quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz Ano Novo

É impossível disassociar o mundo de seus significados. Perceber é perceber conceitualmente.
Isso não significa, claro, perceber em linguagem. Um cão não tem uma palavra para maçã, mas ele confere à ela um série de significados. É uma e não duas; é para comer e não para fugir; etc.
O que a linguagem permite é que um conceito seja fixo e transmitido, mas antes de existir a linguagem, é preciso já que uma sensação tenha gerado uma representação não apenas empiricamente (sua forma, sua cor, etc), mas também conceitualmente.
Se formos imaginar um primeiro homem, ao ver qualquer coisa, ele apreendia não apenas o que os seus sentidos forneciam, mas ele também fornecia à sua representação a qualidade de "desconhecido", "a ser investigado", "a ser temido", "a ser nomeado", etc.
Alguns desses significados são instintivos, outros são deliberados, outros ainda ensinados, geralmente alguma mistura dos três.
Cada objeto é uma história inteira de infinitos significados. Diferentes pontos de vista não se anulam, no máximo, um modifica o outro. Se o mundo está fixo no céu e de repente o percebemos como móvel, o primeiro significado não está destruído.
Enquanto esse conhecimento for passado, o mundo será sempre aquele que um dia foi fixo.

O mundo é aquele que um dia foi fixo e o ano é aquilo que um dia foi o movimento do sol.
Hoje o sol está relativamente fixo e o ano é o movimento em torno do sol.

E por mais que alguém queira se convencer de que o ano nada mais é que um movimento de translação, tal pessoa, ao dizer "o ano é apenas..." não consegue destruir isso: "O Ano".

E por mais calendário que invoquemos, jamais destruiremos que hoje é o último dia de 2009.

Eu queria pensar em um significado mais digno para 2009, mas 2009 foi, para mim, o ano da cerejeira. O ano de Sakura.

Eu comecei o ano caído e me levantei, eu lutei e fui derrotado de novo, agora começo mais um ano caído e eu choro e eu estou cansado, eu quero morrer, mas eu vou lutar mais uma vez. Eu tenho medo, mas eu não tenho escolha.

É engraçado falar de Street Fighter porque, afinal, esse foi o ano que eu me formei, mas também foi o ano que eu não consegui entrar em mestrado. As derrotas são muito mais dolorosas do que as vitórias são prazerosas.

Quando eu venço, eu sei o que eu fiz, eu sei onde o outro errou, o que deu certo não deu a toa, deu porque eu treinei um monte. Dar certo só é uma surpresa para quem está fora ou pra quem ganha algum tipo de sorteio aleatório; quando você passa tanto tempo na sala de treino repetindo o mesmo combo de novo e de novo, que ele saia de modo perfeito na hora que tem que sair não é nada de especial, é só aquilo mesmo.
Perder, por outro lado, tem um significado tão distinto. Ninguém planeja a derrota então aquela mística do sucesso aleatório está em cada uma de suas derrotas. Uma derrota sempre soa como uma espécie de azar porque significa sempre que acontece algo que você não esperava. Existe um limite do quanto estamos preparados para levar um soco. Nós sabemos que pode acontecer, claro, mas de resto, corre-se o risco até de gerar um paradoxo.
Se você sabe que vai levar um soco, você não se põe na posição de levar um soco, logo, você não leva o soco e logo você não sabe que vai levar o soco.

E entre a má decisão e a punição sempre existe um tempo. Quando você sabe que vai levar o soco, você já cometeu a má decisão faz tempo. Quando foi isso? Qual foi ela? Foi consequência de outra decisão que não teve nenhum impacto negativo? Quando paramos arbitrariamente a linha do tempo e dizemos "aqui eu poderia ter feito diferente?"

Nesse sentido, um ano é pouco. O que deu errado em 2009 eu consigo traçar à minha primeira memória e traçaria até a mais se não fosse essa limitação.

Então a cada ano nós traçamos uma linha na areia.
Nós sabemos que do ponto de vista da galáxia um ano é irrelevante, nós sabemos que a mesma desonestidade humana, que as mesmas condições climáticas, que as mesmas guerras, que os mesmos problemas ainda estão aí, mas isso não importa. Quando em uma guerra, existe um ponto que você decide que esse território foi conquistado e esse ainda não. Não poderíamos ser um pouco mais gentis com nossos soldados e dizer "ok, aumentemos o território em 10 centímetros?". Claro. Mas de 10 centímetros em 10 centímetros perdemos noção do quanto avançamos.

A imprecisão de nosso calendário é irrelevante, as maluquices do clima são irrelevantes, a translação é só um marcador. É quando dizemos "Esse território foi conquistado. Com ele, suas riquezas e suas misérias".

Alguém dirá que o dia amanhã será igual ontem foi para hoje e por mais que esse ponto de vista seja verdadeiro ele não mudará o fato que o ano que vem não será mais o ano da Sakura.

É claro, ela ainda vai estar aí, eu ainda vou estar aí, ambos estaremos lutando com essa tristeza esperançosa daqueles que são mais fracos e que admiram os gigantes. E ambos caíremos muitas vezes e será doloroso e não esqueceremos. E ambos venceremos muitas vezes e será prazeroso, mas só mais um dia de trabalho.

Mas esse é o ano que teve esse significado. Foi o ano que eu lutei, que eu perdi, que eu fui fraco, que eu admirei gigantes.
Esse ano pra mim significa derrota e eu não o culpo por isso, amanhã um novo começa e qualquer derrota que aconteça de amanhã em diante, não será mais uma derrota de 2009. Hoje é o dia de dizer a nós mesmos que sobrevivemos aos nossos erros e que ganhamos tempo para cometer novos, como disse um grande sobrevivente.

Os erros de amanhã, claro, serão consequências de decisões feitas hoje ou ontem ou em 2004 ou em 1992, mas eles não pertencem ao ano que foram cometidos, mas ao ano que sentimos suas consequências. 2009 foi o ano da derrota não só pelo que eu cometi de errado em 2009, mas porque nunca antes eu senti tanto arrependimento por minha vida inteira. Nunca antes eu senti tanta vergonha de ser quem eu sou. Nunca antes eu questionei tanto meu caminho. E do questionamento surgiu que eu não tenho escolha senão continuar. Alguém vai dizer que isso é uma vitória e eu odeio essa pessoa; desejo a ela todo meu sofrimento multiplicado por mil. Será uma vitória quando eu vencer. Por enquanto eu não estou feliz com minha vida e não pretendo estar.
2009 é um ano sobrevivido, é um território conquistado. Suas misérias são misérias conquistadas. Não há mais doente crueldade do que retirar de mim minhas cicatrizes. A vitória traz a glória, mas não a dignidade específica da dor.

Amanhã será como hoje.
A mesma vida ruim.
Mas o sofrimento de amanhã pertence a um novo significado.
Hoje eu durmo em sofrimento, amanhã acordarei em sofrimento.
E aos poucos, o mundo terá ares de manhã, mesmo que mantenha o cheiro de pólvora da guerra travada à noite.
E isso muda as coisas.
Um ano é uma linha na areia. É uma demarcação. É um significado.
Mas é impossível disassociar o mundo de seus significados.
E uma vez que representamos o amanhã como sendo algo de novo é impossível que o espírito que representa também não se renove de certo modo.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

A revolução verde no Irã



Não, eu não sou o mais indicado pra falar sobre isso; eu pego os fatos e os dados de modo desorganizado como eles vão chegando à blogosfera norte-americana.
No mainstream, tanto daqui como de lá, há um silêncio assustador. Um país importante como o Irã, centro das atenções nas eleições norte-americanas e cujo presidente visitou o Brasil há pouco tempo, está em algo como uma pré-guerra civil.
No Brasil, até onde eu sei, até a blogosfera tem falado pouco. Talvez seja um despreparo geral, mas despreparo jamais impediu um blogueiro de blogar; o que me assusta nesse caso é que os revolucionários no Irã não estão exatamente de nenhum lado do nosso espectro político. Eu vi comentários, por exemplo, que se eles entrarem no poder, então uma das medidas populistas que farão para manter a paz é acelerar o programa de armas nucleares.

É o problema da nossa época que trata disputas políticas como jogo de futebol.

Se eles fossem pró-norte-americanos, pró-cristianismo, então a direita faria da missão de vida deles fazer com que cada homem, mulher e criança nesse lado do hemisfério decorasse cada cantiga de protesto e cada nome de cada um assassinado pelo regime.

Se eles não estivessem lutando contra um regime que foi apoiado por intelectuais de esquerda, se não fossem tão abertamente classe média e pró-capitalismo, se Ahmedinejad não fosse queridinho de Lula e Hugo Chávez, então a esquerda estaria nessa torcida também.

Como não dá pra encaixar os verdes em nenhum lado específico, os comentadores se calam.

Eu vejo da seguinte forma: são homens e mulheres se revoltando contra um regime assassino em prol da democracia.
Toda a revolução se iniciou, de fato, quando perceberam que uma eleição foi roubada. Foi uma brecha da democracia que simbolizou a última gota.
O povo do Irã não quer mais viver nessa situação. E eles estão morrendo nas ruas pela convicção de que a morte é preferível à tirânia.

Isso é suficiente para que eu os apóie. Seja o que eles façam após a revolução, eles deverão ser julgados por isso; se tornarem-se ditadores maiores do que o atual governo (o que geralmente acontece em revoluções), se tornarem-se menos globalizados ainda (difícil dado que os revolucionários são bem burgueses no geral), se caminharem em direção a bomba atômica, etc; tudo isso teremos que lidar quando as situações se apresentarem.
No momento, eu tenho a máxima de aplaudir sempre que um povo se levanta de modo tão corajoso contra a tirânia; eu apoiaria, por exemplo, a revolução Russa enquanto ele ocorria e seria logo crítico de suas consequências.
Pessoal sabe como eu desgosto de Hugo Chávez, mas eu apóio o modo como ele voltou ao poder depois de ter sido tirado à força.

No momento a minha aliança é com a democracia. Se o governo democrático é de esquerda ou de direita, pouco importa. Se os verdes, após a revolução, foram democráticos e tomarem decisões que me desagradam, eu estarei muito feliz por aquele país. Assim como o meu governo democrático toma muitas decisões que me desagradam e ainda assim eu estou muito feliz pelo nosso Brasil e não o trocaria por nenhuma tirânia que concordasse comigo (há, claro, quem declara "tirânica" qualquer legislação que discorda. Gritar "fascismo" de modo paranóico dessa forma é um desserviço, pois nos anestesia e nos impede de perceber o fascismo quando ele chega de fato)

Os iranianos estão sendo assassinados na rua, lutando em nome da democracia. Essa luta é nossa. Não cabe a nós oferecer apoio se não há um pedido explícito (houve no Vietnã, por exemplo), mas se tudo que podemos fazer é assistir, então há um certo dever em admirar a história quando um grande evento se apresenta.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Compaixão


Compassion and Caring por Dale Wicks

Há algo de inescapável na solidão.
Toda alma traz, dentro de si, o todo do universo.
Em algum local atrás de seus olhos e simultâneo a seu cérebro, está a capacidade de transformar a força cega e indiferente que compõe o mundo em coisas dotadas de significado, mesmo que ausentes de sentido.
Em cada alma há uma constelação incrível e de sensações e conceitos; relacionados de acordo com ainda outra incrível constelação de formas e regras.
Ainda assim, é como se cada alma, cada local atrás do olho, está preso em uma caixa. O ato de transformar o todo do universo em sentido é um ato universalmente solitário.
Os outros realizam o mesmo processo dentro de seus locais atrás de seus olhos, mas cada alma é uma interpretação do mundo, por semelhante que seja, no nosso universo vive nós apenas e por importantes que os coadjuvantes sejam, estão fadados a serem apenas coadjuvantes.
Toda vida é um monólogo com interlocutores fantasmas.

A inevitável solidão advinda precisamente do modo como nos compartilhamos com o mundo é acompanhada ainda do modo como esse mundo se revela para nós:

O mundo é uma constelação de fatos sem sentido e sem propósito experimentados em um corpo que se tornou o que é por ter sobrevivido e que sobreviveu por sua capacidade de impulsionar-se aos seus desejos e tal impulso é o que chamamos de "sofrimento".

Criamos universos em corpos que adquirem suas energias do sofrimento. O sofrimento da fome nos faz buscar alimentos, o sofrimento da abstinência sexual nos faz reproduzir, todo tipo de sofrimento abstrato, o sofrimento por não ser importante o bastante, não ser competente o bastante, não ser rico o bastante, por querer alcançar o prazer futuro, por não satisfazer o que os coadjuvantes esperam do ator principal; toda ação é causada por sofrimento.
O sofrer não só é o constante do viver, mas ele confunde-se com o viver; sem o sofrer, a vida torna-se uma impossibilidade. É pelo sofrimento que se dá a propagação e manutenção da vida e é pelo sofrer que o fim do sofrimento se mostra como algo terrível. Sofremos com a morte, pois sofrer é vida.

Tudo o que vive sofre incessantemente enquanto vive.

Presos em seu universo particular, o homem criou constelações incríveis de conceitos para lidar com o modo como o mundo lhe aparece; tentativas das mais diversas de prometer o fim do sofrimento.
Presos em algum lugar atrás de seus olhos, tudo o que homem pode almejar é a mentira do fim do sofrimento.

Se criamos o universo em algum lugar atrás de nossos olhos e simultâneo a nossos cérebros, é com o todo de nossa vida que o sofrimento se manifesta.
Se com os nossos olhos nós podemos apenas presenciar a vida alheia, é pela vivência que há algo que pode ser sinceramente chamado de compartilhação.

Compaixão é sofrer o sofrimento do outro, não pelo ato egoísta de imaginar-se sofrendo o sofrimento alheio, mas pelo compartilhar da vida.

Se é pelo sofrimento que temos vida, é pela compaixão que compreendemos que o outro também tem vida e é por essa compreensão que escapamos da antes inescapável solidão. Recusar-se em compreender porque o outro sofre, até exigir que ele não sofra, é recusar-se a fazer parte da vida do outro, é exigir que ele seja expulso de sua vida.

Não há, no outro, respostas possíveis, não há, no outro, sentido ou propósito ou justificativa ou promessa de fim de sofrimento. Essas são as propostas dos egoístas e mentirosos.
O outro não nos oferece salvação ou redenção, mas nos oferece compreensão e companhia.
Nesse único verdadeiro ato de doar-se, a compaixão nos oferece um caminho para o universo do outro, onde temos o momento raro e precioso de vislumbrarmos outro ponto de vista.

Na compaixão adquirimos compreensão sobre a vida em si, realizando uma série de coisas que compreendemos como bem: alcançamos uma verdade, ajudamos a aliviar sofrimento, abrimos as portas da comunicação, da tolerância e ganhamos ajuda no projeto de fazer o mundo um lugar, num geral, melhor de se viver.

É impossível haver compaixão em quem está impregnado pela promessa de um tipo de existência sem sofrimento, seja nessa vida ou na próxima; desses conseguimos apenas mandamentos, exigências, deves e não-deves, toda uma série de coisas para que o universo particular do outro cumpra as exigências daquele que tem a resposta para o tal fim do sofrimento.

Mas compaixão não é resposta, não é sentido ou propósito, não é justificativa, nem salvação ou redenção.
Compaixão é companhia e companhia faz bem.

segunda-feira, novembro 02, 2009

O Edifício



Empire State Building

"Enquanto eu envelhecia e acumulava memórias. Eu passei a ficar mais perceptivo em relação ao desaparecimento de pessoas e marcos. Especialmente problemático pra mim eram as remoções de prédios. Eu sentia que, de alguma forma, eles tinham algum tipo de alma." - Will Eisner

Um sinal de que a civilização estava caminhando inevitavelmente para o niilismo é a mera quantidade de sistemas filosóficos a partir de Descartes que propuseram-se como um fundamento.

Uma dica para entender história é que, num geral, algo que é repetido muitas vezes é algo que incomoda. Então se em determinada época fala-se muito de virtude e nobreza é porque as pessoas, num geral, precisam ser ensinadas a ser virtuosas e nobres. Ninguém perde tempo escrevendo sobre aquilo que todo mundo já sabe.

A modernidade, como entende Habermas, é uma constante busca por autonormatividade; isso significa, basicamente, que quando se perde a confiança na capacidade da tradição em dar respostas - e isso acontece porque é tradição é de fato incompetente - nós podemos olhar apenas para o presente e para promessas de futuro.

Então a metafora que você vai ver de novo e de novo na história da filosofia moderna é a do edifício. Não há só a confiança de que a tradição é incompetente na hora de dar os fundamentos de um edifício, mas há um medo enorme de que o que você proponha no lugar também seja insatisfatório, o que vai se amplificando século após século, com fundamento fracassado após fundamento fracassado.

O iluminismo é uma espécie de supernova nesse sentido. Há uma explosão de luz que consome a si própria deixando apenas um buraco negro no lugar.

Nós somos o buraco negro.
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Quando uma pergunta sobrevive muito tempo, uma boa estratégia é geralmente tentar se lembrar porque ela está sendo questionada em primeiro lugar.

Porque precisamos de um fundamento?
A resposta é sempre que o fundamento garante que a promessa seja cumprida.
A metáfora do prédio é sempre assim: se nós não fizermos um fundamento seguro agora, lá na frente vai desmoronar tudo de uma vez.

O que eu tenho a criticar nisso é que nossa amostragem foi falha. Os filósofos da modernidade ainda estavam mesmerizados com a queda da cosmologia aristotélica, que estava recheada de entulho cristão, assim, o que acontece é que de fato tinhamos um edifício, em seu fundamento estavam Platão, Aristóteles e São Paulo e esse prédio veio abaixo e nós bem sabemos o quanto dói quando prédios caem.

Um edifício é um simbolo de solidez e de sobrevivência. Will Eisner fala que os prédios tem algum tipo de alma, eu vou mais além e digo que os prédios são um tipo de alma, no sentido simples e tosco de que eles transcendem nossa vida, são habitações humanas criadas por seres humanos indiferentes à seus criadores.

Quando um edifício cai, a primeira reação é tentar reconstruí-lo, até que percebemos que a reconstrução é fútil. Aquela alma já morreu. Ela não vai voltar.

O primeiro grande edifício de nossa civilização durou mais de mil anos. Alguns séculos são de fato necessários para percebermos a futilidade de reconstruí-lo. É verdade que utilizamos diversos de seus tijolos, quando eles são úteis, mas algo de interessante ocorreu enquanto tentavamos construir prédios: fizemos uma cidade.

Grandiosa, decadente, confusa, eficiente. Vivemos nela sem perceber sua grandeza porque ela é tão cotidiana, mas basta um céu nublado e um coração quebrado o suficiente para nos fazer parar de correr pra lá e pra cá tempo o suficiente para olharmos para cima.

Os nossos prédios são grandiosos.
E belos.

A cidade, diferente do prédio, não pertence a um arquiteto, não é fundamento para crescimento (ela cresce desbravando a natureza), ela cresce da maneira que pode, alternando-se entre planejamento central e desorganização, entre lei e crime, entre prosperidade e recessão. Na cidade há catedrais, universidades, laboratórios, bordéis, cinemas, etc; edifícios de todo o tipo, feitos para as mais diversas funções e todas essas coisas fazem parte do mesmo conjunto, mas cada parte permanece uma parte e uma cidade é superior a um prédio porque, como nós também bem sabemos, a cidade sobrevive quando o prédio cai.

Se o edifício é um tipo de alma, a cidade é o corpo eterno habitado pelas infinitas almas mortais.

O problema da busca por fundamentos, em primeiro lugar, pareceu ser de que sem um fundamento, estariamos frágeis; mas de novo, isso foi um problema de amostragem. O problema não é que tinhamos um fundamento frágil, o problema é que estavamos dependentes de um único fundamento e aconteceu de ele ser frágil.

O modo como nós, quase que sem querer, conseguimos nos defender desse problema é que, criando vários edifícios, com vários fundamentos, podemos sobreviver à várias quedas, enquanto pensamos em como construir outro edifício, dessa vez melhor.

Nós não precisamos de uma metafísica que sustente uma física que sustente uma ética que sustente uma política.

Nós temos o edifício da metafísica, o da física, o da ética, o da política.

Quando a metafísica falha, as pessoas correm se refugiar no edifício da física, fingindo, por exemplo, que o big bang é uma resposta satisfatória, enquanto trabalhamos no edifício da metafísica.

Quando a ética falha e as pessoas são simplesmente desmotivadas ou ignorantes em relação ao bem, podemos nos refugiar no edifício da política, das leis, de uma constituição.

É claro que isso às vezes leva a catastrofes. Esquecemos que uma moradia é temporária; acreditamos que toda metafísica está morta (e não apenas aquela metafísica dos que já tiveram seu edifício derrubado), acreditamos que toda ética não tem solução; apenas porque estamos temporariamente no edifício da física e da política.

Isso leva a biologia a fazer juízos sobre essências, almas, livre-arbítrio, etc; isso leva a política a definir o que é o bem e o mal e aí um problema é que isso vai nos levando a, mais uma vez, aglomerar tudo novamente em apenas uma edifício. Aí quando o edifício enlouquece, o caso clássico é o nazismo, onde uma filosofia biologista definiu conceitos éticos baseado em um tipo de nacionalismo; não há para onde fugir.

Outro problema é que isso simplesmente atrapalha especialização, que é o modo que temos construído nossa cidade em primeiro lugar. Metafísica é um caso interessante aqui porque é um prédio tão frágil que todo mundo acha que pode entrar e fazer melhor do que o metafísico.

O exemplo mais clássico é a igreja. Habitantes de catedrais não podem ver uma cabaninha metafísica abandonada que logo procuram um lugar para colocar uma púlpito. Eles agem como testemunhas de jeová em domingo nesse sentido. Batem na porta, dizem que respeitam suas crenças, mas que querem falar sobre jesus. Quando você menos percebe, eles "esqueceram" uma bíblia no seu sofá e semana que vem voltam para pegá-la.

É claro que a pobre cabaninha da metafísica não é construída, como que podemos trabalhar quando temos evangelistas tocando a campainha há cada cinco minutos?

Isso é simples falta de etiqueta, você não vê o metafísico indo para o quintal de uma catedral acampar no quintal; como diz Schopenhauer: "filosofia é essencialmente sabedoria-de-mundo; seu problema é o mundo. Com isso apenas deve se preocupar e isso deixa os deuses em paz; mas em retorno por isso, espera que eles a deixem em paz também".

O biólogo não tem as ferramentas para juízos acerca do problema da existência, dos universais, do livre-arbítrio, etc; embora muito apreciamos quando podemos trocar conhecimento; assim como o teólogo também não tem essas ferramentas, senão roubadas de nosso pobre casebre. Assim como o metafísico não pode falar sobre a unidade de seres oniscientes e onipotentes que são três em um; ele também não pode falar sobre o comportamento de neurônios e genes. Heh, eu sequer sei descrever se é realmente sobre essas coisas que essas pessoas falam, mas enfim, vizinhos chatos fazem parte da vida em cidade.
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O costume da contemporaniedade baseia-se mais em quantidade que qualidade. Ao invés de buscarmos um fundamento sólido buscamos apenas um espaço onde todo tipo de fundamento pode ser testado e, caso desabe, paciência; tentamos de novo.

O nosso limite é apenas o tempo e o espaço. Nossos prédios caem, mas cada ruína é um aprendizado. Não é sequer certo se de fato aprendemos a lição, mas se não somos grandes arquitetos, ao menos somos pedreiros incansáveis.

E é claro que eu admiro os grandes arquitetos do passado, mesmo que deles tenhamos apenas ruínas e tijolos espalhados pelas mais diferenes cosntruções. Mesmo para construir um casebre é preciso alguma arquitetura. O que não é imperativo é o solo firme ou o fundamento perfeito. Seria bom encontrar essas coisas, mas até lá estamos nos virando muito bem, obrigado.

Depois que a primeira grande catedral caiu, nós fomos nos aperfeiçoando na arte de tentar e falhar e nisso nós não conseguimos construir nenhuma outra catedral que se estendesse aos céus e tocasse a Deus, mas como são lindos nossos prédios.

It's gonna take some time to fix this love of mine...

quarta-feira, outubro 28, 2009

segunda-feira, outubro 26, 2009

Amanhã

Desde que eu voltei do FIQ, eu entrei em um pequeno processo de me alienar do mundo. Eu faço isso vez ou outra, quando eu tenho que lidar com algo.
Eu me interesso por esse assunto de niilismo e de um mundo sem deus e sem verdade porque, basicamente, é o mundo em que eu vivo.
Eu quero entender como esse mundo funciona, porque eu acho que quero ajudar um pouco as pessoas que vivem nele. Não é fácil viver em um mundo sem regras sobrenaturais, mas é necessário porque esse é um mundo sem regras sobrenaturais; dada essa necessidade, o que eu vejo de mais comum é simplesmente pessoas vivendo por tentativa e erro.
E quanto mais eu envelheço, mais complicado vai ficando, não só, para parafrasear um dos meus personagens favoritos de sandman, apesar de ter tido tempo de ter corrigido alguns erros, eu também tenho tempo de cometer mais erros; mas ultimamente eu tenho me pego em todos os hábitos que eu vou adquirindo.
Um hábito é um tipo estranho de vício (ou vícios são um tipo estranho de hábito). É um vício que a gente adquire por meio de coisas que dão certos; o problema é que nós não temos como saber se as coisas que fazemos realmente funcionam, se outra coisa que não tentamos seria melhor, se isso só funciona no curto prazo, mas causa danos no longo prazo, etc.
A grande vantagem de seguir uma religião já estabelecida é que, estando aí há muito tempo, a religião desenvolve hábitos que são testados há mais tempo e que são, portanto, mais sólidos do que um moleque de 16 anos ouvindo Pink Floyd e sendo bombardeado pela vida sem nem saber que está sendo bombardeado pela vida.
A grande desvantagem é que, estando aí há muito tempo, a religião também desenvolveu seus hábitos que se tornaram vícios nocivos e que são difíceis de largar simplesmente porque nossa natureza é a de repetir aquilo que aparentemente deu certo.
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Esse pequeno percurso para dizer que eu tenho o hábito de lidar com meus problemas pensando sobre eles. Agindo muito pouco, mas pensando muito. Então agindo tudo de uma vez. Eu nunca adquiri (pois nunca precisei) um hábito de viver os dias mesmo tendo algo me pertubando.
Quando algo me pertuba, eu saio do mundo, deixo ele rodando sem mim e penso a respeito.
Nesse percurso, eu inevitavelmente decepciono pessoas e inevitavelmente acabo sendo alguém pouco confiável.
Dá pra perceber nesse blog, caso alguém acompanhe, que de vez em quando se passam um mês ou outro sem nenhum post e de repente eu escrevo umas coisas legais tudo em um curto período de tempo.
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Como eu disse, hábitos surgem porque eles dão certo e esse meu hábito deu muito certo fazendo meu TCC.
Eu decidi meu tema no final de 2007 e até algum período do segundo semestre de 2008, eu escrevi entre muito pouco e quase nada; tentei começar algumas vezes, mas não estava funcionando. Eu precisava pensar mais.
Até que um dia eu decidi que pensei o suficiente e no período de um mês mais ou menos, eu escrevi as 40 páginas do meu trabalho que acabou recebendo um 10. De longe, eu nunca fiz nada na minha vida que eu me orgulhe mais do que esse TCC sobre conhecimento metafísico em Schopenhauer. Eu tenho bastante orgulho também do Chuva Contra o Vento; feito em outro momento em que eu simplesmente precisava escrever.
O hábito que eu desenvolvi foi o de respeitar o de me acomodar ao meu ciclo mental, ao invés de tentar melhorá-lo em algo mais prático e mais eficiente; mas a verdade é que todas as vezes que eu tentei fazer isso, eu acabei com resultados medíocres e insatisfatórios.

Eu escrevo, sejam quadrinhos ou filosofia, quando meu corpo demanda que eu escreva. Até lá não tem nada que eu possa fazer; eu tentei mudar esse hábito, mas é difícil sair de um hábito que funciona para um que funciona menos, apenas porque o que funciona menos faria de mim uma pessoa mais confiável para os outros e para o mundo em geral.
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Em 2007 me aconteceu um caso clássico de mal que vem pro bem. Uma coisa bem clichê mesmo.
Eu peguei uma DP; em filosofia política, um assunto que eu costumava discutir o tempo todo; em autores que eu considerava fáceis demais para me incomodar, Maquiavel e Hobbes; por meio ponto.

Eu passei pelos habituais estágios do luto, inclusive mentir pro professor no estágio da barganha, implorando pra que ele me desse o meio ponto. Não deu certo, ele acreditou na minha mentira, mas ele não podia mudar a nota sem passar por uma burocracia que poderia prejudicar a carreira dele e bom, eu decidi engolir logo que perdi um ano do que prejudicar um professor muito bom e honesto. Eu mereci aquela DP.

Esse episódio acabou me acordando pro fato que eu precisava estudar.
Não foi só isso, eu sei lá explicar o que aconteceu nessa passagem entre 2007 e 2008, mas o único ano em que eu me senti fazendo uma faculdade de filosofia foi realmente no último ano. Antes disso eu estava tentando ser outra coisa.
Eu até hoje não sei dizer porque eu decidi fazer filosofia, foi meio que parte do hábito de obedecer meu corpo sem questioná-lo demais. Ele queria filosofia e eu deixei ele me levar. Mas nos dois primeiros anos (o curso tem 3 anos de duração; eu estou no quarto por causa da DP) eu não estava estudando filosofia, eu só estava lá.
É claro que eu estava aprendendo coisas, eu sou inteligente afinal de contas, eu não preciso levar a sério ou estar interessado para aprender; é verdade que foi isso que me levou à DP, mas de novo, hábitos são hábitos por funcionam. Eu tive a imensa sorte de que o curso de filosofia é civilizado o bastante pra que você tenha um bom ambiente de aprendizado quando está disposto. Mas até então, eu estava aprendendo coisas muito legais, mas ainda meio que de visita.

Em algum momento, por algum motivo estranho por causa daquela DP, aquilo virou minha vida. Acho que foi a questão de ter sido superado e derrotado. Eu geralmente sou muito bom naquilo que faço, quando algo me derrota, aquilo ganha meu respeito.
E quanto mais eu fui estudando filosofia, mais ela foi me desafiando e mais eu fui aceitando o desafio.
Eu passei 2008 estudando. Pra valer. Em uma faculdade de filosofia. Não só tirando nota e não só aprendendo o que escrever na prova. Mas aprendendo de verdade. De repente aquilo não era mais minha faculdade, era minha vida. Eu me sinto de tal modo incorporado por isso que se eu não fizer eu isso, eu não me sinto no direito de fazer outra coisa.
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Em 2009 eu passei mais um ano estudando e o resultado foi um projeto de mestrado que enviei pra Federal de São Carlos.
Até enquanto eu escevo aqui, eu me pergunto sobre a sabedoria desse post. E se eles lerem? Se algo aqui me faz parecer um péssimo aluno?
Mas eu preciso escrever, eu preciso compartilhar, não com vocês, mas com o blog.
Vocês lerem é o lado péssimo disso na verdade; porque amanhã eu vou saber se eu passei para a segunda fase.
O que significa que eu vou estar em controle de novo.
Até então eu estou esperando para saber se meu projeto foi aprovado ou não. Se sim, eu vou fazer duas provas; uma de inglês e uma de filosofia. De qualquer forma, vai depender de mim ir bem nelas. Se eu passar isso tem uma entrevista, que eu não faço idéia de como funciona, eu espero apenas ter oportunidade de explicar porque meu projeto é importante, porque eu mereço a confiança da instituição e, de forma menos romântica e mais profissional, explicar que conseguir essa vaga marcaria a primeira vez na minha vida em que eu sinto que não estou só sobrevivendo via hábitos porcamente adquiridos, mas vivenciando aquilo que meu ser exige de mim.
E o medo é que se eu não passar, eu vou ter que vir aqui e dizer que não passei e é a internet, alguém vai rir de mim e toda vez que eu entrar nesse blog, eu vou sentir algo terrível; eu vou ler isso e pensar que hoje foi meu último dia de esperança.
Esse é o tipo de aposta que não se faz em público, amanhã já é o dia mais importante e aterrorizante que eu já vivi e eu estou só piorando com esse post. Mas é assim que funciona quando temos o hábito de nos obedecer.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Uma grande mentira de amor


True Identity por PaperMonster

Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
E se ao menos tudo que soubessemos é que somos uma coisa que pensa.
Se ao menos não existissem tantas máscaras.
E máscaras atrás de máscaras.
Acredito que seriamos anjos.
E como tais não existiriamos.
E assim também não haveria sofrimento.

Nossa existência é de tal modo inexplicável e injusta que as mais mentirosas histórias de amor foram contadas para justificá-la.
A mentira é dita com precisão doentia para satisfazer nossas dúvidas e o inevitável senso de injustiça no que percebemos que viver é isso mesmo.
E é uma mentira tão poderosa que mesmo com suas curtissimas pernas, ela é carregada nos ombros dos desesperados e infelizes, deixando em seu rastro promessas vazias e carnificina. O que mais poderia se esperar de uma grande mentira, que é também uma grande história de amor?

Mas no que a mentira foi sendo contada, as pessoas foram acreditando que ela é verdade e logo, como um assassino que acredita ter feito um trabalho perfeito, ela convidou as pessoas para examiná-la.

Assim nossa civilização entrou em uma espiral de sangue e caos enquanto a mentira pedia para ser examinada, mas assassinava quem ousava descobrir que era, afinal, uma mentira.

E outras mentiras foram contadas, outras histórias de amor, com protagonistas diferentes apenas o suficiente para que aqueles que contam as mentiras pudessem chegar à conclusão sempre desejada: o mundo é de acordo com minha vontade.

Ah, se ao menos pudessemos controlar nossa vontade.
Se ao menos pudessemos escolher que realidade vemos.
E isso significa:
Se ao menos tivessemos controle das mentiras que contamos.
Se ao menos a razão utilizada para contar essas mentiras fosse nossa razão.
Fruto de nossa vontade.
Mas quanto dessa vontade é nossa?
E quanto nós somos dessa vontade?

Quase nada.
Quase nada.
Somos sempre quase nada.

Somos muito pouco organizados em uma bela arquitetura.
Somos quase nada capaz da extraordinária habilidade de construir universos.
Se esse tudo que existe em minha alma é tão pouco, o que diremos do nada que existe fora dela?
E se visto máscaras e conto mentiras de amor para que o peso da injustiça não me destrua, quem pode me culpar?
A nossa espécie é apenas triste.
Homens tristes não cometem pecados que eles já não paguem.

E se a verdade é impossível, que escolha temos senão as mentiras?
Então podem respirar aliviados, meus mentirosos.
Vocês estão absolvidos de suas mentiras.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a mentira que eu conto para que vocês não morram.
E eu não quero que vocês morram.
Eu quero que vocês sofram.
Essa é a pena que eu os setencio por toda a carnificina e por todo o ódio de sua mentirosa história de amor.
E eu sou o único juíz que lhes importa nesse mundo.

Essa é a minha mentira de amor.
É esse amor pela humanidade.
Essa espécie triste e mentirosa.
Como eu os desprezo...
Meus amores.

E que tipo de pessoa você esperava que ele fosse?

Do Daily Dish citando uma entrevista com Richard Dawkins.

RD: Okay, do you believe Jesus turned water into wine?

HH: Yes.

RD: You seriously do?

HH: Yes.

RD: You actually think that Jesus got water, and made all those molecules turn into wine?

HH: Yes.

RD: My God.

HH: Yes. My God, actually, not yours. But let me…

RD: I’ve realized the kind of person I’m dealing with now.
-
Ok, pessoal que me conhece provavelmente sabe que eu não gosto do Dawkins, mas, embora o sujeito que o entrevista seja mal educado e passe boa parte do tempo falando de coisas que ele não entende tentando desmoralizar o caráter do Dawkins, esse trecho, em particular, não fez sentido pra mim.

É como o Pascal diz, se você acredita que existe um deus todo poderoso, que ele criou o universo inteiro, que ele enviou seu filho para morrer por nós, etc; acreditar que tal filho fez um milagre ou dois é o de menos.

O sujeito acredita que existe um tal ser onipotente, onisciente e infinitamente boa que criou, do nada, o universo; daí pra "transformou moléculas de água em vinho" é o de menos.
Particularmente, se eu acreditasse em deus eu acreditaria até que Jesus aparece em torradas, porque não? Se eu fosse onipotente, eu total mandaria mensagens aos meus fiéis via torradas.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Conversando com teístas

Do site "Friendly Atheist"

"What has kept me relatively sane in the matter is that I try to focus the conversation on things we can agree on.

I talk about the need for separation of church and state, the importance of teaching kids to question their beliefs and seek out their own answers (Christians, of course, think this will lead them toward faith), the lack of politicians who represent our constituency, why we need to keep forced religion out of public schools, the myriad cases of discrimination against atheists, etc.

I talk about the need for them to take those ideas back to their churches and pastors. They have a hard time saying no to those ideas above. So that’s where I keep my focus.

It’s more important to me that Christians get on board with those ideas than whether they believe in a god or not."

Particularmente, eu não tenho o mínimo interesse em que alguém deixe de acreditar em deus; na verdade, eu vejo lados bons em ter uma religião. A pessoa está em uma comunidade, ela pode exercitar compaixão e caridade, ela tem motivos (legítimos ou não) para agir de forma decente e honesta, etc.

É claro que, sendo ateu, eu vou defender meu lado da questão; religiosos são o tipo de maioria que espera algum tipo de respeito especial sem oferecer nenhum em troca; é difícil dialogar sobre religião porque todo mundo se ofende tão fácil.
Esses dias numa comunidade do orkut, eu argumentava que deus, como entendido tradicionalmente pela filosofia, não podia ser panteísta ou "uma energia"; que deus tinha atributos bem específicos, ele era o criador onipotente, onisciente, racional, infinitamente bom, etc; é claro, disseram que eu queria censurar alguém, que eu era um inimigo da liberdade de crença e tal.

Mas é o orkut. Quem se importa com o orkut?

Mas é um assunto onde as pessoas não sabem como se comportar, em termos de etiqueta, e aqui há um problema que atrapalha mais a questão do que a lógica da coisa.

Eu me ofendo fácil demais porque, bom, nesses dias, no Washington Post, um dos jornais mais lidos e mais respeitados nos Estados Unidos, rolou um artigo do presidente da liga católica dos Estados Unidos em que ele dizia (e agora já não é mais "orkut, quem se importa com orkut?")... bom, eu vou citar, é tão assustador que parafraseando parece mentira:

Nota que quando ele fala em "radicais", ele não quer dizer "radicais", ele quer dizer secularistas, gays, pessoal pró-aborto, artistas ateus; ele não está falando de ninguém jogando bombas ou assassinando pessoas, ele está falando de gente normal com opiniões diferentes das dele.

"Yesterday's radicals wanted to tear down the economic structure of capitalism and replace it with socialism, and eventually communism. Today's radicals are intellectually spent: they want to annihilate American culture, having absolutely nothing to put in its place. In that regard, these moral anarchists are an even bigger menace than the Marxists who came before them.

If societal destruction is the goal, then it makes no sense to waste time by attacking the political or economic structure: the key to any society is its culture, and the heart of any culture is religion. In this society, that means Christianity, the big prize being Catholicism. Which explains why secular saboteurs are waging war against it.

When Jesse Jackson led students at Stanford University in the late 1980s screaming, "Hey, Hey, Ho, Ho, Western Culture's Got to Go," it was a way of undermining this nation's Judeo-Christian heritage. When Yale University returned $20 million to Lee Bass in the 1990s because the faculty objected to its being used to expand its Western civilization curriculum--they wanted multiculturalism--it showed the power of radical secularists.

Sexual libertines, from the Marquis de Sade to radical gay activists, have sought to pervert society by acting out on their own perversions. What motivates them most of all is a pathological hatred of Christianity. They know, deep down, that what they are doing is wrong, and they shudder at the dreaded words, "Thou Shalt Not." But they continue with their death-style anyway. "

continua por um pouco e, fecha com o brilhante parágrafo final:

"The culture war is up for grabs. The good news is that religious conservatives continue to breed like rabbits, while secular saboteurs have shut down: they're too busy walking their dogs, going to bathhouses and aborting their kids. Time, it seems, is on the side of the angels."

Reinaldo Azevedo também chama quem é a favor do aborto de pessoas "pró-morte"; sujeito aqui nos meus comentários (ele vai jurar que não, mas ah, ele sabe que ele fez) deu a entender que eu era a favor de infanticídio por causa do meu vegetarianismo baseado em compaixão, minha mãe acha impossível eu ser ateu porque não é possível um filho tão adorável não acreditar em deus, (não fuma, bebe pouco, não usa drogas, passa o dia todo estudando, é bom com os animais, é bem educado, mesmo se um pouco antissocial e não acredita em deus? Ah, isso é uma fase que ele vive faz uns 5 anos, daqui a pouco passa).

A maior parte do meu tempo como ateu, eu passei debatendo a questão com outros ateus; eu não acho, por exemplo, que acreditar em deus é um tipo de burrice automática, eu acho uma crença bem legítima (que eu não tenho) e que religiosos que fazem coisas ruins por causa de religião, são ou charlatães ou, sim, uma minoria de radicais. A maioria das pessoas que você conhece são religiosas e elas são tão falhas quanto você; siginifica, elas podem ser bem chatas e mesquinhas, de nenhuma forma são santas, mas de nenhuma forma são pessoas cuja ruindade vai além de "ela é realmente invejosa" ou "olha quanta fofoca ela faz".

Nos últimos tempo, eu tenho debatido com teístas; querelas filosóficas a parte, enquanto Bush era presidente, o ateu era só uma figura engraçadinha a se passar o tempo, agora, com a eleição do Obama, que passou por umas 3 igrejas no dia da posse, de repente nos tornamos essa ameaça vista acima.
Somos uma raça de pervertidos sexuais e anarquistas morais querendo aniquilar a sociedade e censurar os religiosos porque odiamos deus e temos medo do "você não deverás", etc.

Eu ainda não me considero nenhum tipo de minoria oprimida, mas vou dizer, estou começando a ficar preocupado, não em ser perseguido, mas em ter que tomar um lado. O que eu sempre briguei com todo ateu é essa mania que alguns têm de tratar religiosos como o inimigo, mas cada vez mais eu me vejo tratado como sendo o inimigo e, tipo, olha pra mim, eu não sou inimigo de ninguém, eu sou só o cara que passa o dia lendo Kant, Schopenhauer e jogando videogame.

O grande triunfo dos cristãos extremistas norte-americanos está sendo esse:

Transformar questões bobinhas em grandes questões (ele não é só um vegetariano que gosta de reciclar e acha que duas pessoas do mesmo sexo merecem todas as garantias legais ao casarem que heterossexuais geralmente tem - eles são O INIMIGO DA CIIVILIZAÇÃO OCIDENTA!) e eles estão cada vez mais criando uma equivalência entre um tipo muito específico e muito norte-americano de conservadorismo econômico (que, num geral, eu concordo) e social (que, num geral, eu discordo) e "Civilização Ocidental", basicamente jogando toda a cultura que começa na Grécia no lixo e substituindo por coisas que Nixon e Reagan defendiam enquanto discursando antes de uma corrida de NASCAR no Texas.

Não é que eu reduza tudo a política, eu reduzo boa parte da religiosidade atual (teísta ou atéia) à política, porque tudo que cristãos fazem hoje em dia é politizar questões; o seu cristão médio vai passar 10% do tempo falando sobre compaixão, caridade, salvação da alma e os mistérios da bíblia e 90% do tempo discutindo como os gays e os negros estão tentando destruir a cultura ocidental.

Não que eles não possam, obviamente, falar sobre esses assuntos, o que me preocupa é que se você me diz que você frequenta a igreja, eu vou deduzir que você é contra as cotas raciais na universidade, que você acha que o BNDES deveria ser limitado (ou até extinto) e que os hospitais públicos não deveriam tratar obesidade. Eu não sei se essa é uma associação que eu deveria ser feita, eu até entendo que junto com uma crença metafísica venha uma política, eu só acho impressionante que seja uma política tão específica, onde eu posso deduzir se você é contra ou a favor dessa lei aqui de 2009 baseado na sua crença.

Numa nota mais particular, acho interessante notar que sempre que eu faço um post sobre esse assunto, nunca é pra dizer que deus não existe, é só pra reclamar que os religiosos estão próximos demais de um grupo político a ponto de que não dá mais para diferenciar crença em deus e crença em Nixon. E sim, Nixon! Não estou nem falando de Hume, Locke, Montesquieu, Adam Smith, Rousseau (a interpretação liberal), mas sim Nixon.

É só, de novo, ler o texto do *presidente* da liga católica: ele não está defendendo grandes ideais, ele está defendendo a proibição de casamento gay e escolas levemente menos seculares, mas ele está defendendo essas coisas como se fosse a grande salvação da civilização ocidental. Ele não está casualmente dando a opinião dele sobre duas questões, ele está transformado aquilo que será votado no meio do ano que vem nas eleições para o senado norte-americano na grande luta dos católicos que seguem a grande civilização que teve origem quando Tales de Mileto disse: "É água!" e é assim que Nixon se tornou o mais importante comentador contemporâneo de Santo Agostinho.

Isso me preocupa.

segunda-feira, outubro 19, 2009

quinta-feira, outubro 15, 2009

House

Assistindo essa temporada de House - e quase gostando, o episódio mais recente, com o time clássico resolvendo um problema interessante, foi quase bom - eu estou começando a desenvolver uma teoria sobre qual é a direção da série e, sendo esse meu blog, qual é a relação disso comigo.
-
House é uma série interessante porque um monte de gente que assiste gosta de se comparar com o personagem principal. É verdade que alguns levam isso a sério demais, mas, num geral, esse é um efeito comum e a justificativa pra isso é bem razoável.

House é mal humorado, faz o que quer e todo mundo tem que engolir as esquisitices dele porque ele é o melhor. Quem não quer ser assim?

A questão é que, por desinteressante que os episódios particulares sejam, eu estou muito satisfeito com a história que a série, como um todo, está contando e eu gosto de me perguntar como que os fãs que se indentificam com o House estão reagindo ao tema que basicamente começou na quarta temporada, se eu não me engano, que é quando ele começa a procurar um novo time.

As 3 primeiras temporadas de House montam um misto de Super-homem da DC Comics e Super-homem do Nietzsche.

House é o cara que cria as próprias regras, que tem os próprios valores, que vive sozinho, que tem que lutar contra a maioria, mas que consegue porque ele é oh, tão forte (<- super-homem do Nietzsche), ele consegue fazer isso não pela força de seus valores, não porque ele é ateu, racionalista e misantropo, mas porque ele tem um super-cérebro, ele vê conexões que ninguém vê, ele é uma enciclopédia médica ambulante e ele salva vidas (<- super-homem da DC comics).

Nós, o público, queremos ser o primeiro super-homem, mas por nos faltar as habilidades do segundo super-homem, geralmente fracassamos. Mas como vemos o mundo como refletido pelos nossos desejos, nós temos a tendência de pensar que House é especial não pelo motivo que seria óbvio - o sujeito é mais inteligente do que qualquer ser humano pode ser - mas pelo motivo que nós nos indentificamos - ele cria as próprias regras.

Mas, como já dito, para House ter a liberdade de criar as próprias regras, ele precisa de seus super-poderes. House não tem toda sua liberdade porque ele acha a resposta 70% das vezes, mas porque ele acha 90% das vezes. E não porque ele realmente estudou ou realmente trabalhou, mas porque ele olha pra camera, mexe os olhos como a feiticeira mexe o narizinho e *plim*, eis a resposta. Isso é algo que ninguém mais no universo consegue fazer e, com essa qualidade, ele consegue se tornar "idemitível" e, assim, ele consegue subverter as regras da sociedade.

Você, leitor, não consegue balançar os olhinhos com uma trilha sonora legal de fundo, então você, leitor, não tem o principal do House.
Nós somos pós-modernos, até os conservadores entre nós; nós vivemos em uma sociedade razoavelmente sem regras, então quando você monta o seu conjunto de valores, é quase certo que você estará contra alguma maioria.

Eu costumo brincar que nunca conheci alguém que não fosse um revolucionário; o fato é que eu nunca conheci ninguém que se dispõe a falar de "coisas sérias" que não acha que a "grande mídia" está contra ele.
É claro que todo mundo está torcendo pela falência dos jornais, nós temos um mundo com tantas e tantas opiniões e um determinado conjunto de opiniões é uma colcha de retalhos tão fragmentada que é difícil pensar que o sujeito que lê as mesmas coisas que você e vota nos mesmos políticos e frequenta a mesma igreja e os mesmos bares vai concordar com tudo que você diga; quanto mais o colunista. E como todo mundo discorda dos colunistas pelos mais variados motivos, todo mundo se sente perseguido e injustiçado pela "grande mídia".

Entra o House.
House, nessas primeiras 3 temporadas (eu estou assumindo que o arco do reality show começa na quarta, não quero perder o trem de pensamento pra ir pesquisar) é o sujeito cuja opinião conta. Dada a variedade de opiniões, muitas de nossas opiniões enfurecem alguém, mas no dia a dia temos que lidar com isso. House não precisa. Ele diz o que ele acha e, pelo seu super-cérebro e olhinhos mágicos, ele tem o poder de se fazer ouvido sem precisar ouvir.

Essa não é a série que vemos na televisão, nem nessas 3 primeiras temporadas, muito menos nas mais recentes, mas essa é a série que nós, carentes de poder, lembramos de ter assistido.

Se eu for perguntar na palavra mais repetida na série, alguém pode responder "idiot", de todas as vezes que nosso super-homem fez algo que gostaríamos de fazer e se saiu bem (chamar alguém de idiota); mas eu lembro da palavra "miserable".

É verdade que House é um gênio, que é bem pago, que a Cameron ama ele e quando ela casou, a Cuddy passou a amar ele; é verdade que ele faz o que quer, que ele não lida com as consequências dos seus atos, etc.
Mas é também verdade - e isso a série precisa o tempo todo reforçar porque se não o faz por um segundo nós nos perdemos na nossa fantasia particular do super-herói - que ele é infeliz.

Eu tenho essa relação engraçada com felicidade - e enquanto as pessoas se relacionam com House por ele ser um gênio, eu me relaciono com ele por ele ser infeliz - e essa "relação engraçada" é que não importa o quanto eu seja bem sucedido e o que eu faça de certo, eu acho que minha vida é um fracasso porque eu sou infeliz - e aí eu acabo achando que todas as pessoas que me antagonizam - as que sabem menos, as que são menos inteligentes, menos talentosas, tem um futuro mais sem graça, um presente mais medíocre, etc; eu tenho a tendência de achar que todas essas pessoas são vitoriosas, porque ao menos elas são felizes e se elas estão contentes e eu não estou, elas fazem algo de certo que eu não faço.

E exceções à parte, essas pessoas, num geral, são, de fato, menos inteligentes e talentosas e suas vidas são mais sem graça e eu não trocaria minha vida, conquistada com o sacrifício da felicidade, pelas vidinhas medíocres e bestas dessas pessoas; ainda assim, as coisas caem sempre numa questão de escolha:
É uma espécie de barganha com o diabo.
Eu troquei minha felicidade pelos prêmios todos que tenho; fica a pergunta se eu fiz um acordo correto.

É claro, que tais coisas que eu tenho não chegam perto de serem o super-cérebro do House, então não é nem como se eu estivesse conseguindo com muito sucesso impôr meus valores sem desafios como ele faz.

O que começa a acontecer a partir do momento em que o Cameron, Chase e Foreman desencanam do House é que a infelicidade dele começa a ganhar mais espaço que seus super-poderes.

Ele está procurando outro time em um reality show porque ele *realmente* precisa de 3 assistentes ou porque ele precisa se cercar de pessoas, apesar da misantropia? Lembram como toda uma temporada o tema era como ele se esforçava pra espalhar a miséria dele por aí? Tentando sabotar o relacionamento do Wilson, o filho da Cuddy, o casamento do Taub, etc; tudo com alguma justificativa e tal, mas no fim, House cada vez mais se torna só um velho triste aporrinhando os outros e todo o grande problema karmico da śerie (pra ficar no tema do episódio mais recente) é que ele tem um super-poder que impede que ele seja punido. Se ele não está sendo punido, ele não está aprendendo e os poucos que tentam se levantar contra ele acabam sendo dizimados pelo quão incrivelmente indispensável ele é para o hospital.

O que acontece é que House, o super-herói, continua salvando vidas de estranhos que ele não se importa, mas o preço que ele paga por isso é a destruição da vida dos poucos que ele se importa, inclusive da própria.

O resultado disso é a morte da Amber e, depois, a loucura.

Como eu disse, os episódios particulares dessas últimas temporadas poderiam ser muito, muito, melhores; mas a história é linda.
Basicamente o que está sendo contada é uma história de redenção e eu não sei bem como os fãs vão reagir porque pra eles o legal do House não é ele ser uma figura trágica, alguém cujo super-poder traz um tipo de super-sofrimento, mas sim alguém simplesmente com um super-poder.

Então quando essa temporada começou, ao final do primeiro episódio, eu me peguei torcendo para que House seja feliz, mesmo que isso signifique que ele perca seu super-poder. Como os deuses da televisão ditam que essa é uma série sobre dramas médicos e não culinários, a resposta psicológica para ele é continuar sendo o super-médico, mas como esse episódio indicou, em uma cena muito rápida, mas muito importante; isso é muito, muito complicado.

Enquanto o House está só mantendo seu super-poder ocupado sob a ilusão de que ele não tem nenhuma responsabilidade, a vida é linda, ele é quase o House que nós fantasiamos que ele seja, mas aí vem o Chase - que é um personagem incrivelmente interessante porque a falta de personalidade dele permite que ele pegue até o House de surpresa - vem e diz que se ele pretende fazer parte dessa equipe, ele não tem escolha senão liderar, seja oficialmente ou não. E aí vem o lance: se ele volta à vida de antes, volta também o sofrimento e o House da temporada atual, que é o House pelo qual eu estou torcendo, quer cada vez menos ser um super-herói e cada vez mais ser feliz.

Alguém dirá que esse é um gesto de fraqueza, mas a pessoa que diz isso provavelmente já é feliz, com a dose de sofrimento que vem necessariamente no ato de viver e, não tendo que suportar a infelicidade do protagonista, não entende porque alguém largaria o poder, a genialidade, o status, etc; como o meu desejo não é ver o protagonista ter talento, mas sim felicidade, eu estou curioso pra saber o que a série vai mostrar.

A verdade é que House está perto de ter alguma paz de vida, ele quase conseguiu por meio da culinária, mas essa ainda é uma história trágica; para ele ser feliz ele terá que fazer inevitavelmente muito parecido com aquilo que ele faz que traz infelicidade.

E aqui estou eu torcendo para que ele consiga.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Inferno



Estou lendo a saga "Inferno" da Marvel de 1989. A história por enquanto tem lidado com uns temas interessantes de corrupção e vingança (como tem que ser em qualquer história sobre o inferno).
Acima, a invasão começa.
Illyana Rasputin, a doce e maltrada irmã pequena de Colossus, inadvertidamente sacrifica mais um pedaço de sua alma para conseguir controle do limbo e, ao fazer isso, abre as portas para a invasão demoniaca, cortesia também de Madelyne Prior, clone de Jean Grey e mãe de Cable, que acaba de assinar um pacto com o demônio para conseguir o filho de volta. Ei, que mãe não faria isso?

Eu particularmente gosto de como a cena é dinâmica, logo na página anterior estávamos no limbo, um lugar basicamente sem vida (e sem cenário exceto uns montinhos de terra), com Illyana e os novos mutantes (é possível não se apaixonar pelos novos mutantes dos anos 80?) lutando contra demônios em close up. De repente, bam! É Nova York e chovem demônios!

sábado, agosto 22, 2009

Meus amores.



Por tudo que eu consumo de ficção, não sei se alguma vez eu me apaixonei por um personagem fictício, ainda assim, eu nunca me apaixonei por alguém real.
A menina de óculos incapaz de maldade, a menina que incondicionalmente gosta de mim, a menina que lê Schopenhauer, entre tantas outras meninas que já passaram pelo meu coração e pela minha cama, nenhuma delas existiu.
Escondido em algum lugar de meus amores sempre havia uma pessoa de verdade.
E como é difícil amar as pessoas.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Levando textos à sério.

Um tempo atrás no blog eu escrevi como que religiosos e seculares começavam a parecer tribos distantes, com dificuldade de comunicação.
A hermenêutica de uma época com tal pluralidade de opinião como existe hoje é algo complicado. Não é só uma questão de entender o contexto político e social do texto, mas é preciso também, algo difícil para um contemporâneo, entender o outro.
Digo que é difícil para o contemporâneo porque, para quem está no futuro olhando o passado, todos os lados são "o outro", mas hoje não. Hoje somos alguém, temos uma opinião, tendo uma opinião, temos nosso vocabulário e nossos clichês, nossos axiomas e nossos argumentos irrefutáveis, nossas verdades eternas. Já o outro... O outro também tem essas coisas, mas é uma bagunça.
A pior coisa de ler um texto de nicho é o sentimento de "what the fuck?" que acontece. Sabemos que há um abismo na comunicação quando o que é senso comum para o outro é uma completa falta de lógica para nós. Não só é incomum, como não faz sentido. A relação não existe. O esforço para fazê-la é imensa. Ainda assim, eles o fazem com naturalidade.

Me refiro aqui a um texto que um amigo postou no blog dele.
O que me incomoda com o texto é que eu não discordo dele, mas ele não faz o menor sentido. Ele foi escrito para o outro.
Sobre aquecimento global, eu tomo a posição cética. Existem cientistas falando que há o aquecimento e cientistas falando que não há. Existem forças políticas interessadas na propaganda de que o aquecimento é real e existem forças políticas interessas na propagande de que não é.
É um debate com ruído demais, eu suspendo o juízo.
Suspendendo o juízo, eu adoto a posição segura, tipo Pascal.

Se poluição estiver destruindo o planeta e eu não fizer nada, toda a vida na terra será extinta.
Se poluição não estiver destruindo o planeta e eu não fizer nada, tudo continua igual.
Se poluição estiver destruindo o planeta e eu fizer algo, eu faço minha pequenina contribuição para impedir a extinção de toda vida do planeta.
Se poluição não esitver destruindo o planeta e eu fizer algo, no mínimo estou contribuindo pra qualidade do ar.

A noção de que eu prejudico o mercado de carne ou automóveis com minha vida levemente ambientalista não é uma crítica ao ambientalismo e sim ao capitalismo. Se eu estou tirando o emprego do seu João que mata vaquinhas, eu estou dando emprego ao seu Carlos que planta alface. Se eu estou tirando emprego da GM que vende carros poluidores, eu estou dando emprego à Sony com seus videogames aprovados pelo greenpeace. Por aí vai.

Voltando ao tema do post.
Eu concordo, por exemplo, que esse debate assume um tom assustadoramente apocaliptico e que isso pode bem ser mera "scare tatics" para que as pessoas votem em candidatos ambientalistas. Algo do tipo "vote em mim ou o planeta explode!"
Aqui a questão merece ser estudada com maior cuidado. Evitar usar o carro por ambientalismo é diferente do que votar em um candidato que pode colocar restrições em uma indústria gerando desemprego.
Então eu concordo com o texto que nós temos que ficar atentos sobre quem faz essas previsões apocalipticas, quais são seus interesses políticos, o que eles tem a ganhar com essa versão dos fatos, etc.

Se eu concordo com o texto, porque ele não faz nenhum sentido pra mim?
Porque ele não foi escrito pra mim.
Na verdade, é meio desonesto eu vir aqui e escrever um post a respeito ao invés de comentar no blog dele, mas enquanto eu escrevia o comentário lá, eu pensei que o que eu estava criticando era que o texto colocava religião em lugares que não fazia sentido, mas o blog dele *é* sobre religião. O errado por criticar um texto religioso naquele blog seria eu, mesmo que o texto não faça sentido.

Vamos ao texto.
Antes de começar, uma observação engraçado. O texto começa graciosamente falando de Aristóteles. Isso é uma piada de nicho. Do mesmo modo que a esquerda cita Foucault e Marx pra tudo, a direita iluminada cita filosofia grega e medieval pra tudo. Se esse texto fosse de esquerda, a piada seria algo do tipo 'qual a sua posição em relação ao planeta' e logo respondi 'engajado!'"

Passada a piadinha da introdução, o texto apresenta várias informações interessantes.
Por exemplo, você sabia que o que o ambientalismo, o comunismo e o nazismo tem em comum é o gnosticismo, que é uma recusa em aceitar a realidade, pois a descrença em uma ordem divina faz com que se almeje a criação de uma ordem superior mundana? Pois é amigo, pedir pra você ir na padaria a pé pra que eu respire um pouquinho melhor não é porque eu quero respirar um pouquinho melhor, é porque, assim como um geneticista nazista, eu quero criar o ser humano perfeito.

Você sabia que a origem do ambientalismo é o paganismo e o anti-cristianismo? Não é que pagãos e ouvidores de Enia num geral nutrem de uma natural afinidade intelectual com um movimento político que diz que é preciso proteger as árvores que eles gostam de abraçar, é que um está ligado ao outro e ambos odeiam o cristianismo!!!11!1shift+1

Nesse momento eu estou me perguntando se o autor do texto quer sinceramente que eu o leve a sério. Já é meio esquisito quando o papa se refere ao nazismo como neopaganismo, mas vá lá, um monte de nazistas faziam parte daquela religião de sangue, tinha um monte de gente lá envolvida com misticismo, mas tinha um monte de cristão também. Pessoal podia aproveitar pra irritar seu principal inimigo - o secularismo - e dizer simplesmente que o nazismo era secular, que ele admitia qualquer tipo de doido com qualquer religião, mas por algum motivo, eles decidiram pegar no pé de quem come tofu, então tá, o nazismo é neopagão, que seja.

Aqui o texto entra na sua versão de "scare tatics". Antes o negócio era "se você for ambientalista e estiver errado, não perde nada", agora o negócio é "se você for ambientalista - certo ou errado - você é um anticristão".
O texto vai fazer seus argumentos de porque estão errados, são argumentos que dizem respeito aos cientistas e eu não vou fingir que entendo do assunto só pra puxar sardinha pro estilo de vida que eu escolhi.
Mas *antes* de te dar os argumentos, o texto quer assustar.
Isso é anti-cristão!
É da mesma linha de pensamento do comunismo e do nazismo!
Daqui a pouco eu vou falar de ciência, modelos matemáticos e essa coisa chata, mas antes de fazer você pensar em números eu quero que você pense que se você reciclar essa latinha na sua mão, satanás virá e carregará sua alma imortal para o sofrimento eterno!

E o que me interessa aqui é. Como que um sujeito pretende ser levado a sério fazendo essas relações esquisitas sem nem tentar dar nenhuma prova e simplesmente espera que nós aceitemos assim de graça?
Porque o público alvo dele está acostumado. Esse é um texto de nicho, ele parte do pressuposto de que você lê que o Obama quer assassinar sua avó, que o casamento gay destruirá a família, que os judeus controlam hollywood, mas que temos que apoiar Israel assim mesmo porque é nossa única defesa contra os muçulmanos que são ainda mais cruéis.
Longe de mim dizer que só a direita produz coisas doidas. Passe 5 minutos no CMI (centro da mídia independente) e você vai descobrir que assassinos cruéis estão apenas realizando justiça social, que o plural das palavras ser no masculino é uma opressão misonigista que precisa ser corrigda (a partir de agora o plural de prédio é prédies) e que Cuba e os EUA têm semelhante falta de liberdade política porque a eleição de ambos é indireta.
Mas a questão é coisas doidas não são doidas pra quem está acostumado a ler elas o dia inteiro. Quando o artigo dá uma informação que houve um resfriamento global que cancelou o aquecimento dos últimos 30 anos e diz "alguém leu ou ouviu isso na grande mídia?", ele quer criar um clima de conspiração contra a causa dele. Você sabe, as forças do mal são um exército de Orcs e um olho flamejante no topo de uma torre próximo ao vulcão e as forças do bem é um anãozinho de pé peludo com meia dúzia de gente doida.
Em um contexto normal, é uma coisa ruim que algo não tenha sido dito na grande mídia. Em um contexto normal, significa que a pesquisa em questão não chamou atenção da comunidade científica o bastante pra chamar atenção da mídia, aqui é uma medalha de honra! Parabéns, meu caro, você é baixinho e tem o pé peludo, agora vai lá salvar o mundo, seu grandiosissimo filho da mãe!

Alguma matemática incompreensível para - mas escrita para ser lida por - leigos depois (ao menos pra mim é indiferente, se você diz que a atividade humana correponde a 0,001% da produção de CO2 e depois fala "isso não é nada"; é a mesma coisa que me dizer "isso é catastrófico!"; eu sou leigo, eu sei lá se 0,001% é pouco ou muito) e logo vem de novo a história estranha que ambientalismo é "a nova religião para as populações urbanas que perderam a sua fé no Cristianismo."
Quer dizer que é a nova coisa que praticamos apenas por duas horas durante os domigos e que no resto da semana fingimos dar a mínima pra agradar os idosos da família?

Vale lembrar um detalhe. O blog do meu amigo é sobre religião. A fonte do texto é de um site que não é. É de um site de noticias principalmente políticas.

O problema do texto de nicho é tentar saber qual o propósito da existência dele. Eu acho que é só manter a manutenção de um clima qualquer de senso comum de uma determinada cultura.
Os argumentos que o texto traz é contra o ambientalismo, mas ele é tão de nicho com todas suas referências aleatórias a comunismo, gnosticismo e anti-cristianismo que quem não faz parte dessa cultura que já concorda com o autor antes dele escrever o texto só vai se afastar ainda mais da posição dele. Talvez o cientista que o cara cita é sério, mas como que eu vou levar ele acha que o ambientalismo surge por uma falta de fé no cristianismo? Pra quem é do nicho essa relação faz total sentido, pra eu que não sou, é só conversa de gente doida.
Se o cientista é um cara sério, que bem o texto fez para a causa que ele advoga me convencer que esse cientista sério é uma pessoa doida?
O Einstein era doido de forma bonitinha, ele mostrava a língua e tal. Ser doido dizendo que eu uso uma sacola ao invés de sacos plásticos porque não tenho fé não é bonitinho. Até onde eu sei é que nem dizer que você escuta música alta porque sua parede não é roxa. Veja bem, minha parede é roxa e eu sequer estou ouvindo música agora.
O vitimismo do texto também trai um propósito. Para os outros você não se faz de vítima, para os outros você está certo, seus argumentos são fortes e convincentes. Textos desse tipo servem como um coletivo tapinha nas costas dos participantes da cultura.

Não é como se fossem 3 pobres cientistas desconhecidos contra Barack Obama e Al Gore, como o texto dá a entender, os conservadores norte-americanos detém os programas de rádio de maior audiência e a rede de notícias de tv a cabo de maior audiência do país também. O partido político que passou os últimos 8 anos no poder é, ao menos em teoria, contra o ambientalismo. O partido Republicano tem mais poder nos EUA que o DEM e o PSDB juntos no Brasil. Ser oposição não faz de você um coitadinho desconhecido. Porque o texto compara 3 cientistas com Gore e Obama? Porque não compara esses 3 cientistas contra outros 3 cientistas? Porque não compara Obama com seu concorrente, John McCain, que não ficou tão longe assim da presidência e era fervorosamente a favor de coisas como perfurar petróleo no Alasca e que apoiava a indústria do carvão? Porque não comparar Gore com Bush, um candidato derrotado à presidência contra o concorrente que governou o país por 8 anos, e que passou boa parte de seu mandato enfurecendo ambientalistas?
Faz que sentido comparar a força de cientistas com a força de um presidente e um candidato derrotado à presidência que ganhou quase metade dos votos?
Porque faz parte da narrativa do nicho.

A narrativa clássica conservadora é que há uma batalha entre o leviatã (Estado) e o Livre Mercado.
Por via de regra, o primeiro sempre erra e o segundo sempre acerta.
Então o primeiro tem motivos obscuros e malvados e manipula a mídia e a opinião pública para gerar uma indústria desonesta, bla bla bla; o segundo está intimamente ligado à sobrevivência humana.
De novo, não é o tipo de coisa que eu necessariamente discordo, mas o modo como a narrativa é contada para converter os já convertidos me intriga.
Então, quando a China e a Índia "dizem não" à pactos de emissão de redução de gases, não há interesse político, gente pouco se lixando pra ciência, não há motivos eleitorais, não existem pactos com indústrias e corporações.
É a "realidade econômica", que, de acordo com o texto, é "sem partido".
De um lado nós temos Obama, Gore, Lord Stern, paganismo, anticristianismo, comunismo, nazismo, a falta de fé, o Greenpeace, o comércio do caborno.
Do outro nós temos a ciência, o bom senso e a realidade econômica.

Sim, eu sei, é um texto defendendo um lado. Mas não é preciso ser caricato para defender uma tese. O texto poderia usar os mesmos argumentos e ser levado a sério. Ele poderia falar sobre todos os interesses financeiros e políticos, poderia falar sobre a falta de consenso dos cientistas, poderia dar os dados matemáticos, poderia até esboçar uma sociologia sobre como a falta de religião faz com que as pessoas aderem mais facilmente a tais causas, mas é a narrativa que interessa:

O pensador está vendo televisão, o objeto da grande mídia, que quer lhe convencer a ser ambientalista. Logo ele usa do seu bom humor e Aristóteles para afastar de si essa ameaça.

Logo ele reflete sobre as origens nefastas do movimento. Como ele é o mau, como ele é uma perversão e uma afronta à nossos valores. Como ele é aliado daqueles que foram nossos inimigos em guerras sangrentas.

O movimento também é um inimigo espiritual. Por trás dele há o lucro de pessoas malvadas que censuram e silenciam os bons desbravadores da verdade e da ciência, uns pobres coitados que ousam falar verdade ao poder, mesmo sendo uma luta tristemente desigual.

As provas, demosntradas matematicamente, são irrefutáveis, mas os nosso heróis, pobres heróis, lutam contra monstros. Mas há a esperança, pois se as forças do mau usam da mentira, elas serão sobrepujadas pela realidade e pelo caminho natural das coisas.

Ler um texto de nicho é ler um relato mítico nesse sentido.
Os símbolos fazem sentido apenas se você já é familiar a eles e ser familiar a tais simbolos não é uma questão de conhecimento teórico, mas de convivência em tal meio social.
O objetivo do texto não é apresentar uma nova verdade, mas reencenar um antigo ritual. Todo domingo o católico vai reviver a última ceia e toda coluna de tal autor vai revivar a jornada daquele que fala a verdade ao poder e sofre por isso.
Se eu fosse um deles, eu poderia até dizer que essa é uma consequência de fé no cristianismo, que na falta de crença em santos mártires, essas pessoas precisam reencenar seu próprio pequeno conto de martirismo cada vez que um de seus cientistas tem o relatório ignorado por uma agência governamental, mas eu não vou fazer esse tipo de relação.

Só quero apontar o fato que esse é um tipo de texto que causa mais ruído que esclarecimento. Há um debate aqui e ele deve ocorrer. Muitos dos argumentos do texto são bons e devem ser levados a sério, mas o objetivo do texto não é apresentar bons argumentos, mas sim dar um tapinha nas costas do seu público e dizer "não se preocupe com o que os outros falam, você está certo, leia o meu texto e confirme aquilo que você já sabe".
O problema é que isso causa um isolamento de tal comunidade, no fim, é uma fuga que não faz bem a ninguém.
Você pode até não gostar da minha opinião, mas não é uma boa idéia desaprender a falar minha língua.

quarta-feira, agosto 12, 2009

E quem protege o presente?

Oh, como é desprotegido nosso presente.
De um lado há os que acreditam que o presente fracassou em cumprir promessas do passado. E que por isso deveríamos rever essas promessas e voltar a um passado que nunca existiu onde tais promessas não foram feitas.
Eu concordo que promessas não foram cumpridas. O iluminismo não trouxe tantas respostas quanto prometeu. A democracia não é tão livre quanto prometeu. O New Deal não salva tantos pobres quanto prometeu. O capitalismo não gera tantos ricos quanto prometeu.
Mas o presente é bom porque ele é o fruto da desilusão. Mesmo quando falha, nenhuma promessa falha completamente.
O iluminismo nos trouxe diversas respostas e, como bônus, assassinou um Deus.
A democracia trouxe uma maior participação na sociedade, sua mera existência impediu muitas ditaduras. Muitos cadáveres bem compreendem a diferença entre democracia e sua ausência. A mudança que alguém, algum dia, precisou morrer para trazer, hoje, nós realizamos simplesmente enchendo suficientemente o saco de um legislador.

Mesmo quando falharam, as promessas trouxeram algo de bom. Quando o iluminismo fracassou, os objetivos de nossas metodologias se aperfeiçoaram. Não é mais uma questão de descobrir toda verdade, mas sim alguma verdade e com alguma verdade, nós sabemos cada vez mais.
Quando fracassa o projeto de saber tudo, inicia-se o projeto de saber ao infinito.

É semelhante quando uma democracia falha. A constante manutenção da democracia impede-nos de cair nas armadilhas da utopia.

Pois há também aqueles que não defendem o presente em prol de um futuro teorizado por uma economia política. Estas são criaturas curiosas. O que eles querem é um mistério, não é sequer uma incerteza; eles estão certos de que buscam esse ideal obscuro. Cada vez que um francês queima um carro, logo eles acham que a revolução que trará o futuro chegou! Pensam no presente não como algo a se viver, mas como uma ponte.
Acho muito boba a busca por um além-homem. Com o atual, nós estamos aprendendo a lidar. Sinto preguiça na noção que terei que aprender uma nova tábua de regras apenas para quebrá-la eventualmente. Prefiro ter minhas regras claras no obscuro bom senso de toda contemporâneidade.

Cada vez que a democracia falha de modo grande, geralmente resultado de uma revolução que busca o futuro que trará um homem mais perfeito, fica mais claro que o futuro pertence a nós, os falhos.
E cada vez que uma democracia falha de modo pequeno, geralmente quando o medo de uma população leva a um desejo de aumentar a segurança, fica claro que democracias são assim mesmo, coisas que falham, que devem ser constantemente reconfiguradas, aos poucos, para melhor atender nossas necessidades tão efêmeras.
A democracia vai e volta, acerta, erra, corrige, comete o mesmo erro novamente, descobre novos erros para corrigir. Mas permanece democracia.
Assim que eu revelo, de maneira mais fácil, um inimigo da democracia: a cada vez que o legislador diz algo que ele discorda, ele grita "fascismo!"
Às vezes, o legislador nem precisa dizer nada. Algumas pessoas tem o talento de se desagradarem com a programação da tv e gritarem "fascismo!"
Igrejas demais em seu bairro? "Fascismo!"
Igrejas de menos? "Fascismo!"
As pessoas realmente gostam de novela! "Fascismo!"
*aiai*
Imagino o que seria liberdade para essas eternas vítimas do fascismo. Provavelmente a escravidão dos outros.

Ao ver tal estado de coisas, me sinto solitário.
Alguns se desesperam porque não entendemos suficientemente bem o passado. Eles acham que é preciso refutar, semanalmente, 4000 anos de civilização, para então podermos falar sobre o presente.
Alguns se desesperam porque não buscamos vigorosamente o bastante o futuro. Eles acham que é preciso resolver, em um banho de sangue só, todos os problemas da humanidade, para então podermos dar ínicio à história.

Me sinto sem contemporâneos.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Eles são a morte.


Lola Cola, de Mel Ramos.


Um ponto grande de diferença entre ditas sociedades primitivas e sociedades modernas é o valor dado ao quanto a cultura é cíclica.
Uma sociedade primitiva olha para o passado como guia para o futuro. Os jovens passam pelos mesmos rituais que os adultos. E se tornar um adulto é se tornar algo razoavelmente parecido com o adulto que o antecedeu.
As respostas para as grandes perguntas estão em histórias contadas pelos antigos e assim vai.
A diferença entre tais sociedades e a nossa é que nós baseamos nossa vida no futuro. Nós não vemos o amanhã como mais um dia, mas como um novo dia.

De acordo com Husserl, a diferença entre os conhecimento técnicos de outras civilizações com o nascimento da filosofia na Grécia é que "só a filosofia grega conduz, através de um desenvolvimento próprio, à uma ciência em forma de teorias infinitas (...) A matemática - a idéia do infinito, das tarefas infinitas - é como uma torre babilônica, que, apesar de seu inacabamento, permanece uma tarefa cheia de sentido, aberta ao infinito; este infinito tem por correlato o homem novo, de metas infinitas".

É verdade que os babilônios eram dotadas de igual ou maior capacidade que os gregos para a astronomia, a diferença é que para os gregos, não era tão importante a noção que o eclipse virá dia tal ou que tal constelação se movimenta nos céus de tal modo, mas a noção de criar um modo de investigação que permita que sempre algo de novo seja descoberto.
Desde Descartes, uma das principais perguntas da filosofia (se não a principal) é acerca de qual deve ser o método científico. Saber como o mundo funciona é importante, mas é mais importante saber como descobrir que o mundo funciona.
Uma descoberta isolada é interessante e útil, o desenvolvimento de um novo método, por outro lado, abre as portas em direção a todo tipo novo de possibilidades.
Uma revolução científica não se dá quando novas descobertas são feitas, mas sim quando o modo como se faz tal ciência deve mudar.
A mudança da alquimia para a química não aconteceu porque descobriu-se o oxigênio no lugar do flogisto, mas porque a descoberta do oxigênio tornava impossível que a ciência alquimista avançasse com os métodos antigos. Desde então vários novos elementos químicos foram descobertos e nem por isso novas revoluções aconteceram.

O que nós, como civilação européia, buscamos, é sempre como nos tornar mais definitivamente inacabados.
É verdade que buscamos a cura para doenças, a paz eterna e a paz de espírito. Mas esses são, espera-se, o efeito colateral positivo do desenvolvimento de um método que traga essas descobertas. Mas nós não temos um objetivo claro. Não há um ponto para onde caminhamos. A civilização européia, nesse sentido, é culturalmente nômade. Atingir um tal ponto só faz sentido se é possível superá-lo.

O projeto, afinal, é fadado a implodir. Se não há um ponto para onde caminhar, como saber se estamos avançando ou regredindo? Sem um fim, as palavras "avançar" ou "regredir" sequer fazem sentido? No fim, a busca acaba se tornando um pouco fútil. A civilização nômade para de andar pelo deserto na busca do próximo oasis e passa a simplesmente vagar no deserto por hábito. Nos tornamos inquietos porque não sabemos ser de outro modo. Como tubarões, tememos que parar signifique a morte. Logo, não só não estamos mais avançando a ponto nenhum, como estamos fugindo da morte. Não sabemos o que fazer, mas nosso instinto de sobrevivência ao menos sabe o que evitar.

Não devemos ser como eles que buscam respostas no passado. Não devmos ser como eles que dão elevador valor à tradição. Não devemos ser como eles que estão acomodados demais em tal método e tal resposta. Não sabemos como devemos ser, mas sabemos que eles são a morte.

O infinito não traz garantias, mas é muito pouco europeu ter garantias.

Cartilha politicamente correta.

Porque eu estou entendiado e sem sono:
http://search.twitter.com/search?max_id=3219657957&page=23&q=danilogentili

23 páginas unânimes de gente xingando os tais politicamente corretos depois, chego na reclamação do racista escroto de que uma piada com o próprio pai morto dele foi mal recebida no twitter (durante 40 longos minutos. A internet está ficando cada vez mais rápida em criar polêmica).
Após a página 23 começam as reações à piada. (dada a velocidade do twitter, quando você ler esse post, obviamente será bem mais que página 23)

Vou categorizar entre twits positivos (RTs e "ri muito com isso") e twits negativos que tenham ou não a ver com a piada. Vou ignorar os positivos que não tem a ver com a piada. Pra podermos monitorar como que a patrulha do politicamente correto está pegando no pé do racista em questão. E ainda vou colocar exemplos dos comentários censurantes e terríveis que ele recebeu.
Eu talvez erre a conta um pouco, pule um ou outro, mas deve dar pra sentir como o coitadinho do racista é perseguido por nós malvados politicamente corretos até quando ele faz piada com o próprio pai.

P. 23 - 7 positivos, 1 negativo ("podia ter ido dormir sem essa, bocó")
P. 24 - 11 positivos, 2 negativos ("Esta foi totalmente sem graça! Cuidado para não ficar igual ao Vesgo.")
P. 25 - 9 positivos, 3 negativos ("piadinha sem graça p tirar com um pai viu...¬¬", [dois desses foram falando: "que triste", eu nem sei se isso é negativo, pois não é ninguém bravo com a piada, é só que o Gentili é tão bom humorista que as piadas dele deprimem algumas pessoas])
P. 26 - 7 positivos, 2 negativos ("porra! sacanagem cara!")
P. 27 - 2 positivos, 2 negativos ("poxa que triste :/ vc me deu oi -q , sou a pessoa mais feliz do mundo *-*" [de novo, ele é tão bom humorista que deprime os maiores fãs dele])
P. 28 - 5 positivos, 4 negativos ("Aiii que Hoorror =x")
P. 29 - 8 positivos, 3 negativos ("meus sentimentos ):" ninguém bravo. Só gente triste)
P. 30 - 8 positivos (nenhum negativo, alguns não rindo, mas simpáticos, esses eu não coloquei em nenhuma categoria)
P. 31 - 10 positivos, 3 negativos ("ca-ram-baaa... essa foi de arregalar o olho... não sei se permaneço chocada ou se explano meus pêsames...")
P. 32 - 9 posiivos, 4 negativos ("não perdoa nem alma penada --'")
P. 33 - 10 positivos, 2 negativos ("Nada haver isso hj, outro dia seria engraçado!!!")
P. 34 - 5 positivos, 5 negativos ("Que maldade..." 3 deprimidos)
P. 35 - 10 positivos, 1 negativo ("como vc consegue ser tao deprimente?")
P. 36 - 2 positivos, 1 negativo ("ai q horror")

Resultado: 103 positivos, 33 negativos.

Desses negativos, eu não vou perder mais tempo contando tudo de novo, mas a impressão que eu tive lendo é que pelo menos metade era gente achando triste. Boa parte dessas pessoas fãs do Gentili tristes porque ele está sem o pai nos dias dos pais. Outras eram pessoas que, bem, acharam a piada sem graça e se ofenderam. Quando eu digo essas "outras", eu estou falando do que? Umas 15 pessoas? 20? E quando eu digo se ofenderam, eu digo mais um "argh, sem graça", teve no máximo umas 10 pessoas bravas.
Danilo gerou reação de umas 140-150 pessoas, com uma piada sobre morte de pai no dia dos pais, cerca de 30 delas ficaram chateadas, bem menor o número de gente que ativamente se revoltou e essa foi a reação do homem que nos pede para sermos mais bem humorados:

"Pessoal, desculpem EU ter feito piada com MEU PROPRIO pai. Eu sou um escroto mesmo. Me avisem ai sobre oq posso fazer piada, pois não sei"

Dos twits que eu citei aqui, ninguém chama ele de escroto, talvez tenha acontecido em um, mas eu meio que citei o que chamou mais a atenção, dado que a maioria é "que triste" e "que maldade", alguém chamando ele de escroto talvez me chamaria a atenção, mas pode ter passado desapercebido.

Então, como o Danilo, afinal, trata os fãs que cometeram o imenso crime de achar uma piada sem graça, sem graça? (já que eu acho que vi no máximo uns 2 twits de gente que parecia não ser fã dele)

"Me ajudem nessa campanha: Cuzoes, parem de me seguir! Espero diminuir meus seguidores com essa!"

Agora, alguém pode dizer: "Mas você não está sendo mal humorado fazendo um post sobre isso?"
Sim, eu estou, mas eu sou mal humorado, olha o resto do blog, eu raramente tento ser engraçado e geralmente eu falho. Eu sou mesmo uma pessoa triste que leva as coisas a sério.
E eu levo racismo a sério e o Danilo foi racista e, quando ele foi racista, um monte de gente apontou e disse: "você foi racista" e ele reagiu chamando vítimas do racismo de idiotas e chamando gente que nem eu (que aparentemente faço parte de uma patrulha anti-bom-humor porque acho sem graça piadas que são sem graça) de idiota.
E o que idiota faz agora?
Bom, ou ele está sendo paranóico ou ele está criando inimigos imaginários de propósito e, de novo, sendo o idiota que é, ele está fabricando polêmica a toa.

O cara tem um programa de tv. O que ele fala é lido por um monte de gente. Ele sente orgulho de fazer piadas "polêmicas" e toda vez que 10 pessoas são ofendidas por uma piada ofensiva, ele entra em modo "estou sendo censurado"?
E o pior é ter que aturar gente dizendo que a patrulha politicamente correta está atrás dele.

Então, olha, eu vou tomar a liberdade em falar em nome da patrulha politicamente correta, porque nós não somos um grupo organizado e se nosso líder é o idiota do Vianna, eu acho seguro afirmar que consigo armar um golpe e tomar o posto de estagiario de relações públicas:

Nós não nos importamos com suas piadas sobre o Rubinho.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre seu pai.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre minha mãe.
Nós não nos importamos com suas piadas sobre o Lula
Nós não nos importamos com suas piadas sobre racismo

Enfim, dá pra continuar essa lista.
Eu vou fazer um resumo então para os idiotas entenderem:

Nós nos importamos com piadas racistas.
Nós nos importamos com piadas homofóbicas.
-
Porque são, na nossa sociedade, as duas minorias que mais obviamente sofrem preconceito.
-
Algumas outras piadas dependem do seu bom senso.
Uma piada sobre um gordo não é automaticamente ofensiva como é uma piada racista, mas pode machucar.
Você pode fazer uma piada sobre gordos para uma pessoa obesa, claro, mas você tem que saber que há o risco de ela não gostar. E caso ela não goste, ela não é um monstro mal humorado que quer te censurar, ela é simplesmente alguém que se ofende com algo ofensivo.
Ninguém é obrigado a gostar da sua piada idiota. E ninguém é obrigado a ficar em silêncio quando acha sua piada idiota, idiota.
Se você tem a maravilhosa liberdade de fazer sua piada idiota - e eu acho que você deva ter - então ao menos tenha o cavalheirisimo de não se sentir descriminado pela sociedade quando as pessoas não gostam.
Eu comentaria o quão irônico que é um branco de classe média se sentindo perseguido e injustiçado pela sociedade após fazer uma piada racista, mas o ridículo da situação fala por si só.
-
Continuando com minha cartilha politicamente correta, que eu particularmente gosto de considerar bons modos e um guia para causar desconforto desnecessário, mas alguém vai chamar de fascismo, porque você sabe, não existe nada mais fascista do que querer evitar a xenofobia:
Uma piada xenofóbica de um paulista sobre carioca é amigavel. Uma piada xenofóbica de um paulista sobre nordestino não é.

A regra simples aqui é: existem grupos de extermínio em São Paulo para cariocas? Um carioca namorando uma moça de familia de classe média paulista fica preocupado com seu sotaque, pois a familia pode respeitá-lo menos? Alguém vai pedir para um carioca usar o elevador de serviço após ouví-lo conversar com o porteiro por assumir que alguém com tal sotaque não pode ser um morador?
Não? Então piada sobre carioca pode.

Por fim, o humor norte-americano nos apresenta uma imensidão de piadas sobre judeus, negros, obesos e gays que nós aceitamos.
Elas também seguem regras simples.
Elas não são piadas sobre X, elas são piadas sobre preconceito X.
Vejamos o exemplo:

Isso:
"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

É racismo.

Isso:


É sobre racismo.

Ambos são humorísticos.
O primeiro a gente não gosta. O segundo a gente gosta.
O primeiro é o tipo de coisa que gente racista grita na rua quando vê um negro com sua esposa loira.
O segundo é o tipo de coisa que fala, de forma humorística, que o racismo está tão impregnado em nossa sociedade que quando um negro atinge a classe alta, ele passa a fingir que não é mais negro.

Veja, sequer o tema das duas piadas é assim tão diferente. Ambas envolvem uma correlação entre cor de pele e classe social.
Mas a primeira ofende, pois ela não comenta o racismo. Ela parte do racismo do leitor como pressuposto, não só isso, ela parte do pressuposto que o leitor faça relações racistas em sua mente para a piada funcionar.
A segunda também parte do pressuposto que o espectador faça relações racistas, mas a graça está, em desmontar tais associações. Em demonstrar como tais relações são absurdas. Está na sociedade rir de si própria, ao dizer "nós somos tão racistas que é esse tipo de cena absurda que nós geramos".

Esses dias li post de alguém dizendo que os politicamente corretos não sabem rir de si próprios. Isso é falso. Eu sou branco e eu dou risada da maior parte das piadas que implicam que brancos são racistas. Eu reflito com essas piadas nas atitudes que eu tomo e, sendo branco e de classe média, algumas dessas atitudes eu de fato tomo.
Essas piadas me mostram o absurdo de eu tomar tais atitudes. Elas fazem eu rir do meu próprio absurdo.

O que eu sei fazer, bem menos, é rir dos outros.
Eu já ouvi histórias demais de gays que foram espancados até a morte em uma região que eu considero "segura" (a região dos Jardins, em São Paulo) para achar piadas homofóbicas engraçadas.
Eu já ouvi histórias demais de gays que viveram anos com alguém e que quando o parceiro adoece é proibido de vê-lo no hospital pela família para achar piadas homofóbicas engraçadas.
E essas são histórias que eu *ouvi*
Tivesse eu vivido tais histórias, eu não acharia tais piadas só sem graça e desagradáveis, eu ficaria bravo e revoltado.
E aí eu teria que aguentar alguém dizendo que eu sou mal humorado. Não é você que é sem graça. Não é você usando um episódio triste da minha vida para fazer pessoas que me impedem de ver meu namorado no hospital dar risada. Não, eu que seria o mal humorado.
-
"Rodrigo, você é a pessoa mais sem graça do mundo: é branco, de classe média, vegetariano, vota no PSDB/DEM, assite o Daily Show with John Stewart todo dia. É impossível te ofender, correto?"

Meio que sim.
As únicas "minorias" que eu faço parte é ser vegetariano e ateu.
Eu não sinto vergonha de falar pra ninguém que sou vegetariano. É absurda a noção de que numa entrevista de emprego, eu teria menos chances porque a pessoa me veria com uma camiseta "não coma as vaquinhas". Quando eu estou caminhando com um grupo de gente na rua comendo couve-flor,a polícia não me para porque eu "pareço suspeito". Afinal, se eu comprar um carro caro, ninguém vai pensar "aquele comedor de alface roubou alguém".
Então vamos adicionar à lista:
"Nós não nos importamos com suas piadas sobre vegetarianos."

Ateísmo é um pouquinho mais complicado, mas bem pouco. Tipo, em festa de familia, eu não me digo ateu com a mesma segurança que me digo vegetariano, mas o assunto "religião" geralmente não surge. E quando surge, eu digo o que sou e mesmo que alguém não goste, ninguém passa a me tratar mal.
Algumas pessoas sofreram sendo ateus em familias evangélicas. Eu meio que lido um pouco com isso no "Eterno". Alguém em algum lugar perdeu um emprego sendo ateu. Mas ódio ao ateísmo é mais a prática de uma minoria do que a prática contra uma minoria.
Mas até aí, eu nunca ouvi uma piada sobre ateu. Eu nem sei como seria. Isso é porque mesmo que não sejamos uma sociedade atéia, nós somos bem seculares.
Imagina alguém dizendo "haha, você não acredita em Deus".
É tipo... ok, não acredito mesmo. Teoricamente os três poderes também não acreditam. Assim como boa parte dos nossos mais ilustres cientistas e artistas. Aliás, eu sempre achei de mal gosto o Dawkins comparar ateus com homossexuais. Eu entendo o contexto que ele faz essa comparação, mas no fim, religião, obviamente, não é um assunto importante para um ateu.
Você se importa mesmo se tiver que mentir pra sua mãe dizendo que é católico? Um gay mentindo pra mãe significa que ele não pode ter uma experiência genuinamente familiar com a pessoa que ele ama. Um ateu mentindo pra mãe é só uma chateação.
-

Enfim, há um último assunto pra tocar. (Eu não acho que eu vou ganhar nenhum leitor novo com isso, mas se acostume, meus posts não são engraçados, nem fazem referências literárias, mas eles são longos. Eu escrevo enquanto penso.)

Eu acho que fiz um bom trabalho (já que ninguém vai ler isso, ao menos eu tenho que me gratificar) mostrando que o Gentili só está sendo um garotinho mimado ao chorar "censura". Mas acho que isso esconde um problema maior.
Que é o de tentar fazer equivalência entre todas as idiotices dele. E estava eu formulando essa teoria quando ela foi comprovada, olha esse twit:

"po cara... Macaco, xuxa agora meu pai. As alternativas pra piadas estao acabando...vou virar roteirista do cqc"

Primeiro o óbvio: o problema não é piada sobre macaco. Adoramos rir dos macacos. Eles bebem o próprio mijo e atiram fezes nos outros. Macacos são ótimos. O problema são piadas racistas.
Depois: da mesma forma que "nós não nos importamos com piada sobre o Rubinho", também não nos importamos com piada sobre a Xuxa.
Talvez se alguém fizer uma pesquisa semelhante à minha com esse twit sobre a Xuxa, vai ver, de novo, uns 70% de pessoas dando risada. Uns 20% dizendo "que sem graça" e uns 10%, fãs da Xuxa, ficando bravos.

Que ele não veja que uma piada racista é bem pior do que uma piada com a Xuxa é um problema gigante.
Uma piada com a Xuxa ou com o Rubinho ofende fãs da Xuxa e do Rubinho. Que são pessoas que tem o direito de não gostar de uma piada. De novo, seria razoável pensar que um comediante entenda que alguém em algum lugar não vai gostar da sua piada, mas não o Gentili. Ele é uma estrela. Ele brilha demais em qualquer que seja o canal que o programa dele passa. Ele é lindo, etc. TODAS as pessoas devem gostar da piada dele, aparentemente.
Uma piada racista *ME OFENDE*, enquanto branco e cidadão brasileiro, porque eu gosto de pensar que vivo em uma república onde todos os cidadãos são iguais. E que, quando por algum motivo histórico (algo pequeno como escravidão que ocorreu há um tempão, como 200 anos atrás, sabe, umas 4 ou 5 gerações inteiras. Alguém aí deve ter uma tataravó que foi escrava. Sabe, é tipo, há infinitos anos atrás, não afeta em nada a situação hoje), constatamos que os cidadãos não são tratados iguais, nós criamos medidas, cuja eficiência e necessidade podem e devem ser debatidas, para chegarmos a tal igualdade.
Eu sou um cara que vota no DEM. Eu acredito que está no espírito do capitalismo assegurar que um negro competente tenha tantas chances no mercado de trabalho quanto eu, que sou branco.
E, sendo branco, uma piada racista me ofende. Eu só posso pensar que, para um negro, ela ofende muito e muito mais, por motivos que eu posso teorizar, mas não de fato compreender, nem sentir.

Porque pegar no pé do Gentili? Porque ele é o idiota que deu a cara a tapa.
Sabe quando todo mundo odeia uma professora? Sabe que o único a levar suspensão e nota baixa é o que diz "eu te odeio, professora!"?
Pois é. Danilo é o idiota.
Então, seguindo o que diz o Alex Castro, eu sou a favor da liberdade de expressão porque ela revela os idiotas.
Danilo é o idiota que está tentando "provar" que o tipo de gente que se ofende com racismo é o mesmo tipo de gente que se ofende com uma piada dos dias dos pais. Não é. Não é a mesma coisa. Não está no mesmo nível.
A luta aqui, vamos frisar, não é por liberdade de expressão.
Vamos tomar por pressuposto que ambos os lados acham que a legislação não deveria punir piadas mal feitas.
A luta é por tornar um comportamento socialmente aceito ou não.
Danilo não reclama da piada dos dias dos pais porque o MP vai processá-lo. Óbvio que não vai (ao menos eu espero que não, seria um abuso de autoridade). Ele reclama que alguém (aham, 33 pessoas, eu contei) acharam que essa foi uma piada mal feita.
Obviamente as pessoas têm o direito de a) não gostar de uma piada e b) dizer que não gostaram de uma piada.
Isso não faz delas patrulheiras do politicamente correto. Isso faz delas, bom, pessoas que não gostaram de uma piada e disseram que não gostaram.

A luta aqui é: Que comportamento você está se esforçando para tornar vergonhoso?

Você quer que uma pessoa sinta vergonha ao fazer uma piada racista ou você quer que uma pessoa sinta vergonha ao achar uma piada sem graça?

Porque se você quer que uma pessoa sinta vergonha ao fazer uma piada racista, o que a Xuxa ou o pai do Danilo tem a ver com você é um mistério. E de fato, os únicos a fazerem essa conexão são os do time de lá.
Se você quer que uma pessoa sinta vergonha ao achar uma piada sem graça, eu não sei bem o que dizer... desculpa por achar uma piada sem graça, sem graça? Desculpa por dizer "ah, que triste"? Sei lá, foi mal Danilo, não queria te ofender ao não dar risada. Haha, eu acho... se te faz feliz e tal...
Mas se você quer que eu sinta vergonha por apontar que racismo é racismo. Isso eu não vou sentir.