sexta-feira, junho 27, 2008

Ok, eu sei que estou particularmente burro hoje, mas vá lá.
Estou todo feliz lendo as notícias quando vejo a manchete: "Charlie Brown é referência para o The Go! Team, que toca sábado em SP" e eu pensando "what the fuck", o que Charlie Brown, a banda-símbolo da mediocridade, tem a ver com "The Go! Team" que é tudo menos mediocre?
Leio a noticia e é um bla bla bla comum de noticia que introduz a banda pra quem nunca ouviu falar dela na vida e enfim, eu nem vi aonde Charlie Brown é citado.
Aí eu dei um ctrl+f e encontrei isso:
"“Tentar definir o nosso som é uma armadilha”, diz Parton. “Trata-se de um mix de todas as minhas coisas favoritas com metais, guitarras barulhentas, baterias distorcidas, vocais de garotas de gangue e o piano de Charlie Brown”, diz."
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Certo, algumas coisas numeráveis:
1 - Entendo que o nome da banda é Charlie Brown Jr. e não Charlie Brown e isso deveria ter me dado a dica, mas vá lá, estamos falando de música, é igual eu falar "meu som é influenciado pelo Jefferson's Airplane; não a banda que é 'Jefferson Airplane', mas sim o avião do Jefferson, meu amigo milionário, o som de suas turbinas influenciou meu som"
2 - Dado que o "charlie brown" em questão não é a banda, mas sim o personagem, esse precisa realmente ser o título da matéria? Afinal, Parton fala de "todas as minhas coisas favoritas com metais" (1), "guitarras barulhentas" (2), "baterias distorcidas" (3), "vocais de garotas de gangue" (4), "piano de Charlie Brown" (5); de todas as 5 coisas, o néscio que escreveu essa matéria escolheu para colocar no título da matéria o "piano de Charlie Brown". Porque? Porque, eu pergunto?
Minhas teorias:
a) Ele quis atrair pessoas pra noticia assim como eu fui atraído, fazendo com que ele seja anti-ético como jornalistas geralmente são.
b) Ele fez a mesma confusão que eu, mas a citação não o clarificou, pois até agora ele acha que essa banda experimental inglesa é, de fato, inspirada pelo clichê santista.
c) Ele realmente acha que essa é uma chamada mais interessante e informativa do que algo retirado do bem escrito primeiro paragráfo da matéria: "Colagens de funks antigos, gritos, sirenes, ruídos, guitarras e duas baterias: há um quê de festa na música do The Go! Team." (poderia ser algo do tipo, "funk, gritos e guitarras com The Go! Team" ou algo do tipo)
d)"Piano de Charlie Brown" é algo grande, importante, significativo e eu por ser desinformado não sei o que é; afinal, o piano é do Schroeder. (heh, ok, ele provavelmente estava falando da abertura)
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Agora, se for a opção "a", eu entendo, ele é jornalista, se ele fosse honesto, eu não o respeitaria, pois ele estaria agindo contra alguma diretriz do sindicato ou algo do tipo.
Se for a opção "c" e "d" é de fato culpa minha, talvez o título seja bom e interessante e eu estou nitpicking porque sou um imbecil.
Agora se for a opção "b"... então... oh meus céus... O TERROR! ABSOLUTO! O TERROR!
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3 - The Go! Team é uma das melhores bandas da atualidade. Graças aos céus que o mundo é burro e que eles vão tocar de graça ao invés de num estádio com ingressos custando 7.000 reais por segundo que você assiste o show.
E recentemente eu disse pra uma menina bonita que não ia mais em shows porque tinha percebido que "não gosto dessas pessoas" e de fato, eu gosto da cena indie, gosto da música, gosto das roupas, só não gosto das pessoas; mas The Go! Team, ah, deles eu gosto.
(Still, não iria no show se fosse pago)
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4-

Battlefield: Bad Company

Três coisas difíceis:
1 - Um jogo de videogame verdadeiramente engraçado e com uma história interessante
2 - Uma história qualquer passada na segunda guerra mundial verdadeiramente engraçada e interessante
3 - Um trailer para tal jogo com tal história contendo "mad world" (do Tear for Fears, mas conhecida pelo cover de Gary Jules).



Abaixo um trailer que explica a história



Então, é assim:
Eu não sou o maior fã de first person shooters do mundo; o único atual que eu jogaria é Call of Duty 4, isso antes de ver esses trailers de Bad Company, claro (na minha lista tem prioridade Metal Gear Solid 4; GTA 4 e Uncharted: Drake's Fortune).
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Bad Company realmente me interessou, não só porque é engraçado, mas por causa do objetivo do jogo.
"Bad Company" é um grupo de soldados que por serem ineptos ou psicopatas não se encaixavam em outro lugar, a função deles é, basicamente, ser bucha de canhão e entrar primeiro no campo de batalha, atraindo fogo inimigo, para que o exército "de verdade" possa fazer seu trabalho com mais segurança.
Em algum momento do jogo, eles descobrem ouro nazista e, sendo os psicopatas ineptos que são, decidem deserdar e ficar com o ouro para si próprios: isso significa lutar contra nazistas enquanto fogem do próprio exército.
A história parece interessante não só porque o jogo tem um tema de comédia, mas porque parecia impossível, depois de "Saving Private Ryan", que qualquer história genuinamente interessante fosse contada no contexto das batalhas da segunda guerra mundial (excetuando os filmes que falam sobre ascenção nazista, estou falando das batalhas em si, filme de guerra e não drama de época que se passa na alemanha nazista), mas enfim, oras, um grupo de soldados norte-americanos deserdores é muito interessante!
Provavelmente não vou ter como comprar esse jogo, mas já estou pesquisando em São Paulo bons pontos para alugá-lo e me divertir num final de semana como o bom e relaxante blockbuster que ele parece ser.

EDIT:
Vendo o trailer de novo, não tenho mais tanta certeza que se passa durante a segunda guerra mundial especificamente, na Wikipedia diz "Bad Company puts the player in a fictional war against Russia, where gamers will lead a squad of AWOL soldiers fighting both Russians and Mercenaries."
Então é, acho que o jogo perde um pouco do encanto por algum motivo, but anyway, continuo afim de jogar!

