Dos links que eu recebi hoje de matérias ou posts homenageando o Mussum, a maioria (eu falaria todas, mas às vezes estou esquecendo de alguma) tocam no assunto que "hoje por causa dessa gente politicamente correta, esse humor seria censurado" ou alguma variação disso.
Acho que a primeira coisa a fazer nesses casos é analisar direito.
Quando alguém fala que o humor não seria aceito "porque tem sempre alguém se ofendendo com qualquer coisa", bom, eu imagino que para um negro, boa parte das coisas que rolavam nos trapalhões seria ofensiva mesmo. Se um negro não se ofende com algo do tipo "prefiro morrer preto que..." não é algo tão simples como "ele é bem humorado diferente de vocês babacas politicamente corretos". Essa é uma frase forte, ela diz que morrer negro seria algo ruim, isso não é "celebrar a negritude" como eu vi no blog de alguém branco, isso é depreciar, o fato que um negro talentoso como o Mussum fazia esse tipo de piada não significava que ele era pós-racial, mas sim que o racismo estava tão incorporado na cultura que algo que pra nós hoje é chocante, na época era normal. Mas a questão é exatamente apontar que esse tipo de coisa *não pode* ser normal, mesmo que seja. Racismo não pode ser a norma. Quando um negro aparece fazendo piadas racistas, não é algo simples como ser bem humorado, é autodepreciação. E quando um monte de brancos dão risada da piada racista do negro, aí a coisa fica ainda mais feia.
Em um blog sujeito contava que o filho do Mussum estudava numa escola particular e era excluído por ser negro. No mesmo blog, sujeito diz que gente que diz o que eu estou dizendo é debilóide. Que o sujeito não veja relação entre humor racista ser aceito publicamente e um negro ser excluído de um grupo social, então sei lá, cada um vê o que quer.
Um debate semelhante aconteceu recentemente por causa do lingerie day no twitter. Veja, existe uma diferença gigante entre uma mulher querer se exibir e um negro dizer que "morrer preto" é uma coisa ruim.
A questão é que o exibicionismo feminino é uma espécie de área cinza na misoginia. Às vezes é uma demonstração de poder da mulher, às vezes é uma demonstração de submissão. Depende da situação e da mulher. Agora, imagine uma mulher dizendo que mulher tem que ficar na cozinha porque mulher não pode trabalhar. Isso é machista e ponto. Não tem área cinza aí. Se aparece uma personagem de comédia mulher dizendo "prefiro ter uma carreira que..." um monte de mulheres aí se ofenderiam. Porque não? Elas tem uma carreira e nem por isso deixam de ser mulheres. Assim como um monte de mulheres tem uma vida doméstica de dona de casa e nem por isso são submissas.
Olha a diferença. A questão não é dizer o que uma mulher deve ser. Feminismo muitas vezes erra porque tenta dizer pra mulher o que ela deve ser e se a mulher não é, então ela está errada. Mas o problema de um preconceito é exatamente dizer para X que ele deve agir como ele diz que X deve agir.
Dizer que uma mulher não pode exibir seu corpo e não pode ser dona de casa é tentar criar um clima de opressão tão grande quanto dizer que mulher deve ser apenas mãe ou prostituta. O segundo tipo só é historicamente mais predominante.
Voltando ao tema do post, dizer que negro tem que ser jogador de futebol ou sambista ou é ladrão é sempre racismo. A idiotice que o Danilo Gentili disse no twitter é duplamente racista. Ele disse algo do tipo "ta passando king kong, sobre um macaco que pega uma loira, ele tá achando que é jogador de futebol?"
Isso é racista por usar do imaginário tanto que negros são animalescos quanto que eles só tem acesso a mulheres brancas se forem jogadores de futebol (pois apenas assim seriam ricos).
Isso está na piada. Não é interpretação forçada pra pegar no pé do comediante, sem esse imaginário, não teria piada.
Tenta ler essa piada sem fazer referência à imagem racistas. Não há como. Dizer que racismo está na minha cabeça, como ele disse, é desonesto porque é verdadeiro. Piadas racistas inerentemente fazem uso de coisas "na minha cabeça". Toda piada racista, sem exceção, funciona apenas com o contexto implícito do racismo em questão. Quem faz a piada sabe que nós temos esses preconceitos "engatilhados" em algum lugar do nosso cérebro e ele sabe que a piada funciona ao dispará-los. Ser "politicamente correto" não é fingir que não há racismo. É admitir que há e, admitindo que há, ter o bom senso de não alimentá-lo. O ideal é que tais "gatilhos" se tornem cada vez mais raros, cada vez mais incomuns, mas cada vez que alguém conta uma inofensiva piada racista, o gatilho é reforçado e se o sujeito ouvindo a piada é dono de uma empresa, quando ele ver um negro, ele vai inevitavelmente lembrar da piada e mesmo que inconscientemente, isso vai pesar na hora da contratação.
