(o problema de se criar títulos legais é essa vontade de reutilizá-los.)
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Em 1748, Julien Offray de La Mettrie, um médico francês, criou um conceito que, até onde eu sei, é praticamente unânime nos circulos científicos atuais; a idéia de que o homem é uma máquina metabolizante, que desde seu corpo até sua alma não fossem mais do que reações químicas.
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Séculos mais tarde, o alemão Martin Heidegger se viu em uma configuração mundial que lhe causou certo desconforto.
Olhando para um lado, ele via nos Estados Unidos da América e na Europa ocidental, sob a bandeira da liberdade, habitantes felizes cercados por máquinas que realizavam serviços domésticos, rádios que transmitiam notícias e histórias e, cada vez mais, um entusiasmo por essas coisas que prometiam trabalhar em seu lugar; do outro lado, a União Soviética via toda a sociedade como uma enorme máquina, cada operário uma engrenagem, restando a razão humana descobrir qual o lugar certo de colocá-lo e otimizá-lo para saciar todas as necessidades; enfim, na sua própria Alemanha; sob a bandeira do partido nazista (que Heidegger fazia parte), médicos e biólogos ganhavam honras e destaques e focavam sua atenção na evolução genética.
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Heidegger viu nesse quadro alguns paradoxos; que engraçado esse homem, ele cria técnicas científicas para se retirar da natureza, controlá-la, estudá-la, se ver livre dela e, quanto mais faz isso, mais se vê como um ser sujeito as leis da natureza, quanto mais se distancia, mais ele faz parte.
De fato, quando os antigos gregos, ainda pagãos, se sentiam muito mais conectados a natureza e ao mundo, havia com eles uma linha definitiva entre homem e animal; a razão.
Com trabalhos como o de La Mettrie, essa linha vai se acabando; logo plantas, animais e homens, todos fazem parte do mesmo complexo de relações bioquímicas, mas apesar de se ver cada vez mais como parte integral da natureza, o homem também se vê cada vez mais distante da natureza; logo, criamos todo tipo de técnicas para nos afastarmos, técnicas para construirmos casas e carros e afastar cada vez mais tudo que é de animalesco e brutal da nossa sociedade; não só isso, criamos técnicas de auto-controle, técnicas para aliviar o sofrimento, técnicas para emagrecer, ter bons relacionamentos; tudo tem um manual explicando técnicas de como chegar lá e cada técnica tem esse objetivo: afastar a natureza; mas tais técnicas só fazem sentido em um ambiente cientificista; para que o homem possa realizar uma técnica de "auto-controle" (por exemplo) é preciso que ele veja o seu controle como algo explicável pela razão, ou seja, algo feito da mesma coisa que são feitos as plantas e as webcams, fazendo isso, o homem perde aquilo que faz dele um "homem" fora do ciclo natural das coisas e se torna um animal como qualquer outro; seu objetivo com isso? Superar seus instintos e fazê-lo algo além de um animal como qualquer outro.
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Estou com uma tentação enorme de tentar deixar esse paradoxo mais claro, mas paradoxos são confusos mesmo, pra resumir, é algo assim:
O homem realiza técnicas para controlar a natureza e se libertar dela; o homem também faz isso consigo próprio, ele cria técnicas para controlar sua natureza e se libertar dela, ao fazer isso ele se inclui totalmente como parte da natureza, ou seja, eis o paradoxo, quanto mais o homem tenta se excluir da natureza, mas ele se vê como parte integrante dessa.
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Em relação a técnica, acho que Heidegger expressa bem o medo que alguns sentem em relação a tecnologia; por um lado existe o medo de estarmos nos afastando demais da natureza, perdendo contato com ela, por outro lado estamos fazendo parte demais dela, perdendo, portanto, contato com nossa humanidade.
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Não vejo, agora, nenhuma barreira óbvia pra ciência; tirando algumas questões éticas específicas; não acho que um cientista deva interromper seu trabalho dizendo "pesquisar isso vai fazer o homem se ver como uma máquina e perder contato com sua humanidade"; num geral, trabalhos como o de La Mettrie devem ser respeitados e tratados com seriedade.
Outro problema com a técnica é a nossa dependência dela; escolhemos nos libertar da natureza e, em troca, somos escravizados pela técnica; num exemplo bobo; escolhemos nos libertar do trabalho laborial em uma fazenda para nos tornar escravos do supermercado; mais uma vez, não acho que cientistas deveriam perder o sono por causa disso.
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Em termos de vidas particulares e uma busca geral pela felicidade, acho que as coisas mudam; por mais que a ciência diga que o homem pode ser reduzido a química; existe um problema grande na pessoa se ver como um ser reduzido a química, algo do tipo, não existe problema ético no cientista te dizer que todos seus sonhos e esperanças não passam de reações químicas; existe sim um problema ético em você acreditar nisso.
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Quer nos vejamos como máquinas ou parte da natureza (que, na visão de Heidegger, e eu concordo; é a mesma coisa) estamos sacrificando nossa humanidade, pior, estamos deixando de fazer parte do mundo real para sermos observados por nós próprios; estamos nos tornando nossas próprias cobaias.
Não falo isso em um sentido coletivista, no sentido de "um humano torna o outro sua cobaia", mas numa relação interna.
Tomamos essas pílulas para ajustar isso ou aquilo, estudamos essa ou aquela ação nossa, planejamos nosso dia, ao fazer essa coisa, não parece que estamos tratando a nós mesmos na terceira pessoa? Não é como se uma parte da minha cabeça, pretensamente fora da minha cabeça, dissesse para mim "hora de fazer isso ou aquilo"?
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Pois acho que temos que temos que queimar essas últimas pontes.
