de uma sobrevivência que não tem escolha senão sobreviver? Toda sabedoria uma ordenação artificial? Toda ascensão, um juízo errôneo acerca da querda?
E se o real heroísmo for uma luta contra as amarras da natureza, representado pelo suicídio? Se a sabedoria for a desistência da busca pela verdade e pela felicidade? Se transcender significar aprofundar-se nas entranhas, cada vez mais distante da luz?
Mas se for esse o caso, como julgá-lo? E se de todas as drogas desse mundo, existir ainda essa: que ele exige sobrevoar para observar melhor e, ao mesmo tempo, queimar as asas, por apenas assim ser possível movimentar-se?
O transcendente como mera provocação.
quarta-feira, maio 25, 2011
Humor negros e (em outro assunto) A Banda Mais Bonita da Cidade
Uma blogada de madrugada que não poderia estar acontecendo porque lol acordar em 5 horas. E eu não gosto demais de comentar os assuntos do momento, mas vá lá, faz tempo que eu não escrevo aqui.
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Humor Negro
É sobre o Lars Von Trier.
Primeiro: Humor tem que ser engraçado. Humor não serve pra provocar, abrir os olhos, desafiar; serve pra eu fazer "há há", senão de "humor" passa pra "rabugentice" e, no contexto atual, geralmente rabugentice de quem quer falar bobagem impunemente. A piada, então, vira um escudo pra gente covarde que quer ser polêmico sem ter que se explicar.
E o humor brasileiro passa por uma fase covarde, que parasita a covardia de seu público. Sujeito se sente pequeno em relação a celebridade, aí vai um humorista lá encurralar ela com câmera e microfone. Sujeito se sente pequeno em relação aos políticos, aí vai um humorista lá fazer "perguntas embaraçosas" (e, na maior parte das vezes, completamente fútil). Sujeito se sente "censurado" porque não poder ser racista ou sexista ou whatever e vai um humorista ser rabugento escondido atrás da piada.
Não que humor não tenha o seu lado de parasitar emoções baixas e infantis. Piada de pau e peido é toda sobre esse lado, mas uma piada de pau e peido brinca com coisas que a civilização toda tenta meio que deixar de lado ou esconder; o tal humor negro de hoje em dia é uma versão mais mesquinha disso, ele gira todo em cima de um revanchismo sem alvo definido, coisa de gente frustrada e ressentida e sequer com esclarecimento o suficiente pra direcionar essa frustração e ressentimento. É o sujeito que apanha da vida, mas nem sabe de que lado vem o soco. É o que há de mais baixo. Mais baixo que um peido.
Mas a função do humorista também não é direcionar ódio pro lugar certo, nem nada, de novo, o lance é ser engraçado; se o sujeito consegue pegar esse sentimento geral e fazer graça, está valendo, senão, de novo, gente mesquinha, frustrada, ressentida e burra sendo rabugenta. Eu não consigo pensar em algo mais oposto a humor do que isso.
Que o valha, fizeram pesquisas em algum país europeu, acho que Holanda, e contavam a mesma piada pra diferentes pessoas, mudando entre uma pessoa e outra os elementos pra ela ir de "zé qualquer é burro" pra "minoria estrangeira do país é burra" e quanto mais a piada era xenófoba, mais ela perdia a graça. Então pra quem vê o que eu digo uma defesa de uma piada racista, desde que engraçada, meu contra-argumento é que uma piada racista precisa de um contexto racista pra, em primeiro lugar, ser engraçada e se ela acha esse contexto, ela não o expõe, mas sim o valida.
Dar risada de piada racista é sim, sinal de racismo. E se você é negro/gordo/gay e ri com aqueles que estão rindo de você; não sentir em orgulho em levantar a bandeira da fala de respeito próprio.
(Há, claro, variações e graus e uma piada que é um tiquinho preconceituosa e muito engraçada, enfim, eu escrevo as coisas esperando de quem lê bom senso e não axiomas éticos que valem daqui para a eternidade)
A Banda Mais Bonita Da Cidade
Não falemos de açúcar. Eu ouço as coisas açucaradas, ok? As capas dos álbuns das minhas bandas tem gatinhos e corações. As coisas açucaradas são propriedade minha. É o meu lado hipster, as pessoas perguntam o que eu ouço e, mesmo os amigos mais antenados em cultura pop, eu evito responder porque vocês não conhecem! Mas elas são açucaradas. Olha só, uma muito parecida com a propósita da Banda Mais bla bla.
Então quando eu não gostei dessa banda, vocês dizem: "é porque eles ficaram famosos".
Haha
HAHA
HAJADHKSA
*risos nervosos*
Não não não.
Vamos contar as vezes em que, em toda minha vida, uma de minhas bandinhas veio pro Brasil.
Teve aquela, aí aquela outra, aí... hum.
UMA
UMA ÚNICA VEZ em TODA MINHA VIDA eu tive a chance de ver uma banda que gosto ao vivo (Camera Obscura) . E eu não pude, porque o ingresso se esgotou rapidíssimo, em parte porque os donos da casa de show que eles vieram reservaram parte dos ingressos pra amigos... ou assim dizem os boatos, eu sei lá.
Então eu *quero* que isso se torne famoso, sabe aquela experiência que você teve vendo um músico que você gosta? EU NÃO A TENHO. Não tenho. Quero ter. Quero que seja famoso, quero que venha pra cá. Desesperadamente até. É um buraco na minha alma que isso não ocorra.
Aí pensa que bom se eu gostasse dessa banda, já que ver show deles será muito fácil provavelmente. Mas não dá. O problema não é o açúcar. O problema não é o ambiente feliz e positivo e inocente. Isso é o que eles tem de bom.
O problema é uma música ruim. É um riminha panaca e com um sentimento nada genuíno. Esse é o problema mais importante, eu sou daquela crença que diz: falte tudo na música pop, mas não deixe faltar a honestidade. Eles não são honestos, eu vejo nos seus olhos. O sujeito hipster se esforçando pra ser um hipster poser no clima que eu postei é muito mais honesto do que o povo daquele clipe. Além de que, urgh, de novo, essas letras. Ser simples é diferente de ser simplesmente brega.
Mais fofice após o comercial. Mas esse clipe que eu postei, olha como esse pessoal tá feliz de verdade em cantar. É isso, cara. Não peço mais nada de uma música além de me colocar um sorrisinho assim.
Eu não sou muito de gostar de cover, mas...
lol, não sou muito de gostar de cover, mas...
Emma's House é um pouco do motivo pelo qual eu parei de ouvir música:
"Emma's house is empty
So why do I call it Emma's house?"
Essas estrofes alcançam um tipo de auge em todo o sentimento que a música pop é capaz. Parte de mim sentiu precisar de algo completamente outro, daí ando me dedicando mais a literatura. Gostaria de escrever um post todo só sobre essas duas estrofes, mas minha capacidade crítica e estética jamais estará a altura deles. Aliás, eu estou meio que escrevendo um romance. Ele não será tão bom quanto essas estrofes. Ela é mesmo um dos picos da civilização. Um perfeito encapsulamento de dores e alegrias.
Essa música tem um movimento que gosto muito.
"I want to build her up.
Up as tall as a church.
Just to watch her.
