domingo, junho 12, 2005

Coisas que eu fiz tão raramente na minha vida que é possível considerar que eu nunca fiz.

Ouvir Chico Buarque:
Uma música lá ou cá, talvez, por acidente, mas num geral sempre me pareceu um moço bom demais. "Mas o que? Rodrigo, ele é super revoltado e tal", é eu sei, e por isso pra mim ele é um bom moço, ele foi super revoltado numa época em que todos imploravam que os artistas fossem revoltados e fizessem letras subliminares pra enganar a ditadura e tal. Talvez seja eu olhano para uma época que não vivi, mas a visão que eu tenho dos 60 é "ta vendo aquele cara que é contra o governo? Vamos ama-lo, pois ele salvará nossas vidas" e, depois que a ditadura caiu por seus próprios motivos, sem participação nenhuma de Chico ou de Caetano, as pessoas olham "ta vendo aquele cara que foi contra o governo? A ditadura não caiu um dia depois do que cairia normalmente por causa da sua música, ele é incrivelmente famoso e mesmo assim as pessoas são alienadas e idiotas, vamos ama-lo, pois, por algum motivo misterioso, ele foi importante naquela época do país". Então afinal, a intenção aqui não é falar de Chico Buarque porque eu não conheço sua música, mas é mostrar que ele sempre pareceu um padre pra mim que as pessoas mais incrivelmente puritanas amavam (não estou falando de você Lilith, só estou comentando que além de você, as pessoas tradicionalistas e aristocratas amam Chico Buarque), então a impressão que me dava era que, se eu ouvisse Chico Buarque, o passo seguinte seria completar o catecismo.

Ir Ao Teatro
Mais ou menos o mesmo motivo do acima. Todo mundo fala tão bem da impecável arte do teatro, que eu nunca me interessei por uma única peça, fui em uma ou duas só na minha vida inteira e nenhuma delas foi por iniciativa minha (uma foi com a escola e a outra foi um programa familiar), ir no cinema é um ato cotidiano e ninguém estufa o peito pra falar que foi (um motivo pelo qual vou pouquissimo ao centro cultural unibanco, que é sem dúvida o lugar que passa os filmes mais interessantes de São Paulo), já teatro é diferente, as pessoas não vão ao teatro 4 fun, a impressão que sempre me deu de pessoas que vão ao teatro é que elas não vão pela peça e sim pra contar para os outros que foram a peça (tipo show do Placebo), e bem, conhecer atores de teatro não me ajudou em nada. "O que? Ver ESSES idiotas no palco? Eu já não aguento eles quando eu posso ser mal-educado a vontade, ainda mais no palco, longe da minha fúria!". Mas no geral, é a mesma coisa da música do Chico Buarque, todo mundo se esforça tanto pra me explicar que teatro é socialmente importante, que é um veiculo de idéias revolucionarias e que pessoas legais e bonitas frequentam o teatro que eu nunca quis ir que é pra não correr o risco de me compararem com essa corja socialmente bonita.
Eu to correndo o risco nesse post de parecer aquela gente que se orgulha da burrice, o que não é verdade, eu procuro ler, me manter informado, esse tipo de coisa, não sou fã de Diogo Mainardi que se mantém alienado por ideologia, a questão é que eu não vejo como teatro faz uma pessoa ser mais inteligente do que cinema, assim como não entendo porque livro tem mais valor do que quadrinhos. Eu entendo que são artes diferentes com diferenças e que as pessoas se satisfazem, então eu leio quadrinhos porque acho a mistura perfeita entre imagens e palavras, eu leio livros pelo ritmo e "musicalidade" que alguns livros tem, saca? Quando você lê um livro e seus olhos dançam pelas letras, cinema eu gosto porque é a arte da edição, tem ritmo também, tem até trilha sonora, e os personagens estão lá, pouco se fodendo pra gente, simplesmente vivendo suas vidas para que nós possamos ver.
Agora, a visão que eu tenho do teatro é um monte de palhaços egocentricos tentando um aparecer mais que o outro em cima do palco, talvez essas peças que eu tenha ido ver eram realmente ruins (eu sei que "A farsa de inês pereira" foi horrível, o lance é se "Violetas na Janela" era ruim mesmo ou não, porque eu gostei do livro, apesar de ser livro espirita, ainda é um livro que eu gosto), mas a cena inicial de "Violetas...", onde a personagem principal morre, eu me segurei MUITO pra não dar risada, acho que era costume do cinema, mas eu achei tão ridiculo uma moça, sozinha, num quarto, começar a berrar "ai, minha cabeça, dói, minha cabeça, ai ai". No cinema, ela simplesmente se levantaria da cama, daria um grito, faria uma cara feia, colocaria a mão na cabeça e iria ao chão. Sem um escândalo. E aí a peça inteira era escândalo e, no que as pessoas sempre me disseram que "no teatro os atores tem que falar mais alto mesmo e fazer os gestos mais exagerados", a vontade de ir diminuia consideravelmente, porque na minha cabeça pelo menos, eu nunca vou conseguir me conectar com atuações exageradas e atores que interagem com a platéia, por mais que isso seja parte essencial do pós-modernismo, a quebra da quarta dimensão pra mim tem que ser especial e muito bem feita, como em Amelié Polan quando ela, de vez em quando só, dava uma piscadinha pra platéia. Era lindo, charmoso e não destoava da história. Agora, eu lembro de, mesmo numa peça séria como "Violetas...", a atriz, na pior atuação de uma bêbada que eu já tive o desgosto de ver, olha pra platéia e dá risada segurando o copo de "claramente guaraná, mas que deveria ser whisky". Mas, repetindo pela enésima vez, isso tudo é preconceito meu, eu deveria tomar vergonha na cara, ir ver peças boas e me livrar desse tipo de preconceito, o que provavelmente acontecerá com Avenida Droopsie, que eu só confio que será uma boa peça porque foi baseada na HQ de Will Eisner e ainda assim fica aquele sentimento de "transformaram uma HQ numa pecinha? Sacrilégio!"