quarta-feira, junho 25, 2008

Sobre vários assuntos

Recentemente na sala de aula, estava lendo um livro do Joseph Campbell que uma amiga estava carregando por algum motivo, é a clássica entrevista "O Poder do Mito"; em poucas linhas e em algumas poucas respostas, Joseph Campbell demonstra mais sabedoria do que todos os teólogos e ateístas jamais poderiam.
Com uma franqueza impossível para quem tem que escolher um lado em um debate, ele expõe o problema de um modo que interpreto da seguinte forma (haverá um momento em que eu deixo de interpretar o Campbell e passo a explorar como eu vejo as coisas, mas eu nem saberia dizer aonde é):
Nós vivemos em uma sociedade sem mitos, isso não significa apenas uma sociedade sem religião, mas significa que nós perdemos nossa capacidade de ter uma vida que é ao mesmo tempo subjetiva e coletiva. Nós perdemos um elo *dado de fora* com o qual podemos olhar *para dentro*, isso faz com que percamos uma ligação com a sociedade e suas leis, disso vem algum conservador e diz que é por isso que precisamos voltar para as tradições, mas isso é um erro, pois a tradição um dia significou algo, mas hoje não significa mais e, portanto, ela não tem mais poder de ser, bem, uma tradição.
Colocando isso em termos desse estúpido debate entre criacionistas e ateus, seria algo do tipo: não é possível ter um sistema ético baseado somente na razão, mas isso não significa que o cristianismo seja a resposta, aliás, não é, já foi, mas não é mais.
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Aqui abrimos a porta pra todo tipo de nonsense new-age, auto-ajuda, "segredos" e coisas do tipo; há esse grande vácuo espiritual na nossa sociedade e todo mundo está desesperado para preenchê-lo, do ateu que diz poder desenvolver um silogismo ético até, bem, eu, nesse blog, dizendo besteiras pra qualquer um besta o bastante pra dar atenção.
Esse tal vazio é basicamente uma descrição do niilismo; Joseph Campbell diz também no livro que acha errado falar que as pessoas buscam um "sentido pra vida"; que seria mais correto dizer que elas buscam a experiência de estarem vivas, de sentir que sua passagem pelo planeta está sendo de fato sentida; lembro de uma professora de português do colégio, enquanto eu choramingava alguma maldade feita a mim, ela me disse: "ignora essas pessoas, elas só passam pela vida" e acho que o sentido é mais ou menos esse; quem para pra pensar sobre a vida, não busca exatamente um sentido, um motivo, uma causa final ou um propósito, mas é exatamente a experiência de estar vivo.
Isso é muito visível nessa tentativa estúpida de hedonismo que existe entre as pessoas moderninhas de São Paulo - as pessoas dedicam tempo e esforço para terem as maiores experiências, não só sexuais (embora em grande parte sexuais), mas querem estar perto de alguém famoso para tentar pegar um pouco da grandeza deles, querem estar atualizadas sobre os "assuntos do momento" - o desejo de querer estar na moda é algo muito importante; é o desejo de querer fazer parte do presente, existe esse sentimento enorme em toda cena de vanguarda de uma metrópole qualquer, essa coisa de dizer "faço parte do hoje", um medo de envelhecer e perceber que ocorreu algo de importante no passado, mas que você não experimentou e esse, acredito, é um desejo muito positivo da nossa era atual; é uma tentativa, falída que seja, de se conectar com o mundo, de fugir do solipsismo, de chegar aos 30 anos com um sentimento de que viveu nessa época, esteve nesse lugar, foi parte dessa coisa grotesca que chamamos "mundo" - mas afinal, é pouco; hedonismo descontrolado é algo parecido com euforia, é ótimo enquanto dura, mas sabemos que não dura, é basicamente o que fez Epicuro tão importante e Aristipo de Cirene uma figura mais obscura; Aristipo oferecia um momento de êxtase e Epicuro uma vida de prazer, ambos eram hedonistas, mas um bom hedonista tem que reconhecer a diferença entre euforia e uma vida prazerosa; "it's better to burn out than to fade away" é euforia, é experimentar a vida em qualidade em troca da quantidade, é um caminho que eu respeito, mais do que algum tipo de vida monástica, mas é um jogo perigoso - e se após trocar uma vida por um momento de êxtase você perceber que - blé - não era tudo isso? E no fim, acredito que não seja mesmo, uma vida razoavelmente chata tem sua cota de cerveja e sexo, não preciso me tornar um rockstar suicida para isso.
Único atrativo que eu vejo nesse estilo de vida é o dinheiro, really; é que nem aquele lance do Forest Gump: "ele disse que não preciso mais me preocupar com dinheiro, o que é bom porque é uma coisa a menos pra se preocupar".
Uma vida prazeirosa, por outro lado, também tem seus riscos, acho que o maior deles é que ela pode se tornar frustrante, acredito que a vida tende ao sofrimento, nesse sentido dou mais valor ao cristianismo que ensina a aceitar o sofrimento ou ao estoicismo que ensina a suportá-lo do que ao epicurismo que tenta simplesmente evitá-lo, num balanço interessante, acredito que as três doutrinas sacrificam os momentos de êxtase; o epicurismo porque, afinal, o êxtase leva ao sofrimento, para os cristãos, o êxtase é uma promessa para o além-vida, essa se baseia em aguentar sofrimento e pedir perdão pelo pecado original, já o estoicismo é indiferente, nem sei mais o que dizer.
Quando o epicurista perde sua capacidade de ter êxtase, seu hedonismo perde algo de propósito, o epicurista bem sucedido não sofre, mas muito parecido com um estóico, também não sente.
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Experimentar o mundo é, afinal de contas, algo de misterioso, acredito nesse sentido em algum número de coisas:
O primeiro se baseia na minha concepção da mente humana - acredito que a mente não é um algo dentro do cérebro ou fora do mundo material, não é uma "coisa" que recebe dados ou impõe formas, aquilo que entendemos como "mente" tem que ser algo *depois* das formas, pois se as formas condicionam todo pensamento, então condicionam também os pensamentos a respeito do que as causa, logo todo pensamento é já um fenômeno e todo "puro a priori" é um X, uma tal coisa-em-si tal qual aquilo "além" dos dados sensíveis - toda nossa experiência começa, bem, com a própria experiência, não há como saber o que exatamente causa nossa experiência, podemos apenas rezar que nossos cérebros entendam os sinais de modo razoavelmente igual para que possamos nos comunicar.
Daí vem que eu tenho uma concepção razoavelmente intersubjetiva da mente, ela não é uma coisa dentro da minha ou da sua cabeça que se desenvolve de modo parecido, mas é algo que ambos construímos ao mesmo tempo quando experimentamos o mesmo mundo e nos comunicamos, existe algo de puramente subjetivo no "eu" e existe algo de puramente objetivo no mundo, mas um está aquém da experiência e outro está além, então basicamente vivemos nessa mútua construção.
Isso não é dizer que a ciência é algo verdadeiro simplesmente porque concordamos nela, ciência é essa coisa que funciona mesmo que a gente não goste ou não entenda, o método científico, in a nutshell, consiste em expulsar o máximo de subjetividade que existe e encontrar o que é de mais objetivo, não consigo pensar em nada que seja mais útil do que a ciência, mas não consigo pensar nela como algo muito além de utilidade - certamente que o método científico nos traz conhecimento, mas é sempre aquela pergunta sobre que tipo de conhecimento é esse; a ciência, afinal, não é diferente de qualquer tipo de doutrina, ela quer ser totalizante e o que está fora do seu método, ela ou adapta e traduz para seus termos ou diz que é besteira e não devemos pensar nessas coisas.
Uma dessas coisas é a tal "vida interior" da qual Joseph Campbell fala - de acordo com o que eu acredito sobre a mente humana, não consigo conceber uma vida interior como algo solitário - é uma vida no mundo, logo a importância dos mitos e tradições serem realizações sociais e coletivas, uma rica vida interior não se baseia em trancar-se em si mesmo, isso seria trancar-se na sua memória de como o mundo era antes de se trancar.
A ciência, como empreitada objetificante, elimina essa "vida interior"; ela o traduz em muitos termos - antropológicos, neurológicos, de acordo com a psicanálise de freud, com a filosofia agostiniana, com a psicologia evolutiva - enfim, são muitos os meios que um estudioso tenta objetificar a experiência e de seus próprios pontos de vista, todas as áreas do conhecimento podem dizer algo a respeito disso, mas tenho que me perguntar se mesmo uma injeção que duplique completamente o cérebro de um verdadeiro cristão durante o auge de seu êxtase espiritual me faria sentir a mesma coisa que ele, me conectaria comigo mesmo e com o mundo da mesma forma que ele se conecta - no fim, há muita conversa hoje em dia sobre cérebros que nos enganam, o biólogo diz que nos apaixonamos porque nosso cérebro nos engana no nosso impulso sexual e o físico diz que vejo minha mão de tal forma e não como caóticas particulas elementares porque meu cérebro me engana e me mostra minha mão dessa forma - isso é um juízo interessante, no qual eu concordo e vou além (seu cérebro também te engana quando você analisa um gene ou uma particula elementar, somos escravos dessa gosma laranja - se é que é uma gosma - se é que é laranja - se é que é matéria) - mas é, num geral, um juízo um pouco inútil, que o fato de eu precisar de algum tipo de espiritualidade social para experimentar o mundo em algum tipo de totalidade satisfatória seja apenas uma artimanha desse meu cérebro sacana não muda o fato de que "preciso de uma espiritualidade, etc.", entender esse fenômeno de um ponto de vista objetivo é algo tão incrivelmente distinto de entender esse fenômeno de um ponto de vista subjetivo que sempre temos aquela pergunta sobre quem entende mais sobre espiritualidado: o erudito antropólogo ou o humilde crente? Um sabe em detalhes as forças primordiais que o cristianismo invoca para levá-lo a um estado de plenitude; o outro se sente pleno, não só isso, ele compreende as forças primordiais de um modo que a linguagem não pode descrever - isso quebra os limites do conhecimento, seja físico, seja metafísico; é, aliás, a grande maldição da metafísica - ela precisa de palavras, mas oras, seu objeto não pode ser descrito.
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Então temos uma questão interessante que sabota a si própria: como construir uma tradição intersubjetiva que nos conecte uns aos outros se o próprio pensar em "como" nos tira de uma ignorância necessária para que tratemos o assunto como experiência espiritual oposto a entendimento objetivo?
Os cientificistas e niilistas (bichos bem distintos, vale lembrar) têm suas resposta: o cientificista geralmente tenta desenhar uma ética racionalista, um conjunto de "deves...pois...logo" que num geral é algum tipo de ideologia, algum cristianismo sem o entulho mitológico ("seja bom com os outros, mas pode fazer sexo"), tem algum número de falhas inerentes:
Primeiro é que argumentos, num geral, podem ser disputados - acredito que nenhuma ética deva ser eterna, mas o juíz deve ser o tempo e não um argumento, certas coisas irracionais "fazem sentido" numa época e de fato ajudam a manter a lei e a ordem, me pergunto, nesse sentido, como que um ateu faz se chega a conclusão que Deus é "um imperativo moral", ou seja, se sem a crença em Deus não há moral; por uma coincidência mágica do destino, não há um ateu no sistema solar que acredite nisso - eu entendo isso em alguns casos - por exemplo, eu considero deus como um postulado moral, mas eu não vejo necessidade para esse postulado moral, logo sou ateu; primeiro vem a ética e depois o ateísmo - mas o contrário me pertuba, quer dizer que você acordou e pensou "não acredito em deus por causa do big bang" e aí magicamente a ética aconteceu de, por alguma alegria do destino, entrar em acordo com sua não-crença?
Segundo é que isso não nos afeta, não conheço uma ética racionalista que não pode ser vencida pelo egoísmo; afinal, acho que a única ética racionalista que presta é o egoísmo racional da Ayn Rand, ao menos ele é honesto, ao menos ele não pega algum imperativo cristão ("seja bom com os outros") e finge que há uma justificativa racional pra isso, porque se eu *sei* que algo é errado, mas não *sinto* que algo é errado, eu sempre posso convenientemente esquecer esse "eu sei", passar a perna no meu vizinho e roubar o videogame dele, pra "voltar a saber" depois. Num geral, acho que nenhuma racionalidade vence a pergunta: "Se eu posso ganhar algo prejudicando outro sem ser punido, porque eu não faria?", a única resposta é convencer o sujeito que através de uma complexa cadeia holística social, um ato de desonestida também o prejudica, mas eu sempre posso responder isso com "ok, roubo meu vizinho e me mudo pra cidade vizinha, que não foi prejudicada pelo meu ato de desonestidade"; enfim, me pergunto o quanto uma sociedade pode sobreviver baseada no egoísmo.
Nesse sentido, não acredito que deus é um postulado moral necessário, acredito sim que é preciso algo que nos faça "sentir" a diferença entre certo e errado como um postulado moral, mas não é o deus cristão.
Essa é, num geral, minha maior crítica à igreja católica: é uma mitologia que não nos afeta, não nos faz sentir nada, é uma tradição sem propósito; se eu tivesse que deixar de ser ateu hoje, seria católico, por algum motivo acho que é a religião mais evoluída que temos, mas como um bom contemporâneo, Jesus é, para mim, uma curiosidade histórica e cultural, não sinto seu sofrimento, logo não posso ser católico; acredito que a maioria dos católicos, num momento de honestidade, concordaria comigo, seus rituais são burocráticos, vazios de sentimento.
As igrejas evangélicas todas são piores, elas enxergam em Jesus não como um companheiro no sofrimento, mas como um tipo de papai noel; alguém que te dá presentes se for bonzinho, é uma piada do que costumava ser uma bela tradição.
Alguém me diz "Rodrigo, você não tem medo do poder político da igreja" e eu respondo "mas é claro, só que eu tenho medo de *qualquer* medo político! Essa gente que faz leis! São todos doidos armados querendo me jogar na prisão por algum motivo ou por outro! Não conheço um projeto moral-legislativo que não me faria apodrecer na cadeia!"
Os conservadores religiosos de fato apresentam todo tipo de risco para a liberdade, mas também o fazem os socialistas ateus e os socialistas religiosos e, oras bolas, até os conservadores ateus, se existe algum por aí, mas não perco meu sono porque alguma escola em algum canto do Texas está ensinando criacionismo, no fim, quem comanda a aula é o professor, se ele for obrigado, por alguma lei estúpida, a falar sobre criacionismo, então resuma o conteúdo em uma frase: "então, existe essa gente que acredita que o universo é fruto de uma consciência inteligente, isso acontece porque eles julgam que o universo é demasiado complexo para ter sido criado pelas leis da física apenas, não há provas empíricas de tal consciência inteligente, por isso não é possível estudá-la a fundo, mas é uma concepção metafísica válida e seu professor de filosofia está na sala ao lado" e eis que o Rodrigo cai triste vítima de sua própria argumentação (que nunca digam que sou egoísta).
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O que acontece, então, é que perdemos a capacidade de criar sentimentos éticos por meio de alguma expressão mitológica, isso vem da nossa perdida capacidade de criar, por meio de uma doutrina, uma experiência de vida - não há algo que nos dá uma vida interior rica o bastante para ser compartilhada com os outros e, dessa vida interior em comum, se derivar uma ética qualquer.
Um problema, acredito, é que toda ética quer já nascer como ética, enquanto que o "certo e errado" não é algo que vem primeiro e o sentimento ético depois; primeiro nós temos um sentimento em comum, depois nomeamos esse sentimento comum de "certo", de fato, isso acontece o tempo todo, toda tribo urbana tem um conjunto ético, alguns é "ético" no sentido de "caminho para a felicidade", ou seja, é isso que dá prazer, é isso que te faz "mais profundo", é isso que te garante que sua vida está sendo de fato vivida ao invés de desperdiçada; outras tem éticas que dizem a respeito do certo e do errado - há essas coisas, raramente algum "ético" (seja um religioso ou um racionalista) denomina ética - o religioso diz que por não ter nascido de uma revelação espiritual, essas crianças são imbecis; o racionalista diz que por não ter nascido de um argumento, essas crianças são imbecis; o políticos diz que por não englobar toda a sociedade, essas crianças são imbecis e o legislador diz que por envolver atos ilícitos, essas crianças são imbecis até que provado o contrário; até o Rodrigo, tão defensor da juventude, acha essas crianças imbecis por algum motivo a ser exposto a seguir.
É sempre questionável se essas tribos urbanas podem produzir algo que garanta uma existência boa, significativa; acho que o próprio fato de existir tanta gente com medo de deixar de ser adolescente - e deprimido quando deixa - significa que essas éticas falham; por outro lado, grupos que promovem violência são falhos logo de cara, pois se você não consegue viver em sociedade, então não adianta matar todo mundo que te desagrada, isso vale para grupelhos e para estados - ou o violento tolera o desagradável ou a sociedade tem que eliminar o violento para prevenir uma guerra civil, queria elaborar nesse assunto, mas esse post está longo e eu estou com frio.
O que nos falta, então, não parece mais uma capacidade de criar sentimento ético (como eu disse há dois paragrafos atrás), mas sim de criar um sentimento amplo o bastante para absorver não só toda a sociedade, como também todos os estágios da vida (o que, no fundo, é a mesma coisa).
Então os jovens criam uma ética "dos jovens" e se tornam eternos adolescentes, de fato, sem meios de se tornar adultos; os adultos, por outro lado, se baseiam em conveniências sociais (ganhar dinheiro), medo da legislação e tradição falida; enquanto os jovens tem éticas falhas, os adultos não têm ética, ponto, suas vidas são infelizes, são desonestos a cada oportunidade, não experimentam, não refletem, não vivem; um adulto, acredito, deveria ser o arquétipo de algo que, como jovem, nos preparamos para ser, pelo contrário, o adulto atual é um vazio, não é surpresa, desse ponto de vista, que os jovens queiram ser eternamente adolescentes; se tornar um adulto não é se tornar algo, é deixar de ser algo que é; é perder todo pequeno traço de comunidade, felicidade e eticidade para se tornar uma alienada engrenagem cuja única esperança de felicidade é poder imitar um adolescente no fim de semana (curiosidade: conversando com meu pai, ele disse, tristemente empolgado, que estava saindo para o forró e o para show country e pareceu levemente desapontado quando tive que repetir pra ele *duas vezes* que não tenho saído pra balada, que tenho gastado todo meu dinheiro com livro).
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Então, no fim, talvez o que falte é que consigamos fazer com que esse nosso sentimento ético que já se desenvolve naturalmente na adolescência também englobar as outras etapas da vida, de novo, perguntar "como se faz isso" é uma pergunta se auto-sabota; mas acho que na imagem do profissional liberal e criativo está um pequeno indício de como será esse adulto arquétipo do futuro; mas o importante a se lembrar é que estamos em um momento em que estamos nos separando de uma tradição de 1000 anos, montar uma nova mitologia tem que ser algo confuso e difícil, senão não seria algo capaz de nos guiar novamente por outros 1000 anos, o próprio cristianismo demorou pelo menos 3 séculos pra se estabilizar, entre as pregações de Paulo, as trilhões de seitas gnósticas (no sentido de gnose, não sei se a palavra é certa) e o homogenia da santa igreja pela Europa, foi aí muito tempo, trabalho, debate, confusão e guerra.
Enfim, confio na ciência para resolver nossos problemas materiais e confio na nossa capacidade de contar histórias para resolver nossos problemas espirituais, além disso, confio na filosofia como ferramente crítica capaz de demonstrar quais os potenciais e limites de qualquer nova ciência e de qualquer nova mitologia.
Yep, esse é o Rodrigo, um cara otimista.

domingo, junho 22, 2008

Sobre ofender a USP

Gente, eu não ofendo o curso de filosofia da USP - seria ofender o não-existente.
Eu ofendo "o clubinho dodói da Marilena".
Mas tudo bem, num geral não existe curso de filosofia no Brasil (talvez no mundo).
Minha faculdade também não tem curso de filosofia, é "a associação ganha-grana dos amigos do Plínio".
Já a PUC é algo tipo "clube esportivo CCCP para milionários" mesmo.
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E quanto a sociologia, como que eu vou ofender? Não é uma ciência, não é especulação metafísica, não é a priori, nem a posteriori, não é exata, não é humana, ofender a sociologia seria como ofender um quadrado redondo ou um ferro feito de madeira.

terça-feira, junho 17, 2008

Que bom seria se pudessemos escolher nossas crenças!