O desafio que se coloca a nós, humanos, é que tudo que encontramos para nos libertar de uma aflição acaba se tornando um vício, logo outra aflição. Trocamos uma escravidão por outra e ficamos nesses debates para ver qual é melhor.
Mas eu acho que isso está acabando. Acho que estamos conquistando nosso direito a arrogância.
Estamos, finalmente, aprendendo a andar no mundo.
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De repente, me deu grande alegria em fazer parte do hoje.
Com todos os nossos problemas climáticos, políticos e culturais e, talvez por causa disso, eu sinto como se tudo aquilo que impede algo grande e bom de acontecer está "apelando" por se sentir desesperado.
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Logo eles se cansam, mas nós não.
Nós já estamos cansados e aprendemos a viver assim.
Logo eles perdem a esperança, mas nós não.
Nós nunca tivemos esperança e aprendemos a viver assim.
Logo eles se desesperam porque suas técnicas se movem a si próprios e eles se sentirão inúteis.
Nós nunca vimos utilidade na sua utilidade.
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Eu não sei quem é esse "nós", talvez seja simplesmente minhas múltiplas personalidades entrando em acordo; a questão é quase uma experiência sublime schopenhaueriana; uma conexão com o real por meio de um mergulho dentro de si próprio.
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Deus está morto e para andarmos na terra com sua arrogância, precisamos primeiro caminhar em nossas vidas.
Criamos máquinas para que as máquinas de Deus não nos impeçam, só temos agora que estabilizar esse planetinha mal feito que ele toscamente criou.
Derrotamos Deus com a técnica, não podemos fazer isso conosco; a técnica é controle e nossa ânsia por controle tem que parar nas fronteiras com nossa liberdade. Controlamos o mundo, não podemos controlar a nós mesmos.
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Acho que a resposta pra isso está em aceitar as não-respostas.
Desde o começo da ciência, uma das qualidades da ciência sempre foi sua capacidade de prever o futuro.
Acho que a nossa questão é começar a achar formas de imprevisibilidade sem perder o controle que conquistamos.
A idéia (e é uma idéia difícil de ser implementada) não é abdicar da segurança de previsibilidade, mas apenas da previsibilidade; acho que, nesse sentido, "cobrir o mundo de plástico" ganha um aspecto importante; é algo como plástico-bolha que dá a caixa o direito de cair no chão.
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A dictonomia segurança x liberdade é clássica e ela se aplica aqui; como criar um mundo que te dá liberdade para falhar em segurança?
Não vejo uma resposta, mas acho que em algum lugar dessa minha linha de pensamento vai surgir alguma nova proposta de vida. Não nova ou original, simplesmente algo em que o futuro não importe; a idéia é que falhar tenha consequências, que não exista segurança, mas que isso não importe porque aguentamos as punições.
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Liberdade em um sentido não-político é complicada; não podemos ser escravos das técnicas de auto-controle; nem das vontades irracionais; nem dos impulsos biológicos; muitas prisões a se libertar, uma leva a outra, é como um complexo de masmorras subterrâneas e... de alguma forma... a saída secreta parece ser desistir... existe algo de libertador em falhar... ou melhor, em não precisar ser bem-sucedido.
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Matamos Deus; estamos acabando de limpar sua sombra da parede, o planeta em breve será completamente nosso; a humanidade, vista como simplesmente humanidade em si, vai cada vez crescer mais no nosso imaginário. O humanismo que está para vir será tão diferente do que veio que nem vai merecer o prefixo "neo"; não vai ser uma questão de nos afirmarmos como centro do universo, não teremos mais concorrentes, será uma questão de ganharmos estatuto de seres que observam, de deixarmos de ser objeto de estudo, controle e utilitarismo para nos tornar objetos de vida.
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Existe uma tensão entre o ser humano real e o ser humano observado, ela vai vir a tona quando esses probleminhas menores como terrorismo e aquecimento global forem resolvidos.
Vai ser uma batalha gloriosa e vai vencer aquele que se importar menos, o prêmio será o nada e virá empacotado em plástico e incertezas.
Será que esse dia vai chegar? Ou estou me tornando uma daquelas pessoas loucas da internet que inventam teorias abstratas que não fazem sentido?
...
Eu tenho medo de teorias.
Eu tenho medo de ter que mostrar ao mundo minha visão do mundo.
É nessas horas que eu vejo os espaços entre arte e filosofia.
Minhas histórias tem muito da minha filosofia nelas, mas eu *PRECISO* filosofar para me expressar; a arte não chega perto de englobar a totalidade do meu pensamento e nem a filosofia, mas a parte de mim que é expressa pela arte não tem medo. Ninguém pode julgar minhas histórias de amor.
Mas minhas histórias sobre mundos de plástico, deuses mortos e amantes do caos... essas sim serão julgadas.
Tenho medo...
Tenho medo porque está tudo começando a, de alguma forma, fazer sentido... até o que não faz sentido, está se encaixando de alguma forma... e eu não me sinto inteligente o suficiente para fazer sentido, não acho que tenha conhecimento o bastante para fazer sentido, meu medo é que o quebra-cabeça só está se completando porque eu estou brincando com o modelo recomendado para crianças e em algum lugar os adultos vão rir de mim.
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Malditos adultos e seus sapatos grandes demais.
Um comentário:
Discordo de um detalhe mas não me sinto disposta à explanar a crítica, porque o contexto está bom, apesaaar de achar que o pensamento é tão bom que poderia ser expressada numa metodologia mais plana. E essa conclusão, Rodrigo? Ficou descabida com o texto. Medo de que? Você espera algo. Esperança nunca vai deixar de existir nessa humanidade, se bem que Pandora conseguiu mantê-la na caixa... Por algum tempo, haha.
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