Usar drogas
Esse não cai nem na categoria de "fiz tão raramente", porque eu nunca fiz.
E na verdade, o motivo tem mais ou menos a ver com os outros, a diferença é que tem menos nexo ainda.
Apesar de eu não ver o porquê, eu até entendo porque as pessoas acham Chico Buarque e teatro socialmente saudáveis, mas... fumar maconha...?
Céus, fumar maconha por ideologia é de muitissimo longe a coisa mais imbecil que uma pessoa pode fazer na vida.
Fumar 4fun deve ser divertido (digo, o pessoal passa a dar risada sem motivo, se isso não é diversão, não sei o que é) e tal, mas... fumar por ideologia? Qualé?
Vou dizer agora algo que eu li no cocadaboa faz um ano e meio ou algo assim...
O cara deixa de comer no McDonald´s porque consegue imaginar centavos de dólar se convertendo no novo iate do CEO que converterá em impostos para o bush comprar uma arma e fazer guerra lá no Iraque, mas continua fumando maconha sem ver 75% dessa grana virando uma arma comprada no morro ao seu lado usada para assalta-lo no dia seguinte.
E sim, esse é um motivo que eu não uso drogas, pra mim o tráfico é um comércio que nem qualquer outro e como eu não concordo com as consequencias desse comércio, não o incentivarei. O que aliás, é minha mensagem pra qualquer universitario que acha que tem na palma da mão a solução pro fim da criminalidade, acabar com o tráfico não acabará com a pobreza que, afinal, é o que incentiva a criminalidade, mas com certeza acaba com a compra de fuzis e granadas e, repetindo, tráfico de drogas é um comércio, PAREM DE COMPRAR E A PORRA DO COMÉRCIO ACABA. Eu sei que o pessoal do Allan Sieber odeia que chamem os drogados de incentivadores do tráfico, mas há de se convir que, se não é o cliente que incentiva um comércio, eu não sei quem é.
Eu não vejo usuarios de drogas como monstrinhos deprimidos que usam drogas para substituir a ausência dos pais ou qualquer besteira sem sentido desse tipo que tentam enfiar na sua cabeça durante o colégio, as pessoas usam drogas para se divertir e usam ideologia para se isentarem da culpa de que estão incentivando uma guerra civil, e claro, eu falo isso e vem a desculpa HIPER clássica "mas eu nunca comprei, eu só pego dos outros quando eles me oferecem". Eu acho engraçado que ninguém nunca comprou, que existe uma pessoa em todo o Estado de São Paulo que compra toneladas de cocaína por dia e empresta pra todo mundo, qualé gente? Quer usar drogas, a vontade, mas admitam que estão incentivando um mal e não me venham com essa de "faço isso pra ir contra o sistema" ou "fumo maconha porque é natural" porque eu nunca vi maconheiro plantar árvore.

Nenhum comentário: