Assim, é comum a marxistas declararem os outros alienados e a eles próprios alguma espécie de livres-pensadores, pois enquanto os outros são determinados pela ideologia a sujeitarem-se ao domínio por outra classe, o determinismo dos marxistas os levam à "verdadeira" liberdade e à "verdadeira" unidade.
Afinal, se a ideologia da classe burguesa leva à um tipo de dominação sob o nome de liberdade, o que haveria de diferente na ideologia da classe trabalhadora?
O mesmo acontece com os que escrevem textos dizendo que textos são uma mera ferramenta de dominação, sem notar que o próprio texto que escrevem são também ferramentas de dominação.
Em casos semelhantes a esse, o que falta é mais um componente de honestidade do que de lógica. Não há nada de errado em uma teoria que põe a razão como instrumento de dominação ser ela própria um racional instrumento de dominação, mas admitir isso evitaria problemas futuros e messianismos terrenos.
Creio nessas coisas: que a razão existe como apêndice de um ímpeto cego que, nos indivíduos, manifesta-se como desejo. O desejo que nos une não é necessário um desejo para aumentar posses materiais e prazeres terrenos, ele manifesta-se de diversas maneiras, pois é de sua característico ser múltiplo (se fosse uno, não buscaria dominar o outro).
Por exemplo, quando postulada uma vida além, o desejo (ou instinto) de sobrevivência pode muito bem adquirir a forma de uma vida monástica e de atos suicidas, pois o cálculo de quem acredita no sacrifício dessa vida por uma vida eterna é o mesmo de quem economiza dinheiro hoje para comprar uma coisa mais cara amanhã. E isso ainda é mais racional do que aqueles que buscam fama ou glória póstuma. Quem se sacrifica por um futuro que não presenciará, pois aí o instinto não é sequer o egoísmo humano, mas meramente o instinto animalesco de preservação dos próprios genes.
Mas atrás deste texto que escrevo está o meu próprio desejo de preservar meu estilo de vida. Colocar a religião como um cálculo racional que é, na verdade, apenas manifestação de um egoísmo comum, conforta o meu ateísmo (que por sua vez só precisa ser confortado, pois ser ateu implica que digam que você é o Mal Absoluto comparável ao nazismo vez ou outra, é um ciclo, instintos são tanto impulso de desejo quanto de repulsa, tanto ação quanto reação).
A questão realmente complicada que sai desse tipo de honestidade é o motivo pelo qual as pessoas simplesmente não admitem esse tipo de coisa: se eu admito que sou irracional, qual a validade do meu discurso?
Eu vou fazer um truque bobinho de filósofos e dizer que a pergunta é errada, pois o que temos em questão não é irracionalidade vs racionalidade. Esse já é um modo errado de ver as coisas e é esse modo errado que leva às contradições. O que temos é uma razão, que é razão, que é normativa, que é objetiva, mas que é, ao mesmo tempo, um fruto de - e guiado por - um ímpeto que nos indivíduos manifesta-se como desejo.
Analisar o mundo é analisá-lo por meio de olhos que observam, pois gostam de observar seios. É um motivo pelo qual eu acho que adolescentes são simplesmente novos demais para a escola e que evitaríamos uma porção de crises de media idade se o primeiro colegial rolasse lá pelos 30 anos.
É preciso que nossos olhos tenham saciado-se de seios o suficiente para que estejam prontos para observar as estrelas. Não há como esperar um bom uso da razão em pessoas cujos desejos básicos não estejam bem saciados, assim como não podemos esperar um bom uso da razão daqueles que acreditam que todo bom uso da razão é aquele que leva a satisfação de um desejo. Digo simplesmente para não confiar nem no Pai e nem no Filho; nem no padre e nem no libertino. Pois dividir espírito e carne cria guerra entre eles. O puritano sofre, pois a carne distrai demais o espírito e o hedonista sofre, pois o tédio logo se impõe àqueles que envolvidos demais na roda gigante das fomes.
As lentes impostas pela vontade nos fazem ver o mundo de modo parecido o suficiente, de modo objetivo o suficiente, e, portanto, discursos racionais podem ser realizados. Mas mesmo que discursos racionais sejam possíveis, isso não significa não utilizá-los como ferramenta de dominação, de preservação da espécie, de satisfação dos desejos, o que significa que o mundo sempre verá sua cota de discórdia e de guerra.
Mas quanto a nós que preservamos nosso estilo de vida, que buscamos sobreviver, eliminar o que impede a sobrevivência, saciar nossos desejos e garantir dominação, e sabemos quão escravos somos disso, nos resta uma vida longa e tortuosa buscando - se é impossível amenizar - ao menos guiar esses instintos para uma maior universalidade e uma maior unidade, se não por um motivo ético, ao menos por uma maior compreensão de nossa metafísica, compreensão essa que tende ao universal e ao uno.
E vendo o mal em nós mesmos, aos poucos nos pegamos percebendo o mesmo mal nos outros. Entender o "lado" de quem é rabugento e escroto é entender nossa rabugentice e nossa escrotidão.
Encarar para o abismo - e percebê-lo encarando-o de volta - é uma forma de compaixão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário