Niilismo é, toscamente, aquilo que acontece quando um sistema de valores derruba a si próprio e nada entra em seu lugar.
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O sistema de valores baseados em mitologia ou força bruta que existia nos tempos antigos não derrubou a si próprio; ele foi superado por outros valores; quando Heráclito disse que Homero merecia ser açoitado e expulso da cidade, não foi algo tão diferente do que quando Nietzsche disse que Deus estava morto (só, talvez, mais inconsciente).
Ainda na Grécia, um menino de ombros largos ficou muito impressionado com Heráclito; algo na teoria de que tudo mudava e nada permanecia o mesmo assustava Platão: "Oras" dizia o serzinho patético "se um homem não pode sequer entrar no mesmo rio duas vezes, pois tanto o homem quanto o rio mudam continuamente, como posso viver em uma sociedade justa, sendo que a sociedade sempre muda? Como terei uma opinião se os fatos sempre mudam?" e assim ele continuava se perguntando até sentir tédio e ir atrás de algum menino bonito.
Mas eis que Platão eventualmente encontrou um menino feio que ofereceu uma resposta; era algo do tipo "tudo que os sentidos experimentam estão sempre em mudança, são sempre um 'vir-a-ser', mas existem aquelas coisas que permanecem sempre as mesmas, aquelas coisas que nunca mudam" e então dizia Sócrates, bem inspirado por Parmênides (outro feio, mas nem tanto) que existiam essas coisas além do mundo dos sentidos, essas coisas chamadas "justo" e "belo"; essas coisas não nascem do mundo dos sentidos, elas entram na nossa cabeça de alguma outra forma e elas podem ser acessíveis se ficarmos irritante nos perguntando "porque?" o tempo todo.
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Logo isso se desenvolveu, Sócrates foi condenado a escolher entre ouvir um disco de si próprio repetindo "porque?" eternamente ou beber veneno; muito sábio, escolheu o veneno.
Sem o mestre, Platão continuou por conta própria e desenvolveu a teoria dos conceitos puros; eventualmente ele chegou a conclusão que se tais conceitos não vinham do mundo sensível, eles tinham que vir de um mundo onde as coisas fossem eternamente imútaveis, oras, apenas no mundo das coisas eternas e imutáveis que podia se dizer algo sobre a verdade (afinal, o que é a verdade nesse mundo ridículo que tudo fica mudando o tempo todo?); logo esse mundo é o mundo verdadeiro enquanto esse mundo em que vivemos é um mundo de cópias toscas do mundo real.
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A história continua até hoje; ainda hoje perseguimos a tal Verdade eterna e imutável, ainda hoje perseguimo o tal Bem eterno e imutável... ou quase.
O lance é que, afinal, o platonismo se tornou uma bomba relógio. Fato, ela demorou milhares de anos pra explodir, mas enfim, aqui estamos nós no meio da explosão.
Aconteceu mais ou menos da seguinte forma: todo nosso sistema de valores foi erigido nessa pergunta "porque?" e em suas respostas.
A intenção da pergunta é que a resposta expulsa aquilo que é falso e nos aproxima do mundo real, onde poderemos ter acesso aos fundamentos ocultos daquilo que direciona nossas ações, daquilo que é Bom, daquilo que é Verdadeiro, daquilo que é Belo, enfim, essas coisas importantes para nós.
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Eventualmente, a pergunta se tornou séria demais; fato que a pergunta levava a resultados, conseguiamos descobrir como as leis da física funcionavam, como que os planetas giravam, como misturar coisas, fazê-las explodir e movimentar transportes públicos cujos preços insistem em subir; mas existia algo de pertubar em conseguir essas respostas, porque elas fazem parte desse mundo sensível e falso em que vivemos; e quando ao mundo real? Porque não conseguimos respostas sobre ele? Porque sabemos como fazer bombas nucleares, mas não sabemos o que é o Bem?
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É então que o niilismo aparece, quando perguntamos o "porque?" e não temos uma resposta; não só isso como essa pergunta que deveria nos levar para mais perto do mundo real acaba destruindo tudo; pergunta-se com o objetivo de eliminar "mal fundamentos" e acabam-se destruindo todos os fundamentos. Sobra o nada.
