quarta-feira, julho 29, 2009

Mussum e o politicamente correto.

Dos links que eu recebi hoje de matérias ou posts homenageando o Mussum, a maioria (eu falaria todas, mas às vezes estou esquecendo de alguma) tocam no assunto que "hoje por causa dessa gente politicamente correta, esse humor seria censurado" ou alguma variação disso.
Acho que a primeira coisa a fazer nesses casos é analisar direito.

Quando alguém fala que o humor não seria aceito "porque tem sempre alguém se ofendendo com qualquer coisa", bom, eu imagino que para um negro, boa parte das coisas que rolavam nos trapalhões seria ofensiva mesmo. Se um negro não se ofende com algo do tipo "prefiro morrer preto que..." não é algo tão simples como "ele é bem humorado diferente de vocês babacas politicamente corretos". Essa é uma frase forte, ela diz que morrer negro seria algo ruim, isso não é "celebrar a negritude" como eu vi no blog de alguém branco, isso é depreciar, o fato que um negro talentoso como o Mussum fazia esse tipo de piada não significava que ele era pós-racial, mas sim que o racismo estava tão incorporado na cultura que algo que pra nós hoje é chocante, na época era normal. Mas a questão é exatamente apontar que esse tipo de coisa *não pode* ser normal, mesmo que seja. Racismo não pode ser a norma. Quando um negro aparece fazendo piadas racistas, não é algo simples como ser bem humorado, é autodepreciação. E quando um monte de brancos dão risada da piada racista do negro, aí a coisa fica ainda mais feia.
Em um blog sujeito contava que o filho do Mussum estudava numa escola particular e era excluído por ser negro. No mesmo blog, sujeito diz que gente que diz o que eu estou dizendo é debilóide. Que o sujeito não veja relação entre humor racista ser aceito publicamente e um negro ser excluído de um grupo social, então sei lá, cada um vê o que quer.

Um debate semelhante aconteceu recentemente por causa do lingerie day no twitter. Veja, existe uma diferença gigante entre uma mulher querer se exibir e um negro dizer que "morrer preto" é uma coisa ruim.
A questão é que o exibicionismo feminino é uma espécie de área cinza na misoginia. Às vezes é uma demonstração de poder da mulher, às vezes é uma demonstração de submissão. Depende da situação e da mulher. Agora, imagine uma mulher dizendo que mulher tem que ficar na cozinha porque mulher não pode trabalhar. Isso é machista e ponto. Não tem área cinza aí. Se aparece uma personagem de comédia mulher dizendo "prefiro ter uma carreira que..." um monte de mulheres aí se ofenderiam. Porque não? Elas tem uma carreira e nem por isso deixam de ser mulheres. Assim como um monte de mulheres tem uma vida doméstica de dona de casa e nem por isso são submissas.
Olha a diferença. A questão não é dizer o que uma mulher deve ser. Feminismo muitas vezes erra porque tenta dizer pra mulher o que ela deve ser e se a mulher não é, então ela está errada. Mas o problema de um preconceito é exatamente dizer para X que ele deve agir como ele diz que X deve agir.
Dizer que uma mulher não pode exibir seu corpo e não pode ser dona de casa é tentar criar um clima de opressão tão grande quanto dizer que mulher deve ser apenas mãe ou prostituta. O segundo tipo só é historicamente mais predominante.

Voltando ao tema do post, dizer que negro tem que ser jogador de futebol ou sambista ou é ladrão é sempre racismo. A idiotice que o Danilo Gentili disse no twitter é duplamente racista. Ele disse algo do tipo "ta passando king kong, sobre um macaco que pega uma loira, ele tá achando que é jogador de futebol?"
Isso é racista por usar do imaginário tanto que negros são animalescos quanto que eles só tem acesso a mulheres brancas se forem jogadores de futebol (pois apenas assim seriam ricos).
Isso está na piada. Não é interpretação forçada pra pegar no pé do comediante, sem esse imaginário, não teria piada.
Tenta ler essa piada sem fazer referência à imagem racistas. Não há como. Dizer que racismo está na minha cabeça, como ele disse, é desonesto porque é verdadeiro. Piadas racistas inerentemente fazem uso de coisas "na minha cabeça". Toda piada racista, sem exceção, funciona apenas com o contexto implícito do racismo em questão. Quem faz a piada sabe que nós temos esses preconceitos "engatilhados" em algum lugar do nosso cérebro e ele sabe que a piada funciona ao dispará-los. Ser "politicamente correto" não é fingir que não há racismo. É admitir que há e, admitindo que há, ter o bom senso de não alimentá-lo. O ideal é que tais "gatilhos" se tornem cada vez mais raros, cada vez mais incomuns, mas cada vez que alguém conta uma inofensiva piada racista, o gatilho é reforçado e se o sujeito ouvindo a piada é dono de uma empresa, quando ele ver um negro, ele vai inevitavelmente lembrar da piada e mesmo que inconscientemente, isso vai pesar na hora da contratação.

Que o Mussum fizesse piadas racistas, é quase uma condição para que uma minoria possa ser aceita. É algo do tipo "a gente deixa você ficar se você admitir que é inferior". Séculos disso e a autodepreciação se torna natural e quando algum de nós, pessoas chatas, aponta que autodepreciação é autodepreciação, logo há quem discuta. "Querem acabar com nossa diversão!". Mais ou menos. Quero acabar com a noção de que preconceitos são divertidos. No calor desse debate, no medo de perder o precioso direito de humilhar impunemente alguém, há até quem diga que preconceitos são necessários para o humor! A pessoa obviamente não assiste as mesmas sitcons que eu. E pra falar de humor racial, é só ver o Chris Rock. É possível falar, de forma bem humorada, que um negro sofre preconceito sem agir como o negro estereotipado.
Eu sempre lembro de uma do Chris Rock onde ele diz que, na época dos escravos, um negro dirigindo uma carroça rápido demais era um problema. Se aparecesse uma placa dizendo para ir mais devagar, ele tinha que decidir se ele era açoitado por desobedecer a placa ou por saber ler.
É *assim* que você faz uma piada sobre racismo e sobre preconceito. O negro da história do Chris Rock não é analfabeto e nem um mal motorista, mas ele deve *fingir* um ou outro pra agradar os brancos.
Quantas coisas nós fazemos os nossos grandes humoristas negros fingirem que são só para nos agradar?

Um comentário:

T disse...

I like that boom boom pow [N].