Just to watch her falling down"
Minha banda favorita - Heanvenly - tem músicas melhores, mas isso é o que o Youtube oferece de clipe. Seja como for, o mundo existe de tal modo que é impossível que o Heavenly tenha uma música ruim.
What the what?
Chorando agora!
Bom, pra finalizar. O hino, aí o clássico.
terça-feira, abril 12, 2011
Baco
Um dos meus gatos ficou doente.
Baco, gatinho preto e branco, sempre foi um tanto quietinho e talvez por isso (e pelo fato de termos outros dois gatos que são muito saudáveis) não percebemos que ele foi gradativamente parando de comer... até parar.
Ele foi internado duas vezes, mudou de veterinário 3; ninguém sabe o que há de errado nele, amanhã vamos numa veterinária de um hospital grande aqui que é especialista em felino, nossa última chance. Na falta de diagnóstico, o diagnóstico se torna uma doença chamada PIF, a versão neurológica, que vai desligar o cérebro dele aos pouquinhos. Um vírus cujo teste mais confiável ainda tem uns 20% de chance de dar falso positivo ou falso negativo e que não tem cura. É bem raro, nenhum dos veterinários que já passamos sequer viu um caso, quanto mais tratou.
Ele já anda mal, cambaleante, não sobe e nem desce sozinho dos lugares. Quem está acostumado com gato, sabe que ver um gato que depende de você para ir ao sofá que ele gosta e, mesmo assim, precisar ser vigiado para não cair no chão, é uma das coisas mais tristes do mundo. Ainda mais se tratando de um filhote.
Entre uma internação e outra, eu dava remédio pra ele 7 vezes ao dia, alimentando com seringa outras 3. Após a segunda internação, ele está voltando, aos pouquinhos, a se alimentar por conta própria, é o único pequeno raio de esperança que temos nesse mês que está sendo tão difícil. Uma veterinária disse que se for a PIF, ele não se recuperaria e ponto, então sinal de melhora é um ponto positivo também nesse sentido.
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Nesse meio tempo de tensão e desespero, de passar o dia todo cuidando dele achando em maior parte em vão, de ter as pequenas esperanças destruídas pouco após surgirem, você começa a fase da barganha, a jogar teorias pra lá e pra cá no seu cérebro, é aquele estranho instinto de racionalização a partir de um impulso irracional.
Você googla os sintomas porque vai que sua pesquisa de 10 minutos diagnostica algo que um profissional treinado não viu. Você questiona acerca de Deus, pensamento positivo, maldições e no auge do meu pessimismo eu não consigo conceber um mundo tão horrível quanto essas três opções:
- Um Deus onipotente e bondoso tortura meu gato para que de alguma forma eu passe a amá-lo.
- Eu vejo ele doente, eu concluo logicamente que talvez ele piore mais e isso se torna *causa* da piora, iniciando um ciclo onde eu estou assassinando meu gato via observação.
- Não basta existir um vírus, dificuldade de diagnóstico e tratamento, dificuldades financeiras nas pesquisas veterinárias e toda espécie de problemas materiais e terrenos. Não basta pessoas terem poder de matar seus animais via envenenamento, atropelamento ou todo tipo de maldade física, elas ainda são capazes de matar seus animais via rituais e espíritos. Nós precisamos *mesmo* postular espíritos ruins para fazer desse um mundo ruim? O que os vivos fazem não é o suficiente para você se convencer disso? O que forças da natureza prejudiciais incontroláveis pela ciência atual fazem não é o bastante?
Sem contar os erros que eu cometi e nem percebi, coisas do tipo: se eu tivesse percebido mais cedo que ele estava parando de comer, se eu tivesse dado mais valor ao fato de que ele é menor ao gato um mês mais jovem que ele, etc. Adicionar o sobrenatural na equação de coisas que podem causar uma doença é só elevar o caos do mundo a um nível um tanto exagerado.
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Mas ele melhorou um pouquinho e eu ando com vontade de rir alto em relação a coisas que não merecem de fato tal risada. Ele ainda está bem doente, mas às vezes temos que fingir que pequenas vitórias são grandes vitórias. A arte não é (nem de longe, eu diria) a única mentira que impede que o peso da realidade nos destrua.
Pensei em fazer uma tatuagem:
ou
Só os desenhos, não a capa toda. Primeiro eu pensei que a idéia de tatuar o gato fazia sentido por causa da situação, aí eu me interessei também pelo coração e tive que reavaliar meus motivos.
Primeiro eu pensei que era algo como um testamento, eu quero deixar assim bem claro que gosto de Beat Happening antes de morrer. Mas isso não faz sentido, uma tatuagem é algo que queima com seu corpo na morte, então eu acho que é pra eu não esquecer quem eu sou.
E o engraçado é que eu quase não ouço música, não busco uma banda nova faz meses, talvez por isso eu queira isso gravado na minha pele. Twee é um dos meus lados que eu mais gosto e é a primeira vítima de todas minhas crises.
Twee é sobre as coisas pequenas serem preciosas; é o oposto dos desejos de revolução, da grande capacidade técnica, da teatricalidade, de groupies, dinheiro, espadas e dragões, ultra-sentimentalismo, ou qualquer megalomania que esses genêros de música pop costumam se associar. É sobre as pequenas tristezas e pequenas felicidades; é um ritmo de vida que te leva a construir uma imagem de si próprio (e uma carreira, uma "filosofia de vida", um sentido geral para a existência) aos pouquinhos.
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Minha felicidade atual é ver Baco comendo aos pouquinhos, se recuperando aos pouquinhos. Espero que aos pouquinhos assim, nós dois possamos crescer juntos.
sábado, março 12, 2011
A felicidade como argumento
A felicidade é a pedra de toque de toda argumentação ética egoísta. A menção da felicidade pode até servir para identificar uma doutrina como essencialmente egoísta.
A felicidade é um tipo de bem especialmente individual, o conceito geral de felicidade é completamente vazio, ela aplica-se tão somente ao indivíduo. Fala-se em bem geral, até personifica-se o "Bem", mas é mais difícil compreender a noção de uma felicidade geral ou do que seria a "Felicidade".
Discorda-se do que, exatamente, seria o bem geral, mas o conceito é discutido. Quanto a felicidade, não há a discussão, a felicidade é um sentimento particular.
O cristianismo fala em altruísmo e fala em compaixão, pois se não falar e falar, resta apenas a promessa da felicidade eterna, tão-somente a recompensa individual oferecida no pós-vida. Dos sermões da igreja que ouvi, o que mais me chamou atenção é o que diz que não se pratica o bem para ir até Jesus, mas se está com Jesus, logo pratica o bem, pois é um momento raro de inversão de sua base egoísta. É um momento que abraça a falta de lógica da ética e esquece um pouco o racionalismo sem razão tão caro aos católicos.
Pratica-se o bem não como condição para a felicidade futura, mas simplesmente por estar em contato com este, ou seja, por si só, ou seja, sem causa. Mas mesmo esse lapso segue-se da habitual pregação sobre felicidades futuras e o cristianismo é recoberto em egoísmo mais uma vez.
A felicidade, sendo um conceito vazio, adapta-se como recompensa universal e, portanto, estímulo universal para se praticar qualquer coisa que uma ética indique. Que Deus a ofereça em infinita quantidade não deve ser surpresa, pois tal conceito tem o costume de ser o gerador de infinitos vazios.
Quanto às outras éticas que fazem uso da felicidade, como a utilitarista que até busca um pouco medi-la, elas não prometem altruísmo e compaixão em primeiro lugar. As doutrinas socialistas colocam a teoria à prova, pois quando um grupo de indivíduos promete um tipo de felicidade geral, acaba-se com um país na mais profunda miséria, com toda a felicidade concentrada apenas neste pequeno grupo de indivíduos.
Das promessas que nossa civilização faz e quebra, a felicidade está entre as principais. E afinal, como é difícil fazer valer essa promessa, o que se pode esperar de um conceito vazio que propõe algo antinatural e absurdo como um pleno bem-estar?
Há sempre algum sofrimento, alguma dor, alguma tristeza, mesmo na euforia, mesmo na realização dos sonhos, mesmo no saciar constante de todas as necessidades, o tédio se impõe eventualmente.
Imaginemos um paraíso: todas as necessidades físicas se foram, você ainda não se preocuparia com os outros que sofrem? Com os que ainda não estão salvos?
Eliminemos a compaixão de nosso paraíso - o exercício mental mais fácil do planeta - você não sofreria com suas memórias? Com seus arrependimentos? Desejos de vingança?
Eliminemos as memórias ruins. Uma parte de você foi destruída, ainda assim. Você não sofreria com a saudades dos tempos bons? Com a nostalgia?
Eliminaremos as memórias boas? Destruí-lo totalmente e fazer de você uma massa amorfa de sensações boas é a felicidade? Eliminaremos o tempo e chegaremos ao mesmo resultado: um tipo de nada que misteriosamente retém a capacidade de ser feliz; uma felicidade indefinida - e impossível de ser pensada - por ocorrer fora do tempo.
Cada vez que nos aproximamos mais de um tipo de felicidade eterna, entramos no reino das não-coisas, do inexistente. Então não é de se espantar que as doutrinas recorram ao Inexistente para garantir tal felicidade.
Por fim, pra quem ainda marca pontos em algum placar entre o bem e o mal, pode-se pensar o seguinte: se a felicidade é o supremo desejo dos egoístas, na falta de algum outro tipo de justiça, pode-se garantir ao menos que o excessivamente egoísta jamais cumprirá seu desejo.
segunda-feira, março 07, 2011
A internet não é tão legal.
Eu uso a internet desde maomenos os 12 anos. Isso foi há OMG 13 anos atrás. A internet era bem novinha, então. As páginas pessoais tinham aqueles endereços enormes do geocities, a gente passava uma noite inteira baixando uma única música, filme nem pensar, quando muito, passar a semana baixando um filminho pornô de 10 minutos.
A minha conexão era por meio de uma BBS do ABC paulista e essa BBC tinha um sistema de chat interno e as pessoas meio que se conheciam lá. Tinha um fórum que eu frequentava onde pessoal dizia como ia salvar o mundo e porque todo mundo estava errado.
De lá pra cá a internet mudou tão-somente em quantidade. Mais gente, mais páginas pessoais (que acabaram por metamorfosear em blogs e páginas de redes sociais, mas a mesma coisa: "quem sou eu, o que eu gosto, porque eu estou certo e você errado"), mais música, mais pornografia, maior área de alcance, mais de tudo, mesma coisa.
Eu conheci minha namorada pela internet, ela lá do Sul; hoje moramos juntos. Não daria sem a internet.
Não estou fazendo o post pra dizer que odeio a internet e que ela não é bem bacana, é só pra dizer que ela não é o catalisador que trará a era de aquário (nada é).
As coisas mais bacanas que aprendi no mundo foram de modo habitual: universidade, livros da biblioteca, livros comprados no sebo ou na livraria, mais ou menos caros; lembrando que nessa época eu já tinha internet há um tempo.
O que eu quero dizer é que é praticamente irrelevante ter todo o conhecimento da humanidade na ponta dos dedos sem que algo guie seus dedos até ele e esse "algo" é bem difícil e complexo; se você acha que fóruns que discutem assunto X são uma boa idéia, há uma chance enorme de gente meramente leiga e arrogante te direcionar a algum tipo de pseudo-conhecimento panfletário; seja panfletario do anarcocapitalismo, psicologia evolutiva ou o que for.
Uma teoria particular que eu tenho da internet é que a maior quantidade de informação leva a pessoa a se aprofundar mais - e refinar mais - seus próprios preconceitos; entenda, a tendência é a pessoa buscar informação horizontalmente - ela é liberal, então ele vai atrás dos liberais, aí dos liberais mais obscuros, aí dos liberais radicais, aí dos argumentos liberais, aí das explicações liberais, aí das vertentes liberais, etc - e não verticalmente - ela é liberal, então dá uma olhada nos socialistas.
Quando você por acaso encontra alguém "do outro lado", geralmente já é no meio de combate. É alguém dizendo como e porque você não só é burro, como mau, não só mau como burro, etc. Afinal, a timidez e o medo naturais que vem em conversar face a face com alguém são ferramentas favoráveis à razão. Arrogantes arroganteando-se entre os arrogantes não leva a nada.
Até onde eu sei, a internet avançou 0 debates. Ela também gerou 0 revoluções, caso alguém que ache que o que anda acontecendo no mundo árabe é por causa do twitter e não, tipo, gente cansada de viver sob uma tirania.
Não teria minha namorada sem a internet e não conheceria minhas bandas favoritas. A internet é uma ferramenta excelente. Mas ela não contribuiu (nem contribui) com minha formação, nem intelectual, nem cultural. Amo amo amo minhas bandinhas twee inglesas dos anos 80, mas não dá pra usar elas pra justificar a internet como ferramenta que leva a qualquer avanço espiritual meu. Amo amo amo minha namorada, mas sei lá, se você acredita em alma gêmea, então nos encontraríamos de alguma forma por aí, se não, encontraríamos outras pessoas (continuamos encontrando outras pessoas, mesmo juntos, então...).
Então é isso, o post, de novo, não é pra dizer que a internet não seja legal, mas ela não é *assim tão legal* que ela vai tirar os povos da ignorância e trazer o mundo junto e derrubar as tiranias e coisas do tipo.
Ela me dá acesso a um bocado de informação, mas dizer que eu preciso da internet seria dizer que eu tenho tempo de ler e estudar todos os livros de papel que eu tenho acesso, o que é uma mentira - ou dizer que a internet pode me oferecer obras que eu não encontro em papel, o que é uma meia-verdade em um único caso, em que a obra que encontro em inglês na internet, está disponível em espanhol por aqui. E se existe algum povo miserável que não tem acesso aos livros de papel, então: 1 - eu não sei se é uma boa idéia dar computador ao invés dos livros em questão e 2 - eu não sei porque acreditar que a internet seria usada pra pesquisar grandes idéias ao invés de quem vai na festinha de hoje à noite.
Mesmo por ser algo desconfortável ler numa tela, se o problema é que as crianças não estão lendo seu Machado de Assis, eu recomendaria pelo menos a versão em quadrinhos antes de recomendar ficar encarando uma fonte de luz por 200 páginas (btw, a fonte de luz que sai de um reader é meio que feita pra isso. A do seu monitor não).