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Isso tudo aí em cima foi só uma introdução, uma breve e tosca "história do niilismo" e não tem aí uma idéia minha, é tudo um apanhado besta do que tenho lido sobre o assunto.
Agora vem eu.
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Nietzsche diz haver dois tipos de niilismo; o forte e o fraco.
O niilismo fraco é aquele cansaço e desmotivação que vem com a falta de valores, com a falta de propósitos, aliás, "desmotivação" é a palavra exata. Veja como que nós transformamos a palavra que significa "sem motivo" em sinônimo de apatia, há algo de muito forte na nossa cultura que diz "sem motivo não há ação"; e o que é um motivo? Oras bolas, é exatamente a resposta da pergunta "porque?"
O niilismo forte é a superação dos valores, é a ação sem necessidade dos valores, ou seja, é quando alguém consegue ser desmotivado sem apresentar sinais de apatia.
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Acho que existe algo interessante em jogar videogame, qualquer um, que é, por exemplo, ao jogar Sim City, a falta de nexo em se perguntar "porque você quer governar essa cidade?"
A pergunta com sentido vem antes "porque você quer jogar Sim City?" por exemplo, isso sim tem suas respostas "porque diverte" ou "porque gosto da sensação de construir algo só pra destruir depois", enfim... mas uma vez dentro do jogo, a pergunta perde seu sentido, a resposta é um mero "porque sim" ou "porque é esse o jogo" ; ou ainda, em um jogo de luta, alguém pergunta "porque você está batendo no outro sujeito?", de novo, "porque é esse o jogo".
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Talvez seja nesse sentido em que a vida em si pode ser contraposta aos valores, como que a vida pode levar a um niilismo forte, que é, afinal, como se escapa da bomba-relógio platônica.
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Existe, claro, uma diferença vital entre o jogo de videogame e a vida; o jogo tem objetivos imbutidos em si próprio e, no caso, isso o torna mais sábio que a vida, ou ao menos que a civilização ocidental que precisa buscar um objetivo em algum "mundo real" distante dos sentidos.
A questão que fica é a seguinte: "A vida consegue, por conta própria, sem se utilizar de religião ou metafísica, criar valores para si própria?"
Não acho que exista resposta simples para essa pergunta, em partes, porque ela é horrivelmente subjetiva e o motivo é que, oras bolas, se não há um tal "mundo real" onde posso buscar verdades eternas, então não posso buscar respostas para as suas questões ou para os seus valores; o máximo que posso fazer é buscar respostas para o mundo que compartilhamos, "qual o melhor plano econômico?" ou "como essa doença afeta seu organismo?" porque o mundo da economia e o mundo da biologia é um mundo que nós dois fazemos parte, mas como posso buscar resposta para "você consegue viver sem motivos para tal?"
E claro, não estamos falando de um simples se arrastar para o trabalho e então de volta para casa, mas de "você consegue viver feliz sem motivos para tal?" porque se a resposta for "não" então temos um problema grave aqui, porque tais motivos podem não existir.
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Entenda como é difícil escapar do esquema platônico, você pode dizer simplesmente "bom, eu não preciso de metafísica, eu tenho meus amigos, eu faço sexo, eu fico feliz and that's that", excelente, mas tudo isso está sujeito a pergunta (que eu fazendo ou não, pode cruzar sua vida) "porque seus amigos te fazem feliz?" "porque sexo te faz feliz?" e aí é uma estrada até o abismo porque não importa o que você me responde eu posso perguntar outro porque até chegarmos aos limites da razão.
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O engraçado é o seguinte; não ter respostas não vai te fazer infeliz; se você é feliz você vai continuar sendo mesmo sem respostas do porque; isso é, de certa forma, um bom niilismo, mas é engraçado como que ele geralmente é inconsciente; você fica contente em fazer as coisas que faz sem as questionar sem realmente precisar de motivos e você é uma pessoa de sorte enquanto a pergunta não te atingir.
