sexta-feira, dezembro 05, 2008

Kree-Skrull War

Continuando minhas análises das sagas da Marvel.
Lembrando que logo no post abaixo está o torrent com esses gibis todos e é realmente melhor ler os gibis antes de ler o post.

Evento
Kree-Skrull War

Edições
Avengers #89-97

Análise
Passada em 1971, nós temos aqui um universo marvel razoavelmente bem estabelecido, cujos personagens tem histórias e com os diversos times de super-heróis (aqui, especialmente, os vingadores e o quarteto fantástico) dialogando entre si como se de fato fizessem parte do mesmo universo (em teoria sempre fazem, mas há de se convir que enquanto em um gibi, NY parece estar ameaçada, no outro, a ameaça sequer é citada, no fim, até hoje, mesmo em eventos, cada gibi é seu microcosmo e o máximo que podemos esperar é uma ilusão de interação entre eles).
Os vingadores, chegando na centésima edição, já passaram pelas suas inúmeras formações.
Lembrando que os membros fundadores são o Thor, a Vespa, o Homem-Formiga, o Homem de Ferro e o Hulk, o que encontramos na edição #89 é Mercúrio, a Feiticeira Escarlate e o Visão. Assume-se ainda que são membros o Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga (Hank Pym, agora Jaqueta Amarela), Vespa e Golias (Clint Barton, geralmente Gavião Arqueiro).
A capa é certamente chamativa e bem dentro da tradição da Marvel de atiçar sutilmente certas questões políticas, durante todo esse primeiro arco da guerra Kree-Skrull o tema serão os freaks do universo marvel.


O único BOM alien é um alien morto!
É chamativo, com certeza e, embora eu não seja o maior fã de Sal Buscema, ele passa bem a urgência da questão.
E a história começa com uma ótima narrativa, com um Capitão Marvel de sobretudo se esgueirando pelas sombras só para ser surpreendido por Mercúrio, Feiticeira Escarlate e Visão.
Um breve confronto depois onde os três são superados e Mar-Vell é atingido de surpresa... por Rick Jones


A narrativa aqui é inteira excelente no que o tiro parece realmente fazer um bom estrago e a situação é confusa o suficiente para que o flashback que vem adiante seja bem recebido.
Enquanto levam o inconsciente Capitão Marvel para uma localização desconhecida, Roy Thomas escreve uma de suas pequenas pérolas que dá o tom moral da série.
O Visão percebe alguma inquietude na Feiticeira Escarlate e pergunta qual o problema, no que ela responde:
"Eu estava somente pensando... esse homem é um alien... ilhado aqui vindo de uma estrela distante... enquanto Pietro e eu somos mutantes--não mais em casa na terra do que ele".
E Visão, o Andróide, não responde, pois percebe que ao menos eles têm memórias e sentimentos, enquanto ele sequer essas coisas possui.
Depois disso é história, coisas de história em quadrinhos, é revelado em flashback que o Capitão Marvel estava preso na zona negativa, onde ele conseguiu fugir, mas no meio-tempo absorveu radiação demais se tornando um risco, bla bla bla. Só uma desculpa razoavelmente elaborada para colocar os vingadores se encontrando com Mar-Vell.
Feito isso. Vamos para o Hana, o planeta principal dos Krees, onde Ronan, o Acusador, manda um sentinela para matar o capitão Mar-Vell, que desacordado, depende da proteção dos vingadores presentes.
Dessa batalha, que ocorre em Avengers #90, a única coisa de interessante é uma comparação entre a atuação do Mercúrio nessa edição e na edição passada.



Heh, bem patético.
Pro mercúrio, pra Roy Thomas (roteirista) e pra Sal Buscema (desenhista) já que a situação é a mesma.
Ele corre, correr por si só não é um super poder, o inimigo dá uma bofetada e ele voa longe gritando (notem como a expressão é exatamente a mesma). Provavelmente não fui o único que notei isso, mas fica pra depois.
Além disso, pela segunda vez a feiticeira escarlate se limita a anunciar seu poder, brilhar as mãozinhas, mas no final nada acontecer.
Anyway, eles acabam derrotado e no fim há uma troca de dialogo interessante entre o sentinela e o visão que, afinal, compartilham a característica de serem robôs.
O universo marvel então começa a já dar os primeiros sinais de uma continuidade longa no que duas páginas são gastas só pra contar coisas que aconteceram nos outros gibis e nos próprios vingadores no passado.
Após a exposição, sem saberem onde procurar o recém-capturado Capitão Marvel, eles recebem um chamado do Golias avisando que a Vespa e o Jaqueta Amarela estão em perigo na terra selvagem.
Em termos de narração, acho que o mais interessante dessa saga Kree-Skrull é isso: os problemas vão se acumulando, com eles os heróis, para aos poucos ser construído o cenário de que existem duas civilizações alienígenas distintas que querem a Terra.
Pois bem, chegando na terra selvagem, aquelas coincidências lindas.
Quem atacou os vingadores lá é, por coincidência, a mesma sentinela que havia os derrotado em um lugar totalmente não-relacionado, mais Ronan e, quem está preso lá é o Capitão Marvel, quem, por acaso, os vingadores procuravam descobrir onde estava.
Brigas, hipnoses, vingadores vs vingadores, bla bla blas depois e alguém repara que o Mercúrio anda apanhando demais, a ponto de seus poderes estarem postos em questão (e se o poder de um super-herói é inútil, ele pretty much pode ser considerado inútil também)


Pode não ser a coisa que faz mais sentido do mundo, mas é bom ver ele fazendo algo senão apanhar.
E nota pro dialogo: "Há os que pensam que minha velocidade é um poder inútil... um troque interessante para garoto de mensagem. Bem, vamos ver se ela pode ser mais que isso!"
Cara, isso é indiscutível, eles receberam uma porrada de carta dos fãs do Mercúrio dizendo que ele estava pateta demais e o Roy Thomas escreveu uma cena onde ele faz algo fantástico.
Mas ei, funcionou.
Por fim, em meio a batalha, a guerra é anunciada.


Tenho que dizer que essa página toda me impressiona. A batalha no seu auge, nenhum vencedor claro ainda aparece, quando uma mensagem chega a Ronan:
"A galaxia Kree... está em GUERRA!"
Imediatamente Ronan larga a batalha e vai embora.
O que eu achei muito interessante, é esse senso de que o universo é maior que o planeta terra.
A mensagem, de imediato, não captura a atenção dos heróis e nem teria porque capturar. Eles só querem sobreviver essa luta e, oras bolas, sobrevivem. Se um povo doido que quer matar eles entrou em guerra com outro povo doido que quer matar eles, tanto melhor, não é motivo para perder o sono.
No mais, a narrativa ficou interessante, a imediatez da questão. Ronan ouve a mensagem e logo entende que a ameaça dos Skrulls é maior que a dos humanos.


A edição seguinte mostra que a maldição dos personagens da marvel dificilmente se limita ao Homem-aranha.
Não importa quantas vezes o mundo é salvo, a vida pessoal dos participantes tende ao pior.
Essa edição é cheia de perólas. Sem nenhum inimigo a se bofetear, o vilão aqui é um senador, a justiça e a mídia.
Após terem finalmente resgatado Capitão Marvel, um dos homens que os vingadores resgataram da terra selvagem revela para a mídia que ele é um Kree, a mesma espécie que quis dominar o planeta terra.
O público se enche de fúria, os vingadores são considerados traidores e é demandado que Capitão Marvel seja preso pelo crime de pertencer à mesma espécie que os invasores.
O Kree Mar-Vell, os mutantes Pietro e Wanda, o andróide Visão e o humano Clint Barton e Rick Jones discutem a questão.
Pietro nem quer saber da possibilidade, já Clint Barton sugere que o melhor talvez seja entregá-lo para as autoridades e recebe a excelente resposta do visão.
"Se um homem dos Kree podem ser confinados sem nenhum motivo, então logo serão os andróides, aí os mutantes, então gigantes até que no fim os canhotos lutarão contra os destros até a morte"
Não é mero politicamente correto, não é propaganda liberal no gibi, é meramente sensato, porque um grupo de minorias entregaria alguém pra justiça apenas por este ser um alien?
Por fim, Carol Danvers (que virá a se tornar Ms. Marvel ironicamente) vem ao resgate de Mar-Vell e propõe que eles fujam para uma fazenda.
Nick Fury, comandante da SHIELD, os persegue, mas "falha".
Dungan pergunta o porque de ele ter utilizado uma formação tão solta e Nick Fury responde que viu os campos de concentração para japoneses nos EUA durante "the big one" e o que ele faz com os homens de ambos os lados da cerca.
"Então, eu não fiz isso por Marvel, eu fiz pela América".
Como eu disse, é uma edição cheia de coisas boas.
Rick Jones se recordando de como as coisas eram simples nos gibis que ele lia sobre a segunda guerra, mas que hoje em dia não dá pra distinguir bem de mal (isso em 1971), Mercúrio comentando que Capitão Marvel não terá um julgamento no tribunal porque a TV já deu seu veredito, os vingadores saindo da mansão enquanto a multidão grita para os mutantes voltarem de onde vieram e nada disso soa falso ou politicamente correto, tudo simplesmente faz sentido e é genuinamente revoltante quando gritam para o Mercúrio que ele é um mutante e deve voltar de onde veio. Sério, isso não se faz.
No fim, durante um julgamente, Rick Jones tem uma visão de que Capitão Marvel está em perigo e foge do tribunal. No fim, os heróis são liberados, mas ao chegarem na destruída mansão, encontram Capitão América, Thor e Homem de Ferro que debandam os vingadores e lamentam os heróis não terem entregado Mar-Vell para a justiça.
Injusto? Confuso? Claro, mas o universo marvel é isso mesmo. Heroísmo apesar da opinião pública mais facilmente maleável do universo.


Em Avengers #93 se inicia, propriamente dizendo, o arco da guerra Kree-Skrull, antes só citada em Avengers #91.
Após todo o problema com o Kree, é hora da terra ter problema com os Skrull.
E o ótimo costume de excelentes aberturas continua nessa edição com Capitão América, Thor e Homem de Ferro vendo um recém-expulso Visão adentrando enfraquecido os aposentos.
Nota que o desenho aqui é de Neal Adams e eu simplesmente prefiro ele umas 10.000 vezes mais que o Sal Buscema.
Algumas excelentes cenas de ação depois, há uma explicação muito meia-boca para o ocorrido na edição passada (os três vingadores admitem que erraram ao expulsar os outros ou eram impostores? Não ficou claro pra mim) vemos Capitão Marvel capturado pela décima segunda vez, dessa vez pelos Skrulls.
Lutas e tabefes depois, Capitão Marvel percebe que Carol Danvers é na verdade o Super Skrull, mas é derrotado por ele. Estando agora capturado pela décima quarta vez, dessa vez junto com Mercúrio e a Feiticeira Escarlate; Capitão Marvel está às mercês do Super Skrull que foge deixando os heróis derrotados e deprimidos pra trás.


