sexta-feira, dezembro 05, 2008

The Original Galactus Saga

Apesar da minha experiência frustrante com secret invasion, eu ainda assim me enchi de vontade de ler Marvel em expectativa de Dark Reign. Pesquisando, eu encontrei um torrent que, pra mim, foi um dos achados mais emocionantes que a internet já me proporcionou até hoje.
Marvel Major Event Chronology

13 GBs de gibis da marvel, começando com a primeira aparição de Galactus até Anihilation: Conquest.
Então eu decidi fazer uma análise desses eventos.
É importante notar que a maioria dessas resenhas serão sobre gibis lançados antes de eu ter nascido, logo, analisá-los como obras escritas "para mim" é impossível, eles são, em primeiro lugar, um problema histórico e, portanto, tentarei tratá-los como tal.
Na minha falta de experiência como historiador, tentarei fazer um trabalho de genealogia e hermenêutica também... não que eu saiba fazer direito nenhuma dessas coisas.
=

Evento
The Original Galactus Saga

Edições
Fantastic Four #48-50

Análise
Não preciso dizer o quanto Jack Kirby é um dos melhores desenhistas de super-heróis que há.
Eu tenho a mania boba de achar que respeitamos Kirby, Ditko e Lee mais pelo seu valor histórico e menos pela sua habilidade.
Comentando Steve Ditko rápido porque não veremos nenhum trabalho dele aqui, eu diria que seu pior inimigo eram os prazos, já que ele tem algumas poucas cenas por edição que são surpreendentes.
Jack Kirby é outra história, já que ele parece bem confortável com prazos.
Para os padrões de hoje, os rostos dele parecem levemente deformados, ao mesmo tempo, talvez por isso, ele passa emoções de uma maneira sincera e real de modo que eu acho difícil encontrar hoje.
A capa de de Fantastic Four #48:



Pra começar, eu adoro essa versão do Vigia. Mais parecido com um tipo de monge do que com um alien, com a cabeça bem mais proporcional ao corpo do que é apresentado nos dias de hoje. O vigia nessa história é alguém que claramente se preocupa e a capa mostra.
É engraçado que, até onde vão meus conhecimento, ele nunca sofreu as conseqüências de suas interferências, algo que deveria ser terminantemente proibido. Essa história é um exemplo de que não há bem uma definição do que se considera "interferir" aqui.
Logo atrás do vigia, se destacam o Quarteto Fantástico e a população de NY atrás deles.
É interessante notar que não há uma pessoa nessa cama que não demonstra medo, mas mesmo enquanto demonstra medo, Reed Richards abraça sua esposa de um modo protetor que eu acho muito bonito e o Coisa de Kirby é insuperável.

Uma coisa a se notar nessa história é o quanto ela é rápida.
A história se inicia com o Quarteto Fantástico e os Inumanos sendo atacados pelo que o narrador explica que é uma arma do Imperador Maximus desenhada para matar humanos apenas.
Logo na segunda página fica claro que muita coisa acontece por página, em parte, porque só não há mais dialogo e narração porque não caberia mais na página.
Então ele carrega muito essa coisa de quadrinho antigo que são os personagens ou o narrador descreverem o que acontecem na cena.
Um prédio está desmoronando e Reed fala: "Cuidado! Vai desmoronar", aí o prédio explode e alguém diz "Você estava certo! O prédio explodiu" e assim vai.
Após sobreviverem ao ataque, a história é uma história dos inumanos por um tempo. Pra isso queria chamar duas coisas.
Em primeiro lugar, o tabefe que o Raio Negro dá em Maximus no último quadro da página abaixo.


