segunda-feira, março 27, 2006

Anarquistão. De verdade. Sério.

Desde que eu entrei nessa de anarco-capitalismo eu tenho lido muito frequentemente que "anarco-capitalismo é contraditório".
Eu obviamente discordo e não vou dar argumentos muito detalhados mesmo porque se eu não for dormir agora, eu não sobrevivo na faculdade, mas só alguns insights:

1 - As palavras "socialismo" e "capitalismo" mudaram muito de significado desde que foram criadas.

Eu não sei daonde veio a palavra socialismo, mas embora dito que Proudhon era um "socialista em essência", ele jamais usou esse termo para se definir (ao invés disso, se definia como anarquista), ele acreditava em um livre mercado sem lucros (chamado mutualismo, eu vou voltar a questão do lucro) e Benjamin Tucker chegou a dizer que "Proudhon era provavelmente a pessoa que mais odiava socialistas no mundo".
E eu pensava que isso era uma coisa pós-Marx, mas eu li em algum lugar (e portanto pode estar errado) que mesmo antes de Marx, socialismo era muito visto como uma doutrina em que o Estado controlava todos os recursos naturais de forma a melhor garantir o "bem comum". Se essa é de fato a definição original de "socialismo", então nada mais contraditório do que "anarco-socialismo", uma vez que como você pode querer uma sociedade sem Estado em que o Estado controla todos os recursos naturais de forma a melhor garantir o "bem comum".
Com o tempo, socialismo passou a ser definido como qualquer tipo de sociedade igualitaria ou até mesmo com pretensões de ser igualitaria (alguns chamam social-democracia de socialismo).

Capitalismo tem suas origens claramente em um sistema de exploração. As primeiras definições de capitalismo se referiam a acumulo de capital e da influência das classes mais altas na cena política. Essa obviamente não é a definição que eu uso.
A definição de capitalismo que eu uso é a que capitalismo é um sistema sócio-econômico baseado em livre mercado e/ou propriedade privada.
Num ponto puramente econômico, toda sociedade voluntária é capitalista. Toda sociedade em que os individuos sejam donos do fruto do próprio trabalho e o usem como bem entendem é capitalista.
Agora veja só. Leia de novo.
"Toda sociedade em que os individuos sejam donos do fruto do próprio trabalho e o usem como bem entendem é capitalista."
Agora, qual toda a crise do socialistas para com o capitalismo?
"O patrão rouba o fruto do trabalho do empregado", sendo assim, o meu uso da palavra "capitalismo" é "anti-capitalista" e isso nos leva ao segundo (e final) ponto desse curto trabalho.

2 - 99,99% das criticas ao anarco-capitalismo partem do pressuposto que para ser anarquista é preciso acreditar na teoria do Valor-Trabalho.

Leiam ainda mais uma vez que "Toda sociedade em que os individuos sejam donos do fruto do próprio trabalho e o usem como bem entendem é capitalista"
De acordo com boa parte do século XIX, inclusive o próprio Adam Smith, a teoria em vigor no mainstream era a do Valor-Trabalho, que significa que todo valor vem do trabalho, que o patrão não trabalha e portanto ele rouba o trabalhador no lucro.
Uma expansão dessa teoria que levou ao mutualismo dizia que mesmo toda transação comercial com lucro era um roubo (o vendedor roubando o comprador), assim a idéia do mutualismo. Um livre mercado anti-capitalista, ou seja, anti-lucro.
Mas vejamos uma coisa. "Anarquismo" é de repente preso a uma teoria econômica? Quero dizer, uma teoria que partiu de Adam Smith define mais anarquismo do que a oposição a exploração, violência, guerra, autoridade e governo e Estado?
Oposição ao Estado de repente se tornou algo pequeno comparado a uma teoria sobre valor?
Continuando.
Anarquistas sempre atacaram o capitalismo na base de que lucro = roubo. Isso vinha da teoria do valor trabalho.
Eu faço um produto, meu chefe vende por R$1,10 e me paga R$1,00: daonde foram tirados os 10 centavos? Do meu pagamento. Logo, ele me roubou.
Entretanto na história surgiram diferentes teorias de valor. A que eu acredito é na teoria do valor subjetivo.
Ou seja, primeiro meu chefe me oferece R$1,00; eu aceitou ou recuso; partamos do pressuposto que eu aceite, eu aceitei, esse R$1,00 é meu, o produto é dele, esse foi o acordo feito voluntariamente sem violência antes de qualquer coisa ter acontecido. Se ele vende por R$1,10.; R$0,90 ou R$450.000.000 é problema dele. O preço surgiu do contrato, primeiro entre patrão e trabalhador; depois entre vendedor e comprador e se qualquer uma das partes pôde recusar, então não houve roubo porque o valor é subjetivo
Vamos ao problema do mutalismo.
Eu, sozinho, com meus recursos, faço uma cadeira. De acordo com Proudhon, Tucker e outros mutualistas, eu tenho que vender pelo preço de custo.
Só que eu sou meu próprio proletario. Qual o meu custo? Quem decide a justiça do preço? A resposta é eu + o comprador. Eu digo 20, ele diz 10, eu digo 15 e nos acertamos. Taí a justiça, é subjetiva. Justo pra mim é 20, pra ele é 10, pra ambos é 15.
Se isso se aplica na hora de vender cadeira, porque não na hora de vender tempo e trabalho? Quanto a vale a sua hora de trabalho?
.
Quando anarco-socialistas dizem que "lucro é roubo" eles se baseiam em uma teoria de trabalho, quando eu digo "lucro é simplesmente um valor cardinal objetivo vindo de duas distintas opiniões subjetivas" eu me baseio na teoria do valor subjetivo.
O mesmo vale pro resto.

Anarco-individualistas do século XIX são contra aluguel e empréstimos com juros; afinal, são coisas que o senhorio e o banqueiro ganham sem trabalhar, portanto roubo.
Eu não sou contra essas coisas, porque pra mim são coisas que ambos ganham a partir de um acordo voluntario entre dois individuos, se uma parte trabalha ou não é irrelevante, porque a liberdade de se fazer acordos voluntários é muito mais importante do que essa aparente (note-se o aparente, não vou me aprofundar em economia aqui, mas note que é só aparente) injustiça que existe em um sujeito recendo sem trabalhar. Se eu considerasse essas coisas como roubo, seria contra também, porém não considero.

3 - Anarco-capitalistas são bem menos utópicos.

Uma crítica que eu li hoje dizia:
"Anarco-capitalistas querem privatizar a policia. Oras, anarquistas de verdade querem abolir a policia!"
Note a palavra "querem".
Oras, eu também quero abolir a policia tanto quanto eu quero fazer sexo com a Christina Ricci.
O problema de socialistas num geral é que eles acham que estão em uma guerra de todos contra todos e quem quer que vença a batalha armada no dia em que a revolução estourar vai poder moelar a sociedade da forma que eles bem entendem.
Ou seja, que depois da grande revolução Kropotkiana, os pedófilos vão passar a amar adultos; os ladrões envergonhadamente largarão a televisão, e pularão de volta pela janela pedindo desculpas ao dono e que os alcoólatras tomarão toddynho (fabricado com a vaquinha da vila, já que todas as metrópoles vão fazer *PUF* e sumir), enfim, eles acham razoavel montar um sistema politico baseado em suas vontades pessoais.
Mas caralhada, veja só, eu acho razoavel montar um sistema politico baseado na vontade pessoal dos outros!
Se a sociedade no capitalismo quiser abolir a policia. É simples. Ela simplesmente parará de pagar a continha da "Sblarghman agência de segurança ltda." todo fim de mês quando chegar na sua casa. Mas as pessoas para se sentirem melhor podem (e infelizmente provavelmente irão) pagar pessoas treinadas na fina arte de brutal assassinato para protegê-las de brutais assassinos.

Enfim, aqui está o guia básico para formular sua critica "anarco-capitalismo não é anarquia de verdade". Eu não vi nenhuma critica que não se encaixe em pelo menos uma dessas categorias.

1 - Use nossas definições das palavras. Socialismo = igualitarianismo e Capitalismo = Voluntariado.
2 - "Anarquistas de verdade acreditam que lucro é roubo". Porque? Por causa de uma teoria de valor? Anarquistas se opõem a exploração. Eu deixo de ser anarquista ainda me opondo a exploração mesmo considerando lucro como não-explorativo? Se Proudhon tivesse contato com as teorias de valor que eu tenho hoje, considerando que ele apoiava alguma forma de mercado, ele "tombaria" mais fácil de que lado? Do capitalista ou do socialsta? Tendo em mente que em sua época a exata mesma teoria do valor-trabalho já estava por aí (ele escreveu um livro sobre isso) e mesmo assim ele não tombou pro lado socialista? (embora aceitasse a teoria, acreditava que era capaz de "contorna-la" desde que os bancos não cobrassem juros, as fabricas fossem coperativos e as trocas comerciais não envolvessem lucros).
3 - "No seu sistema ainda vai existir policia/religião/carnivoros/emos" - Bom, eu acho que os emos serão mortos na revolução, mas de resto, sim, eu acho que as pessoas ainda serão filhas da puta. Ok, mentira, acho que elas, com o tempo, após algumas gerações em anarquia, se tornarão melhores, pois o governo incentiva a malandragem e a exploração, uma vez sem as "safety nets" e nem a possibilidade de ganhar dinheiro através favores governamentais, as pessoas se tornarão (por necessidade) mais honestas e isso, acredito, as levará a ser até mais felizes. Mas eu acho que isso vai acontecer, eu não demando que isso aconteça.
Eu pretendo com anarquia não um mundo que reflita a minha visão, mas sim um que reflita a visão da sociedade, seja boa seja ruim, por fim eu sou um individualista por acreditar que a sociedade deve seguir o caminho que o coletivo individualista acredita ser o melhor; os coletivistas por outro lado propõem uma visão de sociedade que o individuo coletivista acredita ser melhor.

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