É interessante aqui que o único que mantém algum otimismo é o Capitão América, mas Clint Barton sempre acaba sendo um tipo de antagonista moral dele. Os dois formam uma dupla tão boa na minha opinião.
Em Avengers #94, as frentes de batalha começam a se multiplicar. O Super Skrull ataca os inumanos, falha e logo é atacado ao chegar no próprio planeta já que o imperador Skrull o considera um exilado. Enquanto isso, na América, o fascismo rola solto, pessoas são torturadas e questionadas e logo um grupo de Andróides desenhados por Tony Stark com o propósito do governo ter um meio de parar os Vingadores são mandados contra eles.
Essa cena pra mim é emblemática. Tony Stark, dando uma de Batman capitalista, vende ao governo andróides desenhados especificamente para atacar os Vingadores "just in case". Obviamente, ele desenha para si próprio um meio de vencer os tais andróides (na forma de patins, yeah, nem vou comentar isso) e a luta fica equilibrada.
Em vista dos recentes acontecimentos, é interessante ver que Tony Stark desde sempre teve uma veia meio totalitária.
E como se não houvesse gente brigando entre si o bastante, no meio da batalha dos vingadores contra o governo, um ferido inumano aparece. De novo, eu acho brilhante o modo como as tramas vão se empilhando uma em cima da outra nessa saga.
Tendo que enfrentar o governo, salvar os heróis capturados e ajudar os inumanos, Avengers #95 é uma edição bem confusa.
Em princípio, eles claramente combinam que uma parte do grupo vai para o espaço com Thor enquanto outra vai para a California com o Capitão América.
Coisas acontecem e, afinal, o grupo que deveria ir para o espaço continua lutando na terra e misteriosamente se une ao outro grupo no final da edição.
O único evento importante dessa edição é Rick Jones sendo capturado pelos Kree que pretendiam recurtar os inumanos para sua guerra contra os Skrull.

Já Avengers #96, pra mim, é um puta exemplo de uma história bem contada.
A coisa mais importante de uma guerra intergalática é que *pareça* uma guerra, Neal Adams aqui é perfeito mostrando o Thor em guerra contra os Skrulls.


E no que os super-heróis se aproximam de salvar seus companheiros dos Skrulls, Rick Jones agora é prisioneiro dos Kree, no que a inteligência suprema dos Kree revela que os surtos de ódio do povo americano são uma influência dele com o objetivo de retomar a liderança de Ronan, o Acusador e que tudo o que houve, houve apenas para que Rick Jones estivesse lá.
Eu acho muito interessante a importância imensa de Rick Jones, o sidekick sem poderes, nessa saga.
Avengers #97 é basicamente sobre ele e o pequeno salto evolucionário que a inteligência suprema dos Kree o proporciona, algo que, diz ela, eventualmente, em incontáveis anos, estará disposta para todos os humanos.
E não há como não gostar do fato que o que salva o mundo é um garoto imaginando os heróis que lia nos gibis.


O que vem a seguir é a inteligência suprema utilizando seus poderes de Deus Ex Machina. Ela de alguma forma traz todos os heróis pro mesmo lugar, revela o tal senador fascista como sendo um Skrull disfarçado e liberta o senador verdadeiro que pede desculpas aos vingadores e quando achamos que tudo está bem, a edição termina com Thor constatando que quando todos os vingadores foram reunidos no mesmo lugar, um deles não estava presente. O golias, de algum modo, ficou pra trás.

Essa saga talvez seja bem melhor do que eu faço parecer aqui. Eu não abordei o relacionamento entre Feiticeira Escarlate e o pertubado Visão, tão convencido de que é um máquina sem sentimentos que não percebe que isso é um sentimento.
No fim, a história trata de todos os temas clássicos da Marvel.
O poder das pessoas comuns, a opinião pública facilmente maleável, a dificuldade das minorias e o heroísmo que é tão valioso justamente por não se importar com a ingratidão das pessoas quem você salva.
Roy Thomas é um roteirista competente, mas falta a ele uma certa sensibilidade do Stan Lee; acho que ele escreve os temas políticos melhor que Stan Lee, mas não é tão bom passando um senso de drama.
Os anos 70 são uma época em que fazer esse tipo de gibi é razoavelmente seguro. Os direitos civis são considerado algo bom, o Macarthismo aludido na saga algo ruim e a idéia de uma guerra entre dois povos onde somos pegos no meio é bem segura nesse momento em que o Vietnã é reconhecido como um desastre, não que a ligação aqui seja tão direta.
Mais do que história dos Estados Unidos, eu acho interessante onde isso se encaixa na história da Marvel. Nós temos claramente os personagens bem definidos aqui, note que ninguém de novo é introduzido, nenhum personagem importante surge pela primeira vez. O que temos são 300 personagens que já apareceram no passado contracenando em um universo onde todo mundo se conhece. Até o demolidor é mencionado em certo momento. Então há um esforço consciente da Marvel de dizer "olha, isso é UM universo". Como eu disse no começo, acho isso uma ilusão. Se acontecia antes é porque era mais fácil, o próprio Stan Lee diz que no começo era fácil ter um universo só porque eram poucos personagens e ele escrevia todos.
Bem, 1971 e já não são poucos personagens e já não é um escritor fazendo tudo, logo é perceptível que essas tentativas de integrar os universos são meio forçadas, mas temos um looongo caminho pela frente antes de ser tentado, pela primeira vez, um crossover entre vários gibis diferentes.
Stay tuned.

The Original Galactus Saga

Apesar da minha experiência frustrante com secret invasion, eu ainda assim me enchi de vontade de ler Marvel em expectativa de Dark Reign. Pesquisando, eu encontrei um torrent que, pra mim, foi um dos achados mais emocionantes que a internet já me proporcionou até hoje.
Marvel Major Event Chronology

13 GBs de gibis da marvel, começando com a primeira aparição de Galactus até Anihilation: Conquest.
Então eu decidi fazer uma análise desses eventos.
É importante notar que a maioria dessas resenhas serão sobre gibis lançados antes de eu ter nascido, logo, analisá-los como obras escritas "para mim" é impossível, eles são, em primeiro lugar, um problema histórico e, portanto, tentarei tratá-los como tal.
Na minha falta de experiência como historiador, tentarei fazer um trabalho de genealogia e hermenêutica também... não que eu saiba fazer direito nenhuma dessas coisas.
=

Evento
The Original Galactus Saga

Edições
Fantastic Four #48-50

Análise
Não preciso dizer o quanto Jack Kirby é um dos melhores desenhistas de super-heróis que há.
Eu tenho a mania boba de achar que respeitamos Kirby, Ditko e Lee mais pelo seu valor histórico e menos pela sua habilidade.
Comentando Steve Ditko rápido porque não veremos nenhum trabalho dele aqui, eu diria que seu pior inimigo eram os prazos, já que ele tem algumas poucas cenas por edição que são surpreendentes.
Jack Kirby é outra história, já que ele parece bem confortável com prazos.
Para os padrões de hoje, os rostos dele parecem levemente deformados, ao mesmo tempo, talvez por isso, ele passa emoções de uma maneira sincera e real de modo que eu acho difícil encontrar hoje.
A capa de de Fantastic Four #48:



Pra começar, eu adoro essa versão do Vigia. Mais parecido com um tipo de monge do que com um alien, com a cabeça bem mais proporcional ao corpo do que é apresentado nos dias de hoje. O vigia nessa história é alguém que claramente se preocupa e a capa mostra.
É engraçado que, até onde vão meus conhecimento, ele nunca sofreu as conseqüências de suas interferências, algo que deveria ser terminantemente proibido. Essa história é um exemplo de que não há bem uma definição do que se considera "interferir" aqui.
Logo atrás do vigia, se destacam o Quarteto Fantástico e a população de NY atrás deles.
É interessante notar que não há uma pessoa nessa cama que não demonstra medo, mas mesmo enquanto demonstra medo, Reed Richards abraça sua esposa de um modo protetor que eu acho muito bonito e o Coisa de Kirby é insuperável.

Uma coisa a se notar nessa história é o quanto ela é rápida.
A história se inicia com o Quarteto Fantástico e os Inumanos sendo atacados pelo que o narrador explica que é uma arma do Imperador Maximus desenhada para matar humanos apenas.
Logo na segunda página fica claro que muita coisa acontece por página, em parte, porque só não há mais dialogo e narração porque não caberia mais na página.
Então ele carrega muito essa coisa de quadrinho antigo que são os personagens ou o narrador descreverem o que acontecem na cena.
Um prédio está desmoronando e Reed fala: "Cuidado! Vai desmoronar", aí o prédio explode e alguém diz "Você estava certo! O prédio explodiu" e assim vai.
Após sobreviverem ao ataque, a história é uma história dos inumanos por um tempo. Pra isso queria chamar duas coisas.
Em primeiro lugar, o tabefe que o Raio Negro dá em Maximus no último quadro da página abaixo.


Eu achei a narrativa perfeita mesmo. O modo como ele olha frio em um quadrinho para no próximo dar um único golpe que claramente derrota seu inimigo é a típica cena que mostra o poder de um personagem que sabemos que exibe tal poder poucas vezes.
Em segundo lugar, o tema que parece ser tão querido de Stan Lee, a minoria preconceituosa que busca poder descobre que, afinal, a maioria não são os opressores que ele considerava.
É o tema clássico dos X-Men, mas ele é mostrado aqui da mesma forma.
O ataque que o quarteto sofre no começo deveria matar os humanos e apenas ferir os inumanos, mas o quarteto sobrevive, logo a conclusão de Medusa: "Ricards estava certo! Nós não somos os inimigos naturais dos humanos! Nós não somos inumanos! Somos os mesmos que eles!"
Eu acho essa fala muito boa, "nós não somos inumanos". Afinal, eles são tratados como inumanos até hoje.
Essa revista mostra que o objetivo dos inumanos, esse tempo todo, sempre foi se integrar a humanidade como normais. Eu nunca pensei nisso, é engraçado que eu fui completamente preconceituoso nesse ponto, pois eu sempre achei que essa gente esquisita morava na lua porque gostava, afinal, eles são uma gente esquisita. Triste erro meu, eles querem se integrar. Só não se sentem aceitos.
E o fato de que eles moram na lua até hoje mostra que ainda não se sentem aceitos. Talvez depois de ver a vida difícil dos mutantes.
Acho que isso tudo mostra o relacionamento difícil de um progressista médio da década de 60, ele quer se colocar ao lado das minorias, mas não consegue evitar aquele medo um pouco irracional de que essa gente diferente de nós está, de algum modo, ganhando poder demais e que eles precisam entender que são iguais e não melhores. O medo da segregação aqui é tão grande quanto o medo da ação afirmativa.
Por fim, o enlouquecido Maximus puxa uma alavanca, inicia uma barreira (uma "zona negativa", um conceito que hoje é completamente diferente e que jamais poderia ser usado dessa forma) que envolve a cidadela dos mutantes. Os segundos que demoram para a barreira se erguer são suficientes para que o quarteto escape, não sem que Johnny tenha que ser puxado a força já que isso significa perder Crystal, seu primeiro grande amor.
A cena que se segue é genuinamente comovente... e na mesma página. A primeira visão do surfista prateado EVER! Oh boy!


