terça-feira, novembro 30, 2010

Polêmica pessimista

Não vamos dizer que eu sou alguém que acredita em um mundo "bonitinho", "bonzinho", sem angústias.
Boa parte, talvez a maioria, dos meus textos sobre filosofia são pessimistas. São sobre instintos bélicos e de dominação que se escondem atrás de belos discursos, o post passado foi sobre encarar finais trágicos, foi sobre todas as promessas feitas que falharam, falham e destinam-se a falhar; o pouco de esperança que eu derivo desse conhecimento que parte do princípio que o mundo é - e sempre será não importa seu projeto político - essencialmente ruim.
Partindo do princípio que o sofrimento está por toda parte, então podemos ajustar nossas expectativas e se decepcionar menos.
Então porque isso me incomoda se diz mais ou menos a mesma coisa?


E minha resposta é, bobinhamente o suficiente, algo entre o tom e a linguagem polêmica.
E eu posso estar só lembrando errado, mas eu não lembro do Pondé fazendo isso há alguns anos atrás.
O meu problema com isso é o seguinte: Todo mundo choraminga. Faz parte do meu pessimismo acreditar que todo mundo choraminga. Esse blog mesmo não existiria se eu não choramingasse sobre coisas.
Enfim, todo mundo choraminga, Pondé, de algum tempo X pra cá, começou a pintar o quadro de um pobre trágico sozinho em um mundo de intelectualóides multibilhonários culturetes esquerdistas que apesar de serem intelectualóides são na verdade muito burros e/ou ingênuos e destilam sua burrice e/ou ingenuidade da forma mais clichê que alguém pode clichezar nessa situação.
Eu lembro que um post que eu meio que critiquei o Pondé foi porque eu queria frequentar uma dos jantares dele onde as pessoas criticavam a igreja católica enquanto defendiam necrofilia e bestialidade.
O Pondé tem a vantagem sobre Olavo de Carvalho de ser só choramingar de modo blasé ao invés de choramingar de modo furioso e paranóico, mas ainda assim o estímulo é o mesmo: "Oh, pobre de mim, sozinho e abandonado em um mundo onde os ricos intelectualóides culturetes de esquerda repetem suas burrices e/ou ingenuidades".
Parte do meu pessimismo é não direcionar demais minha decepção contra nenhum grupo específico, mantendo um certo desgosto com a humanidade em geral. Pondé decidiu que todo mundo é mal, mas a esquerda é mais mal que os outros. E não só mal, como burros. E não só burros, como ingênuos. E não só ingênuos, como errados. E não só errados, como numerosos. E não só numerosos, como desmerecidamente ricos. E não só desmerecidamente ricos, como etc.
Enfim, você posa de pessimista e concentra tudo que há de mal no mundo em um único tipo de pessoa.
E aí há a hipocrisia de dizer que as crenças desse grupo de pessoas é parte de um tipo de marketing pessoal, como se chamar a crença alheia de marketing não fosse, por si só, uma propaganda para vender o livro que você está nesse momento anunciando.
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Polêmica é uma estratégia de combate e não pedagógica. Assim como aqueles horríveis livros ateus de Hitchens, Dawkins e companhia (outro grupo de pessoas que eu concordo, mas cuja polêmica barata me repulsa), esses livros não servem pra avançar nenhum debate ou ensinar nada. Eles servem pra que um grupo de pessoas que já tem uma opinião sobre um assunto possam se autocongratular por pensar do jeito que pensam.
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Eu não vou ler o livro dele não porque eu acho que ele não seja um bom escritor - eu leio as colunas - mas por mera falta de tempo. Há o suficiente da biblioteca de Anatole France antes que eu possa ler algo que, pelo jeito, é só uma elaboração daquilo que já é dito nas colunas que eu leio. Mas assim, de modo mal informado, eis algo que eu discordo:
