sexta-feira, janeiro 30, 2009

Algo sobre a política do aborto e católicos

Eu recebo duas newsletter católicas; a do catholic.org e a do instituto humanitas unisinos (não sei se o instituto humanitas tenta falar em nome dos católicos, mas é onde eu recebo minhas notícias sobre o que o as Igrejas católicas fazem por Brasil afora).
Eu diria que as duas estão, politicamente (e as duas focam mais em política que em religião propriamente dita, o que é um pouco assustador por si só, especialmente no caso da newsletter do catholic online), à esquerda do centro.

Você sabe, católico é um bicho dividido; ao mesmo tempo em que um católico é um dito "conservador social" (um jeito mais bonito de dizer que você não é machista e homofóbico, mas vota em toda e qualquer lei que emputece feministas e gays), costuma ser de esquerda em termos de economia. Caridade é uma parte central da narrativa católica e, portanto, católicos costumam ser o voto anti-egoísmo. Além disso, costuma ser o voto anti-guerra também, a maioria dos nossos santos são mártires que se renderam pacificamente sabendo que iam para a morte, em tese, um católico é um pacifista. O que pode explicar a acusação de que eu não posso tentar entender os palestinos com minha visão judaico-cristã; eles lá preferem morrer do que se render à paz, minha ética diz que é melhor morrer do que se render à guerra. Anyway, o seu católico comum seria um cara de centro-esquerda; jamais um socialista, mas nunca distante de um social-democrata pacifista.

Então, nos EUA, os católicos estão associados ao partido democrata. Kennedy era católico, John Kerry é católico, Joe Biden é católico.
No Brasil todo mundo que não se declara ateu ou evangélico é católico, então tanto faz, mas lá faz diferença.

Ontem e hoje eu recebi na newsletter do catholic.org um texto sobre alguém do vaticano (ou seja, serious busisness) dizendo que os católicos deveriam ter se organizado melhor pra não votar no Obama que logo na primeira semana assinou uma lei permitindo que verbas públicas fossem doadas para ONGs que realizam abortos.
Foi a declaração de guerra.

E é uma questão complicada, para o norte-americano protestante médio não é uma questão tão complicada, eles não tem nenhuma narrativa forte de pacifismo e caridade como existe no catolicismo. Claro que paz, amor ao próximo e caridade faz parte da narrativa de qualquer cristão; mas essas coisas são especialmente fortes no catolicismo.
A frase imortal do Kennedy: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país" é uma estrutura básica de sermão de missa: o que acontece de bom vem de Deus, não assuma crédito; Deus ouve suas preces, mas sua preocupação número 1 tem que ser a comunidade, Deus ouve, mas é mesquinho pedir, você nunca tem tão pouco a ponto de não poder doar mais, etc.

Dito isso tudo, eis um trecho do texto, que eu acho que resume o quão complicada é a vida de um católico norte-americano:

"Arquebispo Burke, citando um artigo por um padre especialista em ética da arcodiocese de St. Louis, Magistrado Kevin McMahon, quem analisou como o documento dos bispos [redigido em apoio a Obama durante a campanha eleitoral] contribuiu com a eleição de Obama, chamando sua proposta 'um tipo de falso pensamento que diz, 'aqui está o mal de acabar com vidas humanas inocentes e indefesas, mas também há outros males e eles merecem igual consideração.'

Mas não merecem. A situação econômica, ou a oposição à guerra ao Iraque, ou qualquer coisa que seja, essas coisas não se levantam ao mesmo nível que é sempre e em toda parte o mau, ou seja, a matança de vidas humanas e indefesas"

Não há, na narrativa católica (e talvez esse seja o problema, mas aí entramos em outro assunto), uma distinção entre a vida de um feto de 1 dia e de uma criança de 10 anos que está nesse momento jogando futebol com os amigos na rua. Um aborto seria o equivalente moral a dar um tiro na nuca da criança jogando futebol. Daí em diante fica difícil defender qualquer coisa.

Uma mãe solteira orfã miserável de 16 anos que foi estuprada fazendo aborto seria a mesma coisa que essa mesma mãe solteira orfã miserável de 16 anos que foi estuprada esperando o filho nascer para jogar o bebê no lixo. De algum modo, um argumento que seria ético no segundo caso tem que valer pro primeiro.

Então você está na cabine de votação e de um lado tem o partido que é o mau.
Eles são contra ajudar os pobres e contra a paz. Essas coisas são graves. A ética deles de que a base da prosperidade se baseia no indivíduo ao invés da comunidade é imoral, bombardear pessoas, seja lá o motivo, é imoral, fazer isso em nome do cristianismo (ou pelo menos da cristandade) é duplamente imoral. Mas pelo menos eles são os únicos que, em tese, se esforçam pra prevenir o assassinato de crianças inocentes.

Do outro lado, você tem um partido que é totalmente baseado na sua ética. Toda a retórica do partido se baseia em como a comunidade é mais importante que o indivíduo, sobre como alguém não precisa temer a pobreza, pois a comunidade está lá pra ajudar, sobre como a paz é um valor sério e que deve ser preservada mesmo quando pragmaticamente faz mais sentido ir a guerra; além disso, é bom lembrar, é o partido que não entra em guerra com a ciência e com a razão.
A história da igreja católica é, em grande parte, a história da filosofia e da ciência. O Vaticano aceita a evolução das espécies e o Big Bang; os filósofos da Igreja resolveram essas questões antes mesmo de elas existirem. Não importa a versão espaço-temporal física e material da criação, Deus está em um plano distinto desses detalhes acidentais e secundários. Não há também uma afobação em provar que Deus existe. É um Deus oculto, nosso pecado original nos impede de vê-lo, não há crença sem dúvida, estando na cárcere, nosso espírito é dominado pelas paixões e pelos impulsos carnais e é nosso dever nos livrarmos dessa dominação, em parte pela meditação, pela fé, pela aproximação com Deus, mas em grande parte também pelo exercício da lógica, da razão e da investigação científica.
Então existe tal partido político que abraça por completo a ética. Mas vem o triste: eles apóiam o assassinato de criancinhas.

Bush ganhou os católicos de Ohio (e por causa disso a eleição de 2004) por causa desse detalhe.
Essa eleição os católicos disseram pra si próprios que não repetiriam esse erro, que a questão do aborto é talvez a mais importante de todas (como a violação sistemática e contínua da santidade da vida pode não ser a questão política mais importante do mundo?), mas os Republicanos foram completamente incapazes de ilegalizar o aborto; os católicos se sentiram traídos. Eles sacrificaram toda uma gama de questões importantíssimas e críticas para sua auto-compreensão como cristãos em prol desse um urgente e todo-importante assunto e tudo que ganharam foi retórica.

Agora com Obama, os católicos começam a se sentir traídos de novo. Eles sacrificaram o tema mais urgente e mais importante, a oposição ao que há de maior desumanidade e anti-cristandade na nossa civilização, o sistemático e contínuo assassinato de incontáveis crianças em troca de todo o resto. O mínimo que Obama devia fazer, pensaram, era não ser contra eles, sabiam que estavam elegendo um presidente que não seria a favor da ilegalização do aborto, mas o outro também não fizera nada a respeito do assunto a não ser usá-lo como distração retórica e desonesta.
O problema é que Obama não foi simplesmente neutro na questão, o que já seria ruim o bastante, mas aceitavelmente ruim dado o quão maléfico era o outro lado, ele, logo na primeira semana, assinou um documento permitindo que o dinheiro da comunidade, o dinheiro que deveria ser usado para dar casa aos que não tem que morar, roupa aos que não tem o que vestir, auxílio para todos os desamparados de qualquer modo; Obama utilizou esses valiosos recursos para o assassinato de crianças inocentes.

É uma situação difícil, mas talvez seja essa a sina dos católicos. Para nós os pecadores não há paz de consciência, não existem escolhas fáceis; todo teste é um teste duro e esse foi mais um.
Não concordo, entretanto, que foi a escolha errada. Ok, eu sei, eu sou total Obamabot. O homem é bonito, é inteligente, assina leis que eliminam a tortura da civilização ocidental, não tem como não amar o homem, etc.
Mas nessa questão central, acho que o argumento principal se mantém: os Republicanos não mexem um dedo para acabar com o aborto, pelo contrário, eles mantém o assunto vivo que é pra ter poder colocar uma coleira nos católicos na próxima eleição.
Além disso, católicos devem aceitar a realidade que não vai embora: a noção de que a vida se inicia na concepção só é óbvia para os cristãos. Para o resto das pessoas - e desde a inquisição uma das tarefas primárias do católico é como compreender esse estranho conceito do "outro" - essa noção é no mínimo questionável e, se é possível argumentar que o feto não é um ser humano ainda, então o que pra nós é o assassinato de uma criança, para os outros é remoção de um órgão que um dia viria a ser uma criança.
Desse modo, é estúpido votar em um presidente só por causa desse assunto sabendo de antemão que ele não conseguirá fazer nada porque a voz católica é uma gota no oceano desse debate.
O Obama desapontou? Certamente. Mas é uma tristeza a se carregar, a alternativa seria alguém que simplesmente não usaria dinheiro público para financiar essa prática que consideramos a maior das abominações, mas que, como seus antecessores, não moveria um dedo para acabar com ela, simplesmente mentindo quase que com o propósito de ter uma mentira eficaz sempre no bolso.
É um estado triste de coisas, mas, bem francamente, não consigo pensar em um Deus que criasse testes fáceis.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Clichê pós-guerra

Você vota em um partido político porque ele diz que vai te manter seguro. Você vota nele porque ele diz que vai impedir que o exército ocupante atrapalhe sua vida. Você vota nele porque depois de anos de guerra, ele diz que vai ser uma resistência séria e, com isso, trazer a vitória para o povo.

2 anos de governo e você perdeu seu emprego, tem menor acesso à ajuda humanitaria, está impedido de sair do país, os caras em que você votou tem um desejo estranho de morrer por uma causa e te levar junto, os caras em que você votou incentivam seus filhos a serem traficantes de armas e mártires, os caras em que você votou são ultra-religiosos a um ponto que você sabe que em breve vai se tornar perigoso, os caras que você votou mataram todo mundo do partido que você não votou e, como se eles não tivessem melhorado sua vida o suficiente, os caras que você votou provocam o exército inimigo a destruir sua casa e assassinar sua família.
O que você?
Obviamente você vota neles de novo porque o fato de você ter perdido tudo graças à incompetência de tal grupo só faz você ficar mais simpático à sua causa!
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Não que o povo Palestino deixe, por um minuto, de culpar Israel e os israelenses, mas existe algo de absolutamente insano em achar que vai aumentar o apoio ao Hamas e certamente se o povo palestino pudesse se voluntariar numa guerra que eles vissem possibilidade de vencer, provavelmente iriam.
A parte verdadeira do clichê (e todo clichê tem sua verdade) é que Israel se certifica para que os Palestinos nunca goste deles e, portanto, garantindo que a maior esperança de paz seja, na verdade, uma guerra fria.
Disso não se segue e, de fato, é ilógico que se siga, que os Palestinos achem que a melhor alternativa é continuar fazendo pequenos atos aleatórios de terror que ferem poucos israelenses só pra daqui 2 anos serem bombardeados novamente. É fato que o imenso ódio que existe faz uma porção de pessoas perderem a capacidade de raciocinar, mas qualquer um sem um incentivo místico pra se suicidar sabendo que vai se suicidar deve ter percebido que resistir é uma estratégia falha.

A situação, claro, fica mais trágica:

"One of his neighbors weighs in: 'Many people are now against Hamas but that won't change anything,' he says. 'Because anyone who stands up to them is killed.' Since they took power Hamas has used brutal force against any dissenters in the Gaza Strip. There were news agency reports that during the war they allegedly executed suspected collaborators with Israel. The reign of terror will go on for some time, says the neighbor who doesn't want to give his name. 'There will never be a rebellion against Hamas. It would be suicide.'"

É suicídio para os Palestinos de Gaza atacarem Israel e é suicídio atacar o Hamas, a coisa fica ainda mais trágica porque enquanto as pessoas estão comendo nas ruas se sentindo derrotadas, toda a mídia do ocidente declara Israel de algum modo saiu derrotado disso, e claro, os líderes do Hamas lêem os jornais do Ocidente. Se Israel saiu derrotada, porque não fazer tudo de novo?

