O primeiro CD que eu comprei, acho que lá pelos 12 anos, foi do Raimundos. Aquele Só No Forevis. (aliás, vou ver que ano ele foi lançado pra ver minha idade. Quanto mais alta, mais vergonhoso)
Ok, é 1999... 99 - 85... hum... 14 anos.
Ok, não está mal! Mas é mais vergonhoso do que eu pensava.
Enfim, eu adorei.
Eu ouvi pela primeira vez na casa de um colega da escola e não conseguia conter meu sorriso. Música, pela primeira vez, fez sentido. Até então era a coisa que meus pais ouviam. Pela primeira vez, graças a esse álbum horrendo, era uma coisa que eu ouvia. Era meu.
Daí meu gosto ia caminhando por essa linha pop rock. Eu gostava de Green Day, Offspring... e acho que that's about it... Pennywise é dessa época? Não lembro.
Anyway, logo veio a internet e eu comecei a querer "melhorar" meu gosto musical.
Eventualmente, um professor passou The Wall na sala de aula e eu me apaixonei por Pink Floyd.
Das decisões que marcam minha vida, eu dou importância a ter escolhido um videogame ao invés de uma bicicleta em algum natal e ter ouvido Pink Floyd.
Pink Floyd foi minha primeira obsessão e acho que durou até bastante tempo. Acho que o único CD deles que eu não tenho é o Ummagumma.
A época do Pink Floyd foi a época da minha adolescência, dito isso, eu ainda tendo a ver como um som meio infantil, como pseudo-substância, vejo Pink Floyd da mesma forma como vejo a mim próprio na adolescência. Como algo que se fantasia de profundo sem saber de nada. (mas afinal, a pergunta aqui é: existe profundidade? Não é, afinal de contas, tudo superfície?)
Meh, não ouço Pink Floyd faz uns bons anos e não consigo me pensar voltando a ouvir. Faith No More é uma banda da mesma época e vez ou outra eu me pego com saudades do Angel Dust, mas Pink Floyd? Foi TÃO importante na minha vida. Me definiu por tanto tempo. Me marcou tanto, mas oh, o tédio.
O que Pink Floyd tem a me oferecer hoje? Não consigo pensar na resposta. Não consigo pensar em nenhuma música deles que me dá vontade de ouvir e eu pretty much sei a discografia inteira de cabeça.
Wish You Were Here e Atom Heart Mother parecem demandar demais e eu não acho que a banda mereça. The Wall parece longo demais. Darkside of the Moon parece pouco interessante demais. Piper at the Gates of Dawn parece alienado demais. Uma amiga disse uma vez que isso é fase. Que eu vou voltar a ouvir e achar sensacional de novo. Mas no momento, me vejo indo em uma direção tão oposta e tão mais excitante que eu não consigo pensar... só se essa progressão me levar de novo ao Pink Floyd, mas me parece difícil. Estou comprometido demais com algo de punk. Mas eu chego lá daqui a pouco.
Eu me pego algumas vezes ouvindo o Madcap Laughs do Syd Barrett e chorei muito a sua morte. O álbum ainda me atrai muito por todos os motivos que Pink Floyd não me atrai mais. Ele é íntimo. É isso. Pink Floyd perdeu sua capacidade de ser íntimo, pelo menos comigo. Parece pomposo demais pra mim. Arrogante demais. Syd Barrett, por outro lado... é o cara estranho que perde os amigos. Isso é insuperável. E ele tem uma coisa também de... hum... não sei se é DIY (Do It Yourself pra vocês menos legais que eu), não é *exatamente* DIY que eu respeito tanto nessas bandas, mas é algo nesse sentido. É algo no sentido de que é a pessoa fazendo a música e não a música se fazendo por meio da pessoa, o que é irônico, dada toda minha admiração por Schopenhauer, que eu tenha uma reação tão contrária a esse tipo de gênio que é um mero instrumento de sua arte.
O meu tipo de gênio se perde em suas músicas. O meu tipo de gênio é o artista que morre. Não é o artista que faz arte, mas é o artista que morre em sua arte. De tal forma que não poderia se dizer que outra pessoa faria aquela obra porque apenas o sacrifício daquele indivíduo poderia criar aquela obra.
Esse tipo de gênio não existe em nenhuma outra parte. Estamos falando aqui de uma arte individualista e egocêntrica e que, portanto, vida particular e arte se misturam.
