terça-feira, julho 01, 2008

O Mal

Links:
Entrevista com Elisabeth Roudinesco sobre perversidade:
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita/
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita-2/
http://edsongil.wordpress.com/2008/06/30/nossa-parte-maldita-3/
Discurso de Bernard Henry-Lévi sobre Darfur:
http://www.guernicamag.com/interviews/610/crisis_darfur/
Debate na BBC sobre possíveis soluções para Darfur:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6058920.stm
Reportagem da BBC sobre carta aberta escrita por sobrevivente de genocidios:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6069600.stm
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Alguns dias atrás eu li a entrevista com Elisabeth Roudinesco e discordei de umas coisas, mas até aí é normal, entrevistas são um bom meio de sabermos em 15 minutos o que uma pessoa acha de certo assunto, mas enfim, é meio que um apanhado sobre conclusões e é difícil concordar ou discordar das conclusões sem saber as premissas.
Existem coisas que ela disse na entrevista, entretanto, que me assustaram, que acho que são má concepções que leva a erros perigosos, a maioria delas relacionada ao nazismo.
Claro que recomendo a todo mundo ler a entrevista inteira, mas vou fazer minha crítica tomando como base um parágrafo apenas que acho que encapsula o pensamento de Roudinesco a respeito do nazismo.

"[os nazistas são perversos] porque eles têm prazer com o mal. Mas existe um lado sexual também no nazismo. Rudolf Hess, o chefe dos campos de extermínio, tem uma sexualidade aparentemente normal e ele é absolutamente perverso. O nazismo é o caso único de um Estado inteiro que inverteu a lei e governou em nome do mal."
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Nazismo, hoje, é uma mitologia.
Isso não é pra dizer que ele não existiu, esse não é um pensamento revisionista.
Nazismo foi real, cruel, matou milhões e se tornou um mito, a coisa mais próxima de "satã" que existe na era atual, mas, como todo mito, ele nos guia na direção certa se o vivenciamos na nossa realidade espiritual enquanto mantemos contato com a realidade material ou ele nos cega para a realidade material enquanto só existimos espiritualmente.
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A primeira má concepção que acredito que existe a respeito do nazismo é de que havia, como Roudinesco diz, "gozo com o mal", essa é a imagem mitológica do diretor do campo de concentração rindo histericamente dando tiros pro alto tal como acontece no filme "A Lista de Schindler".
Assim, Rudolf Hess é um perverso, pois sentia prazer no seu trabalho de acionar as câmaras de gás.
Para saber se isso é verdade, precisaria ler uma biografia de Rudolf Hess, mas assumindo que não seja, que, como nazista, ele considerasse que aquelas mortes erma necessários para o fortalecimento da nação, mas que não sentisse prazer nisso, que visse tudo isso como um mal necessário, mas oras, um mal mesmo assim; ele seria menos perverso? Ele mereceria algo de nossa compaixão? Ainda é o mesmo homem que voluntariamente realizou os mesmos atos terríveis, mas agora ele não está gargalhando dando tiros para o alto enquanto corpos queimam no plano de fundo. É menos perverso matar de modo profissional e sistemático?
Porque num geral, mesmo que os individuos nazistas sintam prazer com o holocausto, a ideologia nazista é uma filosofia, no sentido que é um corpo de saber racional que analisa criticamente a realidade, ainda, é uma filosofia pragmática; que propõe não só "entender o mundo", mas também mudá-lo.
Seguindo sua concepção de teleologia, os nazistas fizeram o que achavam que deveriam fazer para utilizar certas regras determinísticas da história a seu favor; os altos membros do partido nazista não eram homens ignorantes e cegos de ódio, mas sim homens intelectuais agindo de acordo com seu corpo de saber racional; efetivando sua filosofia.
Isso me soa estranho, porque agora parece que esses homens são menos perversos que Hudolf Hess; esses homens que ordenaram que assinaram os papéis legitimando "a solução final" são homens de ciência, homens de respeito, cavalheiros de terno reunidos em uma sala assinando um pedaço de papel que garantiria um futuro saudável e seguro a seus filhos.
O perverso? Rudolf Hess. O homem que apertou o botão.
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Acho importante salientar a perversidade de quem nunca colocou o pé em um campo de concentração que é para melhor entendermos o que o mito do nazismo pode nos ensinar ao invés de tomá-lo indiferentemente como uma página da história ou como algo de outro mundo, pois o que mais me assusta nesse parágrafo que estou analisando é exatamente isso:
"O nazismo é o caso único de um Estado inteiro que inverteu a lei e governou em nome do mal."
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Roudinesco poderia muito bem evitar que eu escrevesse um post a criticando se essa frase fosse "o nazismo é um caso de Estado...", mas quando ela diz que o nazismo é "o caso único", isso é como aquela criança que vai na igreja todo domingo e morre de medo do diabo e reza toda noite para que aquela criatura vermelha e de chifres não o leve para o inferno só para chegar na segunda, bater no coleguinha e levar seu lanche.
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Oras, tenho que perguntar, o que é exatamente governar "em nome do mal"?
É governar em nome do racismo? E o racismo norte-americano que perdurou na legislação até a década de 1960? E o racismo de Mugabe em relação aos brancos? E o Apartheid?
É governar em nome da intolerância? E a intolerância soviética aos opositores do Estado? A intolerância Hutu aos Tutsis? A intolerância chinesa aos donos de terra? A intolerância chilena e brasileira aos comunistas?
É governar em nome da expansão militar? E os norte-americanos e suas intermináveis guerras ao redor do mundo? E os soviéticos que financiavam guerrilhas e guerras civis? E os outros países da segunda guerra mundial? O Japão não era nazista, mas lá estavam eles! Os italianos não também não eram nazistas, parecidos, mas não eram "O Mal"! E quanto aos espanhóis? Que eram fascistas, mas decidiram não se envolver nem de um lado e nem de outro?
É governar em nome do genocídio? E a Partido Comunista da União Soviética, de Camboja e da China? Camboja eliminou 1/5 da sua população! Eles não merecem entrar no hall da fama dos Estados que governaram em nome do mal? Porque? E quanto ao governo sudanês atual que financia os Janjawid que já mataram, no mínimo, 200.000 pessoas (mas que pode ter chegado a 500.000)? Isso não é governar em nome do mal?!
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Em Fevereiro de 2003, rebeldes não-Árabes iniciaram uma revolta contra o governo sudanês, acusando-o de favorecer os Árabes, isso causou uma reação por parte das milícias Árabes que, apoiada pelo governo, começaram a eliminar não só os rebeldes, como também eliminar vilas inteiras, sem diferenciar civis de rebeldes.
Esse mês, Jan Eliasson da ONU e Salim Ahmed Salim da União Africana (UA) se retiraram de Darfur admitindo fracasso nas tentativas de paz.
Uma reportagem da CNN de fevereiro de 2008 fala em mais de 200.000 mortos, com mais de 2.5 milhões de refugiados.
Existe a discussão sobre se isso se qualifica genocídio ou não, já que parece faltar um elemento étnico, mas no fim não importa.
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O importante aqui é o seguinte:
Desde o fim da segunda guerra mundial, governos continuam a exterminar suas populações.
Enquanto você lê esse post, algum civil está sendo morto pelo seu governo por algum motivo. Ele é de uma raça diferente, de uma religião diferente, de uma sexualidade diferente, de alguma opinião política diferente ou ele simplesmente mora suficientemente perto de algum diferente - ele está sendo morto *pelo seu governo* só porque existe - essa pessoa não realizou nenhum ato violento, ela não se envolve em política, ele nem gosta do assunto, ela acorda de manhã, beija sua filha, vai para o trabalho e lá ouve a noticia que alguma milicia apoiada pelo governo do seu país está chegando e ele sabe que é um dos alvos; ele para tudo que está fazendo e assim como outros tantos trabalhadores corre em direção de sua casa, desesperado, disposto a largar tudo o que conquistou, quando ele chega sua filha já está morta. Não houve campo de concentração, não houve câmara de gás, não houveram bandeiras vermelhas com suásticas, soldados bem vestidos marchando impecavelmente, não houveram grandiosos discursos filmados em contra-plongé. O homem que fez isso recebeu sua arma do seu governo, suas ordens do seu governo e Elisabeth Roudinesco quer me convencer que o Estado nazista foi O ÚNICO a governar em nome do mal.
Chame o que acontece em Darfur de genocidio, de democidio, de conflito, de guerra, pouco me importa, mas não me diga que é um Estado que não governa em nome do mal, isso é estupidez, é desrespeito, é má interpretação.
Enquanto glorificamos o nazismo e o colocamos no trono do mal absoluto há alguém que chega em casa e não encontra sua filha e nós não fazemos nada, pois o absoluto é absoluto por não deixar espaço para ninguém - o nazismo é mal absoluto para Roudinesco, as vítimas de Darfur terão que se contentar em ser um mal menor e, portanto, receber menor atenção.
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Em 2006, um grupo de 120 sobreviventes dos genocidios na Alemanha, Camboja, Ruanda e Bosnia escreveram uma carta aberta pedindo ao mundo que algo seja feito em relação a Darfur.
Procurando pela internet não encontro a tal carta, apenas notícias que falam a respeito dela, é uma pena, pois acho que é mais importante documento que podemos ter agora.
Um judeu que sobreviveu ao nazismo entende ele, de fato, presenciou o mal absoluto, mas não foi Hitler, não foi o Mein Kampf, não foram as paradas, as fogueiras de livros, as bandeiras vermelhas com a suástica - foi ver seu próprio governo assassinando todos aqueles que você conhece e convive, nisso, o judeu pode se ver como um cambojano, como um tutsi, como um muçulmano, como um croata, como qualquer um que se viu preso em um país onde o poder oficial decidiu que hoje você é uma ameaça.
E se o sobrevivente de um holocausto consegue ver o mal absoluto no holocausto e compreender que é no holocausto - e não no ridículo simbolismo - que reside o mal, porque a estética nazista (como bem disse Thaís) nos assusta tanto e os ATOS nazistas realizados por governos e mais governos ao redor do mundo não nos choca?
Porque SÓ os nazistas?
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A resposta terrível parece ser que só os nazistas eram ocidentais.
Enquanto os outros eram bárbaros do leste europeu ou da África, gente que não possui nossa brilhante ciência e nossa elevada filosofia, os nazistas eram "um de nós" - é o melhor motivo que consigo pensar para eles nos assustarem tanto, mas esse é um pensamento errado - ser um ocidental significa ser um humanista - nosso universalismo é talvez a raiz dos nossos maiores pecados e nossas maiores bençãos - nosso univeralismo é a causa de genocidios e a solução para genocidios - nosso universalismo matou índigenas e africanos sob a bandeira de que o mundo é a Europa, mas o nosso universalismo nos levou a buscar um conhecimento certo, seguro, além das fronteiras de crenças, é o que nos trouxe ciência, é o que nos trouxe democracia, é o que nos permite que consideremos como monstruoso um governo que assassine parte da sua própria população, pois somos univeralistas enquanto somos humanistas enquanto somos ocidentais - o que importa é o ser humano, é absurdo que um país trate um humano diferente do outro - esse absurdo tem suas raízes gregas no sentido da busca de um princípio comum para o universo que ultrapassa os limites das religiões locais, esse absurdo tem suas raízes cristãs no sentido de que todas as pessoas foram criadas pelo mesmo deus, esse absurdo é o centro do que chamamos de "democracia", uma de nossas mais queridas invenções.
Mas eis que estamos dando mais valor ao ocidentalismo que ao humanismo - odiamos os nazistas, pois eram ocidentais que abandoram o humanismo, quanto ao resto, reservamos um indiferente relativismo...
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A próxima questão é técnica: contra certos governos o melhor é uma intervenção militar, contra outros o melhor é um embargo comercial, contra outros outras estratégias, não saberia dizer, mas quero isso: Jamais indiferença.
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Enquanto homens ocidentais, é nossa função reservada a nós pelos nossos antepassados e confiadas a nós pelos nossos filhos que jamais sejamos indiferentes.
O resto é o segundo passo: há muitos problemas nesses debates acerca de capitalismo contra socialismo, em relação ao que fazer com os que morrem de fome, muitos sentimentos, muita discórdia, mas é um problema que garanto que conseguiremos superar, pois quer você seja liberal ou socialista, você acredita que é um humano que sofre e seja via mercado ou Estado, você acredita que seu maior inimigo é a miséria e que se acredite em estratégias opostas para combater o mesmo inimigo não muda o fato que estamos agindo como dignos representantes da humanidade, do modo como entendemos o que é o ser humano, que é o modo legado pela nossa tradição e pelo nosso modo único de pensar racionalmente e universalmente.
Que sejamos indiferentes, entretanto, isso é uma vergonha para nós: que discordemos em relação a uma invasão militar em Darfur, que discordemos em relação a embargos econômico a governos que assassinam seus homosexuais, que discordemos - mas jamais indiferentes - jamais largar humanos a sua própria sorte quando o seu próprio se dedica a exterminá-los - isso é dizer que a essência do homem africano é diferente da essência do homem europeu e isso é um pensamento contrário à nossa ciência, à nossa filosofia, às nossas religiões, à tudo que nós somos - odiamos os nazistas e os declaramos o mal absoluto, pois eles foram os ocidentais que se viraram contra a filosofia ao declararem que um judeu é algo de radicalmente diferente que um ariano - mas eis que estamos a fazer o mesmo, nos indignando em relação a uns e sendo indiferentes em relação a outros.
Há no nosso universalismo uma lista extensa de pecados, que o medo de cometer mais um não negue o que somos.
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O governo Sudanês é apoiado economica e politicamente pelo governo Chinês, está aí mais um motivo para boicotar as olimpíadas. (significa não assistir os jogos na TV e, se possível, escrever um e-mail para todos os canais que televisionarão os jogos dizendo "adoro seu canal, sinto muito prejudicá-los, mas se eu ver um jogo olímpico, farei do uso do controle remoto")
Não só isso, mas daqui há dois anos teremos uma nova eleição presidencial, não quero mais saber desse governo brasileiro que ignora o resto do mundo - qual a posição brasileira em relação ao autoritarismo da Venezuela? Ao atual estado caótico do Haiti? À tensão causada pelo desejo de autonomia de certas provínias na Bolívia? Às Farcs? Aos Zapatistas? Aos norte-americanos? À Darfur? À tantos países que hojem vivem sob a ameaça de guerras ou democidio e nem os conheço?
É muito comum ouvir alguém dizer que o Brasil "já tem tantos problemas" e que não devemos pensar nos outros, mas isso é um pensamento ultrapassado, não tem lugar no mundo globalizado, não tem lugar na civilização ocidental, enquanto o Brasil não for politicamente importante internacionalmente, não o será nossa filosofia, nossas opiniões, e, em certo sentido, nossos produtos e nossas fábricas - isso não significa cegamente bater cabeça para o aplauso de meia dúzia de intelectuais como acontece com a Venezuela - significa diplomacia inteligente, mas atuante - não quero silêncio dos meus governantes, não quero indiferença, nessas eleições escreverei para todo senador que tem chance de conseguir meu voto, todo candidato a presidente - quero saber qual a sua opinião a respeito de quem governa em nome do mal.

5 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, existe a jogada da conveniência política na extensão do problema em Darfur, enquanto a segunda guerra estava tomando enleios políticos extravagantes demais para ser conveniente, ela tinha uma base demasiado robusta, não era "só" um extermínio, era a potencialização de um novo homem!
E, de fato, o mal mais execrável é a indiferença de hoje...



Amei ser citada, baby. ;**

Anônimo disse...

Será que se os governates utilizassem a regra : "Ninguém tem o direito de Invadir Propriedade Privada" , muitas atrocidades diminuiriam ???

Unknown disse...

Po... uma entrevista assim tá abaixo da crítica ;)

Rebs disse...

" Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (...). Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra do ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? (...) E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar pra adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por um ruim desejo. Tudo. Tudo. Até em tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas - que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo - que é só assim o significado dum azougue maligno - tem onde de seguir o caminho dele, tem licença pra campear?! Arre, ele está misturado em tudo."GR
O mal faz parte da nossa natureza.

Anônimo disse...

Vi o livro dela lá em Paraty para vender, tava na estante dos "mais vendidos", mas eu tenho quase certeza que não tava tendo tanta saída assim.