Os Palestinos estão mesmo sozinhos...
=
EDIT:
Só adicionando algo que acho que ficou faltando. Embora seja ridículo dizer que o Hamas teve qualquer tipo de vitória nessa catástrofe, o triste é que nem Israel conseguiu qualquer coisa.

De todos os alvos militares de Israel: os túneis, os foguetes, os combatentes - Israel destruiu muitos desses, mas o Hamas já anunciou orgulhosamente pra qualquer um ouvindo que vai reconstruir tudo de novo. Sei lá quantos inocentes morreram (e você também não sabe, por mais que ache que a folha de São Paulo tem um método mágico de determinar essas coisas) para que o partido no poder continue no poder.
Israel não saiu derrotado, mas também não saiu vitorioso e embora eu defenda que iniciar essa guerra tenha sido um ato legítimo, o fato dos objetivos não terem sido cumpridos a "deslegitimiza" (argh).

É muito fácil dizer isso do conforto da minha cadeira e longe das bombas e das armas, mas se você entra em uma guerra e não resolve a situação, a coisa toda se torna simplesmente estúpida. É horrível ter que dizer que essa guerra acabou cedo demais, mas ah, o que eu vou dizer? Se Israel não começa a guerra, os foguetes não param de cair, se começa e termina pela metade, como aconteceu, fica esse clima de que a carnificina não teve propósito.
Certamente a IDF sabe mais do que eu e de tudo que eu li, eu não teria problema em dizer que é provavelmente o exército mais competente e bem treinado do mundo (não é a toa que os israelenses quase não tiveram baixas) e se eles pararam a guerra onde pararam é porque sentiram que foi o bastante.
Mas ir pra guerra significa, de antemão, assinar o atestado de óbito de inocentes - e essa é a difícil decisão de iniciar uma guerra - mas uma vez que você aceita que inocentes vão morrer e que com isso virá a revolta do mundo, da própria população, o ódio dos inimigos, etc; então a coisa se torna uma questão de alvos militares.
Bombardear casas nunca é um gesto simbólico.

Israel não bombardeou Gaza para mostrar poder assim como o Hamas não bombardeia Israel como protesto. Ambos fazem para matar pessoas. Que nenhum dos lados tenha conseguido acabar com o outro faz a guerra algo simplesmente fútil.

Se não há vitória militar de nenhum lado, então também não há vitória moral de nenhum lado.
Eu provavelmente apoiaria mais o Hamas se eu sentisse que eles fossem capazes de uma vitória militar contra Israel - devoção que sinto pelos judeus e tudo mais - eu estou procurando analisar as coisas por uma ótica pragmática. Se os Qassam de algum modo melhorassem a qualidade de vida do povo Palestino, então o Hamas estaria certo em defender o seu povo e aí eu estaria aqui argumentando contra eles porque eles são uns fanáticos homofóbicos peões do Irã.
MAs, de novo, se nenhum lado consegue derrotar o outro militarmente, então ambos só estão quebrando os espíritos da própria população.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Igreja católica e sexo

Link

That's one of the problems plaguing the Catholic Church. Its morality is almost exclusively sex related. It has no mechanism for dealing with the real world. When crimes like genocide and mass murder are 'personal' opinion, but issues dealing with sex are part of the 'culture of death', the institution has lost its bearing and has failed in its leadership role. It's become an instrument of oppression rather than guidance. The very things it chooses to call 'sin' vs. 'personal' tell us about the mindset of those making the distinctions.
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Eu penso bastante sobre esse assunto e às vezes a resposta é que se a igreja católica reescrever sua doutrina sobre o corpo (e sua doutrina sobre o sexo é só uma extensão lógica da sua doutrina sobre o corpo, obviamente), o que sobra parece pouco.
Acho que muitos católicos se sentem fazendo concessões para ateus toda vez que agem de modo mais progressista.

Então eu acho que o Papa tem que lidar com questões muito difíceis porque, obviamente, ele é em primeiro lugar o guia espiritual dos católicos, em segundo ele é uma figura política que dialoga com as outras religiões e de nenhuma forma ele está aí para satisfazer os ímpetos de ateu que acha que a igreja é uma instituição arcaica e sem propósito que tem que desaparecer da terra.

Nesse ponto de vista, eu entendo a canonização do Pio XII, embora ache desagradável de certo modo. O papa em primeiro lugar tem que honrar àqueles que dedicaram suas vidas à Santa Igreja, em segundo lugar ele tem que pensar se honrar esses indivíduos vai chatear os judeus ou quem quer que seja.

Já o caso dos gays, eu acho complicado, porque existem muitos gays católicos, existem inclusive bispos católicos, pegar leve com a sexualidade não é uma concessão que se faz a ateus, é concessão que se faz a uma minoria, mas uma minoria bem fiel, de católicos. É mais ou menos a mesma coisa com a sociedade do Santo Pio X; o Papa não está fazendo uma concessão aos antissemitas, ele está fazendo uma concessão a uma minoria bem fiel de católicos, que acreditam na santidade da Igreja.

Só que é realmente seletivo demais.
Porque gays enfrentam tantas dificuldades na igreja enquanto uma opinião antissemita é deixada pra trás?
Afinal, o segundo concílio do vaticano É legítimo e ele diz bem claro um "Nunca esqueceremos".
Tudo sobre a sociedade dos seguidores do Pio X se trata em desobedecer de modo direto e arrogante diretrizes da igreja.
Um gay não tem escolha de ser gay e é bem nobre que um gay continue sendo católico mesmo tendo que aguentar todo o preconceito que ele sofre por isso; mas um bispo tem toda a escolha em deliberadamente desobedecer o que a Igreja diz.
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O pior disso tudo é que eu acho que a Igreja acaba entrando em um problema teológico sério.
Toda o ensinamento anti-luxúria da igreja se baseia, se eu compreendo bem, em que o espírito tenha o controle ao invés do carne. Que seja a razão dotada por Deus que guie ao invés dos impulsos dos acidentes.
Agora, eu pergunto isso, quando pessoas claramente anti-científicas e incapazes de díalogo com outras fé são consideradas mais confiáveis do que pessoas cujo desejo sexual é considerado diferente, isso não significa que nós estamos dando mais atenção pra carne do que pro espírito das pessoas?

Eu juro que ia escrever um post argumentando que isso provavelmente tinha acontecido

Eis o link, gentil cavalheiro.

During the transition period, unknown to the public, Obama’s legal, intelligence, and national-security advisers visited Langley for two long sessions with current and former intelligence-community members. They debated whether a ban on brutal interrogation practices would hurt their ability to gather intelligence, and the advisers asked the intelligence veterans to prepare a cost-benefit analysis. The conclusions may surprise defenders of harsh interrogation tactics. “There was unanimity among Obama’s expert advisers,” Craig said, “that to change the practices would not in any material way affect the collection of intelligence.”

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Então, eu estou numa fase bem pragmatista e um tanto maquiavélica.
Tortura é uma coisa errada e, ainda mais errada do que tortura, é a existência de uma prisão criada com o único propósito de ser um vácuo legislativo, *mas* se essas coisas dessem certo, nós teríamos duas moralidades opostas, cada um com seu jogo de "bom" e "mal" se confrontando.

Tortura É errado, mas se desse certo, se de algum modo (vamos deixar o "como" de lado) tortura impedisse que algum doido se explodisse na Times Square. Você seria contra? Você sacrificaria a vida de algumas centenas de pessoas em prol de uma moral abstrata? Isso não beira o fanatismo religioso que queremos tanto evitar nesse nosso mundo racional?

Dito isso, uma vez que tortura não funciona, então um lado todo da questão moral cai. Tortura se torna errado e só errado e, portanto, quem defende está sendo cruel sem propósito; o que é, devo dizer, imensamente diferente de ser cruel com um propósito.

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Aí a gente entra na questão da confiança no líder (hoho, meu eu anarquista de uns anos atrás querendo me assassinar em alguma parte do meu subconsciente). O lance do Obama é que ele é um cara inteligente. Se não confiável (e nenhum político pode ser assim tão confiável), dá pra ao menos confiar que numa sala de pessoas com maior especialidade técnica, ele é o mais inteligente.
Dito isso, se tortura fosse eficiente, ele daria um jeito de enrolar o povo e manter Gitmo indo ou algo do tipo. Entenda, se acontecer algum atentando terrorista daqui há 2 ou 3 anos, mesmo que não tenha nada a ver com nenhum terrorista em Gitmo, a direita vai dar um jeito de acusar ele e os democratas jamais voltarão a vencer uma eleição naquele país.
Mas se ele assinou o papel em meio a chuva de fotógrafos com um sorrisão e logo na primeira semana, é porque ele sabe que essa é uma medida que só tem pontos positivos e, dado que é o Obama, eu confio que ele leu uma porção de relatórios e concluiu com razão acerca do assunto. Se ele está certo ou não fica pra história, mas ele provavelmente tem razões.

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Por exemplo, ele assinou umas diretrizes aí que deixou o pessoal pró-life (e inclusive ele teve um apoio razoável dos católicos que diziam que o melhor jeito de acabar com aborto era via educação sexual ao invés de probição, o que causou uma treta inter-católicos que é sempre tão divertida de ver) puto da vida. Mas ele fez isso no aconchego da sala dele sem nenhum fotógrafo por perto.
O homem sabe a diferença entre assinar algo pouco popular e algo popular e se ele assinou o fim da tortura de modo tão popular, é porque ele tem alguma certeza que nenhum ataque terrorista vai sair dessa decisão.

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Afinal, é isso que significa que o líder do mundo ocidental tenha cérebro pra variar; vamos nos acostumando.

domingo, janeiro 25, 2009

Vitória

Estava folheando a Veja e vi uma daquelas coluninhas deles que comparava o que o mundo pensava dos EUA e o que os EUA pensavam de si próprios.
E num trabalho imenso de transformar EUA em Bill O'Reilly, a Veja disse algo do tipo, que os norte-americanos não questionavam o propósito da guerra, mas estavam chateado que estavam perdendo.

Isso é desinformação.
O que acontece é o seguinte:
Os Estados Unidos, assim como Israel já que o assunto vai ficar em voga por um tempo, não se importam enormemente com a opinião pública, porque eles sabem que todo e qualquer ato que eles realizarem vai ser comparável ao nazismo, então a postura é tipo "se eles vão criticar qualquer coisa, então a opinião pública não é medidor confiável de certo e errado".

Dito isso, a guerra ao Iraque sempre foi esquisita.
Pra começar, Osama Bin Laden não tinha sido encontrado, ele estava em algum lugar de um país já ocupado e aí Bush decide que valia a pena tirar tropas de lá e enviar pra um país que não tinha nada a ver com a história.
Dito isso [2], não é bom pra ninguém que o Iraque tivesse armas de destruição em massa. Não havia nenhum motivo particularmente urgente para atacar o Iraque, mas caso ele tivesse armas de destruição em massa e caso ele tivesse armas biológicas, então essa guerra tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde, porque, de novo, não é bom pra ninguém que Saddam Hussein tivesse tais armas.
E portanto, apesar dos protestos do mundo, os Estados Unidos foram para a guerra porque, de novo, a opinião pública é facilmente manipulável e pessoas de bom coração vão acriticamente protestar contra qualquer coisa.

O problema, obviamente, é que as tais armas não existiam e que nenhum objetivo senão o menos problemático (derrubar Saddam Hussein) foi cumprido.
Então não é que os norte-americanos ficaram putos porque perderam a guerra, o problema é que uma vez que seu alvo não existe, é impossível vencer a guerra e uma vez que o motivo pelo o qual você foi pra guerra foi falso, então a morte de soldados e civis opositores foi inútil.
Isso é diferente do que estar puto por perder a guerra. Isso é estar puto por estar em uma guerra que é impossível vencer e a melhor das hipóteses é simplesmente não-ir-a-falência.
Além disso, a guerra do Iraque criou uma série de problemas que, enfim, eu não vou entrar aqui, mas o principal é que simplesmente distraiu os Estados Unidos pra uma série de coisas.

Então dizer simplesmente que os EUA não gostaram de perder a guerra é mostrar os norte-americanos como se fossem todos torcedores de futebol americano que comeriam bebês no café da manhã se isso garantisse uma vitória militar. É exatamente o tipo de imagem do norte-americano como o bárbaro bélico e inimigo da paz que acho que a Veja quer evitar e que Obama quer reverter.

Resumindo: não é que eles não gostaram de perder a guerra, é que eles realmente não gostaram de entrar em uma guerra que a vitória é impossível em primeiro lugar.

Argh-2

Clarificações sobre o post abaixo.

A história, do modo tosco que eu entendi, é a seguinte.
Em meados dos anos 60 houve o concilio do vaticano II; foi um concilio onde foi decidido, entre outras coisas, que a igreja deveria sempre prestar atenção na ciência, que os judeus eram um povo bacana e escolhido por Deus e que seria tão salvo quanto os católicos porque Deus não ia quebrar o pacto que fez com eles em primeiro lugar só porque ele fez um novo pacto com nós (e portanto, os judeus são "o velho povo de Deus" e nós somos "o novo povo de Deus", mas de qualquer forma, somos todos povo de Deus) e que as missas seriam rezadas em línguas regionais ao invés de latim.

Um grupo não gostou dessas coisas porque achou que quebrar com a tradição seria o fim da igreja, eu estou algo do lado oposto deles, acho que a salvação da igreja está em assumir seu lado mais progressista e virar a melhor amiga dos gays e judeus mundo afora. But anyway, quem sou eu e o que eu sei, né?

Esse grupo, a sociedade de Santo Pio X, desobedeceu a igreja nessas questões todas; continuou rezando a missa em latim e continuou dizendo que o povo judeu era um povo amaldiçoado, essas coisas.
O líder desse grupo, na época, ordenou quatro bispos e a ordenação desses bispos foi considerada ilegítima por algum motivo e eles foram excomungados.
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Embora o grupo em si seja antissemita na minha opinião, um deles se destaca como um revisionista do holocausto. Nota que esse grupo não foi excomunhado pela igreja porque eles são antissemitas, mas porque sua ordenação foi ilícita e sua ordenação é ilicita porque eles se recusam a seguir as normas do concilio do vaticano II, que tinha como um dos propósitos acabar com antissemitismo da igreja.

Eu acho circular o bastante, mas eu sei lá como a hierarquia da igreja funciona.

A sociedade do Santo Pio X ainda não está legítima, alguma excomunhão ainda está em efeito sobre os bispos (eles não podem estabelecer novas paróquias por exemplo), o que o papa fez foi abrir comunicação com eles.
E embora uma ala mais conservadora da igreja goste de abrir comunicação com eles por motivos que não tem nada a ver com os judeus, (a questão das missas em latim por exemplo) eu ainda acho equivocado.

Claro que a idéia de começar o díalogo é convencê-los a se tornar mais mainstream, não tem nenhum benefício também em deixar uns bispos rebeldes saírem por aí falando besteira sem que o vaticano possa dar um puxão de orelha porque, afinal de contas, eles já sofreram a punição máxima que é a excomunhão.

Mas se eles querem voltar a fazer parte oficialmente da igreja, eu acho sim que o papa deveria pegar pesado nessa questão dos judeus.
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Mas em uma nota irônica que eu percebi agora. É engraçado que eu faça mais parte da igreja católica do que um grupo de fundamentalistas ultra-religiosos que se consideram a ponta da lança em defesa da igreja ou algo do tipo.
Digo, eu não ajudo em nada, ninguém sequer na minha paróquia sabe que eu existo, mas pelo menos eu não fui excomungado! Ainda...
Mas todos sabemos que vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

sábado, janeiro 24, 2009

Argh

Como eu queria que o Papa fosse tão bom político quanto é teólogo.
Depois de defender Pio XII e depois de um cardeal ter comparado Gaza a um campo de concentração, Bento XVI vem e cancela a excomunhão do adorável bispo que nega o holocausto.
Sério, existe algum motivo para o Papa estar tão decidido na sua jornada em interromper todo dialogo entre o vaticano e os judeus?
Sim, eu sei, todo católico é um pouco antissemita pelo mero fato de ser católico e ter crescido no ambiente nazista não deve ter ajudado nem um pouco ao papa que se desintoxicasse dessa influência, mas será que ele não pode se esforçar nem um pouquinho?

As coisas pareciam bem há uns meses atrás quando ele afirmou que todos somos semitas e o quanto temos uma dívida com o judaísmo por causa do velho testamento, etc; mas sério, se pra cada passo a frente você vai correr uma maratona pra trás... argh...

Enquete

Eu devia mudar as cores do blog pra facilitar a leitura ou ninguém visita esse blog porque o conteúdo é uma droga?

sexta-feira, janeiro 23, 2009

E o que exatamente você esperava?

Estava lendo esses dias (em um site chamado jewish weekly se não me engano) que a escolha de George Mitchell para "sujeito-que-vai-trazer-a-paz-mundial" estava preocupado algumas pessoas muito sionistas porque ele foi um dos caras que resolveu a parada na Irlanda.
Mitchell é um cara que tem o costume de "ouvir os dois lados demais" dizem; pra grande parte dos Israelenses não tem essa de dois lados para com qualquer organização que não aceita a existência de Israel, mesmo que seja só na teoria. O que vem a seguir é previsível. Obama vai pressionar que Israel tome postura em relação aos colonos, que alivie nos bloqueios econômicos, enfim, que tome atitudes pouco populares em Israel, mas que nós pessoas legais achamos que tem que ser tomadas.

Ao mesmo tempo em que a direita Israelense está preocupada com esse sujeito que ouve demais os dois lados, Robert Fisk, uma dessas pessoinhas incultas que acreditam que existe um Lobby judeu mais poderoso que todos os outros lobbies juntos (inclusive do petróleo, do NRA, do tabaco, etc.) que tem um histórico impressionante de passar por notícia relatos mentirosos anti-israelenses para depois o guardian ter que se retratar naquelas notinhas que ninguém lê.

Enfim, esse Robert Fisk, que é citado por alguns pelo único motivo de ele achar que Israel não deve existir (e pessoas que acham que Israel não deve existir são geralmente tão incultas que elas desesperadamente acabam dependendo de historiadores autodeclarados mentirosos e jornalistas que esquecem de checar fontes toda vez que o assunto é Israel), decidiu abrir a maravilhosa boquinha dele para falar que estava desapontado com Obama (sim, no terceiro dia de governo Obama).
Porque?
Bom, eu deixo o homem falar:

"É claro que Obama se referiu aos "inocentes massacrados", mas ele não estava falando exatamente dos "inocentes massacrados" que incomodam aos árabes. Houve o telefonema de Obama a Mahmoud Abbas, anteontem. Talvez o presidente acredite que conversou com o líder dos palestinos, mas, como todo árabe sabe, ele é o líder de um governo fantasma, um quase-cadáver mantido vivo pelas transfusões de sangue do apoio internacional e da "parceria plena" que Obama ofereceu.

Mas, para o povo do Oriente Médio, a ausência da palavra "Gaza" - e aliás da palavra "Israel" - foi como uma sombra escura pendendo sobre o discurso de posse. O jovem redator dos discursos de Obama não compreendeu que sua menção aos direitos dos negros serviria para concentrar as atenções dos árabes no destino de um povo que só ganhou o direito de votar três anos atrás, mas em seguida foi punido por votar nas pessoas erradas?"

Primeiro - Obama não menciona, com sabedoria, nenhum país no seu discurso de inauguração. É burrice de qualquer um esperar que ele falasse "nós, o povo americano, desejamos que Israel pare de ser nazista". Assim como seria burrice ele falar "Ei, Irã, estou de olho em você!"
Esse tipo de coisa não acontece.

Segundo - O Oriente Médio é, pra tristeza dessa gente que só tem capacidade mental para se envolver com um único tópico, maior que Israel e Palestina. Para os interesses norte-americanos, o problema entre Índia, Paquistão e Afeganistão são bem maiores. Sem contar o próprio Irã, que se não desencanar desse negócio de armas nucleares, vai ter que ser feito na força e todo mundo sabe que é só uma questão de tempo até isso acontecer.

Terceiro - O mundo árabe não chega perto de pensar como Fisk quer que pensemos que ele pensa. O mundo árabe tem seus problemas - suas mulheres tem pouca liberdade, seus gays são jurados de morte, aqueles com qualquer trabalho relacionado a petróleo são super-ricos e o todo o resto é miserável, todo mundo vive com um medo perpétuo de que o próximo grupo de doidos religiosos vão iniciar uma revolução e pegar um monte de inocentes no fogo cruzado e, embora não gostem de Israel, consideram o Hamas e outros satélites do Irã uma ameaça bem maiores.
Não achem que o Fisk ou qualquer um parecido fala em nome dos Palestinos ou do Oriente Médio. Eles falam em nome daqueles que compram seus livros e aqueles que compram seus livros estão tristemente presos nessa bolha de que qualquer coisa que Israel faz tem 15 vezes mais importância que o que o resto do mundo faz.

Quarto - Como já dito, Obama já vai fazer coisas que nós pessoas legais queremos que ele faça: pressionar Israel a dar um jeito nos colonos, aumentar a qualidade de vida na Cisjordânia, aliviar os bloqueios em Gaza. Ele *JÁ VAI* fazer isso. O que o Fisk reclama? Ele reclama que Obama não utilizou o seu histórico discurso de inauguração para dizer "Israel deve parar de ser nazista". E isso é suficiente para que ele diga que Obama é "puro Bush".
Bem, o que ele esperava? O que qualquer um espera do Obama? Que ele seja anti-americano? Que ele dê mais valor para as teocracias árabes do que para a própria democracia? Que ele deixe de pensar nos interesses norte-americanos? Isso é doido. Essa gente é doida.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Saudades Lisiane, um montão de saudades.



Country Mile

Silver Birch against a Swedish sky
The singer in the band made me want to cry
We’re all inside our own heads now
We are leaving new friends
leaving this town
I wish you could be here with me
I would show you off like a trophy
The road it winds, it twists, it turns, oh my stomach burns

Once again I’ll be the foolish one
Thinking a blink of these lashes would make you come
Don’t you worry, don’t get in a state
I don’t believe in true love anyway
Who’s being pessimistic now
I could document this as our first, as our last row
The more you look forlorn, the more to you I warm.

I won’t be seeing you for a long while
Oh I hope it’s not as long as these country miles
I feel lost, I feel lost.

No I wont be seeing you for a long while
Oh I hope its not as long as these country miles
I feel lost, i feel lost.

No I wont be seeing you for a long while
I hope its not as long as these country miles
I feel lost, I feel lost.

No i wont be seeing you for a long while
I hope its not as long as these country miles
I feel lost,
I feel lost,
I feel lost,
I got lost.

A importância do discurso de Obama

Enquanto a internet analisa letra por letra do discurso de Obama, eu só quero fazer um comentário óbvio:
A importância dele só vai começar a ficar clara daqui há 4 anos, talvez só vai se tornar realmente clara em 20.
Nenhum discurso presidencial é extremamente diferente dos outros e eles não afetam tanto assim as coisas.
Lincoln fez um grande discurso inaugural sobre união e sobre a América ser uma só e teve que enfrentar uma guerra civil.
O que fez os discursos do Lincoln entrarem pra história é o ar de profetização que eles têm quando vemos as coisas um século depois. Ele fala em união em meio a uma ameaça de guerra civil e 10 anos depois lá está a América unida e bonitinha.

Se daqui há 10 anos os Estados Unidos estiverem na mesma situação que hoje, ou pior ou só um pouco melhor, então esse discurso do Obama entra pra gaveta.
Agora, se daqui há 10 anos, sentirmos que vivemos em um mundo mais pacífico, mais unido e mais próspero, então as pessoas vão olhar esse discurso não como um que ecoa a retórica usual da presidência, mas como um que profetizava tempos melhores.

Mas pra saber disso, temos que tentar não morrer durante esses 10 anos.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Discurso de inauguração de Barack Hussein Obama



Caros cidadãos:
Estou humildemente aqui hoje perante os desafios perante nós, grato pela confiança por vocês concedida, ciente dos sacrifícios realizados pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, assim como à generosidade e cooperação que ele demonstrou durante essa transição. Quarenta e quatro americanos agora realizaram o juramento presidencial. As palavras foram ditas durante crescentes marés de prosperidade e calmas águas de paz. Ainda assim, de tempos em tempos o juramento é realizado em meio à confluência de nuvens e violentas tempestades. Nesses momentos, A América prosseguiu não apenas por causa da habilidade ou visão daqueles no alto comando, mas porque Nós o Povo permanecemos fiéis aos ideais de nossos ancestrais, e verdadeiros aos documentos de nossa fundação.

E assim tem sido. E, portanto assim deve ser com essa geração de Americanos. Que nós estamos em meio a uma crise é agora bem compreendido. Nossa nação está em guerra, contra uma rede de longo alcance de violência e ódio. Nossa economia está enfraquecida, uma conseqüência de ganância e irresponsabilidade da parte de alguns, mas também de nossa falha coletiva em realizar decisões difíceis e preparar a nação para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos despedaçados; negócios fecharam. Nosso sistema de saúde é custa demais; nossas escolas falham à muitos; e cada dia traz novas evidências de que os meios que nós usamos energia fortalece nossos adversários e ameaça nosso planeta. Esses são os indicadores da crise, sujeitos à dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo é o desseivamento da confiança através de nossa terra – um constante medo de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve abaixar suas vistas. Hoje eu digo para vocês que os desafios que encaramos são reais. Eles são sérios e eles são muitos. Eles não serão encarados facilmente ou em um período curto de tempo. Mas saiba disso, América – eles serão encarados.

Nesse dia, nós nos reunimos por acreditarmos que escolhemos esperança ao invés de medo, unidade de propósitos ao invés de conflito e discórdia. Nesse dia, nós estamos aqui para proclamar um fim para os mesquinhos ressentimentos e falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados, que por muito tempo estrangularam nossa política. Nós permanecemos uma nação jovem, mas nas palavras das Escrituras, é chegado o tempo para deixar de lado a infantilidade. É chegado o tempo para reafirmar nosso resistente espírito; para escolher nossa melhor história; para carregar adiante aquela preciosa dádiva, aquela nobre idéia, passada de geração em geração: a promessa dada por Deus que todos são iguais, todos são livres e todos merecem uma chance de buscar a completa extensão de sua felicidade. Ao reafirmar a grandiosidade da nossa nação nós entendemos que grandiosidade nunca é dada. Ela deva ser merecida. Nossa jornada nunca foi uma de atalhos ou de aceitar isso mesmo. Ela não tem sido um caminho para os fracos de coração – pois aqueles que preferem lazer ao invés de trabalho, ou procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama. Ao invés disso, tem sido os que arriscam, os que fazem, os que constroem coisas – alguns celebrados, mas mais freqüentemente homens e mulheres obscurecidos em seu trabalho, quem nos carregou pelo longo, carpetado caminho em direção à prosperidade e liberdade. Por nós, eles recolheram suas possessões mundanas e viajaram pelos oceanos em busca de vida nova. Por nós, eles labutaram em fábricas e colonizaram o Oeste; agüentaram o chicote e araram a terra dura. Por nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburgh; Normandia e Khe Sahn. Repetidas vezes através do tempo, esses homens e mulheres batalharam e sacrificaram e trabalharam até que suas mãos estivessem calejadas para que nós pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América como maior que a soma de nossas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento, riqueza ou facção. Essa é a jornada que nós continuamos hoje. Nós permanecemos a mais próspera, poderosa nação da Terra. Nossos trabalhos não são menos produtivos do que quando essa crise começou. Nossa mente não é menos inventiva, nossos bens e serviços não são menos necessários do que semana passada ou mês passado ou ano passado. Nossa capacidade permanece a mesma. Mas a época de permanecer apáticos, de proteger os estreitos interesses e adiar decisões desagradáveis – essa época com certeza se foi.

Começando hoje, nós devemos nos levantar, bater a poeira, e começar de novo o trabalho de refazer a América. Pois para onde quer que olhemos, ainda há trabalho para ser feito. O estado da economia clama por ação, ousada e ágil, e nós iremos agir – não apenas para criar novos empregos, mas para fundamentar nosso crescimento. Nós iremos construir estradas e pontes, as redes elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos unem. Nós vamos restaurar ciência a seu devido lugar, e brandir as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade de nosso sistema de saúde e diminuir seus custos. Nós vamos conquistar o sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e mover nossas fábricas. E nós vamos transformar nossas escolas e faculdades em universidades que enfrentarão as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. Tudo isso nós faremos. Agora, há muitos que questionam o tamanho de nossas ambições – aqueles que sugerem que nosso sistema não pode tolerar planos grandes demais. Suas memórias são curtas. Pois eles esqueceram o que esse país já fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando imaginação é unida ao propósito comum, e necessidade à coragem. O que os cínicos falham em entender é que o chão tremeu sob seus pés – que os caducos argumentos políticos que nos consumiram por tanto tempo não mais se aplicam.

A pergunta que nós fazemos hoje não é se nosso governo é grande ou pequeno demais, mas se funciona – se ajuda famílias a encontrarem empregos por um salário digno, planos de saúde que podem pagar, aposentadoria que é digna. Onde a resposta for sim, nós planejamos prosseguir. Onde a resposta for não, programas irão terminar. E aqueles que administram os dólares públicos serão responsabilizados – para gastarem de forma sábia, reformarem hábitos antigos, e fazer nossos negócios à luz do dia – porque apenas então nós podemos restaurar a confiança vital entre o povo e seu governo. Nem é a questão perante nós se o mercado é uma força boa ou má. Seu poder de criar riqueza e expandir liberdade é incomparável, mas essa crise nos lembrou que sem um olhar vigilante, o mercado pode sair de controle – e que uma nação não pode prosperar enquanto favorece apenas os prósperos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas no tamanho de no Produto Interno Bruto, mas no alcance de nossa prosperidade; na nossa habilidade de estender oportunidade para todos os corações abertos – não pela nossa caridade, mas porque essa é a rota mais certa para o bem comum. E para nossa defesa comum, nós rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança e nossos ideais.

Nossos Pais Fundadores, a encarar perigos que mal podemos imaginar, rascunharam uma carta para assegurar o império da lei e os direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue das gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e nós não desistiremos dele por capricho do expediente. E, portanto para todas as pessoas e governos que estão assistindo hoje, das maiores capitais à pequena vila onde meu pai nasceu: saiba que a América é uma amiga de cada nação e cada homem, mulher, e criança que busca um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais. Lembre-se que as gerações passadas derrotaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com firmes alianças e persistentes convicções. Eles entenderam que nosso poder por si só não pode nos proteger, nem nos dá o direito de fazermos o que quisermos. Ao invés disso, eles sabiam que nosso poder cresce por meio de seu uso prudente; nossa segurança emana da justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades temperadas da humildade e restrição. Nós somos os guardiões desse legado. Guiados por esses princípios mais uma vez, nós podemos encarar essas novas ameaças que demandam ainda maior esforço – ainda maior cooperação e compreensão entre nações.

Nós vamos começar a responsavelmente deixar o Iraque para seu povo, e a forjar uma duramente conquistada paz no Afeganistão. Com velhos amigos e novos inimigos, nós vamos trabalhar persistentemente para diminuir uma ameaça nuclear, e para fazer recuar o espectro de um planeta em aquecimento. Nós não vamos nos desculpar pelo nosso estilo de vida, nem vamos vacilar na sua defesa, e para aqueles que buscam avançar seus fins induzindo terror e massacrando inocentes, nós diremos à vocês que nossos espírito é mais forte e não pode ser quebrado; vocês não podem durar mais que nós, e nós os derrotaremos. Pois nós sabemos que nossa herança de retalhos é uma força, e não uma fraqueza. Nós somos uma nação de Cristãos e Muçulmanos, Judeus e Hindus – e não-crentes. Nós somos formados por todas as línguas e culturas, trazidos aqui de todos os cantos dessa Terra; e porque nós experimentamos a amarga lavagem da guerra civil e segregação, e emergimos desse episódio negro mais fortes e mais unidos, nós não podemos senão crer que os velhos ódios irão um dia passar; que as linhas entre tribos logo se dissolverão; que no que o mundo diminui, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América deve fazer sua parte em criar uma nova era de paz.

Para o mundo Muçulmano, nós buscamos um novo caminho adiante, baseado em interesse e respeito mútuo. Para esses líderes ao redor do mundo que buscam colher conflito, ou culpar os males de suas sociedades no Ocidente – saibam que seus povos os julgam pelo que vocês constroem, não pelo que vocês destroem. Para àqueles que buscam poder por meio da corrupção e fraude e o silenciamento da oposição, saibam que vocês estão do lado errado da história; mas que nós estamos dispostos a estender a mão caso vocês estejam dispostos a abrir os punhos. Para os povos das nações pobres, nós nos comprometemos a trabalhar junto com vocês para fazer suas fazendas florescerem e fazer com que águas limpas avancem; para nutrir corpos e alimentar mentes famintas. E para aquelas nações como a nossa que aproveitam relativa abundância, nós dizemos que não podemos mais nos permitir indiferença para com aqueles sofrendo fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem nos importarmos com os efeitos. Pois o mundo mudou, e nós devemos mudar com ele.
Enquanto consideramos a estrada que surge diante de nós, nós nos lembramos com humilde gratidão desses bravos Americanos quem, nesse momento, patrulham em longínquos desertos e distantes montanhas. Eles têm algo a nos dizer hoje, assim como nossos heróis caídos em Arlington sussurram a nós através das eras. Nós os honramos não apenas por serem os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles simbolizam o espírito de serviço; uma disposição em encontrar sentido em algo maior que eles próprios. E ainda assim, nesse momento – um momento que irá definir uma geração – é precisamente esse espírito que deve habitar a todos nós. Pois há um limite para o que governo pode e deve fazer, é em última instância, na fé e determinação do povo Americano que essa nação confia. É na coragem do bombeiro em correr em direção à escadarias esfumaçadas, mas também na disposição de um pai em nutrir uma criança, que afinal decide nosso destino. Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais nós vamos enfrentá-los podem ser novos. Mas esses valores pelos quais nosso sucesso depende – trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo – essas coisas são velhas. Essas coisas são verdadeiras.

Eles tem sido uma força silenciosa de progresso através da história. O que é necessário então é um retorno à essas verdades. O que é necessário de nós é uma nova era de responsabilidade – um reconhecimento, na parte de todo Americano, de que nós temos deveres para conosco, nossa nação, e para com o mundo, deveres que não aceitamos de má vontade, mas ao invés disso conquistamos alegremente, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, que define tanto nosso caráter, do que nos entregarmos completamente a uma tarefa difícil. Esse é o preço e a promessa de cidadania. Essa é a fonte de nossa confiança – o conhecimento de que Deus nos chama para formar um destino incerto. Esse é o significado de nossa liberdade e nosso credo – o motivo pelo qual homens e mulheres e crianças de todas as raças e todas as crenças podem se unir em celebração nessa magnífica praça, e porque um homem cujo pai a menos de sessenta anos atrás poderia não ter sido servido no restaurante local pode agora se erguer perante vocês e realizar um dos mais sagrados juramentos. Então vamos marcar esse dia com lembrança, de quem nós somos e quanto nós caminhamos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas encolhidos em torno de uma fogueira nas margens de um rio gelado. A capital fora abandonada. O inimigo estava avançando. A neve manchada de sangue. Nesse momento quando o resultado de nossa revolução estava em dúvida, os pais de nossas nações ordenaram que essas palavras fossem lidas ao povo: “Que seja dito ao mundo futuro... que na profundidade do inverno, quando nada senão esperança e virtude podem sobreviver... que a cidade e o país, alarmados perante um perigo comum, vieram adiante para encará-lo”. América. Em face de nossos perigos comuns, nesse inverno de nossa dificuldade, nos lembremos dessas palavras eternas. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que quando nós fomos testados, nós nos recusamos a deixar essa jornada chegar ao fim, que nós não recuamos e nem falhamos; e com olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus perante nós, nós carregamos adiante aquele grande presente de liberdade e o entregamos com segurança para as futuras gerações.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Pragmatismo, guerras, pacifismo, Obama

Existem duas palavras que eu mais li na campanha de Obama em direção a presidência:
Change e Pragmatism.

Do ponto de vista do marketing, é genial.
De um ponto de vista filosófico, é interessante.

"Mudança" é dito para se dizer um radical, para conquistar todos à esquerda do centro. Uma vez que é só "mudança" e não "revolução", a centro-esquerda pode aprovar com prazer.
"Pragmatismo" foi dito para convencer todo o centro.

Antes de escrever nesse post, eu pensei na frase: "alguém disse a verdade pra alguém pensando que estava mentindo e agora vai se ferrar"
Pensei isso porque ou o Obama seria o ultra-esquerdista que vai revolucionar a América ou ele seria o sujeito calmo, que ouviria todos os lados e decidiria o que concluiria ser melhor, pouco importante se é uma política liberal ou conservadora.

Os esquerdistas, então, para convencer o centro, pensavam "Oh céus, esse sujeito é um revolucionário, mas a América nunca vai eleger um revolucionário, devemos convencê-los que ele é um pragmatista!" e durante as primárias democratas, o pensamento, claro, era outro; algum pragmatista pensava: "Esse sujeito vota exatamente igual a Hillary, vai fazer as mesmas concessões aos conservadores que ela, a esquerda nunca vai eleger um moderado inexperiente, devemos convencê-los que ele é um revolucionário!"

Bem, alguém convenceu o outro da verdade e, por isso, se ferrou.

Pensando melhor no post, entretanto, no que os assuntos se expandiam na minha mente, eu decidi que, embora o acima fosse verdade, a questão é que Obama é de fato uma vitória da mudança e uma vitória do pragmatismo, caso ele seja o que eu acho que ele será. Só que a mudança que Obama promove não é da direita pra esquerda, mas do ideal pro pragmático.

Um idealista político, da forma que eu entendo, é alguém que se baseia em conceitos ao invés de resultados.
Kant é o grande exemplo de idealista.
A Paz Eterna é possível? Não importa. Sendo ela desejável, então o conceito deve ser postulado para que ele transforme a realidade de modo que ela se torne possível.
A idéia é que a possibilidade da Paz Eterna não existe antes do conceito ser formulado. Não se lê os livros de história e analisam os fatos e se conclui "a Paz Eterna é possível".
O que fazemos é postular o conceito, "fingir" que ele é possível, com isso mobilizar a humanidade em direção a tal ideal, para que só então ele se torne possível.

A guerra do Iraque foi outro exemplo de idealismo, embora menos nobre que o Kantiano. Em prol de um conceito de América que envolvia um país com um exército de imortais que exportavam democracias para povos que os receberia de braços abertos, toda a realidade do conceito foi deixada de lado. A realidade não importava, ela aconteceria eventualmente. Primeiro o conceito, então a realidade.

Mas claro, ideais a longuíssimo (eterno?) prazo envolvendo conceitos abstratos podem ser objeto de postulados e idealismos. Já uma guerra que esperavam terminada em meses não funciona da mesma forma.
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Em uma recente troca de e-mails sobre Israel, eu dizia que deixei de ser pacifista assistindo Hotel Ruanda e meu interlocutor me respondeu que se tornou um pacifista lendo sobre Ghandi e Martin Luther King.
No post que fiz hoje mesmo, ridicularizo a postura de quem pede aos Palestinos resistência. Reitero algo que disse há um tempo atrás, que os Palestinos estariam em melhor condição de vida se aceitassem sua rendição.

Hotel Ruanda não me fez flertar com o bélico, o que Hotel Ruanda fez foi convencer de Ghandi não pode existir em todo lugar. Me fez ser um pragmatista de algum modo. Guerra ou paz não podem ser ideais eternos e universais, eles devem estar sempre analisados no seu contexto.

Em Ruanda, assim como em Darfur atualmente, não há resistência. Há cidadãos que pegam suas armas particulares pra defender suas cidades e até isso eu acho demais. Não deveria haver nenhuma resistência.
Se o personagem principal em Hotel Ruanda sobreviveu e pôde contar sua história e pode dizer pra mim "a África existe" e despertar em mim um sentimento de um dia ir pra lá ajudar como posso é porque ele se rendeu. É porque ele negociou com quem matou incontáveis amigos seus e arruinou sua vida. É porque ao invés de pegar uma arma, ele subornava as pessoas que queriam ver sua família morta.
Perante uma força que não pode ser vencida, "resistir" é um suicídio que não faz bem pra ninguém, que aumenta o número de mortos irracionalmente e não cumpre nenhum objetivo.

Uma guerra difícil de ser vencida, como foram as guerras mundiais, fazem sentido. Guerras impossíveis de ser vencidas devem ser admitidas como perdidas. A resistência não salva uma vida, não alimenta uma criança. Resistência no caso de Ruanda seria sinônimo de morte. A desistência garantiu a vida do personagem principal. Para um milhão de outros, entretanto, não havia alternativa.

Então parece que estou defendendo o pacifismo aqui, mas a verdade é que antes de assistir Hotel Ruanda, eu dispensava a legitimidade do envio de tropas à Darfur dizendo que era "uma guerra de esquerda", que não faria nenhum bem bombardear os inocentes do Sudão, etc e tal.
Hoje eu acho que não existe nenhum lugar que mereça mais tropas do que Sudão.
Para o cidadão Sudanês atual, a resistência é o suícidio sem propósito e sem resultado; a fuga e a rendição é uma fagulha de esperança de uma sobrevivência miserável e insustentável. Para haver qualquer coisa parecida com justiça lá, é preciso tanques de guerra e mísseis contra os Janjaweed. Mas sem uma força internacional capaz de seriamente deter a ameaça, não vejo que bem existira em qualquer resistência do povo de Darfur.

Se eles atirassem foguetes nos civis árabes sudaneses, eu não chamaria aquilo de resistência, chamaria do que tenho chamado: suicídio. Sem resultados. Sem propósito. Bom para ninguém. E aí repito a infantilidade que é usar as palavras "intifada" e "resistência" como algo além do seu sonho adolescente de estar lutando por algo.

Em um artigo do Haaretz que falava sobre a ausência de protestos pró-Palestina na própria Palestina (Cisjordânia), um dos motivos apontados era que após a segunda Intifada, não havia mais motivação para lutar. O que a Intifada trouxe de bom para a Palestina?
Checkpoints, bloqueio econômico, muro, mais apoio aos colonos israelenses, mais soldados israelenses dentro da Palestina, menos autoridade para a Autoridade Palestina, maior distância da paz. Quem argumenta aqui que idealmente Israel nem deveria estar lá em primeiro lugar não está sendo diferente do que o norte-americano que defendeu a invasão ao Iraque.
Primeiro se cria o conceito de justiça, mesmo que impossível, depois age em direção ao impossível, na esperança que o conceito vire realidade.
Não virou, nem vai virar e cada tentativa traz mais sofrimento, mais mortes, mais guerra, mais ódio, etc.
Falar de resistência é projetar seus próprios desejos de aventura em um povo que não precisa de aventura, mas de comida, emprego, escolas, futuro e, sim, que sua pátria deixe de ser ocupada por uma força estrangeira.
A violência da Palestina contra Israel cumpre quantos desses objetivos? Desde que o Hamas começou a atirar foguetes em Israel, houve menos comida, menos emprego, menos escola, menos futuro e a Gaza, antes sem colonos e sem exército Israelense, volta a ter o último, talvez volte a ter os primeiros.
E aí é uma tragédia para todos e mesmo caso a ausência de uma resistência Palestina fosse incapaz de melhorar a situação do povo Palestino perante à insensibilidade dos Israelenses, ao menos não poderíamos dizer que uma Gaza sem atiradores de foguete estaria tão triste quanto está hoje.

Não vou ser eu quem vai dar uma solução pro Oriente Médio, mas de tudo que eu li nessas semanas, o que me parece mais coerente é o que Jeffrey Goldberg argumenta: "A melhor esperança para uma solução bi-estatal é uma Cisjordânia vibrante", pois na Cisjordânia (e é um motivo pelo qual o Hamas venceu a eleição) o govero palestino se rendeu. Graças a isso, a economia tem melhorado e a Cisjordânia compartilha problemas de Gaza, não é em um nível sequer similar e no que a economia continua melhorando, eles morrem de medo de grupos extremistas botarem tudo a perder.
A rendição palestina não traz um fim da injustiça em um ano, ou em 10, mas mantém a estabilidade e, a passos de pomba, a mudança acontece.
É minha preocupação para quem esperança do Obama mudança e pragmatismo ao mesmo tempo. Existem raras vezes em que uma revolução é pragmática e se pragmatismo significa ouvir todos os lados e analisar todas as opções e decidir baseado no que é "mais daquilo que nós chamamos de 'bom'" ao invés de numa pré-determinada postura progressiva ou conservadora, então as mudanças do Obama vão demorar. Elas vão acontecer, mas uma mudança demorada é quando alguém que você vê todo dia deixa o cabelo crescer. Você só percebe que o cabelo dele cresceu quando olha uma foto de meses atrás.
Acredito que Obama vai trazer a mudança, mas duvida que qualquer uma vai gerar uma manchete de jornal, afinal, quem fala "puxa, seu cabelo cresceu 3 milímetros hoje"?
Esperançosamente, se as coisas estiverem bem melhores daqui há 4 anos, que ele consiga convencer o povo americano que ele parece molenga, mas "vocês se lembram como era antes?"
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Anyway
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O que isso diz sobre a África? E se eu penso em geopolítica, eu penso sempre sobre o prisma da África, sempre me fazendo essa pergunta.
O Sudanês não tem o privilégio de ser inimigo de Israel, Estados Unidos ou Inglaterra.
O Janjaweed não faz nenhuma distinção entre militar e civil, entre convenção de genebra e crime de guerra, entre prisioneiro e rendido, entre criança, adulto, mulher, idoso.
Países civilizados em guerra muito frequentemente colocam a vida dos próprios soldados em primeiro lugar e a humanidade dos civis inimigos em segundo, mas a humanidade dos civis inimigos é uma preocupação. Está lá.
Nesses casos, eu vou argumentar, o pacifismo funciona, logo, é um bem.
Ghandi lutava contra os britânicos e seu pacifismo funcionou. A Cisjordânia "se rendeu" e aos poucos tem funcionado.
Porque se a vida dos soldados não está em risco, a preocupação com o civil, mesmo que pequena, se torna única. E se há imprensa livre, intelectuais, necessidade de apoio político de outros países com imprensa livre, intelectuais, etc. então eventualmente os direitos ao povo oprimido serão garantido, não pela passividade, mas pela luta sem violência.

Onde a paz não funciona? Em países sem Gideon Levy denunciando o próprio país de genocidas sem alma, mas não deixando de tomar seu cafezinho pela manhã por causa disso.
A semelhança entre regimes que causam genocídios em qualquer parte do mundo, seja contra europeus, negros ou árabes, é a falta de liberdade de imprensa. Quantos artigos anti-Israel não saíram de fontes Israelenses? Quantos artigos contrários a guerra do Iraque não saem de dentro dos Estados Unidos? E pra tentar fazer disso algo que pode ser provado "a priori", eu decidi buscar agora no google british press ghandi ou coisas similares pra achar o que os jornais britânicos da época diziam sobre a Índia.
E certo:
Eu achei uma pequena tese defendendo exatamente isso que eu defendo.
A esquerda pode se vangloriar de salvar a vida de Palestinos quando denuncia Israel de crimes de guerra, de opressão, etc. Mesmo que estejam errados, os nossos pacifistas estão fazendo o que pacifistas da Palestina deveriam estar fazendo e se nossos Palestinos salvam vidas lá, imagine o que os próprios não fariam.
Quando a esquerda perde o respeito? Quando começa a menosprezar os foguetes palestinos.

É engraçado que dizem que a estratégia de Israel é auto-destrutiva porque cria mais terroristas e mais ódio, etc. É verdade, mas o mesmo vezes 1000 não pode ser dito dos ataques Palestinos que boa parte da esquerda, que nunca concordou consigo própria, tentou legitimar como um povo justamente se defendendo de um invasor estrangeiro? (existe qualquer debate polêmico nesse universo sobre qualquer assunto onde os dois lados não argumentam a mesma coisa, só que pela ótica oposta?)

Agora, olhando pelo prisma do pragmatismo (lembrando que esse post tem como plano de fundo que os que apóiam Obama estão apoiando o pragmatismo), quem tem mais a perder quebrando pacifismo?
Se Israel não é pacifista, tem que lidar com os foguetes e com o ocasional ato terrorista. Se a Palestina não é pacifista, tem que lidar com bombardeio que os leva de volta à idade das cavernas.
Nenhum dos países se beneficiam com a guerra, mas, pensando no bem próprio de ambos, Israel prejudica um pouco a si própria sendo bélico, já a Palestina perde tudo.

A resistência armada Palestina é irracional, diga-se de passagem, é bem mais irracional que qualquer ato de guerra Israelense. Israel pode perder sua humanidade fazendo guerras, mas não perde a vida de suas crianças. O mesmo, obviamente, não pode ser dito sobre os Palestinos, que quando atacam os civis israelenses perdem a humanidade E as próprias vidas.
Se suicidam para serem mais pobres, mais oprimido, mais ocupados.
A palavra "intifada" deveria ser considerada um palavrão pra qualquer um que se importe com as vidas Palestinas, ao invés disso, o site "eletronic intifada" é o centro de informações pró-Palestinas/Anti-Israelenses da internet.
Aí não conseguimos levar mais a sério quem nos diz estar preocupados com os Palestinos. Incentivar que os Palestinos sejam violentos e mesmo encarar a violência deles como algo compreensível é defender que eles morram ganhando em troca fome e opressão.
Quando a mídia foca no sofrimento Palestino, tenta incentivar Israel a acabar com a ocupação. Funcionou no caso de Ghandi. Mas claro, se Ghandi tivesse atacado, por pouco eficiente que fosse, causando poucas mortes que seja, não seria difícil de imaginar que hoje o reconheceríamos como terrorista.
Desprezar a eficiência dos foguetes do Hamas é um erro. A Palestina deve não atacar, atacar de modo incompetente não é ser pacifista, obviamente. E a imprensa impede guerras contra pacifistas, não contra quem ataca, por incompetentes que sejam os atacantes.
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Pra um Sudanês, por outro lado, não há distinção entre se render e lutar. Ele morre de qualquer jeito. Ainda, não há imprensa no Sudão e opinião pública de valor para ajudá-lo.
Esse é o estado mais triste possível de coisas. Mas ainda não vejo a violência como alternativa.
Quando a violência é uma alternativa nesse caso? Quando a ONU largar de ser covarde e mandar pessoas com armas pra lá parar a matança.
Se a alternativa do povo Sudanês é morrer ou morrer, então um elemento externo tem que ser adicionado à equação. O único elemento externo que nós temos são os nossos exércitos. Então ou enviamos nossos exércitos ou eles vão morrer.
O Brasil, por exemplo, notoriamente se recusa a impedir que Sudaneses morram.
O seu governo, brasileiro, é um dos governos que impediram que a ONU tomasse a ação quando o número de mortos era 100 a 200 mil. Hoje está entre 200 e 600 mil e o Brasil não discute qual sua posição porque está estudando. Quando estiver entre 600 mil e 1 milhão e 200, talvez o Brasil pense que há 10 anos atrás teria sido uma boa idéia ajudar os Sudaneses.
Enquanto isso, a pouca resistência que existe no Sudão atrapalha sua causa. Não conseguem vencer, não conseguem impedir que os civis morram, não conseguem nada, mas o mero fato de existirem faça com que o Sudão finja estar em guerra civil ao invés de simplesmente matando inocentes.
Além disso, o Sudão tem como aliado a China, graças a China, o Sudão ganha o Brasil como aliado e graças ao fato de quem mata ser árabe, o Sudão ganha todos os países árabes como aliados e, graças ao fato de quem mata ser árabe[2], o Sudão ganha parte dessa gente anti-Israel como aliada, pois há quem diga que após meio milhão de mortos, só desejamos uma "proxy war" contra a China e o Irã por causa de petróleo que talvez-mas-provavelmente-não existe em Darfur.
Os Estados Unidos foram o único país do mundo a declarar o que acontece em Darfur genocídio, Israel é o único país do mundo a receber refugiados sudaneses, recebe-os do Egito, onde são maltratados (assim como os refugiados Palestinos são maltratados no Brasil) e centenas deles ganharam cidadania israelense.
O Brasil sequer reconhece simbolicamente que há genocídio e se abstém de votações que pedem para o próprio governo que causa o genocídio investigar as mortes.

Então a situação de alguém no Sudão só se resolve admitindo suas mortes ou apoiando uma força internacional. Não há pacifismo capaz de pressionar o governo Sudanês a parar o massacre; pelo contrário, quanto mais extremista se torna, mais o Sudão ganha o apoio o Irã, assim como não há, na resistência, força capaz de deter os ataques.

A China permanece o meio pacifista mais próximo de parar os ataques à Darfur.
A China é um país pragmatista. Ela quer vender tranqueiras pra comprar tranqueiras e está pouco se lixando pra ideal de quem quer que seja.
Boicotar produtos Made In China, se feito em uma escala grande o bastante, poderia ajudar a situação. Mas a China produz tantas coisas que a mera noção de colocar de volta na prateleira tudo que tenha "Made In China" tatuado em algum lugar, nos fará deixar de comprar qualquer coisa que seja. Mas enfim, é um esforço que eu vou começar a fazer a partir de hoje.

Aí como eu fico nisso? Sei lá. Eu também sou vegetariano por conta dos direitos dos animais, mas não vejo menos animais morrendo por causa disso.
Mas a esfera internacional e particular são distantes.
Eu me mantenho um idealista em termos particulares, fazendo pequenos atos baseado em conceitos impossíveis na esperança de que a criação do conceito, hoje falso, traga um dia verdade a ele.
A esfera internacional é distante, de fato, não podemos falar em idealismo quando temos controle sobre tanto e precisamos de tanto. Se um exército não pode derrotar seu inimigo, ele deve largar as armas ou fugir. Se um exército pode derrotar seu inimigo, ele deve derrotá-lo. Para que nós não sejamos escravos de exércitos que podem derrotar inimigos, precisamos de uma imprensa livre e de um sistema legal que permita à opinião pública parar exércitos.

Paz Mundial Finalmente!

O único exército do mundo a matar cidadãos inocentes finalmente cedeu às pressões dos abaixo-assinados online e decidiu se render, declarando vitória clara ao oponente.
Espera-se que Israel deixe de existir até 2012, mas os líderes da Nova Palestina asseguram que os judeus terão o seu direito assegurado, inclusive que a parada gay de Tel Aviv terá continuidade. Aliás, afirmam até que uma filial da Lôca será instalada em Jerusalém porque a paz não seria possível sem a blogosfera paulistana.

A nova Autoridade Palestina agradece a todos que argumentaram que a Palestina tinha o direito de resistir e todos que incentivaram que continuassem resistindo. Graças a isso, a faixa de Gaza hoje apresenta o maior IDH do mundo. Caso eles tivessem cessado a violência, como pediam os bélicos, imperialistas e desumanos; certamente hoje Gaza estaria na plena miséria.
Graças a Deus por aqueles que são solidários ao povo Palestino e que pediram sua resistência ante a Israel, pois a resistência certamente aumentou em muito a qualidade de vida daquele povo, justificando completamente que os rojões que o Hamas atirava simbolicamente sobre Israel, mirando especificamente em ruas que sabiam que de antemão estavam vazias, nunca tiveram o intuito de machucar ninguém; pretendiam apenas chamar atenção do mundo para o quanto sofriam.

Não tivessem atirado os foguetes, não tivessem aniquilado a oposição política, não tivessem recrutado crianças para lutar na guerra, hoje com certeza não existiria mais Gaza, nem Cisjordânia, aliás, talvez nem Paquistão, Angola ou Austrália, sabe-se lá quando Israel ia parar na sua clara marcha de dominação. Fica claro para todos nós aqui, comemorando a paz mundial, já que o único conflito a aparecer no Jornal Nacional e merecer longa deliberação e debates online finalmente chega ao indubitável fim com a derrota de Israel, que não havia outro meio de chegar a paz senão por meio dos escudos humanos e dos ataques feitos de dentro das escolas, mesquitas, e prédios da ONU e que, afinal, todos os caminhões de ajuda humanitária roubados para que sua comida pudesse ser vendida a preços exorbitantes para um grupo de esfomeados mais do que se justifica, pois todo seu objetivo era financiar a resistência armada que, como dito e repetido, não fez nada senão trazer ótimos resultados para o povo Palestino.

Se ao menos tivesse sobrado um líder vivo do Hamas para que pudéssemos compará-lo a Ghandi.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Uma triste história de pragmatismo militar

Recebi um comentário e, neurótico como sou, não consegui parar de escrever.
Então vou reproduzir aqui o comentário e a resposta:

Sandra disse...
"Qualquer um que trate sobreviventes do holocausto, sem lugar para morar,chegando na terra em que sonhavam em levar democracia e prosperidade em uma catástrofe, é anti-semita." Só de ler este parágrafo tenho arrepios. Gostaria de esclarecer: ser anti - sionista não é o mesmo que ser anti-semita. Apenas nesta parte você já mostrou a sua parcialidade, que deturpa sua visão dos fatos. Imagino que seja muito difícil ter uma visão clara e crítica tendo escolhido previamente um dos lados. Pense só no absurdo que você está dizendo: ou apoiamos o estado de Israel e todos os crimes cometidos para a sua fundação (ou você acha que não houve crime algum, os sionistas são bonzinhos e mataram por uma boa causa?)ou você é anti-semita??? Conheço várias pessoas, incluindo a mim, que não são judias, mas que fazem questão de conhecer um pouco da história do povo judeu e se sentem absolutamente revoltados com o anti-semitismo e todas as barbaridades cometidas por causa do ódio aos judeus. Ficamos ainda mais tristes em pensar que mesmo após o holocausto, este sentimento ainda existe no mundo. Mas isso não significa apoiar Israel. Talvez por não estarmos diretamente envolvidos, fica claro para nós que a criação do Estado de Israel só faz sentido para quem é judeu e acredita que guerra,assassinato e a expulsão de milhares de pessoas de suas terras seja justificada pelo "direito" judeu a esta terra.
Sinceramente, é extremamente lamentável como ainda hoje existam pessoas com mente tão estreita, apesar de conhecimento da história.

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Sandra, depende de um monte de coisas.
Discordar das ações do Estado de Israel como se discorda das ações de qualquer Estado obviamente não pode ser acusação de antissemitismo.
Fosse assim nenhum cidadão Israelense poderia discordar do próprio governo e se 96% dos israelenses apóiam os ataques, não é porque o governo decide no lugar deles.
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Já ser contra a fundação do Estado de Israel é algo perigosamente perto de antissemitismo mesmo que não seja exatamente a mesma coisa.

É o único país Judeu do mundo, fica, como eles gostam de brincar, no único lugar do Oriente Médio sem petróleo, além disso, enfrentaram uma guerra na fundação, e praticamente uma grande guerra por década, sem contar esses ataques como os de agora onde têm a vantagem militar clara.

Não é preciso ser judeu para entender a necessidade de Israel. Sem Israel, nenhum Judeu pode se sentir seguro em parte alguma do mundo. É um exagero e uma inexatidão dizer que Israel existe por causa do holocausto, o holocausto foi a confirmação de um argumento que os sionistas do século XIX faziam: que se o bicho pega, os judeus não tem pra onde correr.

Ocorre de ficar na Terra Santa, mas até aí, Belém fica do lado de Jerusalém, o lugar onde a face humana de Deus nasceu da virgem está lá ao lado e você não vê católicos morrendo em guerra atrás de guerra para defender o lugar.
Em épocas que o Papa não podia ficar em Roma, davam um jeito (ou compravam um jeito) para ele ficar na França. Os católicos não defendiam Roma com unhas e dentes (não defenderam nem no império romano).
Porque se o bicho pega, nós temos toda a Europa e as Américas pra correr. Se o Judeu é expulso de sua terra e não tem Israel, quem o acolhe? NY?
Israel não foi uma escolha de um povo egoísta que queria roubar a terra de alguém. Foi uma necessidade. Foi o melhor lugar do mundo? Bem, onde mais os judeus poderiam declarar que iriam todos fundar seu Estado sem que alguém tentasse matá-los? No mais, não era uma terra árabe. Era terra britânica onde árabes por acaso moravam. Em pouca quantidade e na sua maioria rurais.
O sonho romântico sempre foi modernizar o país e aí, depois, quando os árabes locais estivessem felizes da vida que os judeus transformaram um monte de fazendas em prósperas metrópoles, iam de todo grado aceitar em um estado de maioria judia, mas democrático e com liberdade de religião. Não aconteceu assim. Mas que os árabes não os aceitassem era um triste obstáculo. A necessidade de não se exporem a mais uma perseguição (não a segunda depois de Hitler, mas a enésima depois de todo mundo nos últimos mil e tantos anos) ainda era imperativa. Eu acho que não precisa ser judeu pra entender isso, acho que só precisa ignorar o que eles vivem repetindo para nós.

Então eu vou defender que ser antissionista envolve uma boa dose de antissemitismo. É falar que o judeu perseguido - e nós sabemos o quanto o povo judeu ainda hoje não é exatamente amado pelo mundo - não merece um pedaço de deserto pra ser acolhido.

Entender a história do povo judeu é entender a história de um racismo. Você não entende a história do povo judeu sem entender, por exemplo, a expressão "Líbelo De Sangue"; era um mito espalhado pela Europa medieval de que os judeus fazem rituais com o sangue de crianças não-judias. Então quando exageram o número de crianças mortas no conflito, quando não explicam que o Hamas treina crianças para várias missões militares, quando não explicam que oficiais do Hamas *nunca* se movem pra lá e pra cá senão cercados de crianças, é porque existe em nós esse preconceito de que judeus matam crianças. Por mais de um milênio foi algo passado de pai pra filho católico. Um racismo milenar não morre fácil. Alguém comentou em algum lugar que na Espanha, ainda hoje, as crianças aprendem em brincadeirinhas de escola que judeu tem chifre e rabo. Isso não é antissemitismo nazista, isso é antissemitismo católico. Se o Brasil não tem uma população neonazista expressiva, bem, sabemos que tem católicos.

Esse é um exemplo. Dá pra ficar citando exemplos de estereótipos milenares judeus repetidos diariamente por aí. Que judeus são egoístas, gananciosos, insensíveis com qualquer não-judeu, etc. E o nosso antissemitismo católico é ainda mais complicado. Eu lembro que quando era criança, fazendo catecismo e indo à igreja, eu tinha a impressão que judeu e pagão eram a mesma coisa; eram as pessoas que por algum motivo discordavam do que Jesus dizia e que por isso elas eram pessoas ruins.
Então mesmo sem ouvir nenhum clichê antissemita, eu ainda tenho aquela coisa de ter ouvido quando criança que eles eram as pessoinhas da bíblia que não aceitavam Jesus. Agora, eu por algum motivo cresci e comecei a ler coisas. Quantos católicos brasileiros não buscam ser exatamente bem informados? Tendo toda informação sobre Israel limitada a quanto eles matam guerra após guerra? Que é uma informação unilateral.

Quando falamos em "povo judeu", não falamos só da "religião judaica", falamos, sim, em um povo. Assim como falamos em povo brasileiro. Hoje acontece de esse povo ter um país, então sei lá, dá pra falar que não temos nada contra os brasileiros, só não entendemos a relação entre o povo brasileiro e o Brasil? Afinal, dá pra eu ir morar em NY e continuar sendo brasileiro não dá?

Então eu vou argumentar aqui que ser contra a criação do Estado de Israel é ter um pé no Antissemitismo porque é não entender a história de um povo cuja toda história recente (por recente, eu digo pós-tempos bíblicos) tem por essência a perseguição que sofreram. De novo, são milênios de racismo, não precisa ter uma suástica tatuada para carregar isso com você.
É que nem jurar de pés juntos que não é racista, mas atravessar a rua quando vê dois negros andando na sua direção a noite.
Você não faz parte da Klux Klux Klan, mas o racismo está lá.

Aí entramos em outro estágio: ok, você entende a necessidade que o povo judeu tinha, não só por causa do holocausto, mas por causa de seu passado e futuro, de criar um Estado.
Mas eles não precisavam expulsar as pessoas de lá e não precisam bombardear as crianças Palestinas (freudian slip: revisando o texto, eu percebi que tinha escrito "bombardear as crianças Israelenses", fica para os psicólogos interpretar isso, eu vou chutar que pessoas pró-Israel vão ver algo de positivo e as pessoas anti-israel, algo de negativo.)
Aí nós vamos ficar argumentando que eu argumento nesse texto e nos comentários.

Os sionistas cometeram crimes no processo de fundação de Israel? Sim, claro, como eu digo no post e nos comentários, já existia um conflito entre árabes e judeus décadas antes da criação do Estado de Israel (que mostra que a necessidade de um Estado judeu já era urgente antes do holocausto) e existia grupos terroristas judeus, atacavam britânicos, atacavam árabes. E foram fundados porque os árabes atacaram eles. E os árabes atacaram porque disseram que foram atacados primeiro. E os judeus responderam que antes disso haviam sido atacados antes. A história vai até sabe-se lá quando. Então quando o Idelber diz que o conflito tem data pra começar e é 1948, quando os 600.000 (ou 700.000) Palestinos se refugiaram em Gaza, é ignorância proposital. É como eu dizer que a guerra contra o Hamas começou quando eles lançaram os foguetes, sem mencionar o bloqueio econômico e é como mencionar o bloqueio econômico sem dizer dos foguetes que vieram antes do bloqueio e é como mencionar esses sem falar do muro, por aí vai, em suma, é escolher um ponto aleatório de um conflito longo pra complementar sua narrativa. É o que o historiador que o Idelber gosta de citar faz, ele diz que não se importa com números ou fatos, o que importa pra ele é a narrativa. Oras, se ao invés de descobrir a história, eu só estou contando uma história, então eu posso começar de onde bem entendo mesmo.

Em 1947, como eu digo no comentário acima, havia eclodido entre árabes e judeus uma guerra civil. Quando os árabes perderam, muitos deles (eu li em algum lugar 68%, mas era um site tão sionista que eu não vou acreditar muito) fugiram antes mesmo de ver um soldado judeu. Eles sabiam que a guerra de 1948 ia acontecer e eles pensavam que, após o Estado de Israel ter sido exterminado, eles poderiam voltar. Quando a guerra estava na metade, começou a se formular o plano de voltar antes da guerra terminar para agir mais ou menos como os Iraquianos agem com os norte-americanos hoje. Israel fez o plano D (a expulsão propriamente dita) pra impedir isso.
E deu certo.
Israel faz coisas que dá certo, vamos culpar eles por isso? Assim como quando alguém menciona que os foguetes não matam ninguém (porque todo prédio Israelense tem um bunker e porque todo míssil que vem dispara uma sirene), é como culpando os Israelenses por não correr no meio da rua com suas familias para que a CNN possa tirar uma foto.
Os ataques tentam matar civis, mas Israel tem sistemas de defesa.
Que dão certo.
De novo, vamos culpar eles por isso?

Então é isso, eu assisto a CNN o dia todo quando não estou trabalhando no computador, eu vou daqui (lendo os comentaristas anti e pró-Israel) pra CNN e na CNN eu só vejo a cobertura Anti-Israel. Hoje ficou passando horas naquela barrinha inferior da CNN "UK Jewish Lawyer acuses Israel of Nazism"

Isso é necessário? Não dizia nem o nome do advogado (significa que ele não é ninguém famoso e nenhum estudioso no assunto), ele é só um judeu britânico aleatório fazendo a comparação que ele vê os outros fazendo o dia inteiro e, por algum motivo, a CNN julgou isso importante o suficiente para nos bombardear durante horas, junto com a notícia de Zimbabwe estava imprimindo uma nota de 100 trilhões ou algo assim (a aguda crise financeira de Zimbabwe, um país sofrendo uma ditadura horrenda e sofrendo com uma epidemia gravissima de cólera, é tão importante quanto um advogado judeu chamando Israel de nazista) e eu não vou nem dizer que clássico truque racista é esse.
"Eu conto piada racista pro meu amigo negão e ele dá risada, então não pega nada"
"Eu tenho um amigo bicha e ele diz que a parada gay é uma pouca-vergonha, então aqueles bichas são tudo uns safados".

Um judeu aleatório vivendo na Inglaterra chama Israel de nazista e a CNN julga isso o snipet mais importante da tarde. Mais importante que as negociações sobre o gás na Rússia, por exemplo.

Então não, eu não uso antissemitismo como uma carta para atacar qualquer crítico de Israel, eu uso para denunciar algo que de fato acontece, não em algum boteco perdido, mas em grandes blogs, grandes canais, grandes jornais e que se tornou tão senso comum, que é considerado uma ofensa questionar. É como o cara mencionado acima sendo acusado de racismo. Ele se acostumou tanto a pensar em si próprio como defensor dos negros porque o seu amigo negro finge achar graça das piadas dele que ele vai ser o primeiro a se ofender com a acusação de racismo.

Israel tem direito a terra? Bom, legalmente falando, toda ela era da Inglaterra e se ela decidiu dividir assim para os judeus e assado para os árabes, então é isso.
O que se segue é uma triste história de pragmatismo militar.

Agora, armada com todo o racismo inconsciente da imagem do judeu como o conspirador secreto, mais os ares de senso comum causado pelas repetições dos bordões (como eu também devo defender coisas que não percebo como injustiça, pois sou submetido aos bordões do meu lado também), você vai rejeitar que o que Israel faz é pragmatismo.

Você vai dizer que é ganância, que é egoísmo, que é falta de compaixão pelo não-judeu, que eles pretendiam isso desde o começo, que eles espalham o sangue das crianças não-judias com prazer e ainda vai pensar consigo própria, "como se fosse uma espécie de ritual macabro".

Não foi ingenuidade que Golda Meir, lá em 1969, disse que se um dia a paz existir, eles perdoarão os árabes por ter matado crianças judias (Hannah Arendt perdoou os nazistas, afinal de contas, e vamos convir, os judeus bem nos perdoam, a nós católicos, por todo o mal que os causamos; não é a toa que um judeu pedia a Deus "perdoai-vos"), mas ela disse que jamais poderia perdoar os árabes por forçá-los a matar as crianças deles.

Golda Meir sabia o que significava para o mundo que um judeu estivesse espalhando sangue de crianças. Sentia tanto ódio de se ver nessa situação quanto Tipzi Livni parece cansada e triste na conferência de imprensa em que tem que defender mais uma guerra em um inglês quebrado, falando para um mundo que sabe que não vai ouvir, que eles fazem de tudo para evitar inocentes, mas que o inimigo não quer que inocentes sejam evitados.

E você vai me dizer que é um absurdo que eu te chame de antissemita. Não quero dizer que você quer ser uma. Não quero te comparar com nazistas. Se algo, vou deduzir que você ia a igreja quando criança e ouvia como Jesus tinha ódio dos judeus que desgraçavam seus templos com comércio (é talvez o único episódio da Bíblia em que Jesus expressa raiva - e não é também um dos únicos episódios fora dos eventos da Paixão que Mel Gibson conta no seu filme?) e que desde que você se conhece por gente ouve que Israel mata crianças.
Eu vou dizer que você não quer ser antissemita, mas que depois de tanto que você ouve, você quase não tem escolha e que pra não se associar com nazistas, algo que você com justeza abomina, você se fecha para isso dizendo que seu ódio se restringe a Israel, terra que, para você, não tem nenhuma ligação com judaísmo, sendo apenas um nome impossível de se ouvir sem logo vir a mente o povo judeu.

Eu sei como é. Eu sinto também. Mas não finjamos não estar diretamente envolvidos. É nossa narrativa que será contada a nossos filhos. E se eu pareço ter a mente tão estreita, é talvez pela minha triste história de pragmatismo militar.
É porque esse campo de batalha que nos envolvemos quando, longe das bombas, dizemos as coisas em nossos blogs lidos por menos de 15 pessoas por mês, somos forçados a uma certa desumanidade com o outro lado.

Não, nós estamos diretamente envolvidos. Nos envolvemos quando nascemos católicos e negamos aos judeus qualquer canto pacífico do mundo, os levando a lutar um século por um pedaço de deserto que temos ainda a audácia de dizer que eles não têm direito.

Nos envolvemos também quando decidimos tomar a terra santa dos árabes e quando nossos filósofos anunciavam com todas as máscaras da racionalidade que o Alcorão é o livro mais terrível já escrito.

E nos envolvemos quando decidimos envolver a ambos na nossa secular guerra fria e nos envolvemos quando a nossa "esquerda" ainda faz questão de escolher automática e irrefletidamente um lado e a nossa "direita" faz questão de escolher automática e irrefletidamente o outro.

Você diz que "fica claro para nós que a criação do Estado de Israel só faz sentido para quem é judeu", mas são pessoas como nós. Nosso salvador era um deles aliás. Falta de sentido nunca fica clara, é a nossa iluminista definição de obscuridade.

Fica claro, portanto, que há obscuridade. Há, de fato, estreiteza.
A sua você confessou.
Você não é um deles, então eles são incompreensíveis para você.
A minha é que toda vez que vejo aquele filisteu na cruz, eu não consigo de deixar de lembrar que ele é um judeu e que nós devemos tanto a eles e, entretanto, os causamos tanto mal. Antes com tochas, hoje com palavras.
Desculpe se isso de algum modo interfere com minha responsabilidade como blogueiro lido por menos de 15 pessoas por mês.
Não posso evitar.
Tenho tanto a ver com a história que não me sinto com escolha senão pedir perdão.

Então já que o resto da blogosfera inteira está falando do bloqueio econômico, coisa que eu defendo que foi extrema, desnecessária e, em parte, motivada por racismo; eu escolho defender uma minoria brasileira de pessoas que discutem pontos positivos de uma organização que diz querer vê-los mortos.

Já que a CNN escolhe piscar na minha tela a tarde inteira que um advogado judeu diz que Israel é nazista enquanto o instituto humanitas escolhe me mandar pela newsletter um texto em que alguém acusa o povo judeu de egoísmo coletivo, eu vou dizer que eles não são nazistas e que eles não são egoístas. Acho que alguém tem que dizer que o Idelber põe links na página dele para websites que defendem que não há motivo para acreditar no holocausto mesmo porque os judeus declararam guerra à alemanha da década de 1930.

E já que ele diz "dois lados porra nenhuma", eu vou dizer "dois lados sim senhor". Ao menos dois. Eu particularmente não consigo parar de contá-los. O do povo israelense, o do povo palestino, o da direita israelense, o da esquerda israelense, o do Hamas, o do Fatah, o do Irã, o dos EUA e dá pra eu contar até citar cada partido político do mundo.
Todos presos em uma teia de racismos irracionais e realpolitks ultra-racionalistas em que alguém no Likud acha que um bombardeio aumenta suas chances de se reeleger enquanto os EUA precisam de um posto de comando cercado de seus inimigos enquanto um judeu pede a Deus para que as sirenes parem de tocar todo santo dia, para que ele tenha mais do 15 segundos para largar toda sua vida e correr para seu abrigo enquanto um Palestino reza para que hoje tenha comida, hoje tenha eletricidade e, por Deus, hoje não tenha bombardeio ao mesmo tempo em que uma criança numa escola do Hamas aprende que paz é desistência, paz é covardia, paz é pecado, que toda paz envolve um mundo sem judeus e que após a queda de Israel, é preciso matar os judeus do resto do mundo e essa criança vai com orgulho andar ao redor do general que é seu professor e quando uma bomba matar os dois, a CNN sabe que o que mantém a audiência não é o general, mas a criança.
E nós somos peças sei lá de quem. Hugo Chávez se prepara para trazer de volta a Venezuela companhias petrolíferas que ele havia expulsado anos antes declarando uma vitória da revolução, os tempos são difíceis, ele precisa mostrar que ainda é macho, então ele aproveita a última semana de ataques livres ao Bush e expulsa o embaixador israelense. Evo Morales também precisa mostrar que é macho. Faz o mesmo. Alguém aplaude. Alguém foi útil.
Já os EUA não podem lutar uma guerra agora, mas sabem que mais cedo ou mais tarde vão ter que lutá-la, se não pelas armas nucleares, então para manter os caças sendo fabricados em época de crise econômica. Eles começam a nos dizer o quanto os pecados do Hamas são o pecado do Irã. Alguém aplaude. Alguém foi útil.
E o PT quer petrodólares iranianos, tem vendido armas pra eles faz um tempo já, "escapa" alguém dizendo que Israel é nazista. Sem contar que nunca faz mal, no país mais católico do mundo, dizer que faz sua parte para fazer com que os judeus parem de espalhar sangue nazista. E não faz mal também, na sua versão paz e amor, dar um jeito de se mostrar macho atacando o primo pobre dos EUA, quem não tem mais coragem de atacar. Alguém aplaude. Alguém vota. Alguém foi mais do que útil.
Tem tantos lados que se beneficiam do sangue das crianças palestinas. É uma triste história de pragmatismo militar pra todo mundo. Uns fazendo o que devem para preservar seu país e outros fazendo o que devem para preservar seu poder.
Aí alguém diz "dois lados porra nenhuma", que escolha eu tenho senão apontar que existem infinitos lados?
E eu estou pedindo perdão. Quero que o judeu fugindo da sirene me perdoe por um monte de coisas. Então eu tendo ao lado dele.
E depois de assistir Hotel Ruanda, eu deixei de ser um pacifista. Aquele filme me fez ver que pessoas armadas fazendo a coisa certa no local certo pode salvar um monte de vidas. Não houve guerra em Ruanda, e o oposto da guerra não foi a paz, foi o massacre.
Na complexa teia de poderes que fazem os fatos, eu tenho lá minha cota de motivos cínicos e maquiavélicos para apoiar esses ataques.
Parar de "resistir", como a blogosfera insiste para que não façam, é o caminho mais curto para a paz, para o fim da violência, para o fim da morte de crianças. Sem terroristas e sem violência, Israel tem que lidar com seus humanistas. E aí as condições do povo Palestino vão melhorando.
Foi o plano oficial de Israel ao se retirar de Gaza em 2005, foi algo do tipo, "se vocês se comportarem, nós vamos nos comportando".
Não se comportaram, não se comportaram.
Quem está certo? Aí a gente começa a contar os fatos até a década de 1920 ou antes. Quem bateu primeiro? Que importa?
Toda manifestação pró-Israel pede paz e manifestações pró-palestinas são aquela muvuca de gente pedindo a morte de Israel, gente pedindo a morte dos Judeus, gente pedindo o cessar-fogo, gente pedindo uma nova Intifada e gente pedindo a "resistência".
Acho uma infantilidade sem tamanho. Acho que a esquerda deveria voltar a se concentrar em invadir prédios de reitoria e satisfazer seu desejo por resistência lá. Eu quero que as crianças parem de morrer.
O que exatamente vocês esperam que aconteça uma vez que os Palestinos se desarmarem? Que Israel invada territórios dos quais retirou seus colonos só pelo prazer de ser malvados? Que aumente o bloqueio econômico só pelo prazer de ver gente morrendo de fome? Que anexem um território que não querem anexar? Que ocupem um território que não querem ocupar? Que explorem um povo que não tem nada o que explorar?
De tudo anti-Israel que tenho lido nesses dias, ninguém me deu uma boa explicação de porque Israel é tão determinada na sua limpeza étnica senão o fato de que sionistas (não judeus, vamos fingir que os dois não se relacionam) são coletivamente egoístas. E se não houvesse o Hamas seria outro! Ok, mas porque? Porque sim, oras bolas! São judeus! Deus sabe que plano perverso essa gente faz em segredo! É quase como se sentissem prazer em derramar o sangue de crianças.
Mas não podemos acusar de antissemitas quem diz tais coisas. Não, é querer fugir do debate, sabe? É fazer um argumento Ad Hominem. Você ouviu falar daquele advogado judeu na Inglaterra que disse que Israel é nazista? Então, não tem nada de antissemitismo!

E assim vai, eles só querem que o povo palestino resista! E eu achando que o povo palestino queria parar de morrer. Que pragmatismo militar se torne mostrar que a paz vale a pena ao invés de ter que acabar com vidas inocentes em uma macabra reencenação de uma guerra que foi perdida há décadas.
Mas Israel não aceitaria recompensar a paz. Quer tudo! Eu não sou antissemita, você sabe, só acho que esses judeus desumano que sentem prazer em derramar gratuitamente o sangue de crianças querem tudo pra eles por nenhum outro motivo que sendo judeus desumanos que sentem prazer em derramar gratuitamente o sangue de crianças querem tudo pra eles. Não podemos confundir isso com antissemitismo, podemos?

Oh, meu papa pós-moderno, nom nom

Prazer em ler Ratzinger.
Puro e doce prazer.
Acho que é até um tanto anti-católico esse sentimento orgástico em ler o papa.
Traduzido daqui desse livro

"Ninguém pode colocar Deus e o Reino na mesa perante outro homem; mesmo o crente não pode fazê-lo. Mas não importa quão forte a descrença possa se fazer sentir justificada, ela não pode esquecer o estranho sentimento induzido pelas palavras "E ainda talvez seja verdade." Aquilo talvez seja a inescapável tentação pela qual ela não pode se eludir, a tentação pela qual ela, também, no ato de rejeição, tem que experimentar a irrejeição da crença. Em outras palavras, tanto o crente quanto o descrente compartilham, cada um da sua maneira, dúvida e crença, se eles não esconderem de si próprios a verdade de seu ser. Nenhum pode exatamente escapar da dúvida e da crença; pois para um, fé é presente contra dúvida; para o outro por meio da dúvida e na forma de dúvida. É o padrão básico do destino do homem ser apenas permitido apenas descobrir a finalidade de sua existência nessa incessante rivalidade entre dúvida e crença, tentação e incerteza. Talvez seja precisamente dessa maneira que a dúvida, que impede que ambos os lados se fechem dentro de seus próprios mundos, possa se tornar a via de comunicação. Ela previne ambos de terem completa auto-satisfação; ela abre o crente para o que duvida e o duvida para o crente; pois para um ela é sua parcela no destino do descrente, enquanto para o outro é o modo pelo qual a crença permanece ainda um desafio para ele."
-
Sim, eu sei, qualquer ateu de internet pode vir aqui e fazer algum argumento contra isso.
O que eu consigo pensar agora de cabeça é alguém perdendo completamente o ponto do texto e "argumentando" que não é possível provar que duendes não existem.
Ratzinger abre o texto dizendo que o crente não pode provar, nem pra si próprio, que Deus e o Reino existem.
Essa é sua premissa, se os ateus a aceitam, na minha opinião, eles devem aceitar o resto.
Outro argumento que eu consigo pensar (mas esse é mais fraco, mas é tão medieval que eu vejo perfeitamente um ateu dawkiniano o formulando) é que a dúvida só faz parte do nosso "ser" de modo muito histórico e específico, pois fomos criados numa cultura cristã. Mas de novo, é um argumento fraco, há muito deixamos de entender o Ser como equivalente a um tipo de substância que permanece imutável perante os acidentes.
Temos dúvida apenas porque crescemos numa cultura cristã? Creio que sim, mas até aí, "crescer em uma cultura cristã" é parte de nosso ser.
-
Deixando isso pra trás e comentando o texto um pouco, o que eu achei sensacional nele é como em um parágrafo ele responde não só para os ateus, como para os mais fundamentalistas. O Papa Bento XVI é um mestre nisso e apesar de toda conversa de que ele é conservador demais, teologicamente, acho que ele vai ficar na história como um símbolo de luz e ciência numa área que tantas vezes se orgulha do obscurantismo e superstição.
A preocupação de Bento XVI sempre me pareceu uma que ele expressa mais explicitamente nesse texto: como conciliar contradições que o mundo secularizado põe a religião.
E ao invés de promover uma síntese ou a vitória de um argumento, o Papa rejeita tanto o caminho hegeliano e o caminho análito pelo caminho, oh dare I say, nietzscheano.

Não é Dúvida OU Crença que faz o cristão, sequer é a superação de ambos por um terceiro X; é a união dos dois ENQUANTO se contradizem POR CAUSA da contradição.
E, Ratzinger prossegue, não é só assim na vida do crente, como também o na vida do que não crê.
Enquanto todo cristão, por auto-confiante que pareça, tem que lutar constantemente com a dúvida, o ateu também tem. Ainda assim, a dúvida não faz o crente deixar de crer e nem o descrente passar a crer. Um crê em oposição a dúvida (que está incessantemente lá) e o outro não-crê na forma de dúvida.

Ele geralmente adota uma postura similar em relação ao laicismo do Estado, mas está calor demais pra começar a pesquisar exatamente qual a posição dele no assunto.