Há de se definir esse tipo particular de gênio porque ele é definitivamente diferente dos outros tipos de gênios justamente porque nestes, o conhecimento ou o talento aparecem, meio que do ar (diríamos, das ideologias) e o usam como instrumento.
Aqui há a presença fortissima de ideologias, como é inevitável, mas acima de tudo, o artista não é instrumento da arte. Ele é a própria arte. Seu nome, sua biografia, suas fofocas, suas notícias na E! Entertaiment valem tanto quanto sua arte.
O gênio morre e a obra genial perdura sem ele. Não é o que ocorre aqui.
Aqui o gênio morre *na* arte e a obra genial vive enquanto ele vive e ele só morre quando a obra morre.
Eu vou elaborar mais isso adiante. Por enquanto, Syd Barrett com Dark Globe se suicidando em sua obra.
Continuando. Eu passei muito tempo fissurado em Pink Floyd, entrei numa de classic rock no geral, nunca consegui entrar numa de rock progressivo, embora mesmo como fã de Classic Rock, teve coisas que eu nunca consegui apreciar inteiramente. Gostava de Deep Purple, por exemplo, ainda ouço Perfect Strangers com prazer, mas nunca tive a profunda admiração que tive pelo Pink Floyd.
Isso foi até eu ter uns 18 anos e aí eu comecei a sair para as baladinhas indies e me apaixonei pelas bandas da época.
A cena indie prometia muito há 5 anos atrás. Prometia ser arte, prometia ser pop, prometia ser punk, prometia ser intelectual, prometia ser divertido, tudo ao mesmo tempo e para qualquer um com senso estético suficiente para entrar.
Eu logo me apaixonei por Franz Ferdinand e Killers. O primeiro pela pretensão e o segundo pela falta dela.
Bem, eu não consegui achar um video de "Do You Want To" do Franz Ferdinand pra colocar aqui.
Então vai o link
Esse vídeo acho que cumpre de forma excelente tudo que a cena indie prometia. Ele tem um toque de arte, um toque de sarcasmo, um toque de punk, um toque de diversão, um toque de inteligência. Enfim, The Killers, pelo contrário, pareciam ser os garotos caipiras querendo fazer sucesso e é oooutro vídeo que o Youtube não me deixa compartilhar. Eis o link e eu diria que esse vídeo também cumpre bem as promessas da cena indie.
Afinal, bandas vieram e foram, músicas boas e ruins apereceram. Toda a cena indie pareceu emocionante em princípio, mas no que ela continuamente falhava em cumprir suas promessas, foi se tornando cada vez mais frustrantes e algo que tem cinismo como uma parte tão integral de sua subcultura se tornou cínico ao ponto de duvidar de si próprio.
O problema da cena indie é que de repente as pessoas iam nas baladas e não encontravam artistas e nem rebeldes e nem gente inteligente... foi isso que me afetou pelo menos, que me fez desencanar desse universo.
Nos prometeram ótima pornografia com o XPlastic e o que tivemos foi um site estéril, prepotente, nem um pouco sexy, nem um pouco revoltado, sem nenhum bom ou mal gosto. xplastic é simplesmente sem graça e as baladas indies não são diferentes.
Yeah Yeah Yeahs nos prometeu sexy, mas as meninas recalcadas da classe média paulistana continuaram a ser meninas recalcadas da classe média paulistana (só que usando saia e bota). Franz Ferdinand nos prometeu arte, mas as pessoas continuaram com sua mentalidade de curso de engenharia de que essa gente que fala de filme que não vem de Hollywood são elitistas e arrogantes e deveriam ser ridicularizadas. Logo as crianças surgiram. Enfim, não dá pra listar problema por problema dessa cena. Foi uma boa proposta, mas falhou. Acontece. Quem se deu bem vendendo camiseta cool nessa época, parabéns. O resto de nós, só resta a tristeza de termos investido nossos 21 anos em algo que falhou.
Os que ainda se consideram parte da cena continuam com o cinismo que a caracterizou, mas vai saber quem são essas 6 ou 7 pessoas que acham que criticar o fato de Strokes ter ficado famoso demais vai prevenir qualquer estrago.
Não foi a "moda indie" que arruinou a cena, foi o próprio núcleo "underground" da cena que falhou em cumprir suas promessas. Vou me incluir nisso e pensar em todos aqueles quadrinhos sobre noites paulistanas que eu acabei não produzindo. Gente como os gêmeos Moon e Bá com suas histórias que passavam na Fun House e suas lindas mulheres tatuadas foram verdadeiros guerreiros nessa luta. O mesmo vale pra Mosh. Mas os primeiros foram faturar em meio a gente que de fato dá valor (e ainda bem que eles conseguiram) e os últimos faliram... ou brigaram. Sei lá o que houve com a Mosh.
De qualquer forma, faltou muita coisa. A cena de quadrinhos até que se segurou bem considerando que eu pensei que veria altas exposições de artes plásticas, altos shows de bandas independentes, altos estilistas independentes, altos filmes independentes, todos com a mesma qualidade da Mosh e dos gêmeos.
Não aconteceu. As exposições de grafite sempre foram médias e as excelentes fizeram como os gêmeos e voaram para um país que não trancafia seus artistas porque uma bienal de arte é incompetente. As bandas independentes não conseguiram deixar de oscilar entre gente que os gringos adoram, mas nós que vivemos aqui sabemos que é bullshit (crianças super ricas fazendo sucesso porque a mãe conhece alguém) e entre punk amador da pior qualidade. A moda nunca veio. Os filmes nunca vieram. E se vieram, ninguém percebeu, o que é o mesmo que não existir.
E tem as baladas... o que dizer das baladas? Nada foi tão prometido e falhou tanto quanto as baladas interessantes.
Diferente do resto citado. Várias baladas aconteceram. Várias festas. Vários lugares. Todos eram a mesma variação do mesmo tema. Um DJ e uma pista de dança tocando os sucessos. A maior variação que tiveram criatividade para pensar era um DJ e uma pista de dança tocando coisas obscuras.
Ninguém pensou em incorporar sarais e exposições de artes e filmes amadores e performances. Ninguém pensou em fazer nada que fosse inteligente, chegou um momento que deixou até de ser divertido.
Pra mim, obviamente, de resto, um monte de gente ganhou dinheiro e as pessoas continuam frequentando.
Boa sorte pra eles. Eu ainda estou esperando a minha balada interessante.
Existe um meio de fazer baladas diferentes do que DJ + Pista de dança? Dá pra incorporar artes plásticas e poesia e filmes nessa equação de modo que não perdesse a premissa básica de diversão? Não sei.
Voltando ao xplastic, eles sacrificaram a pornografia em prol dessas coisas e, afinal, acabaram simplesmente tediosos. Talvez as baladas temeram que o mesmo acontecesse.
Em algum momento dessa época eu comecei a baixar música como doido. Baixava tudo que saía de novo e era elogiado pela NME, baixava tudo que considerava histórico. Li "Mate-me Por Favor" e logo fui atrás de todas aquelas bandas.
Me vi ouvindo e adorando imensamente Bob Dylan, Velvet Underground, Rolling Stones, Sonic Youth. Via Sonic Youth, eu voltei a apreciar Nirvana (eu ouvia um pouco na adolescência, mas nada de demais).
Assim, eu comecei a me distanciar das bandas novas e das baladas. Mas esse foi um processo que demorou muito, porque na minha cabeça existia essa progressão bem clara. Primeiro veio Bob Dylan, aí vieram os Stones, aí o Velvet Underground, então o Sonic Youth, aí o Nirvana, aí a cena indie.
Então eu passei muito tempo tentando unir as coisas, mas foi em vão. Eu acabei inconsciente preferindo ouvir as mesmas músicas do Bob Dylan de novo e de novo ao invés de desperdiçar mais tempo com as bandas da NME. E dando menos atenção às bandas, fui dando menos atenção a cena até que ouvir música se tornou algo que se faz no quarto na esperança de ter uma experiência nova.
E essas bandas todas me ofereceram ótimas experiências. Mesmo algumas das bandas indies. Ainda ouvia Franz Ferdinand, Killers, Strokes, Arctic Monkeys, Yeah Yeah Yeahs, Kills, Death Cab for Cutie, etc.
Essas bandas todas me proporcionavam ótimas experiências, elas diziam algo de verdadeiro, assim como Sonic Youth e Stones e Dylan e o Velvet Underground diziam algo de verdadeiro.
Lendo "Mate-me Por Favor", toda a cena punk fez enorme sentido desde que Sex Pistols e Ramones fossem ingorados.
