sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Prostituição, Bruna Surfistinha, Deborah Secco

Já que eu fiz um monte de twit furioso, vamos lá, né.
Primeiro, eu não quero me dizer nenhum especialista na vida das prostitutas, nem parecer que eu ignoro os problemas sociais, emocionais e físicos que uma prostituta pode ter na sua profissão, mas essa entrevista patética é bem uma mostra de porque não se dialoga muito sobre essa questão no país.
"Que mulher, em algum momento da vida, não se expôs para se afirmar, para ser aceita. A gente se descobre mulher, mas, ao mesmo tempo, pode começar a se autoflagelar para agradar, para receber amor"."
Às vezes rolam umas citações que encapsulam tantos preconceitos juntos que daqui 1000 anos ela poderá ser usada pra mostrar como são primitivas as pessoas de 1000 anos atrás.
Ser prostituta não é autoflagelação, é um emprego. Você lendo isso pode não sentir prazer no seu emprego, pode até se expôr a risco físico, pode até ser uma coisa que a sociedade não olha com o melhor dos olhos, mas você faz isso pra ganhar dinheiro, não como uma neurose de alguém que quer receber amor ou como uma tentativa de punir a si próprio e tal.
Se formos falar na tragédia da prostituta, ela está em ser alguém que, por falta de dinheiro, acabou fazendo algo que ela própria considera imoral. Isso pode levar a uma porção de problemas emocionais, é claro.
Um problema é que quando você faz disso o seu foco, você se torna parte do problema. Eu já tinha ficado um tanto chateado com a Deborah Secco quando vi em alguma capa de revista ou sei lá, ela dizendo "eu nunca seria prostituta".
Em primeiro lugar, você não é algo assim tão lá diferente - e se você acha que isso é eu tentando ofender ela, você não está lendo esse post; eu não acho prostituição imoral ou nada do tipo - mas boa parte do seu dinheiro e da sua fama vem em vender seu corpo e não sua habilidade em interpretar outra pessoa, então se você sair do seu pedestal, eu acho que você consegue sim entender um coisa ou outra sobre elas. Em segundo lugar, bom as citações falam por si próprio:
"Por mais que tenha pesquisado, conversado com garotas de programa, nunca vou entender a dor delas. Para mim parece um terror, mas para essas meninas, é como se já se anestesiassem."
"Que direito tenho de falar: "Não faça"? As pessoas não são o que querem ser. São como conseguem. E isso é triste. E eu parei para pensar que também não sou o que quero. Sou o que consigo. Somos o melhor que conseguimos ser."
A atriz - e pelo jeito o diretor - partem do princípio que ela fracassou, logo é prostituta. Teve algum jogo da vida, ela perdeu, logo é prostituta. Isso é péssimo, isso é ruim, isso é triste, isso é horrível, mas quando você fala com elas, tadinhas, elas nem percebem o quanto a vida delas é tão tão tão tão tããããããão pior que a minha, elas estão até anestesiadas.
A prostituta não é alguém que perdeu no jogo da vida, não mais do que qualquer outra pobre que está em um emprego horrível para sobreviver - e um punhado de prostitutas estão nessa por ser uma carreira que elas acham melhor, sendo plenamente capazes, intelectual e financeiramente, de perseguir outras carreiras.
A prostituta é - salvo casos como prostituição infantil e extrema pobreza - uma mulher adulta e responsável que, analisando suas opções de carreira, decidiu que "ter 5 ou 6 homens em cima dela todo dia" é um modo aceitável de ganhar dinheiro.
Se a Deborah Secco acha essa escolha "um terror", eu sinceramente gostaria que ela tivesse a integridade artística de passar o papel pra outra pessoa. Até alguém interpretando um terrorista tem que encontrar uma linha de empatia onde ele consegue pensar que, se as coisas fossem diferentes, ele poderia ser essa pessoa, mas meu problema com atores em geral é outra coisa, eu acho que toda a fama não merecida que alguns atores recebem impedem atores em geral de entender qual a própria função, ooooutro tópico.
O caso da Bruna Surfistinha é mais ou menos esse. Ela não foi uma criança forçada a fazer nada, nem alguém em extrema pobreza que precisou fazer coisas terríveis para comer o pão de amanhã. Ela viu suas opções e achou que isso era melhor do que as outras. Aí como isso não se encaixa no mundinho de 2 cm cúbicos da atriz e do diretor, tiveram que inventar o quanto ela se odeia e se autoflagela e outras coisas.
Se Raquel Pacheco comete algum pecado é o de francamente não ser uma boa escritora - ainda mais no gênero de erótica que por vezes produz escritores tão bons - mas a história dela, por ela mesma, não é de uma coitadinha sem escolha. Se a mãe dela parou de falar com ela, a Deborah Secco e as outras pessoas que acham que isso é um "terror" tem mais culpa do que a própria Raquel que só estava falando sobre o seu trabalho.
A vida de uma prostituta tem várias dificuldades únicas que meio que se alimentam. É considerado imoral, aí acaba sendo ilegal, o julgamento da sociedade causa danos à saúde mental da prostituta ao mesmo tempo que a marginaliza um bocado. Mas algumas prostitutas não estão "anestesiadas", se alguma coisa, elas estão caducadas. Elas superaram essas dificuldades e são, na medida do possível, mulheres comuns no seu cotidiano.
As que gostariam de sair dessa vida, mas não tem escolha por motivos econômicos não precisam de mais auto-estima, elas precisam de um curso técnico, de mais empregos em outra região, enfim, da mesma coisa que a empregada vivendo no quartinho do fundo precisa, ou que a professora que não aguenta mais ser babá dos pivetes precisa, ou que a atriz que OMG não entende o terror das pessoas quem ela deveria ser durante os 90 minutos do filme precisa.
As que não querem sair dessa vida, eu diria que elas adquiriram auto-respeito ao invés de tê-lo perdido completamente. Que elas vivem uma vida estável ao invés de um terror. Que elas não se machucam seriamente, nem emocional e nem fisicamente. Elas não são anestesiadas, elas são profissionais.

