quinta-feira, julho 31, 2008

The Great Gig In The Sky

Ateísmo está cada vez mais se tornando que nem aquela banda que você realmente gosta, mas não usa a camiseta que é pra ninguém na rua te confundir com os fãs imbecis - especialmente os próprios fãs imbecis.
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Nada de especial aconteceu pra eu comentar isso, é só o que passa pela minha cabeça a maioria das vezes que vejo um companheiro de não-crença expressando os males da religião.
Aliás, costumava ser mega-popular o argumento ad hitlerium.
Funcionava assim:
Nazismo = mal
Hitler = nazismo
Seu governante = algo com o hitler, talvez o vegetarianismo, talvez a preferência por cachorros, talvez o bigode
Seu governante = mal

Agora o argumento preferido dos ateus é o argumento ad binladeium:
Terrorismo = mal
Bin Laden = Terrorismo
Bin Laden acredita em Deus = Você acredita em Deus
Você = Mal

E convenientemente esquecem que apesar de religião ser uma parte grande do esquema de grupos como a Al Qaeda, o que as torna terroristas são... bem, os atos terroristas, que são primariamente atos políticos. As fitas que Bin Laden divulgou tem um cunho claramente "anti-imperialista" e nada "anti-cristão"; os EUA são o "grande satã" não porque acreditam que Jesus Cristo morreu na cruz para salvá-los, mas porque invadem países árabes com seus exércitos, são ricos enquanto o resto do mundo é pobre, não assinaram o pacto de kyoto, enfim, acesse a página do PC do B e você vai ter lá um resumo do que o Bin Laden odeia nos EUA, na verdade, os cristãos norte-americanos parecem ter mais ódio dos muçulmanos do que os muçulmanos tem ódio dos cristãos num geral.

No mais, todo o mal da religião parece sempre vir dessa sua simbiose com a política, mas como bom anarquista de fim de semana, eu tendo a ver a política como essa força que transforma toda e qualquer coisa em um mal ao invés de pensar que a religião está arruinando nossa otherwise perfeita democracia.

Acho que não existe uma única causa que eu não defenda que não me faça eu me sentir violado ao ser defendida também por um político, o que me vem a cabeça agora é Hugo Chávez defendendo os direitos dos homossexuais só pra fazer birra com os republicanos que são contra, o que claro, só vai fazer com que eles fiquem ainda mais contra, já que homossexualidade deixa de ser uma orientação sexual e vira um pacote ideológico (sigh, tenho que escrever o post sobre pacotes ideológicos).

É que nem aquelas cenas de filme em que alguém está comendo, outra pessoa diz algo nojento e o sujeito comendo afasta o prato? É assim que eu me sinto quando um político defende algo que eu defendo. Estou lá todo feliz falando do retrocesso que é a homofobia e vem o Hugo Chávez e diz "Ei, Rodrigo! Também sou contra o homofobia!" e digo digo digo, ah, deixa pra lá, já perdi o apetite.

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Aí sobra o ponto final do argumento contra as religiões, a de que elas são um mal moral e falar em mal ou bem moral é sempre um assunto delicado, mas as pessoas criticam a religião e eu *tenho* que perguntar de que buraco elas saíram pra se sentir *atacadas* por serem atéias? Uma coisa é você ser de uma família religiosa e, pra não criar conflitos familiares, não tocar no assunto ou ter que frequentar a igreja nos domingos, outra coisa é fazer parte de uma sociedade que sistematicamente te odeia por ser ateu, mas onde que existe essa tal sociedade no ocidente atual? Se tal lugar existe, de fato merece um chega pra lá, mas desculpa ser excessivamente paulista aqui: ninguém *jamais* me odiou por ser ateu e *jamais* me deu qualquer tipo de problema. O máximo que acontece é algum evangélico dizer "tsc tsc tsc", mas se você acha que "tsc tsc tsc" é opressão, você está pior que os cristãos que dizem que ensinar darwinismo na aula de biologia é opressão.
Talvez seja porque eu (quase) nunca surto dizendo por aí que o cristianismo é um mal e que cristãos devam ser brutalmente fuzilados nas ruas para purificar nossos memes racionais (vai, acontece, mas está se tornando cada vez mais raro desde que eu comecei a ler o que os outros ateus dizem e perceber quão estúpido é esse tipo de atitude), talvez seja porque eu sou de uma cidade de mais de 10.000 habitantes, mas eu não consigo imaginar ninguém por aqui sendo oprimido por não ser religioso, de novo, talvez dentro de casa e acredito que certamente é um problema, mas até aí, você oculta tanta coisa da sua mãe, você finge em tantas coisas diferentes ser um bom filhinho, eu entendo que deva doer demais para um gay fingir que é hetero na família, não poder apresentar quem você ama pra sua família deve ser horrível, mas nem de longe é a mesma coisa esconder seu ateísmo; digo, não é como que você precise praticar seu ateísmo, é contra sua areligião passar uma hora por semana entediado num banquinho de madeira pra fazer a vovó feliz?

Enfim, o assunto é bem mais complicado que isso, religião é uma questão grande ainda hoje, do ponto de vista político, moral e espiritual; como eu disse, é um problemão quando política se mistura com religião no que política tem esse talento de pegar toda e qualquer coisa e distorcer pros interesses particulares do político em questão (e religião é algo bem poderoso pra se pegar quando se faz direito); moralmente, acredito que religião é algo inútil, desatualizado e pode, em dadas circunstânceas, se tornar um problema quando a pessoa não percebe o quanto suas crenças são incompatíveis com o estilo de vida de sua comunidade; por fim, espiritualmente, acredito que a religião também está desatualizada, em parte pela sua falha em explicar o mundo mesmo, de qualquer modo, é preciso fazer um certo esforço para ter fé hoje em dia e fé não deveria ser tão contra-intuitiva, que você passe tanto tempo se esforçando pra ter fé te impede de aproveitar a tranquilidade que ela supostamente te traria, em suma, passar a vida lutando com dúvidas não é lá a vida mais tranquila do mundo e como muitos outros ateus, eu gostaria de ver essa questão já resolvida, de ver a fé religiosa ou desaparecida ou em um âmbito particular demais para fazer diferença nas nossas vidas, que acredito que é o que os religiosos mais ou menos desejam no nosso caso (que religioso não gostaria que todos fossem da mesma religião ou que ao menos, não se opousessem em público?), mas não sendo esse caso, acho estúpido resumir a questão numa batalha entre o bem e o mal onde o os cavaleiros sagrados da luz da razão degladiam bravamente com os demônios do obscurantismo religioso, num geral, os ateus precisariam ler mais nietzsche e, num exame de consciência, perceber que a cada discurso anti-cristão, se tornam mais e mais parecidos com o obscurantismo que combatem.

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