Boa parte, talvez a maioria, dos meus textos sobre filosofia são pessimistas. São sobre instintos bélicos e de dominação que se escondem atrás de belos discursos, o post passado foi sobre encarar finais trágicos, foi sobre todas as promessas feitas que falharam, falham e destinam-se a falhar; o pouco de esperança que eu derivo desse conhecimento que parte do princípio que o mundo é - e sempre será não importa seu projeto político - essencialmente ruim.
Partindo do princípio que o sofrimento está por toda parte, então podemos ajustar nossas expectativas e se decepcionar menos.
Então porque isso me incomoda se diz mais ou menos a mesma coisa?
E minha resposta é, bobinhamente o suficiente, algo entre o tom e a linguagem polêmica.
E eu posso estar só lembrando errado, mas eu não lembro do Pondé fazendo isso há alguns anos atrás.
O meu problema com isso é o seguinte: Todo mundo choraminga. Faz parte do meu pessimismo acreditar que todo mundo choraminga. Esse blog mesmo não existiria se eu não choramingasse sobre coisas.
Enfim, todo mundo choraminga, Pondé, de algum tempo X pra cá, começou a pintar o quadro de um pobre trágico sozinho em um mundo de intelectualóides multibilhonários culturetes esquerdistas que apesar de serem intelectualóides são na verdade muito burros e/ou ingênuos e destilam sua burrice e/ou ingenuidade da forma mais clichê que alguém pode clichezar nessa situação.
Eu lembro que um post que eu meio que critiquei o Pondé foi porque eu queria frequentar uma dos jantares dele onde as pessoas criticavam a igreja católica enquanto defendiam necrofilia e bestialidade.
O Pondé tem a vantagem sobre Olavo de Carvalho de ser só choramingar de modo blasé ao invés de choramingar de modo furioso e paranóico, mas ainda assim o estímulo é o mesmo: "Oh, pobre de mim, sozinho e abandonado em um mundo onde os ricos intelectualóides culturetes de esquerda repetem suas burrices e/ou ingenuidades".
Parte do meu pessimismo é não direcionar demais minha decepção contra nenhum grupo específico, mantendo um certo desgosto com a humanidade em geral. Pondé decidiu que todo mundo é mal, mas a esquerda é mais mal que os outros. E não só mal, como burros. E não só burros, como ingênuos. E não só ingênuos, como errados. E não só errados, como numerosos. E não só numerosos, como desmerecidamente ricos. E não só desmerecidamente ricos, como etc.
Enfim, você posa de pessimista e concentra tudo que há de mal no mundo em um único tipo de pessoa.
E aí há a hipocrisia de dizer que as crenças desse grupo de pessoas é parte de um tipo de marketing pessoal, como se chamar a crença alheia de marketing não fosse, por si só, uma propaganda para vender o livro que você está nesse momento anunciando.
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Polêmica é uma estratégia de combate e não pedagógica. Assim como aqueles horríveis livros ateus de Hitchens, Dawkins e companhia (outro grupo de pessoas que eu concordo, mas cuja polêmica barata me repulsa), esses livros não servem pra avançar nenhum debate ou ensinar nada. Eles servem pra que um grupo de pessoas que já tem uma opinião sobre um assunto possam se autocongratular por pensar do jeito que pensam.
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Eu não vou ler o livro dele não porque eu acho que ele não seja um bom escritor - eu leio as colunas - mas por mera falta de tempo. Há o suficiente da biblioteca de Anatole France antes que eu possa ler algo que, pelo jeito, é só uma elaboração daquilo que já é dito nas colunas que eu leio. Mas assim, de modo mal informado, eis algo que eu discordo:
Eu não acho que exista nada de particularmente errado em querer melhorar o mundo, eu acho que há tanto sofrimento no mundo, que minha última preocupação é ele ser resolvido, não acho que ele tenha que se preocupar um dia existir qualquer força humana - tirânica ou pedagógica - capaz de fazer as pessoas se amarem. Então Pondé pode dormir tranquilo.
Dito isso, nada impede a gente de fazer pequenos atos para aliviar esse sofrimento. A expressão "moralmente superior" é esquisita, por exemplo. Eu acho que realizo um gesto moralmente correto, pois o meu gesto causa menos sofrimento que o seu. Nesse ponto, eu me considero moralmente superior. Eu teria que saber exatamente o argumento dele contra isso no livro, mas no vídeo parece que o único crime é um de arrogância enquanto tenta esconder a arrogância, mas não é como se eu me considerasse o Deus encarnado quando entro em um McDonald's. Eu só acho que faço algo certo enquanto eles fazem algo errado, como tenho certeza que o Sr. Pondé se acha correto enquanto os outros estão errados em uma série de situações.
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Outro exemplo é quando ele diz, todo orgulhoso de defender uma postura polêmica, de que a guerra não é insana. Eu não diria que a guerra é insana, eu diria que a guerra tem vários elementos irracionais, assim como a busca da paz perpétua tem sua cota de elementos irracionais, mas isso não está em nenhum lugar da fala dele. O que ele tem é que a guerra pode ser necessário para uma tal situação X, mas oras, a paz também pode ser necessária para uma tal situação X.
Olha o que aconteceu no Rio de Janeiro. Por anos e anos o debate era entre tocar fogo na favela assassinando todo ser vivo lá dentro ou baixar as armas e mandar os nossos professores de sociologia ensinar o socialismo aos traficantes. O que está dando resultado é uma mistura de ambos. Dar apoio à população quando possível e meter bala quando necessário, não é de nenhuma forma uma questão de guerra contra paz ou de força policial contra assistencialismo à população, mas uma mistura de ambos.