Eu achei a narrativa perfeita mesmo. O modo como ele olha frio em um quadrinho para no próximo dar um único golpe que claramente derrota seu inimigo é a típica cena que mostra o poder de um personagem que sabemos que exibe tal poder poucas vezes.
Em segundo lugar, o tema que parece ser tão querido de Stan Lee, a minoria preconceituosa que busca poder descobre que, afinal, a maioria não são os opressores que ele considerava.
É o tema clássico dos X-Men, mas ele é mostrado aqui da mesma forma.
O ataque que o quarteto sofre no começo deveria matar os humanos e apenas ferir os inumanos, mas o quarteto sobrevive, logo a conclusão de Medusa: "Ricards estava certo! Nós não somos os inimigos naturais dos humanos! Nós não somos inumanos! Somos os mesmos que eles!"
Eu acho essa fala muito boa, "nós não somos inumanos". Afinal, eles são tratados como inumanos até hoje.
Essa revista mostra que o objetivo dos inumanos, esse tempo todo, sempre foi se integrar a humanidade como normais. Eu nunca pensei nisso, é engraçado que eu fui completamente preconceituoso nesse ponto, pois eu sempre achei que essa gente esquisita morava na lua porque gostava, afinal, eles são uma gente esquisita. Triste erro meu, eles querem se integrar. Só não se sentem aceitos.
E o fato de que eles moram na lua até hoje mostra que ainda não se sentem aceitos. Talvez depois de ver a vida difícil dos mutantes.
Acho que isso tudo mostra o relacionamento difícil de um progressista médio da década de 60, ele quer se colocar ao lado das minorias, mas não consegue evitar aquele medo um pouco irracional de que essa gente diferente de nós está, de algum modo, ganhando poder demais e que eles precisam entender que são iguais e não melhores. O medo da segregação aqui é tão grande quanto o medo da ação afirmativa.
Por fim, o enlouquecido Maximus puxa uma alavanca, inicia uma barreira (uma "zona negativa", um conceito que hoje é completamente diferente e que jamais poderia ser usado dessa forma) que envolve a cidadela dos mutantes. Os segundos que demoram para a barreira se erguer são suficientes para que o quarteto escape, não sem que Johnny tenha que ser puxado a força já que isso significa perder Crystal, seu primeiro grande amor.
A cena que se segue é genuinamente comovente... e na mesma página. A primeira visão do surfista prateado EVER! Oh boy!


Como eu disse, os rostos levemente deformados de Kirby me incomodam algumas vezes, mas nos dois primeiros quadros dessa página, eu diria que Johnny e Reed estão melhores representados do que a maioria das vezes que os vi. Se alguém me disser que ele fez esse quadro olhando pra uma foto eu acreditaria. Johnny parece sinceramente frustrado e levemente desapontando enquanto Reed parece simplesmente triste. É uma cena poderosa.
Já a introdução do surfista é algo de interessante. Ele é tão alien que sequer teria um nome: "vamos chamá-lo de 'surfista prateado' na falta de um nome melhor" diz Stan Lee.

E aqui o exemplo da rapidez da história. A aventura termina em uma página. Johnny chora as consequências na página seguinte e logo na próxima, o quarteto nem chegou em casa ainda e os céus estão em chamas.
As cenas de pânico que dominam New York são ótimas e Stan Lee aqui está no seu melhor, se alguma coisa, Sue está histérica demais, mas é bom ver que dramalhão não é característica de gibis pretensamente adultos pós-frank miller no que Susan tem praticamente um colapso nervoso por estar sendo ignorada pelo seu marido enquanto um sempre simplório coisa pede pra ela se acalmar: "você sabe que ele te ama, ele só tem trabalho pra fazer".
Mas é interessante. Quantas donas de casa da década de 60 invadiriam o trabalho do marido com o dedinho na cara dele dizendo "me dê atenção! Eu sou um ser humano!", mas afinal, acaba sempre meio machista, no que ela é a mulher preocupada com suas coisas pequenas de mulher como higiene e jantar, enquanto os homens discutem coisas importantes e universais, até que um homem tem que pacientemente explicar pra mulher "olha, isso é mais importante que jantar".
Apesar disso, o Vigia está excelente na página abaixo. Pra mim é assim que um vigia devia ser, estou até um pouco "de mal" com aquele bicho magrelo com um cabeção que desenham hoje em dia.
E o talento de Kirby também para fazer formas geométricas aleatórias e fazê-las parecer máquinas alienigenas reais.


O resto é história: o surfista chega, manda o sinal para Galactus, é nocauteado pelo Coisa, mas tarde demais.
A primeira imagem abaixo genuinamente me assustou, eu demorei um tempo pra perceber que se tratava de parte do gibi e não uma propaganda ou algo do tipo. Ótima montagem.



Primeira aparição de Galactus! Ele parece bem menos ameaçador do que eu gostaria.
Por sorte o perigo da situação está bem estabelecido e essa imagem não é tão necessária para tal.
Mas a adoração desse blogueiro pela cor roxa agradece o uniforme de Galactus. É impressionante como um sujeito roxo e azul consegue, de qualquer modo, ser levado a sério assim.

