Recebemos alguns dados dos nossos sentidos, mas o que garante sua realidade?
A resposta de muitos filósofos contemporâneos seria "não importa".
Não tem como saber, mas não afeta nossa vida diretamente.
Sendo os dados do sentido fiéis a uma tal realidade independente deles ou não, a questão é que conseguimos formular teorias complexas sobre esses dados e, baseados nessas teorias, conseguimos construir coisas que funcionam e, num geral, conseguimos nos comunicar; podemos não nos entender de forma perfeitamente clara, mas se existem várias coisas em uma mesa e eu digo "me traz o copo", você entende não só de que objeto eu estou falando, mas também que interação eu quero que surja entre eu, você e o objeto em questão.
Tendo isso em mente, não importa realmente se o copo é ou deixa de ser assim na "realidade em si".
Empiristas num geral costumam partir desse príncipio; que se algo está além do mundo das coisas que podemos experimentar com qualquer ferramenta sensorial que tenhamos, então é perca de tempo falar sobre essas coisas, não só porque não podemos conhecê-las (o que por si só já torna uma perca de tempo tentar conhecê-las) como também porque conhecimento extraído disso não nos ajudaria a construir aviões, curar doenças e nem resolver o problema que os norte-americanos criaram no Oriente Médio.
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Foi partindo desses príncipios que Willard Van Norman Quine começou a se aprofundar no estudo da filosofia e, logo em suas primeiras descobertas, ele se tornaria um dos principais personagens da novela filosófica contemporânea chamada "filosofia analítica".
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Quine inicia seus pensamentos tendo como verdade que é impossível ter qualquer conhecimento que não tenha partido dos sentidos, mas eventualmente ele chega a questão de que não é possível traçar de volta todos seus conhecimentos aos estimulos sensoriais que eles receberam.
Ou seja, você sabe que aviões voam, que a Pucca é lindinha, que azul e vermelho são coisas diferentes, mas você não consegue descobrir o momento em que "aprendeu" essas coisas; a primeira vez que viu um avião no céu, que viu uma Pucca na TV, que viu as cores vermelho e azul. Isso não significa que seu conhecimento não foi empírico, só quer dizer que você age no cotidiano sem ser fiel a proposição "todo conhecimento é empírico" porque você não precisa sempre ver aviões no céu para saber que eles voam e você não precisa lembrar da primeira vez que viu um, você simplesmente sabe.
Em teorias científicas, as coisas ficam ainda mais complicadas, porque a idéia de progresso na ciência é que você leia o que outra pessoa escreveu e, a partir disso, experimente mais; mas por exemplo, você está testando cientificamente se existe algum ponto no corpo humano que não sente dor. Então você lê o trabalho de alguém que deu um peteleco na orelha esquerda de uma pessoa e ela sentiu dor; a partir disso você dá um peteleco na orelha direita de outra pessoa e vê que ela sente dor; então anota "petelecos nas duas orelhas causam dor"; mas, de fato, você só experimentou cientificamente a orelha direita, a orelha esquerda você simplesmente assume que o cientista anterior não estava mentindo.
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Isso fez com que Quine chegasse a seguinte conclusão: nós não, de fato, estudamos o que os sentidos nos dizem, além dos dados dos sentidos, temos uma porção de "informações colaterais", ou seja, informações que não são inatas (ou seja, que temos desde o nascimento), não vieram de uma realidade além do tal "mundo físico" dos nosso sentidos, mas que também não vieram da empiria; ou seja, são coisas que recebemos culturalmente de outros seres humanos ou por vias que não lembramos, mas que fazem parte de nossa "teoria de mundo" particular.
Essas informações colaterais são importantes, pois, por meio delas, podemos ter uma mesma quantidade de dados empíricos que levam a conclusões diferentes. Dois cientistas olham o mesmo estudo e chegam a conclusões diferentes; isso acontece, em primeiro lugar, porque, como diz Hume, não podemos observar a causalidade; ou seja, nós vemos um evento acontecendo primeiro e outro em seguida e logo deduzimos que o segundo foi causado pelo primeiro, entretanto, isso é uma mera dedução, não há garantias disso; em segundo lugar, porque cada cientista tem sua própria "teoria de mundo" formado pelas informações colaterais que receberam, culturalmente, durante suas vidas.