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Afinal, a vida exige que muitas vezes façamos coisas que não gostamos ou que nos faça sentir mal, nesse caso, a pergunta se impõe: "Porque faço isso?" e se você tem um Deus te esperando do outro lado da vida ou algum prazer futuro como recompensa para o desprazer presente ou algum senso de honra ou virtude que o leve a realizar tal ato, então ótimo, mas veja só como funciona a vida no meio da explosão.
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Deus deixou de ser uma certeza inquestionável e necessária para existência da realidade; ele é, no máximo, uma hipótese que aceitamos por pena daqueles que ainda acreditam.
Um prazer futuro pode chegar, mas ele é suficiente para justificar toda merda que acontece em nossa vida? Na maioria das vezes, achar que seu sofrimento vai ser "recompensado" lá na frente é tão irracional que bloqueamos nossa mente para que não pensemos a respeito por acidente.
E enfim, virtude, o que é virtude sem o Bem? Sem a Justiça? Uma mera convicção particular, tirada de um lugar que você não sabe daonde, no máximo, baseados em preconceitos, criação ou qualquer pseudo-fim que você não consegue botar a prova, mas obedece por hábito.
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Enfim, já não é de todo simples ser feliz sem motivos, mas ser infeliz sem motivo parece tornar a vida irracional... e afinal, torna; ser feliz sem motivo também torna a vida irracional, mas foda-se, estou debaixo das cobertar com uma menina peituda, mas ser infeliz sem motivo torna a vida irracional e... bem, sem motivo... veja como a coisa é forte, dizer "vida sem motivo" nem pede explicações, a expressão tem "suícidio" gritando dela. É, de fato, um reflexo da nossa civilização o de anular coisas que não tem motivo para ser, de expulsá-las como falsas e dispensáveis; em termos éticos é ainda pior; toda ação pressupõe um motivo, "fiz porque quis" já pressupõe um motivo e ainda assim é considerado insatisfatório, tem que perguntar "porque quis?" e aí, bem, abismo.
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Acho que daí que vem um dos prazeres de fazer filosofia nos dias de hoje, especialmente, em não ser pragmático; oras cacilda, existe algo de mais "niilismo forte", de maior afirmação da vida em si, do que fazer perguntas que não precisam de respostas? Existe diversão maior do que se dedicar a fazer algo que não vai te dar dinheiro, não vai te trazer mais perto da felicidade, não vai te ajudar a conquistar quem você ama, cuja resposta você não vai achar e cujos progressos, caso existam, não vão interessar a ninguém?
E, na verdade, acho que tem muito disso na moral dessa tal "geração apática", desses "jovens que passam o dia todo sem fazer nada", oras, isso é um tipo de afirmação da vida.
Claro, de novo, pode representar fraqueza, apátia, desânimo, coisa e tal; mas às vezes não, às vezes isso tudo é um prelúdio de tempos melhores; diga-se de passagem, são pessoas ativas e bem motivadas que sequestram aviões, explodem prédios e iniciam guerras por causa de petróleo.
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Existe algo de atrativo em simplesmente viver... não é fácil chegar nesse ponto, o risco de suicidio ou fanatismo no meio do caminho é grande, mas vai que dá certo... e aí, quem sabe, não conseguimos passar o dia inteiro sem fazer nada?
Um comentário:
Até você explanar sua opinião, parecia meu professor de filosofia falando... Ex professor... E que absurdo! Hoje foi um dia lindo, mas eu fiquei melancólica com a idéia de não ter mais filosofia no CSP por um ano inteiro. Enfim, nada à ver com seu texto. E, aliás, dispensa comentários, menos os básicos do tipo 'Expressões irreverentes' e o diabo-à-quatro que sempre faço questão de destacar - "Porque?" (Há!). Ah! As fotos já estão por todos os cantos, haha. 9 fotos da mesma.(Sabe, vou mostrar esse resumo sobre o niilismo pro Fernando - O Professor, porque acho que ele vai gostar da sua síntese. Também porque continuo acreditando que todas as pessoas que amo deveriam conhecer você, e ler você é conhecer um pouco, e, e, e, hmm, o Fernando é quase um ícone pra mim. Primeiro professor bonitão de filosofia é inesquecível, ainda que letivamente produza muito pouco...) Aiai! Cuide-se, Rodrigo.
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