A primeira cena da edição #49 é clara. É um exemplo da habilidade imensa de Kirby em passar emoções. Qual foi a última vez que você viu o quarteto fantástico com medo?
E é preciso apreciar também o letreiramento.
Excelente. Só isso. Excelente.


O que se segue é a típica, ainda que muito bem feita, história dos heróis contra um inimigo que não podem derrotar. Um por um eles atacam e um por um caem em combate.
Por fim, o Deus Ex Machina anunciado é uma arma secreta que existe na própria nave de Galactus.
Aqui é onde a restrição de Uatu em interferir nos eventos dos planetas que observa é estranha. Ele diz que o Tocha Humana tem que ir lá e pegar o tal aparelho porque ele não pode interferir, mas o mero fato de dizer que tal arma existe não é intereferência o bastante? Aparentemente, o Vigia pode fazer tudo menos ir lá e dar um tabefe em Galactus.
Não há tanto o que comentar nessa edição. É uma edição de ação do começo ao fim.
As batalhas são emocionantes, mas há de se pensar que se Galactus é tão poderoso, porque ele não mata os heróis de uma vez? Eu entendo que se somos comparados a insetos, primeiro você sopra o mosquito pra longe só pra ele parar de encher o saco antes de parar o que está fazendo pra caçar ele, mas se o mosquito está realmente irritando, então, oras bolas, eu dedico 5 minutos do meu tempo pra caçá-lo sim. Mas talvez seja só eu, de qualquer modo, nunca existe um confronto direto com Galactus.
Quando os heróis atacam, ele ignora e quando ele revida, nunca é atacando diretamente, ele joga uma bomba de gás, ele neutraliza as chamas do tocha, ele manda um servo atacar o quarteto e isso já dá trabalho o suficiente, mas parece que fica faltando ele de fato apontar pra alguém e atacar. Mesmo depois que o Coisa o nocauteia do prédio, ele simplesmente ignora e volta pra cima.
Por fim, o puro coração humano de Alicia Masters toca a alma fria do Surfista Prateado. É uma cena interessante, mas soa apressada.

A edição #50 eu acho interessante porque a capa diz: "A saga do surfista prateado! E finalmente! O Tocha Humana na faculdade!"
O cara derrota Galactus um dia e vai pra faculdade no seguinte. Isso é ótimo.


A batalha entre o Surfista Prateado e Galactus parece genuinamente ameaçadora. Os dois sim entram em guerra e dá pra perceber que seus poderes é algo que o Quarteto nem teria como enfrentar mesmo.


Por fim, o conflito termina com o Deus Ex Machina apresentado na história passado. O Tocha Humana acha uma arma capaz de destruir o universo e tudo que o Senhor Fantástico precisa fazer é dizer para Galactus "olha só o que eu tenho!"


Após o fim, Alicia Master, namorada do Coisa, corre na direção do surfista enquanto este vê impassivo perder a mulher que ama para alguém que sabe que é melhor que ele.
Pode ser experiências recentes, mas a expressão do Coisa é excelente. "Ele fala... como um poeta" é genuinamente de quebrar o coração.
"Encare, feio. Não é nem uma competição"... eu nem sei como comentar isso, é até meio doloroso.


E com essa dor no coração, eu encerro aqui.
Com meio gibi pela frente, o que resta é a vida de Johnny na faculdade. Ele é bonito, famoso e bem sucedido, mas viu o universo e o amor de sua vida está fora de seu alcance pra sempre. A pergunta aqui é interessante: Alguém que viajou pelos cosmos e passou por incontáveis aventuras consegue ter uma vida comum com experiências comuns?

A primeira saga da Marvel termina, ironicamente, de um modo que me incomoda como as atuais terminam. O mundo foi salvo, mas a conseqüência é longe de ser um final feliz.
O Coisa, que estava superando sua deformidade graças a namorada, agora se sente um monstro de novo e dá socos em parede amaldiçoando a si próprio. Reed Richards, após as aventuras cósmicas, está cada vez mais preso no seu próprio mundinho científico enquanto Sue se sente cada vez mais ignorada e impaciente. Por fim, o Tocha Humana se pergunta se é capaz de uma vida normal.
"Um estranho modo de terminar um conto?" pergunta Stan Lee
"Talvez! E ainda assim, talvez o único modo".

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