domingo, junho 08, 2008

Filosofia de volta ao ensino médio.

Se ensinar filosofia fosse ensinar história da filosofia, eu não estaria preocupado, bastaria fazer o caminho "de heráclito a heidegger" (pulando um monte de gente) e estariamos resolvidos.
Acho que a maioria dos professores vão acabar ensinando história da filosofia; alguns vão tentar algo diferente e acabar caindo numa de "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e outros poucos vão dar boas aulas.
Eu vou ser um desses professores de filosofia e não sei em qual categoria vou cair; não gosto da idéia de ser do primeiro tipo, não sei se tenho capacidade pra ser um "bom professor", então vou ficar em algum lugar do "visão de mundo de acordo com meu autor favorito" e aqueles que confundem aula de filosofia com aula de sociologia achando que eu tenho que necessariamente falar sobre o MST ou sobre a Al Qaeda agradecerão que ao menos eu não estou pisando no pé de ninguém por ser um cara mais metafísico.
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Dito essa besteira toda, é preciso levar em consideração que a filosofia está em crise (ok, a filosofia está SEMPRE em crise, é o que faz ela tão divertida), mas recentemente numa pesquisa que a "The Philosophers Magazine" fez com um grupo de filósofos acadêmicos norte-americanos (i.e, filosofia analítica) perguntando "a filosofia tem algo a dizer sobre grandes eventos, por exemplo, o 11 de Setembro" e uma grande parte respondeu que não, que coisas como "universais e particulares" ou "monismo e dualismo" não tinham nada a ver com o que as pessoas passam no seu dia a dia; é claro, do lado da filosofia continental, todo o povo influenciado tanto pelo pragmatismo marxista quanto pela fenomenologia discorda e é um motivo pelo qual eu escolho esse povo, mas mesmo assim, parece pra mim claro que, seja qual for o motivo, a filosofia não tem (eu ia dizer "perdeu", mas resta a questão se ela já teve) um contato assim tão direto com a vida das pessoas (se tivesse, alguém como Rorty simplesmente não existiria).
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Então eis os problemas que um professor de filosofia terá que enfrentar:

1 - Ele terá que "ganhar" os alunos.

Mais do que qualquer matéria, filosofia não pode ser alienada. Ela tem que FAZER PARTE da vida de quem aprende. Isso acontece por uma dupla de motivos:
O primeiro, mais óbvio, mais superficial, mais bobinho, é o de que filosofia não é algo tão valorizado no mercado de trabalho, "mas Rodrigo! Deveria ser!" sim, eu sei, então faça suas malas e vá para o mundo possível lebniziano em que a filosofia é valorizada no mercado de trabalho. Hoje não é. Logo, se algum aluno perguntar "pra que serve isso?" (e um bom aluno deve sempre ter essa pergunta na ponta da língua) o professor vai ter que dar uma resposta e a resposta do professor de matemática "serve pra construir calculadora" não vai servir. Então, o que você vai responder?
Segundo é que filosofia é um tipo de conhecimento fora do escopo da técnica; seja ele pré-tecnico, pós-tecnico ou simplesmente tratando de temas ou visões que a técnica simplesmente não consegue tocar; a filosofia não é um conhecimento que você usa pra algo senão na sua vida como ser humano. Agora, esse é o engraçado; isso torna a filosofia ao mesmo tempo inútil (em um certo contexto) e universal: ela é inútil porque você não vai usar a filosofia pra construir uma máquina do tempo, mas ela é universal porque ela serve pra você não importa o que você vai fazer com a sua vida, MAS (e aqui vem a jogada) o professor vai ter que CONVENCER os alunos disso, porque, dada a sociedade utilitarista e cientificista que vivemos, isso NÃO É auto-evidente.

Agora a minha pergunta é essa: A dificuldade em convencer alunos de que algo tão próximo da vida deles é um conhecimento que vale a pena adquirir é um problema pedagógico ou filosófico? Porque se for uma questão de técnica de ensino, então que nos afundemos em livros de psicologia juvenil e resolvamos o problema, mas se A PRÓPRIA FILOSOFIA tem algo em si que impede essa aproximação, então temos um problema que nós, como filósofos, vamos ter que resolver durante as aulas.