Ignorando essas duas bandas feita por e para pessoas burras, o punk deixava de ser uma glorificação da ignorância para virar uma reflexão interessante sobre o niilismo.
Velvet Underground, Andy Warhol, Pop Art. Essas coisas me soaram algo como o que o punk deveria ter se tornado. Ramones e Sex Pistols por outro lado, é o que infelizmente se tornou quando foi sequestrado por gente de pouco talento e pouco a dizer.
O lance do Punk, como eu entendi na época, é que mais importante que a sonoridade estavam os temas.
E o tema era desilusão, era uma certa estética do loser, da falta de esperança, mas sem o cinismo. Não era um "desistimos porque não importa", mas um "importa muito e dói demais dizer isso, mas nós falhamos".
Existia uma mistura de maturidade e ingenuidade, de amadorismo e profissionalismo, de experimentalismo e volta às raízes. Era um movimento de volta aos Rolling Stones que acidentalmente se tornou um progresso ao Sonic Youth.
E eu acho que cresci junto com o Sonic Youth de certo modo, pois meu primeiro contato com eles foi nesse clima de desespero do punk:
A primeira vez que ouvi Daydream Nation, eu tive aquela ótima impressão de que nada seria capaz de superar isso.
Tudo que uma banda - qualquer banda - deveria tentar ser era o Sonic Youth.
Acessíveis, corajosos, inteligentes, cotidianos, experimentais, barulhentos. Eu entendo que existe um modo muito fácil de não gostar do Sonic Youth, envolve não ter paciência para as distorções. Mas se as distorções clicam, então elas fazem a banda ser mais importante do que qualquer outra no universo, pois é nesse momento que, da sonoridade à letra, o Sonic Youth cumpre todas as promessas do punk.
Ele é rebelde, desesperado, divertido, é uma volta aos Stones e é um progresso em direção a algo, é belo, é feio, não há defeitos em Sonic Youth uma vez que você se liga a música.
Mas eu entendo que depende de algo quase sobrenatural para que a conexão seja estabelecida.
De Sonic Youth, voltei a ouvir Nirvana e ainda adoro Nirvana, mas é nessa dupla que eu estava concentrado: Sonic Youth e Velvet Underground.
Logo o Sonic Youth se tornou algo... Sonic Youth demais e me alienou do resto, assim como acredito que eles tenham se alienado.
Embora seja inegável que Sonic Youth é mais belo no seu mais estranho. A intenção era colocar Little Trouble Girl aliás, mas não achei.
*aiai*
Enfim, em algum momento desse período, eu voltei a buscar novas coisas. De algum modo eu descobri que adorava cantoras.
Realmente me envolvi em Giant Drag e Pipettes.
Ambas as bandas são atuais. Pipettes está morrendo uma morte lenta não tendo mais nenhuma integrante original no grupo e ambas as bandas me impressionam porque elas são excelência e não fazem sucesso. Não fazem sucesso sequer na cena indie. Não fazem sucesso e ponto, mas são excelência.
Infelizmente pra mim e felizmente pro grupo, eles tem algum tipo de contrato com a Universal, que é o tipo de empresa que proíbe vídeos do Youtube de serem compartilhados em blog. Então no Anne Hardy for you!
Mas Pipettes é genial. Porque elas desistiram... sei lá, é triste demais que elas tenham desencanado.
Infelizmente o Youtube não me deixa compartilhar o clipe dessa música (caramba, comum demais isso ultimamente), but oh well.
De qualquer modo, explode minha mente como que Pipettes não se tornaram a banda mais bem sucedida de 2007 assim como explode minha mente que Little Big Planet não se tornou o jogo mais vendido de 2008.
Talvez não haja mercado para criatividade disfarçada de nostalgia e para inteligência disfarçada de "cute".
Além de Pipettes e Giant Drag, eu entrei numa de Camera Obscura e isso é importante.
Pesquisando coisas de Camera Obscura, eu descobri que eles fazem parte de um estilo chamado "indie pop" e tem uma espécie de subdivisão disso chamado "twee pop"... ou são a mesma coisa com nomes diferentes.
Unindo minha fascinação pelo que eu acho que o Punk deveria ter se tornado com meu amor por cantoras, Twee Pop foi um estilo que pareceu criado especificamente pra mim.
