segunda-feira, julho 04, 2011

Sobre buscar a felicidade aos pouquinhos

Às vezes eu me preocupo que esses pequeno posts falando mal de auto-estima soem do tipo que eu quero fazer polêmica a toa, enquanto as pessoas bem sabem que, ao menos na internet, eu busco evitar conflitos (às vezes eu falho, às vezes meu alvo é a Deborah Secco lol), mas aí eu lembro que ninguém lê esse blog e upa! Vamos adiante!
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Vendo a história do ponto de vista da busca da felicidade - terrena ou transcendente - a época atual parece ter mudado de estratégia, em vez de busca da felicidade, de um constante convencer-se que já é feliz e nas vezes que falha constatar que há algo de errado e que algo precisa de concerto e se for possível uma expliaçãozinha rápida e maneira com uma cura, de todo o melhor.
Por um lado, transformou-se a auto-estima - o que eu considero um auto-engano na grande maioria das vezes - em valor.
Auto-estima é auto-arrogância, na verdade, dado que ela tem que ser algo que você *precisa* ter de antemão no bolso para ser alguém feliz-saudável-bem-sucedido, então ela acaba se tornando, quase que por definição, uma auto-arrogância não-merecida e, na medida em que tanta gente precisa do aval dos outros para sua auto-estima, ela perde sua autonomia e vira apenas arrogância não-merecida.
Substitui-se uma sincera busca de admiração por meio de bons atos por um automático "seja bom comigo" e os amigos, então, invertem-se junto, perdem a agradável função de viver em harmonia pra você para viverem como juízes da verdade. Pra que um verdadeiro amigo esforçaria-se em "levantar sua bola" se boa parte da massa anônima de instituições e forças sociais já existe com esse propósito?
A questão é que no que a sociedade democratiza-se - politica e economicamente - todo mundo passa a ser bajulado: você não tem culpa, a culpa é de quem você vota contra. Você não tem culpa, a culpa é do diabo, pague-me para se ver livre dele. E a questão nem se resume a culpa.
Eis um dado interessante, o quanto os professores de colégio são obcecados pela noção de poder espancar os seus alunos quando expulsá-los da escola é uma solução menos barbárica e mais democrática até (não quer estudar, não estuda). Mas não se pode expulsar um aluno da escola: o aluno que paga é um cliente e o cliente tem razão, o aluno que não paga é um cidadão e o cidadão tem direitos. Expulsar os alunos em massa de uma escola pública causaria grande transtorno social, toda essa molecada na rua causarão problemas.
A própria vida se contrapõe violentamente a esse impulso que temos: a felicidade ainda é difícil, ter essa tão almejada auto-estima ainda exige trabalho (e na medida em que nos enganamos ao acreditar que já a temos ou já deveríamos tê-la, as crises de auto-estima ainda ganha a vantagem do ataque surpresa), o transtorno social já está aí, a miséria ainda está aí. Tudo nessa sociedade que não seja construir calculadoras e gerar entretenimento falha. Calculadoras são úteis decerto, assim como entretenimento, mas essa valorização da técnica e da diversão vem quase como um prêmio de consolação: "é isso que nós temos". E faltando todas as outras partes, numerosas demais até pra eu catalogar rapidinho aqui, é só isso mesmo que nó temos.
Gostaria de ver essa civilização voltar a conciliar-se com o fato de que a vida é miserável, com a transitoriedade dos pequenos prazeres, não para errar de novo e mais uma vez buscar superar a vida e os seus pequenos prazeres, mas para dar às coisas o seu devido lugar.
Busco viver aos pouquinhos, conquistar as coisas aos pouquinhos, lidar com as necessidades; alguém tentará convencê-lo de que isso é mediocridade, mas, para mim, medíocre é deixar-se enganar.

sexta-feira, junho 03, 2011

Queimar as asas

Nunca houve bons motivos ou bons propósitos ou bons ideais, nem boas idéias em geral. Se a civilização é um movimento de elevação, é precisamente por ter sua matéria-prima naquilo que há de mais baixo, em dar alguma grandeza ao que não tem.
Medos em leis, ímpetos em deveres, toda uma relação confusa e desajeitada com fluídos e hormônios. Ainda não sabemos o que fazer com nossos corpos, entre castidade e hedonismo, a única característica marcante da humanidade é sua capacidade para o erro; pois apenas pelo juízo racional tipicamente humano que se dá o erro. Os sentidos, afinal, transmitem o que transmitem, é na interpretação dos dados e no desenvolvimento de teorias que está a capacidade de errar e é no desenvolvimento de éticas que está a capacidade para o mal. Não que teorias sempre levem ao erro ou éticas sempre causem mal; há a capacidade para o acerto e a capacidade para o bem, mas o cotidiano são as opiniões erradas e as justificativas.
As guerras e as tiranias, os fundamentos inseguros pelos quais se ergueram superstições com o nome de sabedoria. É o velho conflito: a verdade tende a ser duradoura, mas é apenas uma contra a multidão de erros que, mesmo se passageiros, ainda são uma legião.
E isso nem toca o problema, aquele dos motivos, das justificativas e racionalizações, daquele vibrar cego da natureza que torna-se uma teleologia; mas não é para baixo que as coisas são atraídas? Se há uma causa final, não é mais intuitivo pensá-la como um abismo? Se a humanidade é empurrada por uma causa primeira, não é de se imaginar um chicote que estala dando o passo da marcha? Se caminha por si só, não é de se imaginar uma turba descontrolada? Se tende a uma direção, não é para baixo? E se escreve para relatar sua escravidão, sua falta de sentido, sua queda, não busca fazê-lo com heroísmo, sabedoria e ascensão?
Mas será todo o heroísmo o relato de uma sobrevivência que não tem escolha senão sobreviver? Toda sabedoria uma ordenação artificial? Toda ascensão, um juízo errôneo acerca da querda?
E se o real heroísmo for uma luta contra as amarras da natureza, representado pelo suicídio? Se a sabedoria for a desistência da busca pela verdade e pela felicidade? Se transcender significar aprofundar-se nas entranhas, cada vez mais distante da luz?
Mas se for esse o caso, como julgá-lo? E se de todas as drogas desse mundo, existir ainda essa: que ele exige sobrevoar para observar melhor e, ao mesmo tempo, queimar as asas, por apenas assim ser possível movimentar-se?
O transcendente como mera provocação.

quarta-feira, maio 25, 2011

Humor negros e (em outro assunto) A Banda Mais Bonita da Cidade

Uma blogada de madrugada que não poderia estar acontecendo porque lol acordar em 5 horas. E eu não gosto demais de comentar os assuntos do momento, mas vá lá, faz tempo que eu não escrevo aqui.
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Humor Negro
É sobre o Lars Von Trier.
Primeiro: Humor tem que ser engraçado. Humor não serve pra provocar, abrir os olhos, desafiar; serve pra eu fazer "há há", senão de "humor" passa pra "rabugentice" e, no contexto atual, geralmente rabugentice de quem quer falar bobagem impunemente. A piada, então, vira um escudo pra gente covarde que quer ser polêmico sem ter que se explicar.
E o humor brasileiro passa por uma fase covarde, que parasita a covardia de seu público. Sujeito se sente pequeno em relação a celebridade, aí vai um humorista lá encurralar ela com câmera e microfone. Sujeito se sente pequeno em relação aos políticos, aí vai um humorista lá fazer "perguntas embaraçosas" (e, na maior parte das vezes, completamente fútil). Sujeito se sente "censurado" porque não poder ser racista ou sexista ou whatever e vai um humorista ser rabugento escondido atrás da piada.
Não que humor não tenha o seu lado de parasitar emoções baixas e infantis. Piada de pau e peido é toda sobre esse lado, mas uma piada de pau e peido brinca com coisas que a civilização toda tenta meio que deixar de lado ou esconder; o tal humor negro de hoje em dia é uma versão mais mesquinha disso, ele gira todo em cima de um revanchismo sem alvo definido, coisa de gente frustrada e ressentida e sequer com esclarecimento o suficiente pra direcionar essa frustração e ressentimento. É o sujeito que apanha da vida, mas nem sabe de que lado vem o soco. É o que há de mais baixo. Mais baixo que um peido.
Mas a função do humorista também não é direcionar ódio pro lugar certo, nem nada, de novo, o lance é ser engraçado; se o sujeito consegue pegar esse sentimento geral e fazer graça, está valendo, senão, de novo, gente mesquinha, frustrada, ressentida e burra sendo rabugenta. Eu não consigo pensar em algo mais oposto a humor do que isso.
Que o valha, fizeram pesquisas em algum país europeu, acho que Holanda, e contavam a mesma piada pra diferentes pessoas, mudando entre uma pessoa e outra os elementos pra ela ir de "zé qualquer é burro" pra "minoria estrangeira do país é burra" e quanto mais a piada era xenófoba, mais ela perdia a graça. Então pra quem vê o que eu digo uma defesa de uma piada racista, desde que engraçada, meu contra-argumento é que uma piada racista precisa de um contexto racista pra, em primeiro lugar, ser engraçada e se ela acha esse contexto, ela não o expõe, mas sim o valida.
Dar risada de piada racista é sim, sinal de racismo. E se você é negro/gordo/gay e ri com aqueles que estão rindo de você; não sentir em orgulho em levantar a bandeira da fala de respeito próprio.
(Há, claro, variações e graus e uma piada que é um tiquinho preconceituosa e muito engraçada, enfim, eu escrevo as coisas esperando de quem lê bom senso e não axiomas éticos que valem daqui para a eternidade)

A Banda Mais Bonita Da Cidade
Não falemos de açúcar. Eu ouço as coisas açucaradas, ok? As capas dos álbuns das minhas bandas tem gatinhos e corações. As coisas açucaradas são propriedade minha. É o meu lado hipster, as pessoas perguntam o que eu ouço e, mesmo os amigos mais antenados em cultura pop, eu evito responder porque vocês não conhecem! Mas elas são açucaradas. Olha só, uma muito parecida com a propósita da Banda Mais bla bla.

Então quando eu não gostei dessa banda, vocês dizem: "é porque eles ficaram famosos".
Haha
HAHA
HAJADHKSA
*risos nervosos*
Não não não.
Vamos contar as vezes em que, em toda minha vida, uma de minhas bandinhas veio pro Brasil.
Teve aquela, aí aquela outra, aí... hum.
UMA
UMA ÚNICA VEZ em TODA MINHA VIDA eu tive a chance de ver uma banda que gosto ao vivo (Camera Obscura) . E eu não pude, porque o ingresso se esgotou rapidíssimo, em parte porque os donos da casa de show que eles vieram reservaram parte dos ingressos pra amigos... ou assim dizem os boatos, eu sei lá.
Então eu *quero* que isso se torne famoso, sabe aquela experiência que você teve vendo um músico que você gosta? EU NÃO A TENHO. Não tenho. Quero ter. Quero que seja famoso, quero que venha pra cá. Desesperadamente até. É um buraco na minha alma que isso não ocorra.
Aí pensa que bom se eu gostasse dessa banda, já que ver show deles será muito fácil provavelmente. Mas não dá. O problema não é o açúcar. O problema não é o ambiente feliz e positivo e inocente. Isso é o que eles tem de bom.
O problema é uma música ruim. É um riminha panaca e com um sentimento nada genuíno. Esse é o problema mais importante, eu sou daquela crença que diz: falte tudo na música pop, mas não deixe faltar a honestidade. Eles não são honestos, eu vejo nos seus olhos. O sujeito hipster se esforçando pra ser um hipster poser no clima que eu postei é muito mais honesto do que o povo daquele clipe. Além de que, urgh, de novo, essas letras. Ser simples é diferente de ser simplesmente brega.
Mais fofice após o comercial. Mas esse clipe que eu postei, olha como esse pessoal tá feliz de verdade em cantar. É isso, cara. Não peço mais nada de uma música além de me colocar um sorrisinho assim.