E ainda se tivessemos a sabedoria de escolher apenas aquelas que podemos aguentar!
Tudo o que é fraco no mundo seria cético, com medo de se comprometer a qualquer crença que não pudesse ser vivenciada na sua maior honestidade!
Pois quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pela arrogância de um primeiro homem? Que tudo que existe, existe para o Ser e pelo amor do Ser? Que nenhum segundo de nossa vida poderia ser desperdiçada a não ser amando, sofrendo e pedindo perdão àquele que tudo ama e tudo criou? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno pedir perdão?
E quem teria forças para crer que toda a miséria do homem é causada pelo nada? Que tudo o que sofremos e amamos e sentimos acontece por causa de um aleatório arranjo de misteriosas particulas elementares que a tudo é indiferente? Que todo sentido, todo propósito, todo objetivo não passa de uma contigência, de uma desculpa, de um auto-engano, que tudo que dizemos "bom" e "mau" são apenas palavras que podem ser utilizadas para descrever qualquer espécie de atrocidade? Que toda a história da humanidade não passa disso: o eterno auto-engano de irracionais particulas cegas?
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Do modo que estamos, entretanto, não somos nós que escolhemos nossas crenças, sustentar uma crença é menos uma força e mais uma fraqueza, cremos quando somos derrotados por algo externo a nós, por uma experiência de vida, por uma revelação espiritual, por um argumento racional.
Ceticismo não é nada menos fraco, é a crença em algo sem a honestidade em admiti-lo.
Que estúpido!
Somos derrotados por coisas que nem conseguimos levar a sério.

quinta-feira, junho 12, 2008

Algum comentário sobre a coluna de Hélio Schwartsman

Primeiro eu tenho que agradecer a Hélio por fazer uma crítica a volta da filosofia sem dizer que o problema é a "doutrinação marxista" (e ainda ressaltar que uma doutrinação teológica é um problema tão presente quanto) e por outro lado por ser sensato ao não atribuir a volta da filosofia um estatuto mágico que vai resolver todos os problemas da educação.
Sim, os problemas da educação brasileira continuam sendo "o profissional não é valorizado", "o professor não estuda" (de fato, quando eu fui fazer atribuição de aula encontrei professores que chamaria de semi-analfabeto sem nenhum peso de consciência), "não há recursos" e coisas do tipo.
Ainda acredito que há outros problemas na educação brasileira, além do professor não se sentir valorizado, o aluno também não tem estimulo para estudar, pois pensa "estou em uma escola pública, logo não passarei em um vestibular bom, logo não terei um bom emprego, logo tanto faz eu estar aqui" e falar em "conhecimento pelo conhecimento" hoje em dia é idiotice nerd, ta achando que conhecimento é o que? Sexo? Videogame? Pff.
Ainda assim, Hélio reflete uma ideologia chatinha dos tempos contemporâneos e como toda boa ideologia (e não essa ideologia de boteco da esquerda que mal convence a eles próprios), ele o faz sem perceber, com a maior naturalidade.
O primeiro é o de colocar a filosofia como uma disciplina qualquer: "O aluno é apresentado a um universo conceitual específico e, depois, nas provas e trabalhos, instado a mostrar como lida com as novas 'ferramentas'."
Ora, se há algo que, desde Kant e, mais fortemente com Husserl e Heidegger, vem acontecendo, é o de separar a filosofia da ciência, na verdade, eu diria que produzir conhecimento filosófico que não se reduza a proto-conhecimento científico é uma das características da filosofia contemporânea; dito isso, a filosofia não pode ser encarada como qualquer outra disciplina.
A filosofia não é uma "ferramenta" como a matemática ou a física; você não a "aplica" aqui e ali com o propósito de "fazer" isso ou aquilo. Foi o que eu disse no post passado, o aluno vai te perguntar "pra que serve?" e a resposta da matemática não serve.
O que Hélio diz reflete a ideologia (que permeia tanto a esquerda quanto a direita, é uma ideologia materialista afinal de contas) de que conhecimento útil é aquele que você pode aplicar na produção de algo, se filosofia não te ajuda a fazer calculadora, então ela tem que ao menos te ajudar a ser ético ou a ser moral ou te dar ferramentas epistemológicas para melhor absorver os conteúdos das matéria que de fato servem pra fazer calculadora, não, o problema aqui é diferente daquele das variações de mercado e, portanto, quem acha que a filosofia vai melhorar o mercado, vai trazer prosperidade econômica, como muita gente a favor da volta da filosofia parece estar achando, melhor pensar em soluções mais economicistas mesmo.
O que a filosofia tem a oferecer, é algo que a civilização muito precisa, que é uma postura crítica em relação a sua experiência de mundo. Isso não vai melhorar os resultados da eleição, não vai fazer calculadoras mais eficientes, me pergunto até se melhora a qualidade de vida pessoal ou social, mas faz seres humanos mais completos, mais aptos a lidar com o mundo, a "pensar por conta própria", não no sentido utilitarista que Hélio propõe (pensar melhor = aprender matemática mais fácil), mas em um sentido mais subjetivo. A filosofia cria desse modo uma parede contra obscurantismos e fanatismos, mas oras, obscurantistas e fanáticos podem ser excelentes trabalhadores, brilhantes pesquisadores e muito bons vizinhos, então a filosofia não serve pra isso ou pra aquilo, ela é o centro da nossa civilização e não há como pensar um ser humano ocidental como alguém que não compreende a filosofia, se não compreende, é vítima dela; é isso que tentamos impedir.

Mais adiante ele diz:
"É preciso passar também algumas referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais. A filosofia é uma boa candidata, mas está longe de ser a única. Por que não história da arte, direito, estatística, psicologia, medicina? O melhor, creio, seria deixar para cada escola definir o que convém mais a seu público."

Aqui ele confunde duas coisas.
Primeiro confunde filosofia com história da filosofia, como algo que dá "referências relevantes da cultura e da ciência ocidentais", mas tenho que perguntar, existe algo mais estúpido do que dar referência cultural a alguém que não se sente parte da cultura? A alguém que não compreende que esse mundo do qual falamos é o mundo em que ele vive? A alguém que não tem confiança de que esse conhecimento pode ser aplicado na sua vida pelo mero fato de ele não poder ser usado para lhe conseguir um emprego? Estaria melhor ensinando sobre vilões de batman, pelo menos o Batman é alguém que eles respeitam!
A filosofia precisa de fato fazer o aluno notar de que ele é um ocidental, que vive e pensa como ocidental e precisa ter consciência disso para não fazê-lo inconsciente, para pensar por conta própria ao invés de repetir pensamentos criados por humanos como se fossem pensamentos criados por uma luz desprovida de corpo. Isso é algo que só a filosofia pode fazer; confundir filosofia com "história da X" é, em primeiro lugar, confundir filosofia com história da filosofia.
É de fato estúpido achar que conhecimentos histórico vazio (coisa que nem uma boa aula de história é!) tem algum valor senão o de "curiosidades interessantes".
Confundindo isso, ele faz uma segunda confusão, que é o da obrigatoriedade da filosofia com a sua função. Concordo que deveria caber a escola escolher sua grade e não ao MEC, mas tem que ser notado que uma escola que escolha "história da arte" como *substituto* para filosofia, está cometendo uma confusão.

Por fim: "Meu propósito central nesta coluna é mostrar que a volta da filosofia e da sociologia ao ciclo básico não passa nem perto de ser uma solução para a grave crise que a educação enfrenta hoje."

Isso eu concordo e isso ele demonstra razoavelmente bem, então no geral foi uma boa coluna, apesar de que ele faz confusões típicas de alguém que viu muita história da filosofia e pouca filosofia. Deve ter se formado na USP.

domingo, junho 08, 2008

Filosofia de volta ao ensino médio.

Se ensinar filosofia fosse ensinar história da filosofia, eu não estaria preocupado, bastaria fazer o caminho "de heráclito a heidegger" (pulando um monte de gente) e estariamos resolvidos.
Acho que a maioria dos professores vão acabar ensinando história da filosofia; alguns vão tentar algo diferente e acabar caindo numa de "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e outros poucos vão dar boas aulas.
Eu vou ser um desses professores de filosofia e não sei em qual categoria vou cair; não gosto da idéia de ser do primeiro tipo, não sei se tenho capacidade pra ser um "bom professor", então vou ficar em algum lugar do "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e aqueles que confundem aula de filosofia com aula de sociologia achando que eu tenho que necessariamente falar sobre o MST ou sobre a Al Qaeda agradecerão que ao menos eu não estou pisando no pé de ninguém por ser um cara mais metafísico.
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Dito essa besteira toda, é preciso levar em consideração que a filosofia está em crise (ok, a filosofia está SEMPRE em crise, é o que faz ela tão divertida), mas recentemente numa pesquisa que a "The Philosophers Magazine" fez com um grupo de filósofos acadêmicos norte-americanos (i.e, filosofia analítica) perguntando "a filosofia tem algo a dizer sobre grandes eventos, por exemplo, o 11 de Setembro" e uma grande parte respondeu que não, que coisas como "universais e particulares" ou "monismo e dualismo" não tinham nada a ver com o que as pessoas passam no seu dia a dia; é claro, do lado da filosofia continental, todo o povo influenciado tanto pelo pragmatismo marxista quanto pela fenomenologia discorda e é um motivo pelo qual eu escolho esse povo, mas mesmo assim, parece pra mim claro que, seja qual for o motivo, a filosofia não tem (eu ia dizer "perdeu", mas resta a questão se ela já teve) um contato assim tão direto com a vida das pessoas (se tivesse, alguém como Rorty simplesmente não existiria).
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Então eis os problemas que um professor de filosofia terá que enfrentar:

1 - Ele terá que "ganhar" os alunos.

Mais do que qualquer matéria, filosofia não pode ser alienada. Ela tem que FAZER PARTE da vida de quem aprende. Isso acontece por uma dupla de motivos:
O primeiro, mais óbvio, mais superficial, mais bobinho, é o de que filosofia não é algo tão valorizado no mercado de trabalho, "mas Rodrigo! Deveria ser!" sim, eu sei, então faça suas malas e vá para o mundo possível lebniziano em que a filosofia é valorizada no mercado de trabalho. Hoje não é. Logo, se algum aluno perguntar "pra que serve isso?" (e um bom aluno deve sempre ter essa pergunta na ponta da língua) o professor vai ter que dar uma resposta e a resposta do professor de matemática "serve pra construir calculadora" não vai servir. Então, o que você vai responder?
Segundo é que filosofia é um tipo de conhecimento fora do escopo da técnica; seja ele pré-tecnico, pós-tecnico ou simplesmente tratando de temas ou visões que a técnica simplesmente não consegue tocar; a filosofia não é um conhecimento que você usa pra algo senão na sua vida como ser humano. Agora, esse é o engraçado; isso torna a filosofia ao mesmo tempo inútil (em um certo contexto) e universal: ela é inútil porque você não vai usar a filosofia pra construir uma máquina do tempo, mas ela é universal porque ela serve pra você não importa o que você vai fazer com a sua vida, MAS (e aqui vem a jogada) o professor vai ter que CONVENCER os alunos disso, porque, dada a sociedade utilitarista e cientificista que vivemos, isso NÃO É auto-evidente.

Agora a minha pergunta é essa: A dificuldade em convencer alunos de que algo tão próximo da vida deles é um conhecimento que vale a pena adquirir é um problema pedagógico ou filosófico? Porque se for uma questão de técnica de ensino, então que nos afundemos em livros de psicologia juvenil e resolvamos o problema, mas se A PRÓPRIA FILOSOFIA tem algo em si que impede essa aproximação, então temos um problema que nós, como filósofos, vamos ter que resolver durante as aulas.

Isso pra mim é importante porque não é uma mera questão de criancinhas sabendo em quem votar nas eleições, de novo, eu sou um cara metafísico, em 100 anos estaremos todos mortos, o que eu me importo com as eleições? O meu problema é filosófico e não político. O problema é o seguinte: Se a filosofia não consegue cruzar a ponte entre teoria e vida, então ela NÃO EXISTE, em outros termos, o VALOR DE VERDADE de uma teoria não é só sua validade lógica, mas também o sentimento de "faz sentido" que ela desperta nas pessoas. A técnica pode se dar ao luxo de ser esquisita além de toda compreensão porque ela faz máquinas; eu não preciso saber como mecânica quântica funciona porque eis suas descobertas fazendo meu computador funcionar (eu acho), mas se o propósito da filosofia são respostas que contém uma certa universalidade, então ela se comprova quando cada ser humano percebe que há algo aí que faz sentido. Do contrário é a lógica ditando regras pra si própria e se auto-validando em circularidade.
Esse tipo de masturbação intelectual não é só socialmente estúpido, como também faz pouco sentido.
Esse tipo de postura frente a filosofia cria zilhões de problemas, um que eu consigo pensar de cara é que o "faz sentido" se dá socialmente e não pela nossa "condição de ser humano" e a única resposta que eu tenho pra isso é que sou um cara pós-moderno, razoavelmente bonito e não me importo se minhas teorias deixarem de funcionar daqui 50 anos quando eu for feio.

2 - O professor terá que saber, ele próprio, o que é filosofia.

Repetindo que a filosofia está sempre em crise; saber o que é filosofia é o tipo de coisa que fica mais difícil quanto mais você se aprofunda em filosofia. Eis uma crença estúpida que eu tenho: Quanto mais clara a visão de filosofia de um professor, menos ele entende do assunto.
Se você conseguir chegar em uma sala de aula, dizer "filosofia é X" e acrescentar "quando eu perguntar na prova é essa a resposta que eu quero receber", então você está fazendo alguma coisa errada.
Agora, você vai ter um monte de adolescente bobocas e iletrados na sua frente cujos objetivos são sexo e dinheiro para o sexo; você vai ter que conquistar atenção deles e, não só isso, passar conteúdo (se tudo que a filosofia demandasse fosse "ganhar" os alunos eu estaria advogando palhaços de circo ou publicitários e não filósofos), agora vem a questão de qual conteúdo você passa.
Repetindo, se o propósito fosse ensinar história da filosofia, estaria resolvido, mas não é: você vai ter que dizer algo que tem de fato algum conteúdo que valha a pena ser passado. Eu sou totalmente pró começar um curso de filosofia com Tales de Mileto, mas dizer "é o cara que disse que tudo é água" é insuficiente, você vai ter que "entrar" no autor, tirar algo dele que tem valor filosófico (seja lá o que isso signifique) e que faça sentido para esses monstrinhos estúpidos que serão seus alunos.
Ao fazer isso, eu espero que o professor em questão não tente fazer o que certos livros populares de filosofia atuais tem feito. Que é dizer "no que Tales se parece com os simpsons" ou algo do tipo; isso não é nem sequer analisar os simpsons filosoficamente, é simplesmente fazer cegas relações de idéias. Eu também espero que o pobre professor de filosofia não tente dizer "isso é importante pra você sair lá fora e mudar o sistema!", isso é besta e ei, a escola já tem um professor de sociologia. A filosofia é universal porque ela tem que tocar o aluno em um ponto humano aquém e/ou além do seu contexto social, mas ela tem que fazer isso EM RELAÇÃO ao contexto social pra não se tornar alienação e, repetindo, uma filosofia alienada é uma filosofia que não existe.
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Enfim, tem muito mais o que dizer e eu provavelmente falei besteira demais already, o ideal seria eu chegar aqui e dar um exemplo de como se dar uma aula de filosofia e talvez um dia eu o faça ou talvez eu me desinteresse desse assunto todo, quem sabe, né?

segunda-feira, junho 02, 2008

O Crepúsculo



Somos uma civilização que cresceu acostumada a promessas.
Promessa de felicidade, paz eterna, prosperidade, liberdade e progresso, nessa vida ou na próxima, em lados opostos em um debate não há nenhum que cedo ou tarde não diga que é melhor por ser mais capaz de cumprir suas promessas.
Olhemos para o horizonte, a perfeitamente retilinia linha entre o sol e o oceano infinito, o que ele nos promete?
Com um certo tipo de olhos, ele nos promete qualquer coisa, qualquer maravilha, qualquer tragédia, é só olhar com um certo tipo de olhos.
O infinito é uma mentira.
Nos conta mentiras.
Poderosos homens, com suas máquinas e suas leis, porque ainda se encolhe na sua cama e chora o medo de ficar sozinho? Porque ainda se preocupa em fracassar? Pra quem é preciso provar seu poder? O planeta ainda não se ajoelhou o bastante? Deuses o suficiente não foram assassinados? Quantas verdades ainda há para descobrir? Quantas peças do quebra-cabeça são necessárias para que você pare de chorar? Quantas vezes você ainda vai ter que trair sua esposa e decepcionar seus filhos para perceber que é indigno? Quantos ainda vai precisar afastar da sua vida para que consiga afastar a si próprio?
Nos prometeram tanto e ainda estamos aqui, desesperados para sentir algo, obcecados como Xerxes, oferecendo qualquer fortuna a quem invente um novo tipo de prazer. Pertubados e infelizes como sempre fomos.
O sol se põe e o infinito morre em uma linha perfeitamente reta e se tivermos sorte nossa vida vai terminar com o apito de uma máquina e uma linha perfeitamente reta, pois que morramos entubados e conectados a algo significa que estamos a morrer como homens, como seres que sabem e que transformam.
E a parte mais gloriosa de nossa marcha fúnebre é quando um bisturi abre o corpo que já não somos mais e desvenda os mistérios da morte.
Os ritos, a despedida, se vamos ser enterrados ou cremados, esses são ecos do passado, nossa porta no Valhalla é aberta na autopsia, o momento que brilhamos é quando nós mesmos somos um mistério e se somos chatos, entediantes e óbvios em vida, seria digno que ao menos sejamos um problema na morte, pois eis que honramos nossos filhos ao nos tornarmos um problema para que eles resolvam.
A glória do ser humano é ser problemático ou se encontrar com o problemático.
A felicidade é nossa corrupção.
O inferno é onde não há sofrimento.
Pois o jogo tem que ser jogado.
Somos uma civilização que joga o jogo de saber coisas.
E a recompensa?
Uma promessa.

sexta-feira, abril 18, 2008

The Guardians of the Galaxy!!!!



Como que ninguém nunca pensou antes em colocar uma Quasar lésbica de cabelo branco junto com Rocket Raccoon e StarLord?
Às vezes as melhores idéias estão na nossa frente o tempo todo.

segunda-feira, abril 14, 2008

My name is Dexter and I don't know what I am, I just know there's something dark in me ... and I hide it.
I certainly don't talk about it but it's there. Always. This dark passenger... and when he's driving I feel alive - half sick with the thrill and the complete wrongness.
I don't fight him. I don't want to. He's all I've got. Nothing else could love me, not even ... especially not me.
Or is that just a lie the dark passenger tells me?
Because lately there are these moments when I feel ... connected to something else. Someone. It's like the mask is slipping and things - people - who never mattered before are suddenly starting to matter.
It scares the hell out of me.

domingo, abril 13, 2008

Quando o resultado é o oposto do objetivo

O que sempre me espantou no socialismo nunca foi que eles tenham falhado em chegar a utopia, mas sim que o socialismo sempre leva ao absoluto oposto do que eles sempre propuseram. Então o socialismo propõe igualdade material e o resultado sempre foi um oceano sem fim de miseráveis, nenhuma classe média e uma "cúpula" de governantes mega-ricos do outro; socialismo propõe democracia e decisão comunitária e o resultado sempre foi algo um tanto mais tirânico que uma monarquia absolutista; socialismo propõe educação universal e o resultado sempre foi censura, escolas doutrinárias, etc.
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Da mesma forma, me incomoda que durante meses, certos CDs que estavam "desorganizadamente" perto do meu computador foram RETIRADOS de perto do meu computador PARA QUE eu não os perdesse e agora estou HÁ DUAS HORAS os procurando sem sucesso!
DUAS HORAS procurando CDs que estavam A MINHA VISTA e que foram RETIRADOS DA MINHA VISTA com o propósito para que eu os ACHE MELHOR! Quero dizer! Que porra de mundo doente é esse em que vivemos? Como que se espera que retirar os CDs daonde estou vendo e colocá-los em um lugar que eu não vejo vai aumentar minha capacidade de encontrá-los? Espera-se que eu faça uma pesquisa metafísica sobre sua localização? Que eliminando o espaço da minha forma da intuição sensível, a localização destes se torne irrelevante e eu possa alcançá-los por meio da coisa-em-si?
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É um mundo ilógico, vou te dizer.

quinta-feira, abril 10, 2008

Respostas

A primeira crítica que eu faria aos comentários do Jonatas é a ausência de e-mail que me obrigam a fazer esses posts; isso qualifica o caráter desonesto de meu adversários e deveríamos ignorar suas críticas, pois ele é feio.
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"Em universidades particulares, creio que sempre haveria espaço para o estudo da filosofia, visto que é uma área fundamental. Se o propósito da universidade pública é ser uma universidade, de forma que o governo dê estudo à população contribuinte, essa universidade deveria ensinar aquilo que as universidades em geral ensinam, e caso não ensinasse filosofia, correria o risco de deixar em branco uma área fundamental do conhecimento."

Eu fiquei pensando também se eu não tinha feito uma distinção involuntária entre ensino de filosofia e pesquisa em filosofia. De fato, a distinção existe e embora eu não ache que uma universidade talvez seja o lugar ideal para se ensinar filosofia (quando eu falo que o lance mesmo é um jardim, eu falo sério), acho que não existe aprendizado de filosofia sem professores, de fato, sinto o medo do fim da faculdade porque é questionável o quanto eu consigo aprender com as pernas próprias. Sem professores, eu não me garanto estudando mais do que um ou dois assuntos de uma vez, já a faculdade te coloca vários sempre. Então eu concordo com você que filosofia não deve deixar de ser *ensinada*, assim como música não deve deixar de ser ensinada, mas assim como um monte de gente aprende música fora da universidade (é a regra, aliás), acho que seria bom pensar em alternativas para se ensinar filosofia fora da universidade.

"Discordando do seu exemplo, acho que a ciência precisa da filosofia para avançar, pois a filosofia define a ciência. Por avanços na epistemologia se ganha avanços na eficácia da ciência, mesmo que seja pela crítica a um método científico ou outro, e pela defesa de uma pluralidade de metodologias (estas ainda sendo definidas pela filosofia), à la Feierabend."

Aqui eu vou discordar da discordância, filosofias da ciência sempre me pareceram uma tentativa de abstrair o que o cientista faz intuitivamente; embora é fato que a filosofia tem muito a contribuir com a ciência e essa avança melhor se presta atenção à certos estudos, eu tenho dificuldade em ver como que uma definição conceitual de ciência colabora para o avanço dessa dado que o método esteja produzindo resultados e crítica de métodos cai brilhantemente no que eu chamo de *complemento*, no que a filosofia *colabora* para o avanço de uma área, mas repito, se o método produz resultados, então eu não chamaria a filosofia de *necessária*.
Pensemos o seguinte, a filosofia é um aditivo e a ciência o combustível. O aditivo faz o combustível render mais e funcionar melhor, mas o carro anda tranquilamente sem ele.
Necessidade é uma palavra forte.

"Discordando de outra afirmação, "a filosofia não é *necessária* pra nada", todos temos escolhas na prática que dependem da filosofia, e interessa que a filosofia seja a mais avançada possível, portanto, é necessária (para um "bom" andamento da sociedade)."

De novo, o problema aqui é a palavra necessidade.
Acredito enormemente que a filosofia contribui em muito com o bom funcionamento da sociedade, mas uma sociedade *necessita* de filosofia? O Brasil é uma sociedade bem sem filosofia e as consequências nefastas disso são visíveis, mas male male, somos uma sociedade, que só temos a crescer com a filosofia, só temos a permanecer na mediocridade sem a filosofia, mas, afinal de contas, a sociedade não deixa de funcionar.
Mas aqui você coloca um ponto importante e eu vou adicionar isso na minha grande teoria e não te pagar royalties quando ficar famoso. A filosofia não é necessária para o andamento de nada, mas ela é necessária para um *bom* andamento das coisas.

"Discordando ainda mais, acho que a filosofia fez progressos nos últimos tempos, como na imaginação de um transhumanismo, ou na filosofia da mente, com Dennett e Chalmers, por exemplo."

O problema da filosofia, de certa forma, é o mesmo da teologia; no sentido que é uma disciplina puramente teórica.
Porque, por exemplo, temos uma filosofia da mente e não uma ciência da mente? Porque uma mente não é uma coisa que eu observo, não é algo que eu posso retirar de um corpo e fazer testes, etc.
Nesse caso, a filosofia tem muito a ver minha noção de teologia, porque ambas se beneficiam enormemente de pesquisas empíricas para criar "objetos possíveis".
Então uma filosofia da mente não vai comprovar que a mente funciona dessa ou daquela maneira, ela vai dizer "dado que o cerebro funciona assim, é *possível* que a mente funcione dessa forma". Note que se um dia a ciência conseguir reduzir fenômenos mentais a fenômenos fisiológicos, então desaparece a figura do filósofo da mente, fica somente o cientista no seu lab dissecando cerebros; a filosofia é, portanto, um modo de visualizar possibilidades (ou potenciais) que o cientista não faz, porque o cientista ele deve se manter fiel ao que foi observado, ao que foi estudado, etc; a partir do momento que o cientista pensa "uau, a mente faz essa coisa, mas eu não consigo achar uma explicação química pra isso", entra o filósofo dizendo "bom, tenho uma teoria" - daí que a filosofia cria sempre teorias e nunca leis.
Aqui eu falo tomando certo cuidado porque desconheço as teorias de Dennett, Rodrigo é um cara mais metafísico, vai mais pra hermenêutica (embora desconheça também, Rodrigo não sabe de nada), mas eu vou fazer uma aposta que Dennett e Chalmers têm, ambos, alguns opositores e que a divergência de argumentos está no modo de interpretar dados empíricos e não nos dados em si. Arrisco até a dizer que, do ponto de vista de um neurologista, não há como decidir quem está certo e quem está errado.
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Isso é uma coisa que eu deixei de dizer no post, mas filosofia, apesar dos pesares, não difere tanto da sua forma original na Grécia, no que agrupados de seitas, por um lado, discutiam seus principios entre si e, por outro, desenvolviam suas visões de mundo baseado nesses principios. Uma vez que uma seita rejeita os principios das outras, os detalhes e conclusões de cada seita só vale para a própria seita.
Na filosofia ainda usamos muitas seitas, temos os "empiristas", "racionalistas", "realistas", "nominalistas"; a escola da "filosofia analítica", a escola da "fenomenologia", a escola da "teoria social crítica", etc. todas com príncios diversos e com conclusões que só fazem sentido se você estiver nesses princípios. De novo, isso é uma característica e não uma fraqueza da filosofia. Funcionamos muito bem assim e nossas disputas são orgias de conhecimento e diversão, além do mais, a pluraridade de teorias que essas divisões proporcionam mantém o mundo aberto e cheio de possibilidades; cumprem o sagrado destino da filosofia que é o de criar mundos em potência.

Inimigos invisíveis

Parece que a mídia descobriu como ativar um gatilho mental que leva o brasileiro, considerado tão conformado pelo senso comum, a se chocar. A vítima deve ser uma criança.
Um povo que dá maior valor à familia e à comunidade do que à nação, o brasileiro se vê pronto para perdoar e até ignorar o mal que a nação faz a ele. Impostos altos, querelas entre partidos que usam CPIs e "dossiês" para eliminar adversários, burocracia ineficiente, polícia violenta; esses são ataques que o brasileiro não se incomoda. Políticos são políticos e prejudicar a vida da população é sua função no mundo, afinal de contas, então qualquer escândalo político (e pesquisando "escândalo" no google, a primeira resposta que surge é o "escândalo do mensalão") não é mais do que uma irritação e a indignação se reserva aos que já eram opositores do partido antes do escânda-lo.
O mesmo, de certa modo, se reserva à violência urbana. Um crime não é algo exatamente imoral; o criminoso, sendo um criminoso, comete crimes, é da natureza dele e a prisão, antes de ser uma punição, existe mais como risco necessário a profissão. Eu acordo às 8 horas da manhã e encaro um chefe que me trata mal e ele corre o risco de ser preso, o crime é desonesto só quando é fácil demais, só quando faz pensar "porque eu não escolhi essa vida?"; de resto, a profissão de ladrão, assim como a profissão de político, é só uma profissão como qualquer outra. Você não quer seu filho envolvido nessas coisas, mas maldizer seus participantes é uma certa falta de elegância, a nossa nação é uma que nasceu do desejo de exploração por parte do poder político de sua época e a lei sempre foi algo que, de forma ou de outra, servia para protegê-los da população e nunca a população de si mesma. É difícil imaginar um Brasil com políticos honestos e leis que são aplicadas porque obedecer as leis significa obedecer essas pessoas que, pela sua natureza, só querem te prejudicar, não há uma enorme diferença entre obedecer a lei e obedecer o criminoso. Obedecemos a ambos, mas só quando estes nos apontam suas armas.

Existe algo, entretanto, que está pertubando essa ordem. O brasileiro, esse povo que vê o inaceitável como cotidiano e até compo expressão de ordem, se choca com a morte de crianças. Os trombadinhas não assustam tanto os brasileiros, que crianças matem pessoas é uma extensão levemente mais trágica do problema do criminoso comum que mata pessoas e crianças que são presas ou mortas na guerra contra o narcotráfico estão pagando pelo risco de sua profissão; mas que crianças inocentes sejam arrastadas pela rua e defenestradas, existe algo que o brasileiro, povo tão compreensivo, se recusa a compreender.

Lendo um artigo sobre sectarianismo, a questão da guerra civil surgiu eventualmente. Uma guerra civil em geral dura mais e mata mais do que guerras entre estados, não só isso, como há um clima de inimizade maior entre seus participantes, é mais pessoal. O artigo cita o historiador grego Tucídides, que viu na guerra civil de Corcira uma barbárie maior do que na guerra entre Atenas e Esparta, o que espanta na guerra civil é o estado de completa ausência de leis e de moral; amigos se traem, templos são destruídos, não há só a matança, há um tipo de imoralidade imperdoável, pois a moral e as leis são bens sociais, se a sociedade está contra si própria, então as regras do jogo são as primeiras a irem embora. É essa a sensação que o brasileiro experimenta quando se indigna com a morte das crianças, que alguém está quebrando as regras do jogo, se o brasileiro entendia, racionalmente, que matar e roubar eram crimes, é por meio das crianças que ele sente, em um lugar separado da razão, que alguém está fazendo algo de errado.
O brasileiro se choca enquanto clama por uma moralidade que acredita ainda existente, mas perigosamente violada vezes demais, a coesão social existe, mas ele sente ela se desfazendo diante dos seus olhos e cada vez mais a mídia notifica história de crianças mortas, ela sabe que o brasileiro vê isso como algo fora da esfera do aceitável.
Esse é um jeito que a moral usa para se manter, ainda vive, mas pede ajuda; a minha preocupação é o que acontece depois que a moral desaparecer, pois a moral é uma espécie de contrato, enquanto confiamos que ela existe, confiamos que ela não será quebrada, pois a existência da moral e sua obediência são uma e a mesma coisa, sem esse contrato, resta o medo e se o sentimento de que uma moral está decaindo é um sentimento que o brasileiro está de fato sentindo, então uma história completamente outra vai ser quando ele de fato sentir que a moral não mais o protege, porque o medo é um sentimento não só separado da razão, mas que anula esta e o que acontece depois disso, saberemos apenas pelo horror dos historiadores.

quarta-feira, abril 09, 2008

Filosofia e a universidade

Ok, esse é um assunto complicado e polêmico (quer dizer, mais ou menos, nada na internet é realmente polêmico), mas eu estou me tornando cada vez mais convencido que universidade não é lugar de filosofia.
É claro, isso vem de algo que ocorreu na minha vida pessoal (uma certa Universidade São Judas Tadeu atingindo níveis épicos de desonestidade e estupidez demitindo sua melhor professora sem nenhum bom motivo só porque alguma criança que provavelmente só conseguiu seu emprego por nepotismo acreditou que era uma boa idéia), mas enfim, tem a ver com o tema, é da vida mesmo que nós extraímos nossos temas.
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O Guardian financiou um debate ontem a noite (que eu só fiquei sabendo hoje de manhã) cujo tema era se o governo deveria parar de gastar dinheiro com as "humanities", o resumo da posição do "Sim" é "essa gente não constrói coisas, portanto são inúteis" e o resumo da posição do "Não" é "educação é mais do que construir coisas, filisteu iletrado"; no fim, eu discordo de ambos.
Num geral, eu concordo que o governo não deveria financiar a pesquisa de filosofia, mas isso é uma trapaça, porque, num geral, eu concordo que o governo não deveria financiar pesquisa nenhuma (uma falácia que pode ser apontada no argumento do "Sim" é que se o governo tiver que financiar alguém, tem que ser justamente quem não produz coisas pro mercado, porque se for pra financiar pesquisa de um novo combustível que a Shell vai usar, oras cacetada, que a Shell financie a pesquisa [coisa que ela faz -- de forma mais eficiente que o governo, acredito]); por outro lado, o argumento do "Não", bom na teoria, esbarra na prática; é claro que o estudo das "humanidades" ajuda a criar uma sociedade mais tolerante, aberta, iluminada, com pessoas que votam melhor e pensam melhor; mas isso só acontece se o estudo em questão *atingir* a sociedade e *dentro da universidade* isso não acontece.
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A universidade funciona de tal modo que suas pesquisas se restringem muito facilmente a quem "é da área"; isso não tem problema no caso da robótica, porque eu não quero saber o que eles estão fazendo dentro de seus labs enquanto discutem se o que é melhor é Battlestar Gallactica ou Firefly, eu só quero seus robozinhos na minha casa. Agora no caso da filosofia (e até da história, diria); isso é imbecil, porque a filosofia não tem um produto pronto separado da pesquisa que eu vou usar na minha casa mesmo sem saber como funciona, se a sociedade não tem acesso ao estudo do pesquisador, então a filosofia perde sua utilidade pública (restando a utilidade particular, que eu dou muito valor, mas que discordo que deva ser financiada por uma universidade, mesmo uma universidade particular).
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A piada que surgiu ontem na faculdade, é que a filosofia, caminhando tão próxima a ciência, "está parasitando o corpo errado", porque a ciência não precisa da filosofia pra avançar, aliás, a ciência precisa da filosofia que é pra se acalmar um pouco e não sair avançando cegamente por aí inventando bomba atômica enquanto tem gente passando fome.
Enquanto isso, existem outras áreas que sim precisam sempre da filosofia, acho que a ética é o exemplo maior, porque não dá pra estudar ética do ponto de vista científico (ou assim eu me convenço pra ter alguma esperança de um dia ter um emprego), minha concepção de ética é meio diferente da habitual, mas não quero entrar nesse assunto agora, a questão é que ética é um exemplo tão bom porque ela é exatamente o tipo de coisa que é especialmente estúpida sendo positivista.
Uma ciência positivista pode não ser o melhor dos mundos possíveis, mas ela avança, agora, o que é uma ética sem pessoas agindo? É física sem particulas se movimentando ou biologia sem organismos.
A idéia de fazer uma ética sem viver as conclusões que você chega é inútil completamente; uma ética que não tenha a pretensão de fazer com que os outros vivam suas conclusões é inútil publicamente.
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Seja como for a relação entre filosofia e ciência, e tal relação certamente tem que existir por esse e aquele motivo (e "esse e aquele" motivo não é o progresso da ciência, pois, de novo, defendo que esta anda bem por conta própria), quero aqui sublinhar algo:
Filosofia não é ciência (ok, eu negritei e não sublinhei, me processem)
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Filósofos passaram séculos tentando "salvar a filosofia" pensando "como fazer da filosofia uma ciência"; eu sei que estou longe de ser o primeiro a fazer isso, mas vou aqui adotar a estratégia oposta. Acho que a filosofia pode se tornar aquilo que tem o potencial de ser (já chego lá) admitindo que não é ciência e parando de tentar ser ciência.
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Desde Platão existe a choramingação filosófica de que as pessoas não dão atenção suficiente à filosofia e durante toda a história a filosofia recebeu mais ou menos atenção por esse ou aquele motivo.
Na era medieval recebia atenção por estar tão ligada a religião, no séc. XVIII por estar tão ligada a ciência, no séc. XIX tão ligada a política e na primeira metade do séc. XX porque ajudava a pegar as burguesinhas sucidas que tinham aqueles lindos cabelinhos coco chanel e que graças à Baco voltou a moda.
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Acho que de certo modo, isso indica algo sobre a filosofia, que antes de ser visto como fraqueza, tem que ser visto como uma característica. A filosofia é, se não sempre interdisciplinar propriamente dita, então sempre ligada a algo além dela. Isso é meio triste de dizer porque de certa forma dá menor importância a metafísica, que pela própria natureza dificilmente se liga ao mundo físico, mas eu vou dizer que esse é um problema da filosofia fingindo que é ciência porque Schopenhauer fez um metafísica que era tudo, menos desconexa do mundo e aqui vem minha crítica aos pragmatistas (que poderiam ter a impressão que estava defendendo sua escola).
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A filosofia, ao mesmo tempo que não caminha por conta própria, tem que ser muito mais do que "crítica cultural" ou política; esses dias eu tava choramingando sobre aquele livro "A cura de Schopenhauer" ("Malditos escritores de auto-ajuda!") quando minha mãe disse "toda filosofia é auto-ajuda" e eu certamente discordo, mas particularmente falando, se eu tiver que escolher entre uma filosofia que fala sobre bem estar e uma filosofia que fala sobre política, eu fico com a auto-ajuda, isso é gosto pessoal, lógico, mas o pragmatista fracassa nos próprios objetivos por dois motivos:

1) Eles ainda estão na universidade e, não conseguindo sair da universidade, fingem que o melhor jeito de ser pragmático é fazendo pesquisa sobre política ou cultura e alimentando think thanks de sociologia. Limitados pelo meio, eles fingem que a disciplina precisa ser limitada e que certos temas tem que ser eliminados para melhor servir a universidade, partindo da falsa premissa que a universidade é uma ponte para a sociedade.
Bem, não é, de novo, eu não faço idéia do que o pessoal da pós-graduação de educação física da minha universidade faz, mas no caso deles não importa, porque se um dia eu decidir deixar de ser sedentário (haha, yeah right), a pesquisa dele vai ser fazer efeito na minha vida mesmo que eu não saiba como ("seu alienado!" boo hoo, cry me a river, passo boa parte do meu dia lendo Schopenhauer e não vou deixar de fazer isso pra descobrir como minhas AMALDIÇOADAS enzimas funcionam). O mesmo não acontece com a filosofia, eu não posso esperar que minhas pesquisas em filosofia transplantem apenas suas conclusões por meio da política ou da "crítica cultural".

2)O pragmatista deixa de perceber que o objeto da filosofia, afinal de contas, é a totalidade da experiência humana, em uma reportagem do NY Times sobre o aumento da procura de cursos de filosofia, um aluno diz “You can talk about almost anything as long as you do it well.” e é exatamente isso meu caro Max Bialek, quando os pragmatistas choramingam que falar sobre universais é perda de tempo, eles esquecem que a parte mais importante da filosofia é que, desde que você esteja bem informado ("do it well"), você pode falar sobre qualquer coisa; filosofia, extremamente diferente da ciência, não depende tanto assim dos seus resultados finais, o ato de filosofar é tão importante (talvez até mais) do que chegar a uma conclusão sobre a democracia ou reality shows.
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Voltamos então, ao nosso ponto de partida.
Filosofia não é uma ciência e, não sendo, ela avança de forma bem mais lenta. Dizer que a filosofia não avança é um exagero, existem certos consensos que norteiam as pesquisas; chegamos a conclusão de que não dá pra dizer que deus criou o melhor dos mundos possíveis e "a vida virtuosa é X" ou coisas do tipo; é claro que mesmo o maior dos consensos em filosofia não é unânime e pode legitimamente ser desafiado (diferente da ciência que segue certos preceitos que não podem ser desafiados sem que isso envolva reestruturar toda a disciplina), mas a idéia de um "pesquisador de filosofia" ter que cumprir uma exigência do MEC de produzir X artigos que avancem a pesquisa nessa ou naquela área me assusta um pouco, isso faz com que existam avanços no estudo da história da filosofia, por exemplo, que é um exercício que pode ser filosófico como pode ser mera pesquisa empírica ("esse cara tinha esse argumento, ao contrário do que todo mundo pensava") que é, na minha opinião, a forma que um doutor usa para fingir pros burocratas que está trabalhando, porque ninguém do MEC jamais vai saber a diferença entre fazer filosofia e um texto de 150 páginas sobre um sujeito do séc. XV que acreditava que deus era um coqueiro e ei, se eu não sei, como que os políticos vão?
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Existe nesse tipo de opinião sempre a sombra da filosofia analítica dizendo "nós fazemos progresso! De verdade!" e filosofia analitica é uma que realmente se adequou a universidade e embora pragmatistas sejam choramingões, a filosofia analítica me parece genuina o bastante, mas ela acaba sofrendo mais gravemente do que as demais com os problemas do "positivismo filosófico" porque nem mesmo a filosofia analítica, por mais próxima da ciência que esteja, monta robozinhos. Aí alguém pode dar exemplo de filosofia da linguagem, da mente, cognitiva, etc. que vez ou outra dão uma palhinha pra ciência, isso de nenhuma modo é impossível e de nenhum modo deve ser rejeitado, mas o meu ponto é que o que quer que seja a filosofia, ela não deve ser limitada e se a filosofia analítica faz avanços no estudo do que entendemos pelo conceito de "substância" ou "matéria", excelente, mas porque exatamente uma universidade deveria gastar dinheiro com isso? Eu jamais perguntaria a utilidade de uma pesquisa feita com recursos próprios, muito pelo contrário, acho que toda pesquisa em filosofia tem a mais alta importância, mas é um tipo de importância que não é (e acredito que não deveria ser) a importância da universidade.
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Que tipo de importância tem a filosofia, então?
Essa é uma pergunta que eu não vou me atrever a responder num blog (ou em qualquer lugar), primeiro porque depende de que filosofia estamos falando ou de que área da filosofia, etc; mas eu vou dizer que a filosofia não é *necessária* pra nada, por outro lado, ela *complementa* tudo. Um pesquisador científico *pode* pesquisar sem filosofia, mas ele o fará melhor se tiver a filosofia do seu lado, assim como uma pessoa *pode* viver seu cotidiano sem filosofia, mas ela o viverá melhor do seu lado. Essa é uma resposta um pouco padrão, meio de professor do ensino médio querendo convencer a criançada a calar a boca e ouvir o quanto Platão é legal; eu acredito nisso, mas acho que esse é um jeito de dizer o que acredito de modo utilitário e assim me sabotar fazendo um paralelo quase inconsciente com a ciência e com o pragmatismo.
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O principal, acredito, está no potencial da filosofia (falei que chegava no assunto) de se complementar a toda a experiência humana, não sob a forma de utilidade ou de "fazer melhor", mas simplesmente sendo a si própria e, se não necessarimamente enriquecendo a vida humana, mas simplesmente anexando a ela um conhecimento que ela não conseguiria de outra forma, não é um conhecimento que necessariamente leva a paz, felicidade, progresso, etc; embora certamente exista a possibilidade de contribuir para esse ponto; mas é um conhecimento que nos garante o direito de ter uma visão mais ampla do mundo, garantindo que não só que "falemos sobre tudo", mas que vivenciemos mais; o potencial da filosofia, afinal, está justamente em criar potenciais em qualquer esfera a que se "junta". A filosofia, afinal, precisa do seu caráter parasita e se ela deve existir na universidade, peço que ao menos seja interdisciplinar, pois senão é um cachorro perseguindo o próprio rabo. Isso de nenhuma forma significa, como os pragmatistas pretendem, que fiquemos a tentar adivinhar o que é exigido da filosofia.
A coruja de Atena, afinal, levanta voô na hora que ela bem entender; antes de ser um parasita (como tenho dito aqui) a filosofia é mais um organismo simbiótico, mas como é ela que necessita da vida e não o contrário, é ela que tem que dar o primeiro passo, exigir que a coruja da minha linda Senhora só levante voô ao anoitecer é colocá-la na arquibancada de processos que deveria estar participando ativamente, sim, a coruja sempre voa, a todo momento, pois desde que forneceu a seu povo eleito a árvore de oliva, ela jamais deixou de caminhar ao seu lado; o que quero dizer é que o filósofo abre a boca a hora que quiser, desde que "do it well" sobre o assunto que quiser, desde que esteja ligado ao mundo que faz parte, isso não significa, de novo, tentar adivinhar o que a sociedade exige dele, pois não é raro que a grandiosidade do filósofo esteja em apontar como doente algo que a sociedade acredita ser saúde ou o contrário, que aliás me parece mais razoável muitas vezes (apontar como "sem problema" o que as pessoas odeiam) e, afinal, não só "pensar sua época em conceitos", mas pensar conceitos pretensamente eternos, mesmo acreditando que não serão, porque é no exercício de criar postulados que o filósofo revela mundos possíveis, descobre potenciais; se imperativos categóricos aparecem e caem todos os dias, os hipotéticos permanecem; ninguém realmente tenta agir como se seu ato pudesse se tornar uma máxima universal, mas oras bolas, ainda estamos atrás da paz eterna. A paz eterna é um exemplo da coruja de Atena voando em dias que sequer existem, pois minha Senhora é poderosa assim mesmo.
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Eu sei que não fui claro e eu sei que tem muito a dizer, esse texto não terminou e acho que não teria como terminá-lo, a conclusão geral é que se a filosofia se pretende como algo que abarca totalidades, ela deve se libertar das amarras da universidade, não sei se consegui mostrar isso, mas essa teria que ser a conclusão que acho que, realmente, não cheguei e o motivo pra esse é deveras bem fundamentado e o exporei de maneira sucinta: a louça não se lava sozinha e cabe ao Rodrigo sujar as mãozinhas que apenas tocariam o teclado e belas mulheres no melhor dos mundos possíveis.
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Um assunto que eu realmente queria retomar com mais cuidado é como minha visão difere da pragmatista, na falta de tempo, eu apelei pras alegorias (embora que toda oportunidade de expressar amor pela minha Senhora é sempre uma boa oportunidade), mas queria realmente explicitar melhor (e um dia eu volto a esse blog fazendo isso) porque fazer pesquisas que são aparentemente desconexas com a vida política/culural ("realismo vs nominalismo") devam ser feitas mesmo assim; a idéia, resumidamente, é que se a sociedade não dá importância ao assunto, cabe ao filósofo se impôr e falar mesmo assim; o argumento é que retirado o incentivo burocrático ("vou fazer uma pesquisa sobre nominalismo porque o MEC mandou"), você só se dedica a uma pesquisa filosófica se ela fizer parte da sua vida. Se ela faz parte da sua vida, ela tem *alguma* força, por mais isolado da sociedade que você seja, o assunto chegou a você por um motivo que não pode ser ignorado. É da mais alta monstruosidade dizer para o filósofo ignorar a força do tema só porque *você* não enxerga essa força. Aí não acho que seja caso de choramingar e escrever um livro chamado "porque é importante discutirmos as substâncias eternas", mas simplesmente faça a pesquisa e roube bancos e velhinhas (que JAMAIS são inocentes) para publicá-la, a parte "material" mais complicada é ter seu livro numa estante, uma vez lá, você cumpriu seu dever e os deuses se encarregam do resto.

Se Google não colaborar, CPI pode fechar Orkut...

