Comentando o seguinte trecho que acho que resume bem uma questão que eu acho importante:
De Alvin Platinga.
"No final do livro [Deus: Uma Desilusão], Dawkins apóia um certo ceticismo limitado. Já que nós fomos “ajuntados” pela (não-dirigida) evolução, é improvável, ele acha, que nossa visão de mundo seja precisa; a seleção natural está interessada no comportamento adaptativo, não em uma crença verdadeira. Mas Dawkins falha em ignorar as profundas implicações céticas da visão de que nós surgimos pela evolução não-dirigida. Podemos ver isso da forma seguinte. Como a maioria dos naturalistas, Dawkins é materialista a respeito dos seres humanos: seres humanos são objetos materiais; eles não têm um ser imaterial ou uma alma ou substâncias reunidas em um corpo, e eles não contêm nenhuma substância imaterial. Sob esse ponto de vista, nossas crenças seriam dependentes de questões neurofisiológicas, e (sem dúvida) uma crença seria uma estrutura neurológica de algum tipo complexo. Agora a neurofisiologia da qual nossas crenças dependem vão ser sem dúvidas adaptativas; mas por que imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Então aqui eu estou tomando duas premissas:
1 - naturalismo ou materialismo ou fisicalismo ou qualquer "ismo" da moda que considere que nós não temos alma e que somos fruto da evolução e não de qualquer desing inteligente.
2 - Nós conseguimos, com sucesso, nos comunicar acerca de fatos que consideramos "objetivos".
O problema: "Porque imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Minha resposta: Não há como acreditar que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia são em grande, ou pequena, parte verdadeiras, mas isso é em grande parte irrelevante, POIS nossas faculdades cognitivas são confiáveis, a prova disso é que você, nesse momento, está confiando nelas.
Mas o problema da epistemologia não é responder ao cético radical que duvida se dorme ou se está acordado. esse ceticismo é, na maioria das vezes, levantado apenas como metodologia para responder a pergunta que realmente interessa: O que é isso que chamamos de conhecimento? Ou, sendo mais específico para a questão levantada, o que é isso que chamamos de conhecimento dado que todo o material desse conhecimento (os dados empíricos e as leis do pensamento pelas quais tais dados são organizados) é apenas efeito de reações biológicas de um orgão de nosso corpo?
A questão é interessante, pois de repente a ciência avança de modo a nos colocar em um mundo pré-kantiano onde mais uma vez temos que lidar com um tipo de solipsismo empirista humeano.
Tudo que sei sobre o mundo é isso que está no meu cérebro. O mundo fora do meu cérebro? É desconhecido. Entretanto, nossa razão funciona de tal forma que eu simplesmente aprendo a confiar nas regularidades. Não há garantia de que esse mundo com essas regularidades sejam "verdade" no sentido de haver garantia de correspondência entre o discurso produzido a partir dos dados do meu cérebro e o mundo de onde meu cérebro supostamente retira esses dados, mas não importa, porque o modo pelo qual vivemos - e o modo pelo qual produzimos conhecimento - não se baseia na garantia de que o mundo dentro do meu cérebro e o mundo fora do meu cérebro sejam equivalentes, mas sim na confiança de que os mesmos efeitos decorrem das mesmas causas, confiança adquirida simplesmente pela vivência de que é assim que ocorre geralmente. Não é um método sem falhas, mas é um método que construiu computadores, aviões e curou doenças.
A resposta é satisfatória para os cientistas e para as pessoas comuns. Os filósofos, por outro lado, precisam de mais.
Não que seja uma empreitada vã, é simplesmente uma empreitada, mesmo que materialista, mais espiritual. Nosso espírito demanda respostas, é bom que a ciência consiga construir computadores e curar doenças sem a necessidade de tais respostas, mas há uma dimensão humana fora do martelar, é o motivo pelo qual filósofos só conseguem emprego ensinando filosofia ou fingindo auto-ajuda para empresários carentes, nosso trabalho está fora desse mundo do martelo onde basta o led acender no momento em que o botão é apertado para que o problema seja considerado resolvivo. Precisamos saber. O que é esse mundo? O que é esse conhecimento?
Por sorte, nós temos guias. E se nossa ciência de século XXI conseguiu apenas chegar aos pés da filosofia humeana do século XVIII, a resposta já está escrita. É a crítica da razão pura. Ou a crítica do cérebro puro. De qualquer forma, é assim que eu respondo as questões realmente importante acerca do estatuto do mundo e do conhecimento: idealismo trasncendental.
O avanço da ciência e a nossa comunicação cotidiana de nenhuma forma depende do modo como o mundo é, mas meramente do modo como nossa mente funciona. O mundo fora do cérebro ou o mundo do ponto de vista dele mesmo ou o mundo em si é um X cujas propriedades devem ser especuladas pela metafísica (e nós bem vamos especular). Esse mundo X é o mundo em que nós vivemos, mas nós não o percebemos como o X que ele é, nós o percebemos de acordo como os nossos cérebros adaptaram-se para percebê-lo. Isso a ciência básica já nos diz. Isso que nós vemos não é bem "isso", mas átomos, quarks, ondas, energia, etc; o mundo é qualquer coisa, menos isso que nós vemos a olho nú. Mas é possível ir ainda mais adiante. Esses átomos, quarks, ondas e energias, mesmo vistos pelas máquinas, também são apenas representações. Assim como é a matemática utilizada para prever o comportamento dessas partículas, assim como é a lógica utilizada para redigir os textos acadêmicos.
Porque debater sobre se é mais complexo e improvável que haja um design inteligente ou que a evolução tenha nos feito para perceber a verdade se há uma resposta mais simples e provável? O nosso cérebro interage com o mundo de algum forma e impõe, não sobre o mundo, mas sobre a representação desse mundo, a lógica e a causalidade, assim como os olhos impõem sobre determinada frequência de energia a cor vermelha?
Desde que os olhos funcionem igual, todos vemos o vermelho o que na "verdade" é apenas energia se movimentando de certa forma. Porque é difícil acreditar que desde que os cérebros funcionem igual, todos vemos causalidade, tempo e espaço o que na "verdade" é um mundo onde tais palavras sequer fazem sentido, por não haver, nesse mundo em si, a causalidade, tempo e espaço a serem referidos por tais palavras?
Mas aqui encontramos não só o problema de imaginar que o mundo em que vivemos é, fora da nossa percepção, desprovido de tempo e espaço. Há um problema mais óbvio que já deve ter incomodado o leitor: não é o cérebro, ele próprio, algo que só funciona como funciona por causa de leis que agora eu digo que é ele quem cria?
Oras, se falo de idealismo transcendental, óbviamente devo transcender o naturalismo mais cedo ou mais tarde. Para chegar em algum tipo de imaterialidade? Certamente que não. Se essa nossa materialidade já começa a nos parecer demasiada estranha, que tolice seria acrescentar substâncias imateriais para então termos duas coisas que não fazemos idéia do que são.
Transcendemos aqui, não o mundo material, mas o ponto de vista da representação neurofisiológica desse mundo, vislumbramos a possibilidade dessa transcedência por não falarmos aqui de outro mundo, mas sim do mundo em que vivemos, o mundo que percebemos, o mundo que representamos e cujas representações experimentamos.
É possível, então, realizar discursos sobre o ponto de vista extra-neurofisiológico de nossas vidas? Será esse o trabalho da verdadeira metafísica.
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