A felicidade é um tipo de bem especialmente individual, o conceito geral de felicidade é completamente vazio, ela aplica-se tão somente ao indivíduo. Fala-se em bem geral, até personifica-se o "Bem", mas é mais difícil compreender a noção de uma felicidade geral ou do que seria a "Felicidade".
Discorda-se do que, exatamente, seria o bem geral, mas o conceito é discutido. Quanto a felicidade, não há a discussão, a felicidade é um sentimento particular.
O cristianismo fala em altruísmo e fala em compaixão, pois se não falar e falar, resta apenas a promessa da felicidade eterna, tão-somente a recompensa individual oferecida no pós-vida. Dos sermões da igreja que ouvi, o que mais me chamou atenção é o que diz que não se pratica o bem para ir até Jesus, mas se está com Jesus, logo pratica o bem, pois é um momento raro de inversão de sua base egoísta. É um momento que abraça a falta de lógica da ética e esquece um pouco o racionalismo sem razão tão caro aos católicos.
Pratica-se o bem não como condição para a felicidade futura, mas simplesmente por estar em contato com este, ou seja, por si só, ou seja, sem causa. Mas mesmo esse lapso segue-se da habitual pregação sobre felicidades futuras e o cristianismo é recoberto em egoísmo mais uma vez.
A felicidade, sendo um conceito vazio, adapta-se como recompensa universal e, portanto, estímulo universal para se praticar qualquer coisa que uma ética indique. Que Deus a ofereça em infinita quantidade não deve ser surpresa, pois tal conceito tem o costume de ser o gerador de infinitos vazios.
Quanto às outras éticas que fazem uso da felicidade, como a utilitarista que até busca um pouco medi-la, elas não prometem altruísmo e compaixão em primeiro lugar. As doutrinas socialistas colocam a teoria à prova, pois quando um grupo de indivíduos promete um tipo de felicidade geral, acaba-se com um país na mais profunda miséria, com toda a felicidade concentrada apenas neste pequeno grupo de indivíduos.
Das promessas que nossa civilização faz e quebra, a felicidade está entre as principais. E afinal, como é difícil fazer valer essa promessa, o que se pode esperar de um conceito vazio que propõe algo antinatural e absurdo como um pleno bem-estar?
Há sempre algum sofrimento, alguma dor, alguma tristeza, mesmo na euforia, mesmo na realização dos sonhos, mesmo no saciar constante de todas as necessidades, o tédio se impõe eventualmente.
Imaginemos um paraíso: todas as necessidades físicas se foram, você ainda não se preocuparia com os outros que sofrem? Com os que ainda não estão salvos?
Eliminemos a compaixão de nosso paraíso - o exercício mental mais fácil do planeta - você não sofreria com suas memórias? Com seus arrependimentos? Desejos de vingança?
Eliminemos as memórias ruins. Uma parte de você foi destruída, ainda assim. Você não sofreria com a saudades dos tempos bons? Com a nostalgia?
Eliminaremos as memórias boas? Destruí-lo totalmente e fazer de você uma massa amorfa de sensações boas é a felicidade? Eliminaremos o tempo e chegaremos ao mesmo resultado: um tipo de nada que misteriosamente retém a capacidade de ser feliz; uma felicidade indefinida - e impossível de ser pensada - por ocorrer fora do tempo.
Cada vez que nos aproximamos mais de um tipo de felicidade eterna, entramos no reino das não-coisas, do inexistente. Então não é de se espantar que as doutrinas recorram ao Inexistente para garantir tal felicidade.
Por fim, pra quem ainda marca pontos em algum placar entre o bem e o mal, pode-se pensar o seguinte: se a felicidade é o supremo desejo dos egoístas, na falta de algum outro tipo de justiça, pode-se garantir ao menos que o excessivamente egoísta jamais cumprirá seu desejo.
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