A internet é tão boa em unir os povos quanto a bíblia de Guttenberg foi em unir os cristãos. Dar uma voz às pessoas geralmente significa dar uma voz aos seus preconceitos; uma pessoa com seu preconceito sozinha é sabiamente tímida em relação a ele, na internet, ela forma um tribo e boa sorte acabando com qualquer mistificação que seja nos próximos 500 anos. Durante um momento da internet (meio que com o orkut), as pessoas se espantaram com o surgimento dos conservadores de direita. Bem, eles sempre existiram, só aconteceu de agora eles se organizarem em tribos irracionais e arrogantes como a esquerda se organizou desde sempre. E o lance de uma tribo é a destruição ou o recrutamento, o resto é um detalhe que talvez ocorra por acidente.
E se você recruta o bastante pra fazer uma revolução, você ainda precisa sair na rua e levar tiro e essa coisa toda, a internet, nesse caso, não esclareceu nada ou acabou com nenhuma alienação, ela só serviu como o panfletão que é, se alguma coisa, um panfletão com um IP gravado faz a polícia ter um trabalho mais fácil.
Então é isso. A internet é bacana, você conhece pessoas, e serve basicamente só pra isso, quando serve pra isso.
Tchau, vou dormir.
quarta-feira, março 02, 2011
Auto-estima
Um tempo atrás, eu li numa dessas listas de internet um argumento até que bom contra auto-estima. A lista era de algo do tipo"6 besteiras da psicologia" e uma delas era que auto-estima faz sempre bem, quando na verdade, gente com a auto-estima sempre alta costuma ser escrota, pois é o tipo de gente mimada, que nunca admite erros, que é arrogante, etc.
Se existe uma jogada certa de ganhar público - e como estudante de Schopenhauer eu bem sei disso - é dizer que há poucos sábios e muitos burros, porque 99% das pessoas que lêem aquilo que vão achar que fazem parte dos poucos sábios; ninguém lê Schopenhauer dizendo que ou se nasce gênio ou já era e pensa "ah, que droga, eu não nasci nada genial, serei bem medíocre nessa vida". A pessoa sempre se sente feliz achando que Schopenhauer está comprovando a genialidade dela quando, na verdade, ele está dizendo que, estatisticamente falando, as chances de você ser um gênio são baixas.
Não estou defendendo que ninguém se odeie, nem nada do tipo, é só que, se eu puder dar um conselho (e se filósofo não fica ensinando os outros a viver, como é que ele ganha seu pão/status/ego?), ache-se um imbecil e parta daí.
Ache-se um completo idiota e aí tente, bem aos poucos, provar-se do contrário. E se você não conseguir, tudo bem, ao menos agora você sabe que é um idiota, o que é mais sabedoria do que possui a grande massa de idiotas.
Meu estado neutro é me achar uma pessoa bem imbecil, frustrando-me o tempo todo com minha falta de capacidade e intelecto, aí às vezes eu faço uma coisa legal ou eu penso alguma coisa interessante e fico bem por um tempo, até voltar ao neutro. Esse blog tem toda uma coleção de idiotices.
Sei lá quantas vezes eu ofendi as pessoas, um dos meus posts mais visitados é um que falo em "extremo anti-sionismo do idelber", o que é uma babaquice que foi escrita num momento tenso sobre um assunto naturalmente frustrante (não por acidente, esse texto foi linkado uma ou duas vezes como se eu fosse uma autoridade no assunto. Protip: não sou).
Mas outros dos meus posts bem visitados são os resuminhos sobre pré-socráticos que eu fiz uma época em que os estava estudando e esses ficaram bem bacanas; são sussas, introdutórios, enfim. Sentir-se bem consigo próprio deve ser, eu acho, uma recompensa por fazer coisas bacanas. Há um problema quando não conseguimos sentir orgulho dos nossos acertos; mas o contrário - sentir orgulho de si próprio fazendo nada de interessante - é pior, na minha opinião.
O primeiro caso é um problema particular, uma neurosa, depressão, whatever. O segundo caso é um problema social, pois gente que é arrogante sem motivo é um problema para os outros: elas erram mais e seus erros devem ser arrumados por terceiros; elas entram em conflitos, pois acreditam-se sempre com a tocha da moral nas mãos; elas sentem que tem direitos e mais direitos por serem o floquinho de neve especial que são. Não que essas coisas não sejam universais, não que não sejamos essa pessoa irritante de tempos em tempos, é só que o estado neutro da pessoa com auto-estima é o de ser escrota.
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
Prostituição, Bruna Surfistinha, Deborah Secco
Já que eu fiz um monte de twit furioso, vamos lá, né.
Primeiro, eu não quero me dizer nenhum especialista na vida das prostitutas, nem parecer que eu ignoro os problemas sociais, emocionais e físicos que uma prostituta pode ter na sua profissão, mas essa entrevista patética é bem uma mostra de porque não se dialoga muito sobre essa questão no país.
"Que mulher, em algum momento da vida, não se expôs para se afirmar, para ser aceita. A gente se descobre mulher, mas, ao mesmo tempo, pode começar a se autoflagelar para agradar, para receber amor"."
Às vezes rolam umas citações que encapsulam tantos preconceitos juntos que daqui 1000 anos ela poderá ser usada pra mostrar como são primitivas as pessoas de 1000 anos atrás.
Ser prostituta não é autoflagelação, é um emprego. Você lendo isso pode não sentir prazer no seu emprego, pode até se expôr a risco físico, pode até ser uma coisa que a sociedade não olha com o melhor dos olhos, mas você faz isso pra ganhar dinheiro, não como uma neurose de alguém que quer receber amor ou como uma tentativa de punir a si próprio e tal.
Se formos falar na tragédia da prostituta, ela está em ser alguém que, por falta de dinheiro, acabou fazendo algo que ela própria considera imoral. Isso pode levar a uma porção de problemas emocionais, é claro.
Um problema é que quando você faz disso o seu foco, você se torna parte do problema. Eu já tinha ficado um tanto chateado com a Deborah Secco quando vi em alguma capa de revista ou sei lá, ela dizendo "eu nunca seria prostituta".
Em primeiro lugar, você não é algo assim tão lá diferente - e se você acha que isso é eu tentando ofender ela, você não está lendo esse post; eu não acho prostituição imoral ou nada do tipo - mas boa parte do seu dinheiro e da sua fama vem em vender seu corpo e não sua habilidade em interpretar outra pessoa, então se você sair do seu pedestal, eu acho que você consegue sim entender um coisa ou outra sobre elas. Em segundo lugar, bom as citações falam por si próprio:
"Por mais que tenha pesquisado, conversado com garotas de programa, nunca vou entender a dor delas. Para mim parece um terror, mas para essas meninas, é como se já se anestesiassem."
"Que direito tenho de falar: "Não faça"? As pessoas não são o que querem ser. São como conseguem. E isso é triste. E eu parei para pensar que também não sou o que quero. Sou o que consigo. Somos o melhor que conseguimos ser."