Eu não sou muito de gostar de cover, mas...


lol, não sou muito de gostar de cover, mas...


Emma's House é um pouco do motivo pelo qual eu parei de ouvir música:
"Emma's house is empty
So why do I call it Emma's house?"

Essas estrofes alcançam um tipo de auge em todo o sentimento que a música pop é capaz. Parte de mim sentiu precisar de algo completamente outro, daí ando me dedicando mais a literatura. Gostaria de escrever um post todo só sobre essas duas estrofes, mas minha capacidade crítica e estética jamais estará a altura deles. Aliás, eu estou meio que escrevendo um romance. Ele não será tão bom quanto essas estrofes. Ela é mesmo um dos picos da civilização. Um perfeito encapsulamento de dores e alegrias.



Essa música tem um movimento que gosto muito.
"I want to build her up.
Up as tall as a church.
Just to watch her.
Just to watch her falling down"




Minha banda favorita - Heanvenly - tem músicas melhores, mas isso é o que o Youtube oferece de clipe. Seja como for, o mundo existe de tal modo que é impossível que o Heavenly tenha uma música ruim.


What the what?
Chorando agora!


Bom, pra finalizar. O hino, aí o clássico.


terça-feira, abril 12, 2011

Baco

Um dos meus gatos ficou doente.
Baco, gatinho preto e branco, sempre foi um tanto quietinho e talvez por isso (e pelo fato de termos outros dois gatos que são muito saudáveis) não percebemos que ele foi gradativamente parando de comer... até parar.
Ele foi internado duas vezes, mudou de veterinário 3; ninguém sabe o que há de errado nele, amanhã vamos numa veterinária de um hospital grande aqui que é especialista em felino, nossa última chance. Na falta de diagnóstico, o diagnóstico se torna uma doença chamada PIF, a versão neurológica, que vai desligar o cérebro dele aos pouquinhos. Um vírus cujo teste mais confiável ainda tem uns 20% de chance de dar falso positivo ou falso negativo e que não tem cura. É bem raro, nenhum dos veterinários que já passamos sequer viu um caso, quanto mais tratou.
Ele já anda mal, cambaleante, não sobe e nem desce sozinho dos lugares. Quem está acostumado com gato, sabe que ver um gato que depende de você para ir ao sofá que ele gosta e, mesmo assim, precisar ser vigiado para não cair no chão, é uma das coisas mais tristes do mundo. Ainda mais se tratando de um filhote.
Entre uma internação e outra, eu dava remédio pra ele 7 vezes ao dia, alimentando com seringa outras 3. Após a segunda internação, ele está voltando, aos pouquinhos, a se alimentar por conta própria, é o único pequeno raio de esperança que temos nesse mês que está sendo tão difícil. Uma veterinária disse que se for a PIF, ele não se recuperaria e ponto, então sinal de melhora é um ponto positivo também nesse sentido.
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Nesse meio tempo de tensão e desespero, de passar o dia todo cuidando dele achando em maior parte em vão, de ter as pequenas esperanças destruídas pouco após surgirem, você começa a fase da barganha, a jogar teorias pra lá e pra cá no seu cérebro, é aquele estranho instinto de racionalização a partir de um impulso irracional.
Você googla os sintomas porque vai que sua pesquisa de 10 minutos diagnostica algo que um profissional treinado não viu. Você questiona acerca de Deus, pensamento positivo, maldições e no auge do meu pessimismo eu não consigo conceber um mundo tão horrível quanto essas três opções:
- Um Deus onipotente e bondoso tortura meu gato para que de alguma forma eu passe a amá-lo.
- Eu vejo ele doente, eu concluo logicamente que talvez ele piore mais e isso se torna *causa* da piora, iniciando um ciclo onde eu estou assassinando meu gato via observação.
- Não basta existir um vírus, dificuldade de diagnóstico e tratamento, dificuldades financeiras nas pesquisas veterinárias e toda espécie de problemas materiais e terrenos. Não basta pessoas terem poder de matar seus animais via envenenamento, atropelamento ou todo tipo de maldade física, elas ainda são capazes de matar seus animais via rituais e espíritos. Nós precisamos *mesmo* postular espíritos ruins para fazer desse um mundo ruim? O que os vivos fazem não é o suficiente para você se convencer disso? O que forças da natureza prejudiciais incontroláveis pela ciência atual fazem não é o bastante?
Sem contar os erros que eu cometi e nem percebi, coisas do tipo: se eu tivesse percebido mais cedo que ele estava parando de comer, se eu tivesse dado mais valor ao fato de que ele é menor ao gato um mês mais jovem que ele, etc. Adicionar o sobrenatural na equação de coisas que podem causar uma doença é só elevar o caos do mundo a um nível um tanto exagerado.
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Mas ele melhorou um pouquinho e eu ando com vontade de rir alto em relação a coisas que não merecem de fato tal risada. Ele ainda está bem doente, mas às vezes temos que fingir que pequenas vitórias são grandes vitórias. A arte não é (nem de longe, eu diria) a única mentira que impede que o peso da realidade nos destrua.
Pensei em fazer uma tatuagem:
ou
Só os desenhos, não a capa toda. Primeiro eu pensei que a idéia de tatuar o gato fazia sentido por causa da situação, aí eu me interessei também pelo coração e tive que reavaliar meus motivos.
Primeiro eu pensei que era algo como um testamento, eu quero deixar assim bem claro que gosto de Beat Happening antes de morrer. Mas isso não faz sentido, uma tatuagem é algo que queima com seu corpo na morte, então eu acho que é pra eu não esquecer quem eu sou.
E o engraçado é que eu quase não ouço música, não busco uma banda nova faz meses, talvez por isso eu queira isso gravado na minha pele. Twee é um dos meus lados que eu mais gosto e é a primeira vítima de todas minhas crises.
Twee é sobre as coisas pequenas serem preciosas; é o oposto dos desejos de revolução, da grande capacidade técnica, da teatricalidade, de groupies, dinheiro, espadas e dragões, ultra-sentimentalismo, ou qualquer megalomania que esses genêros de música pop costumam se associar. É sobre as pequenas tristezas e pequenas felicidades; é um ritmo de vida que te leva a construir uma imagem de si próprio (e uma carreira, uma "filosofia de vida", um sentido geral para a existência) aos pouquinhos.
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Minha felicidade atual é ver Baco comendo aos pouquinhos, se recuperando aos pouquinhos. Espero que aos pouquinhos assim, nós dois possamos crescer juntos.

sábado, março 12, 2011

A felicidade como argumento

A felicidade é a pedra de toque de toda argumentação ética egoísta. A menção da felicidade pode até servir para identificar uma doutrina como essencialmente egoísta.
A felicidade é um tipo de bem especialmente individual, o conceito geral de felicidade é completamente vazio, ela aplica-se tão somente ao indivíduo. Fala-se em bem geral, até personifica-se o "Bem", mas é mais difícil compreender a noção de uma felicidade geral ou do que seria a "Felicidade".
Discorda-se do que, exatamente, seria o bem geral, mas o conceito é discutido. Quanto a felicidade, não há a discussão, a felicidade é um sentimento particular.
O cristianismo fala em altruísmo e fala em compaixão, pois se não falar e falar, resta apenas a promessa da felicidade eterna, tão-somente a recompensa individual oferecida no pós-vida. Dos sermões da igreja que ouvi, o que mais me chamou atenção é o que diz que não se pratica o bem para ir até Jesus, mas se está com Jesus, logo pratica o bem, pois é um momento raro de inversão de sua base egoísta. É um momento que abraça a falta de lógica da ética e esquece um pouco o racionalismo sem razão tão caro aos católicos.
Pratica-se o bem não como condição para a felicidade futura, mas simplesmente por estar em contato com este, ou seja, por si só, ou seja, sem causa. Mas mesmo esse lapso segue-se da habitual pregação sobre felicidades futuras e o cristianismo é recoberto em egoísmo mais uma vez.
A felicidade, sendo um conceito vazio, adapta-se como recompensa universal e, portanto, estímulo universal para se praticar qualquer coisa que uma ética indique. Que Deus a ofereça em infinita quantidade não deve ser surpresa, pois tal conceito tem o costume de ser o gerador de infinitos vazios.
Quanto às outras éticas que fazem uso da felicidade, como a utilitarista que até busca um pouco medi-la, elas não prometem altruísmo e compaixão em primeiro lugar. As doutrinas socialistas colocam a teoria à prova, pois quando um grupo de indivíduos promete um tipo de felicidade geral, acaba-se com um país na mais profunda miséria, com toda a felicidade concentrada apenas neste pequeno grupo de indivíduos.
Das promessas que nossa civilização faz e quebra, a felicidade está entre as principais. E afinal, como é difícil fazer valer essa promessa, o que se pode esperar de um conceito vazio que propõe algo antinatural e absurdo como um pleno bem-estar?
Há sempre algum sofrimento, alguma dor, alguma tristeza, mesmo na euforia, mesmo na realização dos sonhos, mesmo no saciar constante de todas as necessidades, o tédio se impõe eventualmente.
Imaginemos um paraíso: todas as necessidades físicas se foram, você ainda não se preocuparia com os outros que sofrem? Com os que ainda não estão salvos?
Eliminemos a compaixão de nosso paraíso - o exercício mental mais fácil do planeta - você não sofreria com suas memórias? Com seus arrependimentos? Desejos de vingança?
Eliminemos as memórias ruins. Uma parte de você foi destruída, ainda assim. Você não sofreria com a saudades dos tempos bons? Com a nostalgia?
Eliminaremos as memórias boas? Destruí-lo totalmente e fazer de você uma massa amorfa de sensações boas é a felicidade? Eliminaremos o tempo e chegaremos ao mesmo resultado: um tipo de nada que misteriosamente retém a capacidade de ser feliz; uma felicidade indefinida - e impossível de ser pensada - por ocorrer fora do tempo.
Cada vez que nos aproximamos mais de um tipo de felicidade eterna, entramos no reino das não-coisas, do inexistente. Então não é de se espantar que as doutrinas recorram ao Inexistente para garantir tal felicidade.
Por fim, pra quem ainda marca pontos em algum placar entre o bem e o mal, pode-se pensar o seguinte: se a felicidade é o supremo desejo dos egoístas, na falta de algum outro tipo de justiça, pode-se garantir ao menos que o excessivamente egoísta jamais cumprirá seu desejo.

segunda-feira, março 07, 2011

A internet não é tão legal.

