quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Felicitologia

No começo do século XX, intelectuais vienenses passaram a se reunir regularmente e discutir as questões filosóficas e cientificas que eram mais pertinentes a eles; isso eventualmente se chamaria "Círculos de Viena".
Uma teoria que se tornou popular nesse círculo era o que acabou sendo chamado de "neopositivismo".
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O positivismo é a doutrina que vê no método científico uma superação da filosofia, mais especificamente, da metafísica.
O neopositivismo preserva essa doutrina básica, tendo como diferença principal a atenção à linguagem; ou seja; se os positivistas acreditavam que conseguiriam decifrar o mundo por meio da ciência, o neopositivista acredita que ciência é uma convenção de frases aceitas por um grupo e que a ciência não bem estuda o mundo, mas sim essas frases que são, na melhor das hipóteses, traduções mais ou menos fiéis do que os sentidos de algum indíviduo particular "pega" do mundo.
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Dessa forma, a propósita maior do neopositivismo é a criação de uma linguagem lógica e cientifica que consiga integrar as ciências ao fazê-las falarem todos o mesmo idioma.
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Seja como for, a questão do positivismo que é mais polêmica é a idéia de que o método lógico-empirista pode ser usado não só pra explodir coisas e garantir que eu assista séries legendadas no meu computador sem pagar nada aos autores, mas também para criar seres humanos melhores, organizar a economia, resolver problemas éticos; enfim, tudo depende da razão.
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Há um tempo atrás eu fiz um post dizendo porque eu gostava tanto de tecnologia e eu faria mais desses, mas tem sempre algo que me pertuba.
É essa idéia de que a razão é uma coisa que serve tanto para fazer videogames caros demais pra mim quanto pra me apontar qual é o caminho para a felicidade.
A idéia de felicidade baseada em razão não é nem um pouco nova, aliás, ela existe na maioria dos autores até a modernidade, agora de cabeça, só consigo lembrar de David Hume explicitamente condenando esse tipo de postura, aliás, vale a pena até ser citado:
"Mas, de todas as mais infrutíferas tentativas de fazer arte, nenhuma é tão ridícula como aquela empreendida pelos severos filósofos, de produzir uma felicidade artificial, procurando dar-nos satisfação através da razão e da reflexão."
Talvez por motivos diferentes, concordo com Hume; o "mundo" dentro da nossa cabeça é um lugar muito muito complexo, por anacrônico que seja (anacrônico ao nível do ingênuo talvez) eu concordo com Schopenhauer que a mente, de alguma forma, obedece leis metafísicas e que seu funcionamento está além da nossa capacidade de compreensão.
Aliás, tirando a parte metafísica da minha forma de ver as coisas, a parte do "além da nossa capacidade de compreensão" acho que é mais ou menos consenso entre os psicólogos, sempre vai ter *algum* inconsciente.
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Dado o caráter altamente não-empírico da felicidade, é estranho que positivistas tenham se interessado tanto por esse tema; felicidade não pode ser observada (apenas "comportamento feliz", o que é outra coisa imensamente diferente), comprovada, verificada, falseada e, enfim, existem pouquissimas, se alguma, relações causais universais em relação a felicidade (ou seja, existem poucas coisas que sempre causam felicidade não importa o contexto).
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Esses problemas entretanto não impediram Otto Neurath, do Primeiro Círculo de Viena, a criar algo chamado "felicitologia"; antes de pensar em uma teoria filosófica ou científica complexa, Neurath era um auto-proclamado engenheiro social marxista que simplesmente acreditava ser capaz de organizar a economia através de um planejamento central e assim saciar a necessidade das pessoas e, portanto, trazer a felicidade.
Longe de ser um pensamento original ou incomum, o que me surpreendeu foi como Neurath transportava a complexidade do mundo para sua área de interesse.
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Por exemplo, outras características do (neo)positivismo é o holismo que, nesse contexto, significa que um sistema científico faz parte de um todo e que, portanto, você não consegue alterar um fator sem alterar um sistema inteiro e relativismo, especialmente forte no neopositivismo, relativismo aqui diz que "certo" e "errado" só é certo e errado em relação ao sistema científico escolhido pelo pesquisador em questão.