Que o Mussum fizesse piadas racistas, é quase uma condição para que uma minoria possa ser aceita. É algo do tipo "a gente deixa você ficar se você admitir que é inferior". Séculos disso e a autodepreciação se torna natural e quando algum de nós, pessoas chatas, aponta que autodepreciação é autodepreciação, logo há quem discuta. "Querem acabar com nossa diversão!". Mais ou menos. Quero acabar com a noção de que preconceitos são divertidos. No calor desse debate, no medo de perder o precioso direito de humilhar impunemente alguém, há até quem diga que preconceitos são necessários para o humor! A pessoa obviamente não assiste as mesmas sitcons que eu. E pra falar de humor racial, é só ver o Chris Rock. É possível falar, de forma bem humorada, que um negro sofre preconceito sem agir como o negro estereotipado.
Eu sempre lembro de uma do Chris Rock onde ele diz que, na época dos escravos, um negro dirigindo uma carroça rápido demais era um problema. Se aparecesse uma placa dizendo para ir mais devagar, ele tinha que decidir se ele era açoitado por desobedecer a placa ou por saber ler.
É *assim* que você faz uma piada sobre racismo e sobre preconceito. O negro da história do Chris Rock não é analfabeto e nem um mal motorista, mas ele deve *fingir* um ou outro pra agradar os brancos.
Quantas coisas nós fazemos os nossos grandes humoristas negros fingirem que são só para nos agradar?
Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
quarta-feira, julho 29, 2009
segunda-feira, julho 27, 2009
...ok
Caminhando pela internet descobri uma sinopse de livro:
"Deusa cadela traz em si a pureza da respiração na hora em que se acorda de um sono. Cheiro dede essência humana, visceral e original.Mostra a relação dicotômica entre opostos aparentes, sem recorrer á formula opostos se atraem na sua obviedade, mas revelando as nuances de uma vida a dois exploradas aos seus extremos.Vivida com paixão, saboreada em suas texturas e marcada em suas cicatrizes, relatadas de forma crua..."
Então o seu livro não tem bem uma história, né?
"Deusa cadela traz em si a pureza da respiração na hora em que se acorda de um sono. Cheiro dede essência humana, visceral e original.Mostra a relação dicotômica entre opostos aparentes, sem recorrer á formula opostos se atraem na sua obviedade, mas revelando as nuances de uma vida a dois exploradas aos seus extremos.Vivida com paixão, saboreada em suas texturas e marcada em suas cicatrizes, relatadas de forma crua..."
Então o seu livro não tem bem uma história, né?
sábado, julho 25, 2009
Pensamento espacial.
Eu acho engraçada essa noção de que a mente humana está em algum lugar fora do tempo e do espaço. Eu entendo o argumento, quando eu abro a cabeça de alguém, eu vejo miolos e não pensamentos, mas até aí, eu também vejo nervos e não dor.
Quando eu espeto meu dedo, eu claramente sinto a dor no dedo, o caso do pensamento não parece ser tão claro, mas ele não é de nenhum modo um ventríloco. Ele está na minha cabeça, essa "sensação" do pensar não está no meu dedo, ela está na minha cabeça assim como está uma dor de cabeça.
Parece uma observação bobinha e de fato ela não é de todo importante. Qual é exatamente o estatuto dos pensamentos e das sensações é, pra mim, uma questão ainda em aberto. Mas seja lá exatamente o que são os pensamentos, ele não é desprovido de tempo ou espaço, também não está fora da causalidade, ele causa, mas também é causado.
Até que se prove que uma pedra pensa, não há pensamento sem cérebro.
A distinção entre mente e cérebro é muito mais complexa e, acredito, completamente diferente em natureza do que aquela entre hardware e software de uma máquina. Esse é o tipo de analogia perigosa. Computadores são cotidianos na nossa vida, nós entendemos como eles funcionam. Um dia alguém compara um cérebro com um computador para simplificar a questão e logo alguém começa a levar isso a sério.
Pra começar, um computador precisa, afinal, de uma mente humana que o programe. Não é que só que nossa programação natural é mais complexa, ela funciona diferente. Um computador é uma caixa fechada com um canal específico que o liga ao mundo externo, de onde seus programas recebem comandos. A mente humana não funciona sem comandos, ela não é uma coisa fechada que fica guardada, esperando ser ativada. O photoshop ainda é o photoshop sem uma imagem. A visão, se não ativada, não existe. Um olho sempre vê, o tempo todo, o ouvido sempre ouve, a mente sempre pensa. Quando a gente dorme, essas coisas são simuladas. Não é que a mente humana seja simplesmente uma máquina sempre ativa, é que sem estímulos, ela não existe. A mente é interação. Não há tal coisa como uma mente em potência ou uma mente em repouso ou uma mente como uma estrutura específica a ser estudada. Sem o contexto, não há tal coisa que possa ser descrita como mente.
O mesmo não se pode dizer do cérebro, obviamente. Aqui está um cérebro, eu o retiro da minha cabeça e te mostro. Eu estudo sua estrutura, sua química, como elas reagem e que reações ela causa.
Dito isso, uma das reações que o cérebro causa é essa sensação de estar pensando, de estar vendo, de estar raciocionando. Uma sensação que eu sinto na minha cabeça durante o tempo em que vejo e penso. E se a mente não existe sem que seja uma mente que interage com o mundo que percebe, como se pode pensar na mente como algo fora de causalidade? Se alguma coisa, a mente é puramente causalidade. Mesmo se pensarmos na mente como imaterial e não causada por um cérebro, ela é no mínimo causada pelas sensações ou pensamentos.
