Oh, como é desprotegido nosso presente.
De um lado há os que acreditam que o presente fracassou em cumprir promessas do passado. E que por isso deveríamos rever essas promessas e voltar a um passado que nunca existiu onde tais promessas não foram feitas.
Eu concordo que promessas não foram cumpridas. O iluminismo não trouxe tantas respostas quanto prometeu. A democracia não é tão livre quanto prometeu. O New Deal não salva tantos pobres quanto prometeu. O capitalismo não gera tantos ricos quanto prometeu.
Mas o presente é bom porque ele é o fruto da desilusão. Mesmo quando falha, nenhuma promessa falha completamente.
O iluminismo nos trouxe diversas respostas e, como bônus, assassinou um Deus.
A democracia trouxe uma maior participação na sociedade, sua mera existência impediu muitas ditaduras. Muitos cadáveres bem compreendem a diferença entre democracia e sua ausência. A mudança que alguém, algum dia, precisou morrer para trazer, hoje, nós realizamos simplesmente enchendo suficientemente o saco de um legislador.
Mesmo quando falharam, as promessas trouxeram algo de bom. Quando o iluminismo fracassou, os objetivos de nossas metodologias se aperfeiçoaram. Não é mais uma questão de descobrir toda verdade, mas sim alguma verdade e com alguma verdade, nós sabemos cada vez mais.
Quando fracassa o projeto de saber tudo, inicia-se o projeto de saber ao infinito.
É semelhante quando uma democracia falha. A constante manutenção da democracia impede-nos de cair nas armadilhas da utopia.
Pois há também aqueles que não defendem o presente em prol de um futuro teorizado por uma economia política. Estas são criaturas curiosas. O que eles querem é um mistério, não é sequer uma incerteza; eles estão certos de que buscam esse ideal obscuro. Cada vez que um francês queima um carro, logo eles acham que a revolução que trará o futuro chegou! Pensam no presente não como algo a se viver, mas como uma ponte.
Acho muito boba a busca por um além-homem. Com o atual, nós estamos aprendendo a lidar. Sinto preguiça na noção que terei que aprender uma nova tábua de regras apenas para quebrá-la eventualmente. Prefiro ter minhas regras claras no obscuro bom senso de toda contemporâneidade.
Cada vez que a democracia falha de modo grande, geralmente resultado de uma revolução que busca o futuro que trará um homem mais perfeito, fica mais claro que o futuro pertence a nós, os falhos.
E cada vez que uma democracia falha de modo pequeno, geralmente quando o medo de uma população leva a um desejo de aumentar a segurança, fica claro que democracias são assim mesmo, coisas que falham, que devem ser constantemente reconfiguradas, aos poucos, para melhor atender nossas necessidades tão efêmeras.
A democracia vai e volta, acerta, erra, corrige, comete o mesmo erro novamente, descobre novos erros para corrigir. Mas permanece democracia.
Assim que eu revelo, de maneira mais fácil, um inimigo da democracia: a cada vez que o legislador diz algo que ele discorda, ele grita "fascismo!"
Às vezes, o legislador nem precisa dizer nada. Algumas pessoas tem o talento de se desagradarem com a programação da tv e gritarem "fascismo!"
Igrejas demais em seu bairro? "Fascismo!"
Igrejas de menos? "Fascismo!"
As pessoas realmente gostam de novela! "Fascismo!"
*aiai*
Imagino o que seria liberdade para essas eternas vítimas do fascismo. Provavelmente a escravidão dos outros.
Ao ver tal estado de coisas, me sinto solitário.
Alguns se desesperam porque não entendemos suficientemente bem o passado. Eles acham que é preciso refutar, semanalmente, 4000 anos de civilização, para então podermos falar sobre o presente.
Alguns se desesperam porque não buscamos vigorosamente o bastante o futuro. Eles acham que é preciso resolver, em um banho de sangue só, todos os problemas da humanidade, para então podermos dar ínicio à história.
Me sinto sem contemporâneos.
Um comentário:
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