Como eu disse, os rostos levemente deformados de Kirby me incomodam algumas vezes, mas nos dois primeiros quadros dessa página, eu diria que Johnny e Reed estão melhores representados do que a maioria das vezes que os vi. Se alguém me disser que ele fez esse quadro olhando pra uma foto eu acreditaria. Johnny parece sinceramente frustrado e levemente desapontando enquanto Reed parece simplesmente triste. É uma cena poderosa.
Já a introdução do surfista é algo de interessante. Ele é tão alien que sequer teria um nome: "vamos chamá-lo de 'surfista prateado' na falta de um nome melhor" diz Stan Lee.

E aqui o exemplo da rapidez da história. A aventura termina em uma página. Johnny chora as consequências na página seguinte e logo na próxima, o quarteto nem chegou em casa ainda e os céus estão em chamas.
As cenas de pânico que dominam New York são ótimas e Stan Lee aqui está no seu melhor, se alguma coisa, Sue está histérica demais, mas é bom ver que dramalhão não é característica de gibis pretensamente adultos pós-frank miller no que Susan tem praticamente um colapso nervoso por estar sendo ignorada pelo seu marido enquanto um sempre simplório coisa pede pra ela se acalmar: "você sabe que ele te ama, ele só tem trabalho pra fazer".
Mas é interessante. Quantas donas de casa da década de 60 invadiriam o trabalho do marido com o dedinho na cara dele dizendo "me dê atenção! Eu sou um ser humano!", mas afinal, acaba sempre meio machista, no que ela é a mulher preocupada com suas coisas pequenas de mulher como higiene e jantar, enquanto os homens discutem coisas importantes e universais, até que um homem tem que pacientemente explicar pra mulher "olha, isso é mais importante que jantar".
Apesar disso, o Vigia está excelente na página abaixo. Pra mim é assim que um vigia devia ser, estou até um pouco "de mal" com aquele bicho magrelo com um cabeção que desenham hoje em dia.
E o talento de Kirby também para fazer formas geométricas aleatórias e fazê-las parecer máquinas alienigenas reais.


O resto é história: o surfista chega, manda o sinal para Galactus, é nocauteado pelo Coisa, mas tarde demais.
A primeira imagem abaixo genuinamente me assustou, eu demorei um tempo pra perceber que se tratava de parte do gibi e não uma propaganda ou algo do tipo. Ótima montagem.



Primeira aparição de Galactus! Ele parece bem menos ameaçador do que eu gostaria.
Por sorte o perigo da situação está bem estabelecido e essa imagem não é tão necessária para tal.
Mas a adoração desse blogueiro pela cor roxa agradece o uniforme de Galactus. É impressionante como um sujeito roxo e azul consegue, de qualquer modo, ser levado a sério assim.

A primeira cena da edição #49 é clara. É um exemplo da habilidade imensa de Kirby em passar emoções. Qual foi a última vez que você viu o quarteto fantástico com medo?
E é preciso apreciar também o letreiramento.
Excelente. Só isso. Excelente.


O que se segue é a típica, ainda que muito bem feita, história dos heróis contra um inimigo que não podem derrotar. Um por um eles atacam e um por um caem em combate.
Por fim, o Deus Ex Machina anunciado é uma arma secreta que existe na própria nave de Galactus.
Aqui é onde a restrição de Uatu em interferir nos eventos dos planetas que observa é estranha. Ele diz que o Tocha Humana tem que ir lá e pegar o tal aparelho porque ele não pode interferir, mas o mero fato de dizer que tal arma existe não é intereferência o bastante? Aparentemente, o Vigia pode fazer tudo menos ir lá e dar um tabefe em Galactus.
Não há tanto o que comentar nessa edição. É uma edição de ação do começo ao fim.
As batalhas são emocionantes, mas há de se pensar que se Galactus é tão poderoso, porque ele não mata os heróis de uma vez? Eu entendo que se somos comparados a insetos, primeiro você sopra o mosquito pra longe só pra ele parar de encher o saco antes de parar o que está fazendo pra caçar ele, mas se o mosquito está realmente irritando, então, oras bolas, eu dedico 5 minutos do meu tempo pra caçá-lo sim. Mas talvez seja só eu, de qualquer modo, nunca existe um confronto direto com Galactus.
Quando os heróis atacam, ele ignora e quando ele revida, nunca é atacando diretamente, ele joga uma bomba de gás, ele neutraliza as chamas do tocha, ele manda um servo atacar o quarteto e isso já dá trabalho o suficiente, mas parece que fica faltando ele de fato apontar pra alguém e atacar. Mesmo depois que o Coisa o nocauteia do prédio, ele simplesmente ignora e volta pra cima.
Por fim, o puro coração humano de Alicia Masters toca a alma fria do Surfista Prateado. É uma cena interessante, mas soa apressada.

A edição #50 eu acho interessante porque a capa diz: "A saga do surfista prateado! E finalmente! O Tocha Humana na faculdade!"
O cara derrota Galactus um dia e vai pra faculdade no seguinte. Isso é ótimo.


A batalha entre o Surfista Prateado e Galactus parece genuinamente ameaçadora. Os dois sim entram em guerra e dá pra perceber que seus poderes é algo que o Quarteto nem teria como enfrentar mesmo.


Por fim, o conflito termina com o Deus Ex Machina apresentado na história passado. O Tocha Humana acha uma arma capaz de destruir o universo e tudo que o Senhor Fantástico precisa fazer é dizer para Galactus "olha só o que eu tenho!"


Após o fim, Alicia Master, namorada do Coisa, corre na direção do surfista enquanto este vê impassivo perder a mulher que ama para alguém que sabe que é melhor que ele.
Pode ser experiências recentes, mas a expressão do Coisa é excelente. "Ele fala... como um poeta" é genuinamente de quebrar o coração.
"Encare, feio. Não é nem uma competição"... eu nem sei como comentar isso, é até meio doloroso.


E com essa dor no coração, eu encerro aqui.
Com meio gibi pela frente, o que resta é a vida de Johnny na faculdade. Ele é bonito, famoso e bem sucedido, mas viu o universo e o amor de sua vida está fora de seu alcance pra sempre. A pergunta aqui é interessante: Alguém que viajou pelos cosmos e passou por incontáveis aventuras consegue ter uma vida comum com experiências comuns?

A primeira saga da Marvel termina, ironicamente, de um modo que me incomoda como as atuais terminam. O mundo foi salvo, mas a conseqüência é longe de ser um final feliz.
O Coisa, que estava superando sua deformidade graças a namorada, agora se sente um monstro de novo e dá socos em parede amaldiçoando a si próprio. Reed Richards, após as aventuras cósmicas, está cada vez mais preso no seu próprio mundinho científico enquanto Sue se sente cada vez mais ignorada e impaciente. Por fim, o Tocha Humana se pergunta se é capaz de uma vida normal.
"Um estranho modo de terminar um conto?" pergunta Stan Lee
"Talvez! E ainda assim, talvez o único modo".

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Secret Invasion: o fim (spoilers)

