As coisas que eu odeio me entendiam.
Minha apatia, minha falta de vontade de fazer qualquer coisa que seja, minha geral falta de coragem, minha falta de conhecimento, esse incessante não saber o que fazer.
Eu quero morrer.
Eu quero morrer e morrer e eu quero continuar morrendo.
Eu tenho cada vez menos capacidade e interesse em continuar vivendo.
Isso tudo parece cada dia ficar mais chato, menos interessante, há cada vez menos o que fazer, menos que eu quero fazer, menos que eu acredito que consiga fazer, viver parece a cada dia um exercício de futilidade, de irracionalidade, cada dia viver é cada vez mais um apenas andar pra frente, uma coleção ridícula de pequenas vitórias, pequenas derrotas e sentimentos que não quero sentir mais.
Eu tenho medo de morrer porque sou completamente incapaz de acreditar em Deus e eu tentei e eu tentei, mas eu sou completamente incapaz de acreditar que qualquer coisa vai sobreviver depois que o oxigênio parar de ir para o meu cérebro. Eu aguentaria inferno e qualquer coisa que um juíz onipotente e infinitamente bom quisesse jogar contra mim, mas o vazio me assusta. Eu aceitaria o inferno, mas eu tenho medo do vazio. Eu tenho medo do vazio e eu tenho medo de deixar minha mãe triste e fazer ela se sentir como se ela tivesse falhado em me criar, como se todo o esforço que ela depositou e deposita em mim tivesse sido em vão, minha mãe não merece sofrer minha morte.
Mas eu quero morrer.
Eu quero morrer e eu quero morrer.
E eu quero continuar morrendo até não ter mais o que morrer em mim.
Eu não me importo com solidão porque eu odeio pessoas e meu ódio me entendia e faz eu me odiar mais ainda do que odeio os outros. Eu nem me importo mais que eu tenha 23 anos e esse tipo de sentimento suicida adolescente deveria ter passado aos 16.
Eu só quero ouvir minhas músicas lindas.
Eu só quero morrer e morrer e continuar morrendo.
Me incomoda que eu continue adolescente e me incomoda que eu não consiga me livrar desses sentimentos que me acompanham desde que eu lembro de eu sendo eu, me incomoda não só porque me incomoda, mas me incomoda por causa dos que dão conselhos. E alguém vai dizer que eu não sou crente o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou ateu o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou de direita o suficiente e alguém vai dizer que eu não sou de esquerda o suficiente e alguém vai dizer que eu não me importo o suficiente com os outros e alguém vai me dizer que eu me importo demais com os outros e alguém vai dizer que eu sou racional demais e alguém vai dizer que eu sou irracional demais e alguém vai dizer que é assim mesmo e alguém vai dizer que eu estou quebrado e alguém vai dizer que eu sou fresco e alguém vai dizer que eu preciso procurar ajuda e alguém vai dizer que eu estou deprimido e alguém vai dizer e alguém vai dizer e alguém vai continuar dizendo, todo mundo sabe, todo mundo tem uma resposta, todo mundo não entende como eu posso ignorar tal coisa que é tão óbvia, mas todo mundo vive e eu oscilo entre o não querer viver e o querer morrer e todo mundo acha que eu faço de propósito e todo mundo acha que eu ignoro porque eu sou chato, porque eu sou estúpido, porque eu sou quebrado, mas o que eu vou dizer? Eu não sei e eu não sei. Eu não entendo o que é essa coisa que vocês chamam de vida e eu não vejo nada de bom nela e eu me distraio com política pra que o tédio não me mate, mas faz dias que o Obama não faz nada de interessante, então eu vou morrer e eu vou morrer e eu não quero chatear minha mãe e eu queria que ela entendesse que não tem nada a ver com ela e que qualquer outra pessoa com qualquer outro cérebro teria utilizado toda a excelente criação que ela me deu e transformado em algo produtivo, em um bom cidadão ou em um bom anarquista, em um bom católico ou em um bom ateu, em um bom economista ou em um bom jornalista ou mesmo em um bom acadêmico, mas que eu não consigo, meu cérebro está quebrado, ele não me permite compreender o mundo e em algum lugar há uma sinapse em loop e os neurônios que dizem eu quero morrer e eu quero morrer e eu quero continuar morrendo não param de se ativar.
E eu me odeio porque depois disso tudo nada vai mudar, eu não vou morrer e eu ainda não vou querer viver e eu ouço a rádio Twee do LastFM e eu jogo LittleBigPlanet e essas coisinhas são as únicas coisas de proveitosas na minha vida.
Eu me odeio porque eu quero morrer e eu não vou.
2 comentários:
Meu caro. Bem sei o quanto é difícil dizer como São Francisco: "Senhor, o que queres que eu faça?"... Mas não seria esse o caminho mais apropriado? Por que não dobrar os joelhos?
"Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada." (Rm 8, 18)
Cara, eu devo ser bem estranha, (ou não) porque sempre que eu gosto de alguma coisa, eu fico meio que louca por isso, tentando entender cada detalhe, a raíz, os fatos, os problemas, as análises bizarras ou não, o fato é que eu li esse texto e tem um lance que eu amo demais (talvez porque eu viva fazendo) que é expor as coisas e as não-coisas disso, compreende? (ok, talvez eu esteja parecendo louca.) O post realmente faz muito tempo, talvez tenha sido um dia passageiro ou não, o fato é que eu li e adorei muitos trechos, especialmente o lance da educação materna, porque eu sou apática, mas não tanto assim, embora em dias ruins de tédio dando as caras eu já tenha pensado e o raciocínio sobre decepcionar minha mãe sobre a educação dela e tals foi exatamente igual, adorei.
Hoje é um dia feliz, com pouco tédio, aosto que em um dia sem sentido eu teria pagado mais pau ainda pela leitura.
Leitura instigante, parabéns.
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