Acredito que há na mente humana algum tipo de propriedade que não há mais em lugar nenhum da natureza, mas então deve-se analisar direito quais são essas características únicas. A qualia ou o fato de ser algo experimentado unicamente em primeira pessoa são características únicas. Estar fora do espaço e do tempo não são.
Quando eu espeto meu dedo, eu claramente sinto a dor no dedo, o caso do pensamento não parece ser tão claro, mas ele não é de nenhum modo um ventríloco. Ele está na minha cabeça, essa "sensação" do pensar não está no meu dedo, ela está na minha cabeça assim como está uma dor de cabeça.
Parece uma observação bobinha e de fato ela não é de todo importante. Qual é exatamente o estatuto dos pensamentos e das sensações é, pra mim, uma questão ainda em aberto. Mas seja lá exatamente o que são os pensamentos, ele não é desprovido de tempo ou espaço, também não está fora da causalidade, ele causa, mas também é causado.
Até que se prove que uma pedra pensa, não há pensamento sem cérebro.
A distinção entre mente e cérebro é muito mais complexa e, acredito, completamente diferente em natureza do que aquela entre hardware e software de uma máquina. Esse é o tipo de analogia perigosa. Computadores são cotidianos na nossa vida, nós entendemos como eles funcionam. Um dia alguém compara um cérebro com um computador para simplificar a questão e logo alguém começa a levar isso a sério.
Pra começar, um computador precisa, afinal, de uma mente humana que o programe. Não é que só que nossa programação natural é mais complexa, ela funciona diferente. Um computador é uma caixa fechada com um canal específico que o liga ao mundo externo, de onde seus programas recebem comandos. A mente humana não funciona sem comandos, ela não é uma coisa fechada que fica guardada, esperando ser ativada. O photoshop ainda é o photoshop sem uma imagem. A visão, se não ativada, não existe. Um olho sempre vê, o tempo todo, o ouvido sempre ouve, a mente sempre pensa. Quando a gente dorme, essas coisas são simuladas. Não é que a mente humana seja simplesmente uma máquina sempre ativa, é que sem estímulos, ela não existe. A mente é interação. Não há tal coisa como uma mente em potência ou uma mente em repouso ou uma mente como uma estrutura específica a ser estudada. Sem o contexto, não há tal coisa que possa ser descrita como mente.
O mesmo não se pode dizer do cérebro, obviamente. Aqui está um cérebro, eu o retiro da minha cabeça e te mostro. Eu estudo sua estrutura, sua química, como elas reagem e que reações ela causa.
Dito isso, uma das reações que o cérebro causa é essa sensação de estar pensando, de estar vendo, de estar raciocionando. Uma sensação que eu sinto na minha cabeça durante o tempo em que vejo e penso. E se a mente não existe sem que seja uma mente que interage com o mundo que percebe, como se pode pensar na mente como algo fora de causalidade? Se alguma coisa, a mente é puramente causalidade. Mesmo se pensarmos na mente como imaterial e não causada por um cérebro, ela é no mínimo causada pelas sensações ou pensamentos.
Acredito que há na mente humana algum tipo de propriedade que não há mais em lugar nenhum da natureza, mas então deve-se analisar direito quais são essas características únicas. A qualia ou o fato de ser algo experimentado unicamente em primeira pessoa são características únicas. Estar fora do espaço e do tempo não são.
domingo, julho 19, 2009
Cérebro e verdade.
Comentando o seguinte trecho que acho que resume bem uma questão que eu acho importante:
De Alvin Platinga.
"No final do livro [Deus: Uma Desilusão], Dawkins apóia um certo ceticismo limitado. Já que nós fomos “ajuntados” pela (não-dirigida) evolução, é improvável, ele acha, que nossa visão de mundo seja precisa; a seleção natural está interessada no comportamento adaptativo, não em uma crença verdadeira. Mas Dawkins falha em ignorar as profundas implicações céticas da visão de que nós surgimos pela evolução não-dirigida. Podemos ver isso da forma seguinte. Como a maioria dos naturalistas, Dawkins é materialista a respeito dos seres humanos: seres humanos são objetos materiais; eles não têm um ser imaterial ou uma alma ou substâncias reunidas em um corpo, e eles não contêm nenhuma substância imaterial. Sob esse ponto de vista, nossas crenças seriam dependentes de questões neurofisiológicas, e (sem dúvida) uma crença seria uma estrutura neurológica de algum tipo complexo. Agora a neurofisiologia da qual nossas crenças dependem vão ser sem dúvidas adaptativas; mas por que imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Então aqui eu estou tomando duas premissas:
1 - naturalismo ou materialismo ou fisicalismo ou qualquer "ismo" da moda que considere que nós não temos alma e que somos fruto da evolução e não de qualquer desing inteligente.
2 - Nós conseguimos, com sucesso, nos comunicar acerca de fatos que consideramos "objetivos".
O problema: "Porque imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Minha resposta: Não há como acreditar que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia são em grande, ou pequena, parte verdadeiras, mas isso é em grande parte irrelevante, POIS nossas faculdades cognitivas são confiáveis, a prova disso é que você, nesse momento, está confiando nelas.
Mas o problema da epistemologia não é responder ao cético radical que duvida se dorme ou se está acordado. esse ceticismo é, na maioria das vezes, levantado apenas como metodologia para responder a pergunta que realmente interessa: O que é isso que chamamos de conhecimento? Ou, sendo mais específico para a questão levantada, o que é isso que chamamos de conhecimento dado que todo o material desse conhecimento (os dados empíricos e as leis do pensamento pelas quais tais dados são organizados) é apenas efeito de reações biológicas de um orgão de nosso corpo?
A questão é interessante, pois de repente a ciência avança de modo a nos colocar em um mundo pré-kantiano onde mais uma vez temos que lidar com um tipo de solipsismo empirista humeano.
Tudo que sei sobre o mundo é isso que está no meu cérebro. O mundo fora do meu cérebro? É desconhecido. Entretanto, nossa razão funciona de tal forma que eu simplesmente aprendo a confiar nas regularidades. Não há garantia de que esse mundo com essas regularidades sejam "verdade" no sentido de haver garantia de correspondência entre o discurso produzido a partir dos dados do meu cérebro e o mundo de onde meu cérebro supostamente retira esses dados, mas não importa, porque o modo pelo qual vivemos - e o modo pelo qual produzimos conhecimento - não se baseia na garantia de que o mundo dentro do meu cérebro e o mundo fora do meu cérebro sejam equivalentes, mas sim na confiança de que os mesmos efeitos decorrem das mesmas causas, confiança adquirida simplesmente pela vivência de que é assim que ocorre geralmente. Não é um método sem falhas, mas é um método que construiu computadores, aviões e curou doenças.
A resposta é satisfatória para os cientistas e para as pessoas comuns. Os filósofos, por outro lado, precisam de mais.
Não que seja uma empreitada vã, é simplesmente uma empreitada, mesmo que materialista, mais espiritual. Nosso espírito demanda respostas, é bom que a ciência consiga construir computadores e curar doenças sem a necessidade de tais respostas, mas há uma dimensão humana fora do martelar, é o motivo pelo qual filósofos só conseguem emprego ensinando filosofia ou fingindo auto-ajuda para empresários carentes, nosso trabalho está fora desse mundo do martelo onde basta o led acender no momento em que o botão é apertado para que o problema seja considerado resolvivo. Precisamos saber. O que é esse mundo? O que é esse conhecimento?
Por sorte, nós temos guias. E se nossa ciência de século XXI conseguiu apenas chegar aos pés da filosofia humeana do século XVIII, a resposta já está escrita. É a crítica da razão pura. Ou a crítica do cérebro puro. De qualquer forma, é assim que eu respondo as questões realmente importante acerca do estatuto do mundo e do conhecimento: idealismo trasncendental.
O avanço da ciência e a nossa comunicação cotidiana de nenhuma forma depende do modo como o mundo é, mas meramente do modo como nossa mente funciona. O mundo fora do cérebro ou o mundo do ponto de vista dele mesmo ou o mundo em si é um X cujas propriedades devem ser especuladas pela metafísica (e nós bem vamos especular). Esse mundo X é o mundo em que nós vivemos, mas nós não o percebemos como o X que ele é, nós o percebemos de acordo como os nossos cérebros adaptaram-se para percebê-lo. Isso a ciência básica já nos diz. Isso que nós vemos não é bem "isso", mas átomos, quarks, ondas, energia, etc; o mundo é qualquer coisa, menos isso que nós vemos a olho nú. Mas é possível ir ainda mais adiante. Esses átomos, quarks, ondas e energias, mesmo vistos pelas máquinas, também são apenas representações. Assim como é a matemática utilizada para prever o comportamento dessas partículas, assim como é a lógica utilizada para redigir os textos acadêmicos.
Porque debater sobre se é mais complexo e improvável que haja um design inteligente ou que a evolução tenha nos feito para perceber a verdade se há uma resposta mais simples e provável? O nosso cérebro interage com o mundo de algum forma e impõe, não sobre o mundo, mas sobre a representação desse mundo, a lógica e a causalidade, assim como os olhos impõem sobre determinada frequência de energia a cor vermelha?
Desde que os olhos funcionem igual, todos vemos o vermelho o que na "verdade" é apenas energia se movimentando de certa forma. Porque é difícil acreditar que desde que os cérebros funcionem igual, todos vemos causalidade, tempo e espaço o que na "verdade" é um mundo onde tais palavras sequer fazem sentido, por não haver, nesse mundo em si, a causalidade, tempo e espaço a serem referidos por tais palavras?
Mas aqui encontramos não só o problema de imaginar que o mundo em que vivemos é, fora da nossa percepção, desprovido de tempo e espaço. Há um problema mais óbvio que já deve ter incomodado o leitor: não é o cérebro, ele próprio, algo que só funciona como funciona por causa de leis que agora eu digo que é ele quem cria?
Oras, se falo de idealismo transcendental, óbviamente devo transcender o naturalismo mais cedo ou mais tarde. Para chegar em algum tipo de imaterialidade? Certamente que não. Se essa nossa materialidade já começa a nos parecer demasiada estranha, que tolice seria acrescentar substâncias imateriais para então termos duas coisas que não fazemos idéia do que são.
Transcendemos aqui, não o mundo material, mas o ponto de vista da representação neurofisiológica desse mundo, vislumbramos a possibilidade dessa transcedência por não falarmos aqui de outro mundo, mas sim do mundo em que vivemos, o mundo que percebemos, o mundo que representamos e cujas representações experimentamos.
É possível, então, realizar discursos sobre o ponto de vista extra-neurofisiológico de nossas vidas? Será esse o trabalho da verdadeira metafísica.
De Alvin Platinga.
"No final do livro [Deus: Uma Desilusão], Dawkins apóia um certo ceticismo limitado. Já que nós fomos “ajuntados” pela (não-dirigida) evolução, é improvável, ele acha, que nossa visão de mundo seja precisa; a seleção natural está interessada no comportamento adaptativo, não em uma crença verdadeira. Mas Dawkins falha em ignorar as profundas implicações céticas da visão de que nós surgimos pela evolução não-dirigida. Podemos ver isso da forma seguinte. Como a maioria dos naturalistas, Dawkins é materialista a respeito dos seres humanos: seres humanos são objetos materiais; eles não têm um ser imaterial ou uma alma ou substâncias reunidas em um corpo, e eles não contêm nenhuma substância imaterial. Sob esse ponto de vista, nossas crenças seriam dependentes de questões neurofisiológicas, e (sem dúvida) uma crença seria uma estrutura neurológica de algum tipo complexo. Agora a neurofisiologia da qual nossas crenças dependem vão ser sem dúvidas adaptativas; mas por que imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Então aqui eu estou tomando duas premissas:
1 - naturalismo ou materialismo ou fisicalismo ou qualquer "ismo" da moda que considere que nós não temos alma e que somos fruto da evolução e não de qualquer desing inteligente.
2 - Nós conseguimos, com sucesso, nos comunicar acerca de fatos que consideramos "objetivos".
O problema: "Porque imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Minha resposta: Não há como acreditar que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia são em grande, ou pequena, parte verdadeiras, mas isso é em grande parte irrelevante, POIS nossas faculdades cognitivas são confiáveis, a prova disso é que você, nesse momento, está confiando nelas.
Mas o problema da epistemologia não é responder ao cético radical que duvida se dorme ou se está acordado. esse ceticismo é, na maioria das vezes, levantado apenas como metodologia para responder a pergunta que realmente interessa: O que é isso que chamamos de conhecimento? Ou, sendo mais específico para a questão levantada, o que é isso que chamamos de conhecimento dado que todo o material desse conhecimento (os dados empíricos e as leis do pensamento pelas quais tais dados são organizados) é apenas efeito de reações biológicas de um orgão de nosso corpo?
A questão é interessante, pois de repente a ciência avança de modo a nos colocar em um mundo pré-kantiano onde mais uma vez temos que lidar com um tipo de solipsismo empirista humeano.
Tudo que sei sobre o mundo é isso que está no meu cérebro. O mundo fora do meu cérebro? É desconhecido. Entretanto, nossa razão funciona de tal forma que eu simplesmente aprendo a confiar nas regularidades. Não há garantia de que esse mundo com essas regularidades sejam "verdade" no sentido de haver garantia de correspondência entre o discurso produzido a partir dos dados do meu cérebro e o mundo de onde meu cérebro supostamente retira esses dados, mas não importa, porque o modo pelo qual vivemos - e o modo pelo qual produzimos conhecimento - não se baseia na garantia de que o mundo dentro do meu cérebro e o mundo fora do meu cérebro sejam equivalentes, mas sim na confiança de que os mesmos efeitos decorrem das mesmas causas, confiança adquirida simplesmente pela vivência de que é assim que ocorre geralmente. Não é um método sem falhas, mas é um método que construiu computadores, aviões e curou doenças.
A resposta é satisfatória para os cientistas e para as pessoas comuns. Os filósofos, por outro lado, precisam de mais.
Não que seja uma empreitada vã, é simplesmente uma empreitada, mesmo que materialista, mais espiritual. Nosso espírito demanda respostas, é bom que a ciência consiga construir computadores e curar doenças sem a necessidade de tais respostas, mas há uma dimensão humana fora do martelar, é o motivo pelo qual filósofos só conseguem emprego ensinando filosofia ou fingindo auto-ajuda para empresários carentes, nosso trabalho está fora desse mundo do martelo onde basta o led acender no momento em que o botão é apertado para que o problema seja considerado resolvivo. Precisamos saber. O que é esse mundo? O que é esse conhecimento?
Por sorte, nós temos guias. E se nossa ciência de século XXI conseguiu apenas chegar aos pés da filosofia humeana do século XVIII, a resposta já está escrita. É a crítica da razão pura. Ou a crítica do cérebro puro. De qualquer forma, é assim que eu respondo as questões realmente importante acerca do estatuto do mundo e do conhecimento: idealismo trasncendental.
O avanço da ciência e a nossa comunicação cotidiana de nenhuma forma depende do modo como o mundo é, mas meramente do modo como nossa mente funciona. O mundo fora do cérebro ou o mundo do ponto de vista dele mesmo ou o mundo em si é um X cujas propriedades devem ser especuladas pela metafísica (e nós bem vamos especular). Esse mundo X é o mundo em que nós vivemos, mas nós não o percebemos como o X que ele é, nós o percebemos de acordo como os nossos cérebros adaptaram-se para percebê-lo. Isso a ciência básica já nos diz. Isso que nós vemos não é bem "isso", mas átomos, quarks, ondas, energia, etc; o mundo é qualquer coisa, menos isso que nós vemos a olho nú. Mas é possível ir ainda mais adiante. Esses átomos, quarks, ondas e energias, mesmo vistos pelas máquinas, também são apenas representações. Assim como é a matemática utilizada para prever o comportamento dessas partículas, assim como é a lógica utilizada para redigir os textos acadêmicos.