Essas semanas, fui desapontado pelos únicos quadrinhos que li.
Batman e Secret Invasion.
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O primeiro, o fim da série "Batman: RIP", me desapontou porque eu estava absolutamente apaixonado pelo arco.
Cada peça, cada esquisitisse do Morrisson, o destino de cada personagem, era tudo tão perfeitamente construído, a arquitetura da história me conquistou. É o tipo de coisa que apenas o Grant Morrisson é capaz.
Aí veio a última edição... e foi simplesmente confusa e sem graça.
Foi frustante.
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O segundo, o fim da série "Secret Invasion", me desapontou não porque eu estava tão apaixonado, mas porque estava vendo "ah, é assim que se faz um 'evento'".
A história não foi perfeita, mas era uma ótima história de super-heróis. Com emoções, ótimas brigas, ótimas cenas.
...onde isso tudo estava no último episódio?
Os defeitos são tantos, que a cada página, céus, a cada quadro dá pra apontar o que foi feito de errado. Nunca vi um gibi funcionando tão mal.
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Teve apenas *um* quadro (juro) na história toda que eu não achei o mais completo pedaço de lixo.
Que é quando (eu avisei dos spoilers) Sue e Reed chegam no edifício Baxter e Johnny e Ben estão discutindo se o que eles devem apertar é o botão azul ou o vermelho e franklin diz um muito inocente "hi mommy".
Mas foi isso.
De resto... de novo, se for pra falar os defeitos de gibi eu ficaria aqui até amanhã.
Então vou só falar por cima o que há de mais grave.
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Bendis fez uma escolha muito bizarra pra esse gibi: ele é todo narrado.
Narração em gibi é uma coisa que tem que tomar muito cuidado. Ele aqui pegou a pior das narrações possíveis: dois personagens conversando em off explicando o que acontece pro leitor.
E o pior é o quão incapaz o desenho é de passar aquilo que foi dito em off.
Então, por exemplo, na edição passada, *alguma* coisa estava acontecendo com a vespa. Sabemos que ela foi infectada por algo e que isso está fazendo mal a todo mundo.
Então um dos participantes do dialogo narrado diz: "o que aconteceu?" e o outro responde "Thor aconteceu" e nós vemos Thor girando seu martelo.
Isso não me diz NADA!
Eu sei que num segundo os heróis estão em perigo, aí que o Thor girou o martelo e então não estavam mais.
O pior, nesse meio tempo a Vespa morre!
Uma das personagens mais clássicas da marvel, um membro fundador dos vingadores como dito na história, morre assim!
E porque? Como?
Porque "Thor aconteceu" e "Só havia um jeito de impedi-la".
Thor matou a vespa? Era isso que era pra eu entender?
A morte foi importante, mas nem um pouco dramática.
Ela foi triste, mas não me fez sentir triste.
Eu gosto da vespa, eu fico mal que ela morreu, mas a situação foi tão confusa!
O que eu tenho é alguém descrevendo de forma muito obscura a situação e um desenho que não me diz nada.
Pelo desenho, ela está muito machucada e caindo, aí o narrador diz "a morte dela foi trágica".
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Bom, após essas cenas patetas, a coisa só piora.
Os dois narradores continuam conversando e descrevendo.
Eles descrevem que o Ares derrubou uma nave sozinho (e isso não é mostrado nem de longe), descrevem que Tony Stark usou a tecnologia dele para ferrar a tecnologia dos aiens (de novo, a cena não mostra nada do tipo), descrevem uma porção de coisas enquanto as cenas mostram batalhas aleatórias. Por fim, eu não li um quadrinho, não pode dizer sequer que foi literatura ilustrada, foi um cara me contando o que aconteceu.
Foi tipo um blog com spoilers. Não é nada de diferente do que eu estou fazendo aqui. É só em modo de dialogo.
Um pergunta o que aconteceu e o outro responde que Tony Stark fez isso e Thor fez aquilo.
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Por fim, uma das coisas engraçadas de ler isso, é que eu achei esse gibi tão ruim, mas tão ruim, que nem as consequências que eu acho muito interessantes o ajudam.
De novo, é como se alguém tivesse me contando o fim de Secret Invasion e eu tivesse achando "nossa, essa idéia é boa", mas em nenhum momento eu me sinto lendo uma boa história.
Então vamos lá:
A Shield chega ao fim, Tony Stark é demitido do governo e possivelmente vai a falência já que ele virou o bode expiatório da história toda; Norman Osborn ganha controle da Shield (que eu não sei se vai existir ainda) e de todo o poder militar norte-americano, que agora é inteiramente controlado pelos Thunderbolts e no fim, numa cena que eu achei especialmente mal feita, nós vemos esse mesmo Norman Osborn, agora praticamente o homem mais poderoso do mundo, se reunindo com alguns personagens muito interessantes (Emma Frost, Namor, Dr. Destino, Hood e Loki) dizendo "ok, é assim que as coisas vão acontecer..."
Agora, eu acho isso ótimo. Fico meio assim de ver a Emma Frost "má" de novo, mas acho que uma aliança entre Namor e Dr. Destino uma das coisas que mais fazem sentido no mundo, por exemplo, e colocar o Loki na balança é quase como que a versão marvel de colocar o coringa na balança.
Enfim, depois da civil war, da world war hulk e agora da secret invasion, é ótimo ver que os vilões são os vilões de novo. Que a humanidade estará em perigo e aí vai ser uma boa e velha briga do bem vs o mal.
E o bem está fodido.
Norman Osborn tem controle de todo o poder militar, o Hood conseguiu unificar todos os criminosos, Namor tem atlantis, Emma Frost é segunda em comando nos X-Men e o Dr. Destino é o motherfucking Dr. Destino.
Os heróis, por outro lado... Thor está isolado do universo marvel não querendo se envolver em nada (embora Loki vai obrigá-lo a se envolver com certeza), o homem de ferro está falido, desacreditado e acredito que ele voltará a estar bêbado (com tudo de ruim que essa série de eventos trouxe pra ele, eu sei que qualquer alcoólatra voltaria a beber), os novos vingadores são os falidos de sempre, diferença é que agora Luke Cage (o líder, até onde se pode falar que os novos vingadores têm um líder) e Jessica Jones perderam seu bebê; a SHIELD, como dito, ou não existe ou está nas mãos do Osborn, sobra sempre Nick Fury, mas a sua arma secreta era a surpresa e agora ele não tem mais ela, já os poderosos vingadores, ou estarão respondendo a Osborn ou se tornarão tão renegados quanto os outros vingadores.
E no fim, onde está o Dr. Estranho? Eu vou chutar que é algo parecido com o que Bendis fez com o Nick Fury e ele está se preparando para se tornar uma arma secreta com o "Dark Reign", ainda mais que o Hood é aparentemente um peão muito eficiente de Dormammu
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Por fim, pode-se ver que a Marvel me enrolou mais uma vez e me entusiasmou bastante para seu novo evento, mas como que eu posso ter odiado tanto um gibi que causou esse entusiasmo?
Por causa do que eu já disse: o gibi não me contou essa história, ele me descreveu ela como eu estou descrevendo para vocês. Foi um péssimo gibi, mesmo que com coisas interessantes... e é assim que dá pra saber que o gibi é péssimo, pois ele continua péssimo mesmo que as ações demonstradass nele sejam interessantes.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Nathan Drake! OMFG!



E eu nem joguei o primeiro ainda. =(

Aliás, dizem que essa cena aí é renderizada em tempo real. O que significa que isso não é uma cutscene, mas que o jogo vai ter esses gráficos mesmo enquanto nós jogamos.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Troca de corpos

O portal de tecnologia do G1 é mestre em exagerar ao absurdo certas descobertas científicas para dar manchetes chamativas.
A que me chamou atenção hoje foi: "Experimento de realidade virtual faz voluntários 'trocarem' de corpo"
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É um experimento simples na verdade, põe um sujeito com um capacete ligado a camêras na cabeça de um boneco. Aí você olha pra baixo e as câmeras se movem pra baixo, aí ao invés de olhar o próprio pé, você olha o pé do boneco. Além disso eles passam uma caneta no seu estomago e do boneco ao mesmo tempo, aí você olhando pra baixo vê a caneta sendo passada no estômago do boneco e sente ela sendo passada no seu corpo. Isso aumenta sua ilusão, seu cérebro é "vendido" o truque um pouco.
Então enfiam uma faca no estômago do boneco (cujo corpo você "pensa" que é seu, pois quando olha pra baixo é o estômago dele que vê) e a maioria dos voluntários se assusta como se ele próprio esteja sendo esfaqueado.
Enfim, a experiência é interessante, mas teve uma parte da matéria que me chamou atenção:
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“Nos interessamos por uma questão clássica, que filósofos e psicólogos discutem há anos: por que achamos que a essência de uma pessoa está em seu corpo? Para estudar isso cientificamente, usamos truques que enganam a percepção”, afirmou Henrik Ehrsson, líder do projeto.
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Agora, eu posso estar errado aqui, mas toda a moral da tradição cristã-cartesiana é exatamente de que a essência de uma pessoa *não* está em seu corpo.
Na tradição cristã, o corpo é temporário enquanto a alma é imortal e Descartes reformula isso metafisicamente dizendo que o corpo, sendo um objeto empírico, é posto em dúvida enquanto a mente é a única certeza imediata graças ao cogito (ou uma das; a outra seria Deus).
Na verdade, a idéia de identificar o corpo com a essência é razoavelmente materialista, mas acima de tudo, eu diria que é um tipo de nietzscheanismo e, afinal, nós ainda somos bem mais cartesianos que nietzscheanos.
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Se a pesquisa tem qualquer coisa para oferecer a filosofia, seria na verdade um argumento em defesa do dualismo.
Se por uma série de truques simples sua mente se convence de que o corpo é outro, significa que nosso cérebro é mais dependente da consciência do que seria se esta fosse apenas um anexo, um truque ou o chamado "epifenomenismo".
Mas tudo resta no estatuto que você declara a consciência, então de qualquer modo, a experiência (como várias que aparecem no G1 como grandes descobertas da humanidade) acaba sendo uma curiosidade que não nos diz nada de especialmente novo. Umas semanas atrás, lia um artigo sobre o jogo "mirror edge" e a conclusão do sujeito era a mesma da pesquisa.
Mas claro, uma pesquisa controlada apresenta dados bem mais confiáveis que uns jogadores que sentiram náusea pulando de prédios virtuais e colocaram na internet a experiência.

Por fim, existe aquela saudável advertência que os pesquisadores devem ter feito, mas os jornalistas provavelmente ignoraram.
O experimento é mais complexo do que uma "troca de corpo".
Pra começar, o problema básico, você pode dizer que realmente "trocou de corpo" se o cérebro, que é parte do seu corpo, ainda é o mesmo?
Sem contar que mesmo se tiram o cérebro de uma pessoa de um corpo e coloca em outro, é o mesmo que tirar a HD e o processador de um computador e colocar em outro? Não é como se todo corpo fosse igual com a exceção dos cérebros. Mas aqui eu estou nitpicking demais.

Por fim[2], a prova de que essas pesquisas são menos surpreendentes do que parecem para os leigos:

"Para Ehrsson, as descobertas podem ser usadas em pesquisas sobre problemas envolvendo a imagem corporal: como as pessoas ficam satisfeitas ou insatisfeitas com seus corpos, por exemplo. Outra possibilidade é o desenvolvimento de versões mais avançadas de jogos como o “Second Life”. “Isso pode facilitar a criação de aplicações de realidade virtual em games, onde os jogadores poderão ter experiências realistas com seus avatares”, disse."

Fizeram a pesquisa, foi bacana, deu esse e esse resultado, mas serve pra quê?
Bom, talvez quem sabe um dia elas podem ser usadas para pesquisas sobre problema com imagem corporal (coisa que, no momento, eu não faço idéia como. Se ver no corpo de uma pessoa cuja aparência você considera melhor faria repensar o seu próprio? Não sei, não consigo pensar agora como essa pesquisa serve pra isso, mas com certeza eles pensaram sobre essa questão bem mais que eu, então eu com certeza estou perdendo alguma informação importante nessa de comentar as coisas em blog)
Por fim, a segunda utilidade é para fazer videogames melhores. Aí sim eu acho que seria bacana, mas é interessante que uma experiência que supostamente apresenta uma luz sobre problemas filosóficos e psicológicos só tenha consequências na área do entretenimento.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Banco de Roteiros

Roteiros
Um grande momento (1 página)
Um homem sente uma grande emoção
A história de uma paixão (1 página)
A história de uma paixão.

O terceiro trilho (2 páginas)
O terceiro trilho do metrô faz uma proposta muito interessante.
Frank & Reneé (2 páginas)
Dois cães conversam enquanto procuram seu bife.

Bom Universo (3 páginas)
Dois soldados discutem o porque da guerra.
A Sombra (3 páginas)
Um homem segue uma mulher.

Último trabalho (4 páginas)
Um assaltante de banco em um último e arriscado trabalho.
Each New Day (4 páginas)
Um menina espera um menino em seu quarto.

Perdão (5 páginas)
Um pedido de perdão.

A garota do ônibus (6 páginas)
O épico conto sobre um garoto que não conhece uma garota.

A máquina de descobrir amor (7 páginas)
Um cientista cria um modelo computacional para descobrir amor e ele funciona!

A vida nunca é bela. Apenas os retratos o são. (8 páginas)
Um filho recebe uma última foto de seu pai. (é uma história do Justiceiro, mas a gente total muda o logo do peito dele e finge que não)

A Bailarina (9 páginas)
Uma bailarina dança para seu público solitário.

A Vida e Aventuras De Reinaldo Brotão - Agente Secreto (10 páginas)
Apenas mais um dia de trabalho na emocionante vida de Reinaldo Brotão!

sexta-feira, novembro 28, 2008

The Modern Age

Up on a hill is where we begin
This little story a long time ago
Stop to pretend, stop pretending
It seems this game is simply never-ending
Oh, in the sun, sun having fun
It's in my blood
I just can't help it
Don't want you here right now
Let me go, oh, let me g-g-g-g-g-g-go


Um tema razoavelmente recorrente aqui são as esperanças feitas que nossa civilização nos fez que não se concretizaram.
Da promessa de Descartes de descobrir as leis dos choques a partir da idéia de Deus passando pela promessa de Newton de descobrir Deus a partir das leis dos choques.
Todas as inúmeras promessas de salvação que nos fizeram: salvação pela fé, pela razão, pelo prazer, pela revolução.
Esses dias esse sentimento tem crescido novamente.
As chuvas de Santa Catarina, os terrorista de Mumbai, a canonização de Pio XII, a crise financeira.
Essa sensação de que tudo nos falha não pode ser uma coincidência.
Falhamos em controlar a natureza, falhamos em estarmos livres de homens violentos arriscando a segurança de todos por conta de algum ideal que nem sabemos quais são, falhamos em ter uma religião que se compreende como verdadeira ao passo que respeita por completo as outras, falhamos em gerenciar nossa produção e há o sofrimento. O sofrimento, o sofrimento, sempre o sofrimento.

Isso não significa que não cheguemos lá. Não significa que nossa tecnologia não vai avançar a ponto de conter qualquer coisa que a natureza jogue em nós ou que a democracia não vai avançar a ponto de que a mera noção de um terrorista seja incompreensível, afinal, essas coisas todas, num geral, foram piores no passado. Há, pelo menos nos padrões observados, um progresso... menos no sofrimento, nossa criatividade é imensa e sempre achamos novos modos de sofrer que sequer eram imaginadas pelos antigos.
Como que um epicurista entenderia o sofrimento da ausência de necessidades e como que um estóico entenderia o sofrimento do auto-controle? Mesmo hoje há os que não entendem tais formas de sofrimento. Tudo bem, eles sofrem de modos que eu não compreendo também.

Mas mesmo que acreditemos que sofremos menos, que há uma progressão aí também, ainda há de se decepcionar... nos prometeram tanto e há tanto tempo... como não ser cínico quando nos prometem de novo?
"Ah, agora sim temos o conhecimento" e "ah, agora sim nós entedemos o mercado" e "ah, agora sim nós..."
Bah, todos os fracassados do passado tinham plena convicção deque "ah, agora sim..." e afinal, acaba que não é bem assim; "agora sim" entedemos algo de novo, talvez, por enquanto... mas é impressionante como que, apesar de todo o entusiasmo, acaba sempre sendo tão pouco...

Conhecimento Metafísico em Schopenhauer

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Conhecimento Metafísico em Schopenhauer by Rodrigo Braga Alonso is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial 2.5 Brasil License

Significa que você pode copiar, publicar, mudar um ponto e dizer que é seu. Só não pode ganhar dinheiro sem eu ficar sabendo porque filósofo de barriga vazia vai pra filosofia analítica. Aí a taxa de suícidio aumenta e o pessoal culpa o capitalismo.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Interdisciplinariedade

Oh céus, Rodrigo falando do que não entende.
Vamos lá.
Lendo uns autores e tentando conciliar meu relativismo.
Por curiosidade; são Paul Boghossian, Richard Nisbett, Antonio Damasio e assim vai.
Mas tudo muito por cima e na internet. Estou tentando "costurar" isso tudo no meu pensmaento atual e já me preparando pro meu cursinho auto-didata de fenomenologia no ano que vem.
-
O problema de interdisciplinariedade, especialmente entre ciências humanas e exatas, é que muitos termos simplesmente não se trocam.
Lendo a introdução do livro "fear of knowledge: against relativism and social construtivism" de Paul A. Boghossian - ele cita um grupo de arqueologistas que se dizem relativistas dizendo que as explicações deles próprios para o início do mundo são tão válidas quanto as das tribos que eles estudam.
Esse tipo de relativismo acaba sendo um alvo fácil porque, oras bolas, se conhecimento é assim tão relativo, então pra que perder tempo buscando um rigor e uma objetividade na ciência?

Nesses momentos, por incrível que pareça, é preciso um relativismo para curar o relativismo exacerbado.
Nós, da filosofia, dizemos esse tipo de coisa porque nós estamos falando as coisas de um ponto de vista onde geralmente o conhecimento em si é tomado como problemático. No fim, aquilo que Husserl chama de "atitude fenomenológica" que é oposta a "atitude natural" meio que serve pra filosofia como um todo.
Então quando Rorty faz um apelo ao relativismo, ele com certeza não está falando para os arqueólogos aceitarem a explicação das tribos como "tão válida quanto", esse tipo de trabalho geralmente está em um nível onde não há a possibilidade de interdisciplinariedade.
O trabalho de Rorty me irrita muitas vezes porque ele critica os filósofos de se isolarem, mas afinal, ele acaba escrevendo apenas para filósofos; isso talvez seja inconsciente da parte dele, mas algumas vezes filósofos precisam se fechar dentro dos seus clubinhos para resolver os problemas particulares típicos da disciplina.
Então eu aceito boa parte do relativismo Rortiano, mas um erro que eu me vejo cometendo é quando há uma interdisciplinariedade que eu não percebo; no fim, é preciso um certo exercício para sair da "atitude transcendental" - o clubinho filosófico - e entrar na "atitude natural".

Relativismo, no fim das contas, é isso. É definir qual seu ponto de vista e aí afirmar que, *desse ponto de vista*, o caminho é *esse*. A ambiguidade do pensamento racional, no fim das contas, deve ser resolvida ou pela solução ou pelo esclarecimento de qual ponto de vista estamos falando. Aceitando a perspectiva X, então não pode mais haver ambiguidade.

Aí o debate é sobre se tal perspectiva é suficiente para explicar o mundo - geralmente acaba sendo "a ciência, sem nada além dela, pode explicar o mundo?" - mas aceitar contradições dentro de uma única perspectiva é abandonar princípios básicos que usamos para nos comunicar.
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Dito isso, é uma questão de um passo pra trás pra dar dois a frente. A filosofia precisa se fechar, num primeiro momento, em um grupinho com pesquisas que não faz diferença pro resto do mundo, que é, pra num segundo momento, olhar as coisas como um todo.

Então primeiro assumimos o conhecimento como um problema, dizemos que o empirismo não diz nada, que nenhuma ciência tem nada a oferecer e nós não temos nada a oferecer para nenhuma ciência.
A partir daí, podemos construir, da base, uma disciplina que leve em conta todas as dimensões de nossos conhecimentos. Que somos seres que vivemos nesse momento histórico, influenciados por essa cultura, nessa situação social, com esse corpo que funciona dessa maneira, nos comunicando por essa linguagem, etc.
Entretanto, é sempre bom lembrar do nosso relativismo aqui para impedir o relativismo lá: aqui nós somos filósofos, nós procuramos um tipo de resposta sobre totalidades, algo que não deixe escapar nada, que não deixe nada de fora.
E mesmo dito isso, é preciso assumir uma posição sobre isso.
Aqui não significa tornar o equívoco aceitável (equívoco, lembrando, não é erro; mas é o fato de vozes diferentes terem valor igual), mas sim englobar o equívoco em um esquema não-ambíguo de pensamento.
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A ciência não pode ser relativista assim!
O Arqueólogo, na sua posição de arqueólogo, tem que falar que o que destruiu a vila foi uma chuva e não o deus do vilarejo.
O cientista tem que dizer que o que cura é o seu remédio, etc.
Aqui o problema vai para os dois lados.
Se estamos analisando a totalidade daquilo que é ser, temos que levar em conta várias coisas que não levamos quando estamos analisando o modo como os fatos se encadearam na cronologia humana ou o modo como os organismos vivos se constituem.
Analisando a totalidade, eu não posso ignorar nossa dimensão "exata" como descoberta pelas ciências empíricas do mesmo modo que não posso ignorar dimensões menos exatas, como crenças religiosas, arte, ideologias, comunicação, percepção, etc.

Se nós não gostamos dos reducionistas, ou seja, não gostamos de quem diz "o ser é ISSO" ignorando o que ignoram, mas então nossa explicação deve englobar e o problema de certo relativismo é quando ele cai no niilismo de dizer que as opiniões contrárias se anulam e que nenhuma é conhecimento. Pelo contrário, todo modo de conhecer que traz algo a mesa que os outros modos de conhecer falham em trazer é algo que deve ser acrescentado ao invés de relativizado.
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Então o problema dos arqueólogos é, afinal, uma falta de treino em assuntos filosóficos para "relativizar direito" as coisas.
Quando estamos em contato com uma crença que diverge da crença científica, não é questão de aceitar as duas como igualmente válidas, mas perguntar (e a redução fenomenológica ajuda a responder justamente essa pergunta) o que cada uma me traz como conhecimento?
Não se trata de aceitar todas as descrições do mundo como iguais, mas de ouvir todas e então, com o rigor filosófico, julgar o que cada uma traz.
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O que experiências religiosas e místicas geralmente trazem é (e aqui vou me apoiar em Schopenhauer) um senso de unidade com o mundo; de qualquer modo, é algo único por ser indescritível de outro modo. É preciso ter a experiência para saber o que é - algo parecido do que a experiência da arte; lembro que a primeira aula de estética da faculdade foi um quadro colocado na parede e o professor nos pedindo para descrevê-lo.
Oras, se você descreve objetivamente o quadro, você perde justamente aquilo que faz dele arte, objetivizar a arte é perder aquilo que ela traz de único; assim como explicar racionalmente para alguém que é preciso ter compaixão é perder aquilo que a experiência mística tem a oferecer.
A perspectiva de terceira pessoa tira muitas coisas em termos de conhecimento, mas nós nos comunicamos para uma comunidade de pensadores racionais assumindo tal perspectiva.
Mas enfim, falar mais sobre esses assuntos seria um post só pra eles, o que eu dei aqui foram exemplos bem rápidos e, como exemplos rápidos, faltam neles uma série de nuances.
-
Esse post seria melhor se eu de fato acabasse ler o Boghossian, porque embora o pouco que eu li (haha, tipo, duas páginas da introdução) me fez escrever esse post, o medo é que ele esteja lutando não contra filósofos relativistas, mas contra cientistas fazendo mal uso do relativismo, já que o próprio Rorty, citado de novo e de novo como o relativista chefe, argumenta muito contra a legitimidade de governos totalitários, contra a legitimidade de conhecimentos religiosos que tentam tomar o lugar de conhecimentos científicos, etc.
Mas enfim, o relativismo que ele propõe sempre foi meio diferente do meu; eu gosto dos debates que ele considera inúteis por exemplo e, (mais uma vez inspirado por Schopenhauer) eu me vejo como algo além do que o darwinismo que Rorty se inspira.
Certamente Rorty não afirma que duas crenças conflitantes são "igualmente" válidas, se não há o parâmetro do espelho do mundo, há pelo menos o parâmetro da utilidade e mesmo assim não é qualquer tipo de utilidade, mas é utilidade em garantir a sobrevivência da espécie.
Se eu nego o conhecimento empírico que de fato cura doenças em prol do conhecimento divino de que deus cura as doenças e o primeiro salva vidas enquanto o segundo não, então não há relativismo aqui, nem pro Rorty; o conhecimento que salva vidas é mais útil do que o que não salva, mesmo que o que não salve tenha outras utilidades.
Certamente o sujeito pode acreditar que deus ajuda, mas isso não pode interferir em sua vida ou é um conhecimento que deve ser extinguido. Além disso, mesmo que o conhecimento te faça um bem particular, mas seja mal para a espécie, ele ainda assim merece ser extinguido.
Então no fim, o que é objetivo acaba prevalecendo e a ciência acaba sendo salva.
A pergunta em que Rorty se embaraça é sobre como nós sabemos que um conhecimento é mais útil ou não, certamente não é um chute que faz tal conhecimento curar doenças e tal não; mas enfim, eu não estou aqui pra defender o Rorty, só pra dizer que mesmo em alguém tão relativista não há um relativismo ingênuo a ponto de considerar opiniões conflitantes igualmente válidas ao mesmo tempo; quanto muito, se suas opiniões conflitantes conseguem ser hipócritas na medida exata de beneficiar a espécie como um todo, aí sim.
-
Por isso que me incomoda quando Boghossian escolhe os exemplos da sua introdução: arqueólogos e sociólogas feministas; imagino que mais pra frente no livro ele vá, de fato, entrar em um dialogo mais saudável com o Rorty, mas por enquanto, eu não me admiraria de ver arqueólogos e sociólogos falando besteiras epistemológicas, porque eu também falaria besteiras argumentando a respeito de arqueologia e sociologia.
Não que esse post não tenha uma série de besteiras epistemológicas que estão desapercebidas, mas é coisa da minha falta de conhecimento particular, porque um bom epistemólogo - e afinal, Rorty era um bom epistemólogo, mesmo que adotando uma teoria polêmica - sabe mais do que simplesmente ignorar a ciência.

É até algo de interessante no curso de filosofia, sempre que começamos a considerar um ponto de vista diferente do científico, há sempre um aviso no começo: "isso não é pra dizer que a ciência não tem validade"; o próprio Merleau-Ponty diz isso no começo de suas conferências, em que ele diz a famosa frase: "o cientista não tem mais a ilusão de alcançar seu próprio objetivo", ele fala que não diz essas coisas pra desafiar a ciência, mas porque a própria ciência convida a pensar desse modo.

Afinal, uma comparação engraçada que fazem é que a filosofia é a mãe da ciência e como filho, a ciência nos desaponta às vezes, é arrogante, acha que estamos errados e somos velhos e inúteis, mas assim que dá qualquer problema, corre pra debaixo de nossas asas. E como mães, nós nos preocupamos com nossos filhos sendo arrogantes *pelo bem deles*, porque achamos que isso vai fazer eles darem passos maior que as pernas, mas de nenhuma forma queremos dizer que eles são inúteis e que esperamos vê-los fracassar. Queremos que sejam bem sucedido, logo, pedimos alguma cautela e humildade.
=

Concluindo, com o disclaimer mais repetido no meu curso de filosofia, isso não é um ataque contra a ciência, não se pode fazer esse ataque, filosofia e ciência são dois modos racionais de ver o mundo, mesmo que o primeiro parta para o irracionalismo de vez enquanto; ser irracionalista não significa ser irracional afinal de contas. Mas é dizer que nossa pesquisa filosófica, pelo menos desse ponto de vista da fenomenologia, parte de um lugar diferente da ciência porque busca objetivos diferentes. O objetivo da ciência é elaborar modelos compatíveis com o que é observável de modo a melhor a influenciar o mundo. O objetivo da filosofia é um tipo de descrição de uma totalidade, assim, ela geralmente parte (seja no caso da fenomenologia ou do pragmatismo) de um ponto pré-científico.
Filósofos sabem que não devem disputar aquilo que a ciência já descobriu (quando muito, disputar que aquilo que a ciência acha que sabe, mas não sabe, pois está usando um método inadequado para analisar tal situação; de novo, o ponto de vista é pré-científico, mas essa situação raramente ocorre porque, afinal, cientistas tendem a ser rigorosos), mas isso não significa se limitar a ela e não se limitar a ciência não significa tomar o que uma tribo indígena fala como "de igual valor", mas simplesmente olhar isso de uma perspectiva que a ciência não pode e retirar disso algo que a teoria filosófica em questão consegue retirar para explicar o mundo da perspectiva que pretende.
Mas adotar perspectivas diferentes é sempre um trabalho complicado; o fenomenólogo precisa realizar a redução fenomenológica, o pragmatista precisa analisar as necessidades da época, por aí vai; num geral, é algo que os cientistas, com suas respectivas especializações, não estão preparados para fazer, mesmo os cientistas das ciências humanas.
Confio em um sociólogo para me dizer como que o trabalho está organizado nessa época, como que certos povos desenvolvem certos modos de viver, como que são as classes sociais, os preconceitos e racismos, toda sorte de coisas envolvendo as pessoas como agentes de uma sociedade, até mesmo como que as diferentes classes tem valores diferentes de verdade e de conhecimento, mas não me venha dizer como que esses fatores influenciam a formação pré-científica do ser dessas pessoas e como que essas estruturas se traduzem em conhecimento. Pra isso temos filósofos.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Blogma

1. Fica vedada qualquer menção a Foucault, salvo esta.

2. Pagará multa o blogueiro que publicar qualquer um destes termos: “pensata”, “de plantão”, “diálogo fecundo” e “num misto de”, ainda que a título de brincadeira.

3. Como regra, arte plástica contemporânea só é arte no sentido desta frase: “Meu filho, vê se pára de fazer arte!” Arte contemporânea passa a ser contradição em termos.

4. Somos todos contra a última opinião em voga sobre o Paulo Francis. Elogio ou crítica.

5. “Morno se vomita”: aqui é quente ou frio. Frio, de preferência.

6. A qualidade do que se escreve no portal se mede pela capacidade de esculhambar com gentileza.

7. Nenhum nacionalismo, nenhum regionalismo; aqui se fala português por força do acaso. Mas também se falará outro idioma quando necessário e, principalmente, quando desnecessário.

8. A 1ª pessoa do singular serve à farsa; ninguém aqui, antes de completar 60 anos, falará sobre os livros que influenciaram sua formação. Respeitem a memória de Joaquim Nabuco, filisteus.

9. Argumente, seja pela direita ou pela esquerda, mas não lamba a sarjeta. Pense bem antes de soar fascista ou stalinista.

10. O leitor é o cliente, e o cliente costuma ter razão. Como isso tem limites, qualquer ironia será ironia mesmo, sem colher-de-chá.

11. Limpeza (que não é necessariamente clareza), densidade (que não é necessariamente concisão), elegância (que não é necessariamente sobriedade), eis a nossa linguagem.

=

Oh céus, eu não respeito quase nenhum desses.
Do Via Moderna

sábado, novembro 22, 2008

Tradições

Enquanto debatia com Bill O'Reily no seu show, Jon Stewart (é, eu sei, um neocon doido e um comediante, ótimas referências. Mas são ambos muito inteligentes) disse: "Tradition is a progression of individual freedoms. You know what the tradition of America would say? Gay marriage is the next step in the tradition of America. You’re misrepresenting the tradition. You’re idea of tradition is a mythological ‘Ozzie and Harriet’ thing".
-
É sempre difícil ver qual é exatamente nosso legado. O que os ideais que nos formam hoje esperam de nós.
Existe uma tendência hoje em achar que nada é esperado de nós, que nós temos algum metafísico pensamento livre que nos liberta da nossa história e das nossas responsabilidades.
É meio o que Dr. Steinmen diz no jogo Bioshock, quando está maravilhado pelas suas habilidades mutantes que permitem ele ser um cirurgião plástico incrivelmente mais eficiente: "Ryan frees us from the phony ethics
that held us back. Change your look, change your sex, change your race.
It's yours to change, nobody else's."
Então hoje nós fazemos aquela coisa bobinha de criar uma listinha de ismos para nós (minha piada mais recente é que eu sou um ateu católico, mas obviamente é uma piada, eu sou um ateu que frequenta a missa, é bem diferente) "Oh, eu sou um rastafari cético niilista racionalista cartesiano".

Há duas coisas para se pensar rapidinho aqui: a primeira é que eu até encorajo combinações doidas de crenças. Algumas são bem necessárias: um cientista religioso deve ser ateu nas suas pesquisas. Um padre, que por algum motivo se tornou um cético, deve, de qualquer modo, falar em nome de uma verdade quando está sendo padre.
Isso tem muito a ver com aquele lance kantiano de uso público e uso privado da razão. Como pessoa pública, você defende aquilo que você quiser, que você acha mais certo, etc; como pessoa privada, realizando um trabalho, você defende aquilo que o trabalho exige que você defenda.
Não dá pra traçar uma linha assim tão clara e certinha, mas é só uma guideline geral para impedir que você se torne menos eficiente naquilo que você faz.

O interessante de Kant na sua distinção entre uso privado e uso público da razão é essa idéia contrária do que temos hoje. O "verdadeiro público" é o mundo e quem fala com o mundo é o indivíduo na sua condição de indivíduo. O público do cientista, do papa, do político são os outros cientistas, a igreja e os cidadãos, é sempre o indivíduo na qualidade de alguma outra coisa.
Então enquanto você é um cientista ou um bispo ou qualquer outra coisa, você precisa de coerência e responsabilidade; relativismo não se aplica aqui at all. No muito quando as coisas estão muito estagnadas e você precisa de um olhar mais solto para conseguir algum progresso, que é geralmente o estatuto da igreja atualmente, mas isso é outro assunto.

Dito tudo isso, como pessoa pública, essa que fala com o mundo, você sequer precisa argumentar coisas, basta viver em paz com o mundo.
Se há a necessidade de argumentação derivado claramente de falta de auto-estima e necessidade de se impôr aos outros (meu caso por exemplo), então boa sorte com perdendo tempo no orkut. Já para se proteger contra ataques alheios, então nem se trata aqui de argumentar porque ser evangélico cético rastafari é a melhor combinação possível, mas simplesmente porque ela não é uma ameaça à sociedade. A discussão aqui é uma então, não entre céticos rastafari evangélicos e qualquer outra coisa, mas entre tolerantes e intolerantes. Entre quem acredita que um modo não-coercivo de viver é "certo" e outro modo é "errado". Aí é um pedido ao relativismo.
Aí é algo de muito forte na esquerda norte-americana que o resto do mundo tenta emular com mais ou menos sucesso: o fato de que a esquerda norte-americana não é um grupo conciso de pessoas que dividem os mesmos valores, mas é quase algo do tipo "you scratch my back and I scratch yours".
Então o movimento GLBTS se une ao movimento negro que se une aos sindicatos que se unem aos direitos dos presos que se unem a isso e a aquilo e, enfim, a grande dificuldade e a grande força da esquerda norte-americana é justamente ser uma coalizão de miniorias que frequentemente discordam entre si, mas preservam um pacto de se ajudarem mutuamente.
Quando começaram as notícias de que os negros tinham votado contra o casamento gay, toda a mídia reportou isso como se fosse o fim do mundo. Pra começar, as notícias distorcem os números um pouco, quem "derrotou" o casamento gay foram os grupos de sempre: religiosos e idosos. Mas dito isso, o que a noticia causa de desconforto (e a mídia percebe isso) é que um grupo que é tão carente de tolerância se mostrando intolerante.
Nessa divisão, quem não é maioria vence sempre e que isso tenha acontecido na mesma eleição que deu vitória a Obama, uma eleição que se disse vencida por uma coalizão das minorias com a classe média, mostra o quão frágil é essa aliança.
Justamente motivo maior para defendermos os rastafaris céticos evangélicos, porque perante a ameaça de um dia votarem contra eu ser qualquer coisa não-coerciva que eu queira ser, discutir se eles estão certos ou errados é a mais doente perda de tempo.
-
Dito tudo isso, a segunda coisa rápida a se pensar é que apesar de você poder fazer essas combinações, elas são meio ingênuas, não porque você pertence à uma tradição, mas porque você pertence a todas de certo modo.
Você está na rua, conversando com um evangélico, bom, ele provavelmente está te passando valores que pegou na igreja, mesmo que ele não use a palavra "deus" ou "jesus" nenhuma vez, mesmo que ele não perceba.
Do mesmo modo, ele está passando aquela notícia sobre psicologia que leu no jornal, aquele filósofo que o filho dele leu, enfim.
Você "pega" coisas. É difícil se dizer qualquer ismo porque ninguém costuma ser um "ismo" puro e se você é todo misturado, então porque se dizer qualquer coisa?
Se você faz parte de todo tipo de tradições, porque falar que segue só uma? Isso é outro tipo de auto-engano que me preocupa.
Esses dias o "Dawkins" publicou no blog dele (típico do Dawkins que faz as coisas mais banais, mas se acha super espertinho porque seus leitores são incultos e eles aplaudem tudo que ele diz) um lance tipo "Atheists for Jesus", em que ele fazia aquela coisa básica que todo professorzinho de esquerda do colégio faz de elogiar Jesus como um radical, como alguém que se rebelou contra a ordem estabelecida, etc e tal.
Bom, das críticas interessantes que Dawkins recebeu pelo "God Delusion", estava um sujeito que dizia que, afinal de contas, ele só era mais um burguês da classe média branca inglesa expondo idéias burguesas da classe média branca inglesa. Mas no fim, isso meio que se pode dizer de todos nós.
A ingenuidade dos ateus e dos céticos rastafari evangélicos é se acharem livres de cristianismo ou livres de sejá lá do que um cético rastafari evangélico queira se livrar.
E claro que, estar em um time, não ajuda em nada sua autocrítica.
Dawkins, por exemplo, não foi autocrítico nesse post dele, ele achou que ele estava sendo malandro, subvertendo o cristianismo, sem perceber que, por toda sua vida de classe média inglesa branca e burguesa (mesmo que ele não seja de classe média ou inglês), os valores cristãos sempre estiveram nele e que ele jamais realmente combateu religião, mas apenas uma mitologia. Afinal, uma religião é mais que uma mitologia.
Sem cristianismo não teria uma valorização da razão abstrata em detrimento do sensível senso comum; sem cristianismo não teria uma noção de direitos humanos, etc.
Isso significa que precisamos de cristianismo para sermos racionais ou acreditarmos em direitos humanos? Isso é um debate, mas eu vou assumir aqui que não.
É difícil entender qual exatamente a importância da história nas nossas vidas, é só que o problema dos "ismos" é que geralmente eles combatem outro "ismo", só que um ismo é um pacote completo de coisas e você não está "livre de cristianismo" só porque rejeita uma fraçãozinha dele que é a recusa literária da mitologia.
Então ou, num geral, não somos nada, porque dificilmente aceitamos um pacote completo e inteiro de tal "ismo" ou somos todas coisas, porque de todos os "ismos" nós preservamos algo.

Afinal, nós seguimos que tradição? "Ozzie and Harriet" ou "progression of individual freedoms"?
Não dá pra saber, assim de cara.
A história exige MUITAS coisas da gente, temos uma quantidade tão grande de coisas que temos que cumprir que é normal que as pessoas enganem a si próprias se dizendo "pensadores livres" e, ufa, finalmente livres dos preconceitos da história.
Por isso tendo a ver a pluralidade como nossa tradição, o niilismo de certo modo, mas enfim, essa ausência de sentido, essa confusão de valores, essas brigas e essas reconciliações.
E aí me incomoda que qualquer um queira dizer que nossa tradição é ir nesse ou naquele sentido, mas de certo modo, é essa nossa tradição, defender um sentido já meio que sabendo que não vamos pra lá.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Sobre o post abaixo

O post é ressentido, ele tem uma carga de inveja, não porque eu oh trabalhe demais e eles ó vivam uma festa, mas é porque eles podem se dar ao luxo de tirar uns anos de férias da vida e eu não posso. Não vou nem entrar nos motivos, que seria entrar demais não só na minha vida particular, mas na da minha família e eu me exponho sempre nesse blog, mas se falo pouco da minha irmã e da minha mãe é por respeito a elas mesmo.
De certo modo, eu estou tirando agora os anos "de férias" da minha vida e estou fazendo estudando, então a inveja é bobinha mesmo, nós todos sabemos que eles não vão vender coisas na rua assim pra sempre. Toma um banho, corta o cabelo, faz a barba, usa roupa que esconde as tatuagens e em menos de 1 mês ninguém vai sequer sonhar que você passou 3 anos vendendo tranqueiras na rua. Aí o sujeito vai fazer a faculdade dele, vai exibir por aí a pseudo-experiência de vida dele (porque, afinal, ele vai viver 100% do tempo em uma pobreza monitorada e controlada sem jamais sentir o pânico de que se não conseguir dinheiro esse mês vai sofrer uma real necessidade) do mesmo modo que eu exibo meus troféis do PS3 aí do lado.

Mas tirando o ressentimento de lado, tem algo de sério que me chateia nisso, que é uma espécie de aura de que se está agindo contra injustiças sociais sem, de fato, estar fazendo algo de concreto a respeito.
É que nem eu dizer que sou vegetariano porque estou lutando contra a indústria alimentícia.
Eu sou vegetariano porque me faz mal a idéia de comer um ser que sofre, mas se eu quisesse atacar a indústria alimentícia, realizaria estudos, publicaria livros e artigos, seria o mais mainstream possível para mostrar para o público mainstream que essa prática é errada.
Todo underground é elitismo. É um modo de pessoas serem indiferentes à outras pessoas. Isso não é errado, mas grita "ideologia burguesa" de modo tão alto e tão claro que a pessoa tem que se esforçar muito perfurando os próprios ouvidos para não ver que isso é um modo de dizer pra si próprio que já faz o suficiente para resolver certas questões sociais, enquanto claramente não faz.
Se você prega pegar 400 reais de um grupo de pessoas todo mês pra levar eles pro meio do mato e isolá-los do mundo, não diz que é anarquia, não diz que é uma luta contra o imperialismo e contra a patriarquia e o racismo, etc. Porque não é. É um spa que custa caro demais porque a clientela burguesa não está comprando um pedacinho no meio do mato, mas sim alguém que passe a mão na cabeça dela e diz: "shh, sem culpa de classe média, você está aqui, quer dizer que você está ajudando os outros".

Nada contra você pagar alguém pra resolver suas culpas de classe média e ainda passar um fim de semana se divertindo com pessoas que nem você no processo, mas de novo, não finge que isso é um ataque ao que há de mal na sociedade burguesa porque isso um ato burguês do material ao ideal. Do tanto que esse povo exige que você pague para ter paz de vida até o quanto te convencem que ao invés de realizar um trabalho árduo para corrigir injustiças sociais, você tem que fazer isso que você já está fazendo. Quanto muito escrevendo um artigo num jornalzinho que três pessoas vão ler usando intelectualismo barato que as coisas são injustas... assim, de modo bem genérico e que propõe muito pouco, mas que faz você se sentir agindo.
E no fim, é esse o maior perigo dessas coisas, fazer você se sentir agindo quando você não está fazendo nada.

Mas eu sou um cara liberal, eu defendo seu direito de não fazer nada desde que você respeite certos consensos democráticos, pague impostos, respeite leis, etc, porque você, afinal, não é uma criatura isolada que vive por acidente no meio dos outros, você se constrói no contato com os outros, isso faz com que cada um tenha uma dívida de certa forma com sua sociedade.
Dito isso, eu não acredito que seja uma dívida infinita, existem liberdades particulares e entre elas está a de fazer o que bem entende com seu dinheiro e repito quantas vezes for necessário que eu defendo ardentemente o seu direito de pagar para resolver seus próprios problemas. Só não chama isso de política, porque aí é um esforço de auto-engano e auto-elogio e é um desserviço à liberdade mentir pra si próprio dessa maneira.

Entrevista com um hippie que vende artesanato na rua

- Quando o senhor decidiu virar Hippie?

- Veja bem, quando eu era criança, papai comprava pra mim todos os brinquedos que eu poderia querer. Mas enquanto eu brincava, papai não; ele estava sempre nervoso e estressado e com suas roupas quentes em dia de calor. Então decidi que não queria ser que nem papai.
Aí quando me tornei adolescente, pedi para papai comprar pra mim a opinião de pessoas que me levassem para uma vida diferente da dele. E papai comprou.
Aí depois do colégio, pedi para papai comprar pra mim um curso de faculdade que me fizesse tão rico quanto papai, mas sem ter que trabalhar tanto, então eu optei por Radio & TV e/ou publicidade e/ou ciências sociais e/ou filosofia e/ou artes cênicas. Ele comprou pra mim todos os anos de cursinho que eu sempre quis para fazer as melhores universidades públicas e se não eram o bastante, papai comprava pra mim vaga em uma particular mesmo.
Mas aí eu percebi que, após formado, eu teria que trabalhar e/ou não seria rico. Isso muito me entediava, então pedi para papai comprar pra mim mais umas opiniões diferentes. Então numa das opiniões que papai comprou pra mim estava a de um estilo de vida mais humilde, sabe? Vendendo coisas na rua e na porta de faculdade.

- Essa vida não é difícil?

- Mas oh, eu já vivi minha vida toda sem fazer nada, o único lado ruim dessa vida é que não ganho tanto dinheiro, mas tudo bem, porque as portas da casa de papai estão sempre abertas pra mim e mesmo que eu não more mais lá, sei que na pior das hipóteses posso sempre voltar.

- Pretende ser hippie a vida toda?

- Deus me livre. Mais dois anos e estou fazendo uma faculdade de admnistração em empresas e indo trabalhar com papai. Daqui 5 anos te juro que estarei casado, terei um filho pequeno e estarei entre os 20% mais ricos do país.

- E o que acontece se você fizer parcerias com alguém que sinceramente precisa vender as coisas na rua pra viver e pra quem isso não é só uma fase ou uma brincadeirinha boba? O que acontece com ele se ele depender de você e você simplesmente largar tudo pra retomar a vida que está meramente adiando com essa piada?

- Estarei ocupado e não vou ter tempo pra pensar nessas coisas. Mas me entreviste de novo daqui 20 anos e te contarei a mágica história de um hippie que conseguiu, por determinação e força de vontade, se tornar um empresário de sucesso.

=

Post ressentido da semana.

terça-feira, novembro 11, 2008

Coisas, muitas coisas

Ufa, finalmente um dia relativamente sem nada pra fazer.
Quero falar de tantos assuntos, nem sei se vai dar. Ainda vou falar mais dessas coisas, mas só quero descarregar alguns pensamentos (blog é pra isso mesmo, eu tiro as coisas da cabeça, às vezes literalmente, às vezes escrever no blog me faz esquecer o assunto).
Então, vamos lá, pra me organizar:

Aniversário
Schopenhauer
Obama
Quadrinhos
Bioshock

Aniversário

Meu aniversário dia 7 agora não me fez triste. Os outros fizeram.
Acho que desde os 16 anos, fazer aniversário é um evento triste. Hoje foi só neutro. Foi um dia como outro qualquer, mas com presentes. Então foi bom. Acho um sinal de que eu estou me tornando alguém mais próximo da pessoa que quero ser.
Eu não quero fazer uma retrospectiva do ano. Mas acho que ele foi. Eu me achei de modo mais claro dentro da filosofia, tirei boas notas, espero que continue tirando agora nessas últimas provas.
Pessoas vieram e foram, como elas sempre fazem. Aniversários e natais estão virando rotina. Mas eu me sinto menos cansado do que estava antes. Acho que aos poucos estou aprendendo como que é esse negócio de viver.
Ano que vem apresentam novos desafios (espero).
Espero começar a dar aula e espero começar a fazer planos concretos para um mestrado.
Nada disso vai ser fácil, mas acho que estou pronto. Sinceramente acho. Acho que estou pronto para uma porção de coisas.
Para retomar uma vida espiritual, mesmo que eu ainda me considere ateu. Para retomar uma vida de roteirista de quadrinhos. Para começar a pensar no futuro. Para a solidão e para a tristeza. Para o mundo mais difícil que se anuncia aí. Vou falar desses tópicos.

Schopenhauer

Terminei meu TCC, vou fazer a última orientação hoje. Provavelmente terei que alterar bastante coisa, depois disso publico no google docs.
Estou bem satisfeito com os caminhos que esse estudo sobre a metafísica de Schopenhauer me levou.
Schopenhauer me ensinou a relevância do modo como fomos construídos na nossa percepção do mundo. Como que, basicamente, nós vemos tudo de um ponto de vista interessado. Anais nin diz que vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos. Com Schopenhauer eu aprendi que vemos as coisas não como nós somos, mas como são nossas necessidades. Daí acredito que vem o caráter aparentemente passivo de uma percepção que é na verdade uma representação: nós não controlamos nossas necessidades, então nós moldamos o mundo de acordo com elas e agimos sempre buscando saciar essas coisas.
O que Schopenhauer também apresenta é que, nessa visão de mundo bem darwinista, há espaço para um olhar desinteressado. Pela arte e pela compaixão, nós podemos ver o mundo de modo como ele é na ausência dessas necessidades.

Eu fui na missa esse domingo. Eu gostei bastante, vou voltar certamente. Ainda me sinto meio como um peixe fora d'água lá. É difícil conciliar o fato de que eu sou um ateu com a minha vontade de querer participar dessa comunidade cosmopolita que é a igreja católica. O tema dessa missa foi bem de acordo com essa busca. Foi sobre a basílica de Latrão, que é a igreja do papa (coisa que eu não sabia, o padre até brincou com o fato de todo mundo achar que é a basílica de São Pedro); então o tema foi sobre como que as igrejas diferentes em diferentes comunidades estão unidas em uma. É um tema interessante e excelente. Eu poderia até elaborá-lo aqui, sobre o quanto estou satisfeito com a igreja católica atualmente, a esperança que vejo nela de ser uma força positiva na construção de um mundo mais unido. Como que ela é multicultural em um senso muito especial. Como que ela é multicultural não pelo relativismo, afinal, ela se considera a verdadeira igreja, etc; mas pela aceitação em viver lado a lado com as outras culturas.
Demorou muito para a igreja chegar nesse ponto, é questionável se ela já chegou. Mas considero hoje a igreja católica a instituição religiosa mais apta para lidar com as necessidades da contemporaneidade; assim como considero os judeus a comunidade religiosa mais bem sucedida. Tudo isso pelas suas respectivas qualidades de adaptação em um mundo diverso. Mas com pretensões de ser unido apesar de diversidade.
Dito isso, porque colocar isso no tema do Schopenhauer?
Porque o motivo que eu decidi ir a igreja foi para exercitar minha compaixão e toda vez que leio algo escrito por alguma autoridade católica, o tema é, de algum modo, relacionado a necessidade de vermos o sofrimento dos outros como algo importante. Os católicos praticam a compaixão e a caridade de fato? Não sei. Mas eu quero exercitar essas qualidades em mim e acredito que compaixão é algo que vem de um sentimento e não de um conhecimento. Saber que os outros sofrem não faz nada pela caridade se esse sofrimento não te sensibiliza. Então eu quero "treinar" esse sentimento de sofrer o sofrimento alheio.
É algo sábio? É bom? Eu não sei. Eu certamente não sou do partido que acredita em forçar os outros a serem altruístas. Mas exatamente porque eu não gosto de ver a obrigação legal em ajudar os outros, eu gosto de pensar nisso como uma obrigação moral. E claro, ainda seguindo Schopenhauer, fica a esperança de que compaixão afete a minha percepção do mundo. Que me permita um olhar mais desinteressado e contemplativo.
Claro que se Schopenhauer concordasse com essa minha atitude, ele próprio seria religioso, coisa que ele nunca foi até onde eu sei. Ele tinha lá suas críticas duras a religião. Mas eu acho sinceramente que a Igreja aprendeu com seus erros do passado. Posso estar errado. Posso estar sendo enganado por textos bem escritos. Mas enfim, é um risco. Se eu estiver errado, então estou. Paciência.

Barack Hussein Obama
É muito bom poder falar o "Hussein" de Obama agora que isso não significa mais uma ameaça eleitoral.
Obama é mais uma peça dessa minha esperança em um mundo mais unido.
O lance do Obama é que todo mundo ficou feliz com a vitória dele. Então quem gosta do Chávez, concorda com ele de que os dois são parecidos; já quem não gosta, como eu, acha que isso significa o fim dele. Mas como alguém disse: os líderes do mundo estão esperando um molengão que aceite suas exigências pra não parecer alguém bélico. É dever de Obama desapontá-los.
E eu acho que vai mesmo. O que eu tenho lido de Obama é geralmente centrado em duas características: pragmatista e centrista; que no fim é a mesma coisa nas contigências atuais. Como disse Joe Biden na campanha: alguém vai querer testar esse presidente. Pode ser a Rússia ou o Irã; pode ser até um novo ataque terrorista.
Mas é batata, quando há um novo presidente nos EUA, em menos de 6 meses alguém tenta avançar pra cima dele só pra ver como ele responde. O próprio 11 de Setembro pode ter sido um desses casos e o palerma do Bush respondeu, passo a passo, do jeito exato que os terroristas queriam que ele respondesse.
A guerra do Iraque e os problemas decorrentes dessa é a maior vitória de Bin Laden.
Obama, acredito, vai conseguir se safar dessas sem ser um molenga. Mas isso é predição de futuro e, enfim, agora é esperar pra ver e vaiar e jogar tomates podres toda vez que ele pisar em falso.
Mas acredito que ele vá se dar bem, mesmo porque, o magrelo orelhudo de nome estranho deve muito bem saber lidar com bullies.

Quadrinhos
Acabadas as aulas, vou iniciar um esforço para voltar a ter quadrinhos meus desenhados. Vou voltar a escrever, voltar a procurar desenhistas, voltar a distribuir meus quadrinhos via correio.
Quero voltar a ser um fanzineiro mais old school também; quero voltar a vender meus fanzines de mão em mão, explicando pra cada um sobre o que é a história. Porque afinal, é isso, eu faço fanzine e não publicação independente ou coisa do tipo. É um fanzine. É uma coisa que eu tiro na xerox, grampeio, dobro e vendo por conta própria e bem quero voltar a ser assim.

Bioshock
Por fim, tenho jogado Bioshock. Estou terminando no survivor sem usar as vita-chambers. Está bem difícil, mas estou conseguindo. Bioshock é um jogo excelente e jogá-lo no modo mais difícil sem direito a ressucitar de graça após morrer está tornando ele bem complicado. Mas baseado nas vezes anteriores que terminei em modos mais fáceis. Ele é um jogo que vai ficando mais trabalhoso. Mas mais fácil. No que o jogo prossegue, acumulam-se armas, bônus de pesquisas, munições especiais, plasmids, tonics e, enfim, estou na "segunda fase" ainda. Mas pela minha experiência, é a mais difícil porque enfrentar os Big Daddies no começo é complicadissimo. Mas fica mais fácil.
Aí o difícil deixa de ser o Bid Daddy e vira os splicers normais. Mas esses nunca são assim tão difíceis. Só trabalhosos.
Enfim, fotos abaixo para ilustrar. ;)


Big Daddy e Little Sisters:
Elas recolhem o ADAM (material genético que permite alterações genéticas) e eles a protegem.
O Big Daddy nunca começa uma briga, ele no máximo te empurra pra longe da little sister quando você se aproxima muito. Mas pra ter ela, tem que passar por ele e sem as garotinhas não dá pra ter os poderes essenciais pra terminar o jogo, então ouvir os pesados passos de um significa toda uma preparação.
Analisar o terreno, as armas, os poderes, ver o que pode te ajudar e pra onde correr quando o bicho vier atrás. Porque uma vez que você der o primeiro tiro, inicia uma batalha que nunca é fácil demais.



Mr. Bubbles!



Splicers são os habitantes de Rapture.
Antes eles eram a nata da sociedade, reunidos em uma sociedade libertarianista para que suas forças produtivas não fossem usurpadas por esses parasitas que insistem em pegar nosso dinheiro para comer e se vestir. Agora, após um vício auto-destrutivo em ADAM; os cidadãos andam pela falida utopia procurando vítimas.
O local é Arcadia: uma floresta construída para prover oxigênio para a cidade.



A última festa de Rapture



"O impossível não é construir Rapture no fundo do oceano. O impossível é construí-la em qualquer outro lugar" - Andrew Ryan, fundador de Rapture.