Eu não acho que exista nada de particularmente errado em querer melhorar o mundo, eu acho que há tanto sofrimento no mundo, que minha última preocupação é ele ser resolvido, não acho que ele tenha que se preocupar um dia existir qualquer força humana - tirânica ou pedagógica - capaz de fazer as pessoas se amarem. Então Pondé pode dormir tranquilo.
Dito isso, nada impede a gente de fazer pequenos atos para aliviar esse sofrimento. A expressão "moralmente superior" é esquisita, por exemplo. Eu acho que realizo um gesto moralmente correto, pois o meu gesto causa menos sofrimento que o seu. Nesse ponto, eu me considero moralmente superior. Eu teria que saber exatamente o argumento dele contra isso no livro, mas no vídeo parece que o único crime é um de arrogância enquanto tenta esconder a arrogância, mas não é como se eu me considerasse o Deus encarnado quando entro em um McDonald's. Eu só acho que faço algo certo enquanto eles fazem algo errado, como tenho certeza que o Sr. Pondé se acha correto enquanto os outros estão errados em uma série de situações.
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Outro exemplo é quando ele diz, todo orgulhoso de defender uma postura polêmica, de que a guerra não é insana. Eu não diria que a guerra é insana, eu diria que a guerra tem vários elementos irracionais, assim como a busca da paz perpétua tem sua cota de elementos irracionais, mas isso não está em nenhum lugar da fala dele. O que ele tem é que a guerra pode ser necessário para uma tal situação X, mas oras, a paz também pode ser necessária para uma tal situação X.
Olha o que aconteceu no Rio de Janeiro. Por anos e anos o debate era entre tocar fogo na favela assassinando todo ser vivo lá dentro ou baixar as armas e mandar os nossos professores de sociologia ensinar o socialismo aos traficantes. O que está dando resultado é uma mistura de ambos. Dar apoio à população quando possível e meter bala quando necessário, não é de nenhuma forma uma questão de guerra contra paz ou de força policial contra assistencialismo à população, mas uma mistura de ambos.
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O problema do vídeo, assim como dos panfletos socialistas, dos livros dos "novos ateus" e de uma porção de mídia que sempre houve é que se tem aquela impressão chatinha de que Pondé está claramente jogando pra um time específico que quer crer que suas opiniões já estabelecidas estejam corretas e precisa de alguém formado na Université de Paris VIII pra dizer "muito bem, aqui está um docinho por estar do lado certo". Fazer isso enquanto critica um certo marketing de comportamento é, bom, eu já disse. A questão é que se colocar em uma luta de bem contra o mal, ou sábios contra estúpidos, ou "meu time" contra "seu time" acaba sendo sacrificar uma parte do seu pessimismo pra que alguém saia bem na fita ou que alguém saia mais mal do que o seu leitor sairia.
Então os novos ateus sacrificam a noção de que, como animais puramente biológicos formados de instintos e entranhas, nós estaríamos por aí massacrando outras pessoas quer fosse por religião ou não. Chamar nazismo e comunismo de religião só ganha ponto entre os já convertidos para o "religião é a raíz de todo o mal".
E, ao ser perguntado se a guerra é insana, "esquecer" de dizer que há gente bem insana fazendo guerra, e, ao invés disso, *mudar o assunto* pra como a paz em certa situação X *pode* ser insana, é ser curiosamente tímido ao estender seu pessimismo para os seus leitores que você acredita que apóiem uma guerra ou outra em algum lugar do mundo.
Por fim, é aquele problema de escolher alvos fáceis. De novo, não li o livro, nem vou ler, mas para algo que se diz filosofia do cotidiano, o alvo parece ser um bocado de gente exótica, a saber, o pessoal muito louco com quem Pondé faz seus jantares regados a anticristianismo e bestialidade. Se alguém puder me informar se ele algum dia critica o vendedor de materiais elétricos da Mooca ao invés do psiquiatra estudante de artes plásticas da Vila Madalena, eu agradeceria. É como criticar religião usando Al Qaeda como exemplo.
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É muito raro escolher um alvo e permanecer coerente, isso porque a humanidade tem lá seus problemas em geral. Cada lado do espectro político tem mais do que sua cota de gente má, tirânica e irracional, em cada pessoa há uma série de atos realizados por "marketing pessoal" que na verdade escondem um desejo de dominação, de sobrevivência, de simplesmente ferrar o outro. Mas aí entramos em um problema, se todo mundo tem uma agenda, qual é a do Pondé?
A minha eu acho que eu deixo razoavelmente clara: o mundo é uma droga, tentar consertá-lo, seja pela ciência ou pela mística, só vai dar em merda, eu sou ateu e não acho que há esperança no futuro, então, num geral, eu vou defender pequenos atos (geralmente no centro do espectro político) que aliviem algum sofrimento que é pra tornar meu tempo nesse planeta ao menos tolerável. Não é consertar tudo, nem nenhum utopia de nenhum tipo, mas se eu puder respirar um ar um pouco melhor, se eu puder ter a tranquilidade de saber que menos pessoas passam fome ou menos bichinhos são assassinados ou que gays não sejam perseguidos na rua ou que minhas próprias perversões sexuais sejam autorizadas porque estou autorizando as dos outros, isso melhora minha vida, então eu vou atrás disso.
Mas qual é a de alguém que vem dizer que se diz contra um mundo melhor? Não um mundo consertado, não um mundo utópico, mas um mundo melhor? Minha primeira reação, vendo que ele ensina filosofia da religião, é que ele está querendo contribuir pra concretizar uma utopia mística, é fácil, muito fácil, muito muito fácil, pra um religioso ser pessimista. Se você acredita que a próxima vida é a felicidade absoluta e eterna, aceitar que esse mundo é ruim não exige nenhuma força, nenhum caráter, nenhum nada, exige apenas um frio cálculo utilitarista de que eternidade > o tempo aqui. Mas se é esse o caso, porque se importar? Porque não ficar rezando e tentar ser um bom cristão e deixar o mundo ir para o inferno a não ser que, de alguma forma, ao criticar as utopias, você calcule, de novo, de modo muito frio e utilitarista que, ao perder a confiança em utopias terrenas, você, para não se suicidar, encontre a religião? Cristãos às vezes dão a louca de aumentar seu sofrimento ao máximo e ter certeza que você se sente um lixo miserável para que a amizade do menino jesuis seja uma boa saída. Não digo que é comum, mas vá lá, está no livrinho de táticas deles. Proselitismo é certamente superior à compaixão para muitos religiosos.
Outra alternativa seria outro cálculo utilitarista, dessa vez político, de que certo partido que ele discorda tem monopólio da noção de "mundo melhor" e que ele quer sim um mundo melhor, mas um mundo melhor de acordo com o partido *dele*, então que parte do plano para que candidatos simpáticos a ele ganhem eleições futuras passa por colocar certas posturas defendidas por partidários adversário como burras, ingênuas, utópicas.
E assim, ainda sem ler o livro e com sua dose de preconceito, chegamos ao ponto de Pondé é algum tipo de proselitista místico ou político que quer avançar sua agenda que é tão insana e egoísta quanto o resto de nossas agendas. E que antes de ser contra um mundo melhor, ele ou aposta em um mundo infinitamente melhor após a vida ou um mundo alguma coisa melhor a partir das próximas eleições, seja como for, ele cria um marketing pessoal com o objetivo de fazer o mundo bonitinho de certas pessoas parecer menos bonitinho para que o mundo que ele próprio defende parecer mais bonitinho, tudo isso em lindinhos fragmentos que por um módico preço você pode ler antes de ir dormir. É adorável, mas eu tenho um montão de coisas pra ler antes. =/
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Se alguém ler, me dá um toque sobre eu estar muito errado, outra coisa do pessimismo é não ter vergonha de admitir que é um mundo onde é fácil estar errado.

domingo, novembro 28, 2010

Twin Peaks, Lost, finais, expectativas, literatura, bla bla bla

Spoilers de Twin Peaks e Lost abaixo.
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Além de estar vivendo uma existência perfeitamente apaixonado (mas com sua dose de sofrimento pra evitar neuroses futuras), uma das grandes vantagens de estar morando com minha bonita muy bonita é eu sair um pouco do meu universo solitário de video games e quadrinhos e voltado a assistir coisas, pois é uma atividade que você pode fazer com sua alma gêmea.
Bem, eu assisti 3 coisas com ela até agora: fomos do começo ao fim de futurama (que não vou comentar aqui, só vou dizer o quanto essa série é, em geral, boa e o quanto a temporada mais recente é tão boa quanto as temporadas passadas); outras coisas que eu assisti foi De Volta Para O Futuro, um filme que eu sou viciado e já vi umas 1000 vezes, mas ela nunca tinha visto e outra coisa foi ver Twin Peaks do começo ao fim.
E uma coisa curiosa vendo ela ver De Volta Para o Futuro foi que, ao final, quando acontece aquela cena clássica e toda excelente com o Doutor e Martin ambos em uma série de pequenos atrasos que levará à Doc descer heroicamente da torre do relógio para plugar o fio no segundo exato, Thaís comentou "não vai dar tempo" e, no seu costume irritante mas adorável de insistentemente pedir o fim do filme durante o filme, ela perguntou algumas vezes na última meia hora do filme se ele ia ou não conseguir voltar para o presente.
A duvida nunca tinha me passado, acho que não é uma duvida comum, filmes assim tem uma formula tal que você entra no filme já sabendo que o final será feliz, restando saber como exatamente vai acontecer. No mundo ideal do roteirista, todos seriam Thaís, nunca sabendo se o mocinho vai ou não voltar para sua namorada em 1985, mas nós sabemos que as coisas vão dar certo e o máximo que podemos esperar é que o filme nos distraia o suficiente de nossa racionalidade para que em nenhum momento lembremos que as coisas sempre dão certo no final (mas isso significa, claro, não questionar se as coisas darão ou não certo).
Mas a questão é que Thaís vem de um contexto diferente: ela é a maior leitora que eu conheço, dos grandes clássicos da humanidade a infanto-juvenis e, quando se pensa a respeito de livros, é assustador o quanto um livro tem uma liberdade muito muito muuuuito maior para um final imprevisível, infeliz ou bizarro do que um filme ou uma série de TV.
Então eu me peguei imaginando lendo um livro de De Volta Para o Futuro. Mesmo em um livro junevil, cheio de bom humor e cenas fofas, um fim onde ele não consegue voltar não soa errado como soaria se a última cena do filme falhasse, daria até um certo tchans bacana pro livro se eles tivessem esse conhecimento tão impressionantemente conveniente de saber onde e quando um raio vai cair, mas falhassem em pegar o raio devido à uma série de pequenos imprevistos, contribuiria pro humor, não seria nem considerado uma tragédia. Em filme ficaria simplesmente boboca. O público amaldiçoaria, etc.
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Twin Peaks não teve fim, propriamente dizendo, a série foi cancelada antes de uma resolução. Lost teve.
Eu nem de longe devo ser o primeiro a comparar Twin Peaks com Lost, mas vamos lá:
Ambas são séries sobre um lugar místico, com mistérios e segredos, (aliás, trivia, a palavra "mística" e "mistério" são ligadas, então é um pouco redundante dizer que é um lugar místico com mistérios) e esses mistérios e segredos fazem personagens únicos interagir de modo que embora a série tenha um ou mais heróis, o real tema dela é como a mística move esses personagens.
E embora um apologista de Lost, assim como os anos 90 tiveram sua cota de apologistas de Twin Peaks (sem internet pra criar os debates furiosos), eu não vou fingir que o fim da série - ou a série como um todo - não tiveram suas cotas de problema, mas eu acho que o fim de Lost, a última temporada toda, tem uma temática tão especial e tão distinta e tão genial que é um daqueles casos raros em que eu digo que as pessoas não entenderam por falta de visão. Eu não costumo ser uma dessas pessoas, mas serei aqui.
Aliás, pra todos os efeitos, eu vou considerar o fim de Twin Peaks como um fim propriamente dito. É claro que não era com os mil cliffhangers por segundo que o episódio final teve, mas vá lá.
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Eu também nunca fui uma dessas pessoas a criticar a obsessão norte-americana por finais felizes, mas há de se apontar exageros. Há pelo menos 2 pontos de Twin Peaks que poderiam marcar seu final e nenhum deles seria feliz, os 2 causariam a frustração que causou. Lost é, também, apesar do fim, uma das séries com a moral mais pessimista que eu já vi e é quase um dever profissional meu apreciar um bom uso do pessimismo onde quer que ele apareça.

Os 2 pontos que Twin Peaks poderiam ter terminado são: O fim mesmo da segunda temporada, como ocorreu e o episódio em que Leeland morre que amarra boa parte das pontas, deixando apenas o místico no ar.