Eu uso a internet desde maomenos os 12 anos. Isso foi há OMG 13 anos atrás. A internet era bem novinha, então. As páginas pessoais tinham aqueles endereços enormes do geocities, a gente passava uma noite inteira baixando uma única música, filme nem pensar, quando muito, passar a semana baixando um filminho pornô de 10 minutos.
A minha conexão era por meio de uma BBS do ABC paulista e essa BBC tinha um sistema de chat interno e as pessoas meio que se conheciam lá. Tinha um fórum que eu frequentava onde pessoal dizia como ia salvar o mundo e porque todo mundo estava errado.
De lá pra cá a internet mudou tão-somente em quantidade. Mais gente, mais páginas pessoais (que acabaram por metamorfosear em blogs e páginas de redes sociais, mas a mesma coisa: "quem sou eu, o que eu gosto, porque eu estou certo e você errado"), mais música, mais pornografia, maior área de alcance, mais de tudo, mesma coisa.
Eu conheci minha namorada pela internet, ela lá do Sul; hoje moramos juntos. Não daria sem a internet.
Não estou fazendo o post pra dizer que odeio a internet e que ela não é bem bacana, é só pra dizer que ela não é o catalisador que trará a era de aquário (nada é).
As coisas mais bacanas que aprendi no mundo foram de modo habitual: universidade, livros da biblioteca, livros comprados no sebo ou na livraria, mais ou menos caros; lembrando que nessa época eu já tinha internet há um tempo.
O que eu quero dizer é que é praticamente irrelevante ter todo o conhecimento da humanidade na ponta dos dedos sem que algo guie seus dedos até ele e esse "algo" é bem difícil e complexo; se você acha que fóruns que discutem assunto X são uma boa idéia, há uma chance enorme de gente meramente leiga e arrogante te direcionar a algum tipo de pseudo-conhecimento panfletário; seja panfletario do anarcocapitalismo, psicologia evolutiva ou o que for.
Uma teoria particular que eu tenho da internet é que a maior quantidade de informação leva a pessoa a se aprofundar mais - e refinar mais - seus próprios preconceitos; entenda, a tendência é a pessoa buscar informação horizontalmente - ela é liberal, então ele vai atrás dos liberais, aí dos liberais mais obscuros, aí dos liberais radicais, aí dos argumentos liberais, aí das explicações liberais, aí das vertentes liberais, etc - e não verticalmente - ela é liberal, então dá uma olhada nos socialistas.
Quando você por acaso encontra alguém "do outro lado", geralmente já é no meio de combate. É alguém dizendo como e porque você não só é burro, como mau, não só mau como burro, etc. Afinal, a timidez e o medo naturais que vem em conversar face a face com alguém são ferramentas favoráveis à razão. Arrogantes arroganteando-se entre os arrogantes não leva a nada.
Até onde eu sei, a internet avançou 0 debates. Ela também gerou 0 revoluções, caso alguém que ache que o que anda acontecendo no mundo árabe é por causa do twitter e não, tipo, gente cansada de viver sob uma tirania.
Não teria minha namorada sem a internet e não conheceria minhas bandas favoritas. A internet é uma ferramenta excelente. Mas ela não contribuiu (nem contribui) com minha formação, nem intelectual, nem cultural. Amo amo amo minhas bandinhas twee inglesas dos anos 80, mas não dá pra usar elas pra justificar a internet como ferramenta que leva a qualquer avanço espiritual meu. Amo amo amo minha namorada, mas sei lá, se você acredita em alma gêmea, então nos encontraríamos de alguma forma por aí, se não, encontraríamos outras pessoas (continuamos encontrando outras pessoas, mesmo juntos, então...).
Então é isso, o post, de novo, não é pra dizer que a internet não seja legal, mas ela não é *assim tão legal* que ela vai tirar os povos da ignorância e trazer o mundo junto e derrubar as tiranias e coisas do tipo.
Ela me dá acesso a um bocado de informação, mas dizer que eu preciso da internet seria dizer que eu tenho tempo de ler e estudar todos os livros de papel que eu tenho acesso, o que é uma mentira - ou dizer que a internet pode me oferecer obras que eu não encontro em papel, o que é uma meia-verdade em um único caso, em que a obra que encontro em inglês na internet, está disponível em espanhol por aqui. E se existe algum povo miserável que não tem acesso aos livros de papel, então: 1 - eu não sei se é uma boa idéia dar computador ao invés dos livros em questão e 2 - eu não sei porque acreditar que a internet seria usada pra pesquisar grandes idéias ao invés de quem vai na festinha de hoje à noite.
Mesmo por ser algo desconfortável ler numa tela, se o problema é que as crianças não estão lendo seu Machado de Assis, eu recomendaria pelo menos a versão em quadrinhos antes de recomendar ficar encarando uma fonte de luz por 200 páginas (btw, a fonte de luz que sai de um reader é meio que feita pra isso. A do seu monitor não).
A internet é tão boa em unir os povos quanto a bíblia de Guttenberg foi em unir os cristãos. Dar uma voz às pessoas geralmente significa dar uma voz aos seus preconceitos; uma pessoa com seu preconceito sozinha é sabiamente tímida em relação a ele, na internet, ela forma um tribo e boa sorte acabando com qualquer mistificação que seja nos próximos 500 anos. Durante um momento da internet (meio que com o orkut), as pessoas se espantaram com o surgimento dos conservadores de direita. Bem, eles sempre existiram, só aconteceu de agora eles se organizarem em tribos irracionais e arrogantes como a esquerda se organizou desde sempre. E o lance de uma tribo é a destruição ou o recrutamento, o resto é um detalhe que talvez ocorra por acidente.
E se você recruta o bastante pra fazer uma revolução, você ainda precisa sair na rua e levar tiro e essa coisa toda, a internet, nesse caso, não esclareceu nada ou acabou com nenhuma alienação, ela só serviu como o panfletão que é, se alguma coisa, um panfletão com um IP gravado faz a polícia ter um trabalho mais fácil.
Então é isso. A internet é bacana, você conhece pessoas, e serve basicamente só pra isso, quando serve pra isso.
Tchau, vou dormir.

quarta-feira, março 02, 2011

Auto-estima

Um tempo atrás, eu li numa dessas listas de internet um argumento até que bom contra auto-estima. A lista era de algo do tipo"6 besteiras da psicologia" e uma delas era que auto-estima faz sempre bem, quando na verdade, gente com a auto-estima sempre alta costuma ser escrota, pois é o tipo de gente mimada, que nunca admite erros, que é arrogante, etc.
Se existe uma jogada certa de ganhar público - e como estudante de Schopenhauer eu bem sei disso - é dizer que há poucos sábios e muitos burros, porque 99% das pessoas que lêem aquilo que vão achar que fazem parte dos poucos sábios; ninguém lê Schopenhauer dizendo que ou se nasce gênio ou já era e pensa "ah, que droga, eu não nasci nada genial, serei bem medíocre nessa vida". A pessoa sempre se sente feliz achando que Schopenhauer está comprovando a genialidade dela quando, na verdade, ele está dizendo que, estatisticamente falando, as chances de você ser um gênio são baixas.
Não estou defendendo que ninguém se odeie, nem nada do tipo, é só que, se eu puder dar um conselho (e se filósofo não fica ensinando os outros a viver, como é que ele ganha seu pão/status/ego?), ache-se um imbecil e parta daí.
Ache-se um completo idiota e aí tente, bem aos poucos, provar-se do contrário. E se você não conseguir, tudo bem, ao menos agora você sabe que é um idiota, o que é mais sabedoria do que possui a grande massa de idiotas.
Meu estado neutro é me achar uma pessoa bem imbecil, frustrando-me o tempo todo com minha falta de capacidade e intelecto, aí às vezes eu faço uma coisa legal ou eu penso alguma coisa interessante e fico bem por um tempo, até voltar ao neutro. Esse blog tem toda uma coleção de idiotices.
Sei lá quantas vezes eu ofendi as pessoas, um dos meus posts mais visitados é um que falo em "extremo anti-sionismo do idelber", o que é uma babaquice que foi escrita num momento tenso sobre um assunto naturalmente frustrante (não por acidente, esse texto foi linkado uma ou duas vezes como se eu fosse uma autoridade no assunto. Protip: não sou).
Mas outros dos meus posts bem visitados são os resuminhos sobre pré-socráticos que eu fiz uma época em que os estava estudando e esses ficaram bem bacanas; são sussas, introdutórios, enfim. Sentir-se bem consigo próprio deve ser, eu acho, uma recompensa por fazer coisas bacanas. Há um problema quando não conseguimos sentir orgulho dos nossos acertos; mas o contrário - sentir orgulho de si próprio fazendo nada de interessante - é pior, na minha opinião.
O primeiro caso é um problema particular, uma neurosa, depressão, whatever. O segundo caso é um problema social, pois gente que é arrogante sem motivo é um problema para os outros: elas erram mais e seus erros devem ser arrumados por terceiros; elas entram em conflitos, pois acreditam-se sempre com a tocha da moral nas mãos; elas sentem que tem direitos e mais direitos por serem o floquinho de neve especial que são. Não que essas coisas não sejam universais, não que não sejamos essa pessoa irritante de tempos em tempos, é só que o estado neutro da pessoa com auto-estima é o de ser escrota.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Prostituição, Bruna Surfistinha, Deborah Secco

Já que eu fiz um monte de twit furioso, vamos lá, né.
Primeiro, eu não quero me dizer nenhum especialista na vida das prostitutas, nem parecer que eu ignoro os problemas sociais, emocionais e físicos que uma prostituta pode ter na sua profissão, mas essa entrevista patética é bem uma mostra de porque não se dialoga muito sobre essa questão no país.
"Que mulher, em algum momento da vida, não se expôs para se afirmar, para ser aceita. A gente se descobre mulher, mas, ao mesmo tempo, pode começar a se autoflagelar para agradar, para receber amor"."
Às vezes rolam umas citações que encapsulam tantos preconceitos juntos que daqui 1000 anos ela poderá ser usada pra mostrar como são primitivas as pessoas de 1000 anos atrás.
Ser prostituta não é autoflagelação, é um emprego. Você lendo isso pode não sentir prazer no seu emprego, pode até se expôr a risco físico, pode até ser uma coisa que a sociedade não olha com o melhor dos olhos, mas você faz isso pra ganhar dinheiro, não como uma neurose de alguém que quer receber amor ou como uma tentativa de punir a si próprio e tal.
Se formos falar na tragédia da prostituta, ela está em ser alguém que, por falta de dinheiro, acabou fazendo algo que ela própria considera imoral. Isso pode levar a uma porção de problemas emocionais, é claro.
Um problema é que quando você faz disso o seu foco, você se torna parte do problema. Eu já tinha ficado um tanto chateado com a Deborah Secco quando vi em alguma capa de revista ou sei lá, ela dizendo "eu nunca seria prostituta".
Em primeiro lugar, você não é algo assim tão lá diferente - e se você acha que isso é eu tentando ofender ela, você não está lendo esse post; eu não acho prostituição imoral ou nada do tipo - mas boa parte do seu dinheiro e da sua fama vem em vender seu corpo e não sua habilidade em interpretar outra pessoa, então se você sair do seu pedestal, eu acho que você consegue sim entender um coisa ou outra sobre elas. Em segundo lugar, bom as citações falam por si próprio:
"Por mais que tenha pesquisado, conversado com garotas de programa, nunca vou entender a dor delas. Para mim parece um terror, mas para essas meninas, é como se já se anestesiassem."
"Que direito tenho de falar: "Não faça"? As pessoas não são o que querem ser. São como conseguem. E isso é triste. E eu parei para pensar que também não sou o que quero. Sou o que consigo. Somos o melhor que conseguimos ser."
A atriz - e pelo jeito o diretor - partem do princípio que ela fracassou, logo é prostituta. Teve algum jogo da vida, ela perdeu, logo é prostituta. Isso é péssimo, isso é ruim, isso é triste, isso é horrível, mas quando você fala com elas, tadinhas, elas nem percebem o quanto a vida delas é tão tão tão tão tããããããão pior que a minha, elas estão até anestesiadas.
A prostituta não é alguém que perdeu no jogo da vida, não mais do que qualquer outra pobre que está em um emprego horrível para sobreviver - e um punhado de prostitutas estão nessa por ser uma carreira que elas acham melhor, sendo plenamente capazes, intelectual e financeiramente, de perseguir outras carreiras.
A prostituta é - salvo casos como prostituição infantil e extrema pobreza - uma mulher adulta e responsável que, analisando suas opções de carreira, decidiu que "ter 5 ou 6 homens em cima dela todo dia" é um modo aceitável de ganhar dinheiro.
Se a Deborah Secco acha essa escolha "um terror", eu sinceramente gostaria que ela tivesse a integridade artística de passar o papel pra outra pessoa. Até alguém interpretando um terrorista tem que encontrar uma linha de empatia onde ele consegue pensar que, se as coisas fossem diferentes, ele poderia ser essa pessoa, mas meu problema com atores em geral é outra coisa, eu acho que toda a fama não merecida que alguns atores recebem impedem atores em geral de entender qual a própria função, ooooutro tópico.
O caso da Bruna Surfistinha é mais ou menos esse. Ela não foi uma criança forçada a fazer nada, nem alguém em extrema pobreza que precisou fazer coisas terríveis para comer o pão de amanhã. Ela viu suas opções e achou que isso era melhor do que as outras. Aí como isso não se encaixa no mundinho de 2 cm cúbicos da atriz e do diretor, tiveram que inventar o quanto ela se odeia e se autoflagela e outras coisas.
Se Raquel Pacheco comete algum pecado é o de francamente não ser uma boa escritora - ainda mais no gênero de erótica que por vezes produz escritores tão bons - mas a história dela, por ela mesma, não é de uma coitadinha sem escolha. Se a mãe dela parou de falar com ela, a Deborah Secco e as outras pessoas que acham que isso é um "terror" tem mais culpa do que a própria Raquel que só estava falando sobre o seu trabalho.
A vida de uma prostituta tem várias dificuldades únicas que meio que se alimentam. É considerado imoral, aí acaba sendo ilegal, o julgamento da sociedade causa danos à saúde mental da prostituta ao mesmo tempo que a marginaliza um bocado. Mas algumas prostitutas não estão "anestesiadas", se alguma coisa, elas estão caducadas. Elas superaram essas dificuldades e são, na medida do possível, mulheres comuns no seu cotidiano.
As que gostariam de sair dessa vida, mas não tem escolha por motivos econômicos não precisam de mais auto-estima, elas precisam de um curso técnico, de mais empregos em outra região, enfim, da mesma coisa que a empregada vivendo no quartinho do fundo precisa, ou que a professora que não aguenta mais ser babá dos pivetes precisa, ou que a atriz que OMG não entende o terror das pessoas quem ela deveria ser durante os 90 minutos do filme precisa.
As que não querem sair dessa vida, eu diria que elas adquiriram auto-respeito ao invés de tê-lo perdido completamente. Que elas vivem uma vida estável ao invés de um terror. Que elas não se machucam seriamente, nem emocional e nem fisicamente. Elas não são anestesiadas, elas são profissionais.

domingo, fevereiro 06, 2011

Vida e pans

Das coisas que acho estranho sobre mim, a recusa em se livrar de mesquinhezes é a que mais me confunde, mas enfim.
A questão é que eu sou de tal maneira estúpido que eu fico me questionando se sou particularmente quebrado ou consciente.
Sabe essa história de fazer coisas errados, com uma vozona na cabeça gritando que está fazendo errado? Então, o tempo todo tem alguma voz na minha cabeça dizendo que estou errado, então que seja, talvez seja isso, se eu ficar deixando meu bom senso me impedir de fazer as coisas, eu fico imóvel.
Afinal, quem diria, eu sou um poço de bom senso, só acontece de não usar nenhum porque, oras, né?
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Existem defeitos que eu mantenho porque fuck it, pessoas tem direitos aos defeitos. Das coisas que eu evitaria, eu evitaria surtar vez ou outra, e evitaria alguma rabugentice, mas não toda, eu tenho direito a uma dose de rabugentice.
Eu não sou tão produtivo quanto uma versão ideal de mim, então eu substituo pela neurose de estar pensando o tempo todo. Eu coloquei uns prazos pra mim esse ano e acho que vou cumpri-los, mesmo trabalhando muito pouco.
O lance é esse, das coisas que eu faço irracionalmente, está todo o meu modo de viver, porque eu meio que aposto demais que minha vida vai dar certo se eu continuar agindo dessa maneira que parece que não vai dar em nada. O lado irracional é que eu não acredito em reencarnação.
Se eu acreditasse em reencarnação, eu já teria morrido mil vezes, o que eu posso fazer? Eu tenho uma mentalidade de videogame. Me dá três vidas e o primeiro reflexo é perder a primeira só pra ver se o pulo é possível.
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Não que eu pense na vida como um videogame, eu apenas a planejo como se fosse. Eu tenho essas décadas, esses objetivos, nesse tempo, pra fazer isso, eu tenho que passar por essas fases. Toda parte da minha vida que meio que não dá certo é um sacrifício que a ilha exigiu.
Se eu não falei isso no blog, falo por aí pras pessoas, mas lembro de uma na faculdade em que a professora falando sobre Nietzsche, que ele previa que seria um perigo, que etc e tal; aí eu falei algo do tipo "e ele tava certo" e ela respondeu, bem sábia e desmistificando o lance todo, "bom, se você trabalha em direção a uma coisa, algo sai disso".
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Acho a colocação boa. Não é que se você trabalha em direção a uma coisa, você vai nessa direção, a vida é fodida, mang, você não sabia? Às vezes você trabalha pra algo e vai pro lado oposto, mas algo sai disso.
Se eu fosse menos rabugentice, eu acharia engraçado quando alguém pensa que eu to aqui por acidente; mas eu só fico puto.
Tipo, ok, ok, gente, gente, assim, na boa, na boinha, olha só, eu vou falar de boa. Na boa, eu falhei pra caralho. Eu falhei mais de uma vez na mesma coisa. Eu falhei em terminar faculdade no ano certo, falhei em começar mestrado dois anos seguidos (um atrasinho de 3 anos aí nos meus planos gerais), perdi um emprego/me demiti/me demitiram de um emprego que eu acharia que resolveria vários problemas, voltei pra um emprego que achei que nunca voltaria, perdi prazos, planos falharam, coisas não foram pra frente, eu negligenciei um bocado de coisas e pessoas, enfim, um dia eu tinha um lindo e promissor futuro como roteirista de quadrinhos, hoje isso está on hold indefinidamente.
Eu errei, eu dei azar, eu falhei e porra, minha vida ainda está pretty much incerta, vai saber no que eu vou falhar aqui pra frente.
Mas, e esse é um mas importante, eu estou mais ou menos onde queria estar.
Eu estou exatamente onde quero? Porra, claro que não, quando eu tinha 16 anos achava que com 21 estaria em um apartamento em São Paulo ou coisa assim. Mas o meu eu de 16 anos só não é mais burro do que meu eu de 15.
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Um lance é que, bom, nossa vontade afeta de modo limitado o mundo ao nosso redor (por meio de nossas ações), só acontece de nós não controlarmos nossa vontade. Não é que tenhamos assim controle, o tanto de coisa inconsciente que obedecemos o tempo inteiro é, pff, vai saber, mas me incomoda - incomoda quando eu penso isso e quando os outros pensam isso - essa noção de que eu não faço nada.
Esses dias eu expliquei pra Thaís que meio que o tempo todo eu estou pensando nas coisas, digo, se desse pra ver minha vida, porra, é claro que eu to sempre pensando nas coisas, esses meus telespectadores imaginários acham que eu sento na frente do computador sabendo quais livros consultar, onde consultá-los, qual citação usar, que argumento fazer, etc; assim, do nada, eu comecei a pensar no momento que sentei no computador.
Eu não quero que isso vire uma crítica ao capitalismo porque fuck you, eu não duraria 2 segundos num país comunista, eu seria fuzilado, eu seria exilado por não querer contribuir, eu faria uma piadinha fora de hora pro Grande Rei Supremo Líder Absoluto Da República Democrática ou algo assim, mas, sociedade, de boa, eu to pensando, eu não to fazendo nada.
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É claro que tem um lado enorme meu que pensa assim, não ia me incomodar se eu não me questionasse, mas porra, olha que cara incrivelmente foda eu sou, além de tudo eu me questiono o tempo todo! Qual a última vez que você passou a vida inteira achando dizendo a si próprio que está fazendo tudo errado? Foi o que eu pensei. Alguém deveria me contratar pra escrever sobre auto-crítica, enfim.
Eu falho, eu me questiono, eu me arrependo de coisas, eu rabugento, eu surto, eu erro e minha vida meio que está do jeito que eu quero, eu sei lá como essas coisas acontecem, mas parte grande de mim sinceramente acredita que eu trabalho pra isso, que eu tenho - surpresa! - estrutura emocional pra tal. Que nessa de filosofia, eu aprendi a não cair em certas armadilhas como acreditar que isso *tem* que dar certo, que papai do céu está torcendo por mim, que eu posso me dar o luxo de foder essa vida porque Jesus perdoa ou próxima reencarnação resolve, que o partido político tem as respostas, que essas pessoas legais são tão legais, que se eu não fizer todo o sexo da minha vida até os 30 anos FODEU e se eu não ficar rico e famoso até os 30 FODEU e assim vai.
Eu consegui desnvolver esse plano a longo prazo razoavelmente abstrato de me tornar alguém inteligente e que escreve coisas boas e interessantes até o momento que eu morrer. Até lá, eu evito religiões e partidos políticos, porque se eu não sou um cara inteligente ainda, como é que eu vou jurar devoção a um deus e como é que eu vou defender um ser humano no poder? Até lá tudo vai dar errado, mas a vida é longa, dá tempo de tudo dar errado e isso dar certo. E se a vida não for longa, se eu for atropelado amanhã - e isso é importante, pois é o meu único testamenteo.
Se eu morrer o meu único pedido é que vocês que lêem isso façam tudo que vocês puderem para que a Record jamais gaste 5 segundos que seja falando sobre o quão trágico o modo irônico pelo qual eu morri jovem.
Confio em vocês. Se puderem impedir aquelas comunidade do orkut sobre profile de gente morta de me parasitarem, eu agradeço também.
Prosseguindo, se eu for atropelado amanhã, meio que não importa, eu não acho que a vida tenha me dado cartas de modo que, no caso de eu ter um plano legal como esse, que ele possa ser realizado antes de eu ser velhinho. Então se eu morrer antes de eu ser velhinho, pô, eu fiz o que deu, eu escrevi um ou outro post bom (vocês já leram aquele que eu comparo a civilização com uma cidade onde não há mais um único prédio, mas sim vários? Eu sou um gênio, mang), quero pensar que deixei minha mãe orgulhosa, fiz meu amorzinho feliz, alimentei bem três gatinhos. E se eu não me tornei o tipo de pessoa inteligente que escreve boas coisas, paciência, não deu tempo.
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Acho que no fim das contas, eu não sei de muita coisa, então tudo que eu escrevi acima e abaixo pode ser invalidado completamente. Mas aí vai que algo acontece e eu acordo um dia e eu sou um cara esperto que consegue escrever algo que assim, não vai ser de todo imprestável; vai ser só criticado e mal interpretado e vai ter uns pontos errados, uns erros perdoáveis dado minha época, mas, no fundo, *essa idéia*, pô, isso é muito bom, isso dá pra manter.
Isso seria bem legal.

domingo, janeiro 16, 2011

Pessimismo

Quando eu me disponho a explicar como é o meu tipo específico de pessimismo, a primeira coisa que gosto de dizer é que não é uma teoria sobre como prever o futuro.
Ser um pessimista, do modo como sou, não significa que numa aposta com 50% de chances, eu preveja que sairei perdedor. Não é nenhuma crença em Lei de Murphy ou nada do tipo; na verdade, na minha vida, as coisas costumam meio que dar certo de algum modo misterioso, então como eu me mantenho pessimista?
Meu pessimismo é um modo de ver a vida em geral: quando observamos o mundo e nos perguntamos se ele tende ao bem ou ao mal; se há mais felicidade que sofrimento; se há mais justiça que injustiça; etc. a balança tende a pender (por vezes bastante) pro lado péssimo.
O mundo é um lugar bem ruim, a vida é bem difícil, o sofrimento é bem constante, a crueldade parece onipresente e a compaixão um milagre, etc. E há a questão da morte: nós chegamos nesse mundo com data de expiração e sem manual de instruções, passamos a maior parte do tempo só resolvendo problemas que a vida joga em nós, uma outra parte só nos preparando para alguma satisfação futura, com momento fugazes de alegria. A coisa é tão foda que quando estamos nos divertindo, o tempo passa mais rápido.
Isso não significa que eu não vou ganhar na loteria amanhã, que o jogo que eu comprei sem ter certeza não vai acabar sendo muito divertido, que o amor da sua vida não estará essa noite na balada, etc; a vida em geral é uma droga, mas eventos particulares bons podem muito bem acontecer.
Então quando eu digo que as coisas na minha vida meio que dão certo, é um misto de bons acontecimentos particulares e o meu próprio pessimismo que me torna, creio (e espero), mais apto a suportar a vida.
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Quão infinita é a miséria das pessoas que esperam que as coisas funcionem? É verdade que as coisas funcionam de tempos em tempos, aos poucos, mas pra cada evento da minha vida que deu certo, ocorreram umas falhas bem brutais no passado, parte do pensamento otimista que diz "não desista!" funciona também na versão pessimista do tipo que prevê o futuro: "você só tem 1% de chance de dar certo! Tente 99 vezes!"
O meu tipo de pessimismo me dá uma força do tipo que é fútil desanimar e é fútil esperar por justiça e é preciso suportar com força a crueldade dos homens; é claro que eu quebro às vezes, Thaís que sabe, ás vezes eu quebro feio - há um limite de quanto peso um menino de braços fininhos consegue suportar - mas grande parte das vezes, quando eu choro, não é só por causa do evento determinado que me causou a dor, mas é porque esse evento determinado me lembrou que a natureza do mundo é dor.
Eu sofro muito, pois eu choro pelo mundo; eu aguento muito, pois quando enxugo as lágrimas e acordo no dia seguinte e tento de novo, não estou pronto para encarar de novo o evento particular, mas sim todo o peso do planeta.
Parece arrogante dizer isso, mas o modo de pensar pessimista aos poucos te acostuma a isso: quando ocorre injustiça, você não se permite a lamentar essa injustiça, mas você lamenta A Injustiça, que contamina o mundo todo e sua vida toda e continuará a fazê-lo enquanto você viver. Isso te força a encontrar forças para lidar não só com a injustiça atual, mas com todas que ocorreram e com o medo de todas que porventura podem ocorrer.
Às vezes é demais, às vezes você falha, você quebra, o desespero toma conta; adicionar ao peso da tragédia particular o peso da tragédia em geral é por vezes dar um passo maior que a perna. Mas mesmo isso não é um problema tão grave, pois o mundo é péssimo de tal modo que passos maiores que a perna são dados, que às vezes você falha, às vezes se desespera.
Não é minha intenção, com esse post, dar uma receita de como lidar com a dor, - seria uma receita bem estúpida se viesse com "desespero" como possível efeito colateral - mas sim um aviso de que coisas ruins acontecerão e um hábito de como se lembrar desse aviso na medida em que elas acontecem.
Eu acho mais fácil passar por um desafio se eu sei de antemão que ele é difícil. Jogar as recompensas pra um mundo futuro pode funcionar também; achar que o universo te ouve ou que Jesus vai te dar um carro é uma fonte tão infinita de frustração que caso frustração fosse energia elétrica, esse seria o moto perpétuo.
Adquirir o hábito de viver mesmo sob sofrimento é algo que o pessimismo oferece; se acostumar com a idéia da morte é outro presente.
Eu sei que eu vou morrer, minha consciência vai deixar de existir, não existirá mais meu eu, meus sofrimentos, meus sonhos, não vou poder nem ver as pessoas chorarem saudades de mim, não verei os injustos pagarem sua injustiça, não serei recompensado pelos meus atos bons, simplesmente não serei. E assim se passará com todos que eu amo, com tudo que prezo.
O pensamento pode levar a um tipo de desespero, mas habituar-se a ele traz uma preciosa capacidade de resignação. De aceitação do destino.
Sei que não serei, ainda assim vivo, busco cuidar bem dos meus gatos, ser bom para quem amo, não ser desonesto mesmo com desconhecidos, tento pagar minhas dívidas, obedecer as leis. Aceitar o destino é uma superação do niilismo. Aceitar o nada como um fato tão natural como a chuva é resistir a tentação de idolatrá-lo.
Não há porque viver mal só porque esse é um mundo que tende a não dar certo; isso é ser adolescente. Também não há porque fantasiar com mundos melhores; isso é ser uma criança.
O que eu entendo por maturidade, minha e da civilização, é, seguindo Kant, o uso do conhecimento sem direção dos outros; eu diria também, na medida do possível, sem direção de medos ou birras. A resignação que o pessimismo traz torna o medo e a birra luxúria e futilidade. É fútil ter medo do mundo: ele vira devastador e implacavável de qualquer modo, assim como não podemos nos enganar e nos dar o privilégio de bater o pé até as coisas serem do jeitinho que queremos. Ter consciência de nossa faliabilidade, de nossa falta de luz, é ser mais compreensivo com a falha dos outros - tão humanos quanto nós - e mais responsável com nossas próprias.
Não há porque negar e envergonhar-se do erro, pois o mundo não abre-se para nossa razão como um livro escrito em linguagem matemática, pelo contrário, creio que é nossa razão que dá matemática ao mundo, deformando-o, pois conseguimos compreender apenas a imagem turva (mas esse é outro assunto).
E com consciência que erramos, algo nessa razão que dá forma ao mundo nos compele também a sermos justos para com nossos erros e aprender com eles.
Nem sempre isso tudo dá certo, mas como já repetido algumas vezes, esse é um mundo que as coisas frequentemente falham mesmo.
A vida em geral é difícil, toda vida em geral é sofrida; isso faz com que eu procure olhar com maior carinho para aquelas coisas da minha vida que não são sofrimento e honrar e fazer bom uso das oportunidades que surgem.
Pensar no mundo como um que tende ao mau às vezes leva ao desespero, mas saborear esse pensamento e acostumar-se com toda sua amargura pode bem ser o que torna o mundo tolerável.

sábado, janeiro 15, 2011

Da série "é certo, pois eu vivo assim" (arte).

Ou da série: "internet não é lugar de debate"; sinto certa alegria em não debater arte.
Minhas conversas sobre arte, mesmo aquelas que ocorrem dentro da galeria de arte, geralmente se resumem a "eu gosto" e "eu não gosto".
Eu poderia elaborar, claro, e algumas vezes elaboro, mas a questão é que na maior parte do tempo, o motivo pelo qual você gosta de um artista - se é que você próprio pode discerni-lo - é interessante tão-somente pra você, de modo que esforçar-se em explicar porque você gostou de algo - especialmente pra alguém que discorda, gerando o tal debate - é simplesmente falar dos próprios sentimentos. E a gente geralmente só fica assim discursando sobre nossos sentimentos quando:
a) Temos um blog.
b) Temos uma pessoa íntima sinceramente interessada em saber.
c) Somos chatos, egocêntricos e mimados.
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Quando você está falando sobre alguém, algum amigo ou até mesmo lendo uma crítica de alguém que você respeita, num geral, um "eu gosto" basta para que você preste atenção em algo que geralmente não prestaria tanto. E, ainda confuso, um "Por quê?" tem como resposta geralmente atenção a algum detalhe:
Ouça essa passagem com atenção; leia de novo esse trecho; observe o quadro dessa distância; etc.
Assim, dado que você confia na pessoa, você se abre mais para a obra e dá a ela mais uma chance de te afetar. Quando falha, ambos concordam em discordar e a vida progride.
Isso não é filosofia da arte acadêmica, nem crítica, nem análise; é só como acontece no meu cotidiano e eu acho que mantém uma relação agradável com a arte e agrabilidade é um componente importante (logo, o título do post; eu estou meramente defendendo como as coisas ocorrem em minha vida).
Se você casualmente chama atenção de alguém para algo, você apela à sua sensibilidade. Se você faz um argumento, você apela à razão.
Existe um bocado de espaço pra razão na arte: na crítica, na análise contextual, na análise do conteúdo, da técnica, da forma, etc; mas o ato específico de abrir-se a uma obra e experimentá-la e ser movido por ela é um ato sensível; a crítica, a análise contextual, a análise técnica podem servir de argumento para convencer alguém a dar uma chance a mais para a obra, mas o juíz do gosto é a sensibilidade.
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Não que gosto seja impossível de aproximar-se de uma objetividade, afinal, a sensibilidade por si própria já é uma "aproximação de objetividade", o gosto pode ser refinado pela prática de experimentar mais e mais obras, de modo a ser menos surpreendido por inovações, menos chocado, e deixar que a obra fale mais por si própria (ser um artista inovador, pra mim, diz muito pouco, num geral significa tão-somente passível de ser imitado no curto prazo e superado pela própria técnica no médio prazo - ser um bom artista me parece melhor do que ser um artista inovador).
Mesmo que a objetividade final não seja alcançada - sempre levamos alguma bagagem conosco, algum preconceito (positivo ou negativo) para com o nome do artista, um estômago mais ou menos cheio, pés e olhos mais ou menos cansados, entusiasmo, tédio, conhecimento histórico ou sua falta, desejo de ver algo novo, desejo de ser levado pela arte, etc.
As variantes são muitas para falar-se em objetividade, ainda assim, supondo que vemos as mesmas formas e cores, ouvimos os mesmos sons, compreedemos as mesmas palavras; não é questão de falar-se em subjetividade absoluta também.
Seja em que meio do caminho nos encontramos, nos encontramos experimentando a arte. Não argumentando que ela é boa.

sábado, janeiro 08, 2011

Maldade

Há a tendência em crer que os políticos são particularmente maus, quando na verdade, eles só são particularmente poderosos. O poder não corrompe nada, as pessoas já são escrotas de nascença, o que o poder faz é oferecer a letal mistura entre impunidade e meios.
De todas as formulações de bom e mau, aquelas baseadas em compaixão me soam as mais verdadeiras e simples: quanto melhor a pessoa, mais ela indentifica o sofrimento alheio com o próprio e quanto pior a pessoa, mais ela indentifica o sofrimento alheio com o prazer próprio. A maioria das pessoas flutua em algum meio-termo de simples indiferença ou compaixão seleta para com a tribo (o que às vezes se traduz como crueldade seleta para com os outros; sujeito pode, ao mesmo tempo, sacrificar tudo para impedir o sofrimento de um compatriota e sacrificar tudo para garantir o sofrimento do inimigo, ver os terroristas religiosos).
Disso não se segue - e essa é uma parte importante do post todo - que pessoas boas sejam um bem para a humanidade em geral, ou mesmo para a sociedade ou para sua vizinhança. É mais um modo de medir se você é um cara bacana do que se você é um cara útil ou benéfico. Um industrialista egoísta que por amor tão-somente ao próprio dinheiro gera um sem-número de empregos e produtos baratos baratos o suficiente para aumentar um pouco a qualidade de vida dos mais pobres, porventura faz mais bem à humanidade do que o sujeito que doa uma porcentagem grande de sua pouca riqueza para a caridade.
O altruísta do exemplo sacrifica-se mais, mas o escroto egoísta faz um bem maior por meio mesmo do seu egoísmo.
A relação de causa e efeito entre um bom caráter e um mundo melhor não é inexistente, claro; boas pessoas realizam bons gestos, eu só quis demonstrar que a relação não é de necessidade, mas se essa relação não é de necessidade, qual a utilidade em ser uma boa pessoa?
A questão é que não há bem uma utilidade em ser uma boa pessoa, pois não há bem uma escolha entre ser uma boa ou uma má pessoa. Ou você sente compaixão ou não sente. É possível, acredito, treinar a compaixão, praticar esse tipo de sensibilidade, de modo de encarar as coisas, mas mesmo para ter esse impulso, é preciso já uma pré-disposição para sofrer com o outro.
Esse tipo de modo de vida onde se é uma boa pessoa pelo simples fato de ser uma boa pessoa, vai de encontro a teorias utilitaristas como o cristianismo, para a qual, o egoísmo é o único modo de ser humano; é preciso, de fato, ser um poço infinito de egoísmo para que apenas a ameaça infinita de sofrimento versus a recompensa infinita da felicidade gere estímulo para agir como se fosse uma boa pessoa, o que raramente são.
Em defesa dos cristãos, Deus não existe, assim, é absolutamente normal que a maioria oscile entre egoísmo e maldade. Crer-se ovelha seguidora do Bem Absoluto enquanto se comete mesquinhos atos de crueldade (homofobiahomofobiahomofobiahomofobiahomofobia) é menos defensível, mas enfim, voltando ao tópico, perdoem a rabugentice, faz um tempo que não durmo.
Outro lado das pessoas boas é que é bom cercar-se delas. Uma comunidade que pratique a compaixão seletiva é, afinal, em relação à própria comunidade, uma boa comunidade. Em meio a um povo que odeia os "outros", não ser um dos outros pode significar uma existência bem agradável, mesmo que isso seja uma bomba relógio, pois há um limite do quanto pode-se ignorar um grupo de pessoas.
Mas mesmo assim, é um motivo pelo qual sentimentos religiosos ou patrióticos podem melhorar a qualidade de vida de um povo; já que é inevitável que haters gonna hate, pelo menos que o ódio seja direcionado a alguém do outro lado do mundo ou a espíritos malignos que fazem tudo dar errado nos bastidores, mas isso também vem com o lado ruim da equação; já é tão difícil pessoas estarem dispostas a amar que desperdiçar esse amor com a patria ou com o papai do céu soa... bem, um desperdício.
Não que coração seja um tanquinho que ama uma cota limitada e acaba por aí - que tipo de maldito poliamorista eu seria se acreditasse nisso? - mas há de se admitir que algumas pessoas, ainda mais amargas e rabugentas que eu, simplesmente amam menos e que é como se dissessem: "Vou ser insuportável, horrível e cruel com você, mas dou meu coração a Jesus, não pode-se dizer que não amo"; ocorre também com as pessoas que compram uma sacola ecológica e acham que já "fizeram a parte".
Um risco, aliás, dos ideais grandes, é esse, eles ofuscam demais.
Se você realizou o seu ato para com o Bem Absoluto, para com o Partido Que Alimentará Todos os Pobres, para com a Pátria Amada; é fácil sentir-se livre da obrigação de não ser escroto com o caixa do banco.
Ao mesmo passo que uma pessoa boa não é necessariamente benéfica, uma pessoa com grandes ideais não é necessariamente - ou ainda, não o é na maioria das vezes - alguém que realiza grandes contribuições. Ou pequenas.
Lembrando que quando eu critico certas pessoas, eu não critico o modelo ideal da pessoa - eu não critico o cristão perfeito que realmente entendeu que o significado da bíblia bla bla bla ou o ecologista ideal cuja casa inteira funciona via energia solar e cujo alimento é plantado em casa e adubado com as fezes do panda que ele salvou, etc e tal. Esse post é bem sobre as pessoinhas do dia a dia - e o ecologista do dia a dia é alguém que realiza atos mínimos e fica arrogante demais às vezes por causa deles e o cristão cotidiano tem esse costume de fazer maldades, arrepender-se em nada e sentir-se perdoado.
Quanto aos altruístas na política, esses eu até prefiro que sejam apáticos e hipócritas, pois assim eles não prejudicam ativamente a humanidade sendo um idiota útil. Aliás, o exemplo grande de pessoas boas causando enorme mau é quando elas acreditam sacrificar-se pelo bem maior e "bem maior" acaba tão-somente sendo um grupo de pessoas no poder.
Bom, eu esqueci qual era meu ponto quando eu comecei esse post, mas eu escrevi coisas o suficiente, ofendi o cristianismo um pouqinho só pra minha consciência ficar limpa e, hum, está bom, né?

terça-feira, janeiro 04, 2011

Os caminhos da civilização

A ciência às vezes compartilha com a filosofia a arte de dizer certas coisas que são óbvias.
Li algo mais ou menos assim em um blog: "Na escola, aprendi que história é movida por guerras e líderes, por indústria e recursos, por religião e idéias; mas o que fulano de tal diz em seu livro, é como que para isso ser necessário, foi preciso solo fértil e material para produzir roupas".
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O lance é: ninguém questiona que antes dos gregos se perguntarem acerca da natureza das coisas, eles precisaram, primeiro, ter o que comer e o que vestir. Assim como ninguém questiona que antes dos babilônios ou chineses ou tupi-guaranis serem o que foram, eles precisaram comer ou vestir.
Mas o que importa, se tratando da história das civilizações, não é o momento em que elas são tribos isoladas, com mais ou menos dificuldade; o que importa é o momento em que elas se comunicam, estão, na medida do possível, em algum pé de igualdade.
Se tornar superpotência após duas guerras mundiais é tão pouco mérito quanto conquistar continentes selvagens usando pólvora. Sentir-se escolhidos de Deus fazendo isso é tão-somente o velho e previsível hábito boboca dos homens em serem bobocas.
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Há de se pensar o que faz a força de uma civilização: as guerras que ela vence, a marca que ela deixa no mundo, a qualidade de vida de seus habitantes, quanto ela dura, quantidade terra ela ocupa.
Não é raro que o lado bárbaro da coisa vença uma guerra. Há, aliás, sempre o medo de que estamos nos tornando refinados demais e perdendo nossa capacidade de perfurar o crânio do inimigo de modo que seu cérebro retire-se de lá. Há sempre o desejo de ser tão bárbaro quanto os bárbaros, mas com nossa tecnologia e conforto.
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Tecnologia é uma coisa engraçada. Há algo de quase místico em utilizar um poder incompreensível. Quem aí tem o conhecimento contido em um relógio digital? Da fabricação do plástico da pulseira, da fabricação do chip, da metalurgia dos parafusinhos, da química da bateria, etc. Quem tem o conhecimento de todas essas partes ao mesmo tempo?

Há dois modos que um bárbaro encara a tecnologia: ou com espanto e reverência ou com indiferença e ingratidão. Ou a tecnologia é o fogo de Prometeu vindo dos deuses ou ela está aí como as árvores estão aí. Em nenhum dos casos há o respeito a algo que é, afinal, o conhecimento materializado de um enorme número de humanos dedicados.

Despersonalização e individualidade caminham juntos. A civilização caminha a épocas menos personalizadas - o líder é um gabinete com um sem-número de assessores, o cientista é uma equipe em um laboratório em uma universidade, o artista é uma multidão de 15 minutos de fama - ao mesmo tempo que a épocas mais individualizadas - o líder toma decisões menos gerais e com melhor conhecimento de necessidades locais, não há assunto pequeno ou bobo o bastante pra não ser pesquisado em algum departamento de alguma faculdade, você constrói seu repertório de artistas e estilos a partir de um portfólio infinito.

Isso ocorre dado o grande número de pessoas, ou seja, dada a grande capacidade de alimentação e abrigo, mas a humanidade é um sistema que corre pra todo o lado em que nenhum é particularmente o começo.
A deusa inspira a agricultura ou os agricultores criaram uma deusa para simbolizar seu cultivo? Nossa tecnologia gera alimento que gera pessoas ou o alimento gera pessoas que gera tecnologia? Espero não parecer irritantemente filósofo de boteco, mas o importante - pelo menos aqui - não é a ordem cronológica das coisas, mas o seu lugar em um sistema atual, de outro modo, seu lugar na teia.

Em um ecossistema, as coisas alimentam-se reciprocamente, no que adicionamos elementos a civilização - e quando o fazemos, eles raramente estão em uma ordem bonitinha de "isso se alimenta disso que alimenta aquilo" - isso não muda o fato de que o sistema continua fechado - e a despersonalização e individualização tornam as previsões muito complexas: quem explica como a presidenta foi eleita? Infinitos debates ocorrendo na internet, com infinitas questões sendo discutidas, infinitos dados disponíveis de modo fragmento para cada uma das infinitas pessoas. Qual dessas infinitas variáveis fez cada eleitor tomar sua decisão? Eu sei o que fez o meu voto ser o que foi - e esse motivo não mudou o voto de mais ninguém que conheço. É uma época estranha para ser uma democracia - ou qualquer coisa.

A civilização não vai a nenhum lugar em particular, mas ela corre. Sentimos o efeito de um milhão de diferentes notícias diárias e globais, mas o procedimento ainda é tomar café da manhã hoje e se preparar pra tomar outro amanhã.
As coisas são mais complexas, mas ainda existe o básico. O complexo não substitui o básico, não deixamos de lado a barbárie só por ser civilização, mas isso não significa de modo algum que a civilização é bárbara. Há camadas, há camadas nos indivíduos e há camadas no social. No fim, o teste da civilização é sustentar seu próprio peso, ou ainda, sua camada de pesos.
Sustentar a necessidade de vestimenta, abrigo, alimento foi uma etapa, essa etapa continua, mas a ela foi adicionada a necessidade de respostas, de razões, de conforto, de ética, de justiça, de bem-estar, etc.
E nenhuma camada está acima ou abaixo da outra e é difícil acompanhar onde, dado um indivíduo qualquer, está mais peso, menos peso, qual atrapalha, qual ajuda. E a complexidade toda trata-se sequer de ir em uma direção - falamos aqui apenas de viver nossa vidinha entre nascimento e morte. Unindo as vidinhas todas, com suas mesquinhezas e preocupações todas, sabe-se lá para onde caminha a civilização. Sabe-se se lá se é ou não para a bárbarie.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

A louça e a ordem

Não sei se li em algum lugar ou se alguém me disse de uma fala de Lourenço Mutarelli em que ele diz gostar de lavar louça, pois é como ver o caos ganhando ordem.
Esse pensamento geralmente me entretia durante essa tarefa, mas hoje o que rolou foi diferente. De repente, a ordem pareceu apenas um prelúdio para um novo caos e se tudo é um ciclo; ordenar a louça é uma exigência de manutenção da vida cotidiana e a manutenção da vida cotidiana exige que a louça seja suja de novo.
Viver causa o caos e as coisas são de tal modo que não se pode viver criando caos em cima de caos. É preciso limpar as coisas, pois o caos exige sempre nova destruição; o caos exige sujar aquilo que está limpo. Ele não suporta apenas prosseguir a destruição, o caos precisa da ordem, pois precisa do prazer em destruir aquilo que é ordem.
A necessidade principal não é lavar a louça, é sujá-la; lavar a louça é apenas submissão a essa necessidade inicial.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O problema com o hedonismo.

As idéias, para serem seguidas, precisam de sua cota de sábios e tolos. Nada nesse mundo se desenvolve sem uma grande quantidade de idiotas seguindo algo por motivos equivocados e sim, isso inclui a sua religião, o seu movimento político, a sua teoria científica e filosófica. Pensamento crítico não é prático o bastante para que uma idéia "pegue", de modo que é inimaginável que qualquer coisa no mundo seja guiada por princípios corretos. Se por sorte, algo correto é seguido, os motivos são completamente errados.
Então não deveria ser surpresa - ou argumento - quando alguém age da tribo em questão age de forma estúpida e outra pessoa diz "mas ele não leu *de verdade* o pensador X, pois senão saberia etc. etc. e tal", aí nós temos que usar algum bom senso, se um doido varrido diz que marxismo significa fuzilar os outros, a gente até ignora e diz "esse cara é um idiota", mas se nações inteiras caem sob o poder de marxistas que fuzilam os outros, fica mais difícil salvar o movimento dizendo "esses caras são uns idiotas". Mesmo que se salve a teoria, há de se admitir que a práxis está fodida e se a práxis está fodida, eu meio que não vou jogar fora essa minha única vidinha na promessa de que os tolos se destolarizarão.
Digo isso porque comprei um livrinho esse fim de semana com máximas do Epicuro e encontrei uma formulação perfeita do meu problema com a maioria dos hedonistas. Aí vem alguém e diz "mas Rodrigo, Epicuro é um hedonista!" e eu terei que entrar em algum tipo de fúria assassina.
Enfim, a máxima (em grego. Brinkz):
"Não haveria maneira de suprimir aquilo que suscita temor a respeito das questões mais importantes sem entender a natureza do universo, mas tão somente alguma inquietação em relação aos mitos. De modo que não há meio, sem o estudo da natureza, de desfrutar os prazeres puros".
Se vale de algo, hedonismo não é *bem* um movimento. As pessoas não saem por aí se dizendo hedonistas, elas simplesmente tem essa noção meio vaga de que life ain't nothing but bitches and money. E aí elas formam família por algum motivo obscuro. Enfim, o meu problema com isso é que as pessoas simplesmente caem de para-quedas em um estilo de vida hedonista e, sem a compreensão da máxima acima e da mesma forma inconsciente que elas se tornaram hedonistas, elas deixam de ser hedonistas e uma série de tragédias ocorrem, geralmente elas se tornam cristãs, às vezes espíritas, wicca no caso de certos adolescentes, há também o efeito de tornar-se marxista, fã de Beatles, vegan (hey-o), ou jurar aliança a qualquer um desses tipos de mitos que prometem, nessa vida ou na próxima, algum tipo de alternativa mais "profunda" ao "mero" prazer físico. Seja um grande ideal altruísta, seja uma cruzada paranóica contra os inimigos da civilização ocidental, o importante é que você vivia "vazio" e agora você está "cheio".
O que acontece é um tipo muito básico de se focar em certas necessidades enquanto completamente ignora outras, mais sutis, mais difíceis de perceber que faltam do que uma fome ou uma carência sexual, e aí quando essa falta se torna crítica, você não está mais em um estado capaz de "estudar a natureza", você encontra um livro ou uma pessoa armada de um manualzinho "entenda o universo hoje!" ou "saiba porque você sofre!" e bau bau vidinha tranquila, money, bitches, pensamento crítico, etc. A partir de hoje você é um soldado, pois o universo *é* assim e quem discorda é mau e/ou burro e o você sofre por causa *disso* e quem quer te convencer do contrário, não entende como seu sofrimento é profundo, como o problema é que existem essa classe de pessoas que pelo choque dos átomos se organizam de modo a fazer sua vida ser uma droga ou como você é a estrelinha especial do criador onipotente de toda a existência.
E isso é menos crítica a marxismo ou cristianismo que alguém pode pensar lendo isso, o caminho reverso é tão irritante quanto, o ex-marxista que quer comer todo dinheiro que vê na frente porque o mundo é corrupto mesmo ou o ex-cristão que acha que deixar de pensar em Deus resolveria todos os problemas, por exemplo. Não vou ser eu quem vai criticar assim dessa forma bobinha que eu estou fazendo nesse post alguém que, em momentos de paz e equilibrio, foram lendo e de forma gradativa e *gasp* racional, foram mudando de opinião até se tornarem qualquer coisa que são, o que eu estou dizendo é que não é mérito nenhum fazer abraçar uma ideologia em um momento de sofrimento. Não é nenhum elogio ao cristianismo que as pessoas o encontrem em momentos de depressão, isso só significa que parasitar um espírito fraco é fair game pro proselitista, tampouco enobrece sua causa política que ela tenha muitos "jovens", pescar adolescente em fase particularmente confusa de autoconhecimento e "o mundo meio que parece errado, mas não sei porque" não é particularmente honesto também.
Em um mundinho bom, do tipo que esse não é, as pessoas não seriam presas tão fáceis de certas carências. O cristianismo não surtaria ninguém via proibição de prazeres e estudar um pouco a natureza viria no pacote hedonista, aí nós não viríamos pessoas dizendo que o cristianismo é a raíz de todo mal porque elas não comeram gente o bastante enquanto frequentavam a igreja com 14 anos e nem essa gente sendo "salva" de suas dúvidas.
Isso quando a pessoa nem troca de time, mas entra num simples caminho bobo de autodestruição via "vou aproveitar a vida ao máximo" ou "OMFG ereção, devo rezar mais!"
Enfim, acho que a moral é a seguinte, se você vai se tornar um guardião de um grande segredo capaz de trazer a salvação, tente ao menos não chegar lá via neuroses. Dúvidas existem, mas material de estudo existe também, o suficiente para uma vida, os atalhos não valem a pena, eles só te transformam numa *dessas* pessoas.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Hihi questionário de intewebs

1. Que horas você acordou hoje? 9h.

2. Diamantes ou pérolas? Diamantes.

3. Qual foi o último filme que você viu no cinema? Toy Story 3

4. O que você normalmente come no café da manhã? O que tiver.

5. Qual é o seu nome do meio? Braga.

6. Qual comida você não gosta? Pudim.

7. No momento, qual é o seu CD preferido? Heavenly vs Satan.

8. Que tipo de carro você dirige? N.

9. Sanduíche preferido? Vegetariano do Subway.

10. Que características você despreza? Guerreiro da liberdade/vítima da mídia malvada que oh tão pobrezinho está tão sozinho nesse mundo tão malvado que discorda tanto.

11. Roupas preferidas? Camiseta e calça jeans.

12. Se você pudesse ir pra qualquer lugar do mundo de férias, para onde vc iria? Deutschland. (é isso aí, motherfucker, estou há 2 meses no cursinho de alemão, olha pra minha fluência casual).

13. Marca preferida? Sony.

14. Onde você gostaria de se aposentar? Aqui tá bom.

15. Qual foi o seu aniversário recente mais memorável? 25.

16. Esporte preferido? Starcraft 2!

17. Quando é o seu aniversário? 07/11/1985

18. Você é uma ‘morning person’ ou uma ‘night person’? Night.

19. Quanto você calça? Sei lá.

20. Animais de estimação? Meus 3 gateenhos fofeenhos. A Elizabeth, o Henri e o Baco. ^_^ . Tem o estrábico que fica na janela que é furioso e a gente tem que dar comida de longe porque ele é um conservador comunista que acha que a mídia burguesa anticristã secular do B está perseguindo ele e sua esposa, uma gata negra, que só é esposa dele pra ele poder dizer que não é racista nos fóruns de internet.

21. Alguma novidade que você gostaria de compartilhar? Passei no mestrado da USP! Ponto pro time do Rodrigo!

22. O que você dizia que queria ser, quando criança? Eu nunca pensava sobre isso.

23. Como você está hoje? Bem.

24. Qual é o seu doce preferido? Nenhum em particular, algum bolo eu suponho.

25. Qual é a sua flor preferida? Manjo nada de flor.

26. Por qual dia do calendário você está esperando ansiosamente? Março, começar as aulas, voltar a ser o menino academia.

27. Qual é o seu nome completo? Rodrigo Braga Alonso.

28. O que você está escutando agora? O som do teclado.

29. Qual foi a última coisa que você comeu? Dadinho.

30. Você faz pedido pra estrelas? Não. Elas que fazem pedidos a mim.

31. Se você fosse um lápis de cor, que cor seria? Azul.

32. Como está o tempo agora? Calorzim.

33. Última pessoa com quem você falou no telefone? Ralpi.

34. Refrigente preferido? Coca-cola.

35. Qual era o seu brinquedo preferido quando criança? Meu Mega-Drive.

36. Inverno ou verão? Inverno

37. Beijos ou abraços? Beijos.

38. Chocolate ou Baunilha? Chocolate

39. Café ou chá? Chá.

40. O que tem debaixo da sua cama? Não há embaixo da cama.

41. O que você fez na noite passada? Cursinho de alemão, Evil Genius e Starcraft 2.

42. Do que você tem medo? Não ser bom o bastante. Ser mal esposinho e mal intelectual e mal jogador de videogame.

44. Quantas chaves tem no seu chaveiro? 3.

45. Há quanto tempo você está no seu atual emprego? Alguns meses.

46. Dia preferido da semana? Sábado.

47. Em quantos lugares você já morou? Esse é o terceiro.

48. Você faz amigos facilmente? Não.

49. Uma saudade? Minha esposinha está aqui, não sinto saudades assim.

50. Uma dúvida? Eu sei tudo.

51. Uma certeza? Mas não tenho certeza.

terça-feira, novembro 30, 2010

Polêmica pessimista

Não vamos dizer que eu sou alguém que acredita em um mundo "bonitinho", "bonzinho", sem angústias.
Boa parte, talvez a maioria, dos meus textos sobre filosofia são pessimistas. São sobre instintos bélicos e de dominação que se escondem atrás de belos discursos, o post passado foi sobre encarar finais trágicos, foi sobre todas as promessas feitas que falharam, falham e destinam-se a falhar; o pouco de esperança que eu derivo desse conhecimento que parte do princípio que o mundo é - e sempre será não importa seu projeto político - essencialmente ruim.
Partindo do princípio que o sofrimento está por toda parte, então podemos ajustar nossas expectativas e se decepcionar menos.
Então porque isso me incomoda se diz mais ou menos a mesma coisa?


E minha resposta é, bobinhamente o suficiente, algo entre o tom e a linguagem polêmica.
E eu posso estar só lembrando errado, mas eu não lembro do Pondé fazendo isso há alguns anos atrás.
O meu problema com isso é o seguinte: Todo mundo choraminga. Faz parte do meu pessimismo acreditar que todo mundo choraminga. Esse blog mesmo não existiria se eu não choramingasse sobre coisas.
Enfim, todo mundo choraminga, Pondé, de algum tempo X pra cá, começou a pintar o quadro de um pobre trágico sozinho em um mundo de intelectualóides multibilhonários culturetes esquerdistas que apesar de serem intelectualóides são na verdade muito burros e/ou ingênuos e destilam sua burrice e/ou ingenuidade da forma mais clichê que alguém pode clichezar nessa situação.
Eu lembro que um post que eu meio que critiquei o Pondé foi porque eu queria frequentar uma dos jantares dele onde as pessoas criticavam a igreja católica enquanto defendiam necrofilia e bestialidade.
O Pondé tem a vantagem sobre Olavo de Carvalho de ser só choramingar de modo blasé ao invés de choramingar de modo furioso e paranóico, mas ainda assim o estímulo é o mesmo: "Oh, pobre de mim, sozinho e abandonado em um mundo onde os ricos intelectualóides culturetes de esquerda repetem suas burrices e/ou ingenuidades".
Parte do meu pessimismo é não direcionar demais minha decepção contra nenhum grupo específico, mantendo um certo desgosto com a humanidade em geral. Pondé decidiu que todo mundo é mal, mas a esquerda é mais mal que os outros. E não só mal, como burros. E não só burros, como ingênuos. E não só ingênuos, como errados. E não só errados, como numerosos. E não só numerosos, como desmerecidamente ricos. E não só desmerecidamente ricos, como etc.
Enfim, você posa de pessimista e concentra tudo que há de mal no mundo em um único tipo de pessoa.
E aí há a hipocrisia de dizer que as crenças desse grupo de pessoas é parte de um tipo de marketing pessoal, como se chamar a crença alheia de marketing não fosse, por si só, uma propaganda para vender o livro que você está nesse momento anunciando.
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Polêmica é uma estratégia de combate e não pedagógica. Assim como aqueles horríveis livros ateus de Hitchens, Dawkins e companhia (outro grupo de pessoas que eu concordo, mas cuja polêmica barata me repulsa), esses livros não servem pra avançar nenhum debate ou ensinar nada. Eles servem pra que um grupo de pessoas que já tem uma opinião sobre um assunto possam se autocongratular por pensar do jeito que pensam.
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Eu não vou ler o livro dele não porque eu acho que ele não seja um bom escritor - eu leio as colunas - mas por mera falta de tempo. Há o suficiente da biblioteca de Anatole France antes que eu possa ler algo que, pelo jeito, é só uma elaboração daquilo que já é dito nas colunas que eu leio. Mas assim, de modo mal informado, eis algo que eu discordo:
Eu não acho que exista nada de particularmente errado em querer melhorar o mundo, eu acho que há tanto sofrimento no mundo, que minha última preocupação é ele ser resolvido, não acho que ele tenha que se preocupar um dia existir qualquer força humana - tirânica ou pedagógica - capaz de fazer as pessoas se amarem. Então Pondé pode dormir tranquilo.
Dito isso, nada impede a gente de fazer pequenos atos para aliviar esse sofrimento. A expressão "moralmente superior" é esquisita, por exemplo. Eu acho que realizo um gesto moralmente correto, pois o meu gesto causa menos sofrimento que o seu. Nesse ponto, eu me considero moralmente superior. Eu teria que saber exatamente o argumento dele contra isso no livro, mas no vídeo parece que o único crime é um de arrogância enquanto tenta esconder a arrogância, mas não é como se eu me considerasse o Deus encarnado quando entro em um McDonald's. Eu só acho que faço algo certo enquanto eles fazem algo errado, como tenho certeza que o Sr. Pondé se acha correto enquanto os outros estão errados em uma série de situações.
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Outro exemplo é quando ele diz, todo orgulhoso de defender uma postura polêmica, de que a guerra não é insana. Eu não diria que a guerra é insana, eu diria que a guerra tem vários elementos irracionais, assim como a busca da paz perpétua tem sua cota de elementos irracionais, mas isso não está em nenhum lugar da fala dele. O que ele tem é que a guerra pode ser necessário para uma tal situação X, mas oras, a paz também pode ser necessária para uma tal situação X.
Olha o que aconteceu no Rio de Janeiro. Por anos e anos o debate era entre tocar fogo na favela assassinando todo ser vivo lá dentro ou baixar as armas e mandar os nossos professores de sociologia ensinar o socialismo aos traficantes. O que está dando resultado é uma mistura de ambos. Dar apoio à população quando possível e meter bala quando necessário, não é de nenhuma forma uma questão de guerra contra paz ou de força policial contra assistencialismo à população, mas uma mistura de ambos.
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O problema do vídeo, assim como dos panfletos socialistas, dos livros dos "novos ateus" e de uma porção de mídia que sempre houve é que se tem aquela impressão chatinha de que Pondé está claramente jogando pra um time específico que quer crer que suas opiniões já estabelecidas estejam corretas e precisa de alguém formado na Université de Paris VIII pra dizer "muito bem, aqui está um docinho por estar do lado certo". Fazer isso enquanto critica um certo marketing de comportamento é, bom, eu já disse. A questão é que se colocar em uma luta de bem contra o mal, ou sábios contra estúpidos, ou "meu time" contra "seu time" acaba sendo sacrificar uma parte do seu pessimismo pra que alguém saia bem na fita ou que alguém saia mais mal do que o seu leitor sairia.
Então os novos ateus sacrificam a noção de que, como animais puramente biológicos formados de instintos e entranhas, nós estaríamos por aí massacrando outras pessoas quer fosse por religião ou não. Chamar nazismo e comunismo de religião só ganha ponto entre os já convertidos para o "religião é a raíz de todo o mal".
E, ao ser perguntado se a guerra é insana, "esquecer" de dizer que há gente bem insana fazendo guerra, e, ao invés disso, *mudar o assunto* pra como a paz em certa situação X *pode* ser insana, é ser curiosamente tímido ao estender seu pessimismo para os seus leitores que você acredita que apóiem uma guerra ou outra em algum lugar do mundo.
Por fim, é aquele problema de escolher alvos fáceis. De novo, não li o livro, nem vou ler, mas para algo que se diz filosofia do cotidiano, o alvo parece ser um bocado de gente exótica, a saber, o pessoal muito louco com quem Pondé faz seus jantares regados a anticristianismo e bestialidade. Se alguém puder me informar se ele algum dia critica o vendedor de materiais elétricos da Mooca ao invés do psiquiatra estudante de artes plásticas da Vila Madalena, eu agradeceria. É como criticar religião usando Al Qaeda como exemplo.
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É muito raro escolher um alvo e permanecer coerente, isso porque a humanidade tem lá seus problemas em geral. Cada lado do espectro político tem mais do que sua cota de gente má, tirânica e irracional, em cada pessoa há uma série de atos realizados por "marketing pessoal" que na verdade escondem um desejo de dominação, de sobrevivência, de simplesmente ferrar o outro. Mas aí entramos em um problema, se todo mundo tem uma agenda, qual é a do Pondé?
A minha eu acho que eu deixo razoavelmente clara: o mundo é uma droga, tentar consertá-lo, seja pela ciência ou pela mística, só vai dar em merda, eu sou ateu e não acho que há esperança no futuro, então, num geral, eu vou defender pequenos atos (geralmente no centro do espectro político) que aliviem algum sofrimento que é pra tornar meu tempo nesse planeta ao menos tolerável. Não é consertar tudo, nem nenhum utopia de nenhum tipo, mas se eu puder respirar um ar um pouco melhor, se eu puder ter a tranquilidade de saber que menos pessoas passam fome ou menos bichinhos são assassinados ou que gays não sejam perseguidos na rua ou que minhas próprias perversões sexuais sejam autorizadas porque estou autorizando as dos outros, isso melhora minha vida, então eu vou atrás disso.
Mas qual é a de alguém que vem dizer que se diz contra um mundo melhor? Não um mundo consertado, não um mundo utópico, mas um mundo melhor? Minha primeira reação, vendo que ele ensina filosofia da religião, é que ele está querendo contribuir pra concretizar uma utopia mística, é fácil, muito fácil, muito muito fácil, pra um religioso ser pessimista. Se você acredita que a próxima vida é a felicidade absoluta e eterna, aceitar que esse mundo é ruim não exige nenhuma força, nenhum caráter, nenhum nada, exige apenas um frio cálculo utilitarista de que eternidade > o tempo aqui. Mas se é esse o caso, porque se importar? Porque não ficar rezando e tentar ser um bom cristão e deixar o mundo ir para o inferno a não ser que, de alguma forma, ao criticar as utopias, você calcule, de novo, de modo muito frio e utilitarista que, ao perder a confiança em utopias terrenas, você, para não se suicidar, encontre a religião? Cristãos às vezes dão a louca de aumentar seu sofrimento ao máximo e ter certeza que você se sente um lixo miserável para que a amizade do menino jesuis seja uma boa saída. Não digo que é comum, mas vá lá, está no livrinho de táticas deles. Proselitismo é certamente superior à compaixão para muitos religiosos.
Outra alternativa seria outro cálculo utilitarista, dessa vez político, de que certo partido que ele discorda tem monopólio da noção de "mundo melhor" e que ele quer sim um mundo melhor, mas um mundo melhor de acordo com o partido *dele*, então que parte do plano para que candidatos simpáticos a ele ganhem eleições futuras passa por colocar certas posturas defendidas por partidários adversário como burras, ingênuas, utópicas.
E assim, ainda sem ler o livro e com sua dose de preconceito, chegamos ao ponto de Pondé é algum tipo de proselitista místico ou político que quer avançar sua agenda que é tão insana e egoísta quanto o resto de nossas agendas. E que antes de ser contra um mundo melhor, ele ou aposta em um mundo infinitamente melhor após a vida ou um mundo alguma coisa melhor a partir das próximas eleições, seja como for, ele cria um marketing pessoal com o objetivo de fazer o mundo bonitinho de certas pessoas parecer menos bonitinho para que o mundo que ele próprio defende parecer mais bonitinho, tudo isso em lindinhos fragmentos que por um módico preço você pode ler antes de ir dormir. É adorável, mas eu tenho um montão de coisas pra ler antes. =/
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Se alguém ler, me dá um toque sobre eu estar muito errado, outra coisa do pessimismo é não ter vergonha de admitir que é um mundo onde é fácil estar errado.