domingo, dezembro 16, 2007

Máquinas de Deus e Máquinas do Homem

Ou:
Porque eu sou tecnofílico.
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"You'd better take drugs and learn to love PLASTIC. All different kinds of plastic, pliable, rigid, colored, colorful, nonattached plastic."
- Lou Reed

"De fato, nada pode haver de mais prejudicial e indigno num filósofo do que chamar de vulgar uma suposta experiência contraditória"
-Imannuel Kant

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Tudo se resume a Tales de Mileto. Sempre. Todo pensamento ocidental que você ler, é bom se lembrar de alguém que foi chamado de sábio há milhares de anos atrás olhou para a natureza, para o homem, para as estrelas e para a alma e disse "isso tudo é água" e desde então existe a noção que quer a natureza seja assim por conta própria, quer Deus tenha criado dessa forma, quer exista uma idéia essencial acima de tudo ou leis físicas que regem todas as coisas, há unidade, há algo por trás de tudo e esse "algo" é o mesmo "algo" para todas as coisas. Quer seja a água, o fogo, o Deus, a Virtude ou o choque entre os átomos, tudo que a alma humana pode conceber como existente está bonitinho debaixo do mesmo teto.
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Então veio Kant.
E Kant disse que o problema não é bem que existe uma tal "realidade" com algo "por trás" esperando a ser descoberto. O problema é que nós vemos a realidade de uma tal maneira específica, que nós só conseguimos imaginar e pensar sobre aquilo que nós temos contato, mas não temos contato com a realidade, temos contato com algum tipo de "interpretação" que nossa mente faz da realidade. Então se existe essa tal unidade fundamental no universo, nós não podemos ver e se existem certas coisas "universalmente certas" (como leis da física ou da aritmética) é porque nossas mentes funcionam todas da mesma maneira e interpreta certas informações de maneira igual, mas não há nada na razão que garanta que exista esse mundo perfeitamente lógico e bonito aí fora só esperando ser descoberto.
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E o que isso tem a ver com tecnologia?
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Existem dois tipos de razão que se referem a respectivos "mundos" diferentes.
Existe a razão pura, que se refere ao transcedental, ao que não é formado por experiência, nem por conceitos, mas por "algo" além do alcance da experiência e da razão e existe a razão prática, que se refere não ao mundo em que vivemos, mas ao mundo em que nos percebemos como seres que vivem. Esse é um mundo, para todos os efeitos, dilacerado por uma razão que não consegue compreendê-lo todo; é como se um circulo passasse por um buraco triangular nos fazendo acreditar que aquela forma distorcida pelo molde é "de fato" um circulo.
Além disso, os próprios funcionamentos dessa mesma razão que distorce coisas está um tanto além do nosso alcance, então o que temos é vivemos em uma realidade que sabemos pouco a respeito, que vemos por óculos que funcionam com lentes que não conseguimos entender como funcionam; dito isso, qual o valor da razão prática?
O valor da razão prática é exatamente que por meio dela podemos existir.
Por mais que a realidade seja estranha, é inegável que aqui estamos, existindo e fazendo filosofia, o que vemos e sentimos e "andamos" é simplesmente algo moldado por uma razão que dá regras a si própria? Sem problema, então que andemos pelo mundo como reis por uma razão que dá regras a si própria.
E isso é tecnologia.
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Não é para pensar que a tecnologia é mais ou menos "transcedental" que a natureza; tanto natureza quanto tecnologia são guiados pelas mesmas regras, são vistos da mesma forma, são julgados pela mesma razão prática; a diferença é que quando temos a natureza como paradigma da virtude (estou olhando pra vocês, seus estóicos safados), estamos tomando como modelo de virtude algo que simplesmente existe, criado pelo caos, interpretado por uma mente esquisita, mas a tecnologia é o que temos de mais próximo de algo que pode ser chamado de "razão prática"; se na natureza interpretamos o mundo de acordo com regras que a razão cria para si própria, com a tecnologia nós modificamos o mundo de acordo com essas regras e modificar o mundo é, oras bolas, modificar o mundo em si, mesmo que não entendamos como, é dizer "seja caótico o quanto você quiser, estou criando o *meu* caso", pois acredito que o grande erro da humanidade em relação a tecnologia foi pensar que ela veio para "organizar" o mundo ou para sistematiza-lo; tecnologia existe porque é divertida e porque nos faz andar no mundo com maior confiança.
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Novamente, existe tão pouca razão na tecnologia quanto existe na natureza; afinal, tecnologia segue as mesmas regras da natureza; a diferença é que a natureza é um caos "de Deus" e a tecnologia um caos do homem. Tentar organizar um mundo caótico além dos limites da razão por tecnologia é falho logo de cara; existe mais no mundo do que conhecemos, logo nosso conhecimento não pode abraçar o mundo e nem as máquinas criadas com esse conhecimento sempre incompleto; mas o que nós podemos fazer é caos rosa-choque, com Keith Richards fumando e bits atravessando servidores para entregar pornografia a meninos de 12 anos. Continuamos tão podres e estranhos quanto homens da caverna, mas somos belos e andamos pelo mundo com arrogância e é o direito que a tecnologia me da a arrogância o motivo pelo qual eu escrevo esse post confuso e sem tanto sentido para elogia-la.

Um comentário:

Anônimo disse...

Finalmente entendi o que é tecnofilia. Interessante. Já elogiei seus modos de expressão, e seu poder de síntese, então isso é questão conclusa. Mas quanto à tecnologia, é uma perspectiva na qual eu nunca a tinha colocado. Muito interessante! Bela postagem, como sempre. "Você é ótimo" (E eu aqui, sublinhando isso, like I always do).