Porque debater sobre se é mais complexo e improvável que haja um design inteligente ou que a evolução tenha nos feito para perceber a verdade se há uma resposta mais simples e provável? O nosso cérebro interage com o mundo de algum forma e impõe, não sobre o mundo, mas sobre a representação desse mundo, a lógica e a causalidade, assim como os olhos impõem sobre determinada frequência de energia a cor vermelha?
Desde que os olhos funcionem igual, todos vemos o vermelho o que na "verdade" é apenas energia se movimentando de certa forma. Porque é difícil acreditar que desde que os cérebros funcionem igual, todos vemos causalidade, tempo e espaço o que na "verdade" é um mundo onde tais palavras sequer fazem sentido, por não haver, nesse mundo em si, a causalidade, tempo e espaço a serem referidos por tais palavras?
Mas aqui encontramos não só o problema de imaginar que o mundo em que vivemos é, fora da nossa percepção, desprovido de tempo e espaço. Há um problema mais óbvio que já deve ter incomodado o leitor: não é o cérebro, ele próprio, algo que só funciona como funciona por causa de leis que agora eu digo que é ele quem cria?
Oras, se falo de idealismo transcendental, óbviamente devo transcender o naturalismo mais cedo ou mais tarde. Para chegar em algum tipo de imaterialidade? Certamente que não. Se essa nossa materialidade já começa a nos parecer demasiada estranha, que tolice seria acrescentar substâncias imateriais para então termos duas coisas que não fazemos idéia do que são.
Transcendemos aqui, não o mundo material, mas o ponto de vista da representação neurofisiológica desse mundo, vislumbramos a possibilidade dessa transcedência por não falarmos aqui de outro mundo, mas sim do mundo em que vivemos, o mundo que percebemos, o mundo que representamos e cujas representações experimentamos.
É possível, então, realizar discursos sobre o ponto de vista extra-neurofisiológico de nossas vidas? Será esse o trabalho da verdadeira metafísica.
sábado, julho 18, 2009
Resenha: Tromeo and Juliet (1996)
Essa noite eu tive um pesadelo qualquer (como acontece na maioria das noites) e acordei após poucas horas de sono.
No que eu acordo uma lembrança me assalta a mente. Um filme que eu vi mais novo, era sobre Romeu e Julieta, tinha incesto, um ator do pânico, lesbianismo, Romeu se masturbando para um CD-ROM que repetia "I love you" e Julieta usando um vibrador.
Incapaz de dormir com essas memórias, eu fui ao imdb procurar do que se tratava e, literalmente horas depois, pois minha principal dica, "um ator do pânico", era errada, eu finalmente descubro que o filme que eu assisti há muitos anos atrás se trava de Tromeo and Juliet.
Antes de começar a resenha, eu vou elaborar a dificuldade que foi encontrar esse filme:
Minha primeira lembrança era um ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã. Eu estava errado. O que acontece é um ator muito parecido com o ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã.
Depois, eu lembrava que tinha a ver com Romeu e Julieta. Então eu procuro "Romeo and Juliet" no IMDB. Dezenas de títulos aparecem, nenhum deles o certo, pois o filme se chama "Tromeo and Juliet".
Aí eu fui pro google. E eis coisas que eu procurei: Romeo Juliet dildo (porque eu lembrava de um vibrador); Romeo Juliet porn (porque talvez fosse um filme completamnete pornô... e óbvio que eu encontrei várias versões pornô de Romeu e Julieta, mas nada do que procurava); afinal, horas depois, eu encontro uma resenha do New York Times falando desse filme.
Fui ao Youtube, vi o trailer e sim, era esse, com certeza, ainda muito, mas muito, mas muito mais bizarro do que eu lembrava. Por algum motivo minha mente bloqueou toda lembrança de animais mortos e sangue e eu só lembrava das coisas sexuais. O que eu vou dizer? Eu sou um sujeito romântico.
Baixei o filme e, bom, é estranho dizer, mas o filme é bom. Eu ri alto, eu me importei com os personagens, eu me masturbei em algum ponto (e ao mesmo tempo em que Tromeo se masturbava. Lésbicas tatuadas é algo que jamais vai perder a graça), eu realmente torci pra essa história de amor dar certo, eu fiquei genuinamente triste no que a inevitável tragédia de Romeu e Julieta se aproximava e, no fim, eu fiquei feliz. Em 1 hora e 40 minutos, esse filmes percorreu cada emoção humana possível e tudo isso enquanto gritava "olha como nosso orçamento é baixo! Lol!"
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O filme começa com a imagem de um animalzinho (um esquilo?) enforcado em uma sala enquanto em um velho e gordo negro chora. Pra quem não sabe, eu sou desses vegetarianos que ama os animaizinhos, então ver um animal morto logo na primeira cena do filme deveria me causar alguma revolta, mas eu deixei. Fui recompensado, pra um filme tão bizarro, ele é estranhamente pró-vegetarianismo.
Em algum momento, Lemmy da casa de Motorhead nos introduz ao primeiro ato. A família dos Que (cujo patriarca é Monty Que) está em guerra com os capulet por motivos que serão explicados. Salvo dizer que o enforcamento do amado bichinho de Monty Que é só mais um dos atos de violência entre as famílias (aparentemente vingança por um Que ter jogado um passáro morto pela janela da mansão dos Capulet).
A família Que consiste de um sujeito que faz piercings (e o filme mostra um mamilo sendo perfurado enquanto eles falam o quanto odeiam os Capulet), um Hooligan, Tromeo, que é, bem literalmente, um idiota romântico que, apesar de branco, é filho do negro Monty Que.
A família Capulet consiste de um psicopata que realmente se parece com um sujeito de pânico, sua irmã ninfomaníaca, que aparece bem menos na tela do que eu gostaria, mas o filme tem mais do que sexo o suficiente pra compensar, um par de pessoas violentas, sendo que um deles tem um porrete onde a ponta é o rosto de Hitler e, por fim, a nuclear família que consiste no pai que regularmente espanca a mãe e Juliet, que vive presa dentro de casa e é uma vegetariana sendo forçada a casar com um tipo de açougueiro bilhonário, tem como único conforto sua relação lésbica com a gostosa cozinheiro tatuada. E ela tem sonhos eróticos com monstros-pênis o que leva seu pai a acorrentá-la regularmente numa caixa de vidro.
E isso dito acima nem toca no quão bizarro é esse filme. Das inúmeras cenas de desmembramento e morte violenta, passando pelas inúmeras cenas de sexo, pela narração de Lemmy do Motorhead no começo de cada ato, no simples comportamento nonsense e ilógico de literalmente todo personagem do filme, até as cenas românticas entre Tromeo e Juliet, não há nada nesse filme que não funciona.
As cenas nojentas repulsam, as cenas de sexo excitam, o pastelão ultra-violento dos personagens (pense trapalhões onde as pessoas são desmembradas) são hilárias e no fim, talvez até inconscientemente, esse é um mundo tão ridículo e violento e desprovido de qualquer coisa que se assemelhe a bem que quando Tromeo e Juliet estão juntos e felizes, é... céus, é precioso. Esse é um filme que logo nas primeiras cenas alguém arranca o cérebro de outra pessoa via um soco na cara. Que amor de verdade possa ser encontrado nesse mundo doente é mais romântico do que todos os filmes do Richard Gere juntos.
Talvez o que faça essas coisas funcionarem, é, de novo, algo talvez inconsciente. Quando alguém perde um braço ou um olho ou tem a cabeça pisoteada, é claramente falso, o filme nem tenta esconder que é falso, você vê o tubinho jorrando sangue e você percebe que o ator está com o braço escondido debaixo da camisa. É o humor tipo Hermes e Renato, onde a graça é que o efeito especial é ridículo.
Mas se o baixo orçamento torna a violência engraçada, os outros sentimentos permanecem intocados. Toda cena de sexo não-nojenta é material pra masturbação, você não precisa de grande orçamento pra isso. Igualmente, toda cena onde duas pessoas dançam e declaram amor eterno e se beijam é, bem, brega e linda, orçamento nenhum muda isso.
Então no fim, esse filme é tão ruim que ele falha em ser engraçado o tempo todo, mas quando ele falha em ser engraçado, ele não se torna sem graça, mas sim erótico e tenro. Quando o humor em uma cena de sexo ou romântica funciona, você cai de dar risada. Quando não funciona você se diverte com a nudez e se emociona com o romance.
É um tipo raro de filme que parece que não acaba nunca, mas que tudo bem porque você não quer que acabe.
Enfim, segue abaixo o trailer. Filme recomendadissimo pra quem tem estômago.
No que eu acordo uma lembrança me assalta a mente. Um filme que eu vi mais novo, era sobre Romeu e Julieta, tinha incesto, um ator do pânico, lesbianismo, Romeu se masturbando para um CD-ROM que repetia "I love you" e Julieta usando um vibrador.
Incapaz de dormir com essas memórias, eu fui ao imdb procurar do que se tratava e, literalmente horas depois, pois minha principal dica, "um ator do pânico", era errada, eu finalmente descubro que o filme que eu assisti há muitos anos atrás se trava de Tromeo and Juliet.
Antes de começar a resenha, eu vou elaborar a dificuldade que foi encontrar esse filme:
Minha primeira lembrança era um ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã. Eu estava errado. O que acontece é um ator muito parecido com o ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã.
Depois, eu lembrava que tinha a ver com Romeu e Julieta. Então eu procuro "Romeo and Juliet" no IMDB. Dezenas de títulos aparecem, nenhum deles o certo, pois o filme se chama "Tromeo and Juliet".
Aí eu fui pro google. E eis coisas que eu procurei: Romeo Juliet dildo (porque eu lembrava de um vibrador); Romeo Juliet porn (porque talvez fosse um filme completamnete pornô... e óbvio que eu encontrei várias versões pornô de Romeu e Julieta, mas nada do que procurava); afinal, horas depois, eu encontro uma resenha do New York Times falando desse filme.
Fui ao Youtube, vi o trailer e sim, era esse, com certeza, ainda muito, mas muito, mas muito mais bizarro do que eu lembrava. Por algum motivo minha mente bloqueou toda lembrança de animais mortos e sangue e eu só lembrava das coisas sexuais. O que eu vou dizer? Eu sou um sujeito romântico.
Baixei o filme e, bom, é estranho dizer, mas o filme é bom. Eu ri alto, eu me importei com os personagens, eu me masturbei em algum ponto (e ao mesmo tempo em que Tromeo se masturbava. Lésbicas tatuadas é algo que jamais vai perder a graça), eu realmente torci pra essa história de amor dar certo, eu fiquei genuinamente triste no que a inevitável tragédia de Romeu e Julieta se aproximava e, no fim, eu fiquei feliz. Em 1 hora e 40 minutos, esse filmes percorreu cada emoção humana possível e tudo isso enquanto gritava "olha como nosso orçamento é baixo! Lol!"
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O filme começa com a imagem de um animalzinho (um esquilo?) enforcado em uma sala enquanto em um velho e gordo negro chora. Pra quem não sabe, eu sou desses vegetarianos que ama os animaizinhos, então ver um animal morto logo na primeira cena do filme deveria me causar alguma revolta, mas eu deixei. Fui recompensado, pra um filme tão bizarro, ele é estranhamente pró-vegetarianismo.
Em algum momento, Lemmy da casa de Motorhead nos introduz ao primeiro ato. A família dos Que (cujo patriarca é Monty Que) está em guerra com os capulet por motivos que serão explicados. Salvo dizer que o enforcamento do amado bichinho de Monty Que é só mais um dos atos de violência entre as famílias (aparentemente vingança por um Que ter jogado um passáro morto pela janela da mansão dos Capulet).
A família Que consiste de um sujeito que faz piercings (e o filme mostra um mamilo sendo perfurado enquanto eles falam o quanto odeiam os Capulet), um Hooligan, Tromeo, que é, bem literalmente, um idiota romântico que, apesar de branco, é filho do negro Monty Que.
A família Capulet consiste de um psicopata que realmente se parece com um sujeito de pânico, sua irmã ninfomaníaca, que aparece bem menos na tela do que eu gostaria, mas o filme tem mais do que sexo o suficiente pra compensar, um par de pessoas violentas, sendo que um deles tem um porrete onde a ponta é o rosto de Hitler e, por fim, a nuclear família que consiste no pai que regularmente espanca a mãe e Juliet, que vive presa dentro de casa e é uma vegetariana sendo forçada a casar com um tipo de açougueiro bilhonário, tem como único conforto sua relação lésbica com a gostosa cozinheiro tatuada. E ela tem sonhos eróticos com monstros-pênis o que leva seu pai a acorrentá-la regularmente numa caixa de vidro.
E isso dito acima nem toca no quão bizarro é esse filme. Das inúmeras cenas de desmembramento e morte violenta, passando pelas inúmeras cenas de sexo, pela narração de Lemmy do Motorhead no começo de cada ato, no simples comportamento nonsense e ilógico de literalmente todo personagem do filme, até as cenas românticas entre Tromeo e Juliet, não há nada nesse filme que não funciona.
As cenas nojentas repulsam, as cenas de sexo excitam, o pastelão ultra-violento dos personagens (pense trapalhões onde as pessoas são desmembradas) são hilárias e no fim, talvez até inconscientemente, esse é um mundo tão ridículo e violento e desprovido de qualquer coisa que se assemelhe a bem que quando Tromeo e Juliet estão juntos e felizes, é... céus, é precioso. Esse é um filme que logo nas primeiras cenas alguém arranca o cérebro de outra pessoa via um soco na cara. Que amor de verdade possa ser encontrado nesse mundo doente é mais romântico do que todos os filmes do Richard Gere juntos.
Talvez o que faça essas coisas funcionarem, é, de novo, algo talvez inconsciente. Quando alguém perde um braço ou um olho ou tem a cabeça pisoteada, é claramente falso, o filme nem tenta esconder que é falso, você vê o tubinho jorrando sangue e você percebe que o ator está com o braço escondido debaixo da camisa. É o humor tipo Hermes e Renato, onde a graça é que o efeito especial é ridículo.
Mas se o baixo orçamento torna a violência engraçada, os outros sentimentos permanecem intocados. Toda cena de sexo não-nojenta é material pra masturbação, você não precisa de grande orçamento pra isso. Igualmente, toda cena onde duas pessoas dançam e declaram amor eterno e se beijam é, bem, brega e linda, orçamento nenhum muda isso.
Então no fim, esse filme é tão ruim que ele falha em ser engraçado o tempo todo, mas quando ele falha em ser engraçado, ele não se torna sem graça, mas sim erótico e tenro. Quando o humor em uma cena de sexo ou romântica funciona, você cai de dar risada. Quando não funciona você se diverte com a nudez e se emociona com o romance.
É um tipo raro de filme que parece que não acaba nunca, mas que tudo bem porque você não quer que acabe.
Enfim, segue abaixo o trailer. Filme recomendadissimo pra quem tem estômago.
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