...e nada de valor será perdido

terça-feira, abril 08, 2008

Rock n Roll

Kimya Dawson é minha "menina cuja voz estou apaixonado" da semana.
Ouvir Kimya Dawson me fez pensar uma antiga teoria sobre Rock n Roll que eu acho que roubei do Lester Bangs se não me engano porque ela é a expressão perfeita disso.
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Rock n Roll, diz a teoria, é *realmente* rock n roll quando é honesto.
Seja qual for estilo, seja com técnica ou sem técnica, seja com guitarra ou sem guitarra, seja numa banda mainstream ou underground, essas coisas são características secundárias que variam de gosto e você não pode dizer que uma banda não é "rock de verdade" só porque o sujeito não sabe tocar guitarra ou só porque ele é "tecnico demais"; o que realmente importa é se ele é honesto.
A parte complicada da honestidade, obviamente, é que ela pode ser falsificada, então no final, a coisa mais importante no rock n roll é uma espécie de "sentimento de verdade"; é quando você ouve a banda, lê as letras, escuta a melodia e de alguma forma desperta algum sentimento de "essa pessoa realmente quer dizer o que ela diz" e como um bônus extra, que é o que realmente separa a boa banda de rock da banda medíocre, é quando esse sentimento vem acompanhado de "e ela diz a verdade".
É claro, todo mundo tem uma teoria sobre como rock n roll funciona, mas eu vou ser dogmático aqui e defender que todas elas giram em torno da honestidade e que, afinal, o que diferencia alguém que gosta de Strokes e alguém que gosta de Charlie Brown Jr. (que eu estou tomando aqui como duas bandas de igual popularidade no Brasil) é que, apesar das firulas e da estética indie, Strokes passa um certo "sentimento de verdade" e o Charlie Brown Jr. passa um sentimento de "eu estou cantando o que algum empresário disse que era pra eu cantar".
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Muita gente critica o Nirvana até hoje porque "Kurt Cobain não sabia tocar guitarra" e isso mostra, na minha opinião, alguém que claramente não entende a arte que diz proteger porque existe tanta gente importantissima e essencial no mundo do Rock que não sabe tocar guitarra e mesmo os que sabem, tirando certos virtuosos que só interessam pra quem curte alguns tipos muito específicos de metal, não se podem dizer lá especialistas. É claro que o Keith Richards toca "muito bem", mas em termos de tecnica pura, ele realmente supera as dúzias e dúzias de metaleiros que ignoramos e até fazemos piada todo dia? Eu vou chutar que não. Eu vou apostar na minha teoria e dizer que o lance do Keith Richards não é nenhum solo elaborado, mas sua honestidade ao fazer os riffs que se tornaram clássicos; o fato de que ele nunca faz nada em suas músicas que seja bullshit ou pose desnecessária, mas sempre aquilo que ele quer passar, ou pelo menos é assim que somos atingidos. E claro, quando você ouve sua voz em "Losing My Touch" não tem como não se apaixonar pelo homem, é um sujeito de voz rouca e razoavelmente desafinada lamentando que "perde o seu toque" e mesmo sendo o Keith Richards e mesmo sabendo que ele está longe de perder qualquer toque que seja, há uma melancolia genuina na sua voz.
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No fim, o debate acaba sendo se a banda é realmente honesta. Se Kurt Cobain realmente era a alma torturada que acabou se tornando no imaginário popular ou se a MTV fez parecer desse jeito; se um sujeito que não se dedica a retirar o máximo do seu instrumento "realmente ama música"; se um sujeito que se dedica demais a técnica não está utilizando essa pra disfarçar o fato de que não tem sentimentos genuinos pra passar; se alguém só está nessa "pelo dinheiro" (e note-se, o problema raramente é que a banda ganha dinheiro, mas geralmente o fato de que sua lealdade está não na honestidade, mas no dinheiro); acho que no final, no rock n roll, o sentimento de honestidade é o oposto da "bullshit", palavra intraduzível para o português em toda sua forma, que é, de fato, uma mistura sensível de "não saber o que fala" com "não ser honesto ao falar", podendo ser usado tanto ao pedante que disfarça sua falta de conhecimento com palavras grandes quanto ao pastor de rua que berra seus argumentos sem lógica, a "bullshit" de ambos reside em, ao mesmo tempo, não entender demasiadamente do assunto, mas tentar mudar nossa opinião mesmo assim por motivos diversos.
Da mesma forma, a "bullshit" no Rock n Roll pode ser associado a bandas, geralmente famosas, (porque uma banda que seja underground E bullshit ao mesmo tempo raramente capta nossa atenção o tempo suficiente pra fazermos algo além de desprezá-la e esquecê-la; embora uma banda possa se tornar famosa em seu nicho específico usando de toda desonestidade para se tornar o clichê perfeito do estilo e, assim, chamar atenção de fanáticos do estilo que gostam mais da forma do que do conteúdo), que atraem massas de fãs que, pela falta de experiência, atenção ou gosto não possuem discernimento para identificar a desonestidade, tomando assim o falso pelo verdadeiro, ignorando os honestos e sendo, assim, ridicularizados pelos "mais entendidos"; mas claro, crença é algo separado da razão e argumentos sobre a honestidade dessa ou daquela banda são geralmente rasos porque o "sentimento de verdade" é, de fato, um sentimento e, como tal, é um conceito sem explicação racional. De fato, você percebe a honestidade de uma banda durante a música, ela surge quase como uma revelação religiosa e nenhum argumento racional jamais poderia te convencer que você não teve uma revelação quando, de fato, a teve e o irônico é que mesmo que uma banda *seja* desonesta, ela ainda pode causar um *genuíno* sentimento de verdade, pois o sentimento está no sujeito e não na banda; embora pessoas "mais experientes", pelo menos idealmente, tenham um discernimento mais apurado... o que não se aplica, logicamente, a jornalistas de rock (que tirando raras excessões apenas ecoam o que é dito por outros jornalistas de rock, isso é claramente perceptivel se você acompanha mais de uma revista de música ao mesmo tempo) e a fanáticos do estilo, que julgam apenas se a forma vazia da banda está adequada ao estereótipo que a banda supostamente pertence e ignoram por completo a honestidade; que é um problema que afeta principalmente os genêros que tomam orgulho em ser "underground", pois o público de tais estilos caracteristicamente vivem em seus próprios mundinhos de fantasia e, embora prezem pela honestidade, entendem "honestidade" como "fidelidade ao gênero" e são, por isso, simplórios.
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Enfim, Kimya Dawson, cujo folk pode não agradar a todos os humores, mas que tem a grande qualidade de, cantando sobre o tema que for, nunca deixar de ser honesta.
Seja falando coisas batidas como "fuck bush and fuck this war" ou bregas como "if you wanna kill yourself, remember that I love you" (na MESMA música), suas músicas nunca perdem essa qualidade de que são honestas, de que são bem intenciondas, de que são um reflexo de uma reflexão.
Kimya Dawson não tem clipes pra valer, então eu peguei os fan-made no youtube.
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Loose Lips


loose lips might sink ships but loose gooses take trips
to san francisco, double dutch disco,
tech tv hottie, do it for scotty
do it for the living and do it for the dead
do it for the monsters under your bed
do it for the teenagers and do it for your mom
broken hearts hurt but they make us strong and

we won't stop until somebody calls the cops
and even then we'll start again and just pretend that
nothing ever happened

we won't stop until somebody calls the cops
and even then we'll start again and just pretend that
nothing ever happened

we're just dancing, we're just hugging,
singing, screaming, kissing, tugging
on the sleeve of how it used to be
how's it gonna be?
i'll drop kick russell stover, move into the starting over house
and know matt rouse and jest are watching me achieve my dreams

and we'll pray, all damn day, every day,
that all this shit our president has got us in will go away
while we strive to figure out a way we can survive
these trying times without losing our minds

so if you wanna burn yourself remember that I LOVE YOU
and if you wanna cut yourself remember that I LOVE YOU
and if you wanna kill yourself remember that I LOVE YOU
call me up before your dead, we can make some plans instead
send me an IM, i'll be your friend

shysters live from scheme to scheme and my 4th quarter pipe dreams
are seeming more and more worth fighting for
so i'll curate some situations, make my job a big vacation
and i'll say fuck bush and fuck this war
my war paint is sharpie ink and i'll show you how much my shit stinks
and ask you what you think because your thoughts and words are powerful
they think we're disposable, well both my thumbs opposable
are spelled out on a double word and triple letter score

we won't stop until somebody calls the cops
and even then we'll start again and just pretend that
nothing ever happened

we won't stop until somebody calls the cops
and even then we'll start again and just pretend that
nothing ever happened

we're just dancing, we're just hugging,
singing, screaming, kissing, tugging
on the sleeve of how it used to be
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Underground


My head is pounding I can't stop the pounding
I think it is going to explode
and kill everybody who's in close proximity to the place I call my home
and they'll make a moving made for tv movie for Life Time all about my life
that ends with an epitaph one that will make you laugh
that says "great mom okay wife"
and it'll be funny to the people who know me
who know if my body's not burned
my soul will spend an eternity in misery
tethered and bound to this earth
so I'm not a dick or a stick in the mud always ruining things for my friends
I mustn't forget when I see the sun set that tomorrow it will rise again

so I tattoo instructions on my ass
that say "don't ever put this body in a casket
burn it and put the ashes in a basket
and throw them in the Puget Sound
I don't ever want to be under ground"
oh no, oh no

I'm wearing size thirteen basketball shoes
and laugh at your fishnets
I'm freaked out and fucked up
and I'm standing alone in an alley with you
wanting to show you a cure for your hiccups
but instead I close my eyes
the needles are numbered so I'm writing you letters
and I cannot disguise the fact that I'm nervous when we are together
and so I fantasize
that the nights will get shorter and the days will get better
I feel a kick inside and decide
if this is a girl I'm naming her Heather
she'll look just like you but her hair will be feathered
she'll say how you died before you ever met her
her hair will be feathered

my head is pounding I can't stop the pounding
I think it is going to explode
there are plus and minuses to sinusitis
like sometimes I get to go home
but mostly it hurts so bad I think I'm dying
I just blew my nose and now I feel like crying
and the dreams that I have are all of my past lives
and the seizures would paralyze me in the night
and I wake up clutching my teddy bear tight
and I'm drooling and trying to turn on the light
all I can do is hold fast and sit tight
but what if they forget 'cause you know they just might

so I tattoo instructions on my ass
that say "don't ever put this body in a casket
burn it and put the ashes in a basket
and throw them in the Puget Sound
I don't ever want to be under ground"
oh no, oh no
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My Rollercoaster


You were on my mind at least nine tenths of yesterday
It seemed as if perhaps I'd gone insane
What is it about you that has commandeered my brain?
Maybe it's your awesome songs or maybe it's the way
When I look at your face I can tell that you're not going to be stopping soon or even slowing down
And if we keep up this pace pretty soon we'll know the name
Of every kid and every grown up booking house shows in their town

And if home is really where the heart is
Then wer're the smartest kids I know
Because wherever we are in this great big world
We'll never be more than a few hours from home
And that's important because I need to travel
I've had this itchin in my shoes since I was just a little kid
And before I had a mini van I road the Greyhound bus
My mom would say "I hope some day you get paid for being Kimya Dawson"

And now I do and it's not much
ut it's enough
I've got my Scrabble game, food on my plate, good friends and family
And now there's you understanding why I do the things I do
knowing that you do them too makes me really happy

On the road again
Just can't wait to get on the road again
The life I love is makin' music with my friends
and I can't wait to get on the road again

On the road again
Just can't wait to get on the road again
The life I love is makin' music with my friends
and I can't wait to get on the road again

From a distance, the world looks blue and green
and the snow capped mountains white
From a distance, the ocean meets the stream
and the eagle takes to flight

(whispering)

do do do do do do do
do do do do do do do
do do do do do do do
do do do do do do do
I'll be your cryin' shoulder
I'll be love's suicide
I'll be do do do do do do
I'll be the greatest man of your life

'Cause I like going for hikes and riding bikes
and playing video games in the middle of the night
and I'll stay up late and I wont even care
that we're getting up early to go to the state fair
I'm gonna ride the biggest ride it'll be out of sight
then I'll share an elephant ear with you if you'd like
because we are alive so we've gotta live life
to the fullest you spin the bottle and I'll dim the lights
Four five six seven minutes in the closet

You were on my mind at least nine tenths of yesterday
it seemed as if perhaps I'd gone insane
What is it about you that has commandeered my brain?
Maybe it's your awesome songs or maybe it's the way
You go straight to the top you're not scared of getting squashed
You know just when to jump off
You're so brave
And then you run to the right it seems there's no hope in sight
And you drop down to the tube that takes you right to level eight

Life is a highway and I'm gonna ride it
Every day's a winding road yeah
My rollercoaster's got the biggest ups and downs
As long as it keeps goin' round it's unbelievable

Life is a highway and I'm gonna ride it
Every day's a winding road yeah
My rollercoaster's got the biggest ups and downs
As long as it keeps goin' round it's unbelievable