Um dos artigos mais lidos até hoje no Pitchfork Media é o "Twee as Fuck" que conta a história desse estilo musical.
Não só é a única fonte de informação sobre a história do Twee, é muitissimo bem escrito.
"Indie pop is not just "indie" that is "pop." Not too many people realize this, or really care either way. But you can be sure indie pop's fans know it. They have their own names for themselves (popkids, popgeeks) and for the music they listen to (p!o!p, twee, anorak, C-86). They have their own canon of legendary bands (Tiger Trap, Talulah Gosh, Rocketship) and legendary labels (Sarah, Bus Stop, Summershine). They have their own pop stars, with who they're mostly on a first-name basis: Stephen and Aggi, Cathy and Amelia, Jen and Rose, Bret and Heather and Calvin. They've had their own zines (Chickfactor), websites (twee.net), mailing lists (the Indie pop List), aesthetics (like being TWEE AS FUCK), festivals (the International Pop Underground), iconography (hand drawings of kittens), fashion accessories (barrettes, cardigans, t-shirts with kittens on them, and t-shirts reading TWEE AS FUCK), and in-jokes (Tullycraft songs and the aforementioned TWEE AS FUCK)-- in short, their own culture. They're some of the only people in the world who remember that Kurt Cobain used to kind of be one of them, and they've been wildly generous about the moments where one of their private enthusiasms-- like, say, Belle and Sebastian-- bubbles up into the wider world of indie music."
E até hoje eu nunca ouvi Belle and Sebastian. Tenho medo de gostar, sei lá.
Enfim, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Eu descobri Twee e eu descobri Blondie e eu me apaixonei por ambos pelos mesmos motivos.
Twee, como o artigo explica, foi uma espécie de reação ao Punk. Era gente que gostava da idéia de fazer música em suas garagens, mas não comprava todo o machismo da cena. Era algo do tipo, você não precisa fazer um moicano e berrar dizendo que vai matar os outros pra ser underground.
Então Twee é algo que cumpre o incrível efeito de ser mais underground que punk sendo menos revoltado. É uma música bem conservadora na verdade. É sobre meninas e meninos e tristeza e solidão e amor e coisinhas.
É sempre sobre coisinhas.
Toda a idéia do DIY está no twee. Pessoas não sabem tocar, os álbuns não são bem produzidos, é tudo amador ao máximo. Ainda assim, eu considero algo quatro trilhões de vezes mais corajoso do que qualquer banda punk do ABC paulista porque não disfarça falta de habilidade com distorção e com riffs.
Talulah Gosh foi a primeira banda Twee que eu me apaixonei.
Ela personifica tudo que existe de excelente nesse estilo musical.
Vejam que a música parece simples porque ela é simples, não há nenhuma máscara, ninguém parece legal porque ninguém é legal.
E as biografias das bandas são diferentes do que tudo que você lê no "Mate-me Por Favor".
Talulah Gosh terminou, por exemplo, porque a mãe de uma das vocalistas era cristã e achava que esse negócio de rock n roll era malvado.
A outra vocalista, Amanda Fletcher, continuou fazendo outras bandas, das quais Heavenly é provavelmente a mais bem sucedida e hoje ela é economista da ONU.
O único ponto em que infelizmente a história se intercala com tantas outras bandas é que o bateirista, irmão menor de Amanda Fletcher, cometeu suicídio anos depois do fim da banda.
As bandas de Twee tem uma característica de terem biografias imensamente mal sucedidas. As mesmas pessoas fazerem parte de muitas bandas porque a maioria fracassa e dos álbuns saírem muito raramente porque seus membros geralmente não tem tempo de fazer.
É, como dizem os fãs, o pop mais puro que existe.
Não sei nem se dá pra falar em evolução do genêro. Se hoje as coisas parecem melhor é só porque fazer um vídeo caseiro com câmera digital é melhor do que um vídeo caseiro em VHS.
Além disso, há um mercado para indie que acaba absorvendo um pouco as bandas twee atuais. Mas ainda é uma coisa bem obscura, do tipo que a maior parte das pessoas, mesmo os fãs de Killers, Franz Ferdinand e Arctic Monkeys, atravessam a vida sem saber que existem.
E a cena nunca existiu também. Sequer há um cena para morrer. O que sempre houve foram pessoas desconectadas nos diferentes cantos do mundo lutando para conseguir as músicas, algo que se mantém bem vivo no que eu não consigo achar um álbum da Velocity Girl pra download não importa o que.
Por isso que dizemos que Kurt Cobain era meio que um dos nossos. Porque ele de algum modo inexplicável conseguiu, em Seattle, um álbum dos escoceses Vaselines.
Como ele fez, na verdade, está registrado em algum lugar, mas eu não lembro. Algum amigo deu uma demo pra ele ou algo assim, quem sabe.
De qualquer modo, Vaselines é uma banda cuja discografia completa cosnsiste numas 20 músicas. O Nirvana fez cover de 3 dessas.
"This was written by the Vaselines..."
A ligação que nós, popgeeks, temos com Kurt Cobain é algo que toda menina roqueirinha de 15 anos deseja. =D
O que tudo isso faz, na minha cabeça, é algo muito claro.
Primeiro vieram os Stones, aí tentaram voltar aos Stones (assim como no século XIX tentaram voltar a Kant... embora eu não sei se os neokantianos chegaram a criar algo de novo nessa volta... fenomenologia, talvez? Posso chamar Husserl de Neokantiano?) e disso acabou saindo o Velvet Underground e do Velvet Underground veio o Sonic Youth e do Velvet Underground veio, de modo muito indireto, a cena punk londrina e como reação a essa cena londrina veio o Twee e Kurt Cobain ouviu Sonic Youth e ouviu Vaselines e daí veio o Nirvana.
A pergunta é se o Vaselines só serviu pro Nirvana de cover ou se eles acrescentaram algo. Essa é uma pergunta irrespondível, mas eu vou deduzir que sem os Vaselines, o Nirvana talvez fosse punk demais, barulhento demais e não se tornaria o bom equilíbrio que se tornou.
E aí não precisamos decidir quem está certo: os metaleiros que dizem que o Nirvana é pop ou os fãs que dizem que o Nirvana é barulho e poder. Ele é o pop dos Vaselines, o barulho e poder do Sonic Youth.
Os Beatles entrariam na equação, mas eu não gosto dos Beatles.
Enfim, há o Blondie.
Como dito, eu descobri Twee e Blondie ao mesmo tempo e o que Blondie faz por mim é coisas do tipo eu estar apreciando agora Fleetwood Mac e Stevie Nicks e The Corrs.
O engraçado é que não acho que é um sentimento tão diferente de apreciar Tullycraft, Rose Melberg e Blueboy. A diferença é que esse pop, assumidamente pop, muito bem sucedido é bem melhor produzido.
Mas ainda são músicas sobre coisinhas.
Gostando tanto de Blondie, eu deveria gostar de Madonna, mas acho que a Deborah Harry, apesar de ter sido famosa ao ponto do superestrela absurda, nunca perdeu essa intimidade.
É difícil isso. É uma coisa que só algumas bandas são capazes.
O que a Madonna introduziu e se culminou em Britney Spears e coisa do tipo é o tipo de supershow que o Queen e o Pink Floyd faziam na música pop.
O supershow tinha algo a ver com as grandes bandas de rock dos anos 70 porque elas buscavam alguma teatricalidade, algo de ópera. Obviamente, não há espaço pra ópera no pop e bandas que entendem isso, como é o caso do Blondie e de Fleetwood Mac, se dão muito melhor.
Pop sem nenhuma conexão com o público é algo que eu não entendo... e conexão com o público pode surgir de algo tão simples quanto segurar o microfone.
E nada supera uma música sobre coisinhas
No fim, é isso.
O que começou com Pink Floyd (antes disso foi só uma introdução, really) hoje está indo pra The Corrs.
Eventualmente eu vou ouvir Belle and Sebastian e me amaldiçoar porque gosto... ou não enender porque justo essa banda foi fazer sucesso. Veremos.
No fim, eu tenho que dizer que é sobre experiências. É sobre conseguir algo. É sobre se convencer que seus sentimentos valem algo nesse mundo porque, afinal, essas pessoas legais estão cantando sobre eles.
E é sobre estar em casa.
Um comentário:
Achei o post incrível, e imagino que quando se consegue colocar tudo assim por escrito como você fez se consegue no mínimo 30% das sensações da época.
Meu memorial sonoro seria muito brega para um blog, mas quando eu conseguir me recordar de tudo creio que será perto da morte porque meu querido, se eu tiver 30 daquelas emoções meu peito não resiste.
saudades<3
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