Eu falei um tempo atrás de grupinhos e tal e óbvio, falei mal, o que é bem clichê, ninguém gosta de grupinhos e a maioria das pessoas nem percebem que fazem parte de um.
Mas a verdade é que ainda hoje eu ainda sinto inveja desse pessoal. Hum, sei lá, tem todo um feeling de segunda familia, saca? Essas pessoas que se vestem igual e vão ao mesmo show e sabem quem vai tocar e quem vão encontrar, isso é bom, faz você se sentir parte de algo, o que, óbvio, é coisa que eu nunca senti. A idéia de união, saber que alguém te espera, que as pessoas sabem seu nome, que se interessam pelo que você tem a dizer. Isso não existe na minha vida, eu tenho alguns poucos amigos e eles eu sou muito grato por fazerem eu me sentir como se o que eu penso importa alguma coisa pra alguém. (afinal, eu tenho esse blog por motivos de carência).
Mas é estranho, eu tento associar isso a classe média algumas vezes, quando eu penso em política, eu penso muito em classe média, não essa classe média multimilionaria das novelas da globo e dos textos de esquerda. Fala-se em classe média e imagina-se alguém com emprego e empregada, o que significa que é o ser mais patético do mundo, pois é o escravo que escraviza. Mas eu gosto de pensar em classe média de uma forma um tanto mais romântica... é como se nós não fizessemos parte do mesmo mundo.
Na guerra do capitalismo, nós somos aquele país pego por acidente no conflito. Nós não estamos defendendo nossas terras e nem tentando dominar a terra dos outros... nós simplesmente estamos aqui e está tudo tão próximo e mesmo assim nada realmente nos toca.
A pobreza, ela está ali, nós chegamos tão perto, quase fazemos parte, mas não, ainda somos os escravagistas, os podres, os sujos, os fúteis, quem somos nós para dizer algo? Quem nos deu esse direito? Nós nunca passamos fome e nem precisamos traficar drogas pra sobreviver. Quem somos nós para acharmos que somos gente?
A riqueza, ela está ali, nós chegamos tão perto, quase fazemos parte, mas não, ainda não podemos comprar aquelas bugigangas que a Sony lança todo final de semana, ainda não podemos viajar pra fora do país, ainda não temos controle sobre outras pessoas, quem somos nós para dizer algo? Quem nos deu esse direito? Nós nunca temos um carro bom e nem precisamos vestir terno para ir trabalhar. Quem somos nós para acharmos que somos gente?
E é essa a história de nossas vidas e é com isso que eu me relaciono... com o "não fazer parte"... a Carta Capital diz que deveríamos nos envergonhar e pararmos de agir como norte-americanos, a Veja fala que deveríamos nos envergonhar e pararmos de agir como brasileiros, é tão confuso e o que fazemos? Bem, nos escondemos em nossas armaduras e vamos para nossos shows... vamos fazer o que? E é essa a parte romântica da classe média que eu tento captar, como viver em um mundo onde parece que todo mundo te odeia? Onde todos te estimulam a se envergonhar de si próprio. Onde você sabe que não vai ganhar nada, mas tem que desesperadamente lutar para também não perder. Que mundo é esse? Como as pessoas vivem? Como elas aguentam? É algo como um pedido, é meio que um "me deixe ser brasileiro. Porque vocês não querem que eu faça parte do seu país?". É estranho como é consenso de que a mídia é voltada a São Paulo (e como dizem, "é um cara que foi pro nordeste filmar pra classe média paulistana, aqueles porcos sujos que destróem nossa cultura").
Aí entra em outra coisa pior ainda. Além de classe média, branco e heterossexual, ainda somos paulistas. Como as outras pessoas convivem com essa culpa? Eu cresci a vida inteira com todo lugar apontando pra minha cara que eu era o exemplo perfeito de verme que contamina essa nobre nação de pobres trabalhadores. Como eu ouso não fazer parte de nenhuma minoria? É melhor eu ficar quieto senão serei morto/demitido.
São Paulo é o bicho papão do país, é o mal do capitalismo personificado, nas aulas de geografia, apontam para o nosso estado e dizem "não sejam assim, eles são perversos". E sim, eu to me fazendo de coitadinho. Eu não nasci no meio da seca, nem no meio da mata, nem numa fazenda, muito menos numa mansão. Eu não tenho fome, sede, frio e nem carro ou tênis da moda. Eu sou o que eu sou e eu sei que vocês não me consideram um brasileiro "puro" que nem aquele pobre negro e sua enchada no Mato Grosso, eu sei que vocês me veem só como um filhote dos EUA, nascido numa cidade norte-americana, que por acaso fica no hemisfério Sul. Eu sei que você me odeia pelo meu dinheiro e me despreza pela minha pobreza. Eu sei disso tudo, e é isso que eu quero dizer, eu sei e, sim, eu me importo, mas além disso, eu sou mais. Eu não sou voto pro PSTU e nem pro PSDB. Eu sou anarquista e eu sou paulista. E afinal, eu sou brasileiro, vocês querendo ou não.
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