Isso pra mim é importante porque não é uma mera questão de criancinhas sabendo em quem votar nas eleições, de novo, eu sou um cara metafísico, em 100 anos estaremos todos mortos, o que eu me importo com as eleições? O meu problema é filosófico e não político. O problema é o seguinte: Se a filosofia não consegue cruzar a ponte entre teoria e vida, então ela NÃO EXISTE, em outros termos, o VALOR DE VERDADE de uma teoria não é só sua validade lógica, mas também o sentimento de "faz sentido" que ela desperta nas pessoas. A técnica pode se dar ao luxo de ser esquisita além de toda compreensão porque ela faz máquinas; eu não preciso saber como mecânica quântica funciona porque eis suas descobertas fazendo meu computador funcionar (eu acho), mas se o propósito da filosofia são respostas que contém uma certa universalidade, então ela se comprova quando cada ser humano percebe que há algo aí que faz sentido. Do contrário é a lógica ditando regras pra si própria e se auto-validando em circularidade.
Esse tipo de masturbação intelectual não é só socialmente estúpido, como também faz pouco sentido.
Esse tipo de postura frente a filosofia cria zilhões de problemas, um que eu consigo pensar de cara é que o "faz sentido" se dá socialmente e não pela nossa "condição de ser humano" e a única resposta que eu tenho pra isso é que sou um cara pós-moderno, razoavelmente bonito e não me importo se minhas teorias deixarem de funcionar daqui 50 anos quando eu for feio.

2 - O professor terá que saber, ele próprio, o que é filosofia.

Repetindo que a filosofia está sempre em crise; saber o que é filosofia é o tipo de coisa que fica mais difícil quanto mais você se aprofunda em filosofia. Eis uma crença estúpida que eu tenho: Quanto mais clara a visão de filosofia de um professor, menos ele entende do assunto.
Se você conseguir chegar em uma sala de aula, dizer "filosofia é X" e acrescentar "quando eu perguntar na prova é essa a resposta que eu quero receber", então você está fazendo alguma coisa errada.
Agora, você vai ter um monte de adolescente bobocas e iletrados na sua frente cujos objetivos são sexo e dinheiro para o sexo; você vai ter que conquistar atenção deles e, não só isso, passar conteúdo (se tudo que a filosofia demandasse fosse "ganhar" os alunos eu estaria advogando palhaços de circo ou publicitários e não filósofos), agora vem a questão de qual conteúdo você passa.
Repetindo, se o propósito fosse ensinar história da filosofia, estaria resolvido, mas não é: você vai ter que dizer algo que tem de fato algum conteúdo que valha a pena ser passado. Eu sou totalmente pró começar um curso de filosofia com Tales de Mileto, mas dizer "é o cara que disse que tudo é água" é insuficiente, você vai ter que "entrar" no autor, tirar algo dele que tem valor filosófico (seja lá o que isso signifique) e que faça sentido para esses monstrinhos estúpidos que serão seus alunos.
Ao fazer isso, eu espero que o professor em questão não tente fazer o que certos livros populares de filosofia atuais tem feito. Que é dizer "no que Tales se parece com os simpsons" ou algo do tipo; isso não é nem sequer analisar os simpsons filosoficamente, é simplesmente fazer cegas relações de idéias. Eu também espero que o pobre professor de filosofia não tente dizer "isso é importante pra você sair lá fora e mudar o sistema!", isso é besta e ei, a escola já tem um professor de sociologia. A filosofia é universal porque ela tem que tocar o aluno em um ponto humano aquém e/ou além do seu contexto social, mas ela tem que fazer isso EM RELAÇÃO ao contexto social pra não se tornar alienação e, repetindo, uma filosofia alienada é uma filosofia que não existe.
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Enfim, tem muito mais o que dizer e eu provavelmente falei besteira demais already, o ideal seria eu chegar aqui e dar um exemplo de como se dar uma aula de filosofia e talvez um dia eu o faça ou talvez eu me desinteresse desse assunto todo, quem sabe, né?

3 comentários:

Anônimo disse...

Suas aulas serão certamente formidáveis.

Anônimo disse...

Olá,
To cursando filosofia na graduação da unicamp. Ao fim do curso, receberei cetificado para licenciatura, apesar do curso ter dado apenas a atenção burocrática para tal detalhe.

To no semestre de estágios. Uma verdadeira odisséia.

Ao fim de cada dia de estágio saio com mil e uma questões para discutir. Criei até uma categoria no meu blog para registrar isso. Muitos pensamentos soltos e questões a serem melhor examinadas.

Tennessee

Anônimo disse...

Eu gostaria de saber se o dono do blog ainda tem o vídeo relacionado a um post de 2005 dos arquivos desse blog (http://sblargh.blogspot.com/2005/06/analise-do-vdeo.html) pois eu o perdi e eu desconfio que conheço as pessoas que estão nele. Espero ansiosamente. Obrigado.