Passar a madrugada em claro não é saudavel, mas tem vezes que você simplesmente tem que deixar de ser fresco e FICAR ACORDADO, entende?
Escrever, pra mim, sempre foi, a parte final de um processo longo (longo demais, tenho que resolver isso) de noites em claro simplesmente pensando em uma história.
Arrumando os detalhes, decidindo os personagens, pensando na vida deles, geralmente é fácil criar o personagem principal, ainda mais no meu tipo de história que é tão centrado no personagem, o dificil é fazer os coadjuvantes, porque sempre há o risco de eles serem meras ferramentas usadas para a história avançar.
Digo, claro, existem personagens que não passam disso mesmo, se seu personagem principal entra em um bar, pouco importa (a não ser em casos óbvios e especificos) quem é o barman, pouco importa se ele é funcionario ou dono do bar, em como ele conseguiu aquela posição, se ele é feliz, etc. Ele é simplesmente o cara que oferece a bebida, porra!
Pode ser interessante contar sua história? Sim, claro que pode! Mas aí ele será o personagem, entende? Nesse caso o sujeito que entra pedindo a bebida passa a importar pouco.
Mas enfim, os coadjuvantes são diferentes, se existe uma "moral" que eu acho legal no Chuva Contra O Vento é que as pessoas não existem por sua causa, elas existem por causa delas, você é tão secundario na vida delas quanto elas são na sua e a impressão que elas tem de você é, também, que você é só um apoio para elas.
Quando se escreve, tem que pensar muito nisso; a vida dos coadjuvantes geralmente vai além da história e isso tem que ser mostrado, é algo tipo "eu faço parte da sua vida, mas sua vida não é minha razão de ser", quando você conta uma história, tem que tomar o cuidado de não cometer o erro de criar personagens que só servem para acompanhar o personagem principal, que só servem para complementar suas limitações.
A Mary Jane, por exemplo, cara, a maior parte das vezes ela só é a esposinha!! Ela só serve pra ficar feliz se o Peter está perto ou triste se o Peter está longe, é muito comum algum roteirista querer dar uma personalidade pra ela fazendo ela dizer"ah,é! Já que ele fica a noite toda fora, eu vou para a balada!", ou seja, fazendo com que o motivo da saída dela seja a ausência do personagem principal. O Straczinsky é, de longe, o roteirista que mais sabe escrever a Mary Jane. Quando ela decide ir atuar no teatro, não tem nada a ver com o personagem principal, ela não faz isso de birra do Peter Parker, nem pra deixa-lo feliz, nem pra nada em relação a ele, ela decide atuar porque ela quer atuar! A opinião dele é importante, claro, mas a decisão não é feita por causa da opinião dele!
Enfim, o que isso tem a ver comigo aqui, as 5 da manhã, escrevendo num blog?
É que até então eu estava pensando nos personagens da nova história que eu estou escrevendo (sem nome ainda).
Algumas perguntas simples como "Como era a infância dessa personagem?" ajuda, mas pode ter o efeito negativo das coisas ficarem muito behavioristas, porque você conhece a personagem hoje, então quando cria um passado pra ela, logicamente o faz pensando que esse passado afetou sua personalidade atual.
Ou seja, "Minha personagem é mimada, portanto, era uma criança rica", isso pode funcionar lógico, mas eu gosto de dar um efeito de imprevisibilidade nas minhas personagens, não que elas se contradizam, mas que elas não sigam um padrão tão definido de comportamento.
Eu gosto muito de Donnie Darko por causa disso. Porque ele é um garoto tão deprimido no final do filme? Ou mesmo no começo! Ele tem uma boa familia de classe média, seus pais não são extremamente autoritarios e nem ausentes, ele até consegue uma namorada em certo ponto no filme, mas ele não consegue ser feliz! Ele simplesmente não consegue! Não há motivo para sua infelicidade, ela simplesmente existe!
Então isso é algo que eu tento dar aos meus personagens, o ambiente ao redor os afetam, a história de suas vidas é importante, mas eles são mais do que isso, existe algo dentro das pessoas que existe independente do ambiente e da história e essa é, sem dúvida, a caracteristica mais importante de sua personalidade.
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