quinta-feira, julho 21, 2011

Infantilização

Nos círculos conservadores, vez ou outra surge o tema da "feminilização" da sociedade, o que nunca ficou claro pra mim exatamente o que é, só dá a impressão que o objetivo do autor é transformar a sociedade em um viril ambiente de narcotráfico onde tudo se resume em acumular dinheiro e mulher por meio de um exército armado, violento, amoral e fora da lei. Sim, tenho certeza que é isso que os conservadores querem.

Mas se existe uma consequência de certas práticas que os conservadores não gostam - a escamoteação da cultura de responsabilidade individual por exemplo - não é bem uma feminilização, mas uma infantilização. Acho que os conservadores tem um certo ponto de que a sociedade está perdendo sua virilidade, mas, senso conservadores, o objetivo principal de qualquer verdade que por acidente caia em seus colos é o de ataque à alguma minoria e o da preservação de um tipo de status quo bizarro que existe tão somente na cabeça deles, então vão atrás das feministas e dos gays, enquanto eu acredito que o problema é exatamente este: a falta de responsabilidade individual é igual à falta de responsabilidade individual. Eu sei, insano!

Muitas das coisas vistas como causas dessa falta de responsabilidade individual - excesso de discurso politicamente correto, redes de segurança social - são, na verdade, sintomas. Por faltar a maturidade de não fazer piadas com pessoas que já sofrem demais que o legislativo entra em cena, por faltar a maturidade (e profissionalismo) de tratar as pessoas com dignidade no ambiente de trabalho que leis trabalhistas são criadas; na falta de profissionalismo da policia que os direitos humanos ganham força, etc.

Um estado paternalista não é causa de uma sociedade que precisa de uma figura paterna, mas antes, um sintoma disso e se é possível, a partir disso, inferir uma feminilização, é porque de fato falta na sociedade uma força viril, mas essa força viril não é do homem que se torna mulher, mas das crianças que jamais se tornam homens. Se há quem olha pros nerds e seus jogos de videogame (pff, esses nerds) ou pros moderninhos e sua vida cínica e diz "ah, olha esses homens que nunca crescem", eu diria que esses são simplesmente pessoas honestas e vivendo o seu tempo: os engravatados são como meninos vestindo sapatos grandes demais.

Acho que em certo sentido - pois eu tenho mesmo uma visão de certa forma uniforme da humanidade - nunca houve essa tal de "maturidade". Que infantil, por exemplo, essa brincadeira de padres, reis, rainhas, ditadores, etc que causaram tantas guerras no curso da humanidade. Essa guerra tão associada à virilidade é uma mera brincadeira de menininhos, maturidade envolve paciência, racionalidade, diplomacia, etc. As crianças irritam os adultos, podem lhes tomar toda a atenção, podem lhes distrair dos assuntos sérios: assim é quando as boas e saudáveis mentes de um tempo são forçadas a dedicar sua atenção à pequenezas políticas da época. As crianças recusam-se a brincar juntas; o adulto deve intervir. As crianças não decidem-se quem é o dono do carrinho; o adulto deve intervir. As crianças são malvadas pelo prazer da maldade; o adulto deve intervir. A diferença do cenário social pro cenário doméstico é que no cenário doméstico, em última instância, o adulto tem a força - claro, a criança não tem uma capacidade plena de raciocinar, às vezes deve-se descer ao nível dela - em termos de sociedade, são as crianças as possuidoras das armas e do dinheiro: segue-se o triste caminho de tentar dialogar com quem não sabe falar, pois sabe apertar um gatilho ou realizar um trabalho bem-pagante qualquer.

Assim que desenvolvemos toda uma cultura de falar com adultos em linguagem de bebês: livros de auto-ajuda dizendo que tudo vai ficar bem, pode parar de chorar. Livros dos mais diversos assuntos dizendo que você é o fofuchinho mais bonito de todos os tempos e que os outros meninos são maus, grr, muito maus e feios também. Muito dos livros "técnicos" de uma livraria não passam de "alugue-um-argumento" para fazer bonito quando você entrar na internet.

Lendo os aforismos sobre a sabedoria de vida de Schopenhauer e tantos outros livros sobre sabedoria de vida que são lançados por aí percebemos claramente a diferença entre maturidade e infantilização: no primeiro recomenda-se autocontrole, conformidade com o sofrimento inevitável, que se dê valor à saúde e ao temperamento, que não se valorize tanto honrarias e posses; os outros são guias práticos de como adquirir aquilo que você nem sabe se quer, regras para ser feliz a todo custo, que se valorize qualquer coisa que sua vontade aleatoriamente deseje. É a diferença entre um adulto caminhando no mundo e uma criança chorona que acha que o próprio umbigo é o centro do mundo.

É bom que filósofos não tenham armas - isso aparentemente só acontece quando a humanidade deseja novas formas de genocídio - assim como é desejável que jamais se aplique violência contra as crianças (e quando o faça, que seja com bom senso - é pela falta de bom senso e maturidade na aplicação de força contra as crianças que o estado acaba por legislar o assunto) e na medida que a humanidade não se extinga, o que é uma preocupação real dado que as crianças detém as bombas atômicas, serão poucos os adultos e frequentemente serão ridicularizados por não estarem usando calças longas (das estupidezas de épocas que não a nossa: definir maturidade pela calça).

Há quem ache que um mundo infantil seria colorido e cheio de algodão doce, mas não, um mundo infantil é esse mesmo, onde tudo o que é pequeno impera. Que as crianças brinquem e se matem então, o que eu posso fazer? Só gostaria que saíssem do meu gramado.

segunda-feira, julho 04, 2011

Sobre buscar a felicidade aos pouquinhos

Às vezes eu me preocupo que esses pequeno posts falando mal de auto-estima soem do tipo que eu quero fazer polêmica a toa, enquanto as pessoas bem sabem que, ao menos na internet, eu busco evitar conflitos (às vezes eu falho, às vezes meu alvo é a Deborah Secco lol), mas aí eu lembro que ninguém lê esse blog e upa! Vamos adiante!
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Vendo a história do ponto de vista da busca da felicidade - terrena ou transcendente - a época atual parece ter mudado de estratégia, em vez de busca da felicidade, de um constante convencer-se que já é feliz e nas vezes que falha constatar que há algo de errado e que algo precisa de concerto e se for possível uma expliaçãozinha rápida e maneira com uma cura, de todo o melhor.
Por um lado, transformou-se a auto-estima - o que eu considero um auto-engano na grande maioria das vezes - em valor.
Auto-estima é auto-arrogância, na verdade, dado que ela tem que ser algo que você *precisa* ter de antemão no bolso para ser alguém feliz-saudável-bem-sucedido, então ela acaba se tornando, quase que por definição, uma auto-arrogância não-merecida e, na medida em que tanta gente precisa do aval dos outros para sua auto-estima, ela perde sua autonomia e vira apenas arrogância não-merecida.
Substitui-se uma sincera busca de admiração por meio de bons atos por um automático "seja bom comigo" e os amigos, então, invertem-se junto, perdem a agradável função de viver em harmonia pra você para viverem como juízes da verdade. Pra que um verdadeiro amigo esforçaria-se em "levantar sua bola" se boa parte da massa anônima de instituições e forças sociais já existe com esse propósito?
A questão é que no que a sociedade democratiza-se - politica e economicamente - todo mundo passa a ser bajulado: você não tem culpa, a culpa é de quem você vota contra. Você não tem culpa, a culpa é do diabo, pague-me para se ver livre dele. E a questão nem se resume a culpa.
Eis um dado interessante, o quanto os professores de colégio são obcecados pela noção de poder espancar os seus alunos quando expulsá-los da escola é uma solução menos barbárica e mais democrática até (não quer estudar, não estuda). Mas não se pode expulsar um aluno da escola: o aluno que paga é um cliente e o cliente tem razão, o aluno que não paga é um cidadão e o cidadão tem direitos. Expulsar os alunos em massa de uma escola pública causaria grande transtorno social, toda essa molecada na rua causarão problemas.
A própria vida se contrapõe violentamente a esse impulso que temos: a felicidade ainda é difícil, ter essa tão almejada auto-estima ainda exige trabalho (e na medida em que nos enganamos ao acreditar que já a temos ou já deveríamos tê-la, as crises de auto-estima ainda ganha a vantagem do ataque surpresa), o transtorno social já está aí, a miséria ainda está aí. Tudo nessa sociedade que não seja construir calculadoras e gerar entretenimento falha. Calculadoras são úteis decerto, assim como entretenimento, mas essa valorização da técnica e da diversão vem quase como um prêmio de consolação: "é isso que nós temos". E faltando todas as outras partes, numerosas demais até pra eu catalogar rapidinho aqui, é só isso mesmo que nó temos.
Gostaria de ver essa civilização voltar a conciliar-se com o fato de que a vida é miserável, com a transitoriedade dos pequenos prazeres, não para errar de novo e mais uma vez buscar superar a vida e os seus pequenos prazeres, mas para dar às coisas o seu devido lugar.
Busco viver aos pouquinhos, conquistar as coisas aos pouquinhos, lidar com as necessidades; alguém tentará convencê-lo de que isso é mediocridade, mas, para mim, medíocre é deixar-se enganar.