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É claro que a empiria tem um "grau" de verdade mais forte do que as informações colaterais; você não pode negar a visão de uma pessoa assassinando a outra só pelo fato de sua religião ter te ensinado desde criança que seres humanos são incapazes de ferir uns aos outros; ciência se tornou tão confiável a nós exatamente porque divergências culturais que um indivíduo tem com o outro não tem uma força maior do que os dados das experiências sensíveis, mas, afinal de contas - e esse é talvez o ponto que os filósofos contemporâneos mais prestam atenção - as pesquisas científicas não progridem ao se analisar as experiências dos outros; mas ao se analisar seus relatos científicos; no fundo, você não está lendo meu conhecimento, mas meramente minhas palavras e você não as está interpretando exatamente da maneira que quero que interprete e nem tirando exatamente as conclusões que quero que tire, mas está interpretando esse texto de acordo com sua própria formação cultural (parenteses bobinho: se você não sabe ler português, aqui não existe nenhum "conhecimento", apenas letras sem sentido...mesmo lendo português talvez isso seja verdade) e tirando suas conclusões sobre ele.
Isso levaria Quine, eventualmente, a admitir que "de acordo com posicionamento epistemológico, os objetos físicos e os deuses apenas diferem em grau e não em tipo. Ambos tipos de entidades entram nosso conceito apenas como proposições culturais", claro, Quine admite que seria um erro aos cientistas levarem os deuses tão a sério como se levam os objetos físicos; mas a questão é que a maioria do nosso conhecimento pode ser chamado de "cultural" ao invés de "empírico", pois o que analisamos quando fazemos ciência não é a experiência alheia, mas sim seu relato expresso em palavras que só fazem sentido em um certo contexto cultural.
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Prosseguindo o raciocinio, alguém poderia perguntar "se tanto ciência quanto os deuses são apenas proposições culturais, porque levamos um a sério e não o outro?" e a resposta é pragmática; a ciência constrói computadores, os deuses não. Os gatos também não constróem computadores, mas eles são lindinhos e podem ser acariciados.

Tudo isso faz parte de um projeto maior e mais ambicioso (e que vem sendo tentado desde o século XVII até onde eu sei) que é de fazer filosofia com um método científico.
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Não que o projeto seja o mesmo desde o século XVII, assim que Descartes o propôs pela primeira vez, a idéia de ciência era uma ciência racionalista, ou seja, a idéia era que se partisse de uma proposição "clara e distinta" e dela se tirasse uma conclusão e dessa conclusão outra e bla bla bla até descobrir tudo que há de se descobrir.
Quando o empirismo ganhou força, isso se tornou mais difícil, pois se a idéia é "partir da experiência sensível", fica difícil perguntar coisas do tipo "o que é o real?" porque nós temos experiências de coisas "reais" e não do "Real" com R maiusculo; depois de Kant então, sequer experiência do "real" nós temos, apenas mesmo dos seus fenômenos.
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Com Quine, a idéia ganhou força de novo.
Se a ciência não analisa experiências, mas sim frases, basta que nós também analisemos frases.
A idéia é que a ciência tem resultados por ter um vocabulário técnico que permite o mínimo de divergências possíveis, ou seja, "toda vez que X acontecer, chamaremos de X, assim se você ver X em um paper, vai saber que X aconteceu", por isso, ainda o que se estuda são palavras num papel, mas um vocabulário rígido o bastante permite que essas palavras deêm apenas uma margem para interpretação, de modo que as "informações colaterais", embora sempre presentes, afetem o menos possível.
A idéia é fazer filosofia assim.
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De certa forma, a frustração de Kant continua válida; "porque a razão se coloca essas perguntas que não pode responder?" ou seja, porque a razão se pergunta pela alma ou pelo inicio do universo ou porque a Pucca é tão lindinha se não pode responder essas perguntas?
Bom, a idéia da filosofia analítica é retomar essas perguntas e criar uma vocabulário filosófico rígido o bastante pra permitir respostas.
Dessa forma, perguntar "o que é real?" é uma pergunta estranha, pois ela pede a definição de uma palavra sem definição; a pergunta certa, de acordo com Quine, seria "quais são os engajamentos ontológicos do nosso discurso?" ou seja, nessa frase aqui, quais são os "estatutos" de realidade dos objetos referidos por essas palavras?
Seja o que for, não se estuda a realidade diretamente e nem os dados dos sentidos, mas sim as afirmações feitas sobre a realidade e então procura verificar a veracidade lógica de tais afirmações e, num geral, se as palavras utilizadas no discurso estão sendo utilizadas de acordo com o que define o tal dicionário rígido e "científico" de termos filosófios.
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Acho que o interessante de Quine, por mais que eu sinta uma dificuldade particular em concordar com seu método (já chego lá), é que, diferente do que fizeram os positivistas lógicos (em quem ele se inspirou muito) e muitos e muitos outros filósofos importantes, ele entende que os objetos da filosofia e os das ciências são diferentes sem descartar os objetos da filosofia.
O método, afinal, é uma espécie de forma oca; por mais que tanto ciência e filosofia sejam feitas por análise de sentenças, a semelhança meio que para por aí; se você analisa uma proposição científica, você toma como pressuposto que aquilo quer descrever uma experiência, enquanto na filosofia geralmente se analisam argumentos.
Pode-se dizer que um analisa relações causais e o outro relações lógicas.
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O meu problema é que não acho que isso seja distância o bastante da ciência; acho louvável reconhecer que filosofia e ciência são coisas diferentes; pra começar, desde que o seu príncipio, a filosofia questiona a si própria "o que é filosofia?" e não acho que algum aluno de engenharia mecânica levante a mão e diga "o que é engenharia mecânica?" de acordo com a Wikipedia, engenharia mecânica é "a aplicação de matemática e ciêcias básicas, principalmente física, na concepção, construção, análise, manutenção e operação de sistemas mecânicos" e talvez um engenheiro ou outro tenha alguma divergência lá e cá nessa definição, mas acho que num geral, ninguém deixa de fazer seu trabalho por isso.
Agora a filosofia é diferente, "o que é filosofia?" é uma pergunta para a qual praticamente todo filósofo tem uma resposta diferente, não raro, como é o meu caso, não há resposta. Pelo menos não uma que contenha um rigor; poderia se dizer que filosofia é a área do conhecimento que lida com certas questões pré-definidas "filosóficas" como ética, estética; mas acontece que um dia engenharia mecânica também era uma área do conhecimento considerada "filosófica", astronomia então não existia sem metafísica!
A filosofia tem esse talento de agregar e abandonar assuntos ao seu leque de coisas estudadas; geralmente quando um assunto desenvolve um método confiável, ele deixa a filosofia pra trás; acho que ninguém mais discute astronomia na filosofia a não ser em questões históricas, os astrônomos conseguem fazer descobertas por conta própria muito bem sem ter que lidar conosco; economia por outro lado (por exemplo), vez ou outra dá um jeito de aparecer, não é considerado nenhum tipo de metafísica, mas ainda não é uma ciência formulada o bastante pra andar por conta própria; outras como psicologia está começando a aprender a andar sem filosofia; enquanto áreas como estética ainda são consideradas filosofia porque não existe nenhum tipo de método cientifico para estudar arte.
Então poderia se dizer que filosofia é uma espécie de "pré-ciência", um espaço onde estudar assuntos que ainda não desenvolveram um método; mas se a própria filosofia tem, com a filosofia analítica, um método que é formalmente igual ao método científico, então filosofia deixa de ser filosofia.
Por fim, eu estou mais alinhado com Kant; de que a ciência cuida de coisas que podem ser verificadas empiricamente enquanto filosofia cuida dessas coisas transcedentais como "alma" e "substância"; o que apresenta mais um problema; o primeiro é essa noção de a ciência não é lá aquela coisa assim tão empírica, embora isso seja muito importante; um motivo pelo qual "engenharia mecânica" é *bem ciência* e psicologia é *menos ciência* enquanto estética é *não ciência* é porque "sistemas mecânicos" são quase completamente observáveis (pelo menos enquanto lidamos com objetos "médios", ou seja, nada do tamanho de um sol, nada do tamanho de um quark); já psique não é observável, mas os comportamentos que ela produz são; enquanto "experiência estética" é pouquissimo ou nada observável; você tem ou não tem e ainda nada foi descoberto que cause essa experiência (tal "nada", chamamos de "arte").
