domingo, setembro 23, 2007

Stupid People

Eu tava lendo um textinho interessante sobre física http://www.gluon.com.br/blog/2006/03/30/supercordas-nathan/ que não me ensinou quase nada, mas uma vez que eu não sei nem física clássica, muito menos mecânica quântica, quanto mais teorias gravitacionais de Einstein, então seria realmente estúpido de minha parte tentar entender física quântica avançada como esse lance das supercordas.
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O pouquinho que eu entendi, entretanto, é algo assim.
Existe uma inconsistência entre um "modelo" de física e outro "modelo", o que geralmente não causa problemas porque um dos modelos é usado pra uma coisa e outro pra outra, mas teoricamente isso é um problemão porque se você tenta aplicar os dois ao mesmo tempo, existe uma inconsistência.
Então durante algum tempo se criaram algumas teorias pra explicar tudo e a que mais fez sucesso foi essa da supercordas, que todo pai-de-santo tem usado pra provar que sua auto-ajuda-em-dvd é verdade.
E a explicação teórica da entrevista eu não entendi nada, o que eu entendi é que a teoria é boa porque é consistente, mas que ainda não há comprovação nenhuma dela e que tal comprovação depende da existência de aceleradores de particulas mais potentes do que os atuais, que estão sendo construidos, mas ainda não estão prontos (então é só uma questão de pouco tempo até a teoria ser provada).
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Ok, agora porque o titulo do texto "stupid people"
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Bom, ele poderia se referir a muitas coisas, eu fui fazer pesquisinha-de-5-minutos no google porque a teoria das supercordas é uma que tem sido utilizada por todo grupelho new-age viuva do cristianismo ultimamente; na real, toda teoria cientifica que propõe "explicar o universo" dá origem a um ou dois grupos religiosos formados por um ou outro "mal aluno de universidade importante" e 2 trilhões de pessoas que leram "physics for dummies".

Até onde se sabe, essa teoria das supercordas pode ser simplesmente má ciência, mas enquanto ela não é desprovada, parece ser uma teoria ótima e merece que pessoas a estudem a fundo.

O que é bem diferente de falar que o mesmo crédito que se dá a ela deve se dado a quem faz dvd de auto-ajuda dizendo "o universo é formado por cordas que vibram de maneira diferente, então voê deve sorrir pra vibrar suas cordas de maneira divertida". Disfarçar misticismo de ciência usando como dogma pesquisas que os próprios pesquisadores sérios admitem não ser comprovada é estupidez a um nível tão absurdo que nem mereceria um post.
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Ok, então o que merece esse post.
Bom, ESSE comentário feito no final da entrevista por visitante-anônimo-da-internet.
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"maginem esta teoria sendo explicada para os alunos de escola publica de periferia das capitais ? é mais facil acreditar em DEUS ."

EXATO ESTÚPIDO!
É exatamente por isso que o ensino disso não é sequer proposto!
E não tem nada a ver com "escola publica de periferia das capitais?" tem a ver que pessoas de 16 anos já tem dificuldade o suficiente em aprender mecânica newtoniana sem aparecer alguém dizendo que o universo tem 12 dimensões.
Esse É um assunto avançado e complexo! Ele não foi feito nem pra mim, nem pra você, muito menos pra qualquer estudante que seja, de "periferia" ou de cursinho preparatório pra Harvard, ter um conhecimento muito grande.
Ele é um conhecimento especializado por excelência e essa mania de achar que todo conhecimento deva ser universal o suficiente para que "alunos de escola publica de periferia das capitais" tenham acesso só prejudica o estudo.
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O pesquisador não pode perder tempo pensando se uma teoria vai ser acessível pra adolescentes, ele tem que perder tempo pensando se a teoria é certa ou errada, mesmo que ela seja complexa a ponto de ser entendida apenas por ele próprio.

O universo é estranho, o universo é complexo e isso não pode ser escondido dos alunos, é importante que o professor diga "essa teoria explica X, Y e Z; mas ela não pode ser usada em X', Y' e Z'" e logo depois ele deve adicionar "mas esse é um assunto muito complexo e pra entender vocês precisam, primeiro, entender ISSO e caso vocês estejam interessados, conversem comigo depois da aula que eu indico algum meio de estudar essas coisas", de qualquer forma, é preciso fazer uma distinção do que é FUNDAMENTAL pra formação de todo ser humano na sociedade atual (hence "ensino fundamental") e o que é assunto pra especialista mesmo.

E pelo menos por enquanto, ainda mais se tratando de uma teoria que aparentemente está longe de ser comprovada, isso não é assunto nem pros melhores alunos dos melhores colégios das melhores cidades do mundo; assunto pra esses alunos são as formas mais aprofundadas das teorias mais fundamentais.

O pior é que ninguém pensa nos efeitos que esse desejo de "democratização de conhecimento" tem nos alunos.

Eu acho que o que um adolescente tem que aprender HOJE já é um conhecimento brutal! Exigimos de um aluno (E NOS SUPREENDEMOS QUANDO ELE NÃO SE DISPÕE A APRENDER!!!) conhecimento em física, química, biologia, matemática, gramática, literatura, história e, dependendo do lugar, filosofia, psicologia e sociologia.

De qualquer forma, nos habituamos às escolas terem esse monte de matéria, mas como um não-pedagogo, traumatizado pelo colégio, eu acredito que o que se exige de um aluno é brutal ao ponto de ser improdutivo.

Não, eu não sei uma alternativa, o que eu sei é que mesmo quem passa em um vestibular da USP não absorveu isso tudo de conhecimento, no muito ele memorizou muito bem essas coisas durante o ano de cursinho e daqui há 5 anos ele terá esquecido completamente metade dessas coisas.
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Isso acontece exatamente por causa desse desejo de universalização, é algo do tipo, "um adolescente não tem como decidir o que irá querer estudar, então vamos brutalmente bombardea-lo com TODAS essas coisas e rezar pra que no meio do violento e doente furacão de conhecimentos aparentemente aleatórios ele consiga visualizar algo que o interesse" (e aí as pessoas não sabem porque os outros escolhem faculdade baseado em "salário futuro" ao invés de "área de interesse", quando um "aluno de perfieria de capital" tem que absorver um conhecimento que faria inveja a um aristocrata alemão do século XVIII, não é surpreendente que o sujeito acabe por não se interessar em nenhuma área) misturado a algo do tipo "temos que ensinar todo mundo ao mesmo tempo, então vamos passar tudo a todos"

É uma educação baseada em objetivos completamente errados, pra começar, é uma educação voltada pra um mercado que deseja profissionais especializados (e, de novo, sem saber qual a "área de interesse" do aluno, eles tentam especializar todo mundo em tudo); em segundo lugar é uma educação voltada para um governo que quer mostrar gráficos e indicadores.

Me incomoda pensar que qualquer etapa da minha vida foi uma perda de tempo, mas me incomoda ainda mais quando não foi culpa minha e eu não consigo pensar em época mais improdutiva e deprimente da minha vida do que o colégio, acho que o problema está em exigir que alguém de 17 anos escolha uma faculdade, esperar graduados com 21 anos fazia sentido no século XIX onde a vida era bem mais linear do que a nossa hoje, mas com a vida de hoje...

O problema é o seguinte, se eu falo que o sujeito não tem tempo de estudar química e filosofia porque ele tem que ir no shopping, ele tem que ouvir música, ele tem que se divertir, vão dizer que eu estou propondo que adolescentes sejam burros enquanto que pessoas da mesma idade em tempos passados estudavam e se davam bem, mas isso é um mero reflexo de idosos nostálgicos por uma época com valores mais cientificos do que o nosso.

A época atual é uma época, em muitos sentidos, muito mais voltada a ética do que a ciência, mas isso tudo acontece por debaixo dos radares dos ministérios de educação e dos pedagogos; nós temos escolas cientificistas que ensinam essa dúzia de ciência e sempre se sente mal quando alguém é muito bom em física newtoniana, mas muito ruim em literatura portuguesa do século XV; mas os jovens não são cientificistas como eram os jovens das épocas em que essas pedagogias começaram a surgir, parece que ignoram que em algum lugar dos anos 60 o conceito de "teenager" ganhou força e o "teenager" é uma entidade a parte, ele não é uma ponte entre a criança e o adulto, essa ponte nunca existiu, é só ver o Bar Mitzvah dos judeus, baile de debutante para meninas e milhões de outros rituais por aí afora, com 15 anos - 1 dia você é criança, o relógio deu meia-noite você é adulto. Não tem ponte.

Ver o período da adolescência como um período preparatório pra vida adulta não é tornar o adolescente um adulto melhor, é simplesmente estragar a adolescência e a prova da força de uma etapa da vida é que entre educação e uma vida besta fumando maconha e fazendo sexo sem camisinha, o adolescente escolhe a vida besta; é lógico que ele escolhe, é a vida besta que define sua etapa de vida, a educação é só um anexo fora de lugar, a escola é TÃO fora desse momento da vida que quando uma série de TV ou filme retrata a vida de um adolescente, o foco do história sempre são os 15 minutos de intervalo entre uma aula e outra. O que acontece dentro da aula só é mostrado quando é algo sem relação a matéria; histórias sobre universidade frequentemente mostram cenas de coisas ditas na sala de aula, os professores geralmente tem importância como personagens, não-raro é o tema de uma aula que se torna a base para a história; já em história sobre o colegial, o professor é só a figura que diz "não conversem na aula!"

Então se eu for propôr uma solução rápida, pouco estudada e tão ridícula quanto os pais-de-santo-em-dvd falando de física quântica, eu diria para, após o aluno aprender a somar, subtrair, multiplicar, dividir e escrever no ginásio, que o deixem uns 3 ou 5 anos fazendo absolutamente nada, simplesmente sendo um "teenager", aceitando empreguinhos bestas para pagar baladas e descobrindo, por conta própria, o que o interessa, para então, com 18 ou 21 anos iniciar um ensino fundamental em que os primeiros anos fossem dedicados a esse conhecimento básico sobre todas as ciências e o último ano se dedicaria a ser uma ponte para o conhecimento especializado que, espera-se, ele tenha experiência de vida o suficiente para decidir, pelo menos por cima, o que deseja estudar.

Só que pra isso ganhar algum sentido, tem que acabar, em primeiro lugar, com essa cultura de que o único propósito da educação é a preparação para um emprego futuro (ao invés de preparação para aquisição de um conhecimento superior), pois é a pressa por ter um salário alto aos 21 anos que fazem pessoas pular de cabeça em qualquer faculdade de engenharia ou admnistração de boteco que apareça pela frente e; em segundo lugar, aceitar que o iluminismo está tão apagado quanto o velho Deus e que essa noção estúpida de que todos terão um conhecimento universal é só um método de tortura moderna.

Esses meus pontos não se baseiam em algo do tipo "química é inutil porque faço filosofia", pelo contrário, eu gostaria de ter um conhecimento muito maior de física do que tenho hoje e não tenho esse conhecimento porque, obviamente, na época do colégio era muito mais importante pra mim lidar com minha depressão e solidão do que prestar atenção nas aleatoriedades confusas que aqueles velhos vomitavam na minha cabeça.

Se eu tivesse tido alguns anos fazendo nada senão lidando com minhas crises, "aproveitando a vida" ou "aprendendo a viver" e SÓ ENTÃO tivesse ido para a escola, acredito que eu teria dado mais atenção a esse conhecimento, porque eu não estaria disputando ele com outras coisas. Gostaria mesmo de ter aproveitado mais o colegial, ao mesmo tempo, acho insano e risível que qualquer um peça a um adolescente aproveitar mais o colegial, como eu já disse, escola é só um anexo gordo e fora de lugar. Não tem nada a ver com conhecimento, não tem nada a ver com educação, não tem nada a ver com preparação para o futuro, é só uma coisa aleatória posta na vida de alguém que não tem escolha senão acordar cedo todo dia e encarar aquelas coisas absurdas que aquelas pessoas que ele não conhece, não gosta e nem respeita insiste em vomitar na lousa.

E veja bem, no começo do ano eu vou lá todo feliz na secretária de ensino tentar me tornar um nobre professor público e não sei como eu vou lidar com isso, só quero dizer que o fato de que eu farei esse trabalho não muda o fato de que eu acho que não serei bem recebido pelos alunos como alguém relevante para suas vidas.

Normalmente é dito "mas sempre tem um ou dois que prestam atenção" e esse é o meu ponto, se de uma sala de 50 alunos tudo que conseguimos são "um ou dois" a culpa não é da imaturidade de 48 alunos, e esses dois restantes são com certeza "melhores" de certa maneira, mas mesmo eles não tem obrigação de prestar atenção em mim, se alguma coisa, eles são um golpe de sorte.

Entre culpar 99% dos alunos que estão seguindo o rumo natural (muito cuidado com essa palavra) de suas vidas e dando atenção ao que os valores atuais os inclinam a dar atenção e culpar um professor que não tem culpa de estar lidando com gente não quer dar atenção a ele (algo como culpar um jesuita pelos indigenas não-catequisados), eu vou culpar toda uma cultura que se baseia na contradição entre o tipo de "proposta de vida" que naturalmente se criou para as pessoas e a "proposta de vida" que orgãos do governo, formadores de opinião e intelectuais em um geral querem impôr.

A última coisa que resta é "como apresentar possibilidades de vida para uma pessoa?", longe de fazer isso, a escola insiste constantemente a reduzir todas as possibilidades de vida a "alguma faculdade" ou ainda a "conseguir esse diploma, sair daqui e se virar", como apresentar a um adolescente a possibilidade de estudar biologia? Eu talvez tenha uma fé grande demais de que nesses 5 anos "vivendo a vida", a pessoa, *de alguma forma* tenha contato com várias possibilidades e que após essa etapa, ela esteja bem informada o suficiente, mas isso não é nenhuma garantia e eu não sei se alguém estaria disposto a arriscar que seu filho passe 5 anos assistindo TV.

E também tem a questão de que as pessoas quererem LOGO um diploma, mas isso são questões de estilo de vida.
É um problema mais profundo do que um pedagogo pode abordar, atualmente tudo que eles fazem é pegar a cultura atual e martela-la até conseguir resultados que apareçam mais satisfatórios nos gráficos da ONU.
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Enfim.

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