A atriz - e pelo jeito o diretor - partem do princípio que ela fracassou, logo é prostituta. Teve algum jogo da vida, ela perdeu, logo é prostituta. Isso é péssimo, isso é ruim, isso é triste, isso é horrível, mas quando você fala com elas, tadinhas, elas nem percebem o quanto a vida delas é tão tão tão tão tããããããão pior que a minha, elas estão até anestesiadas.
A prostituta não é alguém que perdeu no jogo da vida, não mais do que qualquer outra pobre que está em um emprego horrível para sobreviver - e um punhado de prostitutas estão nessa por ser uma carreira que elas acham melhor, sendo plenamente capazes, intelectual e financeiramente, de perseguir outras carreiras.
A prostituta é - salvo casos como prostituição infantil e extrema pobreza - uma mulher adulta e responsável que, analisando suas opções de carreira, decidiu que "ter 5 ou 6 homens em cima dela todo dia" é um modo aceitável de ganhar dinheiro.
Se a Deborah Secco acha essa escolha "um terror", eu sinceramente gostaria que ela tivesse a integridade artística de passar o papel pra outra pessoa. Até alguém interpretando um terrorista tem que encontrar uma linha de empatia onde ele consegue pensar que, se as coisas fossem diferentes, ele poderia ser essa pessoa, mas meu problema com atores em geral é outra coisa, eu acho que toda a fama não merecida que alguns atores recebem impedem atores em geral de entender qual a própria função, ooooutro tópico.
O caso da Bruna Surfistinha é mais ou menos esse. Ela não foi uma criança forçada a fazer nada, nem alguém em extrema pobreza que precisou fazer coisas terríveis para comer o pão de amanhã. Ela viu suas opções e achou que isso era melhor do que as outras. Aí como isso não se encaixa no mundinho de 2 cm cúbicos da atriz e do diretor, tiveram que inventar o quanto ela se odeia e se autoflagela e outras coisas.
Se Raquel Pacheco comete algum pecado é o de francamente não ser uma boa escritora - ainda mais no gênero de erótica que por vezes produz escritores tão bons - mas a história dela, por ela mesma, não é de uma coitadinha sem escolha. Se a mãe dela parou de falar com ela, a Deborah Secco e as outras pessoas que acham que isso é um "terror" tem mais culpa do que a própria Raquel que só estava falando sobre o seu trabalho.
A vida de uma prostituta tem várias dificuldades únicas que meio que se alimentam. É considerado imoral, aí acaba sendo ilegal, o julgamento da sociedade causa danos à saúde mental da prostituta ao mesmo tempo que a marginaliza um bocado. Mas algumas prostitutas não estão "anestesiadas", se alguma coisa, elas estão caducadas. Elas superaram essas dificuldades e são, na medida do possível, mulheres comuns no seu cotidiano.
As que gostariam de sair dessa vida, mas não tem escolha por motivos econômicos não precisam de mais auto-estima, elas precisam de um curso técnico, de mais empregos em outra região, enfim, da mesma coisa que a empregada vivendo no quartinho do fundo precisa, ou que a professora que não aguenta mais ser babá dos pivetes precisa, ou que a atriz que OMG não entende o terror das pessoas quem ela deveria ser durante os 90 minutos do filme precisa.
As que não querem sair dessa vida, eu diria que elas adquiriram auto-respeito ao invés de tê-lo perdido completamente. Que elas vivem uma vida estável ao invés de um terror. Que elas não se machucam seriamente, nem emocional e nem fisicamente. Elas não são anestesiadas, elas são profissionais.
domingo, fevereiro 06, 2011
Vida e pans
Das coisas que acho estranho sobre mim, a recusa em se livrar de mesquinhezes é a que mais me confunde, mas enfim.
A questão é que eu sou de tal maneira estúpido que eu fico me questionando se sou particularmente quebrado ou consciente.
Sabe essa história de fazer coisas errados, com uma vozona na cabeça gritando que está fazendo errado? Então, o tempo todo tem alguma voz na minha cabeça dizendo que estou errado, então que seja, talvez seja isso, se eu ficar deixando meu bom senso me impedir de fazer as coisas, eu fico imóvel.
Afinal, quem diria, eu sou um poço de bom senso, só acontece de não usar nenhum porque, oras, né?
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Existem defeitos que eu mantenho porque fuck it, pessoas tem direitos aos defeitos. Das coisas que eu evitaria, eu evitaria surtar vez ou outra, e evitaria alguma rabugentice, mas não toda, eu tenho direito a uma dose de rabugentice.
Eu não sou tão produtivo quanto uma versão ideal de mim, então eu substituo pela neurose de estar pensando o tempo todo. Eu coloquei uns prazos pra mim esse ano e acho que vou cumpri-los, mesmo trabalhando muito pouco.
O lance é esse, das coisas que eu faço irracionalmente, está todo o meu modo de viver, porque eu meio que aposto demais que minha vida vai dar certo se eu continuar agindo dessa maneira que parece que não vai dar em nada. O lado irracional é que eu não acredito em reencarnação.
Se eu acreditasse em reencarnação, eu já teria morrido mil vezes, o que eu posso fazer? Eu tenho uma mentalidade de videogame. Me dá três vidas e o primeiro reflexo é perder a primeira só pra ver se o pulo é possível.
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Não que eu pense na vida como um videogame, eu apenas a planejo como se fosse. Eu tenho essas décadas, esses objetivos, nesse tempo, pra fazer isso, eu tenho que passar por essas fases. Toda parte da minha vida que meio que não dá certo é um sacrifício que a ilha exigiu.
Se eu não falei isso no blog, falo por aí pras pessoas, mas lembro de uma na faculdade em que a professora falando sobre Nietzsche, que ele previa que seria um perigo, que etc e tal; aí eu falei algo do tipo "e ele tava certo" e ela respondeu, bem sábia e desmistificando o lance todo, "bom, se você trabalha em direção a uma coisa, algo sai disso".
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Acho a colocação boa. Não é que se você trabalha em direção a uma coisa, você vai nessa direção, a vida é fodida, mang, você não sabia? Às vezes você trabalha pra algo e vai pro lado oposto, mas algo sai disso.
Se eu fosse menos rabugentice, eu acharia engraçado quando alguém pensa que eu to aqui por acidente; mas eu só fico puto.
Tipo, ok, ok, gente, gente, assim, na boa, na boinha, olha só, eu vou falar de boa. Na boa, eu falhei pra caralho. Eu falhei mais de uma vez na mesma coisa. Eu falhei em terminar faculdade no ano certo, falhei em começar mestrado dois anos seguidos (um atrasinho de 3 anos aí nos meus planos gerais), perdi um emprego/me demiti/me demitiram de um emprego que eu acharia que resolveria vários problemas, voltei pra um emprego que achei que nunca voltaria, perdi prazos, planos falharam, coisas não foram pra frente, eu negligenciei um bocado de coisas e pessoas, enfim, um dia eu tinha um lindo e promissor futuro como roteirista de quadrinhos, hoje isso está on hold indefinidamente.
Eu errei, eu dei azar, eu falhei e porra, minha vida ainda está pretty much incerta, vai saber no que eu vou falhar aqui pra frente.
Mas, e esse é um mas importante, eu estou mais ou menos onde queria estar.
Eu estou exatamente onde quero? Porra, claro que não, quando eu tinha 16 anos achava que com 21 estaria em um apartamento em São Paulo ou coisa assim. Mas o meu eu de 16 anos só não é mais burro do que meu eu de 15.
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Um lance é que, bom, nossa vontade afeta de modo limitado o mundo ao nosso redor (por meio de nossas ações), só acontece de nós não controlarmos nossa vontade. Não é que tenhamos assim controle, o tanto de coisa inconsciente que obedecemos o tempo inteiro é, pff, vai saber, mas me incomoda - incomoda quando eu penso isso e quando os outros pensam isso - essa noção de que eu não faço nada.
Esses dias eu expliquei pra Thaís que meio que o tempo todo eu estou pensando nas coisas, digo, se desse pra ver minha vida, porra, é claro que eu to sempre pensando nas coisas, esses meus telespectadores imaginários acham que eu sento na frente do computador sabendo quais livros consultar, onde consultá-los, qual citação usar, que argumento fazer, etc; assim, do nada, eu comecei a pensar no momento que sentei no computador.
Eu não quero que isso vire uma crítica ao capitalismo porque fuck you, eu não duraria 2 segundos num país comunista, eu seria fuzilado, eu seria exilado por não querer contribuir, eu faria uma piadinha fora de hora pro Grande Rei Supremo Líder Absoluto Da República Democrática ou algo assim, mas, sociedade, de boa, eu to pensando, eu não to fazendo nada.
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É claro que tem um lado enorme meu que pensa assim, não ia me incomodar se eu não me questionasse, mas porra, olha que cara incrivelmente foda eu sou, além de tudo eu me questiono o tempo todo! Qual a última vez que você passou a vida inteira achando dizendo a si próprio que está fazendo tudo errado? Foi o que eu pensei. Alguém deveria me contratar pra escrever sobre auto-crítica, enfim.
Eu falho, eu me questiono, eu me arrependo de coisas, eu rabugento, eu surto, eu erro e minha vida meio que está do jeito que eu quero, eu sei lá como essas coisas acontecem, mas parte grande de mim sinceramente acredita que eu trabalho pra isso, que eu tenho - surpresa! - estrutura emocional pra tal. Que nessa de filosofia, eu aprendi a não cair em certas armadilhas como acreditar que isso *tem* que dar certo, que papai do céu está torcendo por mim, que eu posso me dar o luxo de foder essa vida porque Jesus perdoa ou próxima reencarnação resolve, que o partido político tem as respostas, que essas pessoas legais são tão legais, que se eu não fizer todo o sexo da minha vida até os 30 anos FODEU e se eu não ficar rico e famoso até os 30 FODEU e assim vai.
Eu consegui desnvolver esse plano a longo prazo razoavelmente abstrato de me tornar alguém inteligente e que escreve coisas boas e interessantes até o momento que eu morrer. Até lá, eu evito religiões e partidos políticos, porque se eu não sou um cara inteligente ainda, como é que eu vou jurar devoção a um deus e como é que eu vou defender um ser humano no poder? Até lá tudo vai dar errado, mas a vida é longa, dá tempo de tudo dar errado e isso dar certo. E se a vida não for longa, se eu for atropelado amanhã - e isso é importante, pois é o meu único testamenteo.
Se eu morrer o meu único pedido é que vocês que lêem isso façam tudo que vocês puderem para que a Record jamais gaste 5 segundos que seja falando sobre o quão trágico o modo irônico pelo qual eu morri jovem.
Confio em vocês. Se puderem impedir aquelas comunidade do orkut sobre profile de gente morta de me parasitarem, eu agradeço também.
Prosseguindo, se eu for atropelado amanhã, meio que não importa, eu não acho que a vida tenha me dado cartas de modo que, no caso de eu ter um plano legal como esse, que ele possa ser realizado antes de eu ser velhinho. Então se eu morrer antes de eu ser velhinho, pô, eu fiz o que deu, eu escrevi um ou outro post bom (vocês já leram aquele que eu comparo a civilização com uma cidade onde não há mais um único prédio, mas sim vários? Eu sou um gênio, mang), quero pensar que deixei minha mãe orgulhosa, fiz meu amorzinho feliz, alimentei bem três gatinhos. E se eu não me tornei o tipo de pessoa inteligente que escreve boas coisas, paciência, não deu tempo.
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Acho que no fim das contas, eu não sei de muita coisa, então tudo que eu escrevi acima e abaixo pode ser invalidado completamente. Mas aí vai que algo acontece e eu acordo um dia e eu sou um cara esperto que consegue escrever algo que assim, não vai ser de todo imprestável; vai ser só criticado e mal interpretado e vai ter uns pontos errados, uns erros perdoáveis dado minha época, mas, no fundo, *essa idéia*, pô, isso é muito bom, isso dá pra manter.
Isso seria bem legal.
domingo, janeiro 16, 2011
Pessimismo
Quando eu me disponho a explicar como é o meu tipo específico de pessimismo, a primeira coisa que gosto de dizer é que não é uma teoria sobre como prever o futuro.
Ser um pessimista, do modo como sou, não significa que numa aposta com 50% de chances, eu preveja que sairei perdedor. Não é nenhuma crença em Lei de Murphy ou nada do tipo; na verdade, na minha vida, as coisas costumam meio que dar certo de algum modo misterioso, então como eu me mantenho pessimista?
Meu pessimismo é um modo de ver a vida em geral: quando observamos o mundo e nos perguntamos se ele tende ao bem ou ao mal; se há mais felicidade que sofrimento; se há mais justiça que injustiça; etc. a balança tende a pender (por vezes bastante) pro lado péssimo.
O mundo é um lugar bem ruim, a vida é bem difícil, o sofrimento é bem constante, a crueldade parece onipresente e a compaixão um milagre, etc. E há a questão da morte: nós chegamos nesse mundo com data de expiração e sem manual de instruções, passamos a maior parte do tempo só resolvendo problemas que a vida joga em nós, uma outra parte só nos preparando para alguma satisfação futura, com momento fugazes de alegria. A coisa é tão foda que quando estamos nos divertindo, o tempo passa mais rápido.
Isso não significa que eu não vou ganhar na loteria amanhã, que o jogo que eu comprei sem ter certeza não vai acabar sendo muito divertido, que o amor da sua vida não estará essa noite na balada, etc; a vida em geral é uma droga, mas eventos particulares bons podem muito bem acontecer.
Então quando eu digo que as coisas na minha vida meio que dão certo, é um misto de bons acontecimentos particulares e o meu próprio pessimismo que me torna, creio (e espero), mais apto a suportar a vida.
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Quão infinita é a miséria das pessoas que esperam que as coisas funcionem? É verdade que as coisas funcionam de tempos em tempos, aos poucos, mas pra cada evento da minha vida que deu certo, ocorreram umas falhas bem brutais no passado, parte do pensamento otimista que diz "não desista!" funciona também na versão pessimista do tipo que prevê o futuro: "você só tem 1% de chance de dar certo! Tente 99 vezes!"
O meu tipo de pessimismo me dá uma força do tipo que é fútil desanimar e é fútil esperar por justiça e é preciso suportar com força a crueldade dos homens; é claro que eu quebro às vezes, Thaís que sabe, ás vezes eu quebro feio - há um limite de quanto peso um menino de braços fininhos consegue suportar - mas grande parte das vezes, quando eu choro, não é só por causa do evento determinado que me causou a dor, mas é porque esse evento determinado me lembrou que a natureza do mundo é dor.
Eu sofro muito, pois eu choro pelo mundo; eu aguento muito, pois quando enxugo as lágrimas e acordo no dia seguinte e tento de novo, não estou pronto para encarar de novo o evento particular, mas sim todo o peso do planeta.
Parece arrogante dizer isso, mas o modo de pensar pessimista aos poucos te acostuma a isso: quando ocorre injustiça, você não se permite a lamentar essa injustiça, mas você lamenta A Injustiça, que contamina o mundo todo e sua vida toda e continuará a fazê-lo enquanto você viver. Isso te força a encontrar forças para lidar não só com a injustiça atual, mas com todas que ocorreram e com o medo de todas que porventura podem ocorrer.
Às vezes é demais, às vezes você falha, você quebra, o desespero toma conta; adicionar ao peso da tragédia particular o peso da tragédia em geral é por vezes dar um passo maior que a perna. Mas mesmo isso não é um problema tão grave, pois o mundo é péssimo de tal modo que passos maiores que a perna são dados, que às vezes você falha, às vezes se desespera.
Não é minha intenção, com esse post, dar uma receita de como lidar com a dor, - seria uma receita bem estúpida se viesse com "desespero" como possível efeito colateral - mas sim um aviso de que coisas ruins acontecerão e um hábito de como se lembrar desse aviso na medida em que elas acontecem.
Eu acho mais fácil passar por um desafio se eu sei de antemão que ele é difícil. Jogar as recompensas pra um mundo futuro pode funcionar também; achar que o universo te ouve ou que Jesus vai te dar um carro é uma fonte tão infinita de frustração que caso frustração fosse energia elétrica, esse seria o moto perpétuo.
Adquirir o hábito de viver mesmo sob sofrimento é algo que o pessimismo oferece; se acostumar com a idéia da morte é outro presente.
Eu sei que eu vou morrer, minha consciência vai deixar de existir, não existirá mais meu eu, meus sofrimentos, meus sonhos, não vou poder nem ver as pessoas chorarem saudades de mim, não verei os injustos pagarem sua injustiça, não serei recompensado pelos meus atos bons, simplesmente não serei. E assim se passará com todos que eu amo, com tudo que prezo.
O pensamento pode levar a um tipo de desespero, mas habituar-se a ele traz uma preciosa capacidade de resignação. De aceitação do destino.
Sei que não serei, ainda assim vivo, busco cuidar bem dos meus gatos, ser bom para quem amo, não ser desonesto mesmo com desconhecidos, tento pagar minhas dívidas, obedecer as leis. Aceitar o destino é uma superação do niilismo. Aceitar o nada como um fato tão natural como a chuva é resistir a tentação de idolatrá-lo.
Não há porque viver mal só porque esse é um mundo que tende a não dar certo; isso é ser adolescente. Também não há porque fantasiar com mundos melhores; isso é ser uma criança.
O que eu entendo por maturidade, minha e da civilização, é, seguindo Kant, o uso do conhecimento sem direção dos outros; eu diria também, na medida do possível, sem direção de medos ou birras. A resignação que o pessimismo traz torna o medo e a birra luxúria e futilidade. É fútil ter medo do mundo: ele vira devastador e implacavável de qualquer modo, assim como não podemos nos enganar e nos dar o privilégio de bater o pé até as coisas serem do jeitinho que queremos. Ter consciência de nossa faliabilidade, de nossa falta de luz, é ser mais compreensivo com a falha dos outros - tão humanos quanto nós - e mais responsável com nossas próprias.
Não há porque negar e envergonhar-se do erro, pois o mundo não abre-se para nossa razão como um livro escrito em linguagem matemática, pelo contrário, creio que é nossa razão que dá matemática ao mundo, deformando-o, pois conseguimos compreender apenas a imagem turva (mas esse é outro assunto).
E com consciência que erramos, algo nessa razão que dá forma ao mundo nos compele também a sermos justos para com nossos erros e aprender com eles.
Nem sempre isso tudo dá certo, mas como já repetido algumas vezes, esse é um mundo que as coisas frequentemente falham mesmo.
A vida em geral é difícil, toda vida em geral é sofrida; isso faz com que eu procure olhar com maior carinho para aquelas coisas da minha vida que não são sofrimento e honrar e fazer bom uso das oportunidades que surgem.
Pensar no mundo como um que tende ao mau às vezes leva ao desespero, mas saborear esse pensamento e acostumar-se com toda sua amargura pode bem ser o que torna o mundo tolerável.
sábado, janeiro 15, 2011
Da série "é certo, pois eu vivo assim" (arte).
Ou da série: "internet não é lugar de debate"; sinto certa alegria em não debater arte.
Minhas conversas sobre arte, mesmo aquelas que ocorrem dentro da galeria de arte, geralmente se resumem a "eu gosto" e "eu não gosto".
Eu poderia elaborar, claro, e algumas vezes elaboro, mas a questão é que na maior parte do tempo, o motivo pelo qual você gosta de um artista - se é que você próprio pode discerni-lo - é interessante tão-somente pra você, de modo que esforçar-se em explicar porque você gostou de algo - especialmente pra alguém que discorda, gerando o tal debate - é simplesmente falar dos próprios sentimentos. E a gente geralmente só fica assim discursando sobre nossos sentimentos quando:
a) Temos um blog.
b) Temos uma pessoa íntima sinceramente interessada em saber.
c) Somos chatos, egocêntricos e mimados.
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Quando você está falando sobre alguém, algum amigo ou até mesmo lendo uma crítica de alguém que você respeita, num geral, um "eu gosto" basta para que você preste atenção em algo que geralmente não prestaria tanto. E, ainda confuso, um "Por quê?" tem como resposta geralmente atenção a algum detalhe:
Ouça essa passagem com atenção; leia de novo esse trecho; observe o quadro dessa distância; etc.
Assim, dado que você confia na pessoa, você se abre mais para a obra e dá a ela mais uma chance de te afetar. Quando falha, ambos concordam em discordar e a vida progride.
Isso não é filosofia da arte acadêmica, nem crítica, nem análise; é só como acontece no meu cotidiano e eu acho que mantém uma relação agradável com a arte e agrabilidade é um componente importante (logo, o título do post; eu estou meramente defendendo como as coisas ocorrem em minha vida).
Se você casualmente chama atenção de alguém para algo, você apela à sua sensibilidade. Se você faz um argumento, você apela à razão.
Existe um bocado de espaço pra razão na arte: na crítica, na análise contextual, na análise do conteúdo, da técnica, da forma, etc; mas o ato específico de abrir-se a uma obra e experimentá-la e ser movido por ela é um ato sensível; a crítica, a análise contextual, a análise técnica podem servir de argumento para convencer alguém a dar uma chance a mais para a obra, mas o juíz do gosto é a sensibilidade.
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Não que gosto seja impossível de aproximar-se de uma objetividade, afinal, a sensibilidade por si própria já é uma "aproximação de objetividade", o gosto pode ser refinado pela prática de experimentar mais e mais obras, de modo a ser menos surpreendido por inovações, menos chocado, e deixar que a obra fale mais por si própria (ser um artista inovador, pra mim, diz muito pouco, num geral significa tão-somente passível de ser imitado no curto prazo e superado pela própria técnica no médio prazo - ser um bom artista me parece melhor do que ser um artista inovador).
Mesmo que a objetividade final não seja alcançada - sempre levamos alguma bagagem conosco, algum preconceito (positivo ou negativo) para com o nome do artista, um estômago mais ou menos cheio, pés e olhos mais ou menos cansados, entusiasmo, tédio, conhecimento histórico ou sua falta, desejo de ver algo novo, desejo de ser levado pela arte, etc.
As variantes são muitas para falar-se em objetividade, ainda assim, supondo que vemos as mesmas formas e cores, ouvimos os mesmos sons, compreedemos as mesmas palavras; não é questão de falar-se em subjetividade absoluta também.
Seja em que meio do caminho nos encontramos, nos encontramos experimentando a arte. Não argumentando que ela é boa.
sábado, janeiro 08, 2011
Maldade
Há a tendência em crer que os políticos são particularmente maus, quando na verdade, eles só são particularmente poderosos. O poder não corrompe nada, as pessoas já são escrotas de nascença, o que o poder faz é oferecer a letal mistura entre impunidade e meios.
De todas as formulações de bom e mau, aquelas baseadas em compaixão me soam as mais verdadeiras e simples: quanto melhor a pessoa, mais ela indentifica o sofrimento alheio com o próprio e quanto pior a pessoa, mais ela indentifica o sofrimento alheio com o prazer próprio. A maioria das pessoas flutua em algum meio-termo de simples indiferença ou compaixão seleta para com a tribo (o que às vezes se traduz como crueldade seleta para com os outros; sujeito pode, ao mesmo tempo, sacrificar tudo para impedir o sofrimento de um compatriota e sacrificar tudo para garantir o sofrimento do inimigo, ver os terroristas religiosos).
Disso não se segue - e essa é uma parte importante do post todo - que pessoas boas sejam um bem para a humanidade em geral, ou mesmo para a sociedade ou para sua vizinhança. É mais um modo de medir se você é um cara bacana do que se você é um cara útil ou benéfico. Um industrialista egoísta que por amor tão-somente ao próprio dinheiro gera um sem-número de empregos e produtos baratos baratos o suficiente para aumentar um pouco a qualidade de vida dos mais pobres, porventura faz mais bem à humanidade do que o sujeito que doa uma porcentagem grande de sua pouca riqueza para a caridade.
O altruísta do exemplo sacrifica-se mais, mas o escroto egoísta faz um bem maior por meio mesmo do seu egoísmo.
A relação de causa e efeito entre um bom caráter e um mundo melhor não é inexistente, claro; boas pessoas realizam bons gestos, eu só quis demonstrar que a relação não é de necessidade, mas se essa relação não é de necessidade, qual a utilidade em ser uma boa pessoa?
A questão é que não há bem uma utilidade em ser uma boa pessoa, pois não há bem uma escolha entre ser uma boa ou uma má pessoa. Ou você sente compaixão ou não sente. É possível, acredito, treinar a compaixão, praticar esse tipo de sensibilidade, de modo de encarar as coisas, mas mesmo para ter esse impulso, é preciso já uma pré-disposição para sofrer com o outro.
Esse tipo de modo de vida onde se é uma boa pessoa pelo simples fato de ser uma boa pessoa, vai de encontro a teorias utilitaristas como o cristianismo, para a qual, o egoísmo é o único modo de ser humano; é preciso, de fato, ser um poço infinito de egoísmo para que apenas a ameaça infinita de sofrimento versus a recompensa infinita da felicidade gere estímulo para agir como se fosse uma boa pessoa, o que raramente são.
Em defesa dos cristãos, Deus não existe, assim, é absolutamente normal que a maioria oscile entre egoísmo e maldade. Crer-se ovelha seguidora do Bem Absoluto enquanto se comete mesquinhos atos de crueldade (homofobiahomofobiahomofobiahomofobiahomofobia) é menos defensível, mas enfim, voltando ao tópico, perdoem a rabugentice, faz um tempo que não durmo.
Outro lado das pessoas boas é que é bom cercar-se delas. Uma comunidade que pratique a compaixão seletiva é, afinal, em relação à própria comunidade, uma boa comunidade. Em meio a um povo que odeia os "outros", não ser um dos outros pode significar uma existência bem agradável, mesmo que isso seja uma bomba relógio, pois há um limite do quanto pode-se ignorar um grupo de pessoas.
Mas mesmo assim, é um motivo pelo qual sentimentos religiosos ou patrióticos podem melhorar a qualidade de vida de um povo; já que é inevitável que haters gonna hate, pelo menos que o ódio seja direcionado a alguém do outro lado do mundo ou a espíritos malignos que fazem tudo dar errado nos bastidores, mas isso também vem com o lado ruim da equação; já é tão difícil pessoas estarem dispostas a amar que desperdiçar esse amor com a patria ou com o papai do céu soa... bem, um desperdício.
Não que coração seja um tanquinho que ama uma cota limitada e acaba por aí - que tipo de maldito poliamorista eu seria se acreditasse nisso? - mas há de se admitir que algumas pessoas, ainda mais amargas e rabugentas que eu, simplesmente amam menos e que é como se dissessem: "Vou ser insuportável, horrível e cruel com você, mas dou meu coração a Jesus, não pode-se dizer que não amo"; ocorre também com as pessoas que compram uma sacola ecológica e acham que já "fizeram a parte".
Um risco, aliás, dos ideais grandes, é esse, eles ofuscam demais.
Se você realizou o seu ato para com o Bem Absoluto, para com o Partido Que Alimentará Todos os Pobres, para com a Pátria Amada; é fácil sentir-se livre da obrigação de não ser escroto com o caixa do banco.
Ao mesmo passo que uma pessoa boa não é necessariamente benéfica, uma pessoa com grandes ideais não é necessariamente - ou ainda, não o é na maioria das vezes - alguém que realiza grandes contribuições. Ou pequenas.
Lembrando que quando eu critico certas pessoas, eu não critico o modelo ideal da pessoa - eu não critico o cristão perfeito que realmente entendeu que o significado da bíblia bla bla bla ou o ecologista ideal cuja casa inteira funciona via energia solar e cujo alimento é plantado em casa e adubado com as fezes do panda que ele salvou, etc e tal. Esse post é bem sobre as pessoinhas do dia a dia - e o ecologista do dia a dia é alguém que realiza atos mínimos e fica arrogante demais às vezes por causa deles e o cristão cotidiano tem esse costume de fazer maldades, arrepender-se em nada e sentir-se perdoado.
Quanto aos altruístas na política, esses eu até prefiro que sejam apáticos e hipócritas, pois assim eles não prejudicam ativamente a humanidade sendo um idiota útil. Aliás, o exemplo grande de pessoas boas causando enorme mau é quando elas acreditam sacrificar-se pelo bem maior e "bem maior" acaba tão-somente sendo um grupo de pessoas no poder.
Bom, eu esqueci qual era meu ponto quando eu comecei esse post, mas eu escrevi coisas o suficiente, ofendi o cristianismo um pouqinho só pra minha consciência ficar limpa e, hum, está bom, né?
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