domingo, abril 06, 2008

Filosofia dos vãos

Há um tempo atrás, falando sobre aquela reportagem ruim da Istoé, surgiu o termo "god of the gaps" ou "deus dos vãos", que é basicamente um recurso retórica da teologia que aponta pra uma área do universo que a ciência não explica e diz "ah, não explica porque a explicação é deus!" (até, claro, passar uma semana e, de fato, explicarem aquilo, o que faz o coitado do teólogo procurar outra "falha" da ciência pra dizer "ahá!")
É engraçado que esse procedimento visivelmente estúpido por vezes acontece na filosofia, de fato, uma boa causa para o surgimento da filosofia moderna pode muito bem ter sido a maneira como a filosofia escolástica se opunha à ciência que a contrariava, ou seja, o cientista decobria que o mundo funcionava de tal maneira, isso contrariava as teses de aristóteles a respeito da física, então ia lá o escolástico e ficava irritantemente tentando apontar defeitos na nova ciência até que, por fim, tiveram que vir os filósofos modernos e criar uma metafísica que abraçasse tal ciência e permitisse seu desenvolvimento.
Esse movimento, entretanto, pela própria natureza da metafísica de procurar àquilo que determina os fenômenos físicos, vez ou outra criavam novos problemas, até mesmo a epistemologia criava problemas de vez em quando; então Descartes por um lado criou uma metafísica condizente com um método que permitia à ciência caminhar sem precisar da tradição, por outro esse método impedia o desenvolvimento de uma teoria materialista pois certamente corpo e alma *tinham* de ser coisas diferentes; a epistemologia de Hume por outro lado permitia à ciência newtoniana caminhar em paz sem sofrer perseguições das monadas de Leibniz, mas impedia o desenvolvimento dessa mesma ciência por outro lado, pois aquelas leis certas e inquebráveis da física *tinham* que ser fruto do hábito; se Kant salvou os newtonianos do ceticismo humiano, criou um problema para Einstein, pois o tempo e o espaço *tinham* de ser formas a priori da razão humana e não podiam, portanto, ser relativos. Depois de Einstein, well, pessoal desencanou de fazer metafísica, talvez exatamente por causa disso, a ciência avança bem, deixe-mos ela em paz, tratemos de coisas que ainda parecem distantes de serem reduzidas à formulas matemáticas, como ética e arte.
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Relendo O Mundo Como Vontade E Como Representação de Schopenhauer, me espanta o quão genial é a metafísica que ele desenvolveu.
Por um lado, o mundo é representação, fenômenos, causas e efeitos; *de outro ponto de vista*, de um ponto de vista além da razão e do entendimento, o mundo é Vontade, não porque a vontade humana expressa a essência do mundo, mas porque (pra Schopenhauer) é o seu fenômeno mais perfeito, mas ainda um fenômeno e, sendo a coisa-em-si desconhecida, utilizemos essa palavra "Vontade" para descrevê-la, porque é o melhor que temos.
O que me incomoda nessa metafísica genial é o que parece que Schopenhauer ignora alguns dos próprios preceitos e, fazendo isso, cria uma "metafísica de vãos"; ou seja, ele terminantemente se recusa que a origem da vida possa ser reduzida à química e outras partes da fisiologia, num geral, só podem ser explicadas, pra ele, utilizando-se do recurso metafísico; hoje nossa ciência sendo mais avançado, sabemos em que condições atmosféricos, o inorgânico se tornou orgânico e como, quimicamente, que esses organismos primitivos se tornaram seres humanos, mas o que eu acho engraçado em Schopenhauer é o quão facilmente ele se livra da parte mais difícil do mistério da vida humana (o livre-arbítrio) e como ele se prende à algo, que hoje, é considerado razoável, a saber, que o inorgânico se torne orgânico.
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A maneira como Schopenhauer dispensa o livre-arbítrio é, de certa forma, bem positivista. O motivo é, para nós humanos, apenas mais um orgão. Assim como uma planta não necessita de instinto para sobreviver, um animal não precisa de razão, o ser humano precisa dos dois, por ser mais complexo. Motivo, então, é uma ilusão criada para que a espécie sobreviva de modo mais eficiente. Uma explicação que qualquer materialista atual aceitaria razoavelmente acredito.
Ainda assim, Schopenhauer defende (ou não, eu posso estar lendo errado) algum uso da idéia de Vontade na explicação do mundo fenomênico, a saber, pra explicar porque as coisas num geral se comportam dessa ou daquela forma (porque existe conflito, porque existe o mundo parece tão bem desenhado, o mesmo tipo de pergunta que um teologo se faz), ao mesmo tempo, a Vontade não pode ser causa de nada porque causa e efeito é algo que pertence apenas ao mundo como Representação, dessa forma, Schopenhauer permite à ciência a explicação de todos os fenômenos, sem procurar apoio na metafísica, porque sendo a causa e o efeito exclusivos do mundo como Representação, é possível nesse mesmo mundo encontrar todas as causas e prever todos os efeitos; essa visão de mundo parece que torna possível conciliar materialismo e idealismo; de um lado os fenômenos podem ser todos explicados por meio de fenômenos, por outro, esse mesmo mundo explicado é completamente misterioso, pois existe algo além das relações de causa e efeito, que, afinal, permeia o mundo.
A pergunta que me surge é o que impede Schopenhauer de se tornar um materialista completo e abandonar, dessa forma, sua ética e sua estética e aceitar todos os fenômenos podem ser explicados por conta própria?
Inclusive o fenômeno da arte, do prazer, do sofrimento, da felicidade, etc.
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A primeira coisa que parece impedir Schopenhauer de se tornar um materialista é a noção de que, o mundo sendo uma Representação de um sujeito, toda investigação por uma causa última, levaria de volta ao sujeito. Se espaço, tempo e causalidade são formas puras de conhecimento, então se perguntar sobre essas coisas como se elas fossem fenômenos levaria a um erro; existem, afinal de contas, três "mundos" diferentes tanto em Schopenhauer quanto em Kant; um mundo dos fenômenos (Representação) que é o mundo enquanto percebido por um sujeito, o mundo da coisa-em-si (Vontade) que é o mundo "em si", ou seja, sem sujeito e, afinal, existe o mundo da própria intuição (sensivel em Kant, intelectual em Schopenhauer; tempo e espaço para Kant; tempo, espaço e causalidade para Schopenhauer), esse mundo seria o mundo da matemática e da geometria, que por um lado não é nem representação (pois é apenas uma forma sem conteúdo destas) e, por outro, não é nem coisa-em-si (pois existe no sujeito).
Esse mundo da intuição pura estaria, para Schopenhauer, além das relações do mundo fenomênico e o materialismo nunca poderia explicá-los, embora não sendo coisa-em-si, podemos observá-las, racionalizá-las, transformá-las em ciência; essa é a refutação do materialismo do ponto de vista da Representação.
Do ponto de vista da Vontade, a refutação me soa irritantemente como "dos vãos", não de uma forma tão caolha e imbecil como é a teologia contemporânea ("ahá! Vocês não encontraram até hoje nenhum fêmur humano do dia 23/7/99944382AC; logo a teoria da evolução é inútil e deus critou o universo!"), mas Schopenhauer parece procurar coisas que parecem "sem-fundamento", ou seja, a eletricidade e o magnetismo são "forças primários" que fazem tal e tal coisa agir dessa forma, mas porque a própria eletricidade e magnetismo agem dessa forma? Por causa da Vontade! E Schopenhauer até prevê que se um dia descobrirem uma forma mais universal que explique a causa da eletricidade e do magnetismo, então essa outra causa será sem-fundamento e assim por diante até que, necessariamente, se terá que admitir que não sabemos o porque das coisas e a metafísica se faz necessária. Além disso, tem as questões psicológicas; nós fazemos as coisas por motivos, mas qual o motivo dos motivos? Qual o motivo de se viver, num geral? Essas perguntas, pra Schopenhauer, não tem resposta, porque o fundamento último de nossas ações é o sem-fundamento da Vontade que não causa nada.
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Discutindo um filósofo, existe um quê de trapaça em questionar seus fundamentos mais primários; as filosofias, para Schopenhauer, são um jogo de sujeito e objeto (visão comum do modernismo); a filosofia que exclui o sujeito de tudo e toma as leis físicas (dos objetos) como essência do mundo e explica tudo por meio delas é o materialismo; a filosofia que exclui os objetos de tudo e toma o sujeito como essência do mundo é o idealismo; Schopenhauer clama diferença por partir da Representação, que é exatamente a união entre sujeito e objeto; da mesma forma que é absurdo pensar em objetos sem um sujeito que os perceba, é absurdo pensar em um sujeito que não percebe objetos.
Então, do ponto de vista da Representação, Schopenhauer poderia se tornar um materialista simplesmente ao admitir tempo, espaço e causalidade como objetos, ou ainda, como tendo existência fora do sujeito, mas isso parece ser meio trapaceiro e, de qualquer forma, não me parece certo, mesmo com todos os avanços da ciência; é certo que existe a relatividade espaço-temporal, existem certas químicas que alteram nossa percepção de tempo e de espaço, mas ainda assim, acho muito fortes os argumentos kantianos da idealidade desses; mesmo que não ocorra de modo como Kant propôs (tempo como intuição pura do sentido interno e espaço como intuição pura dos sentidos externos); mas eu não apenas não quero me aprofundar nisso, como não tenho conhecimento pra tal, vamos simplesmente tomar a Representação como um dado porque o propósito aqui é tentar questionar o brilhante sistema schopenhauriano de dentro (é dito bastante em um curso de filosofia que uma vez dentro de um sistema, você não sai).
Ok, tomando como pressuposto a Representação; porque a Vontade é necessária pra explicar algum fenômeno?
Além dos vãos, que aqui eu vou ser bem positivista e simplesmente assumir que serão explicados cedo ou tarde, que motivo tenho eu pra Vontade?
A primeira crítica que poderia surgir aqui é respondida de forma quase implicita por Schopenhauer, "se a Vontade não causa nada, como que ela pôde criar o mundo" e é na resposta a isso que, na minha opinião, resulta a genialidade de Schopenhauer; a Vontade não cria o mundo, ela É o mundo, é O MESMO mundo da Representação, só que fora do "princípio da razão"; "como que os objetos, que são vontade, causam representação"; de novo, a vontade não precisa causar representação, a causalidade é um modo de ver os objetos, por isso que, diferente de Kant, schopenhauer coloca a causalidade como forma de intuição; porque de outra forma se criaria esse problema. É a representação que cria "causas e efeitos".
Ok, passada essa crítica, porque a Vontade é necessária para explicar o fenômeno? Sendo a causalidade algo que só existe no fenômeno, não poderia o fenômeno se auto-explicar completamente tornando a coisa-em-si simplesmente uma substância lockeana? Ou seja, algo que existe, indetectável pelos sentidos, que não muda (que apenas "recebe" acidentes, nesse caso, fenômenos) e que existe fora do tempo e do espaço? (recebendo essas qualidades apenas ao entrar em contato com o sujeito)
Porque a Vontade precisa de características?
Eu não encontrei, ainda, em Schopenhauer, a resposta pra essa pergunta...
Sua estratégia argumentativa, por outro lado, parece o de considerar "coisa-em-si" aquilo que escapa ao entendimento (ai, eu deveria ter escrito isso antes, mas só agora parece realmente necessário; "entendimento" é aquela trinidade tempo/espaço/causalidade).
Schopenhauer encontra, nos movimentos do corpo humano, algo que parece escapar o princípio da razão. Ter vontade e mover o corpo é a mesma coisa, de acordo com Schopenhauer, querer é movimento do corpo (aqui a teoria é mais complexa e eu passei esse post todo sem falar em objeto mediato e imediato; oh well, azar de vocês), então, Schopenhauer chega à coisa-em-si juntamente com sua primeira característica, o "querer"; dessa forma denomina "Vontade" a coisa-em-si, não porque a coisa-em-si é, de fato, vontade, mas porque é assim que ela se apresenta de forma mais perfeita para nós; de qualquer forma, o ponto aqui é que antes de pensar sobre a coisa-em-si como algo ainda neutro e desconhecido, ele "a encontra" na vontade humana, que, ele admite, é um fenômeno (e portanto tem causas e efeitos, até químicas, porque não?) e, como fenômeno, é diferente da Vontade, com "V" maiúsculo.
Mas aí que está de novo a pergunta, se a vontade humana é só um fenômeno e se causas e efeitos são coisas que só existem nos fenômenos, porque a vontade humana precisa de uma causa além da fenomênica? Porque o "querer", por relação imediata que tenha com o movimento do corpo, precisa ser algo além do efeito de outra causa? Porque precisa ser "sem-fundamento"? De novo, uma vez eliminado aquilo que é o espinho da causalidade-explanadora-de-tudo, ou seja, o livre-arbitrio (inicio absoluto de uma cadeia de causa e efeito) e aceito que um cerebro fazedor de motivo é só um orgão como qualquer outro que produz algo necessário pra sobrevivência da espécie, o que faz o "querer" tão sem-fundamento?
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As respostas que me surgiram até agora.
Por um lado, eu fiz uma trapaça de não acompanhar a ordem dos argumentos do Schopenhauer. Primeiro eu expus a problemática do livre arbitrio e depois a da Vontade, ele faz o contrário com razão; primeiro é preciso estabelecer que a "Vontade" é a coisa-em-si para depois eliminar o livre-arbitrio; aqui o Schopenhauer inaugura ainda outra coisa de nova na filosofia, a saber, ele inicia aqui a questão do inconsciente. Até então, aceitava-se a idéia aristotélica de que uma ação era sempre resultado de deliberação; já Schopenhauer inaugura o conceito de agirmos sem saber porque mascarando essa ação irracional com motivos póstumos; de novo, a questão do corpo, "querer" e "se movimentar" é uma única coisa.
Dessa forma, se você elimina a vontade que não é causa do movimento do corpo, mas é o próprio movimento (o corpo é, como objeto imediato, vontade e representação ao mesmo tempo; dos outros objetos, que recebemos por meio do sentido, só temos representação, do corpo, por outro lado, temos representação e vontade ao mesmo tempo), então você mantém o movimento voluntário, ou seja, o livre-arbitrio; o livre-arbitrio some justamente quando a vontade age no seu lugar. De fato, acho que Schopenhauer tem uma razão aí, por "arbítrio" traz mesmo essa conotação de "deliberação". Como que um ato que ocorre anterior (ou indepente) à razão pode ser chamado de "arbitrário"? De fato, dizer "eu quis fazer" não é igual dizer "eu tive motivos para fazer", dessa forma, Schopenhauer é genial ao separar completamente a vontade da razão.
A pergunta, entretanto, parece se manter. Que o "querer" e o "agir" sejam uma e a mesma coisa; não é possível pensar uma causa anteior a ambos? Nietzsche propõe pensar o sentimento de prazer e desprazer como anterior, acho a escolha péssima já que o sentimento de prazer e desprazer, sendo concordância ou discordância da vontade, existiriam após o ato; mas não é possível pensar alguma alteração química do cerebro que causasse ambos?
Schopenhauer não está chamando de "sem-fundamento" (ou "coisa-em-si") algo que, antes de ser "sem-fundamento" simplesmente não é "cujo-fundamento-desconheço"?
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Enfim, tenho que ler mais e tal. Se eu descobrir uma resposta, retorno a esse blog em outro texto que vocês não lerão.