sexta-feira, setembro 02, 2005

São duas e meia da manhã e você está no computador ouvindo Faith No More e pensando no que escrever. É dificil dormir, mas é mais dificil ainda se manter acordado. Você pensa em algumas frases de efeito, coleciona algumas palavras mais bonitas, pensa talvez em fazer uma citaçãoa a algum intelectual ou filósofo e é então que te atinge like a rolling stone. Você não faz parte desse mundo. Não é intelectual, não é filósofo, não é politico, não é boêmio, não é artista, você está ouvindo Easy do Faith No More com as luzes apagadas pensando no que escrever porque é dificil dormir e mais ainda se manter acordado. A música muda, "The Gunner´s Dream" do Pink Floyd toca e você não consegue parar de pensar que precisa de uma história. De uma boa história. De uma história tão boa quanto um bom capitulo de sandman e então você se lembra de um homem olhando pela janela de dentro da taverna e ele vê seres gigantes e entristecidos carregando um caixão. Ele vê uma jovem gótica que, por um segundo olha pra ele, "I don´t know who she is, but I think I love her". I think I love her. E então a música muda, é She Makes Me do Queen e você pensa em Final Fantasy X e como aquela jornada foi tão épica e tão maravilhosa com um fim tão triste... "the people you lost, never forget them.". Você percebe como, por algum motivo, prefere expressões artisticas que os artistas não consideram arte como videogame e quadrinhos de super-herói, como gosta de comédias românticas e no que a música muda para Cadence to Arms do Dropkick Murphys você pensa como gostaria de estar longe, em um lugar que oferecesse esperança de resposta, em como odeia os preços caros e os impostos abusivos, em como odeia o povo, os apaixonados pela escravidão, os ricos impunes e os pobres impunes e a música muda para outra do Queen, dessa vez é Pain Is So Close To Pleasure e você pensa como isso é verdade e você pensa que é geralmente nessas épocas em que a solidão começa a se tornar insuportavel que você conhece alguém de alguma forma acidental e estranha e então para pra pensar como tudo que aconteceu de bom na sua vida foram acidentes e coincidências, aí você se lembra o quanto esse pensamento é injusto porque você planejou algumas coisas que deram certo e você pensa que se quer uma boa história terá que escrevê-la, mas você pode? Você consegue? Você nem tem uma carreira, mas percebe que escrever está começando a se tornar cansativo, que, se for pra parar pra pensar, você já escreveu TANTO e que esse tanto todo parece inutil, porque cada vez que você abre a pasta de roteiros, encontra mais e mais cada vez mais velhos e você percebe que nem se lembra mais da maioria das coisas que escreveu ali e amaldiçoa sua memória por ser tão curta e ao mesmo tempo amaldiçoa que nenhuma dessas "obras" estão imortalizadas, que aquilo tudo não vai ser desenhado, não vai ser publicado e afinal, qual a moral de continuar escrevendo se é pra acabar numa longa e interminavel fila de "um dia vou fazer"? E a música muda pra Rua Augusta dos Mutantes e você se sente na obrigação de dizer "desculpa, escrever não é tão fácil, simplesmente não é." e você percebe como está cansado e como é tão ridiculamente dificil dormir, mas como é insuportavel se manter acordado e quando Summer 68 do Pink Floyd começa a tocar, você percebe que olha para a jovem gótica com o ank pendurado no pescoço e que ama ela, que quer ficar junto dela, que essa é sua única chance de ter um grande momento na vida e você se lembra das pessoas que perdeu, em como não poderia se esquecer elas nem se quisesse e amaldiçoa sua memória curta que consegue guardar tão bem coisas que você não quer que ela guarde e você mais uma vez se pergunta porque tem que passar por esse insuportavel ritual de escrever nesse blog, não é como se não tivessem pessoas que não lhe ouviriam, é quase, são pouquissimas, mas não é como se não tivessem pessoas que não lhe ouviriam, é simplesmente que você não quer falar com pessoas, porque seus amigos vêm todos com prazo de validade, porque eles sempre se cansam de você e você fica com medo de passar a sensação que se faz de coitado por prazer e até o fato de ter que explicar para os outros - e para si mesmo - o quanto ser desse jeito nunca te fez nenhum bem na sua vida e o quanto você não tem motivo nenhum para ser do jeito que você é cansativo, é cansativo porque os outros não acreditam e o que você vai dizer? Que tem uma alma pertubada? Uma melancolia natural? Uma solidão incuravel? Tudo que você quer é parar de existir e tudo o que as pessoas fazem é deduzir que sabem tudo sobre você, e se você for um clichê? Você percebe que está tão cansado que não consegue nem mais achar justificativas, só quer ficar sozinho por um tempo, só quer não ficar mais sozinho, quer voltar para aquele breve momento que durou apenas curtos meses em que você tinha um gibi, um amigo, uma esperança e podia sair a noite para ter tranquilos traumas emocionais e você pensa que, inferno, só tem 19 anos e já não consegue fazer porque, inferno, apenas com 19 anos, foi trocado por um emprego que paga mal e, inferno, apenas com 19 anos não consegue transpassar barreiras criados por estresses da vida profissional e você se pergunta "é esse o mundo que vocês querem? De pessoas estressadas e infelizes trocando seus sonhos e seus amigos por um emprego que paga mal? Por uma carreira que não vai fazer nada além de trazer o mesmo estresse?" e você percebe como sente falta dessa época que durou míseros meses e que, inferno, com apenas 19 anos ela já passou e você já é um escravo estupido que não consegue dormir e nem se manter acordado e é isso? Cadê o rock n roll? Cadê a anarquia? e One Of My Turns do Pink Floyd toca e ainda hoje, mesmo tendo sido uma das primeiras músicas que você realmente se apaixonou, ainda é uma das músicas que mais te definem, "I have grown older, you have grown colder, nothing is very much fun and I can feel one of my turns coming on and I feel cold as a razor blade, tight as tourniquete, dry as a funeral drum". E você percebe como está triste e que ninguém vai dar a mínima porque seus olhos não são bonitos o bastante e você não tem um circulo pré-definido de escravos sem imaginação com a sua mesma postura politica para ficar dando tapinhas nas suas costas e você não tem um circulo pré-definido de apáticos doentes com o seu mesmo gosto musical para ficar te fazendo acreditar que há um mundo bom aí fora e você só quer sair para beber e dançar, mas você não pode porque foi trocado pelo estresse dos adultos, ah, os adultos, os responsaveis, os moralistas e os empregados, você olha para os adultos da sua vida e percebe quando foi exatamente que eles decidiram jogar suas vidas foras? Quando foi que eles decidiram que seus sonhos não valeriam mais a pena? Você lembra, claro, dos fracos inuteis que transformam o derrotismo em ideologia política e você quer parar de pensar em política, em amor, em diversão, em amizade, em trabalho, em vida, porque nenhuma dessas coisas te faz bem, você quer aprender a se comunicar de forma sincera com seres humanos que realmente se importam com você para não ter que humilhantemente usar esse blog mais uma vez para buscar reações e criar problemas, você está cansado e sabe que vai ficar mais ainda.

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