O fim propriamente dito de Twin Peaks, se considerado como um fim, tem tanta tragédia que é insuportável. Annie não é resgatada, Nadine "desperta" do seu delírio complicando o romance de Ed e Norma de novo (arruinando a própria existenciazinha perfeita no processo), o corpo de Dale Coop fica preso no salão negro, Donna foge, Ben Horne é ferido, Audrey e Pete explodem no banco.
Ainda assim, toda a tragédia tem o excelente tema de lidar com as consequências de um bem que dá um passo maior que a perna na luta contra o mal. Os destinos de Audrey, Ben Horne e Donna estão ligados ao novo desejo de Ben de fazer o bem a todo custo. Se ele é a pessoa mentirosa de sempre e o mal pai de sempre, nenhuma das tragédias ocorrem relacionadas a esses três personagens ocorre.
Ed, Norma e Nadine, por outro lado, pagam por mentiras bem intencionadas. Eles constróem uma vida perfeita baseadas nos delírios de Nadine. Eles começam cautelosos, mas assim que confiam que tudo vai dar certo, a coisa cai como um castelo de cartas. Em uma série que diz que o maior medo é que o amor não supere tudo, é o amor de Ed e Norma que "acorda" Nadine causando esses problemas.
Quanto a Coop, ele é a representação mais simbolista disso. Para salvar a amada, ele entra no salão negro, é um tanto impossível entender exatamente o que ocorre, mas ele se sacrifica para salvá-la, perdendo seu corpo no processo. No que ele entra no coração do mal pra fazer o bem, o mundo perde essa enorme força do bem e o mal anda por aí com seu corpo.
Um fim no episódio onde Leeland é revelado o assassino seria semelhante, Maddy morta, Bob à solta, o homem errado preso, mas não teria tanto do simbolismo. Seriam só coisas dando errado.
Já o terceiro fim, o final mais feliz, encerraria a série com o mal incompreendido e à solta. Mistério resolvido, nem todas as pontas amarradas, Bob claramente por aí, mas não seria trágico, o bem teria cumprido seu trabalho em agir como contrapeso pro mal, mas nunca teria tentado erradicá-lo de vez causando todas as tragédias.
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Lost funciona assim também. Eu vejo toda a realidade alternativa da última temporada como um castelo nas nuvens posando de castelo real e essa é talvez a análise mais óbvia que existe, mas eu acho impressionante o pouco esforço em pensar a respeito disso.
A última temporada faz o audacioso trabalho de nos fazer uma grande promessa (há um mundo onde não só o avião pousa, como tudo dá certo, não só que tudo dá certo, como que os personagens ressucitados lembram de suas experiências na ilha, podendo prosseguir seus amores). O fim de Lost brinca com nossas expectativas quando nos oferece, em um único pacote: ressurreição, redenção, vida plena, amor, etc.
No fim, esse mundo não existe: o que aconteceu aconteceu, quem morreu morreu, os amores perdidos foram perdidos; creio que parte da fúria com Lost vem mais dessa decepção do que qualquer decepção com respostas ou ausência de.
Ainda comparando com Twin Peaks, David Lynch já afirmou que seria a favor de nunca resolver o mistério de Laura Palmer, há quem diz também que o mistério realmente só foi resolvido por pressão dos executivos. Twin Peaks foi cancelado antes de começar a responder seus mistérios envolvendo aliens e fantasmas, mas eles seriam tão bobinhos quanto foram as respostas de Lost. Quanto mais coisas além de um fantasma pode ser um fantasma?
Mas eu vou avançar aqui a teoria de que o modo como Lost revela seu castelo de cartas em pleno desmoronamento é o que emputeceu as pessoas: de repente Charlie está vivo, Sun e Jin estão juntos, Locke está contente na sua cadeira de rodas (aliás, em quantas séries o conformismo da cadeira de rodas é visto como sinal maior de felicidade do que o milagre de andar de novo? Nem a bíblia tem esse insight, já que Jesus cura os paraplégicos ao invés de ensiná-los a viver com o sofrimento do mundo), Desmond e Penny se conhecem sem toda a bagagem anterior, Danny se torna um pianista como sempre quis, etc.
E então era tudo um sonho - ou céu - ou alucinação de um Jack morrendo - ou whatever. O que importa é que em ambas as séries que tratam extensivamente de dualidade e de uma disputa essencial do mal contra o bem terminam de modo a desmontar a idéia do bem vencendo o mal. Twin Peaks pune de forma até cruel cada uma das muitas boas intenções surgidas no final, elas eram simplesmente boas *demais*. Já Lost simplesmente nos maravilha com a idéia de um mundo perfeito, só pra adicionar "mas é uma mentira, no mundo real, os amores são perdidos, os filhos ficam órfãos, o que acontece acontece".
De novo, são duas séries que personificam a luta do bem contra o mal. Não é um cara honesto contra um cara desonesto, mas é o próprio confronto do bem contra o mal. Afinal de contas, Dale é dominado por Bob e a ilha fica nas mãos de Hurley. O mal tem uma vitória contra um bem que tentou tudo e o bem tem uma vitória contra um mal que tentou tudo, mas nenhum *vence*, Twin Peaks não perde todos seus heróis e Lost não corrige nenhuma de suas injustiças.
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Em forma de livro, isso seria perfeitamente aceitável, lembrando os últimos livros que li, não lembro de nenhum fazendo nenhum esforço em particular pra chegar a um final feliz; um deles termina inclusive em um desaparecimento que não se tem nenhuma resposta, não se sabe se o personagem fugiu, morreu, foi sequestrado, ele some, as pessoas sentem sua falta, questionam-se sobre o motivo, mas meio que continuam a vida mesmo assim porque fazer-o-que-né e acaba aí. Meu livro favorito - Thaís de Anatole France - termina com corrupção e redenção ocorrendo simultaneamente, com suas respectivas grandiosidades.
Alguns livros com final feliz que consigo me lembrar são muito mais a respeito de personagens que entram em termos com a própria vida - que descobrem algo sobre si que os faz mais resistentes às mazelas do mundo - do que sobre o mundo se conformando à eles.
Enquanto o final feliz, sem nada a se pagar por isso senão ferimentos e momentos de tensão, são um tipo de final a ser encontrado entre outros, não há nada de inerentemente errado neles, mas a noção de que se não é feliz é porque não chegou ao fim é das mais prejudiciais. As pessoas sentiram-se trapaceadas com Lost quando ele nunca abandonou seu bordão de que o aconteceu aconteceu. As pessoas sentem que Twin Peaks não teve uma conclusão - justificado também pelas histórias dos bastidores - mas por um sentimento de que é impossível que esses personagens tão essencialmente bons tenham encontrado fins tão horríveis. Mas isso não é culpa das obras, especialmente daquelas que nunca nos prometeram o final feliz.
É no fim, uma diferença entre visões de vida. Entre arriscar arrumar o mundo ou resignar-se a viver em um mundo quebrado e o impulso talvez seja escolher a primeira, mas é também um problema de expectativas: e se a primeira for falsa?
Pior, e se ela prender nossa alma no coração do mal que buscamos extirpar? A história abunda em exemplos.

quinta-feira, novembro 25, 2010

A dificuldade do presente

Nenhum tempo é mais difícil de se lidar do que o presente.
As duas grandes categorias que abraçam os diversos pensamentos políticos são espécies de conservadorismo ou progressivismo (reacionarismo e revolução sendo seus extremos).
O conservadorismo é uma impossibilidade se levarmos apenas a palavra a sério. O presente não pode ser preservado, ser constante mudança é característica do presente, se há algo a ser conservado é aquilo que precisamente já não tem mais realidade: o passado.
Todo ato político é um modo de planejar o futuro, a diferença entre conservadores e progressistas é simplesmente um de referência.
O conservador, que pode ser um empirista, um tradicionalista ou uma mistura de ambos, guia-se pelo passado. Ele julga que o que houve é melhor do que há ou ao menos melhor do que a alternativa progressista e age para que o futuro se assemelhe a tal passado.
O progressista, por sua vez, que pode ser um racionalista, um profeta ou uma mistura de ambos, guia-se pelo futuro. Ele postula um ponto em um futuro indeterminado e deixa-se atrair por ele.
Esse ponto pode ser tanto uma visão de mundo onde se pode dizer que este é um bom mundo na medida do possível, pode ser um ponto de uma teoria sobre história ou pode ser uma causa final qualquer inscrita no livro do universo.

Qualquer que seja a validade das posturas políticas, o que elas fazem é consideravelmente mais fácil do que lidar com o presente.
O conservador cristaliza uma visão de passado e o progressista cristaliza uma visão de futuro e o presente, no seu caráter de perpétua mudança, torna-se perpétuo meio, o que é natural dado que é tudo feito por um ser que vive em perpétua insatisfação.
Boa parte de nossa política é construída em cima dessa fuga gerada por essa insatisfação. Para o conservador, o sofrimento do passado não parece assim tão terrível quanto o sofrimento que é sentido neste exato momento e para o progressista, este sofrimento precisa acabar logo, mas é característico do presente que haja algum sofrimento, assim sempre haverá quem acha que o sofrimento passado era preferível e sempre haverá quem acha que ainda estamos longe do ponto em que não se há mais sofrimento.
Pra resumir, a dificuldade do presente está que nele nós concentramos muito daquilo que escapa ao nosso modo de fazer ciência: no presente é que estamos nos sentindo cansados, frustrados, alegres, empolgados, esperançosos e outros tantos sentimentos que nos puxam para a irracionalidade. No presente não há o ato de fixar um conceito necessário para o ato de pensar, de fato, fixar um conceito tem um quê de suspendê-lo acima do tempo, mesmo com a consciência de que o conceito poderá ser modificado com o conhecimento futuro, um conceito traz em si essa característico de dizer "caso eu esteja correto, eu sou eterno". O presente resiste à eternidade, pois sua constante mudança é inescapavelmente temporal.
É possível conceitualizar um infinito no futuro ou no passado, é possível pensar que o mundo existiu desde sempre ou sempre existirá, mas o presente nasce e morre em todos os momentos. O presente constantemente chega e vai.
Quando o presente chega, ele chega com toda a força da realidade, da existência, e há poucas coisas nesse mundo mais difíceis do que reagir com exatidão - do que adaptar-se com racionalidade precisa - ás constantes novidades do presente.
Quando o presente vai, ele vai com toda a força do acontecimento, do inexorável. O presente surge como uma oportunidade e fecha-se logo em seguida, tornando-se um passado bom ou ruim, mas cristalizado e imutável. E quando cristaliza-se, é possível formar dele um conceito, mas eis que o conceito é de um presente que já foi, o novo presente já exige um novo conceito, já é uma nova oportunidade, já necessita de nova reação, é uma nova chance de acerto ou de erro, é uma nova realidade e uma nova existência furiosamente avançando sobre as fronteiras de nossa vida.
Não é de se espantar o nosso instinto - conservador ou progressista - de considerar o presente apenas um meio, pois se o tempo move a cavalgadas, nosso espírito não é o ponto de partida e nem de chegada, vemos apenas os cavaleiros passarem, admiramos as riquezas que eles trazem de suas terras antigas e admiramos sua coragem ao vê-los cavalgar rumo ao desconhecido. Mas e quanto ao momento em que eles estão aqui, à nossa frente? Apenas borrões, figuras barulhentas em movimento, tememos até que nos atropelem.

Compreendemos um mundo estático, mas vivemos constantemente em movimento. A dificuldade do presente é não poder se dar ao luxo de ser conceito, ao invés disso, o presente é condenado sempre a ser existência.

domingo, novembro 14, 2010

Razão e controle

A armadilha que geralmente caem os que postulam algum tipo de irracionalismo é a de acharem que, ao ter consciência da irracionalidade, ascendem para além dela.
Assim, é comum a marxistas declararem os outros alienados e a eles próprios alguma espécie de livres-pensadores, pois enquanto os outros são determinados pela ideologia a sujeitarem-se ao domínio por outra classe, o determinismo dos marxistas os levam à "verdadeira" liberdade e à "verdadeira" unidade.
Afinal, se a ideologia da classe burguesa leva à um tipo de dominação sob o nome de liberdade, o que haveria de diferente na ideologia da classe trabalhadora?
O mesmo acontece com os que escrevem textos dizendo que textos são uma mera ferramenta de dominação, sem notar que o próprio texto que escrevem são também ferramentas de dominação.
Em casos semelhantes a esse, o que falta é mais um componente de honestidade do que de lógica. Não há nada de errado em uma teoria que põe a razão como instrumento de dominação ser ela própria um racional instrumento de dominação, mas admitir isso evitaria problemas futuros e messianismos terrenos.
Creio nessas coisas: que a razão existe como apêndice de um ímpeto cego que, nos indivíduos, manifesta-se como desejo. O desejo que nos une não é necessário um desejo para aumentar posses materiais e prazeres terrenos, ele manifesta-se de diversas maneiras, pois é de sua característico ser múltiplo (se fosse uno, não buscaria dominar o outro).
Por exemplo, quando postulada uma vida além, o desejo (ou instinto) de sobrevivência pode muito bem adquirir a forma de uma vida monástica e de atos suicidas, pois o cálculo de quem acredita no sacrifício dessa vida por uma vida eterna é o mesmo de quem economiza dinheiro hoje para comprar uma coisa mais cara amanhã. E isso ainda é mais racional do que aqueles que buscam fama ou glória póstuma. Quem se sacrifica por um futuro que não presenciará, pois aí o instinto não é sequer o egoísmo humano, mas meramente o instinto animalesco de preservação dos próprios genes.
Mas atrás deste texto que escrevo está o meu próprio desejo de preservar meu estilo de vida. Colocar a religião como um cálculo racional que é, na verdade, apenas manifestação de um egoísmo comum, conforta o meu ateísmo (que por sua vez só precisa ser confortado, pois ser ateu implica que digam que você é o Mal Absoluto comparável ao nazismo vez ou outra, é um ciclo, instintos são tanto impulso de desejo quanto de repulsa, tanto ação quanto reação).
A questão realmente complicada que sai desse tipo de honestidade é o motivo pelo qual as pessoas simplesmente não admitem esse tipo de coisa: se eu admito que sou irracional, qual a validade do meu discurso?
Eu vou fazer um truque bobinho de filósofos e dizer que a pergunta é errada, pois o que temos em questão não é irracionalidade vs racionalidade. Esse já é um modo errado de ver as coisas e é esse modo errado que leva às contradições. O que temos é uma razão, que é razão, que é normativa, que é objetiva, mas que é, ao mesmo tempo, um fruto de - e guiado por - um ímpeto que nos indivíduos manifesta-se como desejo.
Analisar o mundo é analisá-lo por meio de olhos que observam, pois gostam de observar seios. É um motivo pelo qual eu acho que adolescentes são simplesmente novos demais para a escola e que evitaríamos uma porção de crises de media idade se o primeiro colegial rolasse lá pelos 30 anos.
É preciso que nossos olhos tenham saciado-se de seios o suficiente para que estejam prontos para observar as estrelas. Não há como esperar um bom uso da razão em pessoas cujos desejos básicos não estejam bem saciados, assim como não podemos esperar um bom uso da razão daqueles que acreditam que todo bom uso da razão é aquele que leva a satisfação de um desejo. Digo simplesmente para não confiar nem no Pai e nem no Filho; nem no padre e nem no libertino. Pois dividir espírito e carne cria guerra entre eles. O puritano sofre, pois a carne distrai demais o espírito e o hedonista sofre, pois o tédio logo se impõe àqueles que envolvidos demais na roda gigante das fomes.
As lentes impostas pela vontade nos fazem ver o mundo de modo parecido o suficiente, de modo objetivo o suficiente, e, portanto, discursos racionais podem ser realizados. Mas mesmo que discursos racionais sejam possíveis, isso não significa não utilizá-los como ferramenta de dominação, de preservação da espécie, de satisfação dos desejos, o que significa que o mundo sempre verá sua cota de discórdia e de guerra.
Mas quanto a nós que preservamos nosso estilo de vida, que buscamos sobreviver, eliminar o que impede a sobrevivência, saciar nossos desejos e garantir dominação, e sabemos quão escravos somos disso, nos resta uma vida longa e tortuosa buscando - se é impossível amenizar - ao menos guiar esses instintos para uma maior universalidade e uma maior unidade, se não por um motivo ético, ao menos por uma maior compreensão de nossa metafísica, compreensão essa que tende ao universal e ao uno.
E vendo o mal em nós mesmos, aos poucos nos pegamos percebendo o mesmo mal nos outros. Entender o "lado" de quem é rabugento e escroto é entender nossa rabugentice e nossa escrotidão.
Encarar para o abismo - e percebê-lo encarando-o de volta - é uma forma de compaixão.