Dos links que eu recebi hoje de matérias ou posts homenageando o Mussum, a maioria (eu falaria todas, mas às vezes estou esquecendo de alguma) tocam no assunto que "hoje por causa dessa gente politicamente correta, esse humor seria censurado" ou alguma variação disso.
Acho que a primeira coisa a fazer nesses casos é analisar direito.
Quando alguém fala que o humor não seria aceito "porque tem sempre alguém se ofendendo com qualquer coisa", bom, eu imagino que para um negro, boa parte das coisas que rolavam nos trapalhões seria ofensiva mesmo. Se um negro não se ofende com algo do tipo "prefiro morrer preto que..." não é algo tão simples como "ele é bem humorado diferente de vocês babacas politicamente corretos". Essa é uma frase forte, ela diz que morrer negro seria algo ruim, isso não é "celebrar a negritude" como eu vi no blog de alguém branco, isso é depreciar, o fato que um negro talentoso como o Mussum fazia esse tipo de piada não significava que ele era pós-racial, mas sim que o racismo estava tão incorporado na cultura que algo que pra nós hoje é chocante, na época era normal. Mas a questão é exatamente apontar que esse tipo de coisa *não pode* ser normal, mesmo que seja. Racismo não pode ser a norma. Quando um negro aparece fazendo piadas racistas, não é algo simples como ser bem humorado, é autodepreciação. E quando um monte de brancos dão risada da piada racista do negro, aí a coisa fica ainda mais feia.
Em um blog sujeito contava que o filho do Mussum estudava numa escola particular e era excluído por ser negro. No mesmo blog, sujeito diz que gente que diz o que eu estou dizendo é debilóide. Que o sujeito não veja relação entre humor racista ser aceito publicamente e um negro ser excluído de um grupo social, então sei lá, cada um vê o que quer.
Um debate semelhante aconteceu recentemente por causa do lingerie day no twitter. Veja, existe uma diferença gigante entre uma mulher querer se exibir e um negro dizer que "morrer preto" é uma coisa ruim.
A questão é que o exibicionismo feminino é uma espécie de área cinza na misoginia. Às vezes é uma demonstração de poder da mulher, às vezes é uma demonstração de submissão. Depende da situação e da mulher. Agora, imagine uma mulher dizendo que mulher tem que ficar na cozinha porque mulher não pode trabalhar. Isso é machista e ponto. Não tem área cinza aí. Se aparece uma personagem de comédia mulher dizendo "prefiro ter uma carreira que..." um monte de mulheres aí se ofenderiam. Porque não? Elas tem uma carreira e nem por isso deixam de ser mulheres. Assim como um monte de mulheres tem uma vida doméstica de dona de casa e nem por isso são submissas.
Olha a diferença. A questão não é dizer o que uma mulher deve ser. Feminismo muitas vezes erra porque tenta dizer pra mulher o que ela deve ser e se a mulher não é, então ela está errada. Mas o problema de um preconceito é exatamente dizer para X que ele deve agir como ele diz que X deve agir.
Dizer que uma mulher não pode exibir seu corpo e não pode ser dona de casa é tentar criar um clima de opressão tão grande quanto dizer que mulher deve ser apenas mãe ou prostituta. O segundo tipo só é historicamente mais predominante.
Voltando ao tema do post, dizer que negro tem que ser jogador de futebol ou sambista ou é ladrão é sempre racismo. A idiotice que o Danilo Gentili disse no twitter é duplamente racista. Ele disse algo do tipo "ta passando king kong, sobre um macaco que pega uma loira, ele tá achando que é jogador de futebol?"
Isso é racista por usar do imaginário tanto que negros são animalescos quanto que eles só tem acesso a mulheres brancas se forem jogadores de futebol (pois apenas assim seriam ricos).
Isso está na piada. Não é interpretação forçada pra pegar no pé do comediante, sem esse imaginário, não teria piada.
Tenta ler essa piada sem fazer referência à imagem racistas. Não há como. Dizer que racismo está na minha cabeça, como ele disse, é desonesto porque é verdadeiro. Piadas racistas inerentemente fazem uso de coisas "na minha cabeça". Toda piada racista, sem exceção, funciona apenas com o contexto implícito do racismo em questão. Quem faz a piada sabe que nós temos esses preconceitos "engatilhados" em algum lugar do nosso cérebro e ele sabe que a piada funciona ao dispará-los. Ser "politicamente correto" não é fingir que não há racismo. É admitir que há e, admitindo que há, ter o bom senso de não alimentá-lo. O ideal é que tais "gatilhos" se tornem cada vez mais raros, cada vez mais incomuns, mas cada vez que alguém conta uma inofensiva piada racista, o gatilho é reforçado e se o sujeito ouvindo a piada é dono de uma empresa, quando ele ver um negro, ele vai inevitavelmente lembrar da piada e mesmo que inconscientemente, isso vai pesar na hora da contratação.
Que o Mussum fizesse piadas racistas, é quase uma condição para que uma minoria possa ser aceita. É algo do tipo "a gente deixa você ficar se você admitir que é inferior". Séculos disso e a autodepreciação se torna natural e quando algum de nós, pessoas chatas, aponta que autodepreciação é autodepreciação, logo há quem discuta. "Querem acabar com nossa diversão!". Mais ou menos. Quero acabar com a noção de que preconceitos são divertidos. No calor desse debate, no medo de perder o precioso direito de humilhar impunemente alguém, há até quem diga que preconceitos são necessários para o humor! A pessoa obviamente não assiste as mesmas sitcons que eu. E pra falar de humor racial, é só ver o Chris Rock. É possível falar, de forma bem humorada, que um negro sofre preconceito sem agir como o negro estereotipado.
Eu sempre lembro de uma do Chris Rock onde ele diz que, na época dos escravos, um negro dirigindo uma carroça rápido demais era um problema. Se aparecesse uma placa dizendo para ir mais devagar, ele tinha que decidir se ele era açoitado por desobedecer a placa ou por saber ler.
É *assim* que você faz uma piada sobre racismo e sobre preconceito. O negro da história do Chris Rock não é analfabeto e nem um mal motorista, mas ele deve *fingir* um ou outro pra agradar os brancos.
Quantas coisas nós fazemos os nossos grandes humoristas negros fingirem que são só para nos agradar?
Um daqueles paradoxos divertidos da era da internet, onde temos um lugar particular que desenvolvemos para ficar sozinhos enquanto nos expomos voluntariamente para todo tipo de gente estranha e má que queira ver.
quarta-feira, julho 29, 2009
segunda-feira, julho 27, 2009
...ok
Caminhando pela internet descobri uma sinopse de livro:
"Deusa cadela traz em si a pureza da respiração na hora em que se acorda de um sono. Cheiro dede essência humana, visceral e original.Mostra a relação dicotômica entre opostos aparentes, sem recorrer á formula opostos se atraem na sua obviedade, mas revelando as nuances de uma vida a dois exploradas aos seus extremos.Vivida com paixão, saboreada em suas texturas e marcada em suas cicatrizes, relatadas de forma crua..."
Então o seu livro não tem bem uma história, né?
"Deusa cadela traz em si a pureza da respiração na hora em que se acorda de um sono. Cheiro dede essência humana, visceral e original.Mostra a relação dicotômica entre opostos aparentes, sem recorrer á formula opostos se atraem na sua obviedade, mas revelando as nuances de uma vida a dois exploradas aos seus extremos.Vivida com paixão, saboreada em suas texturas e marcada em suas cicatrizes, relatadas de forma crua..."
Então o seu livro não tem bem uma história, né?
sábado, julho 25, 2009
Pensamento espacial.
Eu acho engraçada essa noção de que a mente humana está em algum lugar fora do tempo e do espaço. Eu entendo o argumento, quando eu abro a cabeça de alguém, eu vejo miolos e não pensamentos, mas até aí, eu também vejo nervos e não dor.
Quando eu espeto meu dedo, eu claramente sinto a dor no dedo, o caso do pensamento não parece ser tão claro, mas ele não é de nenhum modo um ventríloco. Ele está na minha cabeça, essa "sensação" do pensar não está no meu dedo, ela está na minha cabeça assim como está uma dor de cabeça.
Parece uma observação bobinha e de fato ela não é de todo importante. Qual é exatamente o estatuto dos pensamentos e das sensações é, pra mim, uma questão ainda em aberto. Mas seja lá exatamente o que são os pensamentos, ele não é desprovido de tempo ou espaço, também não está fora da causalidade, ele causa, mas também é causado.
Até que se prove que uma pedra pensa, não há pensamento sem cérebro.
A distinção entre mente e cérebro é muito mais complexa e, acredito, completamente diferente em natureza do que aquela entre hardware e software de uma máquina. Esse é o tipo de analogia perigosa. Computadores são cotidianos na nossa vida, nós entendemos como eles funcionam. Um dia alguém compara um cérebro com um computador para simplificar a questão e logo alguém começa a levar isso a sério.
Pra começar, um computador precisa, afinal, de uma mente humana que o programe. Não é que só que nossa programação natural é mais complexa, ela funciona diferente. Um computador é uma caixa fechada com um canal específico que o liga ao mundo externo, de onde seus programas recebem comandos. A mente humana não funciona sem comandos, ela não é uma coisa fechada que fica guardada, esperando ser ativada. O photoshop ainda é o photoshop sem uma imagem. A visão, se não ativada, não existe. Um olho sempre vê, o tempo todo, o ouvido sempre ouve, a mente sempre pensa. Quando a gente dorme, essas coisas são simuladas. Não é que a mente humana seja simplesmente uma máquina sempre ativa, é que sem estímulos, ela não existe. A mente é interação. Não há tal coisa como uma mente em potência ou uma mente em repouso ou uma mente como uma estrutura específica a ser estudada. Sem o contexto, não há tal coisa que possa ser descrita como mente.
O mesmo não se pode dizer do cérebro, obviamente. Aqui está um cérebro, eu o retiro da minha cabeça e te mostro. Eu estudo sua estrutura, sua química, como elas reagem e que reações ela causa.
Dito isso, uma das reações que o cérebro causa é essa sensação de estar pensando, de estar vendo, de estar raciocionando. Uma sensação que eu sinto na minha cabeça durante o tempo em que vejo e penso. E se a mente não existe sem que seja uma mente que interage com o mundo que percebe, como se pode pensar na mente como algo fora de causalidade? Se alguma coisa, a mente é puramente causalidade. Mesmo se pensarmos na mente como imaterial e não causada por um cérebro, ela é no mínimo causada pelas sensações ou pensamentos.
Acredito que há na mente humana algum tipo de propriedade que não há mais em lugar nenhum da natureza, mas então deve-se analisar direito quais são essas características únicas. A qualia ou o fato de ser algo experimentado unicamente em primeira pessoa são características únicas. Estar fora do espaço e do tempo não são.
Quando eu espeto meu dedo, eu claramente sinto a dor no dedo, o caso do pensamento não parece ser tão claro, mas ele não é de nenhum modo um ventríloco. Ele está na minha cabeça, essa "sensação" do pensar não está no meu dedo, ela está na minha cabeça assim como está uma dor de cabeça.
Parece uma observação bobinha e de fato ela não é de todo importante. Qual é exatamente o estatuto dos pensamentos e das sensações é, pra mim, uma questão ainda em aberto. Mas seja lá exatamente o que são os pensamentos, ele não é desprovido de tempo ou espaço, também não está fora da causalidade, ele causa, mas também é causado.
Até que se prove que uma pedra pensa, não há pensamento sem cérebro.
A distinção entre mente e cérebro é muito mais complexa e, acredito, completamente diferente em natureza do que aquela entre hardware e software de uma máquina. Esse é o tipo de analogia perigosa. Computadores são cotidianos na nossa vida, nós entendemos como eles funcionam. Um dia alguém compara um cérebro com um computador para simplificar a questão e logo alguém começa a levar isso a sério.
Pra começar, um computador precisa, afinal, de uma mente humana que o programe. Não é que só que nossa programação natural é mais complexa, ela funciona diferente. Um computador é uma caixa fechada com um canal específico que o liga ao mundo externo, de onde seus programas recebem comandos. A mente humana não funciona sem comandos, ela não é uma coisa fechada que fica guardada, esperando ser ativada. O photoshop ainda é o photoshop sem uma imagem. A visão, se não ativada, não existe. Um olho sempre vê, o tempo todo, o ouvido sempre ouve, a mente sempre pensa. Quando a gente dorme, essas coisas são simuladas. Não é que a mente humana seja simplesmente uma máquina sempre ativa, é que sem estímulos, ela não existe. A mente é interação. Não há tal coisa como uma mente em potência ou uma mente em repouso ou uma mente como uma estrutura específica a ser estudada. Sem o contexto, não há tal coisa que possa ser descrita como mente.
O mesmo não se pode dizer do cérebro, obviamente. Aqui está um cérebro, eu o retiro da minha cabeça e te mostro. Eu estudo sua estrutura, sua química, como elas reagem e que reações ela causa.
Dito isso, uma das reações que o cérebro causa é essa sensação de estar pensando, de estar vendo, de estar raciocionando. Uma sensação que eu sinto na minha cabeça durante o tempo em que vejo e penso. E se a mente não existe sem que seja uma mente que interage com o mundo que percebe, como se pode pensar na mente como algo fora de causalidade? Se alguma coisa, a mente é puramente causalidade. Mesmo se pensarmos na mente como imaterial e não causada por um cérebro, ela é no mínimo causada pelas sensações ou pensamentos.
Acredito que há na mente humana algum tipo de propriedade que não há mais em lugar nenhum da natureza, mas então deve-se analisar direito quais são essas características únicas. A qualia ou o fato de ser algo experimentado unicamente em primeira pessoa são características únicas. Estar fora do espaço e do tempo não são.
domingo, julho 19, 2009
Cérebro e verdade.
Comentando o seguinte trecho que acho que resume bem uma questão que eu acho importante:
De Alvin Platinga.
"No final do livro [Deus: Uma Desilusão], Dawkins apóia um certo ceticismo limitado. Já que nós fomos “ajuntados” pela (não-dirigida) evolução, é improvável, ele acha, que nossa visão de mundo seja precisa; a seleção natural está interessada no comportamento adaptativo, não em uma crença verdadeira. Mas Dawkins falha em ignorar as profundas implicações céticas da visão de que nós surgimos pela evolução não-dirigida. Podemos ver isso da forma seguinte. Como a maioria dos naturalistas, Dawkins é materialista a respeito dos seres humanos: seres humanos são objetos materiais; eles não têm um ser imaterial ou uma alma ou substâncias reunidas em um corpo, e eles não contêm nenhuma substância imaterial. Sob esse ponto de vista, nossas crenças seriam dependentes de questões neurofisiológicas, e (sem dúvida) uma crença seria uma estrutura neurológica de algum tipo complexo. Agora a neurofisiologia da qual nossas crenças dependem vão ser sem dúvidas adaptativas; mas por que imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Então aqui eu estou tomando duas premissas:
1 - naturalismo ou materialismo ou fisicalismo ou qualquer "ismo" da moda que considere que nós não temos alma e que somos fruto da evolução e não de qualquer desing inteligente.
2 - Nós conseguimos, com sucesso, nos comunicar acerca de fatos que consideramos "objetivos".
O problema: "Porque imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Minha resposta: Não há como acreditar que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia são em grande, ou pequena, parte verdadeiras, mas isso é em grande parte irrelevante, POIS nossas faculdades cognitivas são confiáveis, a prova disso é que você, nesse momento, está confiando nelas.
Mas o problema da epistemologia não é responder ao cético radical que duvida se dorme ou se está acordado. esse ceticismo é, na maioria das vezes, levantado apenas como metodologia para responder a pergunta que realmente interessa: O que é isso que chamamos de conhecimento? Ou, sendo mais específico para a questão levantada, o que é isso que chamamos de conhecimento dado que todo o material desse conhecimento (os dados empíricos e as leis do pensamento pelas quais tais dados são organizados) é apenas efeito de reações biológicas de um orgão de nosso corpo?
A questão é interessante, pois de repente a ciência avança de modo a nos colocar em um mundo pré-kantiano onde mais uma vez temos que lidar com um tipo de solipsismo empirista humeano.
Tudo que sei sobre o mundo é isso que está no meu cérebro. O mundo fora do meu cérebro? É desconhecido. Entretanto, nossa razão funciona de tal forma que eu simplesmente aprendo a confiar nas regularidades. Não há garantia de que esse mundo com essas regularidades sejam "verdade" no sentido de haver garantia de correspondência entre o discurso produzido a partir dos dados do meu cérebro e o mundo de onde meu cérebro supostamente retira esses dados, mas não importa, porque o modo pelo qual vivemos - e o modo pelo qual produzimos conhecimento - não se baseia na garantia de que o mundo dentro do meu cérebro e o mundo fora do meu cérebro sejam equivalentes, mas sim na confiança de que os mesmos efeitos decorrem das mesmas causas, confiança adquirida simplesmente pela vivência de que é assim que ocorre geralmente. Não é um método sem falhas, mas é um método que construiu computadores, aviões e curou doenças.
A resposta é satisfatória para os cientistas e para as pessoas comuns. Os filósofos, por outro lado, precisam de mais.
Não que seja uma empreitada vã, é simplesmente uma empreitada, mesmo que materialista, mais espiritual. Nosso espírito demanda respostas, é bom que a ciência consiga construir computadores e curar doenças sem a necessidade de tais respostas, mas há uma dimensão humana fora do martelar, é o motivo pelo qual filósofos só conseguem emprego ensinando filosofia ou fingindo auto-ajuda para empresários carentes, nosso trabalho está fora desse mundo do martelo onde basta o led acender no momento em que o botão é apertado para que o problema seja considerado resolvivo. Precisamos saber. O que é esse mundo? O que é esse conhecimento?
Por sorte, nós temos guias. E se nossa ciência de século XXI conseguiu apenas chegar aos pés da filosofia humeana do século XVIII, a resposta já está escrita. É a crítica da razão pura. Ou a crítica do cérebro puro. De qualquer forma, é assim que eu respondo as questões realmente importante acerca do estatuto do mundo e do conhecimento: idealismo trasncendental.
O avanço da ciência e a nossa comunicação cotidiana de nenhuma forma depende do modo como o mundo é, mas meramente do modo como nossa mente funciona. O mundo fora do cérebro ou o mundo do ponto de vista dele mesmo ou o mundo em si é um X cujas propriedades devem ser especuladas pela metafísica (e nós bem vamos especular). Esse mundo X é o mundo em que nós vivemos, mas nós não o percebemos como o X que ele é, nós o percebemos de acordo como os nossos cérebros adaptaram-se para percebê-lo. Isso a ciência básica já nos diz. Isso que nós vemos não é bem "isso", mas átomos, quarks, ondas, energia, etc; o mundo é qualquer coisa, menos isso que nós vemos a olho nú. Mas é possível ir ainda mais adiante. Esses átomos, quarks, ondas e energias, mesmo vistos pelas máquinas, também são apenas representações. Assim como é a matemática utilizada para prever o comportamento dessas partículas, assim como é a lógica utilizada para redigir os textos acadêmicos.
Porque debater sobre se é mais complexo e improvável que haja um design inteligente ou que a evolução tenha nos feito para perceber a verdade se há uma resposta mais simples e provável? O nosso cérebro interage com o mundo de algum forma e impõe, não sobre o mundo, mas sobre a representação desse mundo, a lógica e a causalidade, assim como os olhos impõem sobre determinada frequência de energia a cor vermelha?
Desde que os olhos funcionem igual, todos vemos o vermelho o que na "verdade" é apenas energia se movimentando de certa forma. Porque é difícil acreditar que desde que os cérebros funcionem igual, todos vemos causalidade, tempo e espaço o que na "verdade" é um mundo onde tais palavras sequer fazem sentido, por não haver, nesse mundo em si, a causalidade, tempo e espaço a serem referidos por tais palavras?
Mas aqui encontramos não só o problema de imaginar que o mundo em que vivemos é, fora da nossa percepção, desprovido de tempo e espaço. Há um problema mais óbvio que já deve ter incomodado o leitor: não é o cérebro, ele próprio, algo que só funciona como funciona por causa de leis que agora eu digo que é ele quem cria?
Oras, se falo de idealismo transcendental, óbviamente devo transcender o naturalismo mais cedo ou mais tarde. Para chegar em algum tipo de imaterialidade? Certamente que não. Se essa nossa materialidade já começa a nos parecer demasiada estranha, que tolice seria acrescentar substâncias imateriais para então termos duas coisas que não fazemos idéia do que são.
Transcendemos aqui, não o mundo material, mas o ponto de vista da representação neurofisiológica desse mundo, vislumbramos a possibilidade dessa transcedência por não falarmos aqui de outro mundo, mas sim do mundo em que vivemos, o mundo que percebemos, o mundo que representamos e cujas representações experimentamos.
É possível, então, realizar discursos sobre o ponto de vista extra-neurofisiológico de nossas vidas? Será esse o trabalho da verdadeira metafísica.
De Alvin Platinga.
"No final do livro [Deus: Uma Desilusão], Dawkins apóia um certo ceticismo limitado. Já que nós fomos “ajuntados” pela (não-dirigida) evolução, é improvável, ele acha, que nossa visão de mundo seja precisa; a seleção natural está interessada no comportamento adaptativo, não em uma crença verdadeira. Mas Dawkins falha em ignorar as profundas implicações céticas da visão de que nós surgimos pela evolução não-dirigida. Podemos ver isso da forma seguinte. Como a maioria dos naturalistas, Dawkins é materialista a respeito dos seres humanos: seres humanos são objetos materiais; eles não têm um ser imaterial ou uma alma ou substâncias reunidas em um corpo, e eles não contêm nenhuma substância imaterial. Sob esse ponto de vista, nossas crenças seriam dependentes de questões neurofisiológicas, e (sem dúvida) uma crença seria uma estrutura neurológica de algum tipo complexo. Agora a neurofisiologia da qual nossas crenças dependem vão ser sem dúvidas adaptativas; mas por que imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Então aqui eu estou tomando duas premissas:
1 - naturalismo ou materialismo ou fisicalismo ou qualquer "ismo" da moda que considere que nós não temos alma e que somos fruto da evolução e não de qualquer desing inteligente.
2 - Nós conseguimos, com sucesso, nos comunicar acerca de fatos que consideramos "objetivos".
O problema: "Porque imaginar por um momento que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia seriam em grande parte verdadeiras? Por que acreditar que nossas faculdades cognitivas são confiáveis?"
Minha resposta: Não há como acreditar que as crenças dependentes ou causadas por essa neurofisiologia são em grande, ou pequena, parte verdadeiras, mas isso é em grande parte irrelevante, POIS nossas faculdades cognitivas são confiáveis, a prova disso é que você, nesse momento, está confiando nelas.
Mas o problema da epistemologia não é responder ao cético radical que duvida se dorme ou se está acordado. esse ceticismo é, na maioria das vezes, levantado apenas como metodologia para responder a pergunta que realmente interessa: O que é isso que chamamos de conhecimento? Ou, sendo mais específico para a questão levantada, o que é isso que chamamos de conhecimento dado que todo o material desse conhecimento (os dados empíricos e as leis do pensamento pelas quais tais dados são organizados) é apenas efeito de reações biológicas de um orgão de nosso corpo?
A questão é interessante, pois de repente a ciência avança de modo a nos colocar em um mundo pré-kantiano onde mais uma vez temos que lidar com um tipo de solipsismo empirista humeano.
Tudo que sei sobre o mundo é isso que está no meu cérebro. O mundo fora do meu cérebro? É desconhecido. Entretanto, nossa razão funciona de tal forma que eu simplesmente aprendo a confiar nas regularidades. Não há garantia de que esse mundo com essas regularidades sejam "verdade" no sentido de haver garantia de correspondência entre o discurso produzido a partir dos dados do meu cérebro e o mundo de onde meu cérebro supostamente retira esses dados, mas não importa, porque o modo pelo qual vivemos - e o modo pelo qual produzimos conhecimento - não se baseia na garantia de que o mundo dentro do meu cérebro e o mundo fora do meu cérebro sejam equivalentes, mas sim na confiança de que os mesmos efeitos decorrem das mesmas causas, confiança adquirida simplesmente pela vivência de que é assim que ocorre geralmente. Não é um método sem falhas, mas é um método que construiu computadores, aviões e curou doenças.
A resposta é satisfatória para os cientistas e para as pessoas comuns. Os filósofos, por outro lado, precisam de mais.
Não que seja uma empreitada vã, é simplesmente uma empreitada, mesmo que materialista, mais espiritual. Nosso espírito demanda respostas, é bom que a ciência consiga construir computadores e curar doenças sem a necessidade de tais respostas, mas há uma dimensão humana fora do martelar, é o motivo pelo qual filósofos só conseguem emprego ensinando filosofia ou fingindo auto-ajuda para empresários carentes, nosso trabalho está fora desse mundo do martelo onde basta o led acender no momento em que o botão é apertado para que o problema seja considerado resolvivo. Precisamos saber. O que é esse mundo? O que é esse conhecimento?
Por sorte, nós temos guias. E se nossa ciência de século XXI conseguiu apenas chegar aos pés da filosofia humeana do século XVIII, a resposta já está escrita. É a crítica da razão pura. Ou a crítica do cérebro puro. De qualquer forma, é assim que eu respondo as questões realmente importante acerca do estatuto do mundo e do conhecimento: idealismo trasncendental.
O avanço da ciência e a nossa comunicação cotidiana de nenhuma forma depende do modo como o mundo é, mas meramente do modo como nossa mente funciona. O mundo fora do cérebro ou o mundo do ponto de vista dele mesmo ou o mundo em si é um X cujas propriedades devem ser especuladas pela metafísica (e nós bem vamos especular). Esse mundo X é o mundo em que nós vivemos, mas nós não o percebemos como o X que ele é, nós o percebemos de acordo como os nossos cérebros adaptaram-se para percebê-lo. Isso a ciência básica já nos diz. Isso que nós vemos não é bem "isso", mas átomos, quarks, ondas, energia, etc; o mundo é qualquer coisa, menos isso que nós vemos a olho nú. Mas é possível ir ainda mais adiante. Esses átomos, quarks, ondas e energias, mesmo vistos pelas máquinas, também são apenas representações. Assim como é a matemática utilizada para prever o comportamento dessas partículas, assim como é a lógica utilizada para redigir os textos acadêmicos.
Porque debater sobre se é mais complexo e improvável que haja um design inteligente ou que a evolução tenha nos feito para perceber a verdade se há uma resposta mais simples e provável? O nosso cérebro interage com o mundo de algum forma e impõe, não sobre o mundo, mas sobre a representação desse mundo, a lógica e a causalidade, assim como os olhos impõem sobre determinada frequência de energia a cor vermelha?
Desde que os olhos funcionem igual, todos vemos o vermelho o que na "verdade" é apenas energia se movimentando de certa forma. Porque é difícil acreditar que desde que os cérebros funcionem igual, todos vemos causalidade, tempo e espaço o que na "verdade" é um mundo onde tais palavras sequer fazem sentido, por não haver, nesse mundo em si, a causalidade, tempo e espaço a serem referidos por tais palavras?
Mas aqui encontramos não só o problema de imaginar que o mundo em que vivemos é, fora da nossa percepção, desprovido de tempo e espaço. Há um problema mais óbvio que já deve ter incomodado o leitor: não é o cérebro, ele próprio, algo que só funciona como funciona por causa de leis que agora eu digo que é ele quem cria?
Oras, se falo de idealismo transcendental, óbviamente devo transcender o naturalismo mais cedo ou mais tarde. Para chegar em algum tipo de imaterialidade? Certamente que não. Se essa nossa materialidade já começa a nos parecer demasiada estranha, que tolice seria acrescentar substâncias imateriais para então termos duas coisas que não fazemos idéia do que são.
Transcendemos aqui, não o mundo material, mas o ponto de vista da representação neurofisiológica desse mundo, vislumbramos a possibilidade dessa transcedência por não falarmos aqui de outro mundo, mas sim do mundo em que vivemos, o mundo que percebemos, o mundo que representamos e cujas representações experimentamos.
É possível, então, realizar discursos sobre o ponto de vista extra-neurofisiológico de nossas vidas? Será esse o trabalho da verdadeira metafísica.
sábado, julho 18, 2009
Resenha: Tromeo and Juliet (1996)
Essa noite eu tive um pesadelo qualquer (como acontece na maioria das noites) e acordei após poucas horas de sono.
No que eu acordo uma lembrança me assalta a mente. Um filme que eu vi mais novo, era sobre Romeu e Julieta, tinha incesto, um ator do pânico, lesbianismo, Romeu se masturbando para um CD-ROM que repetia "I love you" e Julieta usando um vibrador.
Incapaz de dormir com essas memórias, eu fui ao imdb procurar do que se tratava e, literalmente horas depois, pois minha principal dica, "um ator do pânico", era errada, eu finalmente descubro que o filme que eu assisti há muitos anos atrás se trava de Tromeo and Juliet.
Antes de começar a resenha, eu vou elaborar a dificuldade que foi encontrar esse filme:
Minha primeira lembrança era um ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã. Eu estava errado. O que acontece é um ator muito parecido com o ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã.
Depois, eu lembrava que tinha a ver com Romeu e Julieta. Então eu procuro "Romeo and Juliet" no IMDB. Dezenas de títulos aparecem, nenhum deles o certo, pois o filme se chama "Tromeo and Juliet".
Aí eu fui pro google. E eis coisas que eu procurei: Romeo Juliet dildo (porque eu lembrava de um vibrador); Romeo Juliet porn (porque talvez fosse um filme completamnete pornô... e óbvio que eu encontrei várias versões pornô de Romeu e Julieta, mas nada do que procurava); afinal, horas depois, eu encontro uma resenha do New York Times falando desse filme.
Fui ao Youtube, vi o trailer e sim, era esse, com certeza, ainda muito, mas muito, mas muito mais bizarro do que eu lembrava. Por algum motivo minha mente bloqueou toda lembrança de animais mortos e sangue e eu só lembrava das coisas sexuais. O que eu vou dizer? Eu sou um sujeito romântico.
Baixei o filme e, bom, é estranho dizer, mas o filme é bom. Eu ri alto, eu me importei com os personagens, eu me masturbei em algum ponto (e ao mesmo tempo em que Tromeo se masturbava. Lésbicas tatuadas é algo que jamais vai perder a graça), eu realmente torci pra essa história de amor dar certo, eu fiquei genuinamente triste no que a inevitável tragédia de Romeu e Julieta se aproximava e, no fim, eu fiquei feliz. Em 1 hora e 40 minutos, esse filmes percorreu cada emoção humana possível e tudo isso enquanto gritava "olha como nosso orçamento é baixo! Lol!"
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O filme começa com a imagem de um animalzinho (um esquilo?) enforcado em uma sala enquanto em um velho e gordo negro chora. Pra quem não sabe, eu sou desses vegetarianos que ama os animaizinhos, então ver um animal morto logo na primeira cena do filme deveria me causar alguma revolta, mas eu deixei. Fui recompensado, pra um filme tão bizarro, ele é estranhamente pró-vegetarianismo.
Em algum momento, Lemmy da casa de Motorhead nos introduz ao primeiro ato. A família dos Que (cujo patriarca é Monty Que) está em guerra com os capulet por motivos que serão explicados. Salvo dizer que o enforcamento do amado bichinho de Monty Que é só mais um dos atos de violência entre as famílias (aparentemente vingança por um Que ter jogado um passáro morto pela janela da mansão dos Capulet).
A família Que consiste de um sujeito que faz piercings (e o filme mostra um mamilo sendo perfurado enquanto eles falam o quanto odeiam os Capulet), um Hooligan, Tromeo, que é, bem literalmente, um idiota romântico que, apesar de branco, é filho do negro Monty Que.
A família Capulet consiste de um psicopata que realmente se parece com um sujeito de pânico, sua irmã ninfomaníaca, que aparece bem menos na tela do que eu gostaria, mas o filme tem mais do que sexo o suficiente pra compensar, um par de pessoas violentas, sendo que um deles tem um porrete onde a ponta é o rosto de Hitler e, por fim, a nuclear família que consiste no pai que regularmente espanca a mãe e Juliet, que vive presa dentro de casa e é uma vegetariana sendo forçada a casar com um tipo de açougueiro bilhonário, tem como único conforto sua relação lésbica com a gostosa cozinheiro tatuada. E ela tem sonhos eróticos com monstros-pênis o que leva seu pai a acorrentá-la regularmente numa caixa de vidro.
E isso dito acima nem toca no quão bizarro é esse filme. Das inúmeras cenas de desmembramento e morte violenta, passando pelas inúmeras cenas de sexo, pela narração de Lemmy do Motorhead no começo de cada ato, no simples comportamento nonsense e ilógico de literalmente todo personagem do filme, até as cenas românticas entre Tromeo e Juliet, não há nada nesse filme que não funciona.
As cenas nojentas repulsam, as cenas de sexo excitam, o pastelão ultra-violento dos personagens (pense trapalhões onde as pessoas são desmembradas) são hilárias e no fim, talvez até inconscientemente, esse é um mundo tão ridículo e violento e desprovido de qualquer coisa que se assemelhe a bem que quando Tromeo e Juliet estão juntos e felizes, é... céus, é precioso. Esse é um filme que logo nas primeiras cenas alguém arranca o cérebro de outra pessoa via um soco na cara. Que amor de verdade possa ser encontrado nesse mundo doente é mais romântico do que todos os filmes do Richard Gere juntos.
Talvez o que faça essas coisas funcionarem, é, de novo, algo talvez inconsciente. Quando alguém perde um braço ou um olho ou tem a cabeça pisoteada, é claramente falso, o filme nem tenta esconder que é falso, você vê o tubinho jorrando sangue e você percebe que o ator está com o braço escondido debaixo da camisa. É o humor tipo Hermes e Renato, onde a graça é que o efeito especial é ridículo.
Mas se o baixo orçamento torna a violência engraçada, os outros sentimentos permanecem intocados. Toda cena de sexo não-nojenta é material pra masturbação, você não precisa de grande orçamento pra isso. Igualmente, toda cena onde duas pessoas dançam e declaram amor eterno e se beijam é, bem, brega e linda, orçamento nenhum muda isso.
Então no fim, esse filme é tão ruim que ele falha em ser engraçado o tempo todo, mas quando ele falha em ser engraçado, ele não se torna sem graça, mas sim erótico e tenro. Quando o humor em uma cena de sexo ou romântica funciona, você cai de dar risada. Quando não funciona você se diverte com a nudez e se emociona com o romance.
É um tipo raro de filme que parece que não acaba nunca, mas que tudo bem porque você não quer que acabe.
Enfim, segue abaixo o trailer. Filme recomendadissimo pra quem tem estômago.
No que eu acordo uma lembrança me assalta a mente. Um filme que eu vi mais novo, era sobre Romeu e Julieta, tinha incesto, um ator do pânico, lesbianismo, Romeu se masturbando para um CD-ROM que repetia "I love you" e Julieta usando um vibrador.
Incapaz de dormir com essas memórias, eu fui ao imdb procurar do que se tratava e, literalmente horas depois, pois minha principal dica, "um ator do pânico", era errada, eu finalmente descubro que o filme que eu assisti há muitos anos atrás se trava de Tromeo and Juliet.
Antes de começar a resenha, eu vou elaborar a dificuldade que foi encontrar esse filme:
Minha primeira lembrança era um ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã. Eu estava errado. O que acontece é um ator muito parecido com o ator do pânico tentando fazer sexo com a própria irmã.
Depois, eu lembrava que tinha a ver com Romeu e Julieta. Então eu procuro "Romeo and Juliet" no IMDB. Dezenas de títulos aparecem, nenhum deles o certo, pois o filme se chama "Tromeo and Juliet".
Aí eu fui pro google. E eis coisas que eu procurei: Romeo Juliet dildo (porque eu lembrava de um vibrador); Romeo Juliet porn (porque talvez fosse um filme completamnete pornô... e óbvio que eu encontrei várias versões pornô de Romeu e Julieta, mas nada do que procurava); afinal, horas depois, eu encontro uma resenha do New York Times falando desse filme.
Fui ao Youtube, vi o trailer e sim, era esse, com certeza, ainda muito, mas muito, mas muito mais bizarro do que eu lembrava. Por algum motivo minha mente bloqueou toda lembrança de animais mortos e sangue e eu só lembrava das coisas sexuais. O que eu vou dizer? Eu sou um sujeito romântico.
Baixei o filme e, bom, é estranho dizer, mas o filme é bom. Eu ri alto, eu me importei com os personagens, eu me masturbei em algum ponto (e ao mesmo tempo em que Tromeo se masturbava. Lésbicas tatuadas é algo que jamais vai perder a graça), eu realmente torci pra essa história de amor dar certo, eu fiquei genuinamente triste no que a inevitável tragédia de Romeu e Julieta se aproximava e, no fim, eu fiquei feliz. Em 1 hora e 40 minutos, esse filmes percorreu cada emoção humana possível e tudo isso enquanto gritava "olha como nosso orçamento é baixo! Lol!"
-
O filme começa com a imagem de um animalzinho (um esquilo?) enforcado em uma sala enquanto em um velho e gordo negro chora. Pra quem não sabe, eu sou desses vegetarianos que ama os animaizinhos, então ver um animal morto logo na primeira cena do filme deveria me causar alguma revolta, mas eu deixei. Fui recompensado, pra um filme tão bizarro, ele é estranhamente pró-vegetarianismo.
Em algum momento, Lemmy da casa de Motorhead nos introduz ao primeiro ato. A família dos Que (cujo patriarca é Monty Que) está em guerra com os capulet por motivos que serão explicados. Salvo dizer que o enforcamento do amado bichinho de Monty Que é só mais um dos atos de violência entre as famílias (aparentemente vingança por um Que ter jogado um passáro morto pela janela da mansão dos Capulet).
A família Que consiste de um sujeito que faz piercings (e o filme mostra um mamilo sendo perfurado enquanto eles falam o quanto odeiam os Capulet), um Hooligan, Tromeo, que é, bem literalmente, um idiota romântico que, apesar de branco, é filho do negro Monty Que.
A família Capulet consiste de um psicopata que realmente se parece com um sujeito de pânico, sua irmã ninfomaníaca, que aparece bem menos na tela do que eu gostaria, mas o filme tem mais do que sexo o suficiente pra compensar, um par de pessoas violentas, sendo que um deles tem um porrete onde a ponta é o rosto de Hitler e, por fim, a nuclear família que consiste no pai que regularmente espanca a mãe e Juliet, que vive presa dentro de casa e é uma vegetariana sendo forçada a casar com um tipo de açougueiro bilhonário, tem como único conforto sua relação lésbica com a gostosa cozinheiro tatuada. E ela tem sonhos eróticos com monstros-pênis o que leva seu pai a acorrentá-la regularmente numa caixa de vidro.
E isso dito acima nem toca no quão bizarro é esse filme. Das inúmeras cenas de desmembramento e morte violenta, passando pelas inúmeras cenas de sexo, pela narração de Lemmy do Motorhead no começo de cada ato, no simples comportamento nonsense e ilógico de literalmente todo personagem do filme, até as cenas românticas entre Tromeo e Juliet, não há nada nesse filme que não funciona.
As cenas nojentas repulsam, as cenas de sexo excitam, o pastelão ultra-violento dos personagens (pense trapalhões onde as pessoas são desmembradas) são hilárias e no fim, talvez até inconscientemente, esse é um mundo tão ridículo e violento e desprovido de qualquer coisa que se assemelhe a bem que quando Tromeo e Juliet estão juntos e felizes, é... céus, é precioso. Esse é um filme que logo nas primeiras cenas alguém arranca o cérebro de outra pessoa via um soco na cara. Que amor de verdade possa ser encontrado nesse mundo doente é mais romântico do que todos os filmes do Richard Gere juntos.
Talvez o que faça essas coisas funcionarem, é, de novo, algo talvez inconsciente. Quando alguém perde um braço ou um olho ou tem a cabeça pisoteada, é claramente falso, o filme nem tenta esconder que é falso, você vê o tubinho jorrando sangue e você percebe que o ator está com o braço escondido debaixo da camisa. É o humor tipo Hermes e Renato, onde a graça é que o efeito especial é ridículo.
Mas se o baixo orçamento torna a violência engraçada, os outros sentimentos permanecem intocados. Toda cena de sexo não-nojenta é material pra masturbação, você não precisa de grande orçamento pra isso. Igualmente, toda cena onde duas pessoas dançam e declaram amor eterno e se beijam é, bem, brega e linda, orçamento nenhum muda isso.
Então no fim, esse filme é tão ruim que ele falha em ser engraçado o tempo todo, mas quando ele falha em ser engraçado, ele não se torna sem graça, mas sim erótico e tenro. Quando o humor em uma cena de sexo ou romântica funciona, você cai de dar risada. Quando não funciona você se diverte com a nudez e se emociona com o romance.
É um tipo raro de filme que parece que não acaba nunca, mas que tudo bem porque você não quer que acabe.
Enfim, segue abaixo o trailer. Filme recomendadissimo pra quem tem estômago.
segunda-feira, junho 01, 2009
Duas forças - algo sobre religiosos e secularistas.
Esses dias, bickering no msn com um amigo; ele, católico, dizia que eu não entendia que por trás das críticas ao cristianismo estava um ódio ao ocidente e eu contra-bati-boca que esse era o problema; que cristãos estavam, aos poucos, cada vez mais se afastando do "resto de nós" e se isolando de tal modo que o que eles falam é de fato incompreensível.
Ontem (se não me engano) eu li um argumento exatamente como o meu, mas mirado no "resto de nós".
A pequena notícia iniciava-se dizendo que o número de religiosos estava aumentando no mundo e em lugares que a sociologia atual não prevê - entre pessoas ricas, bem educadas, acadêmicos e cientistas e o autor concluia algo do tipo:
Dawkins foi criticado por ser teologicamente analfabeto; as dawkinetes respondiam que se Deus é uma ilusão, então teologia é inútil; ao que o autor do texto responde que se cientistas chineses estão se encontrando regularmente para discutir a bíblia cristã, então teologia é ao menos útil para que o "resto de nós" consiga fazer parte do mundo e se comunicar.
-
Então remendando meu bate-boca irracional de internet, eu diria que vivemos em uma época complicada (não, jura?).
Pra começar, nós, do ocidente ao menos, vivemos em um mundo razoavelmente secular - secular não significa, obviamente, ateu; podemos até ter um governo religioso e um Estado secular.
Dá pra pensar como exemplo disso uma admnistração Bush, que tinha uma sala de orações na Casa Branca e frequentemente invocava Deus como uma das justificativas para fazer tal e tal ação (não que ele fosse um fanático dizendo "as evidências apontam o contrário, mas minha teologia diz para fazer então farei", era mais "há num monte de motivos para fazer, além do que, minha teologia aprova".
Mas mesmo que o governo Bush fosse cristão, o Estado norte-americano continuava secular; o que manda no Estado são os três poderes e isso é constante não importa se os cidadãos votam em massa em candidatos religiosos ou não.
Assim, é possível até ter um presidente e um senado cheio de religiosos tomando decisões baseadas em teologia que continuamos a viver em um estado secular, pois estado é exatamente isso: aquilo que fica firme enquanto governos e suas particularidades vêm e vão.
-
Em segundo lugar, é um fato sociológico inegável que há, de fato, um aumento da religiosidade não só entre as pessoas como no discurso político.
Eu acho que isso tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com Jesus (mas até aí, a crença acerca da imutabilidade e eternidade das verdades científicas tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com o modo como ciência funciona.)
O que temos, na minha visão, e algo bem irônico porque são duas visões de mundo se considerando guardiãs de algo de eterno e a-histórico surgindo por causa de briguinhas políticas bem medíocres da nossa época.
De um lado, religião foi um modo que os conservadores encontraram de dialogar com um eleitorado e estabelecer diferença em relação a seus oponentes. Já que socialistas são (ou eram - porque socialista é um parasita no matter what e como tal já descobriu um meio de se tornar cristão) em sua maioria ateus e estão sempre falando em revolução e "imagine there's no heaven" e etc; se apegar a uma tradição importante como o cristianismo e transformar deus em cabo eleitoral é simplesmente esperto. É um modo de dizer "somos diferentes dessa gente querendo destruir um estilo de vida que você até que gosta" sem precisar de fato entrar em uma teoria a respeito disso.
Do lado das dawkinettes, é que uma vez que religião começa a afetar o estado, há o medo de que ela afete outra coisa afetad pelo estado: a ciência.
Então nós temos essas várias táticas de gente desesperadas que vemos aparecer nos últimos tempos; primeiro, para tentar proteger a ciência desse ou daquele governo, vem o desespero para fundamentar (e rápido!) a ciência como algo eterno e imutável (todo covarde apela para o eterno - eternidade é um sintoma de medo da morte).
Claro que desde o século XVII, "encontrar um fundamento seguro para as ciências" faz parte da cartilha da maior parte dos filósofos, mas o que acontecia antes era um esforço para aperfeiçoar a ciência; era algo como: "essa coisa chamada ciência dá certo, mas não sabemos bem porque, então vamos desmontá-la e, descobrindo como funciona, podemos fazê-la funcionar melhor ou, ao menos, impedir que ela se corrompa e deixe de funcionar"; mas isso era quando ciência era um problema epistemológico.
Hoje, ciência é um problema político, então a questão se tornou algo do tipo: "essa coisa chamada ciência dá certo, não importa porque, temos que convencer as pessoas disso antes que o governo corte nosso financiamento!"
A questão do criacionismo ilustra bem o problema: toda a epistemologia das dawkinettes baseia-se na seguinte pergunta: "que tipo de concepção de ciência é necessária para que o criacionismo não seja considerado ciência?"
O medo da dawkinete é que um dia haja algum consenso entre algum grupo de cientistas (propriamente cientistas e não esses freaks que raramente surgem aqui e ali em alguma universidade só para depois irem choramingar na fox news que são oprimidos) dizendo que criacionismo é ciência.
Então eles se esforçam pra criar a noção de uma ciência eterna e imutável que diga: "os tempos podem mudar, a humanidade pode até entrar em consenso que criacionismo é ciência; mas mesmo assim não será."
Daí o medo das dawkinetes em relação aos "relativistas"; é, em suma, medo do tempo; mas afinal, como já dito, todo apelo à eternidade é um medo do tempo que traz a morte.
-
O que acontece, portanto, é que existem essas duas forças na sociedade cada vez mais se distanciando uma da outra; ambas com suas próprias mitologias de eternidade e sua própria batalha particular do bem contra o mal.
Se fosse um problema de teologia ou de ciência, a coisa seria resolvida nos seus respectivos campos, mas sendo um problema político, ele começa a afetar outras esferas da sociedade. Ambos os lados se sentem oprimidos, ambos os lados se sentem revoltados por não serem representados o quanto acham que merecem, ambos os lados crescem frustrados e se fecham em seus círculos de amizade cada vez mais considerando o outro um inimigo a ser enfrentado; uma ameaça para toda a civilização.
Logo começam as teorias de que "se grupo X é tão influente na democracia e grupo X é claramente inimigo da civilização que permite tal democracia; logo a democracia deve ser salva de si própria".
Aí já viu.
Ontem (se não me engano) eu li um argumento exatamente como o meu, mas mirado no "resto de nós".
A pequena notícia iniciava-se dizendo que o número de religiosos estava aumentando no mundo e em lugares que a sociologia atual não prevê - entre pessoas ricas, bem educadas, acadêmicos e cientistas e o autor concluia algo do tipo:
Dawkins foi criticado por ser teologicamente analfabeto; as dawkinetes respondiam que se Deus é uma ilusão, então teologia é inútil; ao que o autor do texto responde que se cientistas chineses estão se encontrando regularmente para discutir a bíblia cristã, então teologia é ao menos útil para que o "resto de nós" consiga fazer parte do mundo e se comunicar.
-
Então remendando meu bate-boca irracional de internet, eu diria que vivemos em uma época complicada (não, jura?).
Pra começar, nós, do ocidente ao menos, vivemos em um mundo razoavelmente secular - secular não significa, obviamente, ateu; podemos até ter um governo religioso e um Estado secular.
Dá pra pensar como exemplo disso uma admnistração Bush, que tinha uma sala de orações na Casa Branca e frequentemente invocava Deus como uma das justificativas para fazer tal e tal ação (não que ele fosse um fanático dizendo "as evidências apontam o contrário, mas minha teologia diz para fazer então farei", era mais "há num monte de motivos para fazer, além do que, minha teologia aprova".
Mas mesmo que o governo Bush fosse cristão, o Estado norte-americano continuava secular; o que manda no Estado são os três poderes e isso é constante não importa se os cidadãos votam em massa em candidatos religiosos ou não.
Assim, é possível até ter um presidente e um senado cheio de religiosos tomando decisões baseadas em teologia que continuamos a viver em um estado secular, pois estado é exatamente isso: aquilo que fica firme enquanto governos e suas particularidades vêm e vão.
-
Em segundo lugar, é um fato sociológico inegável que há, de fato, um aumento da religiosidade não só entre as pessoas como no discurso político.
Eu acho que isso tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com Jesus (mas até aí, a crença acerca da imutabilidade e eternidade das verdades científicas tem muito mais a ver com Ronald Reagan do que com o modo como ciência funciona.)
O que temos, na minha visão, e algo bem irônico porque são duas visões de mundo se considerando guardiãs de algo de eterno e a-histórico surgindo por causa de briguinhas políticas bem medíocres da nossa época.
De um lado, religião foi um modo que os conservadores encontraram de dialogar com um eleitorado e estabelecer diferença em relação a seus oponentes. Já que socialistas são (ou eram - porque socialista é um parasita no matter what e como tal já descobriu um meio de se tornar cristão) em sua maioria ateus e estão sempre falando em revolução e "imagine there's no heaven" e etc; se apegar a uma tradição importante como o cristianismo e transformar deus em cabo eleitoral é simplesmente esperto. É um modo de dizer "somos diferentes dessa gente querendo destruir um estilo de vida que você até que gosta" sem precisar de fato entrar em uma teoria a respeito disso.
Do lado das dawkinettes, é que uma vez que religião começa a afetar o estado, há o medo de que ela afete outra coisa afetad pelo estado: a ciência.
Então nós temos essas várias táticas de gente desesperadas que vemos aparecer nos últimos tempos; primeiro, para tentar proteger a ciência desse ou daquele governo, vem o desespero para fundamentar (e rápido!) a ciência como algo eterno e imutável (todo covarde apela para o eterno - eternidade é um sintoma de medo da morte).
Claro que desde o século XVII, "encontrar um fundamento seguro para as ciências" faz parte da cartilha da maior parte dos filósofos, mas o que acontecia antes era um esforço para aperfeiçoar a ciência; era algo como: "essa coisa chamada ciência dá certo, mas não sabemos bem porque, então vamos desmontá-la e, descobrindo como funciona, podemos fazê-la funcionar melhor ou, ao menos, impedir que ela se corrompa e deixe de funcionar"; mas isso era quando ciência era um problema epistemológico.
Hoje, ciência é um problema político, então a questão se tornou algo do tipo: "essa coisa chamada ciência dá certo, não importa porque, temos que convencer as pessoas disso antes que o governo corte nosso financiamento!"
A questão do criacionismo ilustra bem o problema: toda a epistemologia das dawkinettes baseia-se na seguinte pergunta: "que tipo de concepção de ciência é necessária para que o criacionismo não seja considerado ciência?"
O medo da dawkinete é que um dia haja algum consenso entre algum grupo de cientistas (propriamente cientistas e não esses freaks que raramente surgem aqui e ali em alguma universidade só para depois irem choramingar na fox news que são oprimidos) dizendo que criacionismo é ciência.
Então eles se esforçam pra criar a noção de uma ciência eterna e imutável que diga: "os tempos podem mudar, a humanidade pode até entrar em consenso que criacionismo é ciência; mas mesmo assim não será."
Daí o medo das dawkinetes em relação aos "relativistas"; é, em suma, medo do tempo; mas afinal, como já dito, todo apelo à eternidade é um medo do tempo que traz a morte.
-
O que acontece, portanto, é que existem essas duas forças na sociedade cada vez mais se distanciando uma da outra; ambas com suas próprias mitologias de eternidade e sua própria batalha particular do bem contra o mal.
Se fosse um problema de teologia ou de ciência, a coisa seria resolvida nos seus respectivos campos, mas sendo um problema político, ele começa a afetar outras esferas da sociedade. Ambos os lados se sentem oprimidos, ambos os lados se sentem revoltados por não serem representados o quanto acham que merecem, ambos os lados crescem frustrados e se fecham em seus círculos de amizade cada vez mais considerando o outro um inimigo a ser enfrentado; uma ameaça para toda a civilização.
Logo começam as teorias de que "se grupo X é tão influente na democracia e grupo X é claramente inimigo da civilização que permite tal democracia; logo a democracia deve ser salva de si própria".
Aí já viu.
domingo, maio 31, 2009
Um dia para destruir coisas...
... porque quando você tinha 19 anos
VOCÊ não quis um dia criar algo tão belo e puro
apenas para que um dia você pudesse inflamá-lo
e então ver a cidade acender enquanto queima?
Você já não quis fazer isso todos os dias de sua vida?
Nada deveria ser para sempre.
Bandas deveriam fazer um single e então se separar,
fanzines terminar após uma edição sem falhas,
amantes partir na chuva às 5 da manhã e jamais serem vistos de novo -
Hábito e medo de mudança são as piores razões para fazer QUALQUER COISA.
Acabar com um selo após 100 lançamentos perfeitos
é a mais linda declaração de arte pop possível
e diz mais sobre música pop do que qualquer digipak em duas partes
edição limitada em vinil 7" colorido
autenticamente lo-fi EP de dez faixas
(ou qualquer outro truque de marketing)
jamais irá.
Sarah Records pertence a ninguém a não ser nós,
então é NOSSA para criar e destruir como queremos
e nós não fazemos bis.
Nós queremos queimar em cores brilhantes e ir pop.
para ser alegre, impulsivo e bobo,
para beijar pessoas em novos lugares -
REQUINTADAMENTE
- e ousar despedaçar coisas.
O primeiro ato de revolução é destruição
e a primeira coisa a se destruir é O PASSADO.
assustador
como se apaixonar
nos lembra que nós estamos vivos
SARAH RECORDS
1987 - 1995
=
Sarah Records nasceu quando eu tinha dois anos e morreu quando eu tinha 10.
Quem lê isso acima pode pensar que Sarah era um selo punk comunista que queria obliteração da sociedade como nós a conhecemos, mas Sarah é o selo que lançou os álbuns mais doces e puros que conheço.
Sarah era o selo que lançava álbuns de Another Sunny Day, Field Mice, Heavenly e Blueboy.
Desse selo que surgiu o que hoje entendemos como "indie pop" e, talvez mais importante, o que entendemos como "indie".
EM 1987, punk era algo famoso e popular; o lendário 1977 havia acontecido há 10 anos atrás e as ruas de Londres estavam cheias de garotos violentos e machistas com seus moicanos e jaquetas de couro; em 1986, a NME havia lançado a C-86, uma fita cassete com bandas ao mesmo tempo tão independentes quanto as bandas punk, mas inspiradas por Smiths e nostálgicas por músicas pop simples sobre amor e besteirinhas adolescentes.
Um ano depois, surgia a Sarah Records para tais bandas independentes que não faziam parte de nenhum movimento específico.
Essas bandas eram para meninas que gostavam de coisas de meninas e meninos que se sentiriam bobos colocando um piercing ou fazendo um moicano; Heavenly por exemplo (minha banda favorita) era o projeto de uma menina que convidou uma amiga para fazer backing vocal, o namorado para tocar guitarra e o irmão de 14 anos para tocar bateria.
Era a essência do Do It Yourself sem esse ódio fingindo por tudo e por todos.
Suas músicas continham amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como tais elementos estão em histórias de crianças.
Assim como é infantil construir coisas só para queimar depois (não é uma das graças de construir castelos de areia em algum lugar onde há a certeza que a maré alcançará eventualmente? Não é algo puramente infantil brincar com seu carrinho favorito até ele quebrar? Atena sabe quantos batmans e wolverines não foram desmembrados em minhas mãos), Sarah Records sempre buscou lançar obras belas e puras e de bandas que ninguém esperava que fossem durar.
Fala-se em revolução, em destruir o passado, em "beijar pessoas em novos lugares", em não se tornar vítima do hábito e do medo; não é assim que crianças se comportam? Mais, não é esse o objetivo final de toda criança? Se tornar algo melhor do que os adultos que inevitavelmente se tornarão?
=
Eu achei isso interessante porque acabou recentemente uma re-publicação online de Chuva Contra o Vento no Quarto Mundo e foi uma história que eu escrevi quando tinha exatamente uns 19 anos.
Na época, o único referencial que eu tinha de histórias do tipo eram os gêmeos Bá e Moon (e ainda praticamente são os únicos) e sempre me atormenta esse pensamento de que hoje eu não conseguiria escrever algo tão simples e bonito quanto foi o Chuva...
E é engraçado porque antes de ler ela no Quarto Mundo, eu tinha uma visão um pouco diferente da história, eu não gostava tanto dela, como uma criança de 14 anos não gosta dos seus brinquedos de quando tinham 10 porque agora elas já estão todas grandinhas com seus enormes 14 anos.
Lendo recentemente, eu vi uma história infantil, com amor, esperança, desapontamento, sexo e morte assim como eles acontecem nas histórias infantis.
É uma história que eu tenho orgulho, que eu vejo menos falhas do que via há um ano atrás quando eu só lembrava da história e mais qualidades do que eu lembrava.
Eu algum momento eu cheguei a pensar "hoje eu não escreveria a cena do estupro; eu colocaria algo menos pretensioso e menos espinhoso, algo como eles saindo para um encontro e simplesmente não dando certo, simplesmente não havendo química" e é verdade que hoje que eu não escreveria tal cena, mas eu estou feliz que na época eu fui criança o bastante para fazê-lo.
Hoje eu teria que levar em conta mil fatores que na época eu simplesmente não pensava, na época soou apenas um cliffhanger interessante para o final do quinto número; pouco tempo depois eu me arrependi dessa parte da história, me achei lidando com algo mais sério e mais pesado do que eu tinha competência de lidar.
Lendo a história de novo, eu achei engraçado o quanto eu consegui manter algo do tipo silencioso. O fato não rende cenas violentas e traumáticas. A consequência dessa cena é um dialogo no hospital e um abraço na mãe.
É raro eu me sentir orgulhoso, mas eu me senti quando eu percebi como lidei bem com essa cena - entenda, como eu fui profissional, POIS eu fui infantil; POIS eu não entrei em grandes questões psicológicas e grandes cenas dramáticas e grandes especulações políticas e sociais sobre nossa sociedade machista que continua a ver uma mulher de saia parada em uma esquina como um objeto a ser utilizado. Foi infantil, foi um diálogo no hospital e um abraço na mãe.
Ele vai pra casa e chora.
Como mais uma criança lidaria com isso?
=
De qualquer forma, é estranho eu me ver como um escritor hoje, eu sou talvez o roteirista menos produtivo do Quarto Mundo, eterno está saindo aos poucos e o que há programado pra depois dele são umas histórias curtas (24 páginas se mão engano) que sairão no novo website que eu e o Cunha estamos montando.
Na verdade, eu estou procurando desenhistas para mais histórias. Precisaria de alguém com um estilo bem bonequinhos palito para histórias de dois personagens:
Um será o vestido vermelho e outro o vestido azul e sei lá, eles vão conversar.
Pensando bem, talvez eu desenhe.
Haha, eu vou ser para o malvados o que Sarah Records foi para o punk; enquanto ele é todo profissional e todo artista fingindo que não sabe desenhar para fingir que odeia o mundo, eu que realmente não sei desenhar e sou sinceramente deprimido vou fazer tirinhas bonitas.
Vamos ver como funciona.
Eu tenho um roteiro deles por aqui.
=

=
Ok, isso não exatamente funcionou, mas sei lá, uma amostra feita por alguém que não consegue nem fazer bonequinhos palitos.
E enfim, é isso, em breve eu vou ter mais histórias na web e se você desenhar eu posso em breve ter histórias suas na web.
terça-feira, maio 26, 2009
Pensamento bobo do ônibus (filósofos em bandas de rock e hedonistas oprimidos)
Nietzsche é tipo o vocalista da banda; é pra onde as groupies adolescentes são automaticamente atraídas.
Marx é tipo o guitarrista da banda; é pra onde as groupies adolescentes que fingem que estão nessa pela música e não pelo star power são automaticamente atraídas.
Descartes é tipo o baixista da banda; é pra onde as groupies que se consideram mais profundas e que "realmente ouvem o som" são automaticamente atraídas.
Wittgenstein é tipo o baterista da banda; é pra onde as groupies esquisitas e tímidas que sinceramente gostam da música e estão nessa de groupie pra tentar fazer parte do lance, mas sem querer chamar atenção demais pra si próprias são automaticamente atraídas.
...(e eis onde o pensamento bobo começou)
Schopenhauer é tipo o amigo do banda; todo mundo gosta dele, todo mundo conhece ele, mas ninguém sabe exatamente o que fazer com ele. Às vezes ele fica de empresário, às vezes de roadie, às vezes ele até ajuda a escrever a letra de uma música ou dá um feedback sobre a música da banda e quem não conhece e vê ele no bar com o resto da banda até pensa que ele faz parte... e não é que ele exatamente faz parte, é só que a banda por algum motivo realmente gosta de ter ele por perto e então elas criam esses trampinhos off-stage pra ele só pra manter ele por perto.
=
Bônus: Diderot é tipo Carl Johnson do Beat Happening; Kurt Cobain e outras 9 pessoas no planeta são realmente fãs dele e ele é peça-chave do início de um milhão de correntes de pensamento diferente; dito isso, ele ainda só é conhecido por Kurt Cobain e outras 9 pessoas, pois cada coisa que ele ajudou a criar ficou realmente famosa nas mãos de outras pessoas, então quando essas 9 pessoas morrerem (porque Kurt Cobain já se matou), ninguém vai lembrar que um dia ele existiu.
Bônus 2: Locke e Hume são Liam e Noel Gallagher respectivamente; eles são sempre citados como sendo quase a mesma coisa, mas Noel sendo mais violento.
=
Vai, já que eu to no blog. Recentemente eu tenho ficado bravo com conservadores porque eles estão se sentindo abandonados agora que Obama ganhou a eleição. Os caras dominaram o planeta a década inteira e agora que perderam uma única eleição (e nem perderam de tão feio assim), estão profetizando que uma nova era de barbárie e comunismo e sangue e dor se anuncia. E a histeria, oh céus, a histeria!
É como se conservadores fosse uma minoria perseguida.
Mas falando em minoria perseguida, esses dias eu tive o mesmo sentimento de "pff, man up nancy boy" em relação a ateus hedonistas. É o que acontece geralmente quando eu decido visitar a comunidade de poliamor do orkut.
Ok, eu sou poliamorista, ateu, se não um hedonista convicto e por ideologia, ao menos hedonista porque não tem nada melhor pra ser por enquanto e essa é parte do ponto.
Você facilmente encontra na internet vídeos de todo e qualquer tipo de perversão sexual imaginada (protip: tubaholic); a série de filmes pornô dos anos 70 chamada "Taboo" que lida com incesto teve QUINZE versões. Uma série de filmes pornô que lida com incesto é um dos clássicos da pornografia, sucesso incrível de vendas e - de novo - 15 versões (eu assisti o primeiro, o segundo e o quarto se não me engano; o roteiro é bem decente, mas já no quarto dá pra notar uma decadência, eu gosto quando o irmão é mais tímido ao invés de full-blown tarado, sabe?), quero dizer, existem algumas centenas de milhares de norte-americanos que compraram vídeos e vídeos de um filme pornô sobre incesto; conseguir prostitutas e drogas é a coisa mais banal do mundo - basta ter dinheiro e nem precisa ser muito dinheiro.
Além da indústria imensa do sexo, existe toda a imensa possibilidade de sexo casual que pode ser feito por aí e existe toda a indústria das baladas, da festa, a quantidade incrível de bares ao redor de cada universidade.
Meu ponto é: existe algo mais estúpido nesse planeta azul do que um hedonista em São Paulo se sentindo oprimido? Eu nunca escondi pra ninguém que eu sou ateu e mesmo poliamorista e ninguém nunca me tratou mal por causa disso - e eu já andei algum tempo entre conservadores; eles achavam que eu estava errado em ser ateu e que poliamor era mais uma forma de justificar multiplas namoradas do que minha sincera visão de amor e relacionamentos (Até aí, especialmente pros conservadores que passaram por universidade, quantas vezes sujeito não tem que lidar com alguém, às vezes professor, dizendo pra ele que a visão monogâmica de romance dele é só um modo de oprimir alguém?), mas eu tenho 15 mil vezes mais problemas com alguém tentando me convencer que Obama é o anti-cristo do que com alguém tentando me convencer que Jesus é o cristo.
Eu não estou dizendo que esse é o mundo perfeito para o cidadão hedonista, que não há gente chata, familias intolerantes, gente que olha torto na rua, etc; mas esse não é o mundo perfeito pra ninguém. Sempre vai ter alguém criticando seu estilo de vida. Os carolas também sentem que seu estilo de vida está ameaçado (e eu digo pra eles também que coisa boba se sentirem oprimidos em um país com uma igreja católica e quinze evangélicas em todo bairro).
Esse post não tem muito propósito senão reclamar das pessoas que reclamam, mas meu conselho para os hedonistas é que eles estão muito estressados e que eles deveriam relaxar e aproveitar mais os prazeres da vida.
Marx é tipo o guitarrista da banda; é pra onde as groupies adolescentes que fingem que estão nessa pela música e não pelo star power são automaticamente atraídas.
Descartes é tipo o baixista da banda; é pra onde as groupies que se consideram mais profundas e que "realmente ouvem o som" são automaticamente atraídas.
Wittgenstein é tipo o baterista da banda; é pra onde as groupies esquisitas e tímidas que sinceramente gostam da música e estão nessa de groupie pra tentar fazer parte do lance, mas sem querer chamar atenção demais pra si próprias são automaticamente atraídas.
...(e eis onde o pensamento bobo começou)
Schopenhauer é tipo o amigo do banda; todo mundo gosta dele, todo mundo conhece ele, mas ninguém sabe exatamente o que fazer com ele. Às vezes ele fica de empresário, às vezes de roadie, às vezes ele até ajuda a escrever a letra de uma música ou dá um feedback sobre a música da banda e quem não conhece e vê ele no bar com o resto da banda até pensa que ele faz parte... e não é que ele exatamente faz parte, é só que a banda por algum motivo realmente gosta de ter ele por perto e então elas criam esses trampinhos off-stage pra ele só pra manter ele por perto.
=
Bônus: Diderot é tipo Carl Johnson do Beat Happening; Kurt Cobain e outras 9 pessoas no planeta são realmente fãs dele e ele é peça-chave do início de um milhão de correntes de pensamento diferente; dito isso, ele ainda só é conhecido por Kurt Cobain e outras 9 pessoas, pois cada coisa que ele ajudou a criar ficou realmente famosa nas mãos de outras pessoas, então quando essas 9 pessoas morrerem (porque Kurt Cobain já se matou), ninguém vai lembrar que um dia ele existiu.
Bônus 2: Locke e Hume são Liam e Noel Gallagher respectivamente; eles são sempre citados como sendo quase a mesma coisa, mas Noel sendo mais violento.
=
Vai, já que eu to no blog. Recentemente eu tenho ficado bravo com conservadores porque eles estão se sentindo abandonados agora que Obama ganhou a eleição. Os caras dominaram o planeta a década inteira e agora que perderam uma única eleição (e nem perderam de tão feio assim), estão profetizando que uma nova era de barbárie e comunismo e sangue e dor se anuncia. E a histeria, oh céus, a histeria!
É como se conservadores fosse uma minoria perseguida.
Mas falando em minoria perseguida, esses dias eu tive o mesmo sentimento de "pff, man up nancy boy" em relação a ateus hedonistas. É o que acontece geralmente quando eu decido visitar a comunidade de poliamor do orkut.
Ok, eu sou poliamorista, ateu, se não um hedonista convicto e por ideologia, ao menos hedonista porque não tem nada melhor pra ser por enquanto e essa é parte do ponto.
Você facilmente encontra na internet vídeos de todo e qualquer tipo de perversão sexual imaginada (protip: tubaholic); a série de filmes pornô dos anos 70 chamada "Taboo" que lida com incesto teve QUINZE versões. Uma série de filmes pornô que lida com incesto é um dos clássicos da pornografia, sucesso incrível de vendas e - de novo - 15 versões (eu assisti o primeiro, o segundo e o quarto se não me engano; o roteiro é bem decente, mas já no quarto dá pra notar uma decadência, eu gosto quando o irmão é mais tímido ao invés de full-blown tarado, sabe?), quero dizer, existem algumas centenas de milhares de norte-americanos que compraram vídeos e vídeos de um filme pornô sobre incesto; conseguir prostitutas e drogas é a coisa mais banal do mundo - basta ter dinheiro e nem precisa ser muito dinheiro.
Além da indústria imensa do sexo, existe toda a imensa possibilidade de sexo casual que pode ser feito por aí e existe toda a indústria das baladas, da festa, a quantidade incrível de bares ao redor de cada universidade.
Meu ponto é: existe algo mais estúpido nesse planeta azul do que um hedonista em São Paulo se sentindo oprimido? Eu nunca escondi pra ninguém que eu sou ateu e mesmo poliamorista e ninguém nunca me tratou mal por causa disso - e eu já andei algum tempo entre conservadores; eles achavam que eu estava errado em ser ateu e que poliamor era mais uma forma de justificar multiplas namoradas do que minha sincera visão de amor e relacionamentos (Até aí, especialmente pros conservadores que passaram por universidade, quantas vezes sujeito não tem que lidar com alguém, às vezes professor, dizendo pra ele que a visão monogâmica de romance dele é só um modo de oprimir alguém?), mas eu tenho 15 mil vezes mais problemas com alguém tentando me convencer que Obama é o anti-cristo do que com alguém tentando me convencer que Jesus é o cristo.
Eu não estou dizendo que esse é o mundo perfeito para o cidadão hedonista, que não há gente chata, familias intolerantes, gente que olha torto na rua, etc; mas esse não é o mundo perfeito pra ninguém. Sempre vai ter alguém criticando seu estilo de vida. Os carolas também sentem que seu estilo de vida está ameaçado (e eu digo pra eles também que coisa boba se sentirem oprimidos em um país com uma igreja católica e quinze evangélicas em todo bairro).
Esse post não tem muito propósito senão reclamar das pessoas que reclamam, mas meu conselho para os hedonistas é que eles estão muito estressados e que eles deveriam relaxar e aproveitar mais os prazeres da vida.
domingo, maio 24, 2009
ZOMFG! APARTHEID!!!11!11!SHIFT+1
Recebi um e-mail dizendo que o congresso constitucionaliza o Apartheid ao criar um estatuto da igualdade racial ou algo do tipo.
Em algum momento do e-mail histérico sobre como esses negros sacanas estão roubando algum direito nosso só porque nós os escravizamos por meros séculos, a pessoa cita um sociólogo com um sobrenome ironicamente alemão.
"Mas, como lembra o sociólogo Simon Schwartzman, o problema é saber quem deveria pagar essa dívida. "Portugueses escravocratas que já morreram? Ou filhos de imigrantes japoneses, italianos e alemães que vieram para o Brasil na miséria e não tiveram nada a ver com a escravidão?"
Sim; japoneses, italianos e alemães vieram para o Brasil na miséria e hoje são a classe média; já os negros, na mesma miséria, ainda são os protagonistas de favelas, sub-empregos e prisões.
Porque em um país tão admiravelmente usente de racismo como o nosso ofereceu ascenção social para grupos e grupos de não-negros miseráveis, mas não para os negros?
Sei lá, das duas uma:
Ou o sociólogo acredita que os negros são inferiores a ponto de estarem sistematicamente nas classes mais baixas por males inerentes à raça ou o sociólogo é racista.
E não consigo me decidir qual das duas.
Bônus:
"NÓS NÃO SOMOS OS EUA!"
É verdade. Eles entraram em uma guerra civil para acabar com a escravidão em 1865, enquanto nós pacificamente, no maior espírito de comunhão entre as raças, pacificamente acabamos com a escravidão 23 anos depois; em 1888.
Realmente, eles são os racistas, nós apenas passamos 23 anos sendo o único país das américas a escravizar negros. Que exemplo admirável nós somos! Orgulho de ser brasileiro.
Bônus 2:
Nós somos tão pouco racistas que o censo tem que olhar pra alguém indiscutivelmente negro e perguntar qual etnia ele se considera.
Afinal, nós somos tão pouco racistas que nosso governo não quer correr o risco de ofender alguém chamando ele de negro.
Em algum momento do e-mail histérico sobre como esses negros sacanas estão roubando algum direito nosso só porque nós os escravizamos por meros séculos, a pessoa cita um sociólogo com um sobrenome ironicamente alemão.
"Mas, como lembra o sociólogo Simon Schwartzman, o problema é saber quem deveria pagar essa dívida. "Portugueses escravocratas que já morreram? Ou filhos de imigrantes japoneses, italianos e alemães que vieram para o Brasil na miséria e não tiveram nada a ver com a escravidão?"
Sim; japoneses, italianos e alemães vieram para o Brasil na miséria e hoje são a classe média; já os negros, na mesma miséria, ainda são os protagonistas de favelas, sub-empregos e prisões.
Porque em um país tão admiravelmente usente de racismo como o nosso ofereceu ascenção social para grupos e grupos de não-negros miseráveis, mas não para os negros?
Sei lá, das duas uma:
Ou o sociólogo acredita que os negros são inferiores a ponto de estarem sistematicamente nas classes mais baixas por males inerentes à raça ou o sociólogo é racista.
E não consigo me decidir qual das duas.
Bônus:
"NÓS NÃO SOMOS OS EUA!"
É verdade. Eles entraram em uma guerra civil para acabar com a escravidão em 1865, enquanto nós pacificamente, no maior espírito de comunhão entre as raças, pacificamente acabamos com a escravidão 23 anos depois; em 1888.
Realmente, eles são os racistas, nós apenas passamos 23 anos sendo o único país das américas a escravizar negros. Que exemplo admirável nós somos! Orgulho de ser brasileiro.
Bônus 2:
Nós somos tão pouco racistas que o censo tem que olhar pra alguém indiscutivelmente negro e perguntar qual etnia ele se considera.
Afinal, nós somos tão pouco racistas que nosso governo não quer correr o risco de ofender alguém chamando ele de negro.
quarta-feira, maio 13, 2009
Sobre ser adulto
O adulto é uma farsa.
O profissional é uma mentira.
Esse é o tipo de coisa que eu descubro enquanto "cresço".
Eu sempre pensei que sairia do colégio e encontraria esses tais "adultos", pessoas como meus pais que eram emocionalmente estáveis e faziam seu trabalho e mantinham o mundo girando (ou explodindo por motivos legítimos).
Mas não há adultos, afinal, meus pais não eram emocionalmente estáveis, "fazer o seu trabalho" não é assim tão difícil e mesmo assim a maioria das pessoas não faz direito e as pessoas se explodem por estupidez.
Às vezes é difícil encontrar profundidade nesse mundo. Profundidade é, num geral, só falta de conhecimento.
Profundidade é na maioria das vezes só o que uma pessoa que quer convencer outra por meio do medo. "não entre em tais águas, elas são profundas!" ou "não fale disso! Você não sabe o que há nas profundezas".
E a segunda afirmação é verdade, na maior parte das vezes falamos sem saber o que nos aguarda nas profundezas, mas todas as vezes que eu ignorei o primeiro aviso e entrei em tais águas, eu não vi toda aquela profundidade que afirmavam, mesmo que eu já tenha usado "profundidade" como um meio de assustar os outros.
"Você não sabe! É muito mais complexo do que você pensa!" é o que dizem os ilusionistas. E esse mundo tem sua infinitude de mágicos.
Cientistas mágicos que conhecem profundamente o mundo com um jargão complexo demais para você leigo.
Religiosos mágicos com sua fé misteriosa que o conectam à uma entidade que você pobre ateu não tem acesso.
Artistas mágicos que criam suas obras usando suas mentes misteriosamente super-desenvolvidas vivendo em mundos exóticos que o pobre espectador pode apenas experimentar por meio da arte.
Não questione como o mágico faz sua mágica, é complexo demais, é profundo demais, você simplesmente *não sabe*!
E longe de mim querer dizer para as pessoas questionarem tudo, como eu disse, é verdade que nós não sabemos e conhecimento é poder no sentido que ausência dele pode te levar a acreditar em profundidades não-existentes e há medo da profundidade.
Mas quantas vezes *você* se sentiu profundo? Quantas vezes você buscou um conhecimento e, após ter adquirido, se sentiu com a chave para interpretar a humanidade de modo que apenas você e seus poucos companheiros de conhecimento conseguem?
Se você atingiu tal profundidade, minha aposta é simplesmente que você é tão ingênuo que realizou uma simples confusão: O fundo não é necessariamente profundo. Ver o chão só significa que você encontrou mais uma superfície.
E quão bobo não é quando alguém chama superfície de profundeza?
E quanto potencial não há em alguém que considera o mais profundo ainda superficial demais?
O profissional é uma mentira.
Esse é o tipo de coisa que eu descubro enquanto "cresço".
Eu sempre pensei que sairia do colégio e encontraria esses tais "adultos", pessoas como meus pais que eram emocionalmente estáveis e faziam seu trabalho e mantinham o mundo girando (ou explodindo por motivos legítimos).
Mas não há adultos, afinal, meus pais não eram emocionalmente estáveis, "fazer o seu trabalho" não é assim tão difícil e mesmo assim a maioria das pessoas não faz direito e as pessoas se explodem por estupidez.
Às vezes é difícil encontrar profundidade nesse mundo. Profundidade é, num geral, só falta de conhecimento.
Profundidade é na maioria das vezes só o que uma pessoa que quer convencer outra por meio do medo. "não entre em tais águas, elas são profundas!" ou "não fale disso! Você não sabe o que há nas profundezas".
E a segunda afirmação é verdade, na maior parte das vezes falamos sem saber o que nos aguarda nas profundezas, mas todas as vezes que eu ignorei o primeiro aviso e entrei em tais águas, eu não vi toda aquela profundidade que afirmavam, mesmo que eu já tenha usado "profundidade" como um meio de assustar os outros.
"Você não sabe! É muito mais complexo do que você pensa!" é o que dizem os ilusionistas. E esse mundo tem sua infinitude de mágicos.
Cientistas mágicos que conhecem profundamente o mundo com um jargão complexo demais para você leigo.
Religiosos mágicos com sua fé misteriosa que o conectam à uma entidade que você pobre ateu não tem acesso.
Artistas mágicos que criam suas obras usando suas mentes misteriosamente super-desenvolvidas vivendo em mundos exóticos que o pobre espectador pode apenas experimentar por meio da arte.
Não questione como o mágico faz sua mágica, é complexo demais, é profundo demais, você simplesmente *não sabe*!
E longe de mim querer dizer para as pessoas questionarem tudo, como eu disse, é verdade que nós não sabemos e conhecimento é poder no sentido que ausência dele pode te levar a acreditar em profundidades não-existentes e há medo da profundidade.
Mas quantas vezes *você* se sentiu profundo? Quantas vezes você buscou um conhecimento e, após ter adquirido, se sentiu com a chave para interpretar a humanidade de modo que apenas você e seus poucos companheiros de conhecimento conseguem?
Se você atingiu tal profundidade, minha aposta é simplesmente que você é tão ingênuo que realizou uma simples confusão: O fundo não é necessariamente profundo. Ver o chão só significa que você encontrou mais uma superfície.
E quão bobo não é quando alguém chama superfície de profundeza?
E quanto potencial não há em alguém que considera o mais profundo ainda superficial demais?
segunda-feira, abril 20, 2009
Convicções e inveja
Desde os 17/18 anos, ler Nietzsche é um modo de masoquismo.
Por mais que eu concorde com Nietzsche em coisas relacionadas a parte mais técnica da filosofia (seu tipo de empirismo/positivismo perspectivista, sua postura evolucionária em relação à vida e à razão, seu ateísmo; o Nietzsche de Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano), o Nietzsche "auto-ajuda" ("Como ser um filósofo bacana" - Assim Falava Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos) sempre me levou a crer que eu sou algum tipo de ponte para o sub-homem, para o anterior ao homem.
A grande maioria das minhas idéias e visões do mundo vem de coisas mesquinhas, de comportamentos que não consigo adotar, de invejas alheias. Não há nada de objetivo no modo como eu penso, então eu decreto a mim mesmo como realidade e digo "não há objetividade", coisas desse tipo.
Eu sempre tive inveja, ressentimento e ódio de pessoas convictas. Então eu eliminei a convicção da minha cosmologia.
A realidade muda, se suas opiniões não mudam, então você vai estar errado a maior parte do tempo.
É claro que isso é decorrência do modo como eu funciono. Minhas opiniões mudam e mudam semanalmente.
É claro que elas jamais mudam em um debate.
Você diz "A"
Eu digo "B"
Você diz "Não-B"
Eu digo "É? Mas sua mãe é uma vaca!"
Mas é claro que isso vai me atormentar profundamente durante meses e meses e meses até que um dia eu vou dizer "hum... A"
Mas é claro que isso não muda o quadro todo.
Concordar em um tópico e uma opinião é a coisa mais insignificante. Se em duas semanas eu vou ter uma nova opinião, nada é mais fútil do que fazer eu concordar com você hoje. Se alguma coisa, você ganha alguém pra dizer que a mãe dos seus oponentes é uma vaca durante duas semanas.
Tenho inveja da maior parte das pessoas que conheço. Todas elas alternam entre momentos de felicidade e tristeza e eu vivo apenas triste do momento em que me conheço por gente e isso só está piorando.
Atualmente tenho perdido minha capacidade de sobreviver. As pequenas coisas me mantendo vivo funcionam cada vez menos.
Agora eu funciono em uma alternância entre tudo ser um pouco mais urgente, um pouco mais importante porque eu não tenho muito tempo mais entre os vivos.
Por outro lado, de que importa? Eu não vou estar aqui pra ver ninguém chorar no meu funeral.
Dada a onipresença da minha própria miséria, eu acredito tão fielmente no sofrimento como essência do universo que meu medo é que exista uma vida após a morte porque até lá haveria sofrimento. Seja no inferno ou no céu.
O paraíso é ridículo.
Se nós não sofremos, então não nos importamos. Se os anjos no céu e as boas almas não olham para baixo e não sofrem com nosso sofrimento, então eles são apenas seres frios e cruéis. Se isso é o que deveria simbolizar o que há de mais próximo do criador, então não há como escapar do pessimismo da realidade.
Se tais seres sofrem, então o sofrimento persiste até depois da morte. Qual a diferença, aqui, entre paraíso e inferno senão que um é uma tortura psicológica e o outro física?
Dado que o sofrimento é eterno em ambos os campos, eu acho que depois de 5000 anos sendo mergulhado em um lago de fogo, eu vou estar bem acostumado a isso. Mas 5000 anos assistindo pessoas se matarem e sofrerem vai ser bem pior.
O paraíso é um castigo pior que o inferno.
Se existe um Deus e se ele é bom, a recompensa que eu peço a Ele é a não-existência após a morte. Completa obliteração. Isso me assusta de um modo imenso, mas a idéia de eternidade me assusta ainda mais.
Vida após a morte só significa sofrimento após a morte.
Pensando em céu e inferno, que é o mais inútil de todos os assuntos possíveis, material para blogs e bêbados (e infelizmente agora estou apenas blogueiro, não me lembro muito do que falei quando estava bêbado ontem, lembro de uma bartender dizendo pra mim que eu não precisava ser infeliz só porque era intelectual e de eu ter levemente me apaixonado por ela [mas fuck that, porque ela é boa demais pra mim, provavelmente lésbica, minha primeira impressão foi de um bêbado deprimido, o que é verdade, então eu não tenho nem como causar uma impressão melhor que essa] e lembro de ter pensado muito em suicídio e até ter falado um pouco a respeito com uma das mais queridas pessoas da minha vida atualmente... e se eu de fato vir a cumprir isso, queria que ela e minha mãe soubessem o quanto isso tudo é inevitável e que elas foram ótimas, mas que bla bla bla, como se eu não fosse deixar uma carta, sendo a drama queen que sou), eu entendo a queda dos anjos como sendo resultado de inveja.
Caso toda a mitologia cristã seja verdade, seria uma surpresa que quedas e guerras civis no paraíso, de anjos e pessoas boas (você morre e vai direto pro céu ou fica no limbo por milhões de anos até que o sol entre em supernova e todo mundo seja julgado ao mesmo tempo?) sentindo inveja dos habitantes lá embaixo.
De qualquer forma, se nossa razão sobrevive, se nossos sentimentos sobrevivem, então porque não haveria tanta violência e descontentamento no paraíso quanto há aqui? Só porque as ruas de ouro e ninguém sente fome? É misteriosamente uma noção marxista demais de paraíso pensar que as pessoas só guerream porque querem terra ou comida. Que exista livre-arbítrio o bastante para apenas um ponto de discórdia e os anjos estariam brutalmente se assassinando por causa disso, nem que seja algo como o que se ter para o almoço na quinta-feira.
E porque as guerras religiosas parariam?
A mitologia cristã é verdadeira: um judeu morre e dizem pra ele "olha, Jesus Cristo é o verdadeiro Messias, lá está o trono, lá está Deus, lá está Jesus à direita dele", algo similar acontece com budistas, politeístas, muçulmanos.
Se as razões e os sentimentos estão intactos (se o nosso espírito continua o mesmo), há qualquer motivo para acreditar que o sujeito em questão não vai pensar que é tudo uma farsa? Que ele está no lugar errado, que a jihad continua após a morte, que aquilo é na verdade o inferno? (afinal, se eu quero mandar um muçulmano fanático para o inferno, basta enviá-lo para um paraíso cristão, onde a mitologia muçulmana é uma piada sem nexo).
E se a presença divina por acaso fizer ele acreditar naquilo, ele está lá, parado, encarando a Verdade e é impossível não ver aquilo como verdadeiro. Como ele fica depois disso? De repente você descobre que passou a vida toda adorando uma mitologia falsa.
E se a presença divina não só fizer você ver a verdade da mitologia X, mas também te faz ver o quanto isso é bom e o quanto é feliz, etc. no que isso é diferente de uma lobotomia? Como isso difere daquele nosso primeiro cenário, onde as pessoas no paraíso são simplesmente frias e cruéis porque são felizes apesar de todo sofrimento?
É verdade que eu sou uma pessoa neurótica e é verdade que isso influencia o modo como eu compreendo o mundo, mas desse meu ponto de vista neurótico, a possibilidade de qualquer existência, viva ou morta, ser qualquer coisa além de sofrimento é não-existente.
Os prazeres hedonistas ficam chatos e entediantes rápido. O mundo intelectual é uma máfia e um punhado de pessoas com agendas colocando a si próprias no lugar da realidade e dizendo "minha neurose é a Verdade", é como eu faço pelo menos e até hoje não tive motivos para acreditar que os outros façam diferente. E se o meu pessimismo é idiota, eu nem vou começar a falar das pessoas otimistas, daqueles que acham que o universo misteriosamente concorda com elas.
Então elas não gostam de viver puritanamente e *PUF*, é óbvio que Deus não existe; então elas gostam de ir à igreja e *PUF*, é óbvio que Deus existe; então elas acham que conquistaram seus bens por meio de trabalho e esforço e *PUF*, é óbvio que incentivar a meritocracia é o melhor para desenvolver um país economicamente; então elas acham que foram injustiçadas, que o lugar onde nasceram ou estudaram ou seu sobrenome ou sua cor é o que impede o mundo de reconhecer sua grandeza e *PUF*, é óbvio que meritocracia não existe e que um tipo de força coerciva deve ser utilizada para ajeitar essa situação.
Acho que é Paul Veyne que define ideologia como auto-elogio e, bom, aí fica difícil não chamar todas as pessoas do mundo de ideólogas, já que o mero dizer "eu estou certo" é um tipo de auto-elogio. Além disso, as pessoas raramente param só no "eu estou certo", é "eu estou certo, portanto do lado certo da história e sou moralmente uma pessoa melhor que você e o meu caminho (mesmo que eu particularmente não consiga seguí-lo) é o melhor para se conquistar a verdadeira felicidade e a verdadeira sabedoria").
Então meh, pelo menos a minha ideologia neurótica só diz que eu estou certo (e por pouco tempo, porque a realidade muda e se minha opinião não mudar junto, eu me torno errado mesmo que usando os mesmos argumentos que há 5 minutos atrás eram certos), mas essa é uma das crises da minha vida. Se eu sou infeliz e os outros não, então estar certo vale muito pouco.
Eu estou aqui, na beira do suicídio, certamente minha visão de mundo não é a melhor para buscar felicidade ou sabedoria. Então mesmo que eu esteja certo, é algo ridículo, porque não é como se eu pudesse dar conselhos ou compartilhar minhas opiniões.
No mais, nem eu, nem meus genes, nem minhas idéias vão sobreviver, então eu estou claramente do lado errado da história.
Então é isso, eu acho. Pelo menos até onde esse mundo é considerado (e esse mundo é o único que vale a pena ser considerado), a não-existência completa é o caminho mesmo, já que nem na memória eu vou sobreviver.
E eu gosto disso.
Me dói a idéia da minha morte causar sofrimento, mas talvez tenha que ser tipo um band-aid, sabe? Se eu definhar aos poucos nesse marasmo e alguém aí se importar comigo (oi mãe!), então eu vou só causando um sofrimento contínuo enquanto sobrevivo. Pelo menos morrendo de uma vez e logo, as pessoas terão tempo para superar e em algum momento de suas vidas, eu vou finalmente deixar de ser um sofrimento e virar só mais uma história sem nenhuma moral em particular.
Aí esquecido.
Aí o nada.
Por mais que eu concorde com Nietzsche em coisas relacionadas a parte mais técnica da filosofia (seu tipo de empirismo/positivismo perspectivista, sua postura evolucionária em relação à vida e à razão, seu ateísmo; o Nietzsche de Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano), o Nietzsche "auto-ajuda" ("Como ser um filósofo bacana" - Assim Falava Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos) sempre me levou a crer que eu sou algum tipo de ponte para o sub-homem, para o anterior ao homem.
A grande maioria das minhas idéias e visões do mundo vem de coisas mesquinhas, de comportamentos que não consigo adotar, de invejas alheias. Não há nada de objetivo no modo como eu penso, então eu decreto a mim mesmo como realidade e digo "não há objetividade", coisas desse tipo.
Eu sempre tive inveja, ressentimento e ódio de pessoas convictas. Então eu eliminei a convicção da minha cosmologia.
A realidade muda, se suas opiniões não mudam, então você vai estar errado a maior parte do tempo.
É claro que isso é decorrência do modo como eu funciono. Minhas opiniões mudam e mudam semanalmente.
É claro que elas jamais mudam em um debate.
Você diz "A"
Eu digo "B"
Você diz "Não-B"
Eu digo "É? Mas sua mãe é uma vaca!"
Mas é claro que isso vai me atormentar profundamente durante meses e meses e meses até que um dia eu vou dizer "hum... A"
Mas é claro que isso não muda o quadro todo.
Concordar em um tópico e uma opinião é a coisa mais insignificante. Se em duas semanas eu vou ter uma nova opinião, nada é mais fútil do que fazer eu concordar com você hoje. Se alguma coisa, você ganha alguém pra dizer que a mãe dos seus oponentes é uma vaca durante duas semanas.
Tenho inveja da maior parte das pessoas que conheço. Todas elas alternam entre momentos de felicidade e tristeza e eu vivo apenas triste do momento em que me conheço por gente e isso só está piorando.
Atualmente tenho perdido minha capacidade de sobreviver. As pequenas coisas me mantendo vivo funcionam cada vez menos.
Agora eu funciono em uma alternância entre tudo ser um pouco mais urgente, um pouco mais importante porque eu não tenho muito tempo mais entre os vivos.
Por outro lado, de que importa? Eu não vou estar aqui pra ver ninguém chorar no meu funeral.
Dada a onipresença da minha própria miséria, eu acredito tão fielmente no sofrimento como essência do universo que meu medo é que exista uma vida após a morte porque até lá haveria sofrimento. Seja no inferno ou no céu.
O paraíso é ridículo.
Se nós não sofremos, então não nos importamos. Se os anjos no céu e as boas almas não olham para baixo e não sofrem com nosso sofrimento, então eles são apenas seres frios e cruéis. Se isso é o que deveria simbolizar o que há de mais próximo do criador, então não há como escapar do pessimismo da realidade.
Se tais seres sofrem, então o sofrimento persiste até depois da morte. Qual a diferença, aqui, entre paraíso e inferno senão que um é uma tortura psicológica e o outro física?
Dado que o sofrimento é eterno em ambos os campos, eu acho que depois de 5000 anos sendo mergulhado em um lago de fogo, eu vou estar bem acostumado a isso. Mas 5000 anos assistindo pessoas se matarem e sofrerem vai ser bem pior.
O paraíso é um castigo pior que o inferno.
Se existe um Deus e se ele é bom, a recompensa que eu peço a Ele é a não-existência após a morte. Completa obliteração. Isso me assusta de um modo imenso, mas a idéia de eternidade me assusta ainda mais.
Vida após a morte só significa sofrimento após a morte.
Pensando em céu e inferno, que é o mais inútil de todos os assuntos possíveis, material para blogs e bêbados (e infelizmente agora estou apenas blogueiro, não me lembro muito do que falei quando estava bêbado ontem, lembro de uma bartender dizendo pra mim que eu não precisava ser infeliz só porque era intelectual e de eu ter levemente me apaixonado por ela [mas fuck that, porque ela é boa demais pra mim, provavelmente lésbica, minha primeira impressão foi de um bêbado deprimido, o que é verdade, então eu não tenho nem como causar uma impressão melhor que essa] e lembro de ter pensado muito em suicídio e até ter falado um pouco a respeito com uma das mais queridas pessoas da minha vida atualmente... e se eu de fato vir a cumprir isso, queria que ela e minha mãe soubessem o quanto isso tudo é inevitável e que elas foram ótimas, mas que bla bla bla, como se eu não fosse deixar uma carta, sendo a drama queen que sou), eu entendo a queda dos anjos como sendo resultado de inveja.
Caso toda a mitologia cristã seja verdade, seria uma surpresa que quedas e guerras civis no paraíso, de anjos e pessoas boas (você morre e vai direto pro céu ou fica no limbo por milhões de anos até que o sol entre em supernova e todo mundo seja julgado ao mesmo tempo?) sentindo inveja dos habitantes lá embaixo.
De qualquer forma, se nossa razão sobrevive, se nossos sentimentos sobrevivem, então porque não haveria tanta violência e descontentamento no paraíso quanto há aqui? Só porque as ruas de ouro e ninguém sente fome? É misteriosamente uma noção marxista demais de paraíso pensar que as pessoas só guerream porque querem terra ou comida. Que exista livre-arbítrio o bastante para apenas um ponto de discórdia e os anjos estariam brutalmente se assassinando por causa disso, nem que seja algo como o que se ter para o almoço na quinta-feira.
E porque as guerras religiosas parariam?
A mitologia cristã é verdadeira: um judeu morre e dizem pra ele "olha, Jesus Cristo é o verdadeiro Messias, lá está o trono, lá está Deus, lá está Jesus à direita dele", algo similar acontece com budistas, politeístas, muçulmanos.
Se as razões e os sentimentos estão intactos (se o nosso espírito continua o mesmo), há qualquer motivo para acreditar que o sujeito em questão não vai pensar que é tudo uma farsa? Que ele está no lugar errado, que a jihad continua após a morte, que aquilo é na verdade o inferno? (afinal, se eu quero mandar um muçulmano fanático para o inferno, basta enviá-lo para um paraíso cristão, onde a mitologia muçulmana é uma piada sem nexo).
E se a presença divina por acaso fizer ele acreditar naquilo, ele está lá, parado, encarando a Verdade e é impossível não ver aquilo como verdadeiro. Como ele fica depois disso? De repente você descobre que passou a vida toda adorando uma mitologia falsa.
E se a presença divina não só fizer você ver a verdade da mitologia X, mas também te faz ver o quanto isso é bom e o quanto é feliz, etc. no que isso é diferente de uma lobotomia? Como isso difere daquele nosso primeiro cenário, onde as pessoas no paraíso são simplesmente frias e cruéis porque são felizes apesar de todo sofrimento?
É verdade que eu sou uma pessoa neurótica e é verdade que isso influencia o modo como eu compreendo o mundo, mas desse meu ponto de vista neurótico, a possibilidade de qualquer existência, viva ou morta, ser qualquer coisa além de sofrimento é não-existente.
Os prazeres hedonistas ficam chatos e entediantes rápido. O mundo intelectual é uma máfia e um punhado de pessoas com agendas colocando a si próprias no lugar da realidade e dizendo "minha neurose é a Verdade", é como eu faço pelo menos e até hoje não tive motivos para acreditar que os outros façam diferente. E se o meu pessimismo é idiota, eu nem vou começar a falar das pessoas otimistas, daqueles que acham que o universo misteriosamente concorda com elas.
Então elas não gostam de viver puritanamente e *PUF*, é óbvio que Deus não existe; então elas gostam de ir à igreja e *PUF*, é óbvio que Deus existe; então elas acham que conquistaram seus bens por meio de trabalho e esforço e *PUF*, é óbvio que incentivar a meritocracia é o melhor para desenvolver um país economicamente; então elas acham que foram injustiçadas, que o lugar onde nasceram ou estudaram ou seu sobrenome ou sua cor é o que impede o mundo de reconhecer sua grandeza e *PUF*, é óbvio que meritocracia não existe e que um tipo de força coerciva deve ser utilizada para ajeitar essa situação.
Acho que é Paul Veyne que define ideologia como auto-elogio e, bom, aí fica difícil não chamar todas as pessoas do mundo de ideólogas, já que o mero dizer "eu estou certo" é um tipo de auto-elogio. Além disso, as pessoas raramente param só no "eu estou certo", é "eu estou certo, portanto do lado certo da história e sou moralmente uma pessoa melhor que você e o meu caminho (mesmo que eu particularmente não consiga seguí-lo) é o melhor para se conquistar a verdadeira felicidade e a verdadeira sabedoria").
Então meh, pelo menos a minha ideologia neurótica só diz que eu estou certo (e por pouco tempo, porque a realidade muda e se minha opinião não mudar junto, eu me torno errado mesmo que usando os mesmos argumentos que há 5 minutos atrás eram certos), mas essa é uma das crises da minha vida. Se eu sou infeliz e os outros não, então estar certo vale muito pouco.
Eu estou aqui, na beira do suicídio, certamente minha visão de mundo não é a melhor para buscar felicidade ou sabedoria. Então mesmo que eu esteja certo, é algo ridículo, porque não é como se eu pudesse dar conselhos ou compartilhar minhas opiniões.
No mais, nem eu, nem meus genes, nem minhas idéias vão sobreviver, então eu estou claramente do lado errado da história.
Então é isso, eu acho. Pelo menos até onde esse mundo é considerado (e esse mundo é o único que vale a pena ser considerado), a não-existência completa é o caminho mesmo, já que nem na memória eu vou sobreviver.
E eu gosto disso.
Me dói a idéia da minha morte causar sofrimento, mas talvez tenha que ser tipo um band-aid, sabe? Se eu definhar aos poucos nesse marasmo e alguém aí se importar comigo (oi mãe!), então eu vou só causando um sofrimento contínuo enquanto sobrevivo. Pelo menos morrendo de uma vez e logo, as pessoas terão tempo para superar e em algum momento de suas vidas, eu vou finalmente deixar de ser um sofrimento e virar só mais uma história sem nenhuma moral em particular.
Aí esquecido.
Aí o nada.
sábado, abril 11, 2009
Battlestar Galactica
SPOILERS!
Eu vou falar de série, spoilers do primeiro ao último episódio. Estão avisados.
-
Eu passei a última semana assistindo Battlestar Galactica. Vi o primeiro episódio tipo, há duas semanas atrás e o último anteontem. Foi uma maratona obsessiva e cansativa e eu sinto ter perdido a oportunidade de ter acompanhado a série semana a semana.
É uma série que todo mundo comenta e por bom motivo. Ela tem essa qualidade especial de séries de ficção científica de comentar eventos atuais usando um ponto de vista externo. Uma sociedade com problema similares, mas diferentes o bastante para definitivamente não serem os nossos problemas e, portanto, permitir um julgamento ao mesmo tempo em que julga a nossa.
-
Então eu vou por tópicos.
As duas últimas temporadas
Eu acho que essa série sempre vai ser importante pra mim e eu não queria admitir isso que vou admitir agora, mas acho que eu só suportei as duas últimas temporadas por amor às três primeiras.
No momento em que os cinco últimos cylons são revelados, as coisas nunca foram muito boas.
Eu vou falar mais sobre os cinco Cylons finais abaixo, mas talvez seja uma preferência minha. Embora eu sempre estive muito aberto e adorei cada conflito interno dos Cylons (o díalogo do Cavil com Ellen Tight é, pra mim, um dos pontos altos de toda a série), se tornou meio bobo pra mim como de repente a série se tornou mais sobre eles do que sobre humanos. A sobrevivência da humanidade sempre foi um ponto alto da série pra mim. O respeito pelas pequenas coisas, pelas hierarquias e tradições de uma civilização que não existem mais, sempre foram pontos altos pra mim. De repente, se tornou cada vez mais o drama dos últimos 5 Cylons.
Estou exagerando? De qualquer modo.
O último episódio
Por algum motivo de metodologia, eu talvez devesse comentar o último episódio só depois de comentar os personagens, mas eu vou assumir que as duas ou três pessoas que lerem isso daqui assistiram a série.
O excelente excelente site avclub, que traz os melhores resenhistas de séries de tv (por se assemelharem mais ao norte-americano médio que se importa com os personagens ao invés de geeks doentes por continuidade) trouxe na resenha do último episódio da série a introdução:
"A pergunta que a série se coloca é se a humanidade merece sobreviver. A resposta é sim, se nós formos bonzinhos com nossos robôs".
Agora, certamente isso é uma provocação. A mensagem do último episódio não pode ser ASSIM tão superficial como "se um dia vocês desenvolverem inteligência artificial não escravizem as máquinas", não de uma série que constantemente perguntava explicitamente qual a essência de nossa humanidade, de nossa civilização, de nossa nobreza, de nossos costumes, de nossa legislação, etc.
Mas enquanto ele ia dissecando o episódio, eu percebi porque gosto tanto daquele site, como eu disse, são pessoas simples e não super-geeks, mas são pessoas simples e inteligentes.
A moral deveria ser o que Apollo diz: Que deveríamos desenvolver nossas almas no mesmo passo em que desenvolvemos nossa tecnologia. Mas em algum ponto o último episódio mostra isso?
A resenha toca em outro ponto muito bom. A humanidade no momento que o último episódio começa está no fundo do poço. Eles não tem esperança de onde ir ou do que fazer. Estão não só sem propósito, como que é uma questão de tempo até alguma das dificuldades letais não conseguirem ser superadas.
Sem objetivo, sem confiança em deuses ou homens, almirante Adama realiza o que é um gesto de virilidade e nobreza suicida, os últimos dois sentimentos que ele é capaz de realizar.
Os Cylons realizaram o holocausto da humanidade, mataram quase metade dos sobreviventes. Agora, quando nossas esperanças e sonhos já estão esmagados, eles vêm e sequestram uma garotinha. A filha dos dois pilotos mais simpáticos e dedicados da tropa. As duas pessoas (um humano e um Cylon) com o coração mais puro e a dedicação mais incansável.
Os filhos da puta seqüestraram a filha desses dois exemplos do melhor que há tanto na humanidade quanto na "Cylonidade" e pelos deuses, se a humanidade vai ser extinta, pelo menos nós vamos mostrar que somos machos e salvar essa garotinha.
Pode parecer que não, mas eu adoro isso, eu adoro a noção que, tudo perdido, ao menos temos nossa coragem.
Então a primeira parte do especial de 2 horas que foi o último episódio é excelente.
Eles entram na colônia Cylon.
Humanos, Cylons rebeldes e centuriões com livre-arbítrio enfrentam uma batalha impossível e os dois malditos que iniciaram todo esse pesadelo: Baltar e Caprica Six, provavelmente o oposto do nosso "casal do bem" (Helo e Athena), trazem a garotinha nos braços para dentro do nosso amado CIC.
Coisas acontecem, a última Battlestar do universo recebe sua última barragem de artilharia.
Starbuck tem uma última epifania: usar a música de Hera como coordenadas.
Eles saltam.
Eis a Terra.
Não aquela Terra das profecias de Pythia. A grande esperança que acabou por se tornar a grande desilusão.
Mas a nossa Terra. A nossa grande esperança que muitas vezes se torna nossa grande desilusão.
É engraçado como reconhecemos o planeta Terra de longe pela África. É o berço da humanidade, afinal de contas. Mas não há como escapar de hipocrisia que é olhar para o continente Africano e dizer "olha! É a nossa África!"
Damos tanto valor para a África quando somos 30.000 humanos vivendo há 5 anos de algas e dormindo em frias naves espaciais sem ter o que fazer senão se deprimir e se revoltar, mas quando somos 6 bilhões vivendo no planeta, é o lugar que mais facilmente esquecemos.
A África é a luxúria da humanidade.
"Se um dia nós tivermos o tempo, juro que vamos lá resolver o problema daquela gente".
-
Continuando.
A partir daí, os meus sentimentos em relação ao episódio são mistos.
Colocar a Terra de verdade põe problemas sérios:
Se a Terra é colocada, implica-se que é a nossa, logo, que ou o presente que o público de sua história vive existe, já existiu ou vai existir.
Eles escolhem nos colocar no passado, isso força o escritor a criar uma justificativa de porque nós não temos indícios arqueológicos de Raptors e Battlestars?
A justificativa é essa:
A humanidade decide não fazer uma cidade, não colonizar o planeta formalmente, ao invés disso vão abdicar a tecnologia, se espalhar pelo globo, jogar as naves no sol e viverem como agricultores se reproduzindo com os nativos.
O meu problema com esse final é que ele joga fora a moral da série: que nossa alma deveria se desenvolver junto com nossa tecnologia.
No episódio do julgamento de Baltar, Apollo disse uma das coisas mais importantes e interessantes da série:
Nós não somos mais uma civilização, nós somos uma gangue. Um monte de pessoas cometeram crimes e foram perdoados porque a situação de toda a humanidade ser composta por algumas dezenas de milhares de pessoas fugindo em naves espaciais é tão asburda e tão única que não há regras sobre como agir nesse caso, que eles vão inventando enquanto prosseguem.
E quando chega no final, bom, eles podem recuperar isso, eles podem deixar de ser uma gangue que perdoa assassinos porque tal cara é um puta de um engenheiro e tal cara é um puta de um piloto e nós não podemos sacrificar esses talentos.
E agora eles têm Cylons ao lado. Eles podem incluir os Cylons na sua civilização (o que eles já fizeram de qualquer forma) e garantir que dessa vez vão fazer correto. Que não vão tratá-los como escravos, que não vão se tornar consumistas desenfreados, que não vão construir armas nucleares.
Eles aprenderam suas lições à custos altíssimos e podem colocá-las em prática, finalmente, sua alma e sua tecnologia podem estar no mesmo nível.
Ao invés disso, o escritor precisa justificar que isso é o passado da humanidade.
O que me parece mais incrível não é nem que esse povo sacrificou prédios e naves estelares. Faz sentido querer uma existência mais agricultural depois de terem passado os últimos anos basicamente em prisões comendo alga processada. Faz especial sentido garantir primeiro a comida e as pequenas coisas da vida e depois buscarem carros e refrigerantes.
O que não faz sentido é eles não escreverem histórias. É eles não contarem suas viagens pros seus filhos.
Tudo bem que a civilização grega só vai acontecer 146 mil anos depois do ocorrido e uma porção de coisas acontecem nesses 146 mil anos, mas o problema é que o episódio dá a entender que eles queriam deixar tudo pra trás.
Se é pra só pra esquecer e procriar. Valeu mesmo a pena essa viagem que eles passaram? No fim, sua civilização não sobreviveu, o que sobreviveu foram 30.000 indivíduos espalhados aleatoriamente pelo globo.
Soa vazio pra mim.
-
Sinceramente, ao invés de um Spin-off chamado "Caprica", eles poderiam aproveitar que 150.000 anos é um puta dum tempo e fazer um Spin-off da nova civilização na terra 10.000 anos depois do ocorrido em Battlestar Galactica, mas blé, quem sou eu?
-
E numa nota mais pessoal, o único medo da Starbuck, literalmente um anjo de Deus, é concretizado.
Ela não quer ser esquecida.
Ela desaparece e Apollo diz: "Você não será esquecida, Kara Thrace".
Mas isso é mentira, ela é esquecida, Apollo lembra dela, mas eventualmente ele morre e como não há mais civilização pra contar histórias, não só Kara Thrace é esquecida, como também sua coragem, determinação, bom humor, lealdade e todas as qualidades que fazem dela alguém tão especial.
A vida, morte e ressurreição de Kara Thrace é uma história que a humanidade deveria contar enquanto existe. Mas se todos estão em cabanas colhendo tomate porque os livros foram enviados ao centro do sol. Essa história é esquecida.
-
Dito isso, é óbvio que esse final doeu.
Eu não queria que a série acabasse.
Ver o túmulo de Laura Roslin doeu.
Ver a última vez em que o Almirante Adama e Starbuck trocam seu diálogo esquisito me fez chorar demais:
- Starbuck, what do you hear?
- Nothing but the rain, sir.
- Then take your guns and bring back the cat.
Doeu ouvir isso e saber que foi a última vez.
Doeu Apollo olhar para o lado e ver que Deus levou seu anjo de volta.
Doeu ver Sam navegando em direção ao sol, conectado à Física e Matemática como ele sempre buscou.
Doeu ver Saul e Ellen finalmente experimentando uma vida juntos.
Doeu ver essas resoluções e isso mostra o quão eu profundamente amava esses personagens e no fim, eu fico feliz que Kara Thrace teve a paz que buscou, que Apollo provavelmente viveu uma vida emocionante escalando montanhas, que Bill Adama provavelmente construiu uma cabana onde viveu solitariamente seus últimos anos, que Saul e Ellen viveram felizes, que Helo e Athena e Hera viveram felizes.
Enfim, no fim é injusto dizer que as coisas deram errado só porque a civilização caiu embora as pessoas tenham vivido felizes, mas ainda assim. Eles precisavam mesmo abdicar de suas lições junto com sua tecnologia?
De novo, eu entendo até abdicar da tecnologia, mas em algum lugar alguém poderia ter escrito: "Não construam armas nucleares. Não achem que são desenvolvidos só porque seus robôs pensam enquanto vocês vivem vidas tristes".
-
E no fim, 150.000 anos depois, nós vemos uma montagem de robôs japoneses parecidos cada vez mais com humanos e os outros dois anjos comentando: "Será que repetirão os mesmos erros?"
E isso me soou o mais estúpido. Será que nós vamos repetir? Nós repetimos!
A única coisa que ainda não fizemos é escravizar máquinas pensantes.
Uma coisa que sempre fez Battlestar Galactica tão forte e intenso é a pergunta que Bill Adama faz no começo da série, antes do ataque Cylon:
"A humanidade merece sobreviver?"
Tanta coisa aconteceu e continuamos a nos matar por inveja e ganância. A humanidade merece sobreviver?
E se a medida é o quão parecidos nós somos com essas bilhões de pessoas que foram explodidas pelas suas máquinas pensantes, então a série se torna esse vazio cuja única moral é "seja bonzinho com a inteligência artificial" porque cada pecado de Caprica nós cometemos. Se eles não mereceram sobreviver, então nem nós.
É esse o problema desse final sem uma civilização capaz de contar histórias e transmitir os ensinamentos adquiridos dos erros passados.
Toda a moral da série é quebrar o ciclo: É que "tudo o que aconteceu antes", finalmente, não aconteça de novo.
E o "Anjo Seis" dizendo para o "Anjo Baltar" que ela "aposta" que dessa vez o ciclo será quebrado está só sendo estúpida. Esses dias a Coréia do Norte começou a fazer uns perigosíssimos testes com armas nucleares.
Nós estamos em um nível tão ridículo na relação Alma/Tecnologia que sequer precisamos criar máquinas inteligentes para nos exterminar, nós estamos dando conta do recado muito bem sozinhos, obrigado.
Tudo porque alguém esqueceu de escrever numa parede que armas nucleares são más.
Que ao menos desenvolvamos tecnologia de salto antes de nos explodirmos.
=
Bom, o post está longo já.
Um dia eu escrevo sobre os personagens (talvez).
Eu vou falar de série, spoilers do primeiro ao último episódio. Estão avisados.
-
Eu passei a última semana assistindo Battlestar Galactica. Vi o primeiro episódio tipo, há duas semanas atrás e o último anteontem. Foi uma maratona obsessiva e cansativa e eu sinto ter perdido a oportunidade de ter acompanhado a série semana a semana.
É uma série que todo mundo comenta e por bom motivo. Ela tem essa qualidade especial de séries de ficção científica de comentar eventos atuais usando um ponto de vista externo. Uma sociedade com problema similares, mas diferentes o bastante para definitivamente não serem os nossos problemas e, portanto, permitir um julgamento ao mesmo tempo em que julga a nossa.
-
Então eu vou por tópicos.
As duas últimas temporadas
Eu acho que essa série sempre vai ser importante pra mim e eu não queria admitir isso que vou admitir agora, mas acho que eu só suportei as duas últimas temporadas por amor às três primeiras.
No momento em que os cinco últimos cylons são revelados, as coisas nunca foram muito boas.
Eu vou falar mais sobre os cinco Cylons finais abaixo, mas talvez seja uma preferência minha. Embora eu sempre estive muito aberto e adorei cada conflito interno dos Cylons (o díalogo do Cavil com Ellen Tight é, pra mim, um dos pontos altos de toda a série), se tornou meio bobo pra mim como de repente a série se tornou mais sobre eles do que sobre humanos. A sobrevivência da humanidade sempre foi um ponto alto da série pra mim. O respeito pelas pequenas coisas, pelas hierarquias e tradições de uma civilização que não existem mais, sempre foram pontos altos pra mim. De repente, se tornou cada vez mais o drama dos últimos 5 Cylons.
Estou exagerando? De qualquer modo.
O último episódio
Por algum motivo de metodologia, eu talvez devesse comentar o último episódio só depois de comentar os personagens, mas eu vou assumir que as duas ou três pessoas que lerem isso daqui assistiram a série.
O excelente excelente site avclub, que traz os melhores resenhistas de séries de tv (por se assemelharem mais ao norte-americano médio que se importa com os personagens ao invés de geeks doentes por continuidade) trouxe na resenha do último episódio da série a introdução:
"A pergunta que a série se coloca é se a humanidade merece sobreviver. A resposta é sim, se nós formos bonzinhos com nossos robôs".
Agora, certamente isso é uma provocação. A mensagem do último episódio não pode ser ASSIM tão superficial como "se um dia vocês desenvolverem inteligência artificial não escravizem as máquinas", não de uma série que constantemente perguntava explicitamente qual a essência de nossa humanidade, de nossa civilização, de nossa nobreza, de nossos costumes, de nossa legislação, etc.
Mas enquanto ele ia dissecando o episódio, eu percebi porque gosto tanto daquele site, como eu disse, são pessoas simples e não super-geeks, mas são pessoas simples e inteligentes.
A moral deveria ser o que Apollo diz: Que deveríamos desenvolver nossas almas no mesmo passo em que desenvolvemos nossa tecnologia. Mas em algum ponto o último episódio mostra isso?
A resenha toca em outro ponto muito bom. A humanidade no momento que o último episódio começa está no fundo do poço. Eles não tem esperança de onde ir ou do que fazer. Estão não só sem propósito, como que é uma questão de tempo até alguma das dificuldades letais não conseguirem ser superadas.
Sem objetivo, sem confiança em deuses ou homens, almirante Adama realiza o que é um gesto de virilidade e nobreza suicida, os últimos dois sentimentos que ele é capaz de realizar.
Os Cylons realizaram o holocausto da humanidade, mataram quase metade dos sobreviventes. Agora, quando nossas esperanças e sonhos já estão esmagados, eles vêm e sequestram uma garotinha. A filha dos dois pilotos mais simpáticos e dedicados da tropa. As duas pessoas (um humano e um Cylon) com o coração mais puro e a dedicação mais incansável.
Os filhos da puta seqüestraram a filha desses dois exemplos do melhor que há tanto na humanidade quanto na "Cylonidade" e pelos deuses, se a humanidade vai ser extinta, pelo menos nós vamos mostrar que somos machos e salvar essa garotinha.
Pode parecer que não, mas eu adoro isso, eu adoro a noção que, tudo perdido, ao menos temos nossa coragem.
Então a primeira parte do especial de 2 horas que foi o último episódio é excelente.
Eles entram na colônia Cylon.
Humanos, Cylons rebeldes e centuriões com livre-arbítrio enfrentam uma batalha impossível e os dois malditos que iniciaram todo esse pesadelo: Baltar e Caprica Six, provavelmente o oposto do nosso "casal do bem" (Helo e Athena), trazem a garotinha nos braços para dentro do nosso amado CIC.
Coisas acontecem, a última Battlestar do universo recebe sua última barragem de artilharia.
Starbuck tem uma última epifania: usar a música de Hera como coordenadas.
Eles saltam.
Eis a Terra.
Não aquela Terra das profecias de Pythia. A grande esperança que acabou por se tornar a grande desilusão.
Mas a nossa Terra. A nossa grande esperança que muitas vezes se torna nossa grande desilusão.
É engraçado como reconhecemos o planeta Terra de longe pela África. É o berço da humanidade, afinal de contas. Mas não há como escapar de hipocrisia que é olhar para o continente Africano e dizer "olha! É a nossa África!"
Damos tanto valor para a África quando somos 30.000 humanos vivendo há 5 anos de algas e dormindo em frias naves espaciais sem ter o que fazer senão se deprimir e se revoltar, mas quando somos 6 bilhões vivendo no planeta, é o lugar que mais facilmente esquecemos.
A África é a luxúria da humanidade.
"Se um dia nós tivermos o tempo, juro que vamos lá resolver o problema daquela gente".
-
Continuando.
A partir daí, os meus sentimentos em relação ao episódio são mistos.
Colocar a Terra de verdade põe problemas sérios:
Se a Terra é colocada, implica-se que é a nossa, logo, que ou o presente que o público de sua história vive existe, já existiu ou vai existir.
Eles escolhem nos colocar no passado, isso força o escritor a criar uma justificativa de porque nós não temos indícios arqueológicos de Raptors e Battlestars?
A justificativa é essa:
A humanidade decide não fazer uma cidade, não colonizar o planeta formalmente, ao invés disso vão abdicar a tecnologia, se espalhar pelo globo, jogar as naves no sol e viverem como agricultores se reproduzindo com os nativos.
O meu problema com esse final é que ele joga fora a moral da série: que nossa alma deveria se desenvolver junto com nossa tecnologia.
No episódio do julgamento de Baltar, Apollo disse uma das coisas mais importantes e interessantes da série:
Nós não somos mais uma civilização, nós somos uma gangue. Um monte de pessoas cometeram crimes e foram perdoados porque a situação de toda a humanidade ser composta por algumas dezenas de milhares de pessoas fugindo em naves espaciais é tão asburda e tão única que não há regras sobre como agir nesse caso, que eles vão inventando enquanto prosseguem.
E quando chega no final, bom, eles podem recuperar isso, eles podem deixar de ser uma gangue que perdoa assassinos porque tal cara é um puta de um engenheiro e tal cara é um puta de um piloto e nós não podemos sacrificar esses talentos.
E agora eles têm Cylons ao lado. Eles podem incluir os Cylons na sua civilização (o que eles já fizeram de qualquer forma) e garantir que dessa vez vão fazer correto. Que não vão tratá-los como escravos, que não vão se tornar consumistas desenfreados, que não vão construir armas nucleares.
Eles aprenderam suas lições à custos altíssimos e podem colocá-las em prática, finalmente, sua alma e sua tecnologia podem estar no mesmo nível.
Ao invés disso, o escritor precisa justificar que isso é o passado da humanidade.
O que me parece mais incrível não é nem que esse povo sacrificou prédios e naves estelares. Faz sentido querer uma existência mais agricultural depois de terem passado os últimos anos basicamente em prisões comendo alga processada. Faz especial sentido garantir primeiro a comida e as pequenas coisas da vida e depois buscarem carros e refrigerantes.
O que não faz sentido é eles não escreverem histórias. É eles não contarem suas viagens pros seus filhos.
Tudo bem que a civilização grega só vai acontecer 146 mil anos depois do ocorrido e uma porção de coisas acontecem nesses 146 mil anos, mas o problema é que o episódio dá a entender que eles queriam deixar tudo pra trás.
Se é pra só pra esquecer e procriar. Valeu mesmo a pena essa viagem que eles passaram? No fim, sua civilização não sobreviveu, o que sobreviveu foram 30.000 indivíduos espalhados aleatoriamente pelo globo.
Soa vazio pra mim.
-
Sinceramente, ao invés de um Spin-off chamado "Caprica", eles poderiam aproveitar que 150.000 anos é um puta dum tempo e fazer um Spin-off da nova civilização na terra 10.000 anos depois do ocorrido em Battlestar Galactica, mas blé, quem sou eu?
-
E numa nota mais pessoal, o único medo da Starbuck, literalmente um anjo de Deus, é concretizado.
Ela não quer ser esquecida.
Ela desaparece e Apollo diz: "Você não será esquecida, Kara Thrace".
Mas isso é mentira, ela é esquecida, Apollo lembra dela, mas eventualmente ele morre e como não há mais civilização pra contar histórias, não só Kara Thrace é esquecida, como também sua coragem, determinação, bom humor, lealdade e todas as qualidades que fazem dela alguém tão especial.
A vida, morte e ressurreição de Kara Thrace é uma história que a humanidade deveria contar enquanto existe. Mas se todos estão em cabanas colhendo tomate porque os livros foram enviados ao centro do sol. Essa história é esquecida.
-
Dito isso, é óbvio que esse final doeu.
Eu não queria que a série acabasse.
Ver o túmulo de Laura Roslin doeu.
Ver a última vez em que o Almirante Adama e Starbuck trocam seu diálogo esquisito me fez chorar demais:
- Starbuck, what do you hear?
- Nothing but the rain, sir.
- Then take your guns and bring back the cat.
Doeu ouvir isso e saber que foi a última vez.
Doeu Apollo olhar para o lado e ver que Deus levou seu anjo de volta.
Doeu ver Sam navegando em direção ao sol, conectado à Física e Matemática como ele sempre buscou.
Doeu ver Saul e Ellen finalmente experimentando uma vida juntos.
Doeu ver essas resoluções e isso mostra o quão eu profundamente amava esses personagens e no fim, eu fico feliz que Kara Thrace teve a paz que buscou, que Apollo provavelmente viveu uma vida emocionante escalando montanhas, que Bill Adama provavelmente construiu uma cabana onde viveu solitariamente seus últimos anos, que Saul e Ellen viveram felizes, que Helo e Athena e Hera viveram felizes.
Enfim, no fim é injusto dizer que as coisas deram errado só porque a civilização caiu embora as pessoas tenham vivido felizes, mas ainda assim. Eles precisavam mesmo abdicar de suas lições junto com sua tecnologia?
De novo, eu entendo até abdicar da tecnologia, mas em algum lugar alguém poderia ter escrito: "Não construam armas nucleares. Não achem que são desenvolvidos só porque seus robôs pensam enquanto vocês vivem vidas tristes".
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E no fim, 150.000 anos depois, nós vemos uma montagem de robôs japoneses parecidos cada vez mais com humanos e os outros dois anjos comentando: "Será que repetirão os mesmos erros?"
E isso me soou o mais estúpido. Será que nós vamos repetir? Nós repetimos!
A única coisa que ainda não fizemos é escravizar máquinas pensantes.
Uma coisa que sempre fez Battlestar Galactica tão forte e intenso é a pergunta que Bill Adama faz no começo da série, antes do ataque Cylon:
"A humanidade merece sobreviver?"
Tanta coisa aconteceu e continuamos a nos matar por inveja e ganância. A humanidade merece sobreviver?
E se a medida é o quão parecidos nós somos com essas bilhões de pessoas que foram explodidas pelas suas máquinas pensantes, então a série se torna esse vazio cuja única moral é "seja bonzinho com a inteligência artificial" porque cada pecado de Caprica nós cometemos. Se eles não mereceram sobreviver, então nem nós.
É esse o problema desse final sem uma civilização capaz de contar histórias e transmitir os ensinamentos adquiridos dos erros passados.
Toda a moral da série é quebrar o ciclo: É que "tudo o que aconteceu antes", finalmente, não aconteça de novo.
E o "Anjo Seis" dizendo para o "Anjo Baltar" que ela "aposta" que dessa vez o ciclo será quebrado está só sendo estúpida. Esses dias a Coréia do Norte começou a fazer uns perigosíssimos testes com armas nucleares.
Nós estamos em um nível tão ridículo na relação Alma/Tecnologia que sequer precisamos criar máquinas inteligentes para nos exterminar, nós estamos dando conta do recado muito bem sozinhos, obrigado.
Tudo porque alguém esqueceu de escrever numa parede que armas nucleares são más.
Que ao menos desenvolvamos tecnologia de salto antes de nos explodirmos.
=
Bom, o post está longo já.
Um dia eu escrevo sobre os personagens (talvez).
sábado, abril 04, 2009
Sobre a morte e vida de coisas muito importantes.
Nada demora tanto pra morrer quanto uma metafísica.
E é sempre uma vitória quando alguma finalmente morre.
E é sempre uma vitória quando alguma finalmente morre.
domingo, março 29, 2009
Sobre a hora do planeta e gestos pequenos demais.
Mais óbvias do que o fato da maioria das pessoas não quererem aderir a hora do planeta, que eu acho uma boa idéia (e já explico), são as pessoas rirem de quem aderiu e se empoleirarem em um pedestal dizendo o quão burros e imbecis são essas pessoas que desperdiçaram uma hora de suas vidas elétricas por algo que não muda nada.
Pra começar, todo e qualquer gesto individual é pequeno. Argumentar que você não apagar as luzes da sua casa durante uma hora não muda nada ou que você deixar de comer carne não diminui o sofrimento dos animais vai na mesma linha dos argumentos de que o seu voto não muda nada, que a sua audiência não vale nada pra televisão, que você comprar ou deixar de comprar um produto não afeta em nada a empresa.
Bom, os políticos e publicitários discordam, pois estão o tempo todo querendo conseguir o *seu* voto e o tempo todo querendo que *você* consuma seus produtos, etc.
Esse tipo de pensamento é um vício da nossa maneira moderna de pensar. De um lado existe EU e lá do outro lado, bem distante, sem nenhuma relação comigo, existe esse oceano de coisas (que também chamamos de pessoas) que de modo misterioso polui o planeta, consome carne, vota em políticos e compra produtos.
No pouco tempo que sou vegetariano (um ano? Um ano e meio?) eu vou percebendo que o argumento de que o meu consumo não muda em nada é besteira. O meu consumo é um consumo em algum restaurante vegan, o meu consumo é um consumo em comida vegetariana de uma corporação alimentícia (e a Sadia não tem dinheiro infinito, se ela está criando um congelado de hamburguer de soja, ela está deixando de criar um congelado de hamburguer bovino) e toda vez que eu como (o que esperemos pra saúde do Rodrigo que aconteça todo dia) eu estou enviando uma mensagem pro mercado dizendo: menos um hamburguer bovino, mais um hamburguer de soja; menos coxinha, mais um pão de batata de requeijão.
Isso completamente altera o modo como a produção de carne é realizada? Claro que não. Mas é como indivíduos conseguem utilizar o cotidiano para expôr seus ideais. As pessoas que fazem o mercado são indivíduos pensantes e que compram de acordo com sua ética. O modo como o mercado compreende o que produzir mais e o que produzir menos é de acordo com o consumo de tais indivíduos.
*O primeiro passo* a se tomar em relação a qualquer coisa que você acredite, é avisar o mercado.
Se você não consegue dar esse primeiro e minúsculo passo (com minúsculas consequências, mas, ainda assim, com consequências), então não me venha dizer que você não faz tal coisa porque "não resolve nada". Se você não faz um ato pequeno, você não vai fazer um grande.
Você quer me dizer que não tem a capacidade de passar uma hora de um dia com a luz desligada, mas que está disposto a fazer algo grandioso pelo meio ambiente?
Ninguém pediu para você apoiar o protocolo de kyoto ou para apoiar o Greenpeace ou qualquer coisa que envolve questões políticas complicadas. O lance foi simples:
Desligar as luzes durante uma hora.
E é por isso que coisas do tipo "hora do planeta", assim como se tornar vegetariano e usar menos o carro e whatever são gestos tão bons de fazer. Essas não envolvem debate, não envolvem grandes sacrifícios, não envolvem ficar tentando converter ninguém, não envolvem o senado, suas posições acerca de capitalismo ou socialismo, etc.
O que os gestos pequenos fazem é uma pergunta simples: Você considera tal ideal mais importante do que a recompensa de ir contra ele?
Você considera comer carne mais importante do que acabar com o sofrimento animal?
Você considera uma hora de energia elétrica mais importante do que reduzir a poluição?
Você considera ter um carro mais importante do que reduzir a poluição?
Se não, então tudo bem, é sua opinião.
Se sim, então faça o ato, você não está se juntando a uma causa, culto, seita; ninguém vai te pedir para ir protestar com uma faixa na frente de lugar nenhum, você só vai desligar a luz da sua casa durante uma hora.
E se sim, mas você acha que o gesto é pequeno demais, então deixe de ser hipócrita e covarde. Ou você admite que tal coisa não é importante pra você, que, afinal, você não se importa se os animais estão sofrendo ou se existe poluição demais ou você ao menos admite que está fazendo coisas que considera erradas, que você é fraco demais para uma mudança simples e quase insignificante de comportamento.
De novo, se você não é capaz de manter as luzes da sua casa apagadas durante uma hora, que é um gesto praticamente irrelevante, então não vem fingir pra mim que você é secretamente um guerreiro do meio ambiente que vai no fim de semana pra China resgatar pandas. Você é simplesmente um sujeito que dá tão pouca importância pra questão ambiental que uma hora de luz apagada é um preço alto demais a ser pago por tal questão. E se essa é sua opinião, então é sua opinião, mas que ao menos você tenha a decência de admiti-la ao invés de fingir que deixou a luz acesa porque se importa tanto com o meio ambiente que decidiu fazer um anti-protesto contra algo ineficiente.
Fazer gestos pequenos e cotidianos não soluciona de uma vez por todas nenhuma questão, mas o problema é mais embaixo, eu acredito que as pessoas se dedicam realmente a apenas alguma poucas questões na sua vida. Eu estudo filosofia e além de filosofia, eu faço poucas outras coisas, uma delas não é buscar uma solução para a crise energética.
Aí alguém refaz a pergunta, se eu não acho a questão ambiental tão importante a ponto de dedicar toda minha vida a questão ambiental. Aí eu digo que não, não acho assim tão importante.
Acho filosofia assim tão importante, é por isso que filosofia é o que eu faço.
Mas eu acho a questão ambiental importante o suficiente para me fazer vegetariano, para que eu não tenha um carro, para que durante a hora do planeta eu apague a luz. A importância dos gestos pequenos está em permitir que ninguém deixe de viver por causa deles, está em exatamente permitir que você contribua com a solução de um problema no seu cotidiano, enquanto você caminha por qualquer caminho que você tenha escolhido na sua vida.
Eu acho sim que existe uma grande indústria voltada a convencer às pessoas que elas são ativistas enquanto elas não fazem nada, mas isso é relacionado a coisas que você exibe para os outros com orgulho ("Eu fui pra Cuba!" "Eu fiz esse fanzine!"), mas a grande sacada dos gestos pequenos é exatamente que você não é um ativista. Você é um ativista em qualquer coisa que você faça da sua vida, mas se existe essa causa que você simpatiza, que você considera importante, mas não a ponto de você abandonar toda sua vida para colaborar com ela, a solução é exatamente realizar alguma pequena alteração no seu cotidiano. Nisso você envia uma mensagem para o mercado que a partir de agora quem te quiser como consumidor vai ter que concordar com você em relação a essa causa.
Isso não vai resolver o problema, mas ajuda um pouco, pois o mercado vai responder um pouco e aí você pode dizer sinceramente que, dado que você dedica sua vida prioritariamente a outras coisas, que nessa causa específica você está fazendo sua parte.
Pra começar, todo e qualquer gesto individual é pequeno. Argumentar que você não apagar as luzes da sua casa durante uma hora não muda nada ou que você deixar de comer carne não diminui o sofrimento dos animais vai na mesma linha dos argumentos de que o seu voto não muda nada, que a sua audiência não vale nada pra televisão, que você comprar ou deixar de comprar um produto não afeta em nada a empresa.
Bom, os políticos e publicitários discordam, pois estão o tempo todo querendo conseguir o *seu* voto e o tempo todo querendo que *você* consuma seus produtos, etc.
Esse tipo de pensamento é um vício da nossa maneira moderna de pensar. De um lado existe EU e lá do outro lado, bem distante, sem nenhuma relação comigo, existe esse oceano de coisas (que também chamamos de pessoas) que de modo misterioso polui o planeta, consome carne, vota em políticos e compra produtos.
No pouco tempo que sou vegetariano (um ano? Um ano e meio?) eu vou percebendo que o argumento de que o meu consumo não muda em nada é besteira. O meu consumo é um consumo em algum restaurante vegan, o meu consumo é um consumo em comida vegetariana de uma corporação alimentícia (e a Sadia não tem dinheiro infinito, se ela está criando um congelado de hamburguer de soja, ela está deixando de criar um congelado de hamburguer bovino) e toda vez que eu como (o que esperemos pra saúde do Rodrigo que aconteça todo dia) eu estou enviando uma mensagem pro mercado dizendo: menos um hamburguer bovino, mais um hamburguer de soja; menos coxinha, mais um pão de batata de requeijão.
Isso completamente altera o modo como a produção de carne é realizada? Claro que não. Mas é como indivíduos conseguem utilizar o cotidiano para expôr seus ideais. As pessoas que fazem o mercado são indivíduos pensantes e que compram de acordo com sua ética. O modo como o mercado compreende o que produzir mais e o que produzir menos é de acordo com o consumo de tais indivíduos.
*O primeiro passo* a se tomar em relação a qualquer coisa que você acredite, é avisar o mercado.
Se você não consegue dar esse primeiro e minúsculo passo (com minúsculas consequências, mas, ainda assim, com consequências), então não me venha dizer que você não faz tal coisa porque "não resolve nada". Se você não faz um ato pequeno, você não vai fazer um grande.
Você quer me dizer que não tem a capacidade de passar uma hora de um dia com a luz desligada, mas que está disposto a fazer algo grandioso pelo meio ambiente?
Ninguém pediu para você apoiar o protocolo de kyoto ou para apoiar o Greenpeace ou qualquer coisa que envolve questões políticas complicadas. O lance foi simples:
Desligar as luzes durante uma hora.
E é por isso que coisas do tipo "hora do planeta", assim como se tornar vegetariano e usar menos o carro e whatever são gestos tão bons de fazer. Essas não envolvem debate, não envolvem grandes sacrifícios, não envolvem ficar tentando converter ninguém, não envolvem o senado, suas posições acerca de capitalismo ou socialismo, etc.
O que os gestos pequenos fazem é uma pergunta simples: Você considera tal ideal mais importante do que a recompensa de ir contra ele?
Você considera comer carne mais importante do que acabar com o sofrimento animal?
Você considera uma hora de energia elétrica mais importante do que reduzir a poluição?
Você considera ter um carro mais importante do que reduzir a poluição?
Se não, então tudo bem, é sua opinião.
Se sim, então faça o ato, você não está se juntando a uma causa, culto, seita; ninguém vai te pedir para ir protestar com uma faixa na frente de lugar nenhum, você só vai desligar a luz da sua casa durante uma hora.
E se sim, mas você acha que o gesto é pequeno demais, então deixe de ser hipócrita e covarde. Ou você admite que tal coisa não é importante pra você, que, afinal, você não se importa se os animais estão sofrendo ou se existe poluição demais ou você ao menos admite que está fazendo coisas que considera erradas, que você é fraco demais para uma mudança simples e quase insignificante de comportamento.
De novo, se você não é capaz de manter as luzes da sua casa apagadas durante uma hora, que é um gesto praticamente irrelevante, então não vem fingir pra mim que você é secretamente um guerreiro do meio ambiente que vai no fim de semana pra China resgatar pandas. Você é simplesmente um sujeito que dá tão pouca importância pra questão ambiental que uma hora de luz apagada é um preço alto demais a ser pago por tal questão. E se essa é sua opinião, então é sua opinião, mas que ao menos você tenha a decência de admiti-la ao invés de fingir que deixou a luz acesa porque se importa tanto com o meio ambiente que decidiu fazer um anti-protesto contra algo ineficiente.
Fazer gestos pequenos e cotidianos não soluciona de uma vez por todas nenhuma questão, mas o problema é mais embaixo, eu acredito que as pessoas se dedicam realmente a apenas alguma poucas questões na sua vida. Eu estudo filosofia e além de filosofia, eu faço poucas outras coisas, uma delas não é buscar uma solução para a crise energética.
Aí alguém refaz a pergunta, se eu não acho a questão ambiental tão importante a ponto de dedicar toda minha vida a questão ambiental. Aí eu digo que não, não acho assim tão importante.
Acho filosofia assim tão importante, é por isso que filosofia é o que eu faço.
Mas eu acho a questão ambiental importante o suficiente para me fazer vegetariano, para que eu não tenha um carro, para que durante a hora do planeta eu apague a luz. A importância dos gestos pequenos está em permitir que ninguém deixe de viver por causa deles, está em exatamente permitir que você contribua com a solução de um problema no seu cotidiano, enquanto você caminha por qualquer caminho que você tenha escolhido na sua vida.
Eu acho sim que existe uma grande indústria voltada a convencer às pessoas que elas são ativistas enquanto elas não fazem nada, mas isso é relacionado a coisas que você exibe para os outros com orgulho ("Eu fui pra Cuba!" "Eu fiz esse fanzine!"), mas a grande sacada dos gestos pequenos é exatamente que você não é um ativista. Você é um ativista em qualquer coisa que você faça da sua vida, mas se existe essa causa que você simpatiza, que você considera importante, mas não a ponto de você abandonar toda sua vida para colaborar com ela, a solução é exatamente realizar alguma pequena alteração no seu cotidiano. Nisso você envia uma mensagem para o mercado que a partir de agora quem te quiser como consumidor vai ter que concordar com você em relação a essa causa.
Isso não vai resolver o problema, mas ajuda um pouco, pois o mercado vai responder um pouco e aí você pode dizer sinceramente que, dado que você dedica sua vida prioritariamente a outras coisas, que nessa causa específica você está fazendo sua parte.
segunda-feira, março 16, 2009
Top 50 Twee Youtube Music Videos
(Fixing it!)
Come! Come!
It is a great afternoon with our super pop heroes!
Self-rules. Fan-videos and fan-made movie soundtracks are ok because they are teh awesome, but no live shows recorded with cell phones, no still pictures and no random photo slides (photo slides are ok if the photos are pretty and not just random band photos). Also, no Los Campesinos. Don´t like the main dude´s hair.
I will allow myself one exception to each rule just so I can have a nice neurotic excuse to post Puzzle Pieces by Tiger Trap.
And I´m writing in english despiste the rest of the blog being in portuguese because talking to the whole world is the only way to find one good soul who enjoys Twee (brazilians do not like Twee, that´s a fact. Also, our president don´t like Obama's cucumber)
=
#50 Speedmarket Avenue - Way Better Now
I´m not that totally sure that Speedmarket Avenue is Indie Pop and it is even more probable that they are not twee, so I´ll just leave it here on the last spot because I like this band so much. (in my defense, it does have a boy/girl duo, which is pretty twee and it is a good way to welcome new faces to the genre, because I can make them hope that the other 49 videos are this user-friendly).
Actually, watching the video now, I am seeing a lot of twee stuff. That blouse the dude wear and the girl riding the little zebra stuff. Yeah, Twee as fuck, baby.
#49 The Special Places - How To Stuff A Wild Bikini
This is a kind of a Tullycraft Cover (I say "kind of" because The Special Places are Tullycraft members). I´m putting this on the last positions because it breaks my "non-poorly recorded live videos" rules. But I would so incredibly love to see this version on a recorded album. It is just so cute.
#48 Another Sunny Day - I´m In Love With a Girl
Ok, maybe I shoulnd´t have made this a "top list" since I am getting guilty with all the meritocracy, every music here is so great. And this is another one that I´m putting on the last ones just because it isn´t really a video, just the album cover with a cool effect on it, but man, this is one of my favorite songs.
#47 Tiger Trap - Puzzle Pieces
Great. Last one that isn´t actually a video. Now I will have to actually start thinking about which video is better. Aw.
But hey, screw that, look how great is this song! Tiger Trap is one of the best bands of all the time, if some evil witch would turn all the bands in the world into Tiger Trap cover bands, it would suck a little, but I think I would still start an orkut community saying how much I love the evil witch.
#46 Luisa Mandou Um Beijo - Bauhaus Today
Luisa Mandou Um Beijo is a really good brazilian band. Probably the only brazilian band I regularly listen. I think this video is kinda too artsy too me, but listen to the voice of the singer. Also, as far as I know, the band didn´t knew there was actually a band called "Bauhaus", so they made up this ficticious band "Bauhaus Today" that the protagonist of the song would hear when at home. Pretty neat, really.
#45 Tullycraft - Georgette Plays a Goth
Another Tullycraft song. Tullycraft is just so good with their female background. And I keep thinking how much I would love to find a goth waitress. Yeah, that would be great.
#44 Saturday Looks Good To Me - Money In The Afterlife
How much I like this band totally depends on how I wake up. Today I woke up with them at #44.
But this song have some really good moments on it and I´m glad that I found a musical genre that I like so much that a band this good is the one that I sometimes don´t have patiente to listen to.
#43 Death Cab For Cutie - The Sound Of Settling
If there is this division between Twee and Indie pop, then Death Cab for Cutie is on the wrong side of it, but it is so cute, so I will just hate the haters. Look at them! Just look at them! Aren´t they just adorable?
#42 La Casa Azul - Superguay
I have no idea what a Superguay is, but is there any possible way to not fall in love with this band? *sigh* so much beautiful people on this world.
#41 The Vaselines - Dying For It
Vaselines is that band that made covers of Nirvana even before Nirvana existed, that´s how much Nirvana fans they are.
Actually, it is a shame that they have so few songs, Kurt Cobain was fucking on the spot for enjoying this band so much. How a guy can kill himself by listening to the vaselines? It is insane. Even if the song is called "Dying for it"... ok.
#40 Dressy Bessy - You Should Try To Kiss Her
Hey, funny story, Dressy Bessy used to be on this spot, but on the related videos I found out this and I just liked them so much and so I´m putting it here. Also, at first I thought "But I´m a Cheerleader" was the band name and I thought "what a clever name" and now I realize it is the movie, and LOOK AT THIS! IT IS FUCKING DRESSY BESSY! Oh, I love the world. Right now I want so much to watch this movie.
#39 Camera Obscura - I Love My Jeans
One of my favorite bands of all the times. I am so obsessed with this voice that if I could become a super villain that collects people´s voices I would probably go after this one depriving the world from her awesome songs but having it all to me! Me! ME! And then some super hero would kick my ass. =(
#38 The Pastels - Crawl Babies
And here it is our first C86 band. C86 was a NME cassette compilation when NME was a bunch of communists instead of the cool kids they are today. Anyway, C86 was the tape that got the whole twee genre started. It was about punk rock bands that didn´t have the punk rock aesthetic or macho attitude. In other words, it was punk for those of us who aren´t idiots.
Anyway, what can I say? The Pastels are awesome, look at how the vocalist has that look that the pussy in boots have on Shrek 2. Also, consider that the origin of this thing is really punk 79, how great it is that normal looking kids listened to punk and decided to write cute love songs? I think it says something very important about these movements and the definition of rebellion.
#37 Heavenly - Trophy Girlfriend
Heavenly wasn´t IN the C86 compilation, but the spirit is pretty much it. Heavenly is also one of my favorite bands. They have another song more ahead on this list. Meh, I´m running out of things to say. I just like this a lot. Also ahead on the list is Talulah Gosh. Heavenly is actually half Talulah Gosh if I´m not mistaken.
#36 Velocity Girl - Audrey´s Eyes
Velocity Girl got their name, obviously, from the Primal Scream song. But you already knew that, don´t you? Also, look at how this is a very 90s band unlike the Pastels and Heavenly. The difference, I think, is that being alternative is something more mainstream and so they look a lot less weird by making this kinds of music.
#35 The Brunettes - B.A.B.Y
Since we are doing a timeline stuff, I thought it was fit to put The Brunettes here. Just to make a comparison. Nowadays thre isn´t really something we can call "alternative". Not that this is bad, I like A LOT the fact that it is easy to find good songs. It is all pop anyway, the difference is that these guys don´t have money to play on the radio. Now they don´t need money to play on the radio, so we can be pop all we like. Also, boy/girl duo! S2!
#34 Club 8 - Whatever You Want
I don´t know if I like this video, but this band is excelent. Her voice is incredible. I usually joke that I only listen music from girls that don´t know how to sing, but this is a very good singer.
#33 The Wedding Present - You Should Always Keep In Touch With Your Friends
They look just so happy. *sigh* I´m jealous.
#32 Zucchines - Imaginary Friend, Vol. 1
I think they are brazilian too. Anyway, very cute, very lo-fi, I wonder what happened to this band. I think they have a clear potential to be one of the best twee bands around. This song have a really good sense of momentum... or something.
#31 The Pains Of Being Pure At Heart - Everything With You
My fear about them is that they try too hard to emulate C86 stuff, but it is undeniable how good they sound. In a way, it is a good that their album was released in 2009 and they look like something from 1989, even if it does sound a little fake, it is, again, very good music and it is good to like a band that you can actually hope to go to a show.
#30 The Vaselines - Molly´s Lips
Again, Kurt Cobain was on the spot for enjoying this band and I very much like Nirvana´s version of this song. This is one of their best songs. Kudos to Kurt for making this so famous. And this don´t look much like a video, but I think it is a cool simple way of making a vinyl song available for us technological people.
#29 Marine Girls - A Place In The Sun
This is one great band that is annoyingly hard to find songs. For situations like this that I like that the whole alternative/mainstream line is vanishing. I like Marine Girls so much! And look how "punky" looks one of them and not even that can make them not make cute songs. Twee is a such a powerful force on the universe.
#28 The Apples In Stereo - Tidal Wave
The Apples In Stereo are a rare example of twee band that actually is lasting and has created fans outside the genre, but you know, it have its ups and downs.
#27 Architecure In Helsinki - Do The Whirlwind
Architecture In Helsinki are one of the most creative bands out there and one of the great examples of the whole Twee premisse that being artistic doesn´t mean being gloomy and being pop doesn´t mean being shallow. We can do everything. We are that cool.
#26 The Go! Team - Junior Kickstart
Still on the whole "artistic doesn´t mean gloomy", The Go! Team is a musical achievement, I belive. The fact that stuff like this is even possible, blows my mind. Also, pacman! <3 style="font-weight:bold;">#25 The Shop Assistants - I Don't Want To Be Friends With You
Another C86 band with everything awesome that comes with it. This is probably my favorite from the original C86 compilation! It has this great Blondie´s first album feel.
#24 The All Girl Summer Fun Band - Car Trouble
The All Girl Summer Fun Band is one of the bestestestest bands of the whooooole wide world. I wish they had more videos! Just listens to this! He broke her heart and her car won´t start! I mean... I mean... I mean... aw man!
And the drummer looks like an ex-girlfriend.
#23 Husky Rescue - Hurricane (Don´t Come Knocking)
I´m not sure if Husky Rescue belongs to this list (and yeah! There is more of them ahead!), but these songs are great and beautiful and lo-fi and oohh, pretty pictures! And cute voice! And again, this song is just so beautiful.
#22 Tullycraft - Molly´s Got A Crush On Us
Are you ready for more Tullycraft? Aren´t we all just always ready for more Tullycraft? And this video is really great, with all that beautiful people drinking and having fun and Tullycraft always gets it right on the Lyrics. They are kind of our side that makes fun of people. I mean, it is a genre about broken hearts and cute people, we don´t have much opportunity to make fun of people.
#21 Camera Obscura - If Looks Could Kill
Hum, a lot of bands will start repeating now. Oh well, if you got this far, you are already in love with the thing? But I´m still saving the best for last. And yeah, there is one more Camera Obscura ahead! Her voice is just that beutiful.
#20 Vivian Girls - Tell The World
Apparently the Vivian Girls are famous. I for one don´t understand why at all. Anyway, I like them a lot, I read somewhere that My Bloody Valentine was influenced by Twee, well, we´re getting some of that influence back, thank you very much kind sirs. :) (I like My Bloddy Valentine too, but they definetly don´t belong here. Oh well, Vivian Girls surely do). And this videoclip is just hilarious. Watch it to the end!
#19 Luisa Mandou Um Beijo - Julia
For those gringos out there. This song has a very cute lyrics, goes something along the way: "Wake up late, Julia, you never remembers that one day I will arrive bringing the sun".
Very cute song, really. And the photo montage is a college work, I think. Very well done people.
#18 Theoretical Girl - The Boy I Left Behind
You know, for a genre that is supposed to be so tied to the 80s, it is amazing that this is one of my favorite songs. But what can I say? It is really that good. I don´t even know if Theoretical Girl has her album out yet. When I heard this the first time, it was totally on myspace. Great Rose Melberg feel. And every time I get sad the first urge I have is to find a show like this, you know? Girl, acoustic guitar, very very beautiful songs.
#17 The Brunettes - If You Were An Alien
Yeah, so, talking about girls, acoustic stuff and beautiful songs. Also has a boy in it. The Brunettes kinda of makes me bissexual, but I would only do them both at the same time. Yep, that´s my rules.
#16 La Casa Azul - Como Un Fan
Another La Casa Azul, now, a Fan I know what it is, because I´m totally one. :,)
By the way, this song have very very very good lyrics.
#14 Rose Melberg - Take Some Time
Rose Melberg is one of the most important names on this list, if not THE most important. Every band she makes, it is a icon of everything we love about Twee.
She was in Tiger Trap, in Go Sailor, in The Softies and now look at this! Her solo career is also great.
And this is one song that much like The Softies, you have to let it grow. It doesn´t have that instant impact of pop songs, so do yourself a favor and if it looks too slow or whatever, just hang in there, this is one of the most beautiful songs I ever heard.
#13 The Go! Team - Ladyflash
It´s been too long since the last The Go! Team? Not really, right? Great band! This is actually the song I was referring to when I said that it blows my mind to think it is even possible. I don´t even want to begin to think how they recorded all this.
#12 Au Revoir Simone - Fallen Snow
This videoclip is so Twee that I think it will explode... you know, in an explosion of open fields and flowers. It is actually a very beautiful video and the song is also very very good.
#11 Husky Rescue - Summertime Cowboy
Again, not sure if they belong on this list, but watch the video! There´s totally a twee vibe in an ET cowboy!
#10 Architecture In Helsinki - Wishbone
Oh boy, the top 10!
Anyway, this is a very cute song by Architecture In Helsinki. It is a band that takes a lot of riscks and it pays off most of the times! This song is great!
#9 Talulah Gosh - Bringing Up Baby
I just realized Amelia Fletcher is 3 times on the top 10. And just look at the beggining of this video! Makes me want to watch this movie and I´m really not into the whole old movie thing.
By the way, Talulah Gosh was not IN C86, but they are so much the embodiment of the genre that people often makes that confusion. It is really hard to think about twee without Talulah Gosh, it just makes sense to think that they are everywhere.
And I cannot find the lyrics of this song, but someone on the Youtube comments say the chorus is: "Sweetens her tea with jam / takes 5 baths a day / bringing up baby!"
#8 Vivian Girls - Where Do You Run To
If you don´t completely fall in love with them on the chorus, then you sir, yes, you, are not a good person. Oh, according to the guy who uploaded this, this video is from another band that, aham, "blows".
This song really shows their shoegaze and noise influences, but it is twee baby, soooo twee.
Really, it´s not noisy enough to be noise.
#7 Beat Happening - Pine Box Derby
Beat Happening is supposedly the band that took Twee to america, but I think it is very different from the rest. It is different from any band I ever heard don´t matter the genre. They are one of the icons! One of the best! They should be remembered not only on Twee lists, they should be remembered everywhere! Just listen to this! I mean, cmon! Listen to this!
#6 Camera Obscura - Let´s Get Out Of This Country
You are not tired of Camera Obscura, right? It is impossible to be tired of Camera Obscura. And this song totally relates to me, I mean, living in Brazil and stuff. And this song is just what Camera Obscura is all about. It is this cute sadness, it is nice and warm and just slightly melancholic.
It is about finding a cathedral city where we can live and feel at home. This can´t be wrong. It is maybe one of the most noble feeling of this world. It is a little thing, but it is gigantic. Searching for home is always hard.
#5 Velocity Girl - Crazy Town
Velocity Girl at its best. This band has a great garage feel without losing all the cuteness. And it has a very underground feel without stop being all poppy and catchy. It is what twee is all about. Do it yourself, but without losing your soft side on the process.
#4 The All Girl Summer Fun Band - Later Operator
When I began this list, I thought this would end up on first. It really makes me feel that the whole genre was created just for these two girls and that making home videos dancing happy to the songs are waaaay more important then, I don´t know, making top lists. I just get this feeling that these two girls deserve the all girl summer fun band much more than me, but I am happy that the magic of the internets allow them to share it with me.
#3 Heavenly - Our Love Is Heavenly
Just a great example of what Twee is all about. It is just one of those songs that you can hear it over and over and over again for days (I know I have). It has all that innocence and no cinicism or no excuse for being yourself and really REALLY being yourself, not like, dressing like you are in an army of apathy and shouting at your mum that she doesn´t understand you.
My mum understand me, it´s my friends who doesn´t. =P
#2 Beat Happening - Indian Summer
It is said that this is the most covered twee song of all the time. I heard, I dunno, 3 or 4 versions, but this is always the best. His voice is the best and no one can cover it. This song is just great and it has this atmosphere of a lazy sunny afternoon.
#1 Talulah Gosh - Talulah Gosh
Again, this band is everything the genre is. It is kind of dorky and nerdy and I mean, watch the All Girl Summer Fun video that was about the two sisters doing a home video to a song they like and this one, a "professional" video for a "professional" band and it is the same thing!! Talulah Gosh gets it. It is all about being happy. And the lyrics, oh, look at the lyrics. It is about deceiving itself either. It is about believing you are a pop star, but knowing you are just someone who is jumping around the house. Oh, and you can lie to everyone, but please, please don´t lie to me.
Come! Come!
It is a great afternoon with our super pop heroes!
Self-rules. Fan-videos and fan-made movie soundtracks are ok because they are teh awesome, but no live shows recorded with cell phones, no still pictures and no random photo slides (photo slides are ok if the photos are pretty and not just random band photos). Also, no Los Campesinos. Don´t like the main dude´s hair.
I will allow myself one exception to each rule just so I can have a nice neurotic excuse to post Puzzle Pieces by Tiger Trap.
And I´m writing in english despiste the rest of the blog being in portuguese because talking to the whole world is the only way to find one good soul who enjoys Twee (brazilians do not like Twee, that´s a fact. Also, our president don´t like Obama's cucumber)
=
#50 Speedmarket Avenue - Way Better Now
I´m not that totally sure that Speedmarket Avenue is Indie Pop and it is even more probable that they are not twee, so I´ll just leave it here on the last spot because I like this band so much. (in my defense, it does have a boy/girl duo, which is pretty twee and it is a good way to welcome new faces to the genre, because I can make them hope that the other 49 videos are this user-friendly).
Actually, watching the video now, I am seeing a lot of twee stuff. That blouse the dude wear and the girl riding the little zebra stuff. Yeah, Twee as fuck, baby.
#49 The Special Places - How To Stuff A Wild Bikini
This is a kind of a Tullycraft Cover (I say "kind of" because The Special Places are Tullycraft members). I´m putting this on the last positions because it breaks my "non-poorly recorded live videos" rules. But I would so incredibly love to see this version on a recorded album. It is just so cute.
#48 Another Sunny Day - I´m In Love With a Girl
Ok, maybe I shoulnd´t have made this a "top list" since I am getting guilty with all the meritocracy, every music here is so great. And this is another one that I´m putting on the last ones just because it isn´t really a video, just the album cover with a cool effect on it, but man, this is one of my favorite songs.
#47 Tiger Trap - Puzzle Pieces
Great. Last one that isn´t actually a video. Now I will have to actually start thinking about which video is better. Aw.
But hey, screw that, look how great is this song! Tiger Trap is one of the best bands of all the time, if some evil witch would turn all the bands in the world into Tiger Trap cover bands, it would suck a little, but I think I would still start an orkut community saying how much I love the evil witch.
#46 Luisa Mandou Um Beijo - Bauhaus Today
Luisa Mandou Um Beijo is a really good brazilian band. Probably the only brazilian band I regularly listen. I think this video is kinda too artsy too me, but listen to the voice of the singer. Also, as far as I know, the band didn´t knew there was actually a band called "Bauhaus", so they made up this ficticious band "Bauhaus Today" that the protagonist of the song would hear when at home. Pretty neat, really.
#45 Tullycraft - Georgette Plays a Goth
Another Tullycraft song. Tullycraft is just so good with their female background. And I keep thinking how much I would love to find a goth waitress. Yeah, that would be great.
#44 Saturday Looks Good To Me - Money In The Afterlife
How much I like this band totally depends on how I wake up. Today I woke up with them at #44.
But this song have some really good moments on it and I´m glad that I found a musical genre that I like so much that a band this good is the one that I sometimes don´t have patiente to listen to.
#43 Death Cab For Cutie - The Sound Of Settling
If there is this division between Twee and Indie pop, then Death Cab for Cutie is on the wrong side of it, but it is so cute, so I will just hate the haters. Look at them! Just look at them! Aren´t they just adorable?
#42 La Casa Azul - Superguay
I have no idea what a Superguay is, but is there any possible way to not fall in love with this band? *sigh* so much beautiful people on this world.
#41 The Vaselines - Dying For It
Vaselines is that band that made covers of Nirvana even before Nirvana existed, that´s how much Nirvana fans they are.
Actually, it is a shame that they have so few songs, Kurt Cobain was fucking on the spot for enjoying this band so much. How a guy can kill himself by listening to the vaselines? It is insane. Even if the song is called "Dying for it"... ok.
#40 Dressy Bessy - You Should Try To Kiss Her
Hey, funny story, Dressy Bessy used to be on this spot, but on the related videos I found out this and I just liked them so much and so I´m putting it here. Also, at first I thought "But I´m a Cheerleader" was the band name and I thought "what a clever name" and now I realize it is the movie, and LOOK AT THIS! IT IS FUCKING DRESSY BESSY! Oh, I love the world. Right now I want so much to watch this movie.
#39 Camera Obscura - I Love My Jeans
One of my favorite bands of all the times. I am so obsessed with this voice that if I could become a super villain that collects people´s voices I would probably go after this one depriving the world from her awesome songs but having it all to me! Me! ME! And then some super hero would kick my ass. =(
#38 The Pastels - Crawl Babies
And here it is our first C86 band. C86 was a NME cassette compilation when NME was a bunch of communists instead of the cool kids they are today. Anyway, C86 was the tape that got the whole twee genre started. It was about punk rock bands that didn´t have the punk rock aesthetic or macho attitude. In other words, it was punk for those of us who aren´t idiots.
Anyway, what can I say? The Pastels are awesome, look at how the vocalist has that look that the pussy in boots have on Shrek 2. Also, consider that the origin of this thing is really punk 79, how great it is that normal looking kids listened to punk and decided to write cute love songs? I think it says something very important about these movements and the definition of rebellion.
#37 Heavenly - Trophy Girlfriend
Heavenly wasn´t IN the C86 compilation, but the spirit is pretty much it. Heavenly is also one of my favorite bands. They have another song more ahead on this list. Meh, I´m running out of things to say. I just like this a lot. Also ahead on the list is Talulah Gosh. Heavenly is actually half Talulah Gosh if I´m not mistaken.
#36 Velocity Girl - Audrey´s Eyes
Velocity Girl got their name, obviously, from the Primal Scream song. But you already knew that, don´t you? Also, look at how this is a very 90s band unlike the Pastels and Heavenly. The difference, I think, is that being alternative is something more mainstream and so they look a lot less weird by making this kinds of music.
#35 The Brunettes - B.A.B.Y
Since we are doing a timeline stuff, I thought it was fit to put The Brunettes here. Just to make a comparison. Nowadays thre isn´t really something we can call "alternative". Not that this is bad, I like A LOT the fact that it is easy to find good songs. It is all pop anyway, the difference is that these guys don´t have money to play on the radio. Now they don´t need money to play on the radio, so we can be pop all we like. Also, boy/girl duo! S2!
#34 Club 8 - Whatever You Want
I don´t know if I like this video, but this band is excelent. Her voice is incredible. I usually joke that I only listen music from girls that don´t know how to sing, but this is a very good singer.
#33 The Wedding Present - You Should Always Keep In Touch With Your Friends
They look just so happy. *sigh* I´m jealous.
#32 Zucchines - Imaginary Friend, Vol. 1
I think they are brazilian too. Anyway, very cute, very lo-fi, I wonder what happened to this band. I think they have a clear potential to be one of the best twee bands around. This song have a really good sense of momentum... or something.
#31 The Pains Of Being Pure At Heart - Everything With You
My fear about them is that they try too hard to emulate C86 stuff, but it is undeniable how good they sound. In a way, it is a good that their album was released in 2009 and they look like something from 1989, even if it does sound a little fake, it is, again, very good music and it is good to like a band that you can actually hope to go to a show.
#30 The Vaselines - Molly´s Lips
Again, Kurt Cobain was on the spot for enjoying this band and I very much like Nirvana´s version of this song. This is one of their best songs. Kudos to Kurt for making this so famous. And this don´t look much like a video, but I think it is a cool simple way of making a vinyl song available for us technological people.
#29 Marine Girls - A Place In The Sun
This is one great band that is annoyingly hard to find songs. For situations like this that I like that the whole alternative/mainstream line is vanishing. I like Marine Girls so much! And look how "punky" looks one of them and not even that can make them not make cute songs. Twee is a such a powerful force on the universe.
#28 The Apples In Stereo - Tidal Wave
The Apples In Stereo are a rare example of twee band that actually is lasting and has created fans outside the genre, but you know, it have its ups and downs.
#27 Architecure In Helsinki - Do The Whirlwind
Architecture In Helsinki are one of the most creative bands out there and one of the great examples of the whole Twee premisse that being artistic doesn´t mean being gloomy and being pop doesn´t mean being shallow. We can do everything. We are that cool.
#26 The Go! Team - Junior Kickstart
Still on the whole "artistic doesn´t mean gloomy", The Go! Team is a musical achievement, I belive. The fact that stuff like this is even possible, blows my mind. Also, pacman! <3 style="font-weight:bold;">#25 The Shop Assistants - I Don't Want To Be Friends With You
Another C86 band with everything awesome that comes with it. This is probably my favorite from the original C86 compilation! It has this great Blondie´s first album feel.
#24 The All Girl Summer Fun Band - Car Trouble
The All Girl Summer Fun Band is one of the bestestestest bands of the whooooole wide world. I wish they had more videos! Just listens to this! He broke her heart and her car won´t start! I mean... I mean... I mean... aw man!
And the drummer looks like an ex-girlfriend.
#23 Husky Rescue - Hurricane (Don´t Come Knocking)
I´m not sure if Husky Rescue belongs to this list (and yeah! There is more of them ahead!), but these songs are great and beautiful and lo-fi and oohh, pretty pictures! And cute voice! And again, this song is just so beautiful.
#22 Tullycraft - Molly´s Got A Crush On Us
Are you ready for more Tullycraft? Aren´t we all just always ready for more Tullycraft? And this video is really great, with all that beautiful people drinking and having fun and Tullycraft always gets it right on the Lyrics. They are kind of our side that makes fun of people. I mean, it is a genre about broken hearts and cute people, we don´t have much opportunity to make fun of people.
#21 Camera Obscura - If Looks Could Kill
Hum, a lot of bands will start repeating now. Oh well, if you got this far, you are already in love with the thing? But I´m still saving the best for last. And yeah, there is one more Camera Obscura ahead! Her voice is just that beutiful.
#20 Vivian Girls - Tell The World
Apparently the Vivian Girls are famous. I for one don´t understand why at all. Anyway, I like them a lot, I read somewhere that My Bloody Valentine was influenced by Twee, well, we´re getting some of that influence back, thank you very much kind sirs. :) (I like My Bloddy Valentine too, but they definetly don´t belong here. Oh well, Vivian Girls surely do). And this videoclip is just hilarious. Watch it to the end!
#19 Luisa Mandou Um Beijo - Julia
For those gringos out there. This song has a very cute lyrics, goes something along the way: "Wake up late, Julia, you never remembers that one day I will arrive bringing the sun".
Very cute song, really. And the photo montage is a college work, I think. Very well done people.
#18 Theoretical Girl - The Boy I Left Behind
You know, for a genre that is supposed to be so tied to the 80s, it is amazing that this is one of my favorite songs. But what can I say? It is really that good. I don´t even know if Theoretical Girl has her album out yet. When I heard this the first time, it was totally on myspace. Great Rose Melberg feel. And every time I get sad the first urge I have is to find a show like this, you know? Girl, acoustic guitar, very very beautiful songs.
#17 The Brunettes - If You Were An Alien
Yeah, so, talking about girls, acoustic stuff and beautiful songs. Also has a boy in it. The Brunettes kinda of makes me bissexual, but I would only do them both at the same time. Yep, that´s my rules.
#16 La Casa Azul - Como Un Fan
Another La Casa Azul, now, a Fan I know what it is, because I´m totally one. :,)
By the way, this song have very very very good lyrics.
#14 Rose Melberg - Take Some Time
Rose Melberg is one of the most important names on this list, if not THE most important. Every band she makes, it is a icon of everything we love about Twee.
She was in Tiger Trap, in Go Sailor, in The Softies and now look at this! Her solo career is also great.
And this is one song that much like The Softies, you have to let it grow. It doesn´t have that instant impact of pop songs, so do yourself a favor and if it looks too slow or whatever, just hang in there, this is one of the most beautiful songs I ever heard.
#13 The Go! Team - Ladyflash
It´s been too long since the last The Go! Team? Not really, right? Great band! This is actually the song I was referring to when I said that it blows my mind to think it is even possible. I don´t even want to begin to think how they recorded all this.
#12 Au Revoir Simone - Fallen Snow
This videoclip is so Twee that I think it will explode... you know, in an explosion of open fields and flowers. It is actually a very beautiful video and the song is also very very good.
#11 Husky Rescue - Summertime Cowboy
Again, not sure if they belong on this list, but watch the video! There´s totally a twee vibe in an ET cowboy!
#10 Architecture In Helsinki - Wishbone
Oh boy, the top 10!
Anyway, this is a very cute song by Architecture In Helsinki. It is a band that takes a lot of riscks and it pays off most of the times! This song is great!
#9 Talulah Gosh - Bringing Up Baby
I just realized Amelia Fletcher is 3 times on the top 10. And just look at the beggining of this video! Makes me want to watch this movie and I´m really not into the whole old movie thing.
By the way, Talulah Gosh was not IN C86, but they are so much the embodiment of the genre that people often makes that confusion. It is really hard to think about twee without Talulah Gosh, it just makes sense to think that they are everywhere.
And I cannot find the lyrics of this song, but someone on the Youtube comments say the chorus is: "Sweetens her tea with jam / takes 5 baths a day / bringing up baby!"
#8 Vivian Girls - Where Do You Run To
If you don´t completely fall in love with them on the chorus, then you sir, yes, you, are not a good person. Oh, according to the guy who uploaded this, this video is from another band that, aham, "blows".
This song really shows their shoegaze and noise influences, but it is twee baby, soooo twee.
Really, it´s not noisy enough to be noise.
#7 Beat Happening - Pine Box Derby
Beat Happening is supposedly the band that took Twee to america, but I think it is very different from the rest. It is different from any band I ever heard don´t matter the genre. They are one of the icons! One of the best! They should be remembered not only on Twee lists, they should be remembered everywhere! Just listen to this! I mean, cmon! Listen to this!
#6 Camera Obscura - Let´s Get Out Of This Country
You are not tired of Camera Obscura, right? It is impossible to be tired of Camera Obscura. And this song totally relates to me, I mean, living in Brazil and stuff. And this song is just what Camera Obscura is all about. It is this cute sadness, it is nice and warm and just slightly melancholic.
It is about finding a cathedral city where we can live and feel at home. This can´t be wrong. It is maybe one of the most noble feeling of this world. It is a little thing, but it is gigantic. Searching for home is always hard.
#5 Velocity Girl - Crazy Town
Velocity Girl at its best. This band has a great garage feel without losing all the cuteness. And it has a very underground feel without stop being all poppy and catchy. It is what twee is all about. Do it yourself, but without losing your soft side on the process.
#4 The All Girl Summer Fun Band - Later Operator
When I began this list, I thought this would end up on first. It really makes me feel that the whole genre was created just for these two girls and that making home videos dancing happy to the songs are waaaay more important then, I don´t know, making top lists. I just get this feeling that these two girls deserve the all girl summer fun band much more than me, but I am happy that the magic of the internets allow them to share it with me.
#3 Heavenly - Our Love Is Heavenly
Just a great example of what Twee is all about. It is just one of those songs that you can hear it over and over and over again for days (I know I have). It has all that innocence and no cinicism or no excuse for being yourself and really REALLY being yourself, not like, dressing like you are in an army of apathy and shouting at your mum that she doesn´t understand you.
My mum understand me, it´s my friends who doesn´t. =P
#2 Beat Happening - Indian Summer
It is said that this is the most covered twee song of all the time. I heard, I dunno, 3 or 4 versions, but this is always the best. His voice is the best and no one can cover it. This song is just great and it has this atmosphere of a lazy sunny afternoon.
#1 Talulah Gosh - Talulah Gosh
Again, this band is everything the genre is. It is kind of dorky and nerdy and I mean, watch the All Girl Summer Fun video that was about the two sisters doing a home video to a song they like and this one, a "professional" video for a "professional" band and it is the same thing!! Talulah Gosh gets it. It is all about being happy. And the lyrics, oh, look at the lyrics. It is about deceiving itself either. It is about believing you are a pop star, but knowing you are just someone who is jumping around the house. Oh, and you can lie to everyone, but please, please don´t lie to me.
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