Spoilers de Twin Peaks e Lost abaixo.
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Além de estar vivendo uma existência perfeitamente apaixonado (mas com sua dose de sofrimento pra evitar neuroses futuras), uma das grandes vantagens de estar morando com minha bonita muy bonita é eu sair um pouco do meu universo solitário de video games e quadrinhos e voltado a assistir coisas, pois é uma atividade que você pode fazer com sua alma gêmea.
Bem, eu assisti 3 coisas com ela até agora: fomos do começo ao fim de futurama (que não vou comentar aqui, só vou dizer o quanto essa série é, em geral, boa e o quanto a temporada mais recente é tão boa quanto as temporadas passadas); outras coisas que eu assisti foi De Volta Para O Futuro, um filme que eu sou viciado e já vi umas 1000 vezes, mas ela nunca tinha visto e outra coisa foi ver Twin Peaks do começo ao fim.
E uma coisa curiosa vendo ela ver De Volta Para o Futuro foi que, ao final, quando acontece aquela cena clássica e toda excelente com o Doutor e Martin ambos em uma série de pequenos atrasos que levará à Doc descer heroicamente da torre do relógio para plugar o fio no segundo exato, Thaís comentou "não vai dar tempo" e, no seu costume irritante mas adorável de insistentemente pedir o fim do filme durante o filme, ela perguntou algumas vezes na última meia hora do filme se ele ia ou não conseguir voltar para o presente.
A duvida nunca tinha me passado, acho que não é uma duvida comum, filmes assim tem uma formula tal que você entra no filme já sabendo que o final será feliz, restando saber como exatamente vai acontecer. No mundo ideal do roteirista, todos seriam Thaís, nunca sabendo se o mocinho vai ou não voltar para sua namorada em 1985, mas nós sabemos que as coisas vão dar certo e o máximo que podemos esperar é que o filme nos distraia o suficiente de nossa racionalidade para que em nenhum momento lembremos que as coisas sempre dão certo no final (mas isso significa, claro, não questionar se as coisas darão ou não certo).
Mas a questão é que Thaís vem de um contexto diferente: ela é a maior leitora que eu conheço, dos grandes clássicos da humanidade a infanto-juvenis e, quando se pensa a respeito de livros, é assustador o quanto um livro tem uma liberdade muito muito muuuuito maior para um final imprevisível, infeliz ou bizarro do que um filme ou uma série de TV.
Então eu me peguei imaginando lendo um livro de De Volta Para o Futuro. Mesmo em um livro junevil, cheio de bom humor e cenas fofas, um fim onde ele não consegue voltar não soa errado como soaria se a última cena do filme falhasse, daria até um certo tchans bacana pro livro se eles tivessem esse conhecimento tão impressionantemente conveniente de saber onde e quando um raio vai cair, mas falhassem em pegar o raio devido à uma série de pequenos imprevistos, contribuiria pro humor, não seria nem considerado uma tragédia. Em filme ficaria simplesmente boboca. O público amaldiçoaria, etc.
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Twin Peaks não teve fim, propriamente dizendo, a série foi cancelada antes de uma resolução. Lost teve.
Eu nem de longe devo ser o primeiro a comparar Twin Peaks com Lost, mas vamos lá:
Ambas são séries sobre um lugar místico, com mistérios e segredos, (aliás, trivia, a palavra "mística" e "mistério" são ligadas, então é um pouco redundante dizer que é um lugar místico com mistérios) e esses mistérios e segredos fazem personagens únicos interagir de modo que embora a série tenha um ou mais heróis, o real tema dela é como a mística move esses personagens.
E embora um apologista de Lost, assim como os anos 90 tiveram sua cota de apologistas de Twin Peaks (sem internet pra criar os debates furiosos), eu não vou fingir que o fim da série - ou a série como um todo - não tiveram suas cotas de problema, mas eu acho que o fim de Lost, a última temporada toda, tem uma temática tão especial e tão distinta e tão genial que é um daqueles casos raros em que eu digo que as pessoas não entenderam por falta de visão. Eu não costumo ser uma dessas pessoas, mas serei aqui.
Aliás, pra todos os efeitos, eu vou considerar o fim de Twin Peaks como um fim propriamente dito. É claro que não era com os mil cliffhangers por segundo que o episódio final teve, mas vá lá.
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Eu também nunca fui uma dessas pessoas a criticar a obsessão norte-americana por finais felizes, mas há de se apontar exageros. Há pelo menos 2 pontos de Twin Peaks que poderiam marcar seu final e nenhum deles seria feliz, os 2 causariam a frustração que causou. Lost é, também, apesar do fim, uma das séries com a moral mais pessimista que eu já vi e é quase um dever profissional meu apreciar um bom uso do pessimismo onde quer que ele apareça.
Os 2 pontos que Twin Peaks poderiam ter terminado são: O fim mesmo da segunda temporada, como ocorreu e o episódio em que Leeland morre que amarra boa parte das pontas, deixando apenas o místico no ar.
O fim propriamente dito de Twin Peaks, se considerado como um fim, tem tanta tragédia que é insuportável. Annie não é resgatada, Nadine "desperta" do seu delírio complicando o romance de Ed e Norma de novo (arruinando a própria existenciazinha perfeita no processo), o corpo de Dale Coop fica preso no salão negro, Donna foge, Ben Horne é ferido, Audrey e Pete explodem no banco.
Ainda assim, toda a tragédia tem o excelente tema de lidar com as consequências de um bem que dá um passo maior que a perna na luta contra o mal. Os destinos de Audrey, Ben Horne e Donna estão ligados ao novo desejo de Ben de fazer o bem a todo custo. Se ele é a pessoa mentirosa de sempre e o mal pai de sempre, nenhuma das tragédias ocorrem relacionadas a esses três personagens ocorre.
Ed, Norma e Nadine, por outro lado, pagam por mentiras bem intencionadas. Eles constróem uma vida perfeita baseadas nos delírios de Nadine. Eles começam cautelosos, mas assim que confiam que tudo vai dar certo, a coisa cai como um castelo de cartas. Em uma série que diz que o maior medo é que o amor não supere tudo, é o amor de Ed e Norma que "acorda" Nadine causando esses problemas.
Quanto a Coop, ele é a representação mais simbolista disso. Para salvar a amada, ele entra no salão negro, é um tanto impossível entender exatamente o que ocorre, mas ele se sacrifica para salvá-la, perdendo seu corpo no processo. No que ele entra no coração do mal pra fazer o bem, o mundo perde essa enorme força do bem e o mal anda por aí com seu corpo.
Um fim no episódio onde Leeland é revelado o assassino seria semelhante, Maddy morta, Bob à solta, o homem errado preso, mas não teria tanto do simbolismo. Seriam só coisas dando errado.
Já o terceiro fim, o final mais feliz, encerraria a série com o mal incompreendido e à solta. Mistério resolvido, nem todas as pontas amarradas, Bob claramente por aí, mas não seria trágico, o bem teria cumprido seu trabalho em agir como contrapeso pro mal, mas nunca teria tentado erradicá-lo de vez causando todas as tragédias.
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Lost funciona assim também. Eu vejo toda a realidade alternativa da última temporada como um castelo nas nuvens posando de castelo real e essa é talvez a análise mais óbvia que existe, mas eu acho impressionante o pouco esforço em pensar a respeito disso.
A última temporada faz o audacioso trabalho de nos fazer uma grande promessa (há um mundo onde não só o avião pousa, como tudo dá certo, não só que tudo dá certo, como que os personagens ressucitados lembram de suas experiências na ilha, podendo prosseguir seus amores). O fim de Lost brinca com nossas expectativas quando nos oferece, em um único pacote: ressurreição, redenção, vida plena, amor, etc.
No fim, esse mundo não existe: o que aconteceu aconteceu, quem morreu morreu, os amores perdidos foram perdidos; creio que parte da fúria com Lost vem mais dessa decepção do que qualquer decepção com respostas ou ausência de.
Ainda comparando com Twin Peaks, David Lynch já afirmou que seria a favor de nunca resolver o mistério de Laura Palmer, há quem diz também que o mistério realmente só foi resolvido por pressão dos executivos. Twin Peaks foi cancelado antes de começar a responder seus mistérios envolvendo aliens e fantasmas, mas eles seriam tão bobinhos quanto foram as respostas de Lost. Quanto mais coisas além de um fantasma pode ser um fantasma?
Mas eu vou avançar aqui a teoria de que o modo como Lost revela seu castelo de cartas em pleno desmoronamento é o que emputeceu as pessoas: de repente Charlie está vivo, Sun e Jin estão juntos, Locke está contente na sua cadeira de rodas (aliás, em quantas séries o conformismo da cadeira de rodas é visto como sinal maior de felicidade do que o milagre de andar de novo? Nem a bíblia tem esse insight, já que Jesus cura os paraplégicos ao invés de ensiná-los a viver com o sofrimento do mundo), Desmond e Penny se conhecem sem toda a bagagem anterior, Danny se torna um pianista como sempre quis, etc.
E então era tudo um sonho - ou céu - ou alucinação de um Jack morrendo - ou whatever. O que importa é que em ambas as séries que tratam extensivamente de dualidade e de uma disputa essencial do mal contra o bem terminam de modo a desmontar a idéia do bem vencendo o mal. Twin Peaks pune de forma até cruel cada uma das muitas boas intenções surgidas no final, elas eram simplesmente boas *demais*. Já Lost simplesmente nos maravilha com a idéia de um mundo perfeito, só pra adicionar "mas é uma mentira, no mundo real, os amores são perdidos, os filhos ficam órfãos, o que acontece acontece".
De novo, são duas séries que personificam a luta do bem contra o mal. Não é um cara honesto contra um cara desonesto, mas é o próprio confronto do bem contra o mal. Afinal de contas, Dale é dominado por Bob e a ilha fica nas mãos de Hurley. O mal tem uma vitória contra um bem que tentou tudo e o bem tem uma vitória contra um mal que tentou tudo, mas nenhum *vence*, Twin Peaks não perde todos seus heróis e Lost não corrige nenhuma de suas injustiças.
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Em forma de livro, isso seria perfeitamente aceitável, lembrando os últimos livros que li, não lembro de nenhum fazendo nenhum esforço em particular pra chegar a um final feliz; um deles termina inclusive em um desaparecimento que não se tem nenhuma resposta, não se sabe se o personagem fugiu, morreu, foi sequestrado, ele some, as pessoas sentem sua falta, questionam-se sobre o motivo, mas meio que continuam a vida mesmo assim porque fazer-o-que-né e acaba aí. Meu livro favorito - Thaís de Anatole France - termina com corrupção e redenção ocorrendo simultaneamente, com suas respectivas grandiosidades.
Alguns livros com final feliz que consigo me lembrar são muito mais a respeito de personagens que entram em termos com a própria vida - que descobrem algo sobre si que os faz mais resistentes às mazelas do mundo - do que sobre o mundo se conformando à eles.
Enquanto o final feliz, sem nada a se pagar por isso senão ferimentos e momentos de tensão, são um tipo de final a ser encontrado entre outros, não há nada de inerentemente errado neles, mas a noção de que se não é feliz é porque não chegou ao fim é das mais prejudiciais. As pessoas sentiram-se trapaceadas com Lost quando ele nunca abandonou seu bordão de que o aconteceu aconteceu. As pessoas sentem que Twin Peaks não teve uma conclusão - justificado também pelas histórias dos bastidores - mas por um sentimento de que é impossível que esses personagens tão essencialmente bons tenham encontrado fins tão horríveis. Mas isso não é culpa das obras, especialmente daquelas que nunca nos prometeram o final feliz.
É no fim, uma diferença entre visões de vida. Entre arriscar arrumar o mundo ou resignar-se a viver em um mundo quebrado e o impulso talvez seja escolher a primeira, mas é também um problema de expectativas: e se a primeira for falsa?
Pior, e se ela prender nossa alma no coração do mal que buscamos extirpar? A história abunda em exemplos.