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O problema do vídeo, assim como dos panfletos socialistas, dos livros dos "novos ateus" e de uma porção de mídia que sempre houve é que se tem aquela impressão chatinha de que Pondé está claramente jogando pra um time específico que quer crer que suas opiniões já estabelecidas estejam corretas e precisa de alguém formado na Université de Paris VIII pra dizer "muito bem, aqui está um docinho por estar do lado certo". Fazer isso enquanto critica um certo marketing de comportamento é, bom, eu já disse. A questão é que se colocar em uma luta de bem contra o mal, ou sábios contra estúpidos, ou "meu time" contra "seu time" acaba sendo sacrificar uma parte do seu pessimismo pra que alguém saia bem na fita ou que alguém saia mais mal do que o seu leitor sairia.
Então os novos ateus sacrificam a noção de que, como animais puramente biológicos formados de instintos e entranhas, nós estaríamos por aí massacrando outras pessoas quer fosse por religião ou não. Chamar nazismo e comunismo de religião só ganha ponto entre os já convertidos para o "religião é a raíz de todo o mal".
E, ao ser perguntado se a guerra é insana, "esquecer" de dizer que há gente bem insana fazendo guerra, e, ao invés disso, *mudar o assunto* pra como a paz em certa situação X *pode* ser insana, é ser curiosamente tímido ao estender seu pessimismo para os seus leitores que você acredita que apóiem uma guerra ou outra em algum lugar do mundo.
Por fim, é aquele problema de escolher alvos fáceis. De novo, não li o livro, nem vou ler, mas para algo que se diz filosofia do cotidiano, o alvo parece ser um bocado de gente exótica, a saber, o pessoal muito louco com quem Pondé faz seus jantares regados a anticristianismo e bestialidade. Se alguém puder me informar se ele algum dia critica o vendedor de materiais elétricos da Mooca ao invés do psiquiatra estudante de artes plásticas da Vila Madalena, eu agradeceria. É como criticar religião usando Al Qaeda como exemplo.
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É muito raro escolher um alvo e permanecer coerente, isso porque a humanidade tem lá seus problemas em geral. Cada lado do espectro político tem mais do que sua cota de gente má, tirânica e irracional, em cada pessoa há uma série de atos realizados por "marketing pessoal" que na verdade escondem um desejo de dominação, de sobrevivência, de simplesmente ferrar o outro. Mas aí entramos em um problema, se todo mundo tem uma agenda, qual é a do Pondé?
A minha eu acho que eu deixo razoavelmente clara: o mundo é uma droga, tentar consertá-lo, seja pela ciência ou pela mística, só vai dar em merda, eu sou ateu e não acho que há esperança no futuro, então, num geral, eu vou defender pequenos atos (geralmente no centro do espectro político) que aliviem algum sofrimento que é pra tornar meu tempo nesse planeta ao menos tolerável. Não é consertar tudo, nem nenhum utopia de nenhum tipo, mas se eu puder respirar um ar um pouco melhor, se eu puder ter a tranquilidade de saber que menos pessoas passam fome ou menos bichinhos são assassinados ou que gays não sejam perseguidos na rua ou que minhas próprias perversões sexuais sejam autorizadas porque estou autorizando as dos outros, isso melhora minha vida, então eu vou atrás disso.
Mas qual é a de alguém que vem dizer que se diz contra um mundo melhor? Não um mundo consertado, não um mundo utópico, mas um mundo melhor? Minha primeira reação, vendo que ele ensina filosofia da religião, é que ele está querendo contribuir pra concretizar uma utopia mística, é fácil, muito fácil, muito muito fácil, pra um religioso ser pessimista. Se você acredita que a próxima vida é a felicidade absoluta e eterna, aceitar que esse mundo é ruim não exige nenhuma força, nenhum caráter, nenhum nada, exige apenas um frio cálculo utilitarista de que eternidade > o tempo aqui. Mas se é esse o caso, porque se importar? Porque não ficar rezando e tentar ser um bom cristão e deixar o mundo ir para o inferno a não ser que, de alguma forma, ao criticar as utopias, você calcule, de novo, de modo muito frio e utilitarista que, ao perder a confiança em utopias terrenas, você, para não se suicidar, encontre a religião? Cristãos às vezes dão a louca de aumentar seu sofrimento ao máximo e ter certeza que você se sente um lixo miserável para que a amizade do menino jesuis seja uma boa saída. Não digo que é comum, mas vá lá, está no livrinho de táticas deles. Proselitismo é certamente superior à compaixão para muitos religiosos.
Outra alternativa seria outro cálculo utilitarista, dessa vez político, de que certo partido que ele discorda tem monopólio da noção de "mundo melhor" e que ele quer sim um mundo melhor, mas um mundo melhor de acordo com o partido *dele*, então que parte do plano para que candidatos simpáticos a ele ganhem eleições futuras passa por colocar certas posturas defendidas por partidários adversário como burras, ingênuas, utópicas.
E assim, ainda sem ler o livro e com sua dose de preconceito, chegamos ao ponto de Pondé é algum tipo de proselitista místico ou político que quer avançar sua agenda que é tão insana e egoísta quanto o resto de nossas agendas. E que antes de ser contra um mundo melhor, ele ou aposta em um mundo infinitamente melhor após a vida ou um mundo alguma coisa melhor a partir das próximas eleições, seja como for, ele cria um marketing pessoal com o objetivo de fazer o mundo bonitinho de certas pessoas parecer menos bonitinho para que o mundo que ele próprio defende parecer mais bonitinho, tudo isso em lindinhos fragmentos que por um módico preço você pode ler antes de ir dormir. É adorável, mas eu tenho um montão de coisas pra ler antes. =/
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Se alguém ler, me dá um toque sobre eu estar muito errado, outra coisa do pessimismo é não ter vergonha de admitir que é um mundo onde é fácil estar errado.