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Além disso, Neurath particularmente acreditava em algo chamado decisionismo; ou seja; quando um pesquisador cientifico chega a uma encruzilhada e não tem meios objetivos de realizar a escolha, é recomendado que ele jogue uma moeda pra cima e escolha aleatoriamente, é algo do tipo, entre perder tempo tentando fazer uma opção impossível e/ou desistir da pesquisa, que se prossiga sem ter certeza mesmo e, caso a tese se apresente falsa, que se descubra lá na frente.
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Achei interessante como alguém que acredita que o problema da felicidade pode ser resolvido organizando racionalmente os recursos materiais da sociedade de forma centralizada (ele até dizia algo meio específico do dia "os homens trabalhariam 12 anos e as mulheres 7" ou algo assim) admtisse tão sem problemas que uma pesquisa científica pode depender do acaso, aliás, até recomendasse que deixasse a sorte logo cuidar de decisões que, aparentemente, estavam além da razão.
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Enfim, acho que o impulso de Otto Neurath não foi estranho, ele era um cientista, um engenheiro, ele estudava economia e, portanto, não via problemas em admitir complexidade nessas áreas; felicidade, por outro lado, é uma questão que sempre dá um jeito de ser metafísica (por mais que drogas alterem sua personalidade, dificilmente alguém diria que uma droga te faz "feliz"; só o fato de haver uma distinção entre "felicidade" e "euforia" já problematiza a questão); uma vez que Neurath acreditava que metafísica deveria ser eliminada e que os métodos científicos deveriam oferecer todas as respostas, parece natural que ele simplificasse uma questão metafísica; afinal, se você reduz a questão da felicidade ao materialismo, então se torna uma questão de saciar necessidades corporais ou ativar hormônios e áreas do cerebro correspondentes a euforia e essa tal "felicidade" que consiste em algo maior do que estar sorrindo o tempo todo pode ser dispensado como uma palavra sem sentido, tal como "substância" ou "alma".
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Por mais que eu aprecia o entusiasmo dos positivistas pela razão e pelo progresso da ciência, é sempre bom tomar cuidado com teorias que expliquem comportamentos ou estados mentais.
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Pra quem acha que positivismo foi ultrapassado e que hoje entendemos que não devemos ter um governo central controlando a felicidade e coisas do tipo, acho importante notar que o governo chavista tem muito dessa postura e, deixando política de lado, é interessante observar o caráter científico dos livros de auto-ajuda atuais.
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Manuais de como aliviar o sofrimento são comuns na humanidade e, particularmente, acho que eles são um ótimo reflexo do que a época considera importante; auto-ajuda no helenismo e no império romano era filosófica; na idade média era religiosa e hoje é científica; que essa ciência seja uma psicologia estudada durante anos em uma universidade ou uma lei da atração inventada em 5 minutos por alguma doida parasita, a lógica é mais ou menos a mesma.
"Olha, essa coisa resolveu esse problema, então veja como eu a usarei para resolver o seu sofrimento".
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De certa forma, isso tem origem no nosso modo grego de pensar as coisas, de novo, voltando a Tales de Mileto; "tudo é água", desde as rochas até os deuses.
"Se o método cientifico descobriu como os átomos se movem, porque não pode descobrir como a felicidade se move?"
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Não é a toa que essa é uma etapa do niilismo; a modernidade iniciou um movimento que acabou por destruir a religião e, depois, a metafísica como força capaz de explicar o universo; sobra a ciência. Então reduzir a felicidade a uma questão materialista e, admitir complexidade na ciência, mas encarar o sofrimento humano como uma questão econômica, é, de certa forma, um impulso de sobrevivência.
Se Otto Neurath admitisse que a felicidade de alguém também dependesse de acasos, arbitrariedades, complexos sistemas holísticos e relativismos; então ele estaria fechando sua última porta até essa; se tornaria um cético e, quem sabe, pessimista; o que contrariaria não só seu marxismo, mas todo seu ofício como "engenheiro social".
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Existe mesmo algo de difícil em admitir que a felicidade é incerta.

Um comentário:

Anônimo disse...

Existe mesmo algo de difícil em admitir que o cara é marxista... Sabe como é... (?!)

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Hume, Hume, Hume!