Mas além desse problema, existe também o problema da limitação; ok, a filosofia em si não faz progresso nas outras ciências, mas o filósofo não pode se retirar completamente desse mundo. Quando eu digo que não há uma distância grande o bastante entre filosofia e ciência em Quine é que eu não acredito que filosofia possa ser feito por meio de análise de sentenças (acho que o principal motivo é que acredito que meu tempo é melhor gasto pensando nas coisas do que planejando um dicionário rigoroso de filosofia e - mesmo que tal dicionário exista - seria péssimo tê-lo me limitando, acho que filosofia tem esse talento de ser produtiva mesmo sendo nonsense às vezes), mas filosofia não pode deixar de utilizar (e, caso a oportunidade apareça, ampliar) os conhecimentos adquiridos pela ciência.
Então retirar filsofia do "mundo sensível", por tentador que seja, não é correto; vivemos em tal mundo sensível, fazemos parte dessa realidade, não podemos ignorar o pragmatismo e esperar encontrar algum tipo de verdade, porque afinal, essa idéia de encontrar respostas sobre uma tal "realidade em si" que é universal e eterna implica que estamos o tempo todo em nosso objeto de estudo; que aliás é um ponto que me leva a discordar dos pragmatistas e concordar ao mesmo tempo. Estudar uma tal "realidade me si" não é algo fútil só porque está fora do esquema sócio-político das coisas, afinal, estamos embrenhados na realidade mais do que estamos na sociedade ou na "pólis"; por outro lado; não dá pra ignorar a sociedade e a cultura porque elas são parte indispensáveis de nossas "teorias de mundo" e fingir que não é... bem... fingir que não e isso é errado e tal.
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Então eu não sei o que é filosofia, mas eu sei que eu faço isso, é um nonsense analítico, mas não deixa de fazer sentido. Sem nem entrar na questão de questão de que talvez o mundo não seja lógico (porque esse é o tipo de pergunta que pragmáticos dispensam inútil porque, afinal, não dá pra analisar discursos em um mundo ilógico [tem um "e, portanto" que se seguiria disso, mas acho que a primeira parte explica ele]), mas acho que a filosofia não sobrevive, não se torna culturalmente relevante, nem interessante; sem fazer saltos.
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Ok, tem que ser saltos calculados, mas acho que a filosofia é grandiosa por viver nessa área cinza em que ninguém tem muita certeza do que está falando; dado o quão pouco apreendemos da realidade (did you see what I just did there?) e que desse pouco não conseguimos elaborar discursos que descrevam com 100% de fidelidade nossa experiência sensível, acho seguro deduzir que a tal "área cinza" de incertezas é gigante. Esse movimento filosófico, de perguntar coisas sem nunca encontrar uma resposta, é relevante; não acho que seja um salto dizer que talvez a relevância cultural da filosofia está nas perguntas que formula e não nas que responde; nas hipóteses que levanta e não nas que comprova.
Mas de novo, é um movimento; filosofia não é formular perguntas da mesma forma que não é respondê-las; é exatamente essa caminhada na área cinzenta do conhecimento humano, não só do conhecimento científico, mas de toda "informação colateral" que nos acerta.
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Talvez o método do Quine leve a progressos na filosofia, mas acho relevante perguntar se "progresso" é um termo que se aplica aqui; se ao focar em responder as perguntas tradicionais ou buscar apenas questões de relevância sócio-cultural não perdemos o foco tanto do que há de tradicional tanto o que há de relevante na sociedade; porque o que se tornou tradição não se tornou tradição por já ser tradicional e o que se tornou relevante não se tornou relevante por já ser relevante; meu ponto é que a filosofia não se torna importante quando faz parte da sociedade, mas quando alguém olha pra um lado que ninguém está olhando e, quando essa pessoa se torna percebida, ela impõe que a sociedade olhe para o seu lado.
Não estou advogando aqui olhos de Deus; nem filósofos-reis; mas acho que a postura é meio que ser um freak. O freak não deixa de ser um produto da mesma sociedade que os normais; mas ele é um freak. Ele não deixa de fazer parte, mas também não faz parte.
Ele é cinza.