Um comentário:

Neila Gregorio disse...

Poxa Rodrigo, eu não tinha percebido isso na fala da Deborah não...mas enfim, pensando bem, talvez você até tenha razão e ela tenha sido preconceituosa.
Eu tenho preconceito de muitas coisas. Não seria prostituta porque aí estaria fazendo exatamente aquilo que não se deve fazer: tornando profissão o meu maior hobby. Não seria servente porque ODEIO limpar sujeira alheia. Mas já trabalhei de técnica em enfermagem em hospital...um horror! Saí. Não aguento fazer uma coisa que não gosto por muito tempo. Aliás, não aguento fazer nada por muito tempo...hhahaha

Mas tem muita prostituta que não sai dessa profissão porque não vê outra alternativa sim. Elas se drogam pra aguentar os caras com que saem. Acredite. (Bem, acho que você conhece mais prostitutas que eu)
Tem que ver que, além de terem que enfrentar a moral da sociedade (que eu já acho difícil - vide homossexuais e poliamoristas), elas têm que enfrentar o montão de DST, os caras fedendo cachaça e cigarro, os que não querem usar camisinha - e elas sabem que as colegas já tem HIV+...tudo isso e a gravidez indesejada, os abortos...tudo.
Então...não sei...eu tenho preconceitos sim, mas não identifiquei se tenho de prostitutas também, acho que não. Pelo menos no trabalho trato delas tal como das outras pessoas. Todas as pessoas têm características que gosto e que não gosto. Mas eu também penso como a Deborah: todos nós nos prostituímos por alguns motivos. Não por ser mulher, por ser humano, por ter dúvidas, por ter insegurança...por tantas coisas...muitas vezes temos que aceitar situações pra conseguir algo, ou não.
Agora, não sei a intenção do filme, não acabei de ler o livro da Bruna porque não gostei...mas me parece bem sensacionalista, vamos ver no que dá. Os comentários no Estadão on-line sim demonstram muito preconceito. No fim o que vale é a opinião do povo, que é mais baseada na intuição - carregada de